Os Pioneiros Adventistas, Cristo e o Espírito Santo: Uma Resposta Histórica a Mais um Veneno de Michelson Borges

Declaração do redator da Casa Publicadora Brasileira, Michelson Borges:

“Anti-trinitarianismo, dissidentes que ensinam que Jesus não é Deus pleno. Ah, ele foi criado, ele foi gerado em algum momento. Se é assim, ele não é Deus. E se ele não é Deus, Deus não morreu por mim. Ele mandou outro, um semideus.
Não. Biblicamente Jesus é Deus pleno, eterno, Pai da eternidade, Alfa e Ômega.

Ah, o Espírito Santo é só uma força ou é o próprio Jesus ou sei lá o quê. Qualquer coisa para tirar a verdade básica de que nós precisamos da pessoa do Espírito Santo.

Eu tenho dito isso e não gosto nem de dizer isso, mas se eu fosse o diabo, eu atacaria especialmente uma doutrina para anular essa igreja: a doutrina do Espírito Santo. Porque acabamos de estudar sobre isso. É a nossa maior necessidade como igreja, o poder do Espírito Santo, do outro Consolador.
Mas se eu passo a crer que isso não é verdade, que não existe Espírito Santo, pronto, vira um ser humano desajudado, pobre coitado, sem o Espírito Santo.”


O Problema do Argumento

O argumento apresentado cria uma narrativa simples: quem rejeita a formulação trinitária estaria negando a divindade de Cristo e anulando a obra do Espírito Santo.

No entanto, quando examinamos a história do adventismo primitivo, encontramos um fato incontornável: a maioria dos pioneiros da Igreja Adventista do Sétimo Dia não era trinitariana.

Mesmo assim, eles criam plenamente:

  • na divindade de Cristo
  • na salvação por meio de Cristo
  • na atuação real do Espírito Santo

Portanto, a narrativa apresentada não corresponde ao que ensinaram os fundadores do movimento adventista.


Os Pioneiros Adventistas e a Rejeição da Trindade Clássica

Diversos líderes fundadores do adventismo rejeitaram explicitamente a doutrina tradicional da Trindade herdada dos credos pós-bíblicos.

James White (Review and Herald, 1852)

“A velha doutrina da Trindade destrói a personalidade de Deus e de Seu Filho Jesus Cristo.”

J. N. Andrews

“A doutrina da Trindade foi introduzida na igreja pelo papado.”

Joseph Bates

“Quanto à Trindade, não posso aceitar essa doutrina.”

R. F. Cottrell

“Para crer na Trindade precisamos ignorar o senso comum e a Escritura.”

J. H. Waggoner (The Atonement, 1868)

“A doutrina da Trindade não encontra apoio nas Escrituras.”

Isso mostra que o antitrinitarianismo não surgiu entre “dissidentes modernos”. Ele era a posição predominante entre os fundadores do movimento.


A Cristologia dos Pioneiros

Embora rejeitassem a formulação trinitária clássica, os pioneiros exaltavam a divindade de Cristo.

Eles ensinavam que Cristo é:

  • o Filho de Deus
  • o Criador do universo
  • digno de adoração
  • o Salvador da humanidade

E. J. Waggoner — Christ and His Righteousness (1890)

“Cristo é por natureza Deus no sentido mais pleno da palavra.”

Ao mesmo tempo, Waggoner afirmava que Cristo procede do Pai antes da criação.
Para os pioneiros, isso preservava a linguagem bíblica que chama Jesus de Filho unigênito de Deus.


Declaração Adventista de Crenças em 1872

Em 1872 foi publicada uma declaração de princípios adventistas no periódico Signs of the Times.

Trecho sobre Deus:

“Que há um só Deus, um Ser pessoal, espiritual, Criador de todas as coisas, onipotente, onisciente e eterno… presente em toda parte por Seu representante, o Espírito Santo.”

Trecho sobre Cristo:

“Que há um Senhor Jesus Cristo, o Filho do Pai eterno, pelo qual Deus criou todas as coisas.”

Essa declaração mostra a estrutura da teologia pioneira:

  • um Deus supremo — o Pai
  • um Filho divino — Jesus Cristo
  • o Espírito Santo — a presença e o poder de Deus

O Espírito Santo na Teologia Pioneira

Os pioneiros nunca negaram a atuação do Espírito Santo.

O que eles rejeitavam era a formulação filosófica posterior de três pessoas coeternas.

J. H. Waggoner

“O Espírito Santo é o poder de Deus.”

Uriah Smith

“O Espírito Santo é a influência divina pela qual Deus realiza Sua obra.”

Ou seja, eles criam plenamente que Deus age no mundo por meio de Seu Espírito.


Ellen G. White e a Linguagem Bíblica

Ellen White exaltou repetidamente a divindade de Cristo.

O Desejado de Todas as Nações

“Em Cristo há vida original, não emprestada, não derivada.”

Ela também afirmou:

“O Espírito Santo é uma pessoa.”

Essas declarações contribuíram para o desenvolvimento posterior da teologia adventista, embora Ellen White nunca tenha escrito um tratado sistemático defendendo a Trindade nicena.


A Mudança Doutrinária

Historicamente, a formulação trinitária apareceu gradualmente dentro da igreja.

1931 — o editor da Review and Herald, F. M. Wilcox, publicou uma nova declaração de crenças afirmando:

“Há um Deus: Pai, Filho e Espírito Santo, uma unidade de três pessoas coeternas.”

Essa formulação foi posteriormente consolidada:

  • 1946 — aceitação oficial das crenças
  • 1980 — formulação das 28 crenças fundamentais

A Avaliação de Historiadores Adventistas

George R. Knight, historiador da Andrews University, reconhece essa evolução:

“A maioria dos fundadores da Igreja Adventista do Sétimo Dia não poderia se tornar membro da igreja hoje se tivesse que aceitar as crenças fundamentais atuais.”

Essa observação não é uma crítica, mas um reconhecimento de que houve desenvolvimento teológico ao longo da história adventista.


Conclusão

A afirmação de que quem rejeita a formulação trinitária necessariamente nega Cristo ou o Espírito Santo não corresponde à história do adventismo.

Os próprios pioneiros:

  • rejeitavam a Trindade tradicional
  • exaltavam Cristo como divino
  • criam na atuação real do Espírito Santo
  • defendiam a salvação somente por Cristo

Portanto, o debate sobre a natureza da Divindade não é um fenômeno recente, mas parte do próprio desenvolvimento histórico do pensamento adventista.

 

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