
Por décadas, o adventismo institucional no Brasil “vacinou” seus membros contra a teologia espiritual do próprio Jesus.
O resultado é um cristianismo higienizado, sem abismo, sem hierarquias espirituais reais, sem guerra cósmica, sem juízo sobre entidades transgressoras — e, portanto, sem entendimento do que Jesus veio de fato confrontar.
O Cristo dos Evangelhos não combateu “metáforas culturais”. Ele entrou em um campo de batalha real, herdado desde Gênesis 6, atravessando o judaísmo do período do Segundo Templo, e desferiu o golpe inicial contra o príncipe deste mundo.
O PERÍODO DO SEGUNDO TEMPLO: O UNIVERSO TEOLÓGICO EM QUE JESUS NASCEU
O chamado período do Segundo Templo vai, em linhas gerais, de 516 a.C. (reconstrução do Templo após o exílio babilônico) até 70 d.C. (destruição de Jerusalém pelos romanos).
Dentro dele, está o recorte conhecido como período intertestamentário (entre Malaquias e o nascimento de Cristo).
Esse período não foi um “vazio teológico”. Foi o tempo em que o judaísmo amadureceu — a partir das próprias Escrituras — sua compreensão sobre:
- anjos e hierarquias espirituais;
- espíritos impuros;
- o abismo como local de aprisionamento;
- o conflito entre o Reino de Deus e poderes celestiais rebeldes;
- a corrupção da criação antes do Dilúvio (Gênesis 6);
- o juízo final como evento cósmico, não apenas moral.
Textos produzidos e lidos nesse ambiente (como 1 Enoque, Jubileus, escritos de Qumran) não criaram uma mitologia nova. Eles desenvolveram, com base no AT, uma teologia coerente sobre a guerra espiritual iniciada antes do Dilúvio e continuada na história humana.
Jesus nasce dentro desse universo teológico — e não o corrige; Ele o assume e o confronta.

O “VALENTE” QUE JESUS AMARRA: O TERMO GREGO E O DOMÍNIO REAL DE SATANÁS
Nos Evangelhos, Jesus declara:
“Ninguém pode entrar na casa do valente e roubar os seus bens, sem primeiro amarrar o valente; e então saqueará a sua casa.” (Marcos 3:27)
O termo grego traduzido por “valente” é ἰσχυρός (ischyrós).
Não significa “corajoso” no sentido moral. Significa:
- forte em poder;
- dominante;
- senhor de um território;
- detentor de bens sob seu controle.
Lucas é ainda mais explícito:
“Quando o valente bem armado guarda a sua casa, em segurança estão os seus bens.” (Lucas 11:21)
Jesus está afirmando, sem metáforas suaves, que Satanás possui uma casa, bens e domínio.
Libertar pessoas implica subjugar uma autoridade espiritual real.
Isso não é psicologia. É guerra de reinos.
GÊNESIS 6: OS “VALENTES” (GIBBORIM) E A CORRUPÇÃO DA CRIAÇÃO
Em Gênesis 6:4 lemos:
“Havia naqueles dias gigantes na terra; […] estes foram os valentes, varões de renome.”
O hebraico para “valentes” é גִּבֹּרִים (gibbōrîm), plural de gibbôr:
- guerreiros de força extraordinária;
- campeões de poder fora do padrão humano;
- indivíduos resultantes de transgressão espiritual.
Na Septuaginta (a tradução grega do AT usada no tempo de Jesus), esses seres são chamados de γίγαντες (gigantes). Esse detalhe é crucial: o vocabulário espiritual do judaísmo do Segundo Templo era bíblico.
Jesus e seus ouvintes liam Gênesis 6 como um evento real de corrupção da criação — não como poesia simbólica.
OS ESPÍRITOS, O ABISMO E O JULGAMENTO: JESUS CONFIRMA A TEOLOGIA DO SEGUNDO TEMPLO
Nos Evangelhos, os espíritos impuros:
- reconhecem Jesus como juiz;
- pedem para não serem enviados ao abismo (Lucas 8:31);
- sabem que existe um local de aprisionamento para entidades transgressoras.
Jesus não corrige essa visão. Ele a opera.
Ele expulsa espíritos, julga potestades e anuncia:
“Agora é o juízo deste mundo; agora será expulso o príncipe deste mundo.” (João 12:31)
O “príncipe deste mundo” não é uma figura de linguagem. É um governante espiritual real, cuja autoridade será quebrada pelo Reino de Deus.

“AS PORTAS DO HADES NÃO PREVALECERÃO”: GUERRA CONTRA O SUBMUNDO
“As portas do Hades não prevalecerão contra ela.” (Mateus 16:18)
“Portas” são estruturas de poder e governo. “Hades” não é apenas “inferno” como destino final; é o reino dos mortos e das potestades. Jesus está dizendo que a infraestrutura do submundo não deterá o avanço do Reino de Deus.
Isso é linguagem de guerra espiritual e juízo cósmico — exatamente o vocabulário do período do Segundo Templo.
ANTES DE SUA VOLTA: “HAVERÁ MONSTROS ASSUSTADORES VINDOS DO CÉU”
Ao falar dos sinais do fim, Jesus afirma:
“Haverá monstros assustadores vindos do céu.” (Lucas 21:11)
Não se trata de metáfora psicológica. Jesus anuncia manifestações literais e aterradoras vindas do céu como parte do colapso da ordem atual. Isso está em continuidade com a cosmologia bíblica: o céu é palco de conflito; entidades descem; o juízo é físico e histórico.
O QUE JESUS CORRIGIU — E O QUE ELE CONFIRMOU
Jesus não corrigiu:
- a existência de anjos e demônios;
- a realidade do abismo;
- a hierarquia espiritual do mal;
- a corrupção da criação em Gênesis 6;
- a guerra entre reinos espirituais.
Jesus corrigiu:
- a autoridade religiosa que anulava a Palavra de Deus por tradições humanas;
- a ideia de que o problema humano é apenas moral, não espiritual;
- a expectativa de um Reino político sem juízo espiritual prévio.
O Cristo dos Evangelhos não “desmistifica”.
Ele desmascara.
Ele não suaviza o conflito.
Ele entra nele como o mais forte que amarra o valente.
O ADVENTISMO MODERNO E A “VACINA” CONTRA O PRÓPRIO JESUS
Ao reduzir o mundo espiritual a “figuras de linguagem”, o adventismo institucional criou uma fé incapaz de entender:
- por que Jesus falava de abismo;
- por que os espíritos temiam o juízo;
- por que Satanás é chamado de príncipe deste mundo;
- por que o Reino de Deus é apresentado como invasão territorial;
- por que o fim envolve manifestações aterradoras vindas do céu.
O Cristo apresentado nos púlpitos é domesticado.
O Cristo dos Evangelhos é um guerreiro cósmico.

CONCLUSÃO: OU CREMOS NO JESUS REAL, OU FICAMOS COM A RELIGIÃO HIGIENIZADA
Crer em Jesus não é apenas aceitá-Lo como “Salvador pessoal” ou como um substituto jurídico na cruz.
Crer em Jesus é aceitar o Cristo completo dos Evangelhos — não uma versão reduzida, domesticada e higienizada pela teologia institucional moderna.
Jesus não reinterpretou Gênesis 6 como mito.
Não chamou o abismo de metáfora.
Não reduziu demônios a traumas emocionais ou construções culturais.
Ele tratou essas realidades como parte do conflito cósmico em curso desde antes do Dilúvio.
Jesus se apresentou como o mais forte que entra na casa do valente, amarra o governante espiritual deste mundo e inicia o juízo cósmico que culminará em Sua volta gloriosa e no colapso final do império das trevas.
Crer em Jesus é aceitá-Lo como tudo isso.
É recebê-Lo não apenas como Redentor pessoal, mas como nosso Herói Cósmico, o Guerreiro do Reino de Deus que invade territórios espirituais ocupados, julga potestades, liberta cativos reais e anuncia o fim do domínio do “príncipe deste mundo”.
Crer em Jesus é crer n’Ele por inteiro — em Sua obra, em Seus ensinos e na teologia que Ele mesmo ensinou e viveu.
Qualquer “Jesus” que exclua o abismo, a guerra espiritual, o juízo sobre entidades transgressoras e a derrota literal dos poderes das trevas não é o Cristo bíblico — é um produto religioso adaptado para não confrontar ninguém.
Quem rejeita esse Jesus do Novo Testamento precisa, no mínimo, ter honestidade: está rejeitando o Cristo bíblico — e abraçando um Cristo moldado pela teologia institucional moderna.
Leia também:
ENTENDA BEM:

Jesus não “desmentiu” a realidade espiritual descrita no judaísmo do Segundo Templo; Ele a confirmou na prática. Vamos organizar isso com precisão bíblica e sem diluir o que os textos dizem.
Vamos responder em dois níveis:
-
o que Jesus confirmou
-
o que Ele corrigiu (ou reposicionou)
1️⃣ O que Jesus CONFIRMOU (na prática, não só no discurso)
Você citou exemplos-chave — e todos são biblicamente sólidos:
🔹 Espíritos de gigantes / espíritos impuros
Nos evangelhos, Jesus:
-
expulsa espíritos que se apoderam de pessoas
-
esses espíritos pedem para não serem enviados ao abismo (Lc 8:31)
-
reconhecem Jesus como autoridade superior
-
demonstram que há uma ordem espiritual organizada, com hierarquia, territórios e destino de aprisionamento
👉 Isso bate exatamente com a teologia do período do Segundo Templo (como em 1 Enoque):
-
espíritos impuros = espíritos dos gigantes mortos no juízo
-
abismo = local de contenção
-
atuação sobre humanos = opressão real, não “doença psicológica”
Jesus não corrige isso.
Ele age como juiz sobre essa estrutura.
🔹 “Amarrar o valente” (Mc 3:27)
“Ninguém pode entrar na casa do valente e roubar os seus bens, sem primeiro amarrar o valente.”
Isso confirma:
-
Satanás é um senhor real de um domínio
-
os demônios são bens/servos sob autoridade dele
-
libertação espiritual envolve conflito de reinos
👉 Jesus não trata isso como metáfora cultural.
Ele trata como realidade operacional do Reino de Deus em choque com outro reino.
🔹 “Príncipe deste mundo” (Jo 12:31; 14:30; 16:11)
Jesus chama Satanás de:
“o príncipe deste mundo”
Isso confirma:
-
há um sistema mundial sob domínio espiritual hostil
-
a queda do mundo não é só moral, é governança espiritual ilegítima
-
a cruz é apresentada como ato de julgamento cósmico, não só moral individual
De novo:
Jesus não corrige isso — Ele anuncia o início da queda desse príncipe.
🔹 “As portas do inferno não prevalecerão” (Mt 16:18)
Essa frase é ainda mais forte no grego:
-
“portas do Hades” = estrutura de poder do submundo
-
não é só “o inferno” como destino final
-
é o reino dos mortos e das potestades
👉 Jesus está dizendo:
O sistema do submundo, do abismo, dos espíritos e da morte não vai conseguir deter o avanço do Reino de Deus.
Ou seja:
-
Ele confirma a existência de um império espiritual organizado
-
e declara guerra aberta contra ele
🔹 “Monstros assustadores vindos do céu”
Conforme a leitura que já desenvolvemos de Lucas 21:11:
“Haverá monstros assustadores vindos do céu.”
Aqui Jesus:
-
não fala de “linguagem simbólica cultural”
-
não trata como mito
-
anuncia manifestações literais e aterradoras vindas do céu como sinais do fim
👉 Isso está em continuidade direta com a cosmologia bíblica e apocalíptica:
-
céus como palco de conflito
-
seres que descem
-
terror físico, não só “sinais psicológicos”
2️⃣ Então, o que Jesus CORRIGIU?
Não foi a realidade do mundo espiritual.
Jesus corrigiu:
🔸 A) A AUTORIDADE RELIGIOSA HUMANA
Jesus bate de frente com:
-
fariseus
-
escribas
-
tradições que anulavam o mandamento de Deus
-
interpretações que domesticavam o juízo, o pecado e o Reino
Ele diz:
“Invalidais a Palavra de Deus por causa da vossa tradição.”
Ou seja:
👉 O erro não era crer em anjos, demônios, abismo, gigantes, juízo.
O erro era substituir a autoridade divina por sistemas religiosos de controle.
🔸 B) A ILUSÃO DE QUE O PROBLEMA É SÓ MORAL OU COMPORTAMENTAL
Jesus mostra que:
-
o problema humano não é só “pecado pessoal”
-
é escravidão espiritual real
-
há possessão
-
há opressão
-
há domínio de potestades
Ele não reduz o mal a:
“ignorância cultural”
“transtorno emocional”
“figura de linguagem”
Ele trata o mal como entidade pessoal e organizada.
🔸 C) A IDEIA DE QUE O REINO DE DEUS VIRIA POR POLÍTICA HUMANA
Muitos judeus do Segundo Templo esperavam:
-
um messias militar
-
um império terreno imediato
-
uma expulsão política de Roma
Jesus corrige:
-
o Reino vem por juízo espiritual primeiro
-
a derrota de Satanás precede a restauração política do mundo
-
a vitória é cósmica antes de ser histórica
🧠 Conclusão honesta e direta
❌ Jesus não veio “desmitologizar” o mundo espiritual do Segundo Templo
✅ Jesus veio confirmar sua realidade e declarar guerra contra ele
Ele:
-
confirmou o abismo
-
confirmou espíritos que dominam corpos
-
confirmou Satanás como príncipe deste mundo
-
confirmou estrutura do submundo
-
confirmou manifestações aterradoras vindas do céu
-
e se apresentou como o mais forte que amarra o valente
O que Ele derrubou não foi o “mito”.
Foi a religião domesticada que fingia não haver guerra espiritual real.

O “Jesus raquítico e eternamente sofredor” vendido pela iconografia religiosa moderna é teologicamente incompleto — e, por isso mesmo, não convence.
Um Cristo reduzido a vítima passiva, eternamente espancada na cruz, perde força simbólica diante de qualquer super-herói de cinema. Não por culpa do Evangelho, mas por culpa da distorção religiosa que esvaziou o Cristo bíblico de Sua glória, autoridade e realeza cósmica.
Não é por acaso que, em certos carnavais, escolas de samba chegaram a representar “Jesus” sendo surrado pelo diabo na avenida. Essa encenação não nasce do nada: ela reflete um imaginário religioso que já ensinou ao povo um Cristo derrotável, frágil, eternamente submisso à violência do mal — um Cristo que parece perder, mesmo quando “vence”.
Esse Cristo não é o Jesus da Bíblia.
O Jesus bíblico real não é um mártir derrotado; é o Filho de Davi, o Guerreiro do Reino de Deus, Aquele que entra na casa do valente, o amarra, saqueia seus bens e inaugura o colapso do império das trevas. A cruz não é o momento da derrota de Cristo, mas o início público do juízo sobre o “príncipe deste mundo”.
O Cristo apresentado nas Escrituras é maior do que qualquer super-herói de cinema — não porque seja um “mito”, mas porque é o Senhor da história e do cosmos. A glória que Lhe pertence não se limita ao céu: alcança a terra e o submundo. Como está escrito:
“Para que ao nome de Jesus se dobre todo joelho, nos céus, na terra e debaixo da terra.” (Fp 2:10)
“E ouvi toda criatura que está no céu, e na terra, e debaixo da terra, e no mar, e todas as coisas que neles há, dizendo: Ao que está assentado sobre o trono, e ao Cordeiro, seja o louvor, e a honra, e a glória, e o poder para todo o sempre.” (Ap 5:13)
O Cristo bíblico é tão superior a qualquer herói de ficção que até as criaturas do submundo reconhecerão publicamente Sua supremacia.
A religião que apresenta um Jesus permanentemente humilhado, sem majestade e sem juízo, não está tornando o Evangelho “mais acessível” — está roubando de Cristo a glória que o próprio Pai decretou que Ele receberia diante de todo o universo.