INTRODUÇÃO — Antes da Segunda-feira
Este não é um livro de denúncias.
Também não é um memorial.
E certamente não é um manual de reforma institucional.
O que está escrito aqui não nasceu para convencer, nem para acusar formalmente. Nasceu da necessidade de sobreviver inteiro dentro de um sistema que exige adaptação constante e chama isso de fidelidade. Por isso, tomou a forma de história. Não por ficção gratuita, mas porque há experiências que só podem ser ditas assim.
Quem viveu ambientes semelhantes reconhecerá os gestos, os silêncios, os deslocamentos sutis de poder. Quem não viveu talvez considere exagero. Ambas as reações são previstas. O texto não se preocupa em se defender.
Não há nomes próprios. Não por covardia, mas por precisão. Os nomes mudam; as engrenagens, não. O que interessa aqui não é quem ocupou cargos, mas como os cargos moldaram consciências. O foco não está em pessoas isoladas, mas nos mecanismos que tornam certos comportamentos normais, aceitáveis, até desejáveis.
Esta narrativa não acompanha grandes crises, nem escândalos públicos. Ela acompanha o cotidiano — e é aí que reside o problema. O desgaste descrito não acontece em rupturas espetaculares, mas na repetição. Na exigência constante de máscaras. Na confusão deliberada entre fé, função e obediência.
Nada do que segue foi escrito para publicação. As anotações que deram origem a esta história nasceram em silêncio, à margem, em cadernos comuns, com letra contida. Não foram revisadas para agradar, nem organizadas para convencer. Permaneceram como registro íntimo do que não podia ser dito em reuniões, comissões ou púlpitos.
Não há aqui propostas de solução. Sistemas desse tipo não se corrigem com fórmulas simples. O máximo que se oferece é reconhecimento: a possibilidade de alguém, ao ler, perceber que não esteve sozinho — ou que talvez tenha se acostumado demais ao que deveria incomodar.
As máscaras descritas ao longo da semana não são exceções. São adaptações. Estratégias de sobrevivência desenvolvidas por quem deseja permanecer fiel sem ser esmagado. Alguns as usam por poucos anos. Outros por décadas. Poucos saem ilesos.
A história começa numa segunda-feira.
Porque é assim que a opressão costuma começar:
não com ruptura,
mas com rotina.
Se o leitor seguir adiante, encontrará dias comuns, gestos pequenos, decisões aparentemente banais. É nesses espaços que a consciência é negociada, pouco a pouco.
O texto não pede concordância.
Pede atenção.
O restante da semana fala por si.
Capítulo 1 — A Segunda-feira
A semana não começava no domingo à noite, nem no sábado depois do pôr do sol.
A semana começava na segunda-feira, sempre na segunda-feira.
Ele acordava cedo, antes do sol tocar o telhado simples da casa no povoado próximo. A família ainda dormia. O café era rápido, quase mecânico. Não havia tempo para conversa profunda às segundas-feiras — elas exigiam outra postura, outro rosto.
O caminho até a editora era conhecido demais. Árvores, poeira, portão, estacionamento. O prédio surgia sempre igual: sólido, funcional, limpo, com aquela aparência neutra que não revelava nada do que acontecia por dentro. Para quem vinha de fora, era apenas uma instituição religiosa eficiente. Para quem entrava todos os dias, era um mundo fechado.
Antes de qualquer trabalho editorial, vinha a capela.
A capela da segunda-feira não era opcional. Nunca foi.
Ali, a instituição não se apresentava como organização humana — apresentava-se como expressão direta da vontade divina. Os discursos falavam de missão, fidelidade, unidade. Palavras bonitas, repetidas por décadas, até perderem o atrito com a realidade.
Ele se sentava sempre no mesmo lugar, não por devoção, mas por hábito. Ouvia. Sabia quando a mensagem era genérica e quando era recado indireto. Aprendeu a identificar isso cedo: quando se falava demais em “espírito de cooperação”, alguém estava sendo observado; quando se insistia em “confiança na liderança”, havia ruído nos bastidores.
Oravam. Cantavam. Confirmavam, mais uma vez, que a instituição era guiada por Deus — e, portanto, não podia estar errada.
Terminada a capela, os rostos mudavam levemente. A espiritualidade ficava na sala, e começava o trabalho real.
Ele não decidia nada sozinho. Nunca decidiu.
Participava de comissões de avaliação, mesas onde livros eram discutidos como se fossem questões técnicas, mas todos sabiam que não eram. Havia originais bons que precisavam ser “ajustados”. Havia originais fracos que precisavam ser “salvos”. E havia nomes — sempre os nomes.
Ele produzia relatórios. Textos claros, bem escritos, honestos. Apontava problemas doutrinários quando existiam. Indicava falhas de estilo, repetições, incoerências. Às vezes, sugeria cortes inteiros. Outras vezes, tentava preservar o pouco de verdade que sobrava.
Mas a palavra final nunca era dele.
A injustiça não vinha em forma de escândalo. Vinha em decisões tranquilas, tomadas com sorriso, justificadas “pelo bem da obra”. Um livro tecnicamente ruim avançava porque o autor ocupava cargo alto. Outro, cuidadoso e sincero, era engavetado porque “não era oportuno”.
Ele via colegas sendo pressionados, silenciados, descartados aos poucos. Via outros sendo protegidos apesar de tudo. Não havia regra clara — havia conveniência.
Formado em Letras, com passagem pelo Jornalismo, ele entendia demais de texto para fingir ignorância. Sabia como uma frase pode esconder poder. Sabia como se constrói narrativa. E sabia, principalmente, quando a verdade estava sendo suavizada até desaparecer.
À tarde, os corredores se enchiam de vozes medidas. Havia uma comunidade ali dentro que pouco tinha a ver com a igreja local ou com a família em casa. Funcionários, obreiros, chefias — todos vivendo uma vida paralela, mais influente que qualquer relação fora do portão.
Quando surgia notícia de visita da Divisão, a semana mudava de peso.
Roupas melhores. Postura ensaiada. Sorrisos longos. Concordância automática.
Os visitantes chegavam seguros de si. Falavam muito. Mandavam. Corrigiam. Ameaçavam sem dizer ameaças. Os administradores locais aceitavam tudo — e depois repassavam a pressão com juros.
Ele observava. Sempre observou.
Via bajulações explícitas. Via relações encobertas. Via cobrança desigual. Via exigências espirituais que não produziam fé, apenas cansaço.
E ainda assim, toda segunda-feira, ele voltava ao mesmo lugar, sentava na mesma cadeira, abria novos originais e seguia.
À noite, em casa, quando o barulho cessava, ele abria um caderno simples, de espiral, e escrevia à mão. Caneta Bic. Letra firme, econômica. Não escrevia para publicar. Escrevia para não enlouquecer.
No topo de uma página antiga, estava o título que nunca mudou:
As Sete Máscaras de um Obreiro Padrão
A primeira começava ali.
Na segunda-feira.
Ele escrevia porque durante o dia não podia dizer nada.
No caderno, não havia ata, nem parecer, nem relatório. Havia frases que jamais caberiam numa comissão. Ele não usava nomes — aprendeu cedo que nomes eram perigosos. Usava situações, gestos, tons de voz. Quem viveu aquilo reconheceria. Quem não viveu, talvez achasse exagero. Ele aceitava esse risco.
Na editora, a segunda-feira avançava com a previsibilidade de sempre. Pilhas de originais sobre a mesa. Alguns vinham de autores sinceros, gente que ainda acreditava que escrever era servir. Outros vinham de líderes que mal dominavam a própria língua, mas dominavam cargos. Esses exigiam cuidado redobrado. Não por qualidade literária — por status.
Salvar livros virou uma especialidade indesejada.
Salvar significava reescrever sem que o autor percebesse.
Salvar significava limpar repetições infantis, corrigir erros básicos, reorganizar capítulos que não se sustentavam.
Salvar significava, às vezes, pensar pelo autor, porque o autor não pensara.
E, ao final, o nome na capa não era o dele.
Ele nunca reclamou disso em voz alta. O sistema não gostava de quem reclamava de trabalho. Gostava de quem se sacrificava sorrindo. O elogio vinha sempre acompanhado de mais carga. Competência era punida com mais responsabilidade — sem aumento proporcional, sem reconhecimento público.
As reuniões de comissão tinham um ritual próprio. Alguém abria com oração. Isso não tornava a conversa mais justa, apenas mais blindada. Depois vinham os pareceres. Ele falava quando precisava, com cautela. Aprendeu a usar frases condicionais, a suavizar conclusões, a apresentar problemas como “pontos de atenção”.
Mesmo assim, nem sempre adiantava.
Havia dias em que ele saía da sala sabendo que um livro ruim seria publicado. Sabendo que uma ideia mal formulada se tornaria oficial. Sabendo que o erro ganharia selo denominacional e circularia por igrejas, escolas, lares.
Esse peso não aparecia no rosto. Aparecia no corpo.
Com o tempo, ele começou a sentir dores que não tinham explicação clara. Tensão constante. Cansaço que não se resolvia com descanso. O sábado, oficialmente sagrado, era o dia mais exaustivo. Pregações, aulas, reuniões. O domingo virava o único espaço de silêncio real — feira, rua, gente comum, sem linguagem codificada.
Mesmo no domingo, às vezes encontrava chefes. E ali também havia regras. Postura. Comentários velados. Avaliação constante. Nunca desligava completamente.
Na editora, a distinção entre operários e chefias era clara, embora raramente declarada. Havia mesas, horários, acessos. Havia quem pudesse errar e quem não pudesse. Havia quem fosse corrigido em particular e quem fosse exposto “para edificação”.
Ele viu colegas adoecerem. Alguns fisicamente. Outros por dentro. Viu gente perder o brilho, perder a voz, perder a capacidade de rir sem cautela. Viu também gente prosperar — não por profundidade espiritual, mas por habilidade em navegar o sistema.
Quando vinham visitas da Divisão, tudo se intensificava. O prédio parecia encolher. O ar ficava mais denso. Os visitantes falavam de visão, metas, crescimento. Falavam de números como se fossem almas. Falavam de obediência como se fosse virtude suprema.
Ele ouvia calado.
Sabia que muitos daqueles homens não haviam chegado ali por discernimento espiritual. Chegaram por alianças, por conveniência, por saberem quando falar e quando se calar. O sistema recompensava isso.
À noite, no caderno, ele escrevia sobre a máscara da concordância. Aquela que se usa para sobreviver às visitas. Aquela que exige sorriso, reverência, silêncio. Ele descrevia como essa máscara começa leve e termina colada ao rosto.
Também escrevia sobre a máscara da espiritualidade funcional — aquela que serve para reuniões, mas não para a alma. Sobre cultos obrigatórios que não produzem descanso. Sobre excesso de atividades que sufocam qualquer fé sincera.
Às vezes, parava de escrever e fechava o caderno. Não por falta de palavras, mas por medo. Não de punição imediata — medo de perceber tarde demais que havia se tornado aquilo que criticava.
Na segunda-feira seguinte, voltava tudo de novo.
Capela. Comissão. Relatórios. Corredores. Sorrisos calculados.
E ainda assim, ele continuava escrevendo à mão.
Porque enquanto escrevesse, ainda era livre em algum lugar.
Décadas se passaram assim. Uma após a outra. Sem grandes rupturas. Sem escândalos. Apenas resistência silenciosa.
A jubilação chegou aos setenta. Foi formal, correta, protocolar. Um discurso. Um agradecimento. Uma placa simples. Nenhuma menção ao que ele segurou por dentro por mais de trinta anos.
Em casa, já aposentado, o caderno continuou guardado. Não foi publicado. Não foi revisado. Não foi entregue a ninguém inteiro. Era memória viva demais para virar produto.
Anos depois, quando ele já estava velho, um neto encontrou o caderno. Não entendeu tudo. Mas sentiu o peso. Guardou. Não como denúncia. Como lembrança.
Talvez um dia alguém leia com mais atenção.
Talvez não.
Mas o que foi escrito não se perdeu.
E isso, para ele, já era alguma forma de descanso.
Capítulo 2 — A Terça-feira
Se a segunda-feira exigia postura, a terça-feira exigia permanência.
Era o dia em que a engrenagem começava a rodar em velocidade constante, sem solenidade, sem discursos inaugurais. Já não havia a teatralidade da capela inaugural da semana; havia a expectativa silenciosa de produtividade. A terça não precisava reafirmar a santidade da instituição — ela precisava provar eficiência.
Ele chegava no mesmo horário, atravessava o mesmo portão, cumprimentava as mesmas pessoas com variações mínimas de cordialidade. O corpo já sabia o caminho antes da mente. Havia algo de automático nisso, e ele percebeu cedo que essa automatização não era apenas logística — era também emocional.
Na terça-feira, ele vestia a máscara da competência.
Não a competência genuína, que nasce do prazer em fazer bem algo que importa, mas aquela competência institucional, funcional, indispensável ao sistema e, por isso mesmo, perigosa para quem a possui. Ser competente ali nunca foi sinônimo de reconhecimento; era sinônimo de ser usado até o limite do silêncio.
A mesa o esperava com pilhas organizadas. Originais novos, devolutivas pendentes, textos “urgentes” que nunca vinham com prazo oficial, mas sempre com cobrança implícita. Ele sabia distinguir o que era realmente urgente do que era politicamente urgente. Aprendeu isso observando quem assinava os memorandos e quem ligava no meio da manhã “só para saber se estava tudo bem encaminhado”.
Na terça-feira, não havia espaço para ingenuidade.
Os livros didáticos ocupavam boa parte do seu tempo naquele período da vida. Eram tratados como produtos estratégicos, porque circulavam em escolas, formavam professores, moldavam pensamento desde cedo. Cada palavra importava — mas não apenas por clareza pedagógica. Importava por alinhamento.
Havia conteúdos que precisavam parecer neutros, mas não eram. Havia escolhas editoriais que moldavam visões de mundo sem jamais se declararem ideológicas. Ele sabia disso. Sabia porque lia com atenção. Sabia porque tinha formação para perceber o que estava sendo dito — e, principalmente, o que estava sendo evitado.
A máscara da competência exigia silêncio crítico.
Ele fazia observações técnicas, nunca ideológicas. Ajustava termos. Sugerias substituições. Reformulava parágrafos inteiros para que ideias frágeis soassem sólidas. Não porque acreditasse nelas, mas porque o sistema exigia que soassem bem.
Em reuniões, seu nome era citado como referência. “Ele resolve.”
E ele resolvia.
Mas resolver, ali, significava absorver conflitos que não eram dele.
Autores reclamavam. Coordenadores pressionavam. Administradores queriam rapidez. A competência servia como colchão institucional: tudo o que não funcionava direito caía sobre quem funcionava demais. Ele percebia isso nas terças-feiras, quando o fluxo de demandas se tornava constante, quase ininterrupto.
Não havia tempo para reflexão profunda. Havia execução.
Entre uma leitura e outra, ele observava o ambiente. Na terça-feira, os corredores revelavam mais do que discursos. Revelavam alianças silenciosas, conversas interrompidas com a sua aproximação, risadas contidas quando alguém de “fora” passava. Havia uma linguagem própria, um código não escrito, que separava quem entendia o sistema de quem ainda acreditava demais.
Ele entendia.
Sabia quem podia errar e quem não podia. Sabia quem estava protegido e quem estava em observação. Sabia que alguns nomes jamais seriam recusados em comissão, independentemente da qualidade do texto. Sabia também que havia autores sinceros demais — e que esses, paradoxalmente, corriam mais risco.
Na terça-feira, ele salvava livros que não mereciam ser salvos.
O processo era sempre parecido. Um original chegava mal escrito, confuso, repetitivo. O autor, quase sempre, ocupava algum posto administrativo relevante ou estava a caminho de ocupar. O texto não podia ser recusado. Também não podia sair como estava.
Então começava o trabalho invisível.
Ele reescrevia frases inteiras. Organizava a lógica. Dava coerência onde não havia. Em alguns casos, praticamente reconstruía o livro. Fazia isso com cuidado extremo, porque precisava manter a “voz do autor” — uma voz que, muitas vezes, não existia de fato.
Ao final, o livro ficava publicável. Até elogiável.
O nome na capa não era o dele.
Essa era uma das faces mais duras da terça-feira: a apropriação institucional da inteligência alheia, feita de modo tão natural que raramente era questionada. Não havia contrato explícito para aquilo, mas havia expectativa tácita. E expectativa, naquele ambiente, tinha força de norma.
Ele nunca pensou em reivindicar autoria. Sabia que isso seria visto como soberba, falta de espírito de serviço, talvez até rebeldia. A máscara da competência incluía humildade performática. Trabalhar muito. Falar pouco. Aceitar tudo como parte da missão.
Mas o custo disso não aparecia no contracheque.
A competência também o colocava em comissões sensíveis. Avaliação de material teológico, devocional, institucional. Nessas mesas, a linguagem ficava mais cuidadosa. Ninguém dizia “isso é ruim”. Dizia-se “isso pode gerar interpretações equivocadas”. Ninguém dizia “isso é raso”. Dizia-se “isso talvez precise de aprofundamento posterior”.
Ele escrevia os pareceres com precisão cirúrgica. Nem agressivos, nem complacentes demais. Aprendeu a dosar crítica como quem administra remédio forte: o suficiente para não matar, nunca o bastante para curar de vez.
Na terça-feira, ele percebia claramente que a verdade não era rejeitada por ser falsa, mas por ser inconveniente.
Textos que levantavam questões históricas mais complexas eram vistos com cautela. Análises que fugiam do discurso oficial eram consideradas “prematuras”. Havia sempre uma razão técnica para não avançar — mas a razão real era quase sempre política.
Ele sabia disso, mas não dizia.
No caderno, à noite, a escrita da terça-feira era diferente da da segunda. Menos descritiva, mais analítica. Ele escrevia sobre a máscara da eficiência: aquela que transforma pessoas em funções, talentos em ferramentas, vocações em engrenagens. Escrevia sobre como o sistema se alimenta de quem entrega mais do que é exigido — e depois normaliza esse excesso.
Escrevia também sobre o medo de se tornar indispensável demais. Porque ser indispensável significava nunca poder parar. Nunca poder dizer não. Nunca poder adoecer sem culpa.
Com o tempo, ele começou a sentir que a competência havia se tornado uma armadilha. Não podia errar, porque não errar era parte da identidade que haviam colado nele. Não podia desacelerar, porque desacelerar levantaria suspeitas. Não podia demonstrar cansaço, porque cansaço era sinal de falta de consagração.
Na terça-feira, ninguém falava de alma. Falava-se de prazos.
O almoço era rápido, quase sempre em companhia dos mesmos colegas. Conversas superficiais, comentários sobre trabalho, alguma piada segura. Assuntos mais profundos ficavam para depois — e quase nunca chegavam. Havia sempre alguém ouvindo demais, alguém que poderia interpretar errado, alguém que poderia relatar fora de contexto.
Ele aprendeu a rir na medida certa.
À tarde, surgiam pedidos “extras”. Revisões urgentes. Ajustes de última hora. Mudanças decididas em instâncias superiores que precisavam ser incorporadas sem discussão. A competência exigia adaptação imediata. Não havia espaço para questionar o mérito da mudança — apenas para executá-la bem.
E ele executava.
Quando o expediente terminava, o corpo estava cansado, mas a mente seguia acelerada. A terça-feira não permitia desligamento fácil. Era o dia em que o trabalho grudava nos pensamentos, em que frases mal escritas continuavam pedindo correção mesmo em casa.
No caderno, ele escrevia até a mão doer. Não para organizar o mundo — mas para lembrar a si mesmo que ainda pensava por conta própria. Que ainda distinguia entre servir e se anular. Que ainda conseguia nomear o que vivia, mesmo que só ali, entre folhas simples e tinta barata.
Na editora, ninguém sabia daquelas páginas.
Na terça-feira seguinte, tudo recomeçaria. Mais livros. Mais urgências. Mais competência exigida.
E ele seguiria colocando a máscara correta, no dia correto.
Porque no sistema, sobreviver não era questão de fé —
era questão de adaptação contínua.
Capítulo 3 — A Quarta-feira
A quarta-feira era o dia em que o meio da semana se tornava visível.
Não havia o impacto simbólico da segunda, nem a cadência produtiva da terça. A quarta expunha o cansaço acumulado, o desgaste que ainda não podia ser admitido. Era o ponto em que o corpo começava a cobrar, mas a instituição exigia normalidade absoluta.
Ele acordava com a sensação de já estar atrasado, mesmo quando não estava. Um tipo de ansiedade silenciosa, sem causa específica, apenas a soma de pequenas pressões que nunca se dissipavam por completo. A quarta-feira não começava com urgências novas — começava com pendências.
Na editora, esse era o dia das cobranças difusas.
Não vinham em memorandos formais. Vinham em comentários de corredor, em perguntas aparentemente inocentes, em olhares prolongados. “Como está aquele material?” “O pessoal da administração comentou…” “Talvez fosse bom rever aquele parecer.”
Nada era dito de forma direta. Tudo era insinuado.
Na quarta-feira, ele usava a máscara da prudência.
Essa máscara não exigia produtividade extrema, mas vigilância constante. Qualquer frase podia ser interpretada fora de contexto. Qualquer observação técnica podia soar como crítica velada. Ele aprendeu a falar menos, a ouvir mais, a registrar mentalmente o que era dito — e, principalmente, por quem.
As comissões continuavam, mas com outro tom. Já não havia entusiasmo inicial, nem expectativa. Havia defesa de posições. Alguns membros chegavam com decisões tomadas antes mesmo da discussão começar. Outros falavam apenas o suficiente para não parecer ausentes.
Ele percebia quando um livro já estava aprovado informalmente, mesmo que tecnicamente apresentasse problemas. Percebia também quando um texto já estava condenado, ainda que ninguém dissesse isso em voz alta. A quarta-feira era o dia em que essas decisões invisíveis ficavam mais claras.
Os relatórios ganhavam importância estratégica.
Na segunda, eles eram obrigação. Na terça, ferramenta. Na quarta, tornavam-se registro de responsabilidade. O que fosse escrito ali poderia ser usado depois — para justificar decisões, para proteger superiores, para deslocar culpa. Ele sabia disso. Por isso, escrevia com extremo cuidado.
Nem demais, nem de menos.
Aprendeu a usar a linguagem como quem caminha em terreno instável. Palavras neutras, construções impessoais, recomendações abertas. Não era covardia — era sobrevivência. A prudência editorial se confundia com autopreservação.
Na quarta-feira, surgiam também as tensões interpessoais.
Pequenos atritos que vinham sendo acumulados emergiam em forma de ironia, distanciamento, frieza súbita. Havia colegas competentes que começavam a ser isolados. Outros, menos capazes, passavam a circular com mais liberdade. Ele observava essas mudanças com atenção. Sabia que ali se decidiam futuros.
A editora tinha uma hierarquia informal mais poderosa que qualquer organograma. E essa hierarquia se revelava nos detalhes: quem podia entrar sem avisar, quem era interrompido, quem era ouvido com paciência. A quarta-feira tornava esses sinais evidentes.
Ele também sentia o peso da exposição seletiva.
Ser competente o tornava visível demais em certos momentos e invisível em outros. Era chamado quando havia problema. Ignorado quando havia sucesso. Isso criava uma estranha sensação de presença condicional: ele existia plenamente quando algo precisava ser consertado, mas desaparecia quando tudo funcionava.
Na quarta-feira, isso ficava claro.
Autores insatisfeitos ligavam. Questionavam alterações. Reclamavam de cortes. Ele precisava explicar decisões que não eram suas, com diplomacia, sem revelar bastidores. Tornava-se intermediário entre vaidades feridas e decisões superiores. Um amortecedor humano.
Em alguns casos, percebia que o autor tinha razão. Em outros, sabia que o problema era o próprio texto. Mas isso pouco importava. O papel dele era manter a estabilidade.
A estabilidade institucional sempre vinha antes da verdade textual.
No meio da tarde, às vezes havia reuniões extraordinárias. Convocações rápidas, sem pauta clara. Normalmente indicavam que algo havia sido decidido em instância superior e precisava ser operacionalizado. Não se discutia o mérito — apenas a forma.
Ele ouvia, anotava, adaptava.
Na quarta-feira, tornava-se evidente que a instituição não funcionava por consenso, mas por alinhamento progressivo. Quem não se alinhava, ficava à margem. Quem questionava demais, passava a ser visto como problema. Quem se calava e entregava, avançava — ou, pelo menos, permanecia.
O custo disso era interno.
Ele sentia um desgaste que não era físico apenas. Era o desgaste de ter que medir cada palavra, cada silêncio. De viver numa vigilância suave, constante, sem explosões, mas sem descanso. A quarta-feira era o dia em que ele mais percebia isso.
À noite, o caderno se tornava mais pesado.
Ele escrevia sobre a máscara da prudência como uma forma de erosão lenta. Não destruía de uma vez — desgastava aos poucos. Escrevia sobre como o medo de falar errado vai, com o tempo, virando medo de falar qualquer coisa. E como esse medo se disfarça de maturidade espiritual.
Também escrevia sobre culpa.
Culpa por se calar. Culpa por saber demais. Culpa por continuar ali. Não era culpa moral simples — era culpa institucional, cuidadosamente cultivada. A ideia de que qualquer desconforto pessoal era sinal de falta de entrega.
Na quarta-feira, ele começava a contar os dias até o sábado — não como descanso real, mas como mudança de cenário. Mesmo sabendo que o sábado traria outras exigências, outras máscaras.
No ambiente da editora, a família parecia distante. Não por falta de amor, mas por falta de espaço mental. O sistema ocupava tudo. Conversas em casa eram interrompidas por pensamentos pendentes. Leituras pessoais eram adiadas indefinidamente.
A quarta-feira era o dia em que ele mais sentia isso.
No fim do expediente, ao guardar papéis, ele tinha a sensação de que nada havia terminado de fato. Tudo apenas fora empurrado um pouco adiante. A semana seguia, e ele seguia junto, sem poder parar para avaliar o sentido do movimento.
Na editora, ninguém falava de desgaste. Falava-se de compromisso.
E ele continuava comprometido — não por ingenuidade, mas por falta de alternativa clara. A prudência o mantinha ali, funcional, silencioso.
Na quarta-feira seguinte, ele vestiria a mesma máscara.
E seguiria, equilibrando-se entre dizer o suficiente para não ser descartado
e calar o bastante para não ser punido.
No sistema, esse equilíbrio era chamado de maturidade.
Capítulo 4 — A Quinta-feira
A quinta-feira era o dia em que a semana começava a endurecer.
Não no sentido de urgência explícita, mas de irreversibilidade. O que não tivesse sido resolvido até ali dificilmente seria. Decisões mal tomadas já não seriam revistas. Injustiças acumuladas começavam a se consolidar como rotina. A quinta não anunciava nada — ela confirmava.
Ele sentia isso logo cedo, ainda antes de chegar à editora. Havia uma rigidez no corpo, uma espécie de armadura invisível que precisava ser colocada para atravessar o dia. A prudência da quarta dava lugar a algo mais denso: a máscara da lealdade.
Lealdade ali não significava fidelidade à verdade, nem compromisso com princípios. Significava alinhamento emocional com o sistema. Esperava-se não apenas obediência funcional, mas adesão interna — ou, ao menos, a simulação perfeita dela.
Na quinta-feira, essa expectativa ficava mais clara.
Reuniões ganhavam tom avaliativo. Comentários sobre desempenho surgiam de maneira lateral, nunca direta. “O pessoal tem percebido seu comprometimento.” “É bom ver gente que entende o espírito da obra.” Frases assim não eram elogios gratuitos. Eram lembretes. Sinais de que ele estava sendo observado — e, por ora, aprovado.
A lealdade precisava ser demonstrada constantemente.
Ele percebia isso quando surgiam decisões difíceis de defender. Livros problemáticos aprovados sem critérios claros. Autores protegidos apesar de falhas graves. Mudanças editoriais impostas de cima para baixo, contrariando pareceres técnicos. A quinta-feira testava até onde ele iria sem questionar.
E ele ia.
Não porque concordasse, mas porque sabia o preço da discordância. Já havia visto colegas serem marcados por pequenas resistências. Não demitidos imediatamente — isso seria barulhento demais — mas lentamente isolados, esvaziados de função, empurrados para irrelevância.
A lealdade era, antes de tudo, uma estratégia de sobrevivência.
Na quinta-feira, o trabalho editorial se misturava cada vez mais com o trabalho político. Não política partidária — política institucional, de corredores, de bastidores. Quem se alinhava a quem. Quem estava em ascensão. Quem estava caindo em desgraça. Ele observava tudo com atenção silenciosa.
Sabia que neutralidade absoluta não existia ali.
Mesmo o silêncio era interpretado. Mesmo a ausência de opinião podia ser lida como resistência passiva. Por isso, a máscara da lealdade exigia pequenos gestos: concordâncias sutis, comentários de apoio, frases cuidadosamente formuladas que indicavam pertencimento.
Nada exagerado. Exagero chamava atenção.
Nada ausente. Ausência gerava suspeita.
Na quinta-feira, ele se tornava especialista em linguagem de sinalização.
Durante as avaliações de livros, isso ficava ainda mais evidente. Ele podia apontar falhas técnicas, desde que o fizesse dentro de limites seguros. Não podia questionar pressupostos fundamentais. Não podia sugerir que determinados discursos já não dialogavam com a realidade. Não podia, sobretudo, insinuar que a instituição pudesse estar errada.
Errada era sempre a interpretação. Nunca o sistema.
Ele escrevia pareceres cada vez mais cuidadosos. Às vezes, ao relê-los à noite, percebia o quanto haviam se tornado indiretos. Frases longas, cheias de condicionais, que diziam muito pouco explicitamente — mas o suficiente para cumprir o protocolo.
A lealdade institucional exigia isso: dizer sem dizer.
Na quinta-feira, também surgiam convites. Não convites formais, mas aproximações. Conversas mais longas com superiores. Perguntas sobre planos futuros. Comentários sobre “novas possibilidades”. Nada concreto, tudo sugestivo. A promessa implícita de que a lealdade poderia ser recompensada.
Ele ouvia, mas não se animava.
Já havia percebido que essas promessas raramente se cumpriam da forma esperada. Serviam mais para manter pessoas engajadas do que para promover mudanças reais. Ainda assim, recusá-las abertamente seria imprudente. A máscara exigia interesse moderado, expectativa controlada.
O sistema não gostava de ambiciosos explícitos, mas também desconfiava dos indiferentes.
Na quinta-feira, ele sentia o peso da duplicidade. Não no sentido moral simplista, mas existencial. Havia o homem que pensava, analisava, lia sobre política, poder, estruturas. E havia o obreiro que precisava performar lealdade a um discurso que já não o convencia.
Essa distância interna crescia com o tempo.
Ele percebia isso quando alguém exaltava a perfeição da instituição em tom triunfal. Quando se falava da obra como se estivesse acima de qualquer crítica humana. Nessas horas, algo nele se retraía. Não discutia. Não confrontava. Apenas registrava.
Na quinta-feira, o registro silencioso era sua forma de resistência.
À tarde, surgiam demandas relacionadas à imagem institucional. Ajustes de linguagem para evitar interpretações “perigosas”. Recomendações para suavizar críticas. Orientações para alinhar textos a campanhas ou ênfases temporárias. O conteúdo precisava servir à narrativa maior.
Ele executava com precisão. Sabia que um pequeno desvio poderia gerar problemas desproporcionais.
No caderno, à noite, ele escrevia sobre a máscara da lealdade como uma das mais difíceis de remover. Porque, ao contrário das outras, ela não se limitava ao ambiente de trabalho. Começava a infiltrar-se na identidade. A pessoa passava a se definir pela aprovação do sistema. Pela sensação de pertencer.
Ele escrevia com certo medo nessa noite. Medo de reconhecer o quanto aquela máscara já havia se ajustado ao rosto. Medo de admitir que, em alguns momentos, a lealdade havia se tornado automática — quase sincera.
Esse medo não era paralisante, mas inquietante.
A quinta-feira terminava com uma sensação estranha: não exatamente cansaço, mas tensão mantida. Como se algo estivesse sempre prestes a acontecer, mas nunca acontecesse de fato. A semana avançava, e ele avançava junto, carregando decisões que não eram suas como se fossem.
Na editora, a lealdade era celebrada como virtude espiritual.
Ele sabia que era, antes, uma ferramenta de controle.
Na quinta-feira seguinte, vestiria a mesma máscara. Ajustada. Discreta. Funcional.
Porque, naquele sistema, sobreviver significava não apenas trabalhar bem —
significava pertencer sem perturbar.
Capítulo 5 — A Sexta-feira
A sexta-feira não era um dia inteiro.
Era um meio-dia prolongado.
Desde cedo, havia uma percepção compartilhada — nunca declarada — de que o expediente não deveria avançar demais. A instituição reconhecia oficialmente o pôr do sol como marco sagrado, mas, na prática, o ritmo começava a mudar bem antes. Não por descanso, mas por preparação ritual.
Ele sentia isso logo ao acordar. A sexta não tinha a tensão da terça, nem a vigilância da quarta, nem o endurecimento da quinta. Tinha algo diferente: uma solenidade antecipada, quase teatral, que exigia ajuste interno. Era o dia da transição controlada.
Na editora, o clima confirmava isso.
As pessoas chegavam, mas já pensavam na saída. Conversas eram mais curtas. Demandas novas raramente surgiam. O que estava pendente seria empurrado para a semana seguinte, com naturalidade tácita. A sexta não era dia de decidir — era dia de encerrar sem resolver.
Nesse dia, ele vestia a máscara da reverência institucional.
Não era ainda a reverência pública do sábado, mas o ensaio dela. Um cuidado maior com palavras, com gestos, com expressões. A sexta exigia coerência simbólica: ninguém queria carregar para o sábado um conflito mal resolvido ou uma impressão errada.
As reuniões da manhã começavam sempre com orações mais longas. Havia um tom diferente — menos técnico, mais devocional. Textos bíblicos eram citados não para iluminar decisões, mas para blindá-las. Tudo precisava parecer espiritualmente alinhado antes da virada do dia.
Ele observava isso com atenção silenciosa.
Pareceres editoriais escritos na sexta eram inevitavelmente mais suaves. Não por falta de clareza, mas por prudência ritual. Críticas duras ficavam para depois. Questionamentos mais profundos eram adiados. A sexta-feira não tolerava atrito.
A instituição precisava entrar no sábado “em paz”.
Ele sabia que essa paz era, muitas vezes, apenas ausência temporária de confronto. Mas não dizia nada. Aprendera que a sexta não era dia de lucidez excessiva. Era dia de adequação.
Por volta do meio da manhã, o ritmo diminuía visivelmente. Alguns setores já começavam a se organizar para sair mais cedo. Mesas eram arrumadas. Pastas fechadas. O expediente se esvaziava sem anúncio formal. Ninguém precisava autorizar — todos sabiam.
O trabalho editorial da sexta era essencialmente administrativo:
finalizar o que já estava quase pronto,
organizar o que seria retomado depois,
garantir que nada “problemático” atravessasse o sábado.
Ele revisava textos com atenção final. Não para aprimorar ideias, mas para evitar ruídos. A sexta exigia limpeza, não profundidade.
Ao mesmo tempo, sentia um peso crescente. Não de trabalho, mas de expectativa. O sábado se aproximava, e com ele vinham outras obrigações. O encerramento antecipado do expediente não significava descanso — significava apenas mudança de palco.
Antes do meio-dia, despedidas começavam.
“Bom sábado.”
A expressão surgia cedo, repetida com cuidado. Não era apenas saudação. Era confirmação mútua de pertencimento, quase um passe simbólico. Quem dizia, dizia esperando resposta no tom certo. Quem ouvia, precisava corresponder.
Ele correspondia.
Ao sair, sentia um alívio breve — físico, apenas físico. O corpo deixava a editora, mas a mente já se preparava para outro tipo de vigilância. A sexta-feira funcionava como antecâmara: nem trabalho pleno, nem descanso possível.
Em casa, o silêncio da tarde contrastava com a densidade interna. O caderno o aguardava.
Era na sexta que ele escrevia com mais ambiguidade. Não por confusão, mas por cuidado. A máscara da reverência era traiçoeira: confundia fé sincera com obediência institucional. Ele precisava separar as coisas no papel, porque no cotidiano já não conseguia fazê-lo com clareza.
Escrevia sobre como o sagrado havia sido colonizado pela rotina.
Sobre como o sábado, em vez de descanso, se tornara função.
Sobre como a preparação espiritual havia se transformado em preparação de desempenho.
Escrevia também sobre o corpo.
Sobre como o cansaço acumulado da semana não encontrava repouso real. A sexta encerrava cedo, mas não libertava. Apenas empurrava o obreiro para outro conjunto de expectativas.
Ele anotava algo que nunca dizia em público:
que sentia inveja dos membros comuns.
Dos que podiam sentar e ouvir.
Dos que podiam ir embora sem explicações.
Dos que não eram observados enquanto adoravam.
A sexta-feira terminava cedo, mas não terminava leve.
O sol ainda estava alto quando ele fechava o caderno. Sabia que, em poucas horas, precisaria vestir outra máscara — talvez a mais pesada de todas. A do obreiro espiritual, visível, exemplar, sempre disponível.
A instituição chamava isso de privilégio.
Ele sabia que era custo.
E assim a sexta-feira cumpria seu papel:
não o de preparar o descanso,
mas o de preparar o obreiro para continuar funcionando,
mesmo quando tudo indicava que já não havia descanso algum a ser encontrado.
CAPÍTULO VI — O SÁBADO (versão expandida)
O sábado nunca começava na sexta-feira à tarde.
Essa era a versão litúrgica, ensinada desde cedo, repetida nos púlpitos, ilustrada em lições infantis com desenhos de pôr do sol, mesas bem-postas e famílias sorridentes de mãos dadas. Uma versão limpa, organizada, quase publicitária. Mas, para ele, o sábado começava muito antes — às vezes já na quarta-feira — quando a semana ainda estava em pleno funcionamento e, mesmo assim, o peso da expectativa começava a se acumular silenciosamente sobre os ombros.
Era um peso específico. Não físico apenas, mas mental. Um tipo de antecipação que não trazia alegria, apenas vigilância. O sábado se aproximava como uma prova, não como um descanso.
Na editora, o ritmo da semana obedecia a um calendário que não estava na Bíblia. Quinta-feira era o dia mais longo, o mais carregado. Sexta-feira pela manhã, o mais tenso. Havia sempre algo “urgente” que precisava ser resolvido antes do pôr do sol: um parecer que não ficara pronto, um texto que precisava ser “ajustado”, um relatório que deveria subir para a mesa de alguém acima — sempre alguém acima. O sábado, paradoxalmente, era precedido por uma aceleração que negava o próprio sentido do mandamento.
O discurso institucional falava de preparo espiritual. A prática falava de fechamento de pendências.
Ele saía da editora pouco depois do meio-dia. Quase sempre. Não porque o sistema fosse especialmente generoso, mas porque havia aprendido, ao longo de décadas, a encerrar o expediente com discrição, sem alarde, sem pedir autorização explícita, sem provocar atritos desnecessários. Os que ficavam além do horário eram vistos como dedicados. Os que saíam cedo demais eram observados com desconfiança. Ele dominava essa arte invisível: sair no momento exato em que ninguém pudesse acusá-lo de negligência, mas todos soubessem — ainda que de forma difusa — que ele era “confiável”.
Essa habilidade não constava em manual algum. Aprendeu-se com o tempo, com erros alheios, com advertências indiretas.
O almoço de sexta-feira era rápido, funcional. Não havia clima de celebração. O sábado não era antecipado com alegria, mas com um alívio nervoso, quase defensivo. Em casa, o silêncio tinha outro peso. A família sabia que ele estava ali, fisicamente presente, mas também sabia que ele não estava inteiro. A mente permanecia presa aos corredores da editora, às mesas compridas das comissões, às frases que precisariam ser defendidas — ou engolidas — na semana seguinte.
O culto de sexta à noite era oficialmente voluntário. Na prática, obrigatório. Não comparecer levantava suspeitas. Comparecer demais também. Ele se sentava quase sempre nos mesmos bancos, observando os mesmos rostos, ouvindo os mesmos apelos à consagração. Falava-se do sábado como descanso, mas o discurso vinha carregado de exigência moral: descansar do jeito certo, com o espírito certo, com a postura certa.
Até o descanso precisava ser correto.
No sábado pela manhã, ele não era apenas membro. Era obreiro. E isso mudava tudo.
Enquanto os membros comuns entravam na igreja como quem chega a um refúgio, ele entrava como quem se apresenta a um posto de observação. Sabia que estava sendo visto. Avaliado. Comparado. A roupa precisava estar adequada, mas não ostensiva. A Bíblia, visível, mas não teatral. O semblante, sereno — não cansado, não crítico, não disperso. O sábado, para ele, era um palco silencioso, sem cortina e sem aplausos.
Raramente sentava para apenas assistir. Quase sempre havia alguma função: classe da Escola Sabatina, leitura, apoio, comentário “improvisado”. O improviso, aliás, nunca era improviso de verdade. Era esperado. A igreja funcionava como uma extensão da editora, e a editora como uma extensão da igreja. Não havia fronteira clara. O sábado dissolvia qualquer tentativa de separação entre fé e função.
Ele percebia, com um incômodo crescente ao longo dos anos, que o sábado não suspendia a hierarquia — apenas a revestia de linguagem espiritual. Os mesmos que mandavam de segunda a sexta continuavam mandando, agora com voz mansa, termos piedosos e citações bíblicas. Os mesmos que pressionavam relatórios agora cobravam presença, envolvimento, entrega.
A autoridade não descansava.
Havia sábados inteiros consumidos em reuniões “espirituais” que tinham pouco de espirituais e muito de administrativas. Conselhos, comissões, encontros de planejamento, alinhamentos de visão. O sábado, que deveria libertar do cálculo, era usado para aprofundar o controle. Tudo em nome da missão. Tudo em nome da obra. Tudo blindado por oração.
À tarde, quando o corpo finalmente pedia descanso, vinha a culpa. Descansar demais parecia egoísmo. Dormir parecia fraqueza. Ler algo que não fosse explicitamente religioso era visto — ainda que apenas internamente — como desvio. Ele escondia livros. Política, história, teoria do poder. Sua verdadeira leitura sabática acontecia às escondidas, como um pecado íntimo. O sábado o ensinara a viver em duplicidade: uma vida visível, correta, edificante; outra subterrânea, crítica, silenciosa.
O pôr do sol não trazia alegria. Trazia encerramento. Um fechamento de ciclo que não restaurava. O sábado terminava, mas não cumpria plenamente a promessa. Não havia renovação profunda, apenas a sensação de ter atravessado mais um território vigiado sem sofrer sanções.
No caderno de espiral, escrito à mão com a velha caneta Bic, ele deu nome a essa máscara: a máscara do santo funcional. Aquela que sorria no sábado, que falava amém, que cumpria papéis, enquanto por dentro acumulava perguntas que não podiam ser feitas. Perguntas que, se formuladas em voz alta, soariam como rebeldia, quando eram apenas sede de verdade.
Ele nunca escreveu que odiava o sábado. Isso seria falso. O que aprendeu a rejeitar foi o sequestro do sábado. A transformação do descanso em instrumento. A conversão do dom em prova contínua. A substituição da liberdade pela vigilância.
Talvez por isso, ironicamente, seu único descanso real viesse no domingo. Não como rebeldia teológica, mas como sobrevivência humana. A feira, o caminhar sem gravata, o encontro casual com colegas longe do púlpito — ali, por algumas horas, o sistema afrouxava. Ainda havia cobranças, olhares, comentários velados. Mas havia também um pouco mais de ar.
Ele sabia que isso jamais poderia ser dito em voz alta.
O sábado, oficialmente, era o sinal da fidelidade.
Para ele, tornara-se o termômetro da opressão.
E ainda assim, continuava guardando-o.
Não porque o sistema exigia — mas porque se recusava a entregar ao sistema aquilo que, um dia, fora sagrado.
CONCLUSÃO — A JUBILAÇÃO
A aposentadoria não veio como libertação.
Veio como afastamento.
Chamaram de jubilação, palavra bonita, cuidadosamente escolhida para dar tom espiritual a um ato administrativo. Houve discurso curto, agradecimento formal, menção genérica à dedicação de décadas. Nenhuma palavra sobre o que fora carregado por dentro. Nenhuma pergunta. Nenhuma escuta.
Ele aceitou tudo com a educação que aprendera a usar como armadura.
Pouco depois, deixou a cidade. Não houve anúncio. Não houve despedida ampla. Mudou-se para uma chácara no interior, longe da editora, longe dos corredores, longe da linguagem codificada. Um lugar simples, escolhido mais pela distância do que pelo conforto.
Forneceu o endereço para poucos.
E mesmo para esses, desconversava.
Não era segredo, mas também não era convite. Havia aprendido, ao longo da vida, que proximidade excessiva sempre cobrava preço. No interior, o tempo tinha outro ritmo. Acordava cedo, mas não por obrigação. Caminhava pela terra, observava o céu, cuidava do que crescia lentamente. Nenhum relatório exigia fechamento. Nenhuma comissão aguardava parecer.
Ainda assim, o sistema não o abandonou completamente.
Ele é que precisou aprender a mantê-lo do lado de fora.
Acompanhava as notícias com atenção crítica. Irritou-se com a volta de Lula — não por slogans, mas por reconhecer ali um padrão antigo: retorno do que não fora resolvido, celebração do que nunca fora realmente enfrentado. Via nisso um espelho desconfortável do que acontecia também dentro da igreja.
Quando soube da eleição de Erton Köhler para a presidência mundial, sentiu o peso de um ciclo que se fechava mal. Conhecia o percurso. Conhecia os bastidores. Sabia como se chegava ali. Não se surpreendeu — mas não conseguiu disfarçar o desalento. Para ele, não era um nome isolado. Era o símbolo de uma engrenagem que se tornara autorreferente, distante dos princípios que afirmava defender.
Falava pouco sobre isso. Mas quando falava, falava com precisão. Corrupção, para ele, nunca foi apenas dinheiro. Era o afastamento gradual dos fundamentos, o abandono silencioso da consciência em troca de estabilidade institucional. Era a fé convertida em gestão. A verdade diluída em estratégia.
Na chácara, escrevia menos. Não por falta do que dizer, mas porque o essencial já estava registrado. O caderno de espiral permanecia guardado, não como projeto editorial, mas como testemunho. Ele nunca tentou organizá-lo. Nunca revisou. Nunca pensou em publicar. Aquilo não era livro — era sobrevivência escrita.
Os anos passaram. O corpo envelheceu. A mente permaneceu lúcida, ainda que cansada. Falava cada vez menos da editora. Não por esquecimento, mas por decisão. Algumas histórias, ele aprendera, não precisavam ser repetidas para continuar existindo.
Foi um neto quem encontrou o caderno.
Não procurava nada específico. Limpava uma gaveta antiga. Entre papéis comuns, encontrou o espiral gasto, a capa simples, a letra firme, escrita com caneta Bic. Leu aos poucos. Não entendeu tudo. Algumas referências lhe escapavam. Alguns silêncios pareciam maiores que as frases.
Mas sentiu o peso.
Guardou o caderno não como denúncia, nem como herança ideológica. Guardou como quem segura algo frágil e verdadeiro. Como quem percebe que ali havia mais do que queixas — havia um mapa do que custa permanecer íntegro dentro de um sistema que se diz sagrado.
O avô nunca lhe explicou tudo.
Talvez soubesse que não era necessário.
Algumas histórias não pedem palco.
Pedem continuidade silenciosa.
E assim, sem publicação, sem prefácio, sem aprovação de comissão alguma, As Sete Máscaras de um Obreiro Padrão cumpriram seu papel.
Não mudaram a instituição.
Mas impediram que um homem fosse totalmente moldado por ela.
E isso, no fim, foi suficiente.
