“Falso profeta” da Nova Ordem Mundial responsabiliza governos pela Covid-19 para justificar uma governança mundial futura

“Apesar do avanço da ciência, não temos sabedoria política para impedir pandemias,” diz Yuval Harari




Encontro foi motivado pelo aniversário de 10 anos da obra “Sapiens”, best-seller do autor israelense

CARLOS REDEL

Yuval Noah Harari (no telão) e o mediador Rolando Lemos (sentado) no Fronteiras do Pensamento / Divulgação

Na noite desta quarta-feira (10/11/2021), o historiador e filósofo israelense Yuval Noah Harari foi o convidado para uma entrevista exclusiva no Fronteiras do Pensamento. O autor de 45 anos já vendeu mais de 27 milhões de livros, traduzidos para 60 idiomas, sendo Sapiens – Uma Breve História da Humanidade considerado a sua obra-prima.

Na conversa, que foi mediada pelo professor da Faculdade de Direito da Universidade Estadual do Rio de Janeiro (UERJ) e da Universidade de Columbia em Nova York, Ronaldo Lemos, Harari começou falando sobre as lições que espera que a humanidade tenha aprendido com a covid-19. A primeira, segundo ele, é a necessidade de uma cooperação global para lidar com ameaças, como a pandemia.  

É algo que nenhum país consegue resolver sozinho. Mesmo que vacinemos integralmente a população inteira de um país, se o vírus estiver circulando em outros países, ele pode, e vai, continuar se mutando, e uma nova variante poderá voltar ao país e infectar pessoas ainda mais gravemente — disse, reforçando que, caso esta lição seja aprendida, poderá ser aplicada em outras ameaças, como as mudanças climáticas. 

Outro aprendizado destacado pelo filósofo é a necessidade de investimento em saúde primária de qualidade para o mundo inteiro, uma vez que “a fronteira entre o mundo dos humanos e o mundo dos vírus localiza-se no corpo de todo e qualquer ser humano no planeta Terra” .

— Se fizermos isso, a covid-19 poderia acabar sendo a última pandemia da história. Hoje, temos os conhecimentos científico e tecnológico necessários para impedir pandemias. O que não temos é a sabedoria política para por isso em prática — pontuou, acrescentando que “houve uma falha de cooperação durante a pandemia” e que, quase dois anos após o início da pandemia, “ainda não há um plano de ação global”.

Segundo Harari, é necessário levar mais pessoas para o debate, com mais diversidade, para assim criar uma sociedade justa. De acordo com ele, ao longo da história, as pessoas criaram sistemas de cooperação fortíssimos, mas, ao invés de ajudar pessoas, eles eram usados para oprimi-las.

— A cooperação por si só não é o objetivo. Um campo de concentração é um sistema de cooperação — explica.

Tecnologia

Harari explicou, ao longo da conversa, o seu medo com o avanço da tecnologia e apontou que as Big Techs são uma ameaça para o futuro. Ao ser questionado sobre os malefícios das fake news, apontou que não são um fenômeno novo e que já apareceram ao longo da história, sendo “muito mais prejudiciais no passado”, exemplificando que os nazistas e os comunistas espalharam notícias falsas e convenceram centenas de milhões de pessoas de suas causas.

— Toda que vez que surge alguma nova tecnologia de comunicação, uma das consequências é haver uma nova forma de disseminar essas histórias fictícias, panfletarismos e fake news — ressaltou.

Segundo Harari, as pessoas têm seus dados coletados o tempo inteiro. Ele cita que e essas informações não precisam ser lidas por seres humanos, pois há inteligência artificial fazendo isso, o que torna cada cidadão vulnerável a ataques hackers. E ele alerta que, se esses dados caírem nas mãos erradas, “o resultado será a pior ditadura totalitária da história”. 

Indo um pouco mais além, ele acredita que é possível que todas as coisas tenham vida, graças a inteligência artificial.

Religião e ciência

De acordo com o filósofo, a tecnologia e ciência têm forte impacto sobre religiões que, ao longo da história, foram se adaptando. Segundo Harari, as primeiras religiões não ofereciam vida após a morte, mas, sim, uma boa saúde e proteção contra a violência. Assim, Harari destacou que a religião foi se modificando:

Fronteiras do Pensamento / Divulgação
Escritor e filósofo Yuval Noah Harari — Fronteiras do Pensamento / Divulgação

Quando você adoece, não vai atrás de um padre, procura um médico. Até o padre procura o médico. Há mil anos, quando havia uma pandemia, procurávamos padres. Hoje, procuramos cientistas. Até mesmo o Papa procura por cientistas para ter aconselhamento quanto ao que fazer na pandemia — destacou o escritor.

Ele relembrou o episódio em que o Papa Francisco celebrou uma missa sozinho no Vaticano. Na ocasião, cerimônia foi transmitida virtualmente para não causar aglomeração e evitar o contágio de covid-19. Graças a essas adaptações, Harari projeta que a religião nunca irá desaparecer.

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Mudanças

Quase no final da conferência, Ronaldo Lemos lembrou que um dos participantes do Fronteiras do Pensamento deste ano, Steven Pinker, destacou em sua palestra a diminuição da violência na sociedade ao longo da história e que o pensador enxerga que isso é uma tendência.




Harari concordou sobre o passado e o presente, mas deixou uma incógnita para o futuro, o qual acha que, caso ocorra uma terceira guerra mundial, será devastadora e pior que as anteriores. Mas acredita, que a humanidade está vivendo em uma época pacífica inédita. — Hoje, pela primeira vez na história, é mais fácil morrer por comer demais do que sendo assassinado por outro ser humano, por violência — refletiu, destacando que milhões de pessoas morrem por ano por doenças relacionadas à obesidade e a diabetes, enquanto o número de mortes por violência é muito menor.

Ele ainda enfatizou que, ao decorrer da história, o maior gasto dos impérios era com o exército. Hoje, no entanto, esses gastos giram em torno de apenas 2% na maioria dos países, e a maior parte do investimento vai para saúde e para a educação. Ele creditou este momento de paz às boas decisões dos seres humanos, mas que escolhas ruins podem acarretar, novamente, em violência.

Futuro

Para ele, as mudanças climáticas e o avanço das inteligências artificiais são as “ameaças reais à humanidade” e que o desastre climático não apenas matará dezenas de milhões de pessoas, como a covid-19, mas “destruirá a civilização humana”. Porém, ele teme que a falta de união global, assim como na crise do coronavírus, não ocorra para controlar estes problemas. 

Para conter as mudanças climáticas, ele sugere um investimento anual de 2% do PIB mundial, algo que considera “viável”, mas acredita que esta cooperação global tem que começar logo, enquanto ainda “há esperança”, pois daqui a “10, 20 anos, será tarde demais” e “todos vão sofrer”. 

Ele ainda abordou temas como criptomoedas, o aumento da desigualdade mundial durante a pandemia, o metaverso e enfatizou que “a próxima covid-19 pode muito bem ser um enorme ataque cibernético”, que derrube, por pelo menos algum tempo, boa parte da estrutura digital do mundo.  

Segundo ele, este tipo de acontecimento “seria um caos”, uma vez que a estrutura física de 20 ou 30 anos atrás não existe mais, tendo até o dinheiro migrado para o smartphone. Com a covid-19, Harari pontou que as pessoas se recolheram para o mundo digital, mas, caso o mundo virtual seja atacado, não existe um plano B.

— Espero que os governos se preparem para isso melhor do que se prepararam para a covid-19 — alerta.

Um só dinheiro, um só controle, um só projeto…

RESUMO




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O Fronteiras do Pensamento é apresentado por Braskem, com patrocínio Unimed Porto Alegre, PUCRS, B3, parceria institucional Pacto Global e promoção do Grupo RBS.

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