1 João 5:7–8 e o “versículo que não nasceu com João”

Um artigo antitrinitariano, no espírito dos pioneiros adventistas

Existe uma razão simples pela qual 1 João 5:7 (“porque três são os que testificam no céu: o Pai, a Palavra e o Espírito Santo; e estes três são um”) virou o “cartaz” favorito de defensores da trindade: ele parece dizer, numa frase só, exatamente o que os concílios e credos posteriores quiseram cristalizar. Só que há um problema que não dá para varrer para debaixo do tapete: esse trecho, conhecido como Comma Johanneum, tem uma história textual tão tardia e tão suspeita que, para quem ama a Bíblia como Palavra de Deus, ele precisa ser tratado como aquilo que é — um acréscimo.

E aqui entra a coragem que marcou os pioneiros adventistas: eles não tinham medo de encarar tradições religiosas quando percebiam que elas estavam apoiadas mais em heranças dogmáticas do que em texto bíblico sólido. Mesmo autores adventistas posteriores (favoráveis à trindade) reconhecem sem rodeios que Joseph Bates e James White rejeitavam a doutrina da trindade e que líderes como J. N. Loughborough a atacavam como contrária à Escritura e de origem pagã ou fabulosa.

O que é o Comma Johanneum, exatamente

O “comma” é a parte “celestial” da lista de testemunhas em 1 João 5. Sem ele, o texto diz essencialmente que há três testemunhas: o Espírito, a água e o sangue (1Jo 5:8), no contexto do testemunho de Deus acerca de Jesus Cristo. Com o comma inserido, surge uma segunda tríade “no céu” (Pai, Palavra e Espírito Santo) e a frase “estes três são um”, que soa como fórmula pronta para debate doutrinário. É justamente essa inserção que as edições críticas modernas do Novo Testamento rejeitam no corpo do texto, por considerarem que ela não pertence ao original.

Por que esse trecho é considerado acrescentado

A questão decisiva não é “se combina com minha teologia”, mas “se João escreveu isso”. E aqui o cenário é devastador para a autenticidade do comma: ele não aparece na tradição grega antiga de 1 João. As evidências gregas que o trazem são poucas e tardias, e estudos de crítica textual apontam justamente isso: quando o comma aparece em grego, aparece tarde e em número ínfimo comparado ao restante da tradição manuscrita.

A história do comma é muito mais natural como glosa (comentário explicativo) que entrou no texto, especialmente por via latina, do que como “texto apostólico” que teria desaparecido do mundo grego inteiro por mais de mil anos e depois reaparecido. Esse tipo de dinâmica — nota marginal virar texto — é um fenômeno real e bem conhecido na transmissão de manuscritos.

Erasmo, o texto recebido e o nascimento de um “versículo de campanha”

O comma ganhou “vida impressa” por um caminho histórico específico. Erasmo, nas primeiras edições do seu Novo Testamento grego (século XVI), não incluiu o comma porque não o encontrava em seus manuscritos gregos. Mais tarde, um texto grego do comma passa a circular ligado ao Codex Montfortianus (minúsculo 61), e essa peça entra na tradição do Textus Receptus, influenciando traduções posteriores como a King James Version.

E aqui um detalhe importante: o estudioso Henk Jan de Jonge mostra que o “manuscrito com o comma” foi provavelmente produzido para entrar no debate da época e questiona a narrativa popular de que Erasmo teria feito uma promessa formal de inserir o texto. Isso mostra como o comma não se comporta como Escritura antiga preservada, mas como peça de disputa teológica tardiamente introduzida.

O ponto teológico que os pioneiros enxergavam (e que muita gente evita dizer)

Se um texto precisa ser “plantado” para vencer debate doutrinário, ele já se condena como fundamento. Os pioneiros adventistas, com todas as limitações do seu tempo, tinham um instinto correto: a doutrina deve nascer do texto bíblico confiável, não de fórmulas tardias que viram muleta. É por isso que muitos deles rejeitaram a trindade não por falta de espiritualidade, mas por convicção de que a doutrina, como era ensinada, dissolvia a personalidade do Pai e do Filho e se apoiava em construções extra-bíblicas.

Os próprios registros históricos adventistas reconhecem que James White criticou a trindade por afetar a personalidade de Deus e de Seu Filho, e que Bates via a formulação tradicional como impossível de conciliar com a realidade de Pai e Filho. Isso não é lenda de internet; está documentado em pesquisas históricas e publicações denominacionais.

Então o que sobra em 1 João 5 sem o comma

Sobra exatamente o que João escreveu com coerência: o testemunho de Deus a respeito de Seu Filho, com linguagem concreta (Espírito, água e sangue) ligada à realidade da encarnação e da missão de Cristo, e não uma fórmula metafísica importada para dentro do parágrafo. Quando o enxerto é removido, o texto volta a respirar como texto joanino, e não como slogan conciliar.

Conclusão: não é “tirar um versículo”, é recusar um acréscimo

O argumento antitrinitariano aqui não depende de “odiar a trindade”; depende de algo mais básico: honestidade com a história do texto. Se o Comma Johanneum é acréscimo tardio, ele não pode ser usado como prova bíblica de uma doutrina. Ponto. E quando sistemas religiosos constroem certezas em cima de enxertos, o dever profético de quem teme a Palavra é denunciar: Deus não precisa de versículo fabricado para sustentar a verdade; quem precisa disso é o sistema.

1) Linha do tempo do Comma Johanneum (1 João 5:7–8)

Século III–VI d.C. – glosa latina primitiva
A primeira evidência do que viria a ser chamado Comma Johanneum aparece em tradições latinas antigas como glosa ou explicação marginal, não no texto grego primitivo da epístola joanina. Outras tradições (siríaca, copta, etíope etc.) não preservam o trecho como parte do texto original.

Século V–VI – manuscritos latinos com interpolação
Manuscritos latinos datados dos séculos V–VI já trazem essa fórmula trinitária (“no céu, o Pai, a Palavra e o Espírito Santo…”), indicando que a inclusão começou a ocorrer no texto latino antes de aparecer em gregos tardios.

Século XIII–XVI – surgimento tardio no grego
Embora existam alguns manuscritos gregos com a cláusula, a maioria dos testemunhos gregos contendo o Comma Johanneum é datada tardiamente (século XIV em diante) e muitas vezes reflete influência latina ou nota marginal copiada para o corpo do texto.

1522 – Erasmo e o texto impresso
Desiderius Erasmus publicou as primeiras edições do seu Novo Testamento grego (Novum Instrumentum) sem o comma, pois não o encontrou em seus manuscritos. Mais tarde, sob pressão, adicionou o trecho em sua terceira edição (1522), depois que um manuscrito tardio (o Codex Montfortianus / Minúsculo 61) foi apresentado como evidência. Mesmo assim, expressou dúvidas sobre sua autenticidade.

Século XVI em diante – texto recebido
A partir dessa edição de Erasmus, a cláusula entrou no Textus Receptus e chegou às grandes Bíblias da Reforma e pós-Reforma (incluindo a King James Version e suas descendentes), perpetuando a presença do comma no texto impresso por séculos.

Século XX–XXI – crítica textual moderna
No século XX, edições críticas modernas do Novo Testamento (Nestle-Aland, UBS) rejeitaram o comma no corpo principal do texto por ausência nos manuscritos antigos e o relegaram a notas de rodapé.

Ponto essencial da linha do tempo:
O Comma Johanneum não tem apoio sólido nos manuscritos gregos primitivos e sua história textual indica que foi adicionado tardiamente, primeiro no latim e apenas depois no texto grego impresso do século XVI em diante.

2) Pioneiros adventistas e a crítica da trindade / Comma Johanneum

Os pioneiros adventistas do século XIX não rejeitavam a trindade por preferência doutrinária isolada, mas por base textual e teológica sólida — desejavam que doutrinas fossem sustentadas por textos bíblicos autênticos, não por acréscimos tardios.

a) Joseph Bates

Joseph Bates, um dos líderes pioneiros adventistas, criticou a formulação tradicional da trindade, afirmando que ela diluía a distinção entre Deus Pai e Jesus Cristo e possuía mais afinidade com conceitos filosóficos extra-bíblicos do que com o ensino claro das Escrituras.

b) James White

James White argumentava que a doutrina trinitária não estava claramente formulada no Novo Testamento e que a equação “Trindade = unidade de três em um” era uma construção posterior que exigia textos como 1 João 5:7 para sustentação — textos ausentes no grego original. A rejeição do comma fazia parte de sua crítica à construção dogmática trinitária.

c) J. N. Loughborough

J. N. Loughborough sustentava que a trindade, como ensinada por muitas tradições cristãs, estava ligada a conceitos filosóficos pagãos e fora do escopo do ensino bíblico puro. Também rejeitava o uso de 1 João 5:7 por considerar a cláusula uma adição tardia.

Importante: esses pioneiros não apenas discordavam da trindade; eles defendiam que qualquer doutrina deveria ser fundamentada em textos comprovadamente genuínos — e o Comma Johanneum, por sua história textual, não atende a esse critério. (Embora não exista um único documento digital moderno reunindo todas as citações, a pesquisa histórica adventista tradicional confirma essa linha de argumentação.)

3) Fechamento teológico antitrinitariano sem depender de 1 João 5:7–8

Há três linhas de argumentação antitrinitariana que não dependem do comma:

a) O texto joanino sem o comma

Sem o Comma Johanneum, 1 João 5:7–8 afirma que “três são os que testificam: o Espírito, a água e o sangue; e os três estão de acordo” — uma formulação com contexto cristológico imediato, ligada ao testemunho de Deus acerca de Jesus. Assim, a estrutura do texto aponta para um testemunho confirmatório, não para uma fórmula metafísica trinitária.

b) Critérios de crítica textual

Se uma cláusula não pertence ao texto original e foi adicionada tardiamente, ela não pode servir de fundamento doutrinário — muito menos como âncora de doutrina central. A história do Comma Johanneum evidencia exatamente isso.

c) Princípios bíblicos independentes

Uma abordagem antitrinitariana séria examina a natureza de Deus nas Escrituras com base em atributos, relacionamentos e revelação bíblica clara, não em fórmulas dependentes de interpolação textual. Isso inclui:

  • Monoteísmo consistente de Deuteronômio a João
  • O testemunho de Jesus sobre sua relação com o Pai
  • A compreensão do Espírito como manifestação da presença e poder de Deus, não como pessoa distinta numericamente

Essa abordagem evita depender de 1 João 5:7 como “prova trinitária”, justamente porque sua autenticidade é historicamente questionável.


Conclusão

O Comma Johanneum — cláusula frequentemente usada como apoio explícito à doutrina da trindade — não faz parte do texto original do apóstolo João, conforme a evidência manuscrita e a história da transmissão textual.

Ele surgiu como inserção tardia na tradição latina, foi incorporado ao Textus Receptus por Erasmus em 1522 em circunstâncias controversas e apenas depois se popularizou através das traduções baseadas nessa tradição.

Pioneiros adventistas reconheceram que nenhuma doutrina pode depender de uma cláusula de origem tardia. A argumentação antitrinitariana sólida, portanto, não exige o Comma Johanneum, mas se apoia na integridade do texto bíblico e na leitura honesta das Escrituras.

 

E a interpolação conhecida como Comma Johanneum: Um estudo textual detalhado com gráficos de manuscritos e evidências acadêmicas

Introdução

Entre os diversos textos do Novo Testamento, poucos trechos geraram tanto debate quanto 1 João 5:7–8 — especificamente a cláusula chamada Comma Johanneum (ou Parêntese Joanino), que em traduções tradicionais diz:

“Porque três são os que testificam no céu: o Pai, a Palavra e o Espírito Santo; e estes três são um.”

Enquanto algumas tradições bíblicas (como a King James Version e a Almeida Revista e Corrigida) incluem essa cláusula, a grande maioria das traduções modernas não a apresenta no corpo principal do texto justamente por razões substantivas de transmissão textual. Neste estudo vamos mostrar, com base em evidências acadêmicas, que o Comma Johanneum não estava no texto grego original da Primeira Carta de João, sendo uma adição posterior influenciada principalmente pela tradição latina.


1. História da transmissão textual — ausência nos manuscritos gregos antigos

Uma das regras fundamentais da crítica textual é olhar para a quantidade e antiguidade dos testemunhos. No caso de 1 João 5:7–8, a evidência manuscrita é clara:

Evidência grega

  • Dos milhares de manuscritos gregos do Novo Testamento existentes, apenas cerca de 10 contêm o Comma Johanneum no texto de 1 João 5:7–8 — e todos eles são tardios (séculos XIV em diante).

  • O manuscrito greco-latino Minuscule 629, datado de cerca de século XIV, é um dos mais antigos que contém o texto completo, mas ele é influenciado pelo latim, não um testemunho independente do original grego.

  • Manuscritos anteriores — incluindo os mais antigos e valorosos (como Vaticanus, Sinaiticus, Alexandrinus e outros até ao século X) não apresentam a cláusula no corpo do texto.

  • Em muitos manuscritos, a cláusula aparece apenas como nota marginal, e não no texto em si — um sinal clássico de interpolação tardia.

Em outras palavras, a versão longa com a cláusula trinitária não aparece no texto bíblico grego antes da era das impressões — algo que pesa enormemente contra sua originalidade apostólica.

Evidência patrística e versões antigas

A ausência do Comma Johanneum nos mais antigos testemunhos das versões escritas fora do grego (siríaco, copta, etíope e outras tradições textualizadas que preservam 1 João) confirma que o texto original não continha essa fórmula.

Assim, enquanto versões tardias em latim (como a Vulgata medieval) apresentam a cláusula, isso não significa que ela seja parte do original joanino, mas sim que foi incorporada depois por tradições textuais posteriores.

2. Erasmus, o texto impresso e a introdução do comma

A história da introdução do Comma Johanneum no texto grego impresso está intimamente ligada a Desiderius Erasmus no século XVI:

Erasmus e as edições de seu novo testamento grego

  • Erasmus publicou seu Novum Instrumentum em 1516 e 1519 sem o Comma Johanneum, pois ele não encontrou o trecho em nenhum dos manuscritos gregos que consultou.

  • Após críticas de vários círculos cristãos de sua época por não incluir a cláusula, um manuscrito grego com o trecho foi apresentado a ele (o codex conhecido hoje como Montfortianus, ou Codex Britannicus).

  • Com base nisso, Erasmus adicionou a cláusula à sua terceira edição de 1522, embora tenha declarado em suas anotações que a autenticidade do trecho lhe parecia duvidosa.

Esse episódio mostra que não foi a transmissão natural do texto do Novo Testamento que trouxe o Comma Johanneum, mas uma pressão editorial de interesses doutrinários e a disponibilização de um manuscrito tardio.

A tradição impressa e as grandes bíblias reformadas

A partir dessa terceira edição de Erasmus, a cláusula passou a entrar em muitas das principais traduções impressas que moldaram a percepção textual durante séculos, como a King James Version de 1611.


3. Argumentos críticos contra a autenticidade do comma

A crítica textual moderna rejeita o Comma Johanneum por vários motivos documentados:

Ampla ausência nos manuscritos

A ausência quase total do texto nos manuscritos gregos antigos é, por si só, um argumento externo poderoso de que a cláusula não pertence ao original.

Ausência nas obras dos primeiros pais

Um argumento interno adicional (confirmado pela falta de citações explicitamente patrísticas do Comma Johanneum nos primeiros séculos) indica que os primeiros escritores cristãos jamais o citariam se fosse parte do original — algo que textos apologéticos oficiais posteriores teriam feito se essa cláusula estivesse disponível nas versões primitivas.

Inconsistências gramaticais e contextuais

Estudos de crítica textual também mostram que a introdução da cláusula cria um salto abrupto na construção gramatical original de João, sugerindo que ela não se encaixa organicamente no texto e parece ter sido inserida posteriormente.


4. Gráfico de manuscritos (resumo ilustrativo)

Manuscritos gregos que contêm o comma (tarde)
– Minuscule 629 (séc. XIV) — conteúdo influenciado pelo latim
– Codex Montfortianus / Britannicus (GA 61, séc. XVI) — produzido intimamente com base latina
– Minuscule 918 (séc. XVI) — tardio, pós-impressão
– Codices 2473, 2318 (séculos XVII–XVIII) — ainda posteriores

Manuscritos gregos que NÃO contêm o comma
– Codex Vaticanus (séc. IV) — ausência total
– Codex Sinaiticus (séc. IV) — ausência total
– Codex Alexandrinus (séc. V) — ausência total
– Manuscritos dos séculos V–X — ausência generalizada

Este gráfico evidencia que a cláusula só aparece em manuscritos muito tardios e não independentes, reforçando que se trata de interpolação posterior ao texto original.


5. Implicações teológicas

Ausência de prova primária para a trindade

Se o Comma Johanneum — o texto mais explícito em muitas tradições para afirmar um “tri-unidade” — não pertence ao corpo original das Escrituras, então ele não pode ser usado como prova doutrinária sólida para a formulação trinitária clássica. Isso não resolve toda discussão teológica sobre a natureza de Deus, mas exclui um dos textos mais citados pelas tradições trinitárias como autoridade textual primária.

Leitura contextual e coerente sem o comma

Sem o Comma Johanneum, 1 João 5:7–8 simplesmente afirma que há três testemunhas que estão de acordo — o Espírito, a água e o sangue — um contexto que se integra naturalmente ao restante da epístola e à confissão joanina acerca de Jesus Cristo, sem necessidade de uma cláusula teológica introduzida tardia.


Conclusão

A evidência textual e histórica é inequívoca:

  1. O Comma Johanneum não aparece nos manuscritos gregos antigos e surge apenas em testemunhos tardios, muitos dos quais claramente traduzem ou dependem de tradição latina.

  2. Sua inclusão no texto grego impresso foi motivada por questões editoriais e pressões teológicas no início da era moderna, e não pela transmissão fiel do texto original de João.

  3. A crítica textual contemporânea praticamente universal rejeita a cláusula como parte genuína da epístola de João.

Portanto, em análises sérias da Bíblia, o Comma Johanneum deve ser tratado como interpolação, não como parte autêntica do texto original. Isso tem implicações profundas na forma como se utiliza essa passagem em debates doutrinários, incluindo aqueles sobre a doutrina da trindade.

1 João 5:7–8 e a interpolação conhecida como Comma Johanneum

Um estudo textual detalhado com evidências históricas e acadêmicas

Entre os textos mais controversos do Novo Testamento está 1 João 5:7–8, especialmente a cláusula conhecida como Comma Johanneum, que em versões tradicionais afirma:

“Porque três são os que testificam no céu: o Pai, a Palavra e o Espírito Santo; e estes três são um.”

Essa frase é frequentemente utilizada como sustentação direta da doutrina da Trindade. Contudo, sua história textual levanta questões sérias sobre sua autenticidade como parte do texto original de João.


1. A transmissão textual e a ausência nos manuscritos gregos antigos

O primeiro critério para avaliar a autenticidade de um texto bíblico é sua presença nos manuscritos mais antigos. No caso do Comma Johanneum, o cenário é bastante revelador.

  • A vasta maioria dos manuscritos gregos antigos não contém o texto do comma.
  • Os grandes códices do século IV e V (como Vaticanus, Sinaiticus e Alexandrinus) omitem completamente a cláusula.
  • Os poucos manuscritos gregos que a incluem são tardios, em geral posteriores ao século XIV.

Isso significa que durante mais de mil anos de transmissão do texto grego do Novo Testamento, essa cláusula simplesmente não aparece como parte da epístola.

2. O surgimento da cláusula na tradição latina

As primeiras evidências do Comma Johanneum surgem não no grego, mas em manuscritos latinos tardios, provavelmente como glosa marginal explicativa que acabou sendo incorporada ao texto.

Esse tipo de fenômeno é conhecido na crítica textual: comentários devocionais feitos por copistas nas margens acabam, em gerações posteriores, sendo copiados como se fossem parte do texto original.

O fato decisivo é que o comma surge primeiro no latim, não no grego, o que compromete seriamente sua reivindicação de origem apostólica.

3. Erasmus e a entrada do comma no texto impresso

Quando Desiderius Erasmus publicou as primeiras edições do Novo Testamento grego impresso (1516 e 1519), ele não incluiu o comma, pois não o encontrou em nenhum manuscrito grego confiável.

Após forte pressão teológica, um manuscrito tardio contendo a cláusula foi apresentado a ele (o Codex Montfortianus, século XVI). Com relutância, Erasmus incluiu o texto em sua terceira edição (1522), mesmo expressando dúvidas quanto à sua autenticidade.

A partir daí, o comma entrou no chamado Textus Receptus e acabou influenciando traduções como a King James Version e suas descendentes.

4. Evidência patrística e versões antigas

Outro ponto crucial: os principais pais da igreja dos primeiros séculos — justamente aqueles que mais combateram heresias cristológicas e trinitárias — nunca citaram 1 João 5:7 com o comma.

Se esse texto existisse em suas Bíblias, seria inconcebível que tivesse sido ignorado nos debates doutrinários mais intensos da história cristã primitiva.


5. O texto de 1 João 5 sem o comma

Quando removemos a cláusula acrescentada, o texto flui naturalmente:

“E o Espírito é o que testifica, porque o Espírito é a verdade. Porque três são os que testificam: o Espírito, a água e o sangue; e os três concordam num.”

O contexto é claro: João está falando do testemunho de Deus acerca de Jesus Cristo em termos concretos e históricos, não de uma fórmula metafísica sobre a natureza de Deus.

6. Implicações teológicas

A questão aqui não é meramente doutrinária, mas textual. Se o comma não pertence ao texto original inspirado, então ele não pode ser usado legitimamente como base para nenhuma doutrina.

Isso não resolve automaticamente todas as discussões sobre a natureza de Deus, mas elimina um dos textos mais frequentemente utilizados como “prova bíblica explícita” da Trindade.

Uma doutrina que depende de um texto acrescentado tardiamente precisa ser reavaliada à luz da integridade das Escrituras.


Conclusão

O peso da evidência histórica, manuscrita e acadêmica aponta na mesma direção: o Comma Johanneum não fazia parte do texto original da Primeira Epístola de João.

Ele surgiu em tradição latina tardia, foi incorporado sob pressão editorial na era da imprensa e permaneceu por séculos nas traduções por força da tradição, não da autenticidade textual.

Para quem leva a sério a autoridade das Escrituras, a conclusão é inevitável: a verdade bíblica não precisa de acréscimos. E toda doutrina deve ser construída sobre texto genuíno, não sobre interpolação.

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