Circula nas redes esse vídeo que tem causado incômodo e reflexão entre adventistas atentos. Nele, o pseudo-arqueólogo, palestrante e influencer milionário adventista, Rodrigo Silva, critica os livros apócrifos, apresentando-os como compilações fantasiosas, carregadas de exageros e elementos gnósticos que corromperiam a simplicidade do evangelho.
Na sequência, o próprio vídeo apresenta uma resposta atribuída a Ellen White, em formato de entrevista imaginária, questionando a coerência dessa rejeição absoluta aos apócrifos à luz do próprio histórico do adventismo pioneiro e do uso que muitos fizeram — direta ou indiretamente — desses escritos.
É importante esclarecer desde o início: o vídeo não deve ser entendido como uma “consulta póstuma” a Ellen White.
Adventistas bíblicos rejeitam a ideia de comunicação com mortos, e o próprio uso do recurso é claramente literário e argumentativo, não espiritualista. Trata-se de uma construção retórica: alguém escreveu como se Ellen White estivesse dialogando com um pregador contemporâneo, para expor uma tensão teológica real.
E qual é essa tensão?
De um lado, há a crítica de que os apócrifos “acrescentam coisas que não estão na Bíblia”.
De outro, existe o fato histórico documentado de que:
- Pioneiros adventistas citaram os apócrifos com respeito em diversos contextos.
- Ellen White, em registros antigos, fez declarações positivas sobre os apócrifos enquanto leitura proveitosa.
- A própria tradição adventista aceita que Deus continuou comunicando luz além do cânon bíblico por meio do dom profético.
O vídeo, portanto, não está defendendo espiritismo nem sugerindo revelação póstuma. Ele está levantando uma questão incômoda, mas legítima:
Como sustentar a rejeição absoluta de toda literatura extra-canônica, quando a própria história adventista mostra um relacionamento mais complexo com esse material?
Quem assistir ao vídeo perceberá que os argumentos centrais atribuídos à “voz de Ellen White” giram em torno de três eixos:
- Coerência teológica
Se rejeitamos qualquer texto fora do cânon por “acrescentar detalhes”, como lidamos com o fato de que os próprios escritos de Ellen White contêm inúmeras descrições que não estão explicitamente na Bíblia? - História pioneira
O vídeo relembra que os pioneiros não tratavam os apócrifos com o desprezo automático que hoje é comum em círculos evangélicos. - Honestidade intelectual
A crítica central não é “aceitem os apócrifos”, mas sim: “Se vamos rejeitar algo, rejeitemos com base honesta e histórica — não por tradição herdada de fora do adventismo.”
Por essas razões, o vídeo merece ser assistido com maturidade, espírito crítico e Bíblia aberta.
Não como revelação.
Não como autoridade profética.
Mas como provocação legítima a uma reflexão que a igreja há muito tempo evita enfrentar com seriedade.
Quem ama a verdade não teme o exame.
Quem confia na luz não teme a investigação.
E quem respeita a história não precisa distorcê-la para proteger sistemas.