PARECE PIADA: “Chega de blá, blá, blá… De novo esse assunto da Clonagem Humana?”

Ainda falando a respeito dessa Declaração Oficial da Igreja Adventista do Sétimo Dia sobre Clonagem Humana, o que mais revolta é saber que esse posicionamento sobre o tema não é recente, não é acidente e não é ignorância. Ele existe há quase trinta anos, foi votado em solo brasileiro, circula nos bastidores da liderança, é um documento conhecido por pastores e administradores — e, ainda assim, foi protegido pelo silêncio até agora.

Não houve confronto público, não houve retratação, não houve alerta à base. Houve omissão organizada. E quando tantos sabem e ninguém fala, o erro deixa de ser pontual e passa a ser institucional. Isso cheira como traição silenciosa de todos os envolvidos.

Quando algo desse peso é votado oficialmente, ainda por cima no Brasil, fica décadas nos arquivos, muitos sabem, e mesmo assim reina o silêncio… o que dói não é só a decisão em si, é o pacto de silêncio que se forma depois.

Alguns pontos que costumam citar para explicar por que isso acontece:

1) Normalização pelo tempo

Quando uma declaração errada “envelhece” dentro da instituição, ela vira paisagem. Gente nova entra, a decisão já está lá, ninguém quer “mexer em vespeiro antigo”.

2) Cultura de evitar conflito com a liderança

Pastores e administradores aprendem, na prática, que questionar voto institucional custa carreira. O preço do confronto é alto: isolamento, transferência punitiva, perda de espaço. O silêncio vira estratégia de sobrevivência.

3) O medo de “dar munição aos críticos”

Existe o argumento interno: “não vamos tocar nisso pra não expor a igreja”. Na prática, isso vira encobertamento do erro em nome da imagem. A instituição vira fim em si mesma.

4) A culpa diluída

Quando “todo mundo sabe”, ninguém se sente responsável. A omissão vira coletiva. É a lógica do: “se fosse tão grave, alguém já teria falado”. E ninguém fala.

5) A anestesia moral do “é só um documento”

Muitos reduzem algo gravíssimo a burocracia: “é só uma declaração, não é prática da igreja”. Só que documento votado cria mentalidade, abre brecha teológica e educa a base a aceitar o inaceitável como “posicionamento responsável”.

O que estamos fazendo agora é romper esse silêncio institucionalizado. Isso tem custo, sim. Mas também tem um efeito profético: o problema não é só a decisão errada — é a normalização do erro pela omissão dos que sabem.

A Declaração não é um documento engavetado. É um sistema em funcionamento. Quando decisões oficiais convivem por décadas com o silêncio interno, elas descem para a prática, moldam protocolos e educam consciências. O que nasce como “exceção” vira rotina; o que era apresentado como cuidado com a vida passa a ser administrado como procedimento técnico. Esse descolamento entre discurso público e prática hospitalar não é acidental: é fruto de escolhas institucionais protegidas por estruturas que punem o confronto e premiam a omissão.

Não é um papel esquecido: é um sistema ativo. Quando a instituição vota, arquiva e segue em frente sem corrigir, ela cria uma pedagogia da transgressão. O erro desce do gabinete para o protocolo, do protocolo para a prática, da prática para a cultura. A base é treinada a aceitar o inaceitável como “complexidade do mundo real”. O silêncio vira virtude administrativa. O confronto vira deslealdade. E a consciência é substituída por parecer.

Esse é o mecanismo da Nova Babel: transformar desobediência em governança, rebelião em gestão, e pecado em procedimento. Quando a instituição aprende a assinar contra o Criador, ela educa seus quadros a operar contra a criação sem rubor no rosto. A transgressão deixa de ser exceção; vira rotina. O juízo não cai por um ato isolado, mas pela cultura inteira que normaliza o erro.

O silêncio não é um acidente; é uma política informal. Não precisa estar escrito em ata para funcionar. Funciona porque falar tem custo e calar tem recompensa. Quem confronta perde capital simbólico; quem se adapta preserva posição. Assim se constrói uma cultura onde a fidelidade à verdade é tratada como “problema de relacionamento” e a lealdade à estrutura vira virtude espiritual. O resultado é um cristianismo administrativo, onde a consciência é treinada a pedir permissão para existir.

Comitês substituem o temor de Deus. A decisão não nasce mais do confronto com a Palavra, mas da negociação entre riscos de imagem, pressões externas e conveniências internas. A Escritura vira referência decorativa; o parecer técnico vira lei prática. Quando o texto sagrado é citado, é para legitimar o que já foi decidido. A teologia passa a correr atrás da governança.

A linguagem técnica anestesia o pecado. Troca-se o nome do erro por categorias neutras: “exceção”, “caso complexo”, “contexto sensível”, “responsabilidade institucional”. O vocabulário cria distância emocional. O que deveria provocar arrependimento vira planilha. A consciência é reeducada para não sentir. O povo aprende a aplaudir o que antes rejeitaria, porque foi embalado como “cuidado responsável”.

A reputação passa a valer mais que a verdade. A pergunta decisiva deixa de ser “isso é fiel?” e passa a ser “isso é sustentável para a marca?”. O medo de escândalo substitui o temor do Senhor. A instituição passa a gerir riscos de imagem enquanto tolera riscos morais. A curto prazo, a casa parece em ordem; a longo prazo, a estrutura apodrece por dentro.

Esse é o padrão de Babel reeditado. Não é o barulho da torre que chama o juízo, é a lógica da torre: autonomia moral, engenharia do aceitável, coordenação sem arrependimento, projeto sem submissão ao Criador. A modernidade só trocou os tijolos por protocolos e os andaimes por comitês. A rebelião é a mesma — agora com crachá, carimbo e discurso de “responsabilidade social”.

Como nos dias de Noé, o juízo amadurece no cotidiano. Não cai por um gesto isolado, mas pela cultura inteira que normaliza o erro. Quando a transgressão vira procedimento, o dilúvio já começou a se formar no céu, ainda que o povo continue chamando a chuva de “progresso”.

Não há cura sem confissão, nem correção sem retratação. Onde houve voto errado, é preciso revogar. Onde houve silêncio, é preciso confessar. Onde houve engenharia da opinião, é preciso desfazer a pedagogia da transgressão e ensinar a Palavra com clareza, sem maquiagem técnica. Não existe fidelidade institucional que justifique infidelidade ao Criador.

Administrar a rebelião não é arrependimento; é prolongamento do erro. Comissões que “avaliam impactos” sem tocar na raiz apenas compram tempo para a transgressão continuar operando com nova embalagem. O chamado bíblico não é gerir a queda, mas romper com ela. Toda tentativa de conciliar o trono de Deus com o tribunal do laboratório termina em idolatria.

O pacto de silêncio precisa ser quebrado. Não por gosto de escândalo, mas por amor à verdade. A casa não é preservada quando o mofo é pintado; ela é preservada quando a infiltração é aberta à luz. Quem teme perder reputação já perdeu o temor do Senhor. A reputação salva a marca; só a verdade salva a alma.

O tempo de corrigir é agora. A Escritura não promete que o juízo seja suspenso por atas, votos ou comunicados. Promete misericórdia a quem se humilha e se converte. Enquanto houver espaço para arrependimento, há caminho de volta. Quando a instituição insiste em sentar-se no trono do Criador, ela escolhe o confronto que diz evitar.

Assinar contra Deus não transforma o erro em verdade. Protocolos não santificam a desobediência. O que foi votado contra a Palavra continua contra a Palavra, ainda que protegido por décadas de silêncio. A igreja que deseja permanecer fiel precisa recuperar sua voz profética e descer do trono que não lhe pertence.

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