Pesquisa conta história de índios que já guardavam o sábado antes da chegada de missionários adventistas, na fronteira Brasil-Venezuela

Manaliel Pais Pereira é o autor da pesquisa “RELIGIÃO E AMBIENTE DOS ÍNDIOS TAUREPANG DE SOROCAIMA: Representações Sociais dos Adventistas do Sétimo dia – Pacaraima – Roraima”. Dissertação apresentada como requisito parcial para obtenção do título de Mestre em Ciências da Religião pela Universidade Católica de Pernambuco, na área de concentração Religião, Cultura e Sociedade, sob orientação do prof. Dr. Drance Elias da Silva. Em RECIFE, no ano de 2015. O texto abaixo pode ser encontrado às págs. 47 a 72 do trabalho:

[EM PREPARAÇÃO]

A Guiana Inglesa foi o primeiro espaço geográfico da América do Sul a receber a presença da Igreja Adventista do Sétimo Dia10, ocorrido em 1883, através de um aluno adventista que havia estudado no Colégio Adventista de Battle Creek nos Estados Unidos,

  1. Alusão à Igreja Adventista do Sétimo Dia que se refere a uma denominação cristã protestante a que os Taurepang são convertidos. Segundo Andrello, em 1927, com a chegada da Comissão de Inspeção de fronteira feita pelo Marechal Rondon, encontram o missionário britânico adventista A. W. Cott. Existindo também outro em 1911. Esses missionários foram bem acolhidos pelos Taurepang, visto que havia inteligibilidade à doutrina adventista no colégio Taurepang que, posteriormente, constituiria um movimento profético (ANDRELLO, 1993, p. 106).

que veio para esse território divulgar os dogmas adventistas para os indígenas. Todos esses lugares que a Igreja Adventista do Sétimo Dia, atua como: Guiana Inglesa, Venezuela, Caribe, México, América Central e Colômbia são administrados pela Divisão Inter Americana.

Observou-se que o papel da Igreja Adventista do Sétimo Dia no mundo é de difundir os ensinamentos de Cristo, não se envolvendo com a política partidária, pois a sua firme convicção é levar o Cristo morto, mas ressuscitado e prestes a retornar a este mundo para resgatar a sua igreja, ou seja, qualquer pessoa que aceitar Jesus. Este convite é para aqueles que querem ir para o céu, a morada do Deus Altíssimo, como afirmou Farias:

Embora as principais informações sobre a Guiana Inglesa tenham chegado à Review and Herald em fevereiro de 1886, a presença adventista neste território foi anterior, já que o autor do artigo, um colportor11 chamado T.E. Amsterdan, diz aos leitores que um dos conversos da Guiana já era aluno no Colégio de Battle Creek. Acredita-se que já em 1883 havia publicações adventistas no país, fazendo deste território o primeiro a ter presença adventista na América do Sul (VIEIRA, 1993, p.82). O pastor adventista O. E. Davis (Ovid Elbert Davis) em 1906 foi escolhido pela Organização Adventista para coordenar os trabalhos da Missão Adventista na Guiana: “nos três anos seguintes se abriram três escolas e se iniciou a atividade assistencial e médica” (FARIAS, 2006, p. 155).

Um dos elos mais fortes que uniram os Taurepang aos adventistas foi o dom profético. A Igreja adventista acredita ser a igreja do Deus criador dos céus e da terra, segundo suas crenças crê ser a sequência do povo de Israel, não como um estado político, mas como o Israel espiritual e assim como Deus falava antigamente com o povo de Israel através de um profeta, também ela acredita ser o “Israel Espiritual” e ter o privilégio em pleno século XXI, de se beneficiar de instruções divinas recebidas através de uma profetiza chamada Ellen Golden Harmon, com profecias revelando passados e futuros inéditos, favorecendo diretamente a Organização Adventista, cuja mesma é detentora desses originais. Assim se expressou a profetiza adventista Ellen White quando teve sua primeira

  1. Um missionário adventista que trabalha tempo integral e exclusivo para difundir a mensagem de Cristo através da venda de literatura adventista, sem remuneração da organização adventista. Mantém-se financeiramente com os recursos oriundos das vendas dos livros.

visão:

Na igreja de Fleming situada na Rua Casco a mensagem de Miller alcançou a família de Roberto Harmon; e assim a jovenzinha Ellen, uma futura fundadora da Igreja Adventista do Sétimo dia dedicou a vida à esperança do advento (MAXWEL, 1982, p.18). […] Enquanto orava, o peso e agonia de alma que havia tanto tempo eu suportavam, deixaram-me, e a bênção do Senhor desceu sobre mim, semelhante ao orvalho brando. Louvei a Deus de todo o meu coração. Tudo parecia excluído de mim, exceto Jesus e sua glória, e perdi consciência do que se passava em redor. […] Quando voltei para casa no dia seguinte, grande mudança ocorrera em meu espírito. Dificilmente me parecia ser eu a mesma que deixara a casa de meu pai na noite anterior (WHITE, 1988, p. 30).

Os Taurepang haviam recebido manifestações proféticas sobre a guarda do sábado, bem antes dos adventistas terem chegados a Guiana Inglesa, ao que parece ser um vínculo bastante óbvio entre os indígenas e os adventistas. Os Taurepang guardavam o sábado como um sinal entre Deus e seu povo segundo afirma receberam instruções de Deus através de um profeta da própria etnia Taurepang em épocas remotas e assim não receberam informações do chamado mundo “civilizado”:

De qualquer forma, segundo a interpretação apresentada nas publicações adventistas, índios já sabiam da guarda do sábado antes do contato com os missionários da igreja, o que só seria possível pela revelação divina” (FARIAS, 2006, p. 161).

O Pastor adventista Davis viajou durante quase um mês de Georgetown na Guiana Inglesa até a aldeia de Kawarianá na base do Monte Roraima para evangelizar os Taurepang pela primeira vez naquela localidade. O missionário adventista logo estruturou uma missão nessa aldeia com o apoio do profeta Jeremiah, líder do movimento religioso chamado Aleluia dessa comunidade. As pretensões do pastor adventista eram animadoras e duradouras, pois pretendia voltar logo à Guiana e enviar outro pastor para coordenar os trabalhos evangelísticos até voltar pela segunda vez a essa aldeia; mas em poucos dias seus planos foram frustrados, pois se sentiu debilitado de sua saúde antes mesmo de chegar a Kawarianá acometido de uma intensa febre, possivelmente de uma doença conhecida atualmente como malária que na época não tinha cura, causando-lhe a morte de uma maneira inesperada e repentina.

No dia 25 de junho, Davis estabeleceu uma missão, já que era seu interesse retornar e manter missionários entre índios (…). Em 30 de julho, a despeito de seus ataques de febre, Davis alcançou a aldeia de Kawarianá, na região do Monte Roraima. O chefe da aldeia chamado Jeremiah, não estava o que desanimou Davis (…). No dia 01 de julho, Davis reuniu algumas mulheres para ensinar-lhes as letras iniciais de duas músicas: “I studied the Sabbath School Lesson and taught several Indian women the first line of ‘no not one’ and sweet by & by” 12 (Diário de O.E. Davis) (FARIAS 2006, p.165 e 166).

O etnólogo e antropólogo Theodor Koch-Grünberg, em outubro de 1911 em uma expedição ao Monte Roraima visita o túmulo do Pastor adventista Davis três meses depois do seu falecimento. Theodor um alemão dedicado em desvendar a situação antropológica e etnográfica dos povos indígenas nas fronteiras do Brasil, Guiana Inglesa e Venezuela registrou uma imagem da sepultura do Pastor Davis e também fez menção ao profeta Jeremiah. Paralelamente à missão adventista na Guiana Inglesa, Brasil e Venezuela com os Taurepang, continuava a se desenvolver o movimento profético chamado de Aleluia surgido há muito tampo atrás. O profetismo Taurepang, ou seja, índios Taurepang profetizando e fazendo previsões do futuro divulgadas por um xamã. Percebe-se que esse fenômeno chamado profetismo entre os indígenas é muito antigo, bem antes do contato com os colonizadores europeus era utilizado esse tipo de crença, todavia tornou-se mais evidente a partir do século XIX. Ficou conhecido como religião aleluia, fato ocorrido “na metade do século XIX, surge à religião chamada Aleluia, a partir de elementos Karib (Kapon e Pemom) e cristãos, que se difundiu entre diversos grupos indígenas. A palavra Aleluia esteve vinculada

  • intensa religiosidade registrada entre esses grupos desde o século XIX” (FARIAS, 2006 p.157).

A religião Aleluiah nasceu entre os Taurepang e se expandiu por várias etnias nas Fronteiras do Brasil, Venezuela e Guiana Inglesa. Até então nesse período os povos indígenas nessa região eram praticantes de suas experiências religiosas na base do Monte

  1. Eu estudei a lição da escolar sabatina e ensinei a várias mulheres indígenas as primeiras estrofes da música “não, nenhum” e “amável salvador”.

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Roraima onde estavam instaladas várias aldeias, dentre elas as duas mais destacadas eram as aldeias venezuelanas de: Teunok praticante da religião Aleluia ou Halleliuah, mas simpatizante da Religião Católica Romana cujos trabalhos estavam sendo realizados pelo Padre inglês Cary Elwes que foi muito bem recebido nessa aldeia e recusado pelos índios da aldeia Kawarianaremong. Por isso o missionário católico romano fez um trabalho intensivo de catequização de vinte dias entre os Taurepang do Monte Roraima. Mas a aldeia Kawarianaremong ou Kauarianá, tinha uma profunda admiração pela Igreja Adventista do Sétimo Dia e rejeitava o batismo da Igreja Católica; assim, também como era praticante assídua da religião Aleluia. Descobriu-se que eram aldeias rivais entre si por convicções religiosas. A aldeia que gostava da Igreja Adventista tinha como líder o profeta Jeremiah, que logo se familiarizou com os ritos sagrados dos adventistas ensinados pelo Pastor Ovid Elbert Davis, também conhecido entre os índios como Davis Pacing que foi o primeiro adventista atingir o Monte Roraima. Andrello faz a seguinte afirmação sobre o assunto:

(…) Ao que parece, à adoção do catolicismo correspondia, ao mesmo tempo, o abandono do Aleluia, enquanto que no caso do adventismo não haveria contradição. De modo importante, em Kawarianaremong, o chefe Jeremiah, era assíduo praticante da dança do aleluia (…) Raimundo afirma que o Aleluia praticado em Kavarianeremong era uma “criação” de seu avô. Os cantos ensinados pelo pastor teriam sido adaptados às antigas danças, e daí teria nascido o Aleluia (…) (ANDRELLO, 1993, p.125).

Os trabalhos de evangelização da Igreja Adventista com os Taurepang, de início não houve nenhuma restrição, tudo parecia se encaixar bem com a religião Aleluia, mas conforme o tempo foi passando muitos seguidores do movimento religioso Aleluia perceberam que para ter uma comunhão íntimo com Deus criador dos céus e da terra necessitavam abandonar certas práticas religiosas como o xamanismo, o curandeirismo e tantas ouras práticas religiosas contrárias aos princípios bíblicos; abster-se de conviver maritalmente com várias mulheres ao mesmo tempo e abandonar seus deuses primitivos. A Igreja Adventista por sua vez precisava manter os seus dogmas em evidência que são opostos ao do xamanismo. Ao que parece, após esse contato dos missionários católicos romanos e missionários adventistas com os Taurepang do Monte Roraima, os religiosos se ausentaram por um bom período de tempo; os adventistas só enviaram outro missionário

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após 16 anos; nesse período de os Taurepang fizeram várias adaptações na sua religião baseada no xamanismo e nas crenças adventistas e católicas e formaram a religião Aleluia ou Halleluiah. Assim definido por FARIAS:

(…) Aleluia não é apenas uma reunião de ideias e costumes derivados de duas culturas distintas. Na verdade, um movimento religioso original surgiu em que índios propagavam “sonhos” e “visões”, com conteúdos cristãos reinterpretados segundo o xamanismo indígena. Os “profetas” do Aleluia alegavam ter contato direto com Deus e outros espíritos celestiais, que eles revelavam mensagens sobre a vida após a morte, por exemplo (FARIAS, 2006, p. 158).

A incessante repetição da palavra “aleluia”, nas comemorações e festas dos Taurepang principalmente nos encontros religiosos derivou o movimento ou a religião chamado Aleluia13 ou ainda Halleluiah, que possivelmente teria surgido no fim do século XIX. Esse fenômeno se difundiu entre os índios da Guiana Inglesa, Brasil e Venezuela. Esse movimento não dispunha muitas regras e dogmas a serem reverenciados, pois o destaque marcante era as sucessivas batidas dos pés no chão, porém em uma perfeita sincronia concomitantemente com a pronúncia da palavra “aleluia”; danças e o uso de uma bebida alcoólica chamada caxiri14, a noite inteira. “(…) Uma datação precisa de sua emergência é impossível, sendo, no entanto, provável que tenha se consolidado entre as décadas de 70 e 80 do século XIX (…)” (ANDDRELLO, 1993, p.114).

Nas bases do Monte Roraima sem combinação prévia estavam instalados os missionários adventistas e missionários católicos; nesse ambiente o Pastor adventista Davis começou seu trabalho evangelístico com os Taurepang na aldeia de Kawarianá, pois esta comunidade se mostrou receptiva aos trabalhos do Pastor, apesar do líder dessa aldeia não está presente no momento em que Davis chegou ao local. Nos poucos dias de ausência do profeta Jeremiah, os trabalhos do Pastor avançou muito, havia pregações falando a respeito

  1. Aleluia, Halleluiah ou Areruia: movimento religioso nascido no final do século XIX entre os índios Arekuna, Akawaio, Taurepang, Macuxi e Patamona e que se espalharam vindo a chegar entre os Ingaricós no Rio Branco, Norte de Roraima, Brasil. Areruia é a pronúncia com que esses indígenas se expressam para falar sobre essa religião.

  1. Caxiri: Uma bebida indígena feita com um líquido retirado de uma raiz chamada mandioca, que é a mesma que se faz farinha na Amazônia. A mandioca é ralada e a parte líquida chama-se tucupi, depois de vários dias exposta ao sol aferventando- se vira essa bebida alcoólica muito forte.

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dos evangelhos de Jesus Cristo, momento de louvor ou “serviços de cânticos” como era chamado naquele contexto; era o momento que os Taurepang aprendiam as músicas cristãs em inglês. Quando retornou de uma viagem o profeta Jeremiah apoiou fortemente a missão adventista em sua aldeia. Com a ajuda do profeta Jeremiah a missão adventista começou a se expandir e em poucos dias se viam reunido aproximadamente 140 indígenas para ouvir o pastor Davis falar de Jesus:

(…) A sede da missão católica possuía alguns simples edifícios, com paredes de barro e cobertos de palha. (…). A missão existia na região há pouco tempo, desde 1910, quando, com muita dificuldade e até mesmo ameaças do lado brasileiro, os missionários puderam se estabelecer. (…). No dia 9 de julho, diz que havia cerca de 140 pessoas reunidas, algumas delas vinda de longe. (…). O chefe indígena Jeremiah chegou à aldeia apenas no dia 15 de julho. Não há detalhe nesse primeiro encontro. No dia 16 Davis escreveu: Jeremiah gave me a piece of dried venison. Jeremiah present 2 meetings, all declared their faith in the teachings and promised to keep the Sabbath, and asked me to establish a mission for them, as no minister had ever called on them before me. I agreed to do so15 (FARIAS 2006, p.167 e 168).

A pesar da ausência de missionários adventistas na Venezuela por um bom período de tempo as doutrinas adventistas continuaram sendo difundidas pelos Taurepang mesmo sem uma liderança adventista oficial. Continuou surgindo outros profetas indígenas como o caso de Okawa que profetizou que o sábado deveria ser guardado e reverenciado, pois esse dia era a marca ou sinal entre Deus o Criador do universo e seu povo e os “Davis Indians” como eram conhecidos os seguidores do pastor Davis. Os Taurepang sentiam-se bem ao reverenciar o sábado e cultuar o seu Criador nesse dia. Após esses acontecimentos chegou o sucessor de Davis à Venezuela, o Pastor Cott e sua esposa Betty também missionária. Na década de 30 do século XIX a Igreja Adventista cresceu muito na Venezuela com seus relevantes trabalhos desenvolvidos não só na parte missionária, mas também na área social fez com que proliferasse rápido o adventismo16; com esse crescimento rápido e destacado a

  1. Jeremiah me deu um pedaço de carne de veado seco. Jeremiah esteve presente em duas reuniões. Todos declararam sua fé nos ensinamentos e prometeram guardar o sábado, e pediram-me para estabelecer uma missão para eles, como nenhum ministro tinha sido convidado antes de mim, eu concordei em fazê-lo.

  2. Adventismo: movimento religioso surgido em meado do século XVIII, tendo como principal líder O pastor Guilerme Miller, que anunciou a volta de Cristo a essa terra para outubro de 1844, algo que não ocorreu.

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Igreja Católica Romana da ala franciscana começou a perder parte de seus fiéis e tomou providências duras em comum acordo com o governo da Venezuela para expulsar os adventistas da Gran Sabana17. O governo venezuelano proibiu que missões religiosas fossem dirigidas por estrangeiros, com exceção da Igreja Católica da ordem franciscana que ficou com a incumbência de catequizar os índios da região da Gran Sabana.

No natal de 1911, o missionário celebrou uma missa na aldeia que, segundo conta, reuniu vários grupos Taurepang vindos de outros lugares, a fim de conhecê-lo. Em seguida, o missionário partiria ao encontro dos beneditinos na missão do rio Surumu, levando uma impressão otimista quanto à catequese dos índios do Monte Roraima (ANDRELLO, 1993, p. 123).

Em 1931 o governo desse país decretou a expulsão dos missionários adventistas, no caso Cott e sua esposa Betty e também índios adventistas; a partir desse momento ficou proibido aos adventistas Taurepang habitarem na Venezuela e falarem de Deus e de seus credos em praça pública. No dia em que foi declarada a expulsão de Cott e sua esposa ambos estavam em Trinidad. Chegando a aldeia Akurima (na Venezuela) as forças militares venezuelanas foi recebido pelo líder adventista indígena André, que foi espancado pelos militares. Vale salientar que nessa aldeia havia em torno de 900 indígenas adventistas; com essa perseguição desintegra-se a maior concentração adventista da Gran Sabana, a aldeia Akurima; permanecendo apenas os adventistas no anonimato, ou seja, cultuando o seu Deus em suas casas sem poder falar de suas convicções religiosas em público, caso desobedecessem às ordens, seriam presos e torturados.

Os Taurepneg contam ainda que os militares venezuelanos, “a mando dos padres”, teriam sido demasiado violentos com seu líder André. Contam que teriam preso André em um galinheiro, mantendo-o preso sem comida por alguns dias (ANDRELLO, 1993, p. 133).

Depois de algum tempo organiza-se a Igreja Adventista do Sétimo Dia com os mesmos ideais da volta de Cristo, mas sem marcar data.

  1. A Gran Sabana está localizada na parte Leste e Sul da Venezuela e inclui uma grande área de planalto é denominada por Savanas abertas que enfatizam os Tepuys. No Brasil, no Estado de Roraima próximo à Fronteira com a Venezuela este tipo de floresta á conhecido por Lavrado brasileiro.

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Em 1932 do século XIX quando o missionário americano Cott deixou a Venezuela designou como líder o Taurepang André para continuar os trabalhos religiosos naquele local. O tempo foi passando e se formaram novos líderes Taurepang adventistas na Venezuela, um deles foi Francisco filho de André. Posteriormente se deslocou para a aldeia de Sukabi onde estava funcionando uma missão adventista na Guiana Inglesa; ali esse líder indígena ajudou na liderança da Igreja Adventista aproximadamente por 14 anos e depois resolveu voltar à Venezuela. Nesse período estava bem instalada a Missão Católica da Ordem dos Franciscanos dentro da Vila de Santa Elena, hoje Cidade de Santa Helena de Uairén18. Francisco com uma vasta liderança reuniu muitos adventistas Taurepang dispersos e lançou o desafio para a implantação de uma escola estilo internato adventista ao Sul de Santa Helena de Uairén; surgiu então a Aldeia de Maurak19, posteriormente se inaugura a escola-internato de Maurak, onde funciona na atualidade exemplo de tantos outros internatos adventistas no mundo, estudando moças e rapazes sem distinção de raça, cor ou credo:

(…). Francisco, filho do chefe André, permaneceu na missão em Sukabi, por cerca de quatorze anos. No entanto, decidiu retornar para a região de Akurima, na Venezuela, onde havia a missão católica de Santa Elena funcionando. Reunindo vários índios que não haviam aceitado o catolicismo, fundou a aldeia de Maurak, ao sul da missão católica. A igreja formada em Maurak se tornou uma espécie de centro do adventismo para os índios (ANDRELLO, 1993, p.148 e 149).

As aldeias Teuonok e Kawarianaremong sempre entravam em choque entre si em questões religiosas, uma acusava a outra de ser Kanaimé, quando essas aldeias têm o conhecimento do movimento adventista, Teuonok faz oposição aos adventistas e Kawarianá aceitou o adventismo. O líder desta última era o profeta Jeremiah criador do movimento religioso Aleluia ou Halleluiah. Jeremiah esteve na liderança desse povo até por volta de 1916 quando morreu. Em seguida sua aldeia se desfez. Os Taurepang tentam reorganizar a

  1. Uairén: A cidade venezuelana que faz fronteira com o Brasil é chamada de Santa Helena de Uairén. Uairén é uma palavra indígena.

  2. Os Taurepang adventistas quando retornaram à Venezuela, após o fim da expulsão, fundaram a Aldeia Maurak próximo à Fronteira com o Brasil. Na década de 70, a Igreja Adventista venezuelana implantou uma grande escola nessa aldeia, para onde afluíam inúmeros estudantes de toda a Venezuela, ali permanecendo em regime de internato.

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antiga Kawarianá, não conseguiram com o mesmo nome e mesmos ideais, mas surgiu no cenário uma nova aldeia: Maurak, onde despontou um sucessor de Jeremih, o seu neto o Tuxaua Raimundo liderando Maurak na década de 1990 do século XIX:

“As pessoas que foram pouco a pouco.” Para Akurima, Yaruany para Manacri… Aí sim, não é tudo o que é se espalharam, porque me pai, tia, viviam onde o avô (Jeremih) morreu. Neste tempo era Capitão Aichi (Isaac) em Arabopo. É alterado para Arabopo, lá estão fazendo as pessoas. Aí desta vez fica Papaca. Aí entenderam, após Seremaza (Jeremias). Compreender mais e aceitar a religião. Depois de chegarem a Akurima e fundou a escola. Muitas pessoas chegaram a Akurima “(ANDRELLO, 1993, p. 126)”.

O casal de missionários americanos Pastor Cott e Betty foram substituídos por três casais também missionários em 1930 do século XIX. Uma vez que a igreja adventista não estava mais atuando oficialmente na Venezuela, concentrou seus missionários nos territórios da Guiana Inglesa e Brasil. Foi um conjunto de situações que alavancaram o crescimento do adventismo nas fronteiras supracitadas. Várias doutrinas fundamentais adventistas foram ao encontro de algumas tradições religiosas dos Taurepang, como: a guarda do sábado, vida após a morte, a segunda vinda de Cristo à terra, uma morada na nova terra ou um novo paraíso e o batismo por imersão.

Além desse aspecto religioso os adventistas pioneiros contribuíram muito nas áreas de saúde pública, alimentação, higiene, assistência social, pequenas escolas e ética. Nesse período esses povos indígenas eram muito torturados, ora pelos holandeses e outras vezes pelos ingleses. Diante dessa situação apareceu nessa região o Marechal Cândido Rondon enviado pelo governo brasileiro para definir a fronteira brasileira com a Venezuela e Guiana Inglesa. De início como citado anteriormente o Tenente Facó20 enviado por Rondon para espionar a Fronteira do Brasil com a Guiana, pareceu ter uma desconfiança dos missionários adventistas de ser um espião inglês para eliminar os indígenas do lado brasileiro e anexar mais território aos ingleses. Mas o tempo foi passando e Rondon entendeu que os adventistas não se interviam na política partidária dos países. Esse trabalho religioso dos

  1. Facó era o nome de um dos Oficiais do Marechal Rondon, cuja missão era definir os limites territoriais do Brasil com a Guiana Inglesa e a Venezuela. A missão de Facó era sondar o “ambiente” na Guiana Inglesa e foi lá que ele se encontrou a pastor adventista Cott.

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adventistas em conjunto com as estratégias militares do Marechal Rondon estruturaram os povos indígenas do lado brasileiro, pois o Marechal prometeu quem ficasse no território brasileiro teria terra para o seu povo e suporte em material para trabalhar no campo como terçado, machado e material bélico para auxiliar o Exército na consolidação das fronteiras. Por outro lado, os indígenas recebiam o apoio assistencial e espiritual dos adventistas; não houve nenhum episódio desagradável entre os adventistas e o Marechal Rondon; cada qual fez sua a parte e por fim os indígenas foram beneficiados:

No final do ano, onze igrejas estavam em construção, e havia cerca de 1100 pessoas, vistas como potenciais membros batizados, frequentando treze Escolas Sabatinas. Pequenas escolas eram mantidas. Orientações sobre higiene, nos moldes da tradição adventista, eram sempre feitas, e registrou-se o tratamento de mais de 4000 doentes (GREEENLEAF, 1932, p 335 e 336).

Ocorreram várias situações e muitas mudanças aconteceram na Venezuela, mudou o Governo, criou-se nova constituição no país e ficou favorável para o retorno dos Taurepang adventistas que foram exilados. Quase no final da década de 1950 do século XX retornam à Venezuela aqueles Taurepang adventistas e missionários desta organização que haviam sido expulsos da Venezuela, conforme afirmou Andrello:

Quanto aos índios do lado venezuelano, apenas em 1957 os missionários adventistas puderam efetivamente entrar no território, pois uma nova constituição no país garantia liberdade de culto. Nessa ocasião, os novos missionários chegaram de Caracas à aldeia de Apoipo, cujos moradores eram adeptos do adventismo, seriam recebidos pelos Taurepang dali e pelos da aldeia de Maurak. Com os missionários, chegou uma maior ortodoxia da doutrina, que até então se mantinha sob a liderança dos próprios índios (ANDRELLO, 1993, p.200 e 201).

O governo brasileiro percebendo que estava prestes a perder uma faixa de terra do seu território quase do tamanho da França e Itália juntas (do Rio Negro até a Colômbia, do Rio Amazonas ao Amapá, em direção ao Norte até a Venezuela), “resolveu criar no ano de 1957 do século XX, a Comissão de Inspeção de Fronteiras, comandada pelo Marechal Cândido Rondon e chegou ao rio Branco” (ANDRELLO, 1993, p. 106). Esta comissão foi

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subdividida em cinco partes, uma delas foi resolver as questões dos limites do Brasil com a Guiana outra parte dirigida pelo próprio Rondon, saiu da Fazenda São Marcos subindo o rio Uraricoera e parte do rio Tacuru, depois seguiu em terra firme até chegar ao Monte Roraima, pois era uma de suas metas definirem nessa demarcação uma parte desse Monte para o Brasil. Os militares brasileiros levaram vários dias para chegar à Cordilheira de Pacaraima, depois outros tantos dias subindo a Cordilheira até o divisor de águas, situação que ficou definido entre o Brasil e Venezuela que ali seria a fronteira dos dois países.

Nesse contexto de definição de fronteiras era necessária a presença permanente das forças armadas e o Exército Brasileiro instalou o 3° Pelotão Especial de Fronteira nessa divisa territorial, onde Foi colocado inúmero marcos. Próximos ao marco número oito do lado brasileiro foram se instalando várias famílias para morar definitivamente, pois se sentiam seguros com a presença do Exército; surgiu então a Vila de Pacaraima conhecida também como B.V-8 (Brasil/Venezuela/marco 8) pois só se tornou viável a criação desta vila devido a criação da BR 174 ligando Manaus a Pacaraima e Pacaraima à Venezuela.

Intensificou-se cada vez mais o crescimento dessa vila. Vale salientar que por onde passa hoje a BR 174, há muito tempo era rota comercial (por dentro da floresta) dos Taurepang entre Brasil e Venezuela, pois anteriormente existia a vila de Santa Elena, na Venezuela. Mas, o crescimento rápido da Vila de Pacaraima ocorreu também pelo grande potencial de minério que a Cordilheira de Pacaraima possui principalmente ouro e diamante; então surgiu uma corrida desenfreada de garimpeiros para essa região.

Com o rápido crescimento, Pacaraima logo se emancipou tornando-se cidade em outubro de 1995, “como consequência da abertura da BR-174, na década de 1970, foi instalado o 3° Pelotão Especial de fronteira, a vila de Pacaraima, a atual sede do município, dentro da Terra Indígena” (SIMPLÍCIO, 2008, p.19). A cidade de Pacaraima21 em 2014 atingiu o índice de 11 mil habitantes, sendo a 8ª cidade em número de habitantes do estado de Roraima, está situada em uma altitude privilegiada de 920 metros, tornando-se o município mais elevado de toda a Região Norte.

  1. Fica distante 220 km de Boa Vista e o acesso é pela rodovia BR-174, totalmente asfaltada a 1200m de altitude, a temperatura média anual oscila entre 21°c e 25°c, bem diferente do clima tropical quente de quase todo o restante do estado, em que a temperatura pode chegar facilmente aos 35°c. (GARMATZ, 2013, p. 361).

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A cidade de Pacaraima, antigamente conhecida por BV8, está localizada na região Norte do estado de Roraima, na fronteira com a Venezuela. A sua história e localização está ligado à demarcação da Fronteira com o país vizinho, através da colocação de marcos divisória posto pelo Exército, entre eles, o marco BV8. Pacaraima é passagem obrigatória para quem vem de Boa Vista e deseja conhecer a Venezuela, o Monte Roraima e as praias do Caribe (GARMATZ, 2013, p. 361).

A Cordilheira de Pacaraima há muito tempo está sendo habitada pelos Caribenhos ou Carib, antigamente conhecidos como Pemong na Venezuela e Taurepang no Brasil. A pesar do grande esforço do Marechal Rondon na divisão das terras na Tríplice Fronteira, o Brasil apenas conseguiu 5% do Monte Roraima ficando a Venezuela com 85% e a Guiana Inglesa com 10%.

No norte da América do Sul, na porção leste do planalto da Guiana, mais precisamente na serra de “O Monte Roraima está localizado Pacaraima, na região do planalto coberto pala Gran Sabana. Divide-se em três países: Brasil a leste (5% de sua área), Guiana ao norte (10%) e a Venezuela ao sul e oeste (85%)”. (WWW.peakbagger22). Acessado em 7/12/14.

Os Taurepang desde que se localizaram na Cordilheira de Pacaraima são guardiões de uma das nascentes do rio Surumu, importante rio de Roraima que desagua no rio Uraricoera e este se encontram com o rio Tacutu para formarem o Rio Branco. E o rio Branco se encontra com o rio Negro, um dos maiores rios do Brasil e que ao se encontrar com o Rio Solimões, forma o rio Amazonas.

O Ambiente está intrinsicamente ligado aos povos indígenas, pois convivem juntos há muitos séculos. Os Taurepang brasileiros nessas últimas décadas têm desenvolvido uma grande preocupação com a preservação Ambiental. Entende-se que o ser humano cada vez mais vem influenciando no equilíbrio ecológico do chamado planeta azul. As mudanças climáticas cada vez mais se tornam não apropriadas para a sobrevivência humana, pois a Natureza sofre com os maus-tratos ocasionados pelo ser humano. As nascentes dos mananciais estão sendo adulteradas, as queimadas indiscriminadas estão contribuindo para

  1. Guiana Highlands (http: www.peakgagger. (Com) / range. Aspx? Rid=22 (em inglês). Peak. Bagger. (Acessado em 07/12/14).

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o aumento do efeito estufa e consequentemente contribuindo para a diminuição da vida no nosso planeta. A consciência ecológica é uma das poucas alternativas para tentar retroceder essa catástrofe eminente, mas esse gesto não depende apenas das pessoas físicas e sim muito mais das pessoas jurídicas, ou seja, das grandes indústrias poluidoras principalmente dos países chamados de “primeiro mundo”.

Já vimos que as influências do ser humano no equilíbrio natural do planeta vêm atingindo magnitudes sem precedentes. As mudanças climáticas antropogênicas estão associadas às atividades humanas, com o aumento da emissão de gases do efeito estufa, em virtude de queimadas, desmatamento, formação de ilhas urbanas de calor etc.(…). Devemos conservar o meio ambiente e a diversidade do planeta terra, respeitar e cuidar da comunidade dos seres vivos, minimizar o esgotamento de recursos não renováveis, e tudo isso também tem que passar pela mudança de atitudes e práticas pessoais (OLIVEIRA, 2009, p. 302 e 305).

Os Taurepang resolveram trilhar de volta o caminho que haviam feito do Monte Roraima à Guiana Inglesa, quando os adventistas foram expulsos da Venezuela. Grande parte desses adventistas retornou para a Venezuela. O estado de Roraima está situado sobre o planalto das Guianas e tem um solo relativamente plano, mas também é formado por cadeias de montanhas, tem pouca vegetação de floresta a grande maioria da flora é chamada de lavrado, cujo mesmo tipo de floresta na Venezuela chama-se savana.

A fauna roraimense é rica em quantidade e diversidade, portanto os Taurepang saíram desfrutando desse ambiente rumo ao seu antigo território. Os mais jovens desconheciam essa rota, foram guiados pelos guerreiros mais velhos e experientes. O Ambiente roraimense sendo bastante diversificado em se tratando de rios, solos e avifauna “nas florestas de terra firme a leste de do Rio Branco, e nas várzeas e igapós do baixo Rio Branco e seus afluentes, como os rios Iruá (Viruá), Anauá, Água Boa do Univi, Jaupari, Ajarani. Desde então, foram adicionadas mais de 50 espécies à lista de aves do Estado” (SANTOS, 2004, p. 546).

As florestas de Roraima têm Ambientes bastante diversificados do Brasil, pois no estado apresenta basicamente dois tipos de florestas: a floresta tropical cuja maior parte está na terra firme, conhecida como lavrado, cuja vegetação é rasteira, são campos naturais,

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esta abriga os cavalos selvagens de Roraima. Mas há outra parte da floresta chamada de várzea que durante o inverno fica submersa na água. No percurso que os Taurepang fizeram da Guiana até ao Monte Roraima depararam-se com todos esses tipos de florestas, atravessaram o lavrado guianense transpuseram o Rio tacuru, adentraram no lavrado brasileiro habitando temporariamente em vários tipos de florestas até chegar ao seu destino final.

As savanas de Roraima formam parte do complexo de drenagem “Rio Branco-Rupununi”, com uma parte localizada no Brasil e outra na Guiana. Maiores savanas da região amazônica e o seu habitat em superfície de Roraima. As savanas ou lavrados (como são conhecidas estas formações vegetais na região), são áreas abertas que se caracterizam pela presença de plantas herbáceas e árvores isoladas, muitas vezes resistentes ao fogo (…) (NAKA, 2010, p.552).

O ecossistema roraimense forneceu toda a estrutura para a sobrevivência dos Taurepang no território brasileiro, passaram-se muitos dias para os Taurepang adventistas cruzarem toda a fronteira do Brasil e adentrarem novamente no território venezuelano. O ecossistema terrestre foi uma das bases para a subsistência dos indígenas nessa peregrinação. Vale salientar que os Taurepang nesse contexto histórico não estavam morando no Brasil, e sim apenas de passagem e se utilizaram apenas do que o ecossistema lhes fornecia no momento. Nessa trajetória cruzaram basicamente dois tipos de vegetação do ecossistema terrestre roraimense que foi a savana onde percorreram uma grande extensão de mais de 300 quilômetros até chegar à Cordilheira de Pacaraima. “No que se refere à vegetação, as regras de identificação e classificação seguiram uma evolução ao longo de todo o projeto na tentativa de levar em consideração as afinidades (…) estruturais e funcionais entre as topologias observadas (BARBOSA, 2010, p. 351)”.

O ecossistema de Roraima na época dessa mudança dos Taurepang rumo ao Monte Roraima, podia se dizer que era um ambiente “original”, mas com a implantação no final da década de 1970 da BR -174, que ligou Manaus a Roraima e consequentemente à Venezuela, ao Caribe e à América Central chegaram os “devastadores” do Ambiente, chamados de garimpeiros, esse episódio trouxe grande impacto para ecossistema, o “original”.

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Neste sentido, entende-se como “original”, algo próximo da vegetação existente antes do aumento do fluxo migratório iniciado ao final da década de 1970 e incrementado entre os anos de 1980-90 devido ao “boom” do garimpo em terra indígena Yanomami (ALBERT, 1992). Isto porque, até 1975, Roraima possuía apenas 0,024% de área desmatada total (savanas e florestas), sendo considerado como praticamente intocado (BARBOSA, 2010, p.351).

O Monte Roraima é um dos maiores montes da América do Sul, está situado na divisa do Brasil com a Guiana Inglesa e a Venezuela, suas falecias tem cerca de 1.000 metros de altura, no seu platô o ambiente é muito diferente de qualquer vegetação brasileira. O clima, a fauna e a flora formam um complexo ímpar desse ecossistema. Seu ponto mais alto fica no Extremo Sul da Venezuela com 2.734.o6 metros. Para os pesquisadores o Monte Roraima era um mito no período de sua descoberta, para os Taurepang era o céu do deus Macunaíma. Os pesquisadores o têm na atualidade como patrimônio da humanidade e os Taurepang de hoje o consideram como uma dádiva da criação do Deus altíssimo para os homens.

Segundo consta na maioria dos livros antigos de geografia, o monte Roraima tem 2.875m de altitude em relação ao nível do mar. Porém em 2005, o IBGE, (Instituto de Geografia e Estatística) em parceria com o IME (Instituto Militar de Engenharia) e através do Projeto Pontos Culminantes fez uma nova medição com auxílio de GPS e constatou que o Monte Roraima tem exatos 2.734,06m, tornando-se dessa maneira o sétimo ponto mais alto do Brasil (GARMATZ, 2013, p. 201).

O Monte Roraima foi descoberto em 1595 na época em que os colonizadores europeus invadiram a Ameríndia. No século XIX, pela primeira vez alguém pisou em seu platô no de 1884. A fauna, a flora e a parte geológica local sob os aspectos para estudar Monte Roraima: “Descoberto apenas no século XIX. O Monte Roraima foi escalado pela primeira vez em 1884, por uma expedição britânica chefiada por Everard Ferdinand im Thurn. Entretanto, apesar das diversas expedições posteriores, sua fauna, flora e geologia permanecem largamente desconhecidas”. www.monteroraima. Acessado em 7/12/14.

O Monte Roraima é extremamente bem diferente dos outros montes, na sua parte superior é formado um grande Platô, como se fosse uma grande mesa plana, mais ou menos nivelado, tem aproximadamente cinco quilômetros de largura com 10 quilômetros de

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comprimento; somando-se uma superfície plana em torno de 30 a 50 quilômetros quadrado. No marco que divide a tríplice fronteira mede 2.734.06 metros de altitude. “O cume sub-horizontal do platô tem pouco mais de 10 quilômetros de comprimento e largura máxima de cinco quilômetros – para uma superfície de 33 a 50 quilômetros quadrados e mantêm-se acima dos 2.200 metros (com uma média de 2.600 a 2.700 metros)”. www.monteroraima. Acessado em 07/12/2014.

Do Monte Roraima surgem três grandes rios23 um para cada nação da Tríplice Fronteira. O rio kamaiwa, afluente do rio Orinoco que atravessa a Venezuela; também começa o afluente do Cotingo que atravessa o território brasileiro (o Estado de Roraima) formando com outros rios o famoso rio Branco e este se conecta ao rio Negro no estado do Amazonas. Nasce o terceiro rio o Kako que forma em seguida o rio Essequibo banhando grande parte do território guianense “O platô do Roraima, que apresenta uma flora pobre, mas, em grande parte, única, tem depressões aqui e ali e forma um imenso reservatório que se estende longe para o norte (…)” (KOCH-Grünberg, 2006, p. 123). O rio Kamaiwa é um afluente do Orinoco na Venezuela, o Cotingo um afluente do Amazonas no Brasil e o Kako um afluente do Essequibo na Guiana. As três Fronteiras são bem abastecidas de água, proveniente do monte Roraima “(…) e manda numerosas artérias fluviais para os três grandes sistemas fluviais do Amazonas, do Orinoco e do Essequibo” (KOCH-GRÜNBERG, 2006, p.123).

3 Os Taurepang Adventistas, a formação da Maloca Sorocaima e Ambiente

Depois que os Taurepang retornaram da Guiana, passaram pelo Brasil e cruzaram a Fronteira da Venezuela pela Cordilheira de Pacaraima. Alguns líderes mais experientes julgaram ser interessante fixar moradia definitiva nessa Cordilheira, mas outros resolveram prosseguir em sua jornada até alcançar dois lugares desejados, Santa Elena de Uairén, local de onde foram expulsos anteriormente e finalmente o Monte Roraima. Os Taurepang adventistas foram unânimes, em decidir fundar a aldeia de Maurak na Venezuela, próximo à fronteira do Brasil, como foi mencionado anteriormente. Os Taurepang desde tempos

  1. (veja uma matéria sobre este trek escrito por Dona Kennedy do New York Timer, no número de 31 de agosto de 2014).

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remotos sempre foram comerciantes, faz parte de seu cotidiano à comercialização. Nesse contexto comercial intenso que faziam na Tríplice Fronteira, algumas famílias adventistas resolveram sair da aldeia Maurak e fixar residência na Cordilheira de Pacaraima, no lado brasileiro:

Em território brasileiro, os Taurepang localizaram-se na porção norte da região de campos e serras do Estado Roraima, área com fronteiriça entre Brasil, Venezuela e Guiana, tendo como vizinhos os Macuxi e Akawaio (no Brasil mais conhecidos como Ingarikó), de filiação linguística Karíbi, e os Wapixana, de filiação linguística Aruák (Localização e população – Taurepang no Brasil – Istituto… pib. Socioambiental. Org/pt/povo/taurepang/113).

Depois que os Taurepang adventistas fundaram Maurak adentraram a fronteira brasileira e construíram as aldeias da Boca da Mata, Sorocaima e Bananal. Dentre elas, Sorocaima concentra atualmente a maioria dos Taurepang Adventistas do Sétimo Dia naquela região. Grande parte dos índios que retornaram da Guiana à Venezuela em 1929 estavam decididos a seguir fielmente os ensinamentos dos adventistas introduzidos aos Taurepang pelos missionários Davis e Cott respectivamente por ordem de chegada:

Em 1929, todos estes grupos estavam novamente na Venezuela, graças ao proselitismo do pastor adventista A. W. Cott, que, no mesmo ano, transfere-se da aldeia de Arabopo para a aldeia de Akurima. Os Taurepang mais velhos guardam uma viva lembrança do pastor A. W. Cott e, frequentemente, contam a história de Papacá, termo pelo qual o pastor é referido, a seus filhos e netos ( …). Provavelmente teriam contato com o velho chefe Jeremiah na aldeia de Kawarianaremong, como é o caso de Mário Flores e Bento Loyola. O xamã Akuri, aliás, pai deste último, foi quem guiou Theodor Koch-Grünberg até ao Monte Roraima (ANDRELLO, 1993, p. 148).

Houve uma sucessão de líderes entre os Taurepang muito bem organizadas até a formação da Maloca Sorocaima. Primeiro foi a catequização feita pelo Pastor adventista Davis, seguida pelo seu sucessor também Pastor, o missionário Cott e sua esposa Betty. Esse proselitismo adventista teve êxito devido ao apoio recebido do grande líder Taurepang o

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profeta Jeremiah. Na sequência passaram-se vários líderes, finalmente apareceu o missionário Raimundo, neto de Jeremiah que fundou a aldeia de Maurak. Depois dois líderes Taurepang, Mário Flores e Bento Loyola que assimilaram o discipulado de Jeremiah, possivelmente o pai de Bento Loyola foi quem guiou o antropólogo alemão Koch-Grünberg, da Fazenda São Marcos no Rio Branco, (local onde posteriormente surgiria a capital do Estado de Roraima – Boa Vista) até a aldeia Kawarianaremong no Monte Roraima em 1911. Veja como Bento Loyola se refere à formação da Maloca Sorocaima:

Quando eu cheguei aqui só tinha o velho Perdino ali no Sorocaima. Por aqui era só Taurepang, antigo…, eles contavam avô Taurepang morava por aqui. Acabaram… não tinha Macuxi não, tudo pedaço até no Araí…, lá não tem Macuxi… Taurepang. Até chegar lá no Wailanpai, Taurepang tudo, na fronteira, né? Macuxi pra cá, embaixo. Lá pro Santa Rosa, Uraricoera, Maracá, Macuxi. Agora Taurepang já foram embora daqui, não quer mais morar, lembrou-se do lugar do avô, né? Lá pro Akurimã, muitos foram pra lá. Não todos, só alguns. Porque os católicos não gostaram da pregação do pastor papacá que tinha lá. Porque pastor contava história bem: – Não bebe, não fuma, não come, não briga, Abandona o que tão fazendo, bebendo cachirí, brigando. Não gostaram não, só alguns gostou, meu pai gostou muito, tuchau André gostou muito… por isso que ele fez igreja, missão no Akurimã. Meu pai andou pregando como aprendeu com o pastor. Como tá no livro, esse que ele contava tudo, pregação de Jesus, Deus (Bento Loyola, Aldeia de Macaiapáng, mar/ 90).

A Maloca Sorocaima foi fundada oficialmente pelo Tuxaua Mário Roberto Flores, um grande articulador para o desenvolvimento do adventismo em Sorocaima. Das três malocas, a da Boca da Mata sempre foi simpatizante do movimento Católico Romano, mas Sorocaima e Bananal são praticantes do adventismo até a atualidade. Mário Flores além de fundar Sorocaima, liderou-a durante muito tempo de uma maneira bem rígida: “não permito escola na minha maloca. Eu mesmo posso educar meus filhos (…). Já vieram muitos para fundar escola lá, mas eu sempre falei que não é essa educação que importa. Eu sei ensinar a plantar, vender os produtos e comprar coisas boas. Eu estou vendo que as crianças que estão indo na escola estão ficando mal-educados. Só querem bater bola e bater nos outros. (Declaração de Mário em uma reunião de tuxaua em 1979)” (MONGIANO, 1989, p.58).

Depois da morte de seu fundador Sorocaima foi liderada pelo Tuxaua Manoel Bento Flores; filho mais velho do fundador. Atualmente em 2014, lidera essa maloca o Tuxaua Sandoval Bento Flores, neto de Mário Flores; é um jovem em boa forma física e intelectual, um líder amado por todos, dirige o povo moderadamente, sua liderança é maleável. Salienta a importância de um tuxaua adventista em pleno século XXI, liderando a Maloca Sorocaima.

Algumas informações valiosas do povo Taurepang conseguidas através de relatos de cronistas, registradas por alguns antropólogos, militares do alto escalão das forças armadas brasileira, de vários cientistas, de biólogos e etnólogos nos deram valiosas contribuições que ajudaram a nortear essa pesquisa. São essas informações que também nos permitiram conhecer os mitos regionais indígenas em sua convivência com a sociedade dos “brancos” e atualmente também já existem algumas informações sobre o Ambiente desse povo na literatura sócio antropológica no século XXI.

No contexto de entender as relações entre religião e Ambiente da Maloca Sorocaima, nos baseamos em informações de antropólogos, etnógrafos, biólogos, historiadores e pesquisadores; essas informações são do século XIX, XX e também do século XXI. Procuramos explicações sobre a mudança da religião primitiva dos Taurepang para a religião Adventista do Sétimo Dia e também da preocupação em preservação do Ambiente da Maloca Sorocaima. Buscamos compreender seus ritos sagrados indígenas e o movimento religioso chamado de adventismo.

Informações valiosas sobre os povos indígenas de Roraima, conseguimos através dos relatos de Theodor Koch-Grünberg, etnólogo e antropólogo, professor e filósofo alemão, foi encarregado em 1898 de cuidar da parte linguística da expedição realizada pelo Brasil ao Alto-Xingu. Aceitou o chamado para participar dessa expedição pelo etnólogo e pesquisador também alemão Hermann Meyer:

A primeira publicação de Theodor desperta a curiosidade de Adolf Bastian, naquele período era diretor do Real Museu de Etnologia e fez o convite para estagiar com ele. Permaneceu nessa instituição até 1909. Depois desenvolveu um trabalho brilhante na seção latino-americana e foram orientados por Karl Von Den Steinen e Eduard Seler, pesquisadores estadunidenses importantes nessa área. Koch-Grünberg fez doutorado na faculdade de filosofia da Universidade de Würzburg. Interessou-se pela América principalmente pelo Brasil e em 1903, desenvolveu a segunda expedição ao Brasil, nessa percorreu os rios Negros e Japurá e seus afluentes. Em 1905 retorna à Alemanha e publica sua obra em dois volumes, o que lhe deu destaque internacional (apud. FRANK, 2005, p.560).

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Retornou novamente à Alemanha em 1905 e com a livre-docência, passou a ensinar Etnologia em Freiburg. Em 1911 e 1912 Koch-Grünberg dirigiu suas pesquisas à Amazônia. Foi então que navegou subindo o Rio Branco e galgou o ápice do Monte Roraima. Percorreu o rio Uraricoera até a Serra Parima, o rio Ventuari – Venezuela – até o rio Orinoco e retornou a Manaus pelo Canal Cassiquiare. (apud. FRANK, 2005, p. 561). Em 1913, de volta a Freiburg, recebeu o título de professor. Em 1915, passou a administrar o Museu de Linden, em Stuttgard. Com a crise da primeira guerra mundial, Koch-Grünberg se despediu de seu cargo. Aceitou o convite de Hamilton Rice para participar de outra expedição. O objetivo era chegar às fontes do Orinoco. “Pela quarta vez na Amazônia, em 1924, ao esperar a chegada do resto da expedição em Vista Alegre, próximo a Caracaraí, morreu no dia 8 de outubro de 1924, provavelmente de malária” (apud. FRANK, 2005, p. 562).

Considera-se o trabalho de Koch-Grünberg essencialmente etnográfico. O que está por trás de seu esforço é a cultura alemã que gerou os meios necessários para sua realização. O instrumento “foi uma antropologia comparada das ações, das ideias e das produções sociais” (FRANK, 2005, p. 571). O que fez com que seu trabalho fosse minucioso, além de sua capacidade de produção textual, foi às variações étnicas entre as culturas. A documentação etnográfica tinha que ser bem minuciosa para evitar generalizações antecipadas. Outro importante aspecto que o ajudou foi à valorização histórica da cultura. O desenvolvimento das culturas só seria revelado completamente por uma historiografia das culturas. Essa historiografia era a linguística comparativa (Apud. FRANK, 2005, p. 571-573).

Sua obra constitui-se em cinco volumes. O primeiro é o diário de viagem e o segundo apresenta contos e mitos dos Macuxi, Taurepang e Wapichana. O terceiro é uma etnografia e análise musicológica dos Taurepang. O quarto volume constitui-se de linguística comparativa de trinta e seis línguas faladas entre o rio Branco no Brasil e Orinoco – Venezuela. O último volume é o registro fotográfico de tipos indígenas (Cf. FRANK, 2005, p. 575-576). E quanto à questão religiosa, destacando o movimento religioso Aleluia entre Taurepang, Wapichana, Ingaricó e Macuxi.

A pesquisadora, professora na UNICAMP-SP, Nádia Farage, concluiu sua dissertação de Mestrado em 1991 sobre os povos indígenas no Rio Branco e a colonização. Como historiadora e antropóloga, posteriormente publicou sua dissertação de mestrado em livro:

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As muralhas dos Sertões, uma das poucas escritoras da atualidade que fala sobre o conflito das fronteiras do Brasil, Venezuela e Guiana Inglesa. Nesse conflito existia uma grande muralha pronta para dividir territorialmente os três países. Farage escreveu que eram os índios Taurepang, Macuxi e Uapichana as próprias muralhas.

O pesquisador Geraldo L. Andrello possui mestrado em Antropologia pela UNICAMP-SP em 1993 com a dissertação intitulada: memória e profetismo no século XX. A sua dissertação tem um acervo riquíssimo sobre os índios no Norte de Roraima, especialmente sobre os Taurepang, onde descreveu sobre A Maloca Sorocaima, as migrações dos Taurepang no século XX, tratando sobre as profecias e os profetas Taurepang, Também relatou sobre o adventismo que de alguma forma contribuiu para consolidação das fronteiras territoriais do Brasil. Andrello foi aluno de Nádia Farage, de quem recebeu muitas informações sobre os indígenas da Tríplice Fronteira.

O Doutor em Antropologia Social Maxim Repetto é Professor do Núcleo Insikiran24 de Formação Superior Indígena, da Universidade Federal de Roraima. Escreveu um livro sobre: 1ª Reunião de Estudos, Ascensão de Movimentos Indigenistas na América do Sul e possíveis Reflexões para o Brasil, em junho de 2004, com o apoio do Gabinete de Segurança Institucional da Secretaria de Acompanhamento e Estudos Institucionais de Brasília. Maxim

  • chileno naturalizado brasileiro, atualmente coordena o Instituto Insikiran e no seu livro citado à cima quando ele declarou que pode haver possíveis reflexões para o Brasil é porque estão constantemente os povos indígenas das três Fronteiras interagindo entre si, todavia quando um desses povos se depara com uma situação inusitada positiva ou negativa, pode causar uma forte repercussão entre eles e de alguma forma pode haver reações adversas entre as três nações.

Reinaldo Imbrozio Barbosa é Doutor em Ecologia pelo INPA (Instituto Nacional de Pesquisas da Amazônia) (1994/2001), onde atua como pesquisador desde 1998. Publicou diversos trabalhos sobre ecologia das savanas de Roraima e Impactos Ambientais derivados dos agros ecossistemas amazônicos. Atua nos Programas de Pós-Graduação em Recursos Naturais (PRONAT) da Universidade Federal de Roraima (2005) e em Gestão Ambiental e Desenvolvimento Sustentável da Universidade Federal de Roraima (2007). Desde 2005 também colabora com os cursos de Pós-Graduação em Ecologia e Ciências Florestais do

  1. Insikiran: Núcleo de Formação Superior Indígena da Universidade Federal de Roraima. Ambiente exclusivo para formar professores indígenas licenciados para depois atuarem como professores em suas Malocas.

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Programa INPA/FUA, em Manaus.

Ubirajara de Farias Prestes Filho, é Doutor em História Social pela USP (Universidade de São Paulo) em 2006 defendeu sua Tese: O Indígena e a Mensagem do Segundo Advento: missionários adventistas e povos indígenas na primeira metade do Século XX. O autor desenvolveu sua pesquisa no movimento do adventismo, desde suas origens e expansão na América, dentre tantos assuntos discorreu sobre os “Davis Índians” no Monte Roraima.

A situação etnográfica do Planalto das Guianas é baseada em relatos catalogados até meados do século XX. Esse material está disponível, graça aos colonizadores e viajantes europeus que passaram a registrar informações desde o século XVI. Em destaque, podem-se citar os relatos de E. In Tu (1883), Olga Condreau (1900) e Farabee (1918-1924). Documentos de Franciscanos, Jesuítas das Comissões de Fronteira do Brasil, da Venezuela e das colônias britânica, holandesa e francesa, no final do século XIX. Este material etnográfico produzido por cronistas é diferente do material produzido por antropólogos, “em estudo nos moldes modernos, que surgiram somente na década de 1960. Dessa época os destaques são os trabalhos de Fock (1963), Rivière (1969, Chagnon (1968) e Hurault (1968)).”. Por volta da década de 1980 apareceram novas abordagens com enfoque histórico-antropológico, que consistiam em confrontar os materiais historiográficos antigos e etnográficos modernos. Foi Rivière (1963) que iniciou o procedimento de organização de informações arqueológicas sobre as habitantes, populações indígenas Macuxi, Taurepang Wapichana, Wai-Wai, Trio Oyan e Oyampi – habitantes nas cabeceiras dos rios guianenses (Cf. GRUPIONE, in: GALLOIS, 2005, p. 23-26).

A Igreja Adventista do Sétimo Dia surgiu influenciada por uma parte, pelos ideais de alguns líderes do movimento Millerita25 que anunciava a volta de Jesus para outubro de 1844, por outro lado a sua grande estrutura organizacional foi devido à influência de uma jovem chamada Ellen Gouden Harmom26 pertencente anteriormente a Igreja Metodista. Destaca-se que como a sua principal fundadora, que segundo a cúpula adventista da época Ellen teve uma visão da parte de Deus e a partir de então se tornou a profetiza da Igreja

  1. Millerita: movimento religioso criado pelo pastor Guilherme Miller em meado do século XVIII nos Estados Unidos da América do Norte.

  2. Ellen Gouden Harmon: quando era adolescente, toda a sua família era seguidora do pastor Guilherme Miller. Após o desapontamento de 1844, profetizado por Miller que Cristo voltaria a esta terra e não veio, ela e outros líderes começaram a fundar a atual Igreja Adventista do Sétimo Dia. Em seguida começou a profetizar e até hoje os adventistas a tem com sua profetisa. Quando se casou com o pastor Thiago White, passou a chamar-se Ellen G. White.

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Adventista do Sétimo Dia.

A igreja Adventista do Sétimo Dia é uma denominação cristã protestante que se distingue pela observância do sábado, o sétimo dia da semana judaico-cristã e por sua ênfase na iminente segunda vinda de Jesus Cristo. Foi fundada em 21 de maio de 1863 nos Estados Unidos Da América, pelos seus fundadores: José Bates, James White, Ellen G. White, John Nevins Andrews e Guilherme Muller e Tiago White (MAXWELL, 1982, p. 57; 59; 79 e 83).

Para os Taurepang de Sorocaima que são quase 100% adventistas, fazer parte da primeira Ressurreição é o ápice de suas vidas porque segundo a afirmação dos adventistas, quem fizer parte da Primeira Ressurreição estará salvo e vão morar com Deus por toda a eternidade e ao contrário, os que ressuscitarem na segunda Ressurreição não herdará a vida eterna, serão extintos completamente com o Planeta Terra por ocasião da volta de Jesus.

Com majestade terrível e pavorosa, Jesus chama então os ímpios mortos; e eles surgem com os mesmos corpos fracos, doentios, que foram à sepultura. Que espetáculo! Que cena! Na primeira ressurreição todos saem com imortal frescor, mas na segunda, os indícios da maldição são visíveis em todos (WHITE, 1988, p.418).

Para os Adventistas, o lar deve ser o ambiente mais agradável e aprazível de todos os ambientes que se possa visitar durante o dia; sabe-se que o lar não é simplesmente a casa, a maloca, o lar é composto pela família e a família é à base de qualquer sociedade. Os adventistas são instruídos a manter a sua alma limpa, pura e livre de rancor e ódio, manter-se com uma conduta equilibrada, ser cortês, gentil e agradável com todos inclusive com os animais. A maloca Sorocaima parece ser um ambiente fechado para a sociedade dos “brancos”, porque na verdade quase 100% das malocas indígenas, mesmo hoje em pleno século XXI vive no seu “mundo” fechado, quase não se dispõe em receber os “brancos” em seu habitat; porém desde a primeira vez que visitei Sorocaima em fevereiro de 2010 fui bem recebido e continua uma boa recepção cada vez que a visito. Mas, notei que não são agradável só com a minha pessoa, mas com todos que vão visitá-los. Não sei afirmar se sempre tiveram essa peculiaridade ou se mudaram de atitude depois fizeram parte do

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adventismo.

Isso é de importância incomparavelmente maior do que adquirir propriedades e dinheiro. Não deve faltar alegria ao lar. O sentimento doméstico deve ser mantido vivo no coração dos filhos, para que eles possam volver os olhos ao lar de sua infância como a um lugar de paz e felicidade ao céu (…). Precisam manter sua alma pura e limpa, e que esta pureza se deve estender a seu vestuário e a tudo quanto faz parte do lar, de modo que os anjos ministradores tenham prova de que a verdade operou uma mudança na vida, purificando a alma e refinando os gostos (WHITE, 1973, p. 21 e 22).

A Maloca Sorocaima tem se preocupado em manter boas relações com o Ambiente. Nota-se que os indígenas há muito tempo habitam nesse mesmo local e se percebe que existe harmonia entre o povo de Sorocaima e o Ambiente. Os Taurepang em Sorocaima desenvolveram nesses longos anos uma política de sustentabilidade Ambiental, ou seja, são sustentados pelo que o Ambiente lhes oferece por isso entendem que não devem danificar o ecossistema, pois a “mãe” Terra foi criada por Deus e sustenta durante muitos séculos toda a raça humanidade. Atualmente se discute muito sobre a ética Ambiental e uma das razões é saber como conviver com o Ambiente sem danificá-lo:

A visão de mundo centrada no ser humano – um antropocentrismo autocentrado e arrogante – pode ser considerado, à luz da fé, um “pecado grave” da nossa civilização predatória, que tem reduzido tanto o mundo natural quanto à pessoa humana a um objeto a ser explorado. Uma expressão desse antropocentrismo é o caráter etnocêntrico da civilização ocidental que se expande, impondo seus padrões, desconhecendo a diversidade étnica e cultural dos grupos humanos. ( …). Com razão fala-se na necessidade de recuperar a lógica do modelo de desenvolvimento gerado pela civilização moderna ocidental para que a humanidade possa realizar o seu destino primeiro e a sua vocação fundamental de cuidar da nossa morada comum (CIRNE, 2013, p. 185).

A bíblia oferece aos cristãos parâmetros para uma compreensão do significado do mundo e como o ser humano deve se comportar nessa crise Ambiental que o mundo está enfrentando. A terra ao sair das mãos do Criador era boa e tudo girava em uma perfeita harmonia com seu Criador. Os ambientes dos ecossistemas que sustentam a vida ainda hoje

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no mundo decaído, pode se dizer que ainda é muito bom; em contra partida os habitantes da Terra deveriam ser também muito bons em cuidar o Ambiente, assim pensam os Adventistas do Sétimo Dia:

A mensagem do primeiro anjo de Apocalipse 14:7 produz implicações ambientais significativas. O anjo convoca todos os habitantes a adorarem “Aquele que fez o céu, e a terra, e o mar, e as fontes das águas”. Os itens específicos aqui mencionados referentes às realidades trazidas à existência no segundo e terceiro dia da criação. Isso significa que o anjo está focalizando especificamente a criação da terra original, a saber, a atmosfera (Gêneses 1:6-8), os mares e os continentes (Gêneses 1:9 e 10) (SHEA, William, 2000 p. 227).

A seguir mostraremos as novas Representações Sociais dos Taurepang Adventistas do sétimo Dia, como também foram desenvolvidas as análises das entrevistas no terceiro e último capítulo dessa dissertação, sobre a religião e Ambiente na Maloca Sorocaima. Buscou-se por meio das análises das entrevistas definirem as Representações Sociais sobre a religião Adventista do Sétimo dia adotada pelos Taurepang da Maloca Sorocaima. Mostram-se as Representações Sociais a respeito do Ambiente no qual estão inseridos. Sondaram-se as possibilidades dessas Representações Sociais terem possíveis impactos na Cosmovisão dos Taurepang e integrar essas Representações ao seu legado.

Baixe a monografia e outros materiais relacionados ao tema:

Religião e Ambiente dos Índios Taurepang — Manaliel_Pais_Pereira

De profetas a pregadores — A conversão Taurepáng à religião do 7º dia

Povos Indígenas do Brasil — Taurepang

OS TAUREPÁNG DO BANANAL E O TURISMO

Evangelista Nativo — Taurepang

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