OS DOIS ROSABAL: Ángel Pérez Rosabal e Argelio Rosabal Fonseca 

Enquanto Ángel esperava a reação de Batista, Argelio mobilizava os irmãos da igreja para salvar os sobreviventes de Fidel*

O Granma não chegou a Cuba como chegam as lendas depois que os vencedores terminam de escrevê-las. O desembarque de 2 de dezembro de 1956 foi um desastre. O iate, superlotado, desembarcou seus homens longe do ponto previsto; os expedicionários atravessaram durante horas um manguezal infernal, atolados até a cintura, abandonando equipamentos, perdendo armas, separando-se uns dos outros e avançando sem saber com precisão onde terminava a água e começava a terra firme. Alguns estavam quase desmaiando. Outros mal conseguiam respirar.

Che Guevara vinha atrasado, castigado pela asma. Fidel Castro desembarcara para derrubar Batista, mas nas primeiras horas mal conseguia impedir que sua própria expedição desaparecesse dentro do mangue. Foi nesse cenário, sem qualquer aparência de triunfo, que Luis Crespo conseguiu enxergar ao longe coqueiros, depois uma casa, e recebeu de Fidel a ordem de avançar para reconhecer a área. Antes de chegar ao casebre, encontrou um camponês que voltava do trabalho no forno de carvão. Sacou a arma, dominou-o e o conduziu até o grupo. O homem chamava-se Ángel Pérez Rosabal. Não estava esperando a Revolução. A Revolução caiu literalmente em seu caminho.

Ángel Pérez Rosabal apareceu diante de Fidel nervoso e apreensivo. Não tinha ido procurar os expedicionários; fora encontrado por Luis Crespo quando regressava do forno de carvão e conduzido sob a mira de uma pistola até o homem que comandava aquela tropa saída do manguezal. Fidel tratou de acalmá-lo imediatamente: “Não tenha medo. Eu sou Fidel Castro. Estes homens e eu viemos libertar Cuba.”

Depois perguntou por caminhos, distâncias e informações sobre a região, e o grupo seguiu para a casa de Ángel. A cena podia parecer, mais tarde, o encontro providencial entre o futuro líder da Revolução e o primeiro camponês que o recebeu em solo cubano. Naquele instante, porém, era outra coisa: um proprietário rural surpreendido por dezenas de homens armados, famintos, enlameados e exaustos, tentando descobrir como sair vivo de uma situação que não havia escolhido.

Fidel percebeu o medo do camponês e apresentou-se com uma frase que, vista dentro da cultura bíblica daquele interior cubano, possuía força quase messiânica: “Não tenha medo. Eu sou Fidel Castro. Somos gente boa e viemos libertar Cuba.” Primeiro, a fórmula tranquilizadora: “não tenha medo”. Depois, a identificação: “eu sou”. Por fim, o anúncio da missão: “viemos libertar Cuba”. Era uma construção que qualquer cristão acostumado aos Evangelhos reconheceria de imediato pela ressonância.

“Não tenha medo” e “eu sou” eram expressões carregadas de memória religiosa, e agora apareciam na boca de um homem coberto de lama, recém-saído do manguezal, cercado por companheiros famintos e exaustos, mas já falando como libertador de uma nação. Fidel ainda não era o comandante vitorioso entrando em Havana; era um fugitivo que não sabia sequer se estaria vivo nos dias seguintes. Mas já se apresentava como alguém investido de uma missão: libertar Cuba.

Ángel precisava ganhar tempo

Ángel era homem do lado de Batista. E, exatamente por isso, não podia permitir-se o gesto estúpido de demonstrar hostilidade. Expulsar Fidel seria impossível; enfrentá-lo, suicídio. O mais sensato era sorrir, responder, oferecer o que houvesse e deixar que os homens acreditassem que estavam seguros. Na casa havia cocos, bananas e comida. Ángel chegou a movimentar-se para providenciar mais. Cada minuto em que os expedicionários permanecessem ali era um minuto a mais para que a notícia atravessasse os caminhos rurais até alguém capaz de fazê-la chegar à Guarda Rural. Não havia telefone naquele casebre, mas naquela região as informações nunca dependeram de fios: viajavam em cavalos, pernas, parentes, vizinhos, trabalhadores e homens que sabiam exatamente onde encontrar um soldado.

E a notícia correu depressa. As primeiras informações sobre o desembarque chegaram ao segundo-tenente Aquiles Chinea, chefe do posto da Guarda Rural em Niquero, “por uma confidência”. Chinea avisou imediatamente a chefia do esquadrão de Manzanillo. Em seguida vieram ordens urgentes, tropas, aviões e o guardacostas 106, que se deslocou para a região e abriu fogo contra o mangue. A reação não levou dias. Começou ainda naquele mesmo período em que os homens do Granma mal conseguiam sair da lama e entender onde estavam.

Ángel não precisava ser o homem que atravessasse pessoalmente a região para procurar um quartel. Bastava fazer o aviso chegar à pessoa certa. Entre os Rosabal havia parentes ligados ao aparelho de Batista, entre eles Rivera, tio de Argelio e cabo do Exército. Numa família espalhada por aquela zona rural, um recado poderia caminhar de mão em mão até transformar-se rapidamente numa informação militar. Para Ángel, a presença de Fidel podia representar também uma oportunidade extraordinária. O governo ainda parecia sólido, a expedição estava em frangalhos e entregar o homem que acabara de desembarcar para derrubar Batista poderia significar prestígio, proteção e recompensa.

A importância adquirida pela casa de Ángel aparece na própria reação militar. Horas depois, um dos aviões que patrulhavam a região metralhou a casa de Manuel Suárez, situada a cerca de dois quilômetros dali, porque a confundiu com a residência de Ángel Pérez. O casebre diante do qual Fidel se apresentara naquela manhã já havia se transformado em referência geográfica para a perseguição. A repressão sabia onde procurar.

A forma como uma delação rural podia funcionar aparece com clareza no que ocorreria logo depois com outro camponês, Tato Pérez Vega. Ele serviu de guia aos expedicionários, esperou a noite, escapou e foi procurar os soldados para lhes entregar o rumo da coluna. No dia seguinte, as forças de Batista já usavam suas informações para deslocar homens e fechar caminhos. Não era necessária uma central telefônica nem um aparelho clandestino: bastava conhecer a região, encontrar a patrulha e falar. Era assim que uma notícia corria naquele mundo.

Ángel, portanto, precisava de duas coisas: manter Fidel tranquilo e fazer o tempo trabalhar a favor de Batista. Durante algum tempo conseguiu ambas. Os expedicionários comeram, beberam, perguntaram por caminhos e acreditaram estar diante de um camponês que os ajudava. Enquanto isso, em algum ponto entre a casa, os vizinhos, os parentes e a Guarda Rural, alguém já carregava a notícia que faria o Exército se mover.

Mas havia um problema que Ángel não podia controlar: a mesma notícia que corria em direção aos homens de Batista podia correr também em direção a outro Rosabal. E, para Argelio, saber que os sobreviventes do Granma estavam na região produziria uma decisão exatamente contrária à do tio.

A mesma notícia, duas decisões

Argelio Rosabal Fonseca recebeu a notícia de outra maneira. Conhecido entre os seus como El Pastor, era homem de igreja, dirigente religioso, líder de uma comunidade adventista e referência espiritual entre aqueles que o cercavam. Quando soube que os homens do Granma estavam dispersos pela região, não enxergou primeiro uma oportunidade política nem uma ameaça militar. Enxergou perseguidos. Homens famintos, sedentos, esfarrapados, feridos, doentes e cercados por soldados.

O que para Ángel podia significar “como entregá-los?”, para Argelio significava “como salvá-los?”. A diferença entre os dois não era apenas política; era moral e religiosa. Ángel esperava que o regime chegasse primeiro. Argelio queria que seus irmãos da igreja encontrassem aqueles homens antes do Exército.

Argelio não tinha diante de si comunistas triunfantes, ministros, generais ou donos do poder. Tinha homens considerados derrotados. A imprensa logo anunciaria que a expedição fora aniquilada e que Fidel Castro estava morto. O regime apresentava a aventura como encerrada. Quem ajudasse aqueles sobreviventes não estaria se aproximando de um vencedor, mas se arriscando por homens que pareciam condenados. Para Argelio, cristão, essa condição apenas tornava o dever mais claro.

Cristo não ensinara que o faminto deveria primeiro apresentar suas credenciais políticas. Mandara alimentá-lo. Não dissera que o perseguido deveria provar que governaria com justiça caso um dia chegasse ao poder. Mandara acolhê-lo. A lógica de Mateus 25 podia ser aplicada quase literalmente àquela situação: homens com fome precisavam de comida, homens quase nus precisavam de roupa, perseguidos precisavam de abrigo, fugitivos precisavam de proteção.

O próprio filho de El Pastor explicaria depois que o pai acreditava que aqueles homens representavam a esperança de um futuro melhor para Cuba. O discurso público de Fidel ainda falava de libertação, justiça para os humildes, derrubada da tirania e uma Cuba mais digna. Não se apresentava ainda como projeto de um Estado socialista moldado pelas décadas seguintes.

Para um cristão rural como Argelio, havia ali uma combinação poderosa: homens perseguidos pelo regime, uma promessa de libertação nacional e uma situação concreta de fome e desamparo. Ele não precisava enxergar neles futuros governantes. Bastava enxergar seres humanos que não deveriam morrer abandonados nos caminhos.

A Adulão cubana

Argelio conhecia uma história parecida. Antes de se tornar rei, Davi foi fugitivo. Perseguido por Saul, refugiou-se na caverna de Adulão, e ali começaram a se reunir ao redor dele homens aflitos, endividados, marginalizados e sem perspectivas. Davi ainda não possuía trono, palácio ou exército nacional. Tinha perseguidos. A grandeza viria depois.

Naquele momento, havia apenas fuga e sobrevivência. Os homens de Fidel apareciam a Argelio de maneira semelhante. Não eram ainda os donos do Estado revolucionário; eram os homens da caverna. Estavam escondidos, famintos, derrotados, cercados e oficialmente enterrados pelos jornais. A resposta de El Pastor foi simples: precisavam ser mantidos vivos.

Foi então que Argelio mobilizou o melhor pessoal de que dispunha: os irmãos da igreja que liderava. Não tinha soldados profissionais, rádios militares, veículos oficiais nem recursos abundantes. Tinha homens e mulheres espalhados pelas casas rurais, famílias que conheciam os caminhos, agricultores acostumados a circular entre sítios, gente capaz de reconhecer trilhas, atalhos, esconderijos e casas seguras. A rede religiosa tornou-se rede de socorro. A orientação era direta: se encontrassem expedicionários, deveriam recolhê-los e avisá-lo imediatamente. Não esperariam que a Guarda Rural chegasse antes. Os irmãos deveriam localizar os homens, alimentá-los, escondê-los e fazer a informação circular até El Pastor.

Entre o encontro de Ángel com Fidel e os dias seguintes, formaram-se assim duas corridas paralelas. De um lado, a estrutura de Batista procurava identificar e capturar sobreviventes. Do outro, Argelio colocava sua comunidade religiosa em movimento para localizá-los antes. Ángel apostava na força do regime existente. Argelio apostava na sobrevivência daqueles que fugiam dele. A mesma família Rosabal podia, portanto, estar ligada a dois caminhos totalmente opostos: um querendo que os rebeldes fossem entregues; outro transformando casas adventistas em pontos de apoio.

Guillermo García, o homem que conhecia a terra

Para essa rede funcionar, Argelio precisava de alguém capaz de mover pessoas através da região sem se perder nem cair diretamente nas mãos do Exército. Esse homem era Guillermo García. Vinha de família pobre, crescera naquele território e conhecia caminhos, propriedades, atalhos, montanhas e famílias como poucos.

Não precisava consultar mapa; a região estava gravada em sua memória. Sabia por onde uma patrulha costumava passar, onde um grupo poderia ser escondido, que família era confiável e qual rota permitiria deslocar homens sem chamar atenção. Era jovem, ambicioso e declarava-se favorável a Fidel quando ainda era perigoso fazer isso. A Revolução podia representar para ele não apenas uma causa, mas uma possibilidade de futuro que a pobreza rural dificilmente ofereceria.

Argelio tinha a rede de confiança. Guillermo tinha o território. Um sabia quem mobilizar; o outro sabia por onde conduzir. Essa combinação seria decisiva quando os grupos dispersos do Granma começaram a surgir.

Che chega aos adventistas

Depois do desastre de Alegría de Pío, Juan Almeida, Che Guevara e outros sobreviventes vagaram durante dias em condições miseráveis. Che, ainda longe de se tornar o símbolo mundial que seria depois, era naquele momento um médico asmático, exausto, faminto e perseguido. Por volta de uma hora da madrugada, o grupo já quase não conseguia avançar quando encontrou uma casa rural simples no Alto del Regino. Ali viviam homens ligados ao grupo religioso adventista.

O que aconteceu em seguida mostra que a orientação de Argelio já estava funcionando. Os fugitivos foram recebidos e alimentados imediatamente. Prepararam farinha de milho, carne e o que mais havia. Os homens comeram com tamanha voracidade que adoeceram. Che descreveu aquilo como um “festival ininterrupto de comida”. O corpo faminto não suportou o excesso; vieram vômitos, diarreia e fraqueza. Ainda assim, tinham sido encontrados antes pelos irmãos de Argelio do que pelos soldados de Batista.

A notícia se espalhou rapidamente entre os adventistas. Ofelia Arcís preparou doces e tabacos e foi vê-los. Ao encontrar aqueles homens naquele estado, chorou. Che pediu que lhe dessem uma xícara de café. O episódio revela a natureza humana daquela rede: não eram agentes clandestinos profissionais executando uma operação militar fria. Eram famílias religiosas encontrando homens que pareciam saídos de uma derrota completa e reagindo com aquilo que sabiam fazer: alimentar, vestir, esconder e proteger.

Naquela noite, Argelio chegou com Ibrahim Sotomayor levando roupas. Esse momento marcou uma passagem importante. A ajuda já não era apenas oferecer comida a quem batia à porta. Os uniformes denunciavam os guerrilheiros. Para atravessar o cerco, precisavam parecer camponeses. Argelio e seus irmãos providenciaram mudas de roupa. Os homens que haviam desembarcado como combatentes começaram a circular como guajiros.

As armas também precisavam desaparecer. Alfredo González aceitou escondê-las. Fuzis e munições ficaram sob sua responsabilidade, enquanto Almeida e Che conservaram apenas suas pistolas-metralhadoras. A rede religiosa passou a oferecer aquilo que uma estrutura clandestina de sobrevivência precisava: alimentação, vestuário, esconderijo, proteção de armamento, informação e deslocamento.

Casas, famílias e caminhos

Os fugitivos foram distribuídos entre diferentes casas para que não fossem capturados de uma vez. Ramiro Valdés e Benítez foram para uma residência; Camilo Cienfuegos ficou em outra; Almeida, Che, Rafael Chao e Pancho González seguiram para a casa de um irmão de Argelio, no Mamey. Quando chegaram, Cándida, cunhada de El Pastor, preparou comida para eles.

Como a casa ficava perto demais da estrada, permanecer ali seria perigoso, e os homens foram levados depois para um ponto mais protegido. Cada movimento mostrava que aquela comunidade funcionava como uma malha de socorro: se uma casa se tornava arriscada, procurava-se outra; se um homem estava doente, escondia-se; se um grupo chegava faminto, alimentava-se; se vestia uniforme, recebia roupa de camponês.

Che deixou no diário uma frase reveladora: “Vieram nos ver muitos adventistas.” Não era mais apenas a ação isolada de Argelio. Era um ambiente religioso inteiro se aproximando dos sobreviventes. E isso explica por que El Pastor era tão importante. Ele não precisava pessoalmente estar em todos os lugares. Sua força estava justamente em conseguir mobilizar pessoas que confiavam nele, famílias que se conheciam e uma comunidade capaz de funcionar como rede sem possuir nenhuma estrutura formal de guerra.

Quando uma ponta da rede cai

A situação continuava perigosíssima. A presença dos rebeldes acabou sendo comentada, a informação chegou a pessoas ligadas à repressão e soldados foram até a casa onde Alfredo González escondia armas e onde Pablo Hurtado, doente, permanecera. As armas foram descobertas e Hurtado foi preso. Qualquer rede improvisada poderia ter desmoronado naquele momento, mas a de Argelio reagiu. A notícia chegou rapidamente até ele, e Guillermo García já havia sido acionado. Era exatamente para aquilo que servia o conhecimento de Guillermo: quando uma casa deixava de ser segura, precisava haver outra; quando um caminho se fechava, precisava existir uma alternativa.

Guillermo foi buscar Che, Almeida, Chao e Pancho González e os conduziu a outro ponto, para a casa de Carlos Mas. Dois quilômetros, naquele contexto, separavam a captura da sobrevivência. A rede de El Pastor não possuía quartel-general, mas funcionava por conexões sucessivas: uma casa avisava outra, um parente chamava outro, um homem conhecedor da região conduzia o grupo para um lugar mais seguro. A geografia rural transformava-se em instrumento de proteção.

A rede chega a Fidel

O circuito acabou alcançando novamente o próprio Fidel. Guillermo García, depois de circular pela região e tomar conhecimento dos grupos dispersos, soube que outro pequeno grupo estava escondido nas proximidades. Seu pai, Adrián García, acreditava que um daqueles homens era Fidel. Guillermo inicialmente duvidou.

A versão oficial dizia que Fidel estava morto. A imprensa anunciava o fim da expedição. Ainda assim, foi verificar. Quando finalmente encontrou o comandante, já não chegava como um camponês qualquer. Levava consigo informações acumuladas durante aqueles dias: sabia de grupos encontrados, homens escondidos, casas que tinham servido de abrigo, movimentação militar e sobreviventes ainda vivos.

Fidel perguntou por Raúl. Guillermo não sabia onde ele estava, mas podia falar de Almeida e de outros homens que haviam passado pela região. A informação que começara como notícia dispersa entre camponeses, adventistas e famílias rurais agora alcançava o centro da própria expedição. Em poucos dias, a rede que Argelio mobilizara para salvar fugitivos havia se tornado também um sistema de comunicação entre homens que acreditavam estar completamente isolados.

Os dois Rosabal

Vista de longe, a história dos dois Rosabal parece resumir as duas forças que disputavam aqueles sobreviventes. Ángel Pérez Rosabal foi surpreendido por Fidel e decidiu ganhar tempo. Alimentou os homens, respondeu perguntas e aparentou cooperação enquanto esperava que a notícia chegasse aos homens de Batista. Para ele, o futuro ainda pertencia ao regime, e entregar Fidel poderia significar lealdade, segurança e recompensa.

Argelio Rosabal Fonseca recebeu a mesma notícia e decidiu fazer exatamente o contrário. Não quis entregá-los; quis impedir que fossem capturados. Não mobilizou soldados, mas irmãos da igreja. Não organizou patrulhas, mas casas. Não tinha aparato militar; tinha comida, roupas, esconderijos, parentes, vizinhos e homens capazes de atravessar a serra.

A diferença entre os dois podia ser resumida em duas perguntas. Ángel olhou para aqueles homens e pensou: como fazer Batista chegar até eles? Argelio olhou para os mesmos sobreviventes e pensou: como chegar até eles antes de Batista? Foi essa diferença que transformou uma comunidade religiosa em abrigo e fez de Guillermo García o elo entre a confiança de El Pastor e os caminhos da região.

Argelio conheceu a Revolução antes do palácio

Argelio não conheceu primeiro a Revolução no poder. Conheceu-a na fome. Conheceu homens cobertos de lama, com roupas rasgadas, escondendo armas, vomitando depois de comer demais, dormindo em casas de camponeses, dependendo da misericórdia de famílias que pouco tinham. Conheceu-os quando os jornais diziam que estavam mortos. Conheceu-os quando Batista parecia invencível. Conheceu-os antes de Che ser mito, antes de Fidel governar Cuba, antes de Ramiro Valdés ocupar posições de poder. Para El Pastor, eles eram ainda os homens da caverna de Adulão.

E foi como cristão que ele decidiu ajudá-los. Não escolheu homens poderosos; escolheu perseguidos. Não apoiou uma vitória consumada; protegeu uma derrota aparente. Não serviu aos donos do Estado; alimentou aqueles que o Estado tentava destruir. A tragédia viria depois, quando alguns daqueles homens sairiam da caverna, conquistariam o palácio e aprenderiam a perseguir outros. O próprio filho de Argelio diria mais tarde que o pai morreu consciente de ter alimentado, sem querer, um monstro. Mas essa conclusão posterior não altera a natureza da decisão tomada naquele dezembro. Naquele momento, Argelio viu homens perseguidos e fez aquilo que acreditava que Cristo lhe mandava fazer.

Por isso a história dos dois Rosabal permanece tão poderosa. Um tentou manter Fidel por perto até que Batista pudesse reagir. O outro organizou os irmãos da igreja para que os sobreviventes fossem encontrados antes pelos que queriam salvá-los do que pelos que queriam prendê-los. Enquanto o governo anunciava que a expedição havia sido destruída e que Fidel estava morto, Argelio tratava de manter vivos os homens que ainda respiravam. Batista dizia que a Revolução acabara; El Pastor começou a alimentá-la justamente quando ela parecia não ter futuro.

(*Narrativa ficcional, por enquanto.)

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