Profecia Não-Cumprida de Ellen
G. White Pode Ajudar a Entender Melhor a Lição Desta Semana

 

Pensamentos sobre "A esperança e a tardança -2"
(Lição 10, para 7 de dezembro de 2002) - Segunda Parte

As predições da visão de 1856

Em relação a uma reunião, em 1856, Ellen White declarou: "Foi-me mostrado o grupo de pessoas presentes à Assembléia. Disse o anjo: 'Alguns, alimento para os vermes, alguns submetidos às sete últimas pragas, alguns estarão vivos e permanecerão sobre a Terra para serem trasladados por ocasião da vinda de Jesus.'" (Eventos Finais, pág. 36).

Todos os ali presentes agora estão mortos. Essa predição não cumprida significa que Ellen White é uma falsa profetisa? Damos uma resposta mais ampla a esta pergunta devido a que se refere a uma concepção errônea que é de grande importância, em relação ao dom de profecia.

Deuteronômio 18:22 diz: "Quando o profeta falar em nome do Senhor, e essa palavra não se cumprir, nem suceder assim; esta é palavra que o Senhor não falou: com soberba a falou aquele profeta; não tenhas temor dele". Este texto, tirado de forma isolada, desqualificaria a não poucos profetas bíblicos.

Deuteronômio 18:22 precisa ser entendido, como qualquer outro texto, no contexto de toda a Escritura. Outras passagens revelam que há fatores condicionais que contam, em relação às predições de um profeta, particularmente quando o livre-arbítrio da humanidade pode estar implicado.

A alguns pode surpreender o pensamento de que as promessas e bênçãos de Deus, e também Seus julgamentos e ameaças, são condicionais. Mas as Escrituras são explícitas nesse ponto. Observe-se as palavras registradas por Jeremias:

"No momento em que falar contra uma nação, e contra um reino para arrancar, e para derrubar, e para destruir, se a tal nação, porém, contra a qual falar se converter da sua maldade, também Eu Me arrependerei do mal que pensava fazer-lhe. No momento em que falar de uma nação e de um reino, para edificar e para plantar; se fizer o mau diante dos Meus olhos, não dando ouvidos à Minha voz, então Me arrependerei do bem que tinha falado que lhe faria." (Jeremias 18:7-10).

A Bíblia apresenta numerosas ilustrações da aplicação desse princípio estabelecido por Jeremias. Podemos realmente agradecer pelas palavras de Jeremias; ajudam-nos a compreender corretamente alguns textos da Escritura que de outra forma parecem desqualificar as pretensões divinas de certos profetas.

Considerem-se estas duas situações que ilustram ambas as seções da declaração de Jeremias. A primeira é a advertência divina de um julgamento iminente contra a nação. Podemos apreciar a perspectiva do julgamento, e sua revogação:

Ameaça de juízo: "E levantou-se Jonas, e foi a Nínive, segundo a palavra do Senhor. Ora, Nínive era uma cidade muito grande, de três dias de caminho. E começou Jonas a entrar pela cidade caminho de um dia, e apregoava, dizendo: Ainda quarenta dias, e Nínive será subvertida." (Jonas 3:3 e 4)
Sua revogação: "E os homens de Nínive creram em Deus; e proclamaram um jejum, e vestiram-se de saco, desde o maior até o menor." "E viu Deus as obras deles, como se converteram do seu mau caminho; e Deus Se arrependeu do mal que tinha anunciado lhes faria, e não o fez." (Jonas 3:5 e 10)

Uma promessa: "Falou mais Deus a Moisés." "Portanto dize aos filhos de Israel e vos tirarei de debaixo das cargas dos egípcios... e sabereis que Eu sou o Senhor vosso Deus, que vos tiro de debaixo das cargas dos egípcios; e Eu vos levarei à terra, acerca da qual levantei Minha mão, jurando que a daria a Abraão, a Isaque e a Jacó, e vo-la darei por herança, Eu o Senhor.." (Êxodo 6:2, 6-8).
Sua revogação: "Depois falou o Senhor a Moisés e a Arão dizendo: Até quando sofrerei esta má congregação, que murmura contra Mim?... Dize-lhes:... Neste deserto cairão os vossos cadáveres, como também todos os que de vós foram contados... Não entrareis na terra, pela qual levantei a Minha mão que vos faria habitar nela... E conhecereis o Meu afastamento." (Números 14:26-34)        

Quão claramente estas passagens paralelas sobre a promessa ao Israel iluminam as palavras de Jeremias! Disse o Senhor a Israel: "Conhecereis o Meu afastamento" ou "Conhecereis o Meu quebrantamento da promessa", ou, conforme se lê na tradução alternativa (à margem, na versão em inglês), "Conhecereis a alteração do Meu propósito."

 

O caso de Eli

Tomemos agora as palavras de "um homem de Deus" que veio a Eli para declarar juízo contra ele devido à conduta vil dos filhos deste. Este "homem de Deus" perguntou a Eli se recordava a promessa que o Senhor tinha feito a sua família "estando eles ainda no Egito, na casa de Faraó", de que serviriam como sacerdotes de Deus. Logo seguiu a revogação dessa promessa:

"Portanto, diz o Senhor Deus do Israel: Na  verdade tinha falado Eu que a tua casa e a casa de teu pai andariam diante de Mim perpetuamente; porém agora diz o Senhor: Longe de Mim tal coisa, porque aos que Me honram honrarei, porém os que Me desprezam serão desprezados. Eis que vêm dias em que cortarei o teu braço e o braço da casa de teu pai, que não haja mais ancião em tua casa." (I Samuel 2:30, 31).

Ficam confusos os sinceros estudantes da Bíblia por essas alterações do anunciado por Deus? Perderam que alguma forma sua confiança nas credenciais dos profetas da Bíblia, devido a que falhou o cumprimento de suas predições? Por que não? Porque à vista das palavras de Jeremias, em cada predição se lê implicitamente uma cláusula condicional:

 

A cláusula condicional implícita

1. "Ainda quarenta dias, e Nínive será subvertida" – Se os ninivitas não se arrependerem.

2. "Eu vos levarei à terra, acerca da qual levantei Minha mão" – Se diligentemente ouvirdes a Minha voz e guardardes a Minha aliança (Éxodo 19:5, 6). O Senhor, falando com Moisés em caminho a Canaã, introduz o "se" condicional).

3. "Sua casa e a casa de seu pai andarão diante de mim perpetuamente" – Se caminhardes pelos caminhos da justiça.

Se é adequado (e certamente o é) acrescentar a estas predições uma cláusula condicional, por que não teria que sê-lo no caso da predição de Ellen White feita em 1856?

 

Comentários de teólogos sobre as predições

O caráter condicional das predições da Bíblia deve ser explicado sobre o terreno razoável de que Deus, embora soberano, não é arbitrário. Não trata com as pessoas como se fossem objetos inanimados sobre um tabuleiro de jogo, movidos exclusivamente pela Sua vontade. Mantém de forma misteriosa em suspense, por assim dizê-lo, Seus próprios planos freqüentemente, para não interferir na livre decisão de cada um. Isso é o que dá às predições divinas sua qualidade condicional, e isso é o que faz que Deus fale de Seu "quebrantamento da promessa", ou da "alteração de Seu propósito".

Comentaristas bem conhecidos da Bíblia têm escrito a propósito:

"As promessas de Deus são tão condicionais quanto Suas ameaças. Deus não nos daria um trato justo nem misericordioso se continuasse nos dando Seus favores depois que Lhe damos as costas. A retirada destas bênçãos é uma grande advertência para nós. Surge de forma natural da relação pessoal de Deus com Seu povo, que depende da simpatia recíproca." –The Pulpit Commentary, Notas homiléticas sobre Jeremias 18:7-10.

"A maioria das profecias [do Antigo Testamento], entretanto, era do tipo condicional. Incluem uma condicionalidade oculta do tipo: ‘a menos que...’ Ou ‘se guardardes os Meus mandamentos’... Essa natureza provisória das ameaças ou promessas pronunciadas pelo profeta é o que explica um caso tão célebre como o do profeta Jonas." –Declarações surpreendentes da Bíblia, Walter C. Kaiser, Jr., Peter H. Davids, F.F. Bruce, Manifred T. Brauch (1996).

 

Fatores que afetam a profecia do advento

As Escrituras revelam que uma das razões pelas que Deus parece lento em levar a cabo Seu plano e promessa de criar uma nova Terra para os justos, é devido a que quer oferecer a cada um um pouco mais de tempo para exercer seu poder de livre escolha a fim de que fuja da ira que virá. Pedro responde assim àqueles que duvidam da certeza na promessa de Deus de pôr um fim a este mundo de maldade pela simples razão de que o tempo se prolonga:

"O Senhor não retarda a Sua promessa, ainda que alguns a têm por tardia; mas é longânimo para conosco, não querendo que alguns se percam, senão que todos venham a arrepender-se." (II Pedro 3:9).

Pedro declara também que os filhos de Deus podem apressar o advento exercendo sua livre escolha. Há algo que podemos fazer quanto a aproximar o advento. Lemos: "Aguardando, e apressando-vos para a vinda do dia de Deus." II Pedro 3:12. A propósito deste texto, os comentaristas observaram:

"Deus nos assinala como instrumentos para cumprir esses eventos que devem ocorrer antes que venha o dia de Deus. Orando por Sua vinda, espalhando a pregação do evangelho em testemunho a todas as nações, e trazendo aqueles a quem a paciência de Deus espera salvar, apressamos a chegada do dia de Deus." –Jamieson, Fausset, Brown, Comentário, Nota sobre II Pedro 3:12.

Que a vinda de Cristo está relacionada com uma ação da liberdade de escolha humana –a pregação do evangelho pelos seguidores de Cristo– é algo revelado claramente na profecia de nosso Senhor a propósito do tempo de Sua vinda: "E este evangelho do reino será pregado em todo o mundo, em testemunho a todas as nações, e então virá o fim." (Mateus 24:14).

 

A infalível Palavra de Deus

Portanto, é evidente que se o livre-arbítrio de homens e mulheres está tão vitalmente relacionado com a segunda vinda de Cristo, tanto em relação com os incrédulos quanto com os professos filhos de Deus, toda predição concernente a ela terá que ser temperada e condicionada por este fato.

Numerosas declarações feitas por Ellen White nas décadas seguintes à visão de 1856 demonstram que ela compreendeu claramente que há uma qualidade implícita de condicionalidade nas promessas e ameaças de Deus –tal como Jeremias declara– e que o fator condicional nas predições relativas ao advento de Cristo implica o estado do coração dos seguidores de Cristo. A seguinte declaração, escrita em 1883, é especialmente relevante a propósito:

"Em suas mensagens aos homens, os anjos de Deus apresentam o tempo como sendo muito breve. Assim me tem sempre sido apresentado. Verdade é que o tempo se tem prolongado além do que esperávamos nos primitivos dias desta mensagem. Nosso Salvador não apareceu tão breve como esperávamos. Falhou, porém, a Palavra de Deus? Absolutamente! Cumpre lembrar que as promessas e as ameaças de Deus são igualmente condicionais.

"Não era a vontade de Deus que a vinda de Cristo houvesse sido assim retardada. Não era desígnio Seu que Seu povo, Israel, vagueasse quarenta anos no deserto. Prometeu conduzi-los diretamente à terra de Canaã, e estabelecê-los ali como um povo santo, sadio e feliz. Aqueles, porém, a quem foi primeiro pregado, não entraram "por causa da incredulidade". Mat. 13:58. Seu coração estava cheio de murmuração, rebelião e ódio, e Ele não podia cumprir Seu concerto com eles.

"Por quarenta anos a incredulidade, a murmuração e a rebelião excluíram o antigo Israel da terra de Canaã. Os mesmos pecados têm retardado a entrada do Israel moderno na Canaã celestial. Em nenhum dos casos houve falta da parte das promessas de Deus. É a incredulidade, o mundanismo, a falta de consagração e a contenda entre o professo povo de Deus que nos têm detido neste mundo de pecado e dor por tantos anos" (Evangelismo, págs. 695 e 696).

Estas palavras de Ellen White se harmonizam com o que já descobrimos quanto à forma de atuar de Deus em relação à humanidade, e se harmonizam com o fato de que o livre-arbítrio possui um papel crucial na operação dos planos de Deus para esta Terra. Podemos compreender melhor a predição não cumprida de E. White feita em 1856 ao examiná-la à luz do caráter condicional das promessas proféticas achadas nas Escrituras.

[Adaptado de Francis D. Nichol, "As predições da visão de 1856", em Ellen G. White e Seus Críticos (Hagerstown, MD: Review and Herald Publishing Association, 1951), págs. 102-111.] Traduzido de "Ellen G. White Estate" (Selected Issues Regarding Inspiration and the Life and Work of Ellen G. White). http://www.whiteestate.org. Tradução: Matheus.

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