Saímos na Frente de Babilônia? Clonagem Humana, Convergência Moral e a Rendição Ética do Adventismo Institucional

Entre 1998 e 2004, pelo menos três denominações religiosas se manifestaram sobre a possibilidade da clonagem humana. Primeiro, foram os adventistas:

1998 — Ethical Considerations Regarding Human Cloning

E por último, a Igreja Católica:

2004 — DOCUMENT OF THE HOLY SEE ON HUMAN CLONING

Entre as duas declarações oficiais, o mundo ficou chocado e estarrecido com esta outra notícia do The Guardian:

Cientistas de uma seita afirmam ter realizado o primeiro clone humano

A indignação contra os “rebeldes” aumenta a pressão por uma proibição mundial.

Julian Borger em Washington

Sábado, 28 de dezembro de 2002, 11h52 CET

Uma seita que acredita que os humanos foram criados por extraterrestres afirmou ontem ter vencido a corrida clandestina e cada vez mais bizarra para produzir um clone humano. Segundo a seita, uma menina nasceu na quinta-feira a partir de um óvulo fertilizado por uma célula da pele de sua mãe.

Brigitte Boisselier, que se autodenomina bispa da seita raeliana, não apresentou provas para sustentar sua alegação em uma coletiva de imprensa na Flórida, mas afirmou que um painel independente de cientistas teria permissão para verificá-la com testes de DNA nos próximos oito ou nove dias.

O anúncio provocou indignação entre os cientistas, preocupados com a possibilidade de abrir as portas para uma clonagem desenfreada entre casais sem filhos e clientes ricos em busca de uma forma de imortalidade, num momento em que as consequências humanas de tal experimento são desconhecidas.

A Sra. Boisselier, ex-química pesquisadora francesa, afirmou que uma empresa associada ao culto, a Clonaid, espera o nascimento de mais quatro bebês clonados nos próximos dois meses, o primeiro deles na próxima semana, filho de um casal de lésbicas em um local secreto na Europa.

Outros dois casais, um asiático e outro norte-americano, esperavam bebês concebidos com células retiradas de filhos anteriores que haviam falecido.

Ela acrescentou que mais 20 mulheres receberão implantes de embriões clonados em um novo laboratório da Clonaid em janeiro.

O ginecologista italiano Severino Antinori, conhecido por seu estilo peculiar, também anunciou que outro bebê clonado com sua ajuda nascerá em janeiro. O Dr. Antinori afirmou que a mãe, na 33ª semana de gestação, e o feto masculino estão bem, mas se recusou a dar detalhes.

Em uma coletiva de imprensa que se tornou ainda mais surreal devido ao dramático esquema de cores laranja e branco do cabelo da Sra. Boisselier, o chefe da empresa de clonagem raeliana, Clonaid, declarou: “Estou muito, muito feliz em anunciar que nasceu o primeiro bebê clone.”

Ela chamou a bebê de Eva e disse que ela nasceu de cesariana em 26 de dezembro, pesando 3,17 kg, e que estava “bem”.

Mas a Sra. Boisselier não revelou onde nasceu, dizendo apenas que os pais eram americanos e retornariam aos EUA em três dias. Ela disse que o casal procurou ajuda da Clonaid porque o marido era estéril.

Cientistas britânicos estavam entre os que condenaram a notícia. O Dr. Patrick Dixon, um dos maiores especialistas em ética da clonagem humana, disse: “Há uma corrida global de cientistas excêntricos para produzir clones, motivados por fama, dinheiro e crenças distorcidas e deturpadas.”

“O bebê nasceu em um verdadeiro pesadelo, com alto risco de malformações, problemas de saúde, morte prematura e pressões emocionais inimaginavelmente severas.”

Uma porta-voz da autoridade de fertilização e embriologia humana disse estar “preocupada”, mas que reservaria seu julgamento até que as alegações fossem confirmadas.

Um porta-voz da Casa Branca disse que o presidente George Bush considerava a notícia “profundamente preocupante” e apoiava fortemente a legislação do Congresso para proibir toda e qualquer clonagem humana.

O presidente francês, Jacques Chirac, instou todos os Estados a assinarem uma convenção apresentada à ONU pela França e pela Alemanha para a “proibição universal da clonagem reprodutiva humana”.

Nos Estados Unidos, não existe uma lei específica contra a clonagem humana, visto que o Congresso não chegou a um consenso sobre se apenas a clonagem reprodutiva deveria ser proibida ou todas as formas de clonagem, incluindo a tecnologia de células-tronco, na qual células humanas clonadas são usadas para produzir tecido para transplantes. Contudo, a Food and Drug Administration (FDA) mantém a posição de que essa prática constitui um procedimento médico perigoso e, portanto, ilegal.

Ontem, cientistas de todo os EUA mostraram-se céticos em relação às alegações da Clonaid, particularmente à afirmação da Sra. Boisselier de que, de 10 mulheres que receberam implantes de embriões clonados, cinco tiveram gestações bem-sucedidas, uma taxa de sucesso muito superior à de experimentos com clonagem de animais.

No entanto, Stuart Newman, professor de biologia celular no New York Medical College, disse que não era inconcebível que os raelianos tivessem tido sucesso.

“Você não precisa ser extraordinariamente competente para fazer isso. Você só precisa estar preparado para correr riscos com a vida das pessoas”, disse ele. “É simplesmente pegar duas células danificadas. Parte de um óvulo e parte de outra célula, juntá-las e torcer para que dê certo.”

A Clonaid foi fundada há cinco anos por um autoproclamado profeta conhecido como Rael, anteriormente um jornalista esportivo francês chamado Claude Vorihon, que estabeleceu uma seita baseada na crença de que os seres humanos foram clonados pela primeira vez há 25.000 anos por extraterrestres.

A Sra. Boisselier reiterou suas crenças ontem: “Tudo em mim foi criado por cientistas. Se a ciência me criou, então a ciência tem algum valor, se for usada para o bem.

Fonte: https://www.theguardian.com/science/2002/dec/28/genetics.science

Há momentos em que a pressa em “parecer relevante” diante do mundo produz um efeito colateral perigoso: falar antes, mas falar torto

Em 1998, a liderança mundial da Igreja Adventista do Sétimo Dia emitiu uma declaração oficial sobre clonagem humana. Seis anos depois, em 2004, o Vaticano publicou seu próprio documento. O fato bruto é este: o adventismo institucional se posicionou antes de Roma. A tentação é transformar isso em troféu profético: “saímos na frente de Babilônia”. O problema é que, quando se lê os dois textos com honestidade, o constrangimento aparece: falamos antes, mas falamos de modo mais fraco, mais negociável e mais rendido ao espírito do tempo.

O escândalo não está no calendário. O escândalo está no conteúdo, no tom e, principalmente, na teologia moral que sustenta cada posição. O que se revela aqui é a convergência ética entre o adventismo institucional e Roma no coração da biopolítica moderna — exatamente o terreno onde Babilônia constrói consensos globais.


1) O Fato Histórico Incômodo: A IASD Falou Antes de Roma

27 de setembro de 1998, Foz do Iguaçu, Brasil. A Comissão Executiva do Concílio Anual da Conferência Geral vota o documento “Declaração sobre Considerações Éticas com respeito à Clonagem Humana”. O texto reconhece riscos médicos, ameaças à dignidade humana, instrumentalização de pessoas, problemas familiares e perigos comerciais. Ao final, declara que, no presente estado do conhecimento, a clonagem humana é considerada inaceitável.

27 de setembro de 2004, Vaticano. A Santa Sé publica seu documento oficial sobre clonagem humana e células-tronco. O texto condena tanto a clonagem reprodutiva quanto a chamada “clonagem terapêutica”, defende a pesquisa com células-tronco adultas e pede uma proibição internacional da clonagem humana.

Conclusão objetiva: a IASD se posicionou seis anos antes de Roma. Quem gosta de slogans pode dizer: “saímos na frente de Babilônia”. Mas o exame honesto mostra que a velocidade não compensou a fragilidade moral do discurso adventista.


2) Convergência Ética: Adventismo Institucional e Roma Falando a Mesma Língua

Apesar das diferenças doutrinárias profundas, os dois documentos convergem em pontos centrais:

  • Ambos reconhecem que a clonagem humana ameaça a dignidade da pessoa;
  • Ambos alertam para a instrumentalização do ser humano;
  • Ambos apontam riscos biológicos graves;
  • Ambos falam em proteção da vida humana;
  • Ambos reconhecem o perigo de transformar pessoas em meios, produtos e ferramentas.

O problema profético não é apenas a coincidência de conclusões. O problema é o cenário: biotecnologia global, ética global, consenso moral internacional, apelos a organismos multilaterais e a uma linguagem universal de “dignidade humana”. Este é exatamente o terreno onde Babilônia opera: não por confissão doutrinária, mas por convergência moral civilizatória.

O adventismo institucional, ao invés de denunciar esse movimento de padronização ética global como parte da arquitetura profética do fim, passa a participar dele — tentando apenas chegar alguns anos antes ao microfone.


3) A Porta Entreaberta da IASD: Condenamos Hoje, Aprovamos Amanhã?

A parte mais grave do documento adventista não está no corpo do texto, mas na nota de rodapé. Ali se afirma que:

“Pode haver situações futuras nas quais a clonagem humana poderá ser considerada benéfica e moralmente aceita.”

Ou seja: a condenação adventista não é de princípio, é circunstancial. A clonagem não é errada em si; ela é errada no presente estado do conhecimento. Se amanhã a técnica se tornar “segura”, “eficiente” e “controlável”, a liderança já deixou aberta a porta para uma reinterpretação moral.

Isso não é detalhe técnico. Isso é teologia moral. Isso revela um padrão: a ética não é ancorada em princípios absolutos, mas em avaliações técnicas de risco e utilidade. A moral passa a ser calibrada pela ciência, pela viabilidade tecnológica e por cenários futuros hipotéticos.

Esse é exatamente o espírito da modernidade biotecnológica: “não sabemos ainda, mas talvez amanhã seja aceitável”. É a moral do vamos ver até onde dá.


4) Roma Fecha a Porta: Clonagem é Errada em Si

O documento do Vaticano, com toda a sua teologia problemática e estrutura de poder que a Escritura denuncia profeticamente, é paradoxalmente mais coerente em um ponto específico: a clonagem humana é errada em si mesma.

Roma não diz: “é errada por enquanto”. Diz que:

  • a clonagem fere a dignidade humana em sua própria lógica;
  • transforma o ser humano em artefato;
  • introduz uma lógica de zootechnia aplicada à pessoa;
  • abre caminho para mercantilização da vida;
  • é incompatível com o respeito ontológico ao ser humano.

Mais ainda: o Vaticano afirma que a chamada “clonagem terapêutica” é eticamente ainda pior do que a reprodutiva, pois cria um ser humano com a finalidade explícita de destruí-lo. Aqui Roma fecha a porta sem deixar “rodapés de escape”.

Ironia histórica: o sistema que o adventismo identifica profeticamente como Babilônia fala com mais rigidez moral do que o próprio adventismo institucional em um tema-chave da bioética moderna.


5) O Verdadeiro Escândalo: Não é Quem Falou Primeiro, é Quem Falou como o Sistema

O verdadeiro escândalo não é que a IASD falou antes de Roma. O escândalo é que ambas estão falando dentro da mesma gramática moral do sistema global: dignidade humana abstrata, ética biomédica universal, consenso internacional, apelos à ONU, linguagem de governança planetária da vida.

O adventismo histórico foi levantado para denunciar sistemas, não para competir com eles em quem publica primeiro documentos éticos alinhados com a arquitetura moral do mundo. O chamado profético não é “chegar antes ao debate”, mas desmascarar o próprio enquadramento do debate.

Quando a igreja passa a disputar protagonismo dentro da lógica moral do sistema, ela já perdeu o lugar profético. Ela pode até falar contra alguns abusos, mas já aceitou o tabuleiro, as regras e o vocabulário de Babilônia.


6) A Teologia por Trás da Ética: Princípios Eternos ou Moral Tecnocrática?

O documento adventista revela uma teologia ética perigosamente moldável: o que hoje é inaceitável pode amanhã tornar-se aceitável se a tecnologia “evoluir”. Isso substitui princípios por protocolos, convicções por comitês, e mandamentos por avaliações de risco.

Isso não é apenas um problema de bioética. É um problema de eclesiologia, de autoridade espiritual e de submissão silenciosa ao espírito do século. A igreja deixa de ser coluna e baluarte da verdade para tornar-se consultora religiosa do progresso científico.

Roma, por razões teológicas próprias e problemáticas em muitos outros campos, foi mais coerente neste ponto específico. Isso não a torna correta no todo — apenas expõe o quanto o adventismo institucional se deslocou de um terreno de princípios absolutos para um terreno de ética negociável.


7) Conclusão: A Pressa Não Foi Profética — Foi Institucional

Não, não “saímos na frente de Babilônia” em termos proféticos. Saímos na frente em termos burocráticos. Falamos antes, mas falamos como quem já dialoga com o mundo nos seus próprios termos. A diferença de seis anos é irrelevante diante da semelhança estrutural do discurso.

O adventismo não foi levantado para ser mais rápido na produção de documentos éticos do que Roma, mas para ser mais fiel às categorias bíblicas que denunciam o sistema que Roma representa. Quando a igreja troca denúncia profética por participação no consenso moral global, ela pode até ganhar aplausos por “responsabilidade ética”, mas perde o fio da sua identidade profética.

O problema não é ter falado cedo. O problema é ter falado como o sistema.

 

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