DEUS PAI, DEUS FILHO E DEUS PATROCINADOR: A Nova Trindade da IASD

Morre o verdadeiro dono da IASD no Brasil, e a avalanche de homenagens ao irmão Milton Afonso mostra que a gratidão institucional acumulada durante décadas de dízimos, ofertas e milhões destinados à Organização está apenas começando.

Enfim, descobrimos uma nova Trindade na IASD: Deus Pai, Deus Filho e Deus Patrocinador. O irmão Milton Afonso morreu, mas a sucessão de homenagens que tomou conta da comunicação adventista parece empenhada em demonstrar que sua influência não terminou com sua vida. E nem precisamos exagerar os fatos para chegar a essa conclusão. A própria Divisão Sul-Americana acaba de definir oficialmente Milton Afonso como “o principal apoiador privado dos projetos de comunicação e de educação da denominação na América do Sul”.

Portanto, quando perguntamos ironicamente se morreu o verdadeiro dono da IASD no Brasil, não estamos atribuindo a ele propriedade jurídica da denominação; estamos observando uma realidade muito mais interessante: poucos adventistas na história brasileira conseguiram acumular tamanho crédito de gratidão junto à Organização, desde instituições locais até a DSA e a própria Associação Geral.

É justamente por isso que escolhemos para representar o terceiro personagem dessa nossa irreverente Trindade a figura de um touro de ouro. A imagem mistura deliberadamente dois símbolos que pertencem a mundos diferentes, mas que, colocados lado a lado, produzem uma ironia quase perfeita. De um lado está o bezerro de ouro de Êxodo 32, construído quando Israel transformou riqueza material em objeto religioso e depois ouviu a proclamação: “Estes são teus deuses, ó Israel”.

Do outro está o famoso touro associado a Wall Street, símbolo moderno da força do capital, da valorização financeira, da prosperidade e do mercado em alta. Na nossa ilustração, os dois se fundem: o antigo ídolo de ouro encontra o moderno ícone da riqueza, e dessa união nasce visualmente o terceiro membro da nossa nova Trindade — Deus Patrocinador.

Não estamos dizendo, evidentemente, que alguém na IASD se ajoelhou literalmente diante de uma estátua de Milton Afonso. Ainda não. A sátira funciona justamente porque a idolatria institucional contemporânea não precisa de incenso, altar nem joelhos dobrados. Ela pode manifestar-se por meio de outra liturgia: títulos honoríficos, prédios, praças, escolas, museus, documentários, cerimônias, homenagens presidenciais e uma linguagem religiosa progressivamente mais elevada em torno daquele que colocou grandes recursos à disposição da Organização. O ouro do bezerro bíblico precisava ser fundido para ganhar forma; o ouro institucional contemporâneo pode ser convertido em patrimônio, influência, memória e gratidão. E é exatamente essa conversão que nossa imagem pretende representar.

DEUS COLOCOU O DINHEIRO NAS MÃOS DELE

Mas a morte elevou a homenagem a outro patamar. Erton Köhler, hoje presidente mundial da Igreja Adventista, não se limitou a dizer que o irmão Milton foi generoso. Não disse apenas que trabalhou, prosperou e decidiu ajudar a Igreja. Köhler ofereceu uma interpretação teológica da própria disponibilidade da fortuna: “Deus colocou os recursos na mão dele e ele decidiu transformá-los em missão.”

Precisamos ler novamente, devagar. Segundo o presidente mundial da IASD, Deus colocou os recursos nas mãos do irmão Milton. Milton transformou esses recursos em missão. A Organização recebeu parte deles e, depois de sua morte, a maior autoridade mundial da Organização explica que os recursos haviam sido colocados por Deus nas mãos do patrocinador.

Temos aqui praticamente uma doutrina da providência financeira pronta. Deus fornece; o milionário administra; a Igreja recebe; a liderança agradece; e, finalmente, a liderança interpreta a fortuna como recurso colocado por Deus nas mãos daquele homem. Não precisamos mais perguntar se existe uma espécie de teologia da prosperidade adventista aplicada ao grande patrocinador. Estamos assistindo à própria liderança construí-la diante de nossos olhos.

Milhões de adventistas pobres também trabalharam, dizimaram, ofertaram, guardaram o sábado, financiaram a Igreja durante cinquenta anos e morreram sem patrimônio. Ninguém explicou por que Deus não colocou alguns milhões nas mãos deles. Para o irmão Milton, entretanto, o presidente mundial acaba de oferecer a explicação celestial da disponibilidade dos recursos.

O “JUSTO” CUJOS FRUTOS CHEGAM À ETERNIDADE

Stanley Arco, presidente da Divisão Sul-Americana, também não economizou eternidade. Segundo ele, a conduta, as atitudes e a fé do irmão Milton continuarão “completamente vivas para todos nós e para as próximas gerações”. A nota oficial conclui que seu legado “certamente produzirá frutos para a eternidade” e, para coroar a homenagem, invoca Provérbios 11:30: “O fruto do justo é árvore de vida, e o que ganha almas é sábio.” Patrono já tínhamos. Benfeitor já tínhamos. Homem usado por Deus já tínhamos. Agora temos os recursos colocados por Deus em suas mãos, a memória completamente viva para as próximas gerações, os frutos chegando à eternidade e o texto bíblico sobre o “justo” que ganha almas.

Se a Igreja Adventista possuísse um processo formal de canonização, portanto, não precisaríamos aguardar muito pelo resultado. O irmão Milton já teria votos mais do que suficientes. Associação Geral? Temos o presidente mundial. Divisão Sul-Americana? Temos seu presidente. Novo Tempo? Temos prédio, espaço de memória, documentário, culto de ação de graças e o título de patrono. Educação? Temos escola com seu nome, bolsas e instituições beneficiadas. Unasp? Temos praça e acervo. Falta o quê? Milagre post mortem? Talvez a contabilidade consiga providenciar.

IGREJA AFONSIANA DO SÉTIMO DIA

É nesse ponto que nossa expressão Igreja Afonsiana do Sétimo Dia deixa de ser apenas uma piada sobre um milionário admirado por pastores. Ela descreve ironicamente o tamanho da memória institucional que um grande patrocinador consegue adquirir — não porque tenhamos demonstrado que Milton colocou preço na admiração, mas porque décadas de benefícios materiais produziram uma dívida de gratidão igualmente duradoura.

O irmão pobre pode entregar fielmente seus dízimos e ofertas durante toda a vida e morrer deixando apenas saudade na congregação local. O grande financiador permanece em concreto, praça, escola, estúdio, espaço de memória, documentário, biografia institucional, títulos honoríficos e declarações presidenciais. Um deixa algumas centenas de reais por mês. O outro ajuda a erguer a própria estrutura que posteriormente contará sua história.

E aí está a circularidade perfeita: o irmão Milton ajudou a construir o púlpito; agora o púlpito eterniza o irmão Milton. A comunicação adventista que recebeu seu apoio transforma-se em guardiã de sua memória. A instituição educacional beneficiada coloca seu nome no patrimônio. Os dirigentes que representam a Organização beneficiada interpretam sua riqueza em linguagem providencial. Depois de morto, o patrocinador não precisa mais falar. A Organização fala por ele — e fala com uma devoção que o membrozinho comum dificilmente experimentará.

NO PRÓXIMO SÁBADO, O CULTO AO NOVO MESSIAS ADVENTISTA

Não precisamos deixar o próximo sábado para depois. O irmão Milton será lembrado em igrejas adventistas brasileiras. Pastores, administradores, professores, comunicadores e membros que conheceram sua trajetória ou foram alcançados pelas instituições que ele ajudou terão diante de si uma avalanche de material produzido pela própria estrutura denominacional para alimentar essas homenagens.

A Associação Geral já falou por intermédio de seu presidente; a DSA já falou por intermédio de seu presidente; a Novo Tempo já falou; instituições educacionais já preservam seu nome. A corrente está montada de cima para baixo, e a igreja local é o último elo natural dessa cadeia de gratidão.

Chamaremos ironicamente esse sábado de sábado de adoração e culto ao novo Messias adventista, porque a membresia não deverá estranhar a intensidade da exaltação. Ela foi preparada durante décadas para assimilar essa linguagem. Não estamos afirmando que os adventistas considerem literalmente Milton Afonso uma divindade ou Messias; estamos mostrando justamente como o endeusamento institucional pode funcionar sem precisar formular uma nova doutrina.

Sua prosperidade foi apresentada como exemplo espiritual; sua generosidade, como modelo de fidelidade; seus recursos, como instrumentos da missão; sua pessoa, como instrumento de Deus; e agora o próprio presidente mundial afirma que Deus colocou os recursos em suas mãos, enquanto a DSA projeta os frutos de seu legado para a eternidade. Depois de décadas ouvindo essa linguagem, a membresia já aprendeu a recebê-la como natural.

NINGUÉM ESTRANHARÁ. O ENDEUSAMENTO FOI APRENDIDO AOS POUCOS

Essa talvez seja a parte mais reveladora de toda a história. A membresia não acordou nesta semana decidida a transformar um milionário em personagem quase sagrado. Ela foi ensinada durante décadas a interpretar o irmão Milton por meio das categorias escolhidas pela própria liderança. Quando a Organização chama alguém de patrono, coloca seu nome em prédio, escola e praça, cria espaço permanente para preservar sua memória, produz documentário, leva o presidente mundial para comemorar seu centenário, apresenta sua fortuna como instrumento da missão e finalmente declara que Deus colocou os recursos em suas mãos, o membro comum aprende qual é a interpretação religiosa autorizada daquela biografia. Depois de tanto tempo, a homenagem extraordinária deixa de parecer extraordinária.

E a ironia fica ainda mais cruel quando colocamos ao lado dessa canonização informal a viúva de Marcos 12. Ela entregou tudo e nem seu nome ficou registrado. O irmão Milton entregou recursos gigantescos e seu nome ficou registrado em concreto. Jesus precisou chamar os discípulos para que percebessem a oferta da viúva porque, pela contabilidade do templo, aquelas duas moedas eram praticamente invisíveis. A IASD não precisa de Jesus para chamar nossa atenção para o grande patrocinador: possui departamentos de comunicação, emissoras, sites, documentários, espaços de memória, prédios, escolas, dirigentes e presidentes para fazer isso.

A TRINDADE FINANCEIRA ESTÁ COMPLETA

Chegamos, portanto, à nossa irreverente atualização da teologia denominacional. Temos Deus Pai, Deus Filho e Deus Patrocinador. Na nossa representação visual, o Pai aparece como aquele de quem se diz biblicamente: “Minha é a prata, meu é o ouro”; o Filho aparece como Aquele que entregou a própria vida; e o terceiro personagem aparece como o touro dourado, fusão do bezerro de ouro com o símbolo contemporâneo da prosperidade financeira. O Pai possui o ouro. O Filho entrega a vida. O Patrocinador entrega os milhões. E a Organização, agradecida, entrega a canonização.

Não estamos descrevendo uma doutrina oficial da IASD. Estamos expondo, pelo exagero satírico, aquilo que a própria linguagem institucional tornou visível: o dinheiro do grande benfeitor adquiriu uma dimensão espiritual que o dinheiro do membro comum jamais recebe. O irmão Milton Afonso morreu. Seus milhões não chegarão mais à Igreja pelas mãos dele. Mas ficaram prédios, escolas, emissoras, espaços com seu nome e, sobretudo, uma dívida institucional de gratidão que agora continuará sendo paga em homenagens. Nós acompanharemos essa conta porque ela revela algo muito maior do que a biografia de um empresário adventista: revela quanto poder simbólico um grande patrocinador pode acumular numa religião que afirma que, diante de Deus, todos continuam sendo simplesmente irmãos.

29ª DOUTRINA FUNDAMENTAL — DEUS PATROCINADOR

Cremos em Deus Patrocinador, aquele que, segundo nossa novíssima doutrina fundamental, escolhe alguns irmãos para receber recursos em abundância e depois os inspira a devolvê-los parcialmente à Organização, onde o milagre se completa em prédios, emissoras, escolas, placas, patronatos e gratidão eterna. Como fundamento bíblico, podemos reunir textos com a mesma criatividade hermenêutica utilizada quando primeiro se decide a doutrina e depois se procuram versículos para sustentá-la: “Minha é a prata, meu é o ouro” (Ageu 2:8); “Deus ama quem dá com alegria” (2 Coríntios 9:7); “Honra ao Senhor com os teus bens” (Provérbios 3:9); e, para que não reste dúvida sobre quem deve administrar tamanha bênção, “Trazei todos os dízimos à casa do tesouro” (Malaquias 3:10). Separados de seus respectivos contextos e devidamente montados, os quatro textos quase parecem anunciar aquilo que acabamos de testemunhar: Deus fornece a fortuna, o patrocinador fornece os milhões e a Organização fornece a canonização. Amém.

Há, porém, um problema constrangedor nessa novíssima teologia da prosperidade: Jesus era pobre. Quando alguém se apresentou disposto a segui-Lo, Cristo respondeu: “As raposas têm covis, e as aves do céu têm ninhos, mas o Filho do Homem não tem onde reclinar a cabeça” (Mateus 8:20; cf. Lucas 9:58). O Filho de Deus não apresentou patrimônio, prosperidade financeira ou acumulação de bens como certificado visível da aprovação do Pai; ao contrário, descreveu a própria missão utilizando como imagem justamente a ausência de um lugar que pudesse chamar de seu.

Eis, portanto, o paradoxo final da nossa 29ª Doutrina Fundamental: se a abundância de recursos colocados nas mãos de alguém demonstra que Deus o escolheu especialmente para financiar Sua obra, teremos de explicar por que Deus Patrocinador ficou milionário enquanto Deus Filho não tinha sequer onde reclinar a cabeça.

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