Em Gênesis, Deus cria; em Babel, o homem tenta ocupar Seu lugar. Quando a biotecnologia promete fabricar vida e a igreja aplaude, o pecado não é científico, é teológico.
Babilônia apenas repetiu Babel; o escândalo foi o povo profético ter dito “amém” ao mesmo projeto. Nesse ponto, a falência não é ética — é profética. Não foi apenas um tropeço administrativo; foi um colapso espiritual. Quando sistemas seculares impuseram limites éticos à biotecnologia e a igreja que se dizia profética escolheu acomodação, o eixo moral se inverteu: Babilônia passou a conter o mal, e o povo do advento passou a justificá-lo.
Babel não terminou em Gênesis; ela amadureceu até Apocalipse 18. O mesmo impulso de “façamos um nome para nós” reaparece agora industrializado, legitimado e ungido por discursos éticos que dispensam arrependimento. Quando a igreja perde a coragem de dizer “saí dela, povo meu” e prefere negociar limites com Babilônia, já não é sentinela — é parte do comércio. A queda anunciada em Apocalipse 18 não surpreende o sistema; surpreende apenas quem confundiu acomodação com sabedoria e silêncio com discernimento profético.
Nesse instante, a profecia deixou de advertir, a ética deixou de confrontar, e a sentinela abandonou o posto. O que se revelou ali não foi progresso, mas rendição — não discernimento, mas submissão cultural — selando a falência profética não no laboratório, mas no coração institucional.
Há momentos em que a pressa em “parecer relevante” diante do mundo produz um efeito colateral perigoso: falar antes, mas falar torto.
Em 1998, a liderança mundial da Igreja Adventista do Sétimo Dia emitiu uma declaração oficial sobre clonagem humana. Seis anos depois, em 2004, o Vaticano publicou seu próprio documento. O fato bruto é este: o adventismo institucional se posicionou antes de Roma. A tentação é transformar isso em troféu profético: “saímos na frente de Babilônia”. O problema é que, quando se lê os dois textos com honestidade, o constrangimento aparece: falamos antes, mas falamos de modo mais fraco, mais negociável e mais rendido ao espírito do tempo.
O escândalo não está no calendário. O escândalo está no conteúdo, no tom e, principalmente, na teologia moral que sustenta cada posição. O que se revela aqui é a convergência ética entre o adventismo institucional e Roma no coração da biopolítica moderna — exatamente o terreno onde Babilônia constrói consensos globais.

1) O Fato Histórico Incômodo: A IASD Falou Antes de Roma
27 de setembro de 1998, Foz do Iguaçu, Brasil. A Comissão Executiva do Concílio Anual da Conferência Geral vota o documento “Declaração sobre Considerações Éticas com respeito à Clonagem Humana”. O texto reconhece riscos médicos, ameaças à dignidade humana, instrumentalização de pessoas, problemas familiares e perigos comerciais. Ao final, declara que, no presente estado do conhecimento, a clonagem humana é considerada inaceitável.
27 de setembro de 2004, Vaticano. A Santa Sé publica seu documento oficial sobre clonagem humana e células-tronco. O texto condena tanto a clonagem reprodutiva quanto a chamada “clonagem terapêutica”, defende a pesquisa com células-tronco adultas e pede uma proibição internacional da clonagem humana.
Conclusão objetiva: a IASD se posicionou seis anos antes de Roma. Quem gosta de slogans pode dizer: “saímos na frente de Babilônia”. Mas o exame honesto mostra que a velocidade não compensou a fragilidade moral do discurso adventista.
2) Convergência Ética: Adventismo Institucional e Roma Falando a Mesma Língua
Apesar das diferenças doutrinárias profundas, os dois documentos convergem em pontos centrais:
- Ambos reconhecem que a clonagem humana ameaça a dignidade da pessoa;
- Ambos alertam para a instrumentalização do ser humano;
- Ambos apontam riscos biológicos graves;
- Ambos falam em proteção da vida humana;
- Ambos reconhecem o perigo de transformar pessoas em meios, produtos e ferramentas.
O problema profético não é apenas a coincidência de conclusões. O problema é o cenário: biotecnologia global, ética global, consenso moral internacional, apelos a organismos multilaterais e a uma linguagem universal de “dignidade humana”. Este é exatamente o terreno onde Babilônia opera: não por confissão doutrinária, mas por convergência moral civilizatória.
O adventismo institucional, ao invés de denunciar esse movimento de padronização ética global como parte da arquitetura profética do fim, passa a participar dele — tentando apenas chegar alguns anos antes ao microfone.
3) A Porta Entreaberta da IASD: Condenamos Hoje, Aprovamos Amanhã?
A parte mais grave do documento adventista não está no corpo do texto, mas na nota de rodapé. Ali se afirma que:
“Pode haver situações futuras nas quais a clonagem humana poderá ser considerada benéfica e moralmente aceita.”
Ou seja: a condenação adventista não é de princípio, é circunstancial. A clonagem não é errada em si; ela é errada no presente estado do conhecimento. Se amanhã a técnica se tornar “segura”, “eficiente” e “controlável”, a liderança já deixou aberta a porta para uma reinterpretação moral.
Isso não é detalhe técnico. Isso é teologia moral. Isso revela um padrão: a ética não é ancorada em princípios absolutos, mas em avaliações técnicas de risco e utilidade. A moral passa a ser calibrada pela ciência, pela viabilidade tecnológica e por cenários futuros hipotéticos.
Esse é exatamente o espírito da modernidade biotecnológica: “não sabemos ainda, mas talvez amanhã seja aceitável”. É a moral do vamos ver até onde dá.
4) Roma Fecha a Porta: Clonagem é Errada em Si
O documento do Vaticano, com toda a sua teologia problemática e estrutura de poder que a Escritura denuncia profeticamente, é paradoxalmente mais coerente em um ponto específico: a clonagem humana é errada em si mesma.
Roma não diz: “é errada por enquanto”. Diz que:
- a clonagem fere a dignidade humana em sua própria lógica;
- transforma o ser humano em artefato;
- introduz uma lógica de zootechnia aplicada à pessoa;
- abre caminho para mercantilização da vida;
- é incompatível com o respeito ontológico ao ser humano.
Mais ainda: o Vaticano afirma que a chamada “clonagem terapêutica” é eticamente ainda pior do que a reprodutiva, pois cria um ser humano com a finalidade explícita de destruí-lo. Aqui Roma fecha a porta sem deixar “rodapés de escape”.
Ironia histórica: o sistema que o adventismo identifica profeticamente como Babilônia fala com mais rigidez moral do que o próprio adventismo institucional em um tema-chave da bioética moderna.
5) O Verdadeiro Escândalo: Não é Quem Falou Primeiro, é Quem Falou como o Sistema
O verdadeiro escândalo não é que a IASD falou antes de Roma. O escândalo é que ambas estão falando dentro da mesma gramática moral do sistema global: dignidade humana abstrata, ética biomédica universal, consenso internacional, apelos à ONU, linguagem de governança planetária da vida.
O adventismo histórico foi levantado para denunciar sistemas, não para competir com eles em quem publica primeiro documentos éticos alinhados com a arquitetura moral do mundo. O chamado profético não é “chegar antes ao debate”, mas desmascarar o próprio enquadramento do debate.
Quando a igreja passa a disputar protagonismo dentro da lógica moral do sistema, ela já perdeu o lugar profético. Ela pode até falar contra alguns abusos, mas já aceitou o tabuleiro, as regras e o vocabulário de Babilônia.
6) A Teologia por Trás da Ética: Princípios Eternos ou Moral Tecnocrática?
O documento adventista revela uma teologia ética perigosamente moldável: o que hoje é inaceitável pode amanhã tornar-se aceitável se a tecnologia “evoluir”. Isso substitui princípios por protocolos, convicções por comitês, e mandamentos por avaliações de risco.
Isso não é apenas um problema de bioética. É um problema de eclesiologia, de autoridade espiritual e de submissão silenciosa ao espírito do século. A igreja deixa de ser coluna e baluarte da verdade para tornar-se consultora religiosa do progresso científico.
Roma, por razões teológicas próprias e problemáticas em muitos outros campos, foi mais coerente neste ponto específico. Isso não a torna correta no todo — apenas expõe o quanto o adventismo institucional se deslocou de um terreno de princípios absolutos para um terreno de ética negociável.
7) Conclusão: A Pressa Não Foi Profética — Foi Institucional
Não, não “saímos na frente de Babilônia” em termos proféticos. Saímos na frente em termos burocráticos. Falamos antes, mas falamos como quem já dialoga com o mundo nos seus próprios termos. A diferença de seis anos é irrelevante diante da semelhança estrutural do discurso.
O adventismo não foi levantado para ser mais rápido na produção de documentos éticos do que Roma, mas para ser mais fiel às categorias bíblicas que denunciam o sistema que Roma representa. Quando a igreja troca denúncia profética por participação no consenso moral global, ela pode até ganhar aplausos por “responsabilidade ética”, mas perde o fio da sua identidade profética.
O problema não é ter falado cedo. O problema é ter falado como o sistema.

