Como a liderança da IASD deslocou o limite bíblico da criação para o terreno da bioética técnica — e abriu caminho para a declaração de 1998

O mesmo autor que ajudou a redigir a posição oficial depois “educou” a igreja a aceitá-la. A criação deixou de ser sagrada — passou a ser negociável.
Nota histórica: A posição adotada pela IASD no final dos anos 1990, ao distinguir entre clonagem reprodutiva (rejeitada) e transferência nuclear com fins terapêuticos (admitida em certos contextos), passou a influenciar a formação bioética adventista global nas décadas seguintes.
Essa linha de pensamento foi incorporada em ambientes acadêmicos, hospitalares e educacionais da denominação em diferentes regiões do mundo, moldando documentos, currículos e debates institucionais sobre células-tronco, engenharia genética e medicina regenerativa.
O resultado foi a consolidação de um paradigma no qual decisões sobre os limites da criação passaram a ser mediadas prioritariamente por comissões técnicas e referenciais biomédicos, em detrimento de um limite teológico absoluto derivado da doutrina bíblica da criação.

Criação em Laboratório: Como a IASD Preparou o Caminho para a Clonagem Humana
Não foi um salto repentino. Foi um deslizamento doutrinário calculado. A atual postura institucional da IASD diante da clonagem humana e da pesquisa com embriões não surgiu do nada. Ela foi cuidadosamente construída ao longo dos anos por meio de documentos “educacionais”, textos de formação ética e artigos acadêmicos que, sob a aparência de equilíbrio científico, operaram uma reengenharia silenciosa da doutrina da criação.
Dois textos publicados no Journal of Adventist Education, assinados pelo microbiologista adventista Anthony J. Zuccarelli (2002–2003), funcionam como pilares desse processo. Eles não apenas analisam a clonagem e a biotecnologia moderna — eles redefinem os limites espirituais da criação, substituindo a autoridade bíblica por critérios técnicos, comitês éticos e consensos biomédicos.
1) A Clonagem Não É Condenada por Ser Rebelião Contra Deus — Apenas por Ser Perigosa
O primeiro texto, sobre clonagem reprodutiva, condena a prática principalmente por motivos técnicos: altas taxas de falha, malformações, abortos espontâneos e riscos graves à mulher gestante. A linguagem religiosa aparece como pano de fundo, mas o critério real é outro: a clonagem é considerada errada porque ainda não é segura.
Isso é decisivo. O problema moral não é a usurpação do ato criador de Deus, nem a violação do limite entre criatura e Criador. O problema é a ineficiência técnica. Assim, a porta fica aberta para o dia em que a tecnologia “funcionar”. O pecado não é clonar — é clonar mal.
Essa inversão é teologicamente devastadora. A criação deixa de ser sagrada e passa a ser apenas provisoriamente intocável, até que a ciência “aperfeiçoe” o método.
2) A Redefinição do Valor da Vida: O Embrião Como Matéria-Prima
No segundo texto, o deslocamento é ainda mais grave. Para justificar a pesquisa com células-tronco embrionárias e a chamada “clonagem terapêutica”, o artigo adota uma visão de “pessoa em formação”, afirmando que o embrião humano nos primeiros dias não possui ainda pleno status moral.
Na prática, isso introduz no pensamento adventista uma noção estranha à teologia bíblica: a de que a vida humana só adquire valor pleno gradualmente. Antes da implantação no útero, antes do sistema nervoso, antes da “consciência”, o embrião pode ser criado e destruído em laboratório para fins terapêuticos.
Essa lógica transforma o ser humano em recurso biomédico. A criatura passa a ter valor funcional. A vida deixa de ser dom de Deus e passa a ser material de pesquisa, desde que o estágio de desenvolvimento permita que a consciência institucional permaneça “em paz”.
3) O Golpe Final: A Clonagem Terapêutica Como “Solução Ética”
O texto apresenta a clonagem terapêutica (transferência nuclear) como uma alternativa “promissora” para evitar rejeição imunológica em transplantes. Traduzindo sem eufemismos: cria-se um embrião humano em laboratório para depois destruí-lo e extrair células.
Embora o próprio autor reconheça que isso causa repulsa ética a muitos cristãos, a objeção é relativizada com um argumento técnico: se o embrião não é “ainda” uma pessoa, então sua destruição pode ser justificada por benefícios médicos.
Esse é o ponto de ruptura. A clonagem humana deixa de ser tabu moral e passa a ser apenas uma questão de estágio biológico. O limite não é mais “não criarás vida para destruí-la”, mas “não destruirás vida em estágio avançado demais para incomodar a ética do comitê”.
4) O Mecanismo Institucional: Como a Porta Foi Aberta
Quando se lê os dois textos em conjunto, o mecanismo fica claro:
- Condena-se a clonagem reprodutiva por falhas técnicas, não por princípio espiritual.
- Redefine-se o valor da vida embrionária para permitir exceções “éticas”.
- Introduz-se a clonagem terapêutica como aceitável em certos contextos.
- Substitui-se o “limite de Deus” por “comitês de bioética”.
- Normaliza-se a criação de vida humana para descarte.
Esse é o terreno sobre o qual a declaração oficial da IASD de 1998 pôde ser construída sem escândalo interno. A base já estava preparada. O povo já havia sido educado a pensar dentro dos limites do discurso biomédico secular, apenas com verniz religioso.
5) O Resultado Final: A Criação Deixou de Ser Sagrada
O efeito teológico é devastador: a criação deixou de ser vista como território sagrado de Deus e passou a ser tratada como plataforma experimental do homem. A biotecnologia não é mais confrontada como possível repetição moderna do “ser como Deus”, mas celebrada como extensão legítima da criatividade humana.
Não é mais Deus quem define o limite do laboratório. É o laboratório que redefine os limites de Deus.
Este é o verdadeiro escândalo. Não apenas a clonagem humana, mas o processo silencioso de acomodação teológica que ensinou o adventismo institucional a aceitá-la — primeiro como impensável, depois como debatível, depois como eticamente negociável.

Como a IASD Criou o Mecanismo que Permitiu a Declaração de 1998
Isso muda completamente a leitura dos textos posteriores. Eles não foram reflexões neutras ou tardias, mas parte do mesmo projeto teológico-institucional que, primeiro, definiu a posição oficial e, depois, educou o corpo pastoral e docente a aceitá-la como “equilíbrio ético”.
1) Autoria Institucional: O Mesmo Arquiteto da Declaração Molda a Consciência do Corpo Docente
Quando o autor de uma declaração oficial passa a escrever textos pedagógicos para professores e líderes, o que ocorre não é apenas “debate acadêmico”: ocorre transferência de visão institucional para a base. O mesmo raciocínio que permitiu, em 1998, admitir a transferência nuclear de células somáticas como moralmente aceitável em certos contextos é o raciocínio que, depois, aparece refinado nos artigos do Journal of Adventist Education.
Isso caracteriza um processo de engenharia doutrinária. A decisão nasce no topo; a racionalização desce para a base. A posição é tomada; a teologia é adaptada para justificá-la. O povo não é chamado a julgar a decisão à luz da revelação — é educado a compreendê-la à luz da bioética.
2) A Substituição do Limite de Deus por Limites Técnicos
O primeiro movimento do mecanismo foi sutil: tirar Deus do centro do limite moral. A clonagem reprodutiva passou a ser criticada principalmente por ser perigosa, ineficiente e instável — não por ser uma afronta direta à ordem da criação. O problema deixou de ser “o homem querendo ocupar o lugar de Deus” e passou a ser “a tecnologia ainda não está pronta”.
Com isso, o princípio teológico foi trocado por um critério técnico. Se um dia a tecnologia se tornar segura, a objeção desaparece. O limite deixa de ser absoluto e passa a ser provisório. O pecado deixa de ser ontológico e vira apenas falha de método.
3) A Redefinição do Valor da Vida Humana
O segundo movimento foi ainda mais profundo: redefinir quando a vida humana passa a ter valor moral pleno. Ao adotar a ideia de que o embrião inicial não é “ainda” plenamente pessoa, o discurso institucional abriu uma exceção estrutural na doutrina da criação.
Na prática, isso introduziu no adventismo um conceito alheio à sua tradição bíblica: o de que a dignidade humana é progressiva. A vida deixa de ser sagrada desde o princípio e passa a adquirir valor conforme critérios biológicos (implantação, sistema nervoso, consciência). Com isso, criar e destruir embriões em laboratório passa a ser moralmente negociável.
Quando a criatura deixa de ser vista como criação direta de Deus desde o início, ela se torna material disponível. O embrião deixa de ser próximo e passa a ser recurso.
4) A Normalização da Linguagem Bioética Secular
O terceiro movimento foi linguístico e cultural: a normalização do vocabulário da bioética secular dentro do discurso adventista. Termos como “equilíbrio”, “consenso científico”, “ponderação de riscos e benefícios”, “comissões de ética” e “complexidade do tema” substituíram progressivamente a linguagem bíblica de limite, santidade, criação e profanação.
Não se discutia mais o que Deus proibiu ou estabeleceu. Discutia-se o que era “aceitável no momento atual do desenvolvimento científico”. O referencial deixou de ser vertical (revelação) e passou a ser horizontal (comunidade acadêmica).
5) A Reeducação da Consciência do Corpo Pastoral e Docente
Esse mecanismo não foi implantado por decretos, mas por formação continuada. Artigos em revistas educacionais, materiais para professores, debates em ambientes acadêmicos adventistas e linguagem “moderada” foram moldando a percepção do corpo pastoral e docente. O resultado foi uma geração de líderes treinados para pensar a biotecnologia não em termos de transgressão espiritual, mas de gestão ética de riscos.
Quando a declaração de 1998 foi publicada, ela não soou estranha para muitos. O terreno já estava preparado. O escândalo teológico já havia sido anestesiado por anos de acomodação conceitual.
6) A Declaração de 1998 Como Fruto Maduro, Não Como Desvio Isolado
A declaração da IASD em 1998 não deve ser lida como um “deslize pontual”, mas como o fruto maduro de um processo. Ela apenas formalizou aquilo que já vinha sendo ensinado: que a clonagem não é um mal em si mesma, mas um problema de segurança, estágio tecnológico e enquadramento ético.
O que mudou não foi apenas a posição sobre clonagem. Mudou o próprio critério de juízo moral. A criação deixou de ser um território sagrado intocável e passou a ser um campo de experimentação regulada. A teologia cedeu espaço à tecnocracia ética.
7) O Resultado Espiritual: A Criação como Plataforma Experimental
O resultado final desse mecanismo é uma inversão silenciosa: não é mais Deus quem delimita o laboratório, é o laboratório que passa a reinterpretar Deus. A pergunta deixou de ser “isso honra o Criador?” e passou a ser “isso é tecnicamente viável e socialmente aceitável?”
Quando a criação perde seu caráter sagrado, ela se torna editável. Quando o limite de Deus é substituído por comitês, o pecado passa a depender de aprovação institucional.
Foi assim que a IASD criou o mecanismo que permitiu a declaração de 1998: não por ruptura aberta com a fé histórica, mas por um processo lento de acomodação, em que a linguagem da ciência foi tomando o lugar da linguagem da revelação, até que a criação pudesse ser discutida — e manipulada — como qualquer outro objeto técnico.