Teólogo adventista analisa e complementa nosso texto sobre o “Pai Amoroso de Lucas 15”

Querido Amigo Robson,
Obrigado por oferecer uma leitura tão sensível e pastoral da “Parábola do Pai Amoroso”. Sua capacidade narrativa e o desejo de tornar a história concreta, (com “poeira da estrada, portões abertos e cheiro de churrasco”), são admiráveis e, sem dúvida, alcançam o leitor no nível afetivo.
Dito isso, gostaria de dialogar com sua interpretação não apenas a partir de uma preferência pessoal, mas a partir do que compreendo ser o ensino bíblico de Lucas 15, especialmente quando o lemos à luz do texto grego, (lembrando do Prof. Pedrinho “Apolinário”), de sua estrutura narrativa e do testemunho mais amplo das Escrituras.

1. O foco no Pai é correto — mas não pode excluir a soteriologia bíblica

Você está certo ao afirmar que a parábola nos convida a “olhar novamente para o Pai”. As ações do Pai: permitir a saída do filho, observá-lo à distância e correr ao seu encontro, revelam, de fato, um amor profundo e escandaloso.
Contudo, Lucas 15 não é apenas uma história sobre um Pai amoroso que nos convida a voltar para casa, nem tampouco um simples contraponto ao legalismo religioso. Trata-se de uma narrativa teologicamente precisa, pronunciada por Jesus em um contexto de controvérsia e preservada por Lucas com um propósito claro: revelar como Deus age na salvação.
No texto grego, tanto a ovelha perdida quanto a dracma perdida e o filho que retorna são descritos de modo a excluir qualquer contribuição do perdido para sua própria salvação:
  • A ovelha está ἀπολωλός (particípio passivo perfeito: “perdida, em estado consumado de perdição”) e é encontrada pelo pastor.
  • A dracma é um objeto inanimado: não pensa, não decide, não retorna — ela é encontrada.
  • O filho não negocia sua restauração; ele a recebe.
A narrativa vai além da dimensão afetiva: a obra da salvação é iniciada, executada e concluída por aquele que encontra — não por aquele que se perdeu. A ovelha não pode arrepender-se; a moeda não pode escolher; o filho não pode merecer. A salvação apresentada em Lucas 15 é graciosa, forense e declarativa, não condicionada ao desempenho humano prévio à restauração.

2. Ressonância emocional não é o mesmo que precisão teológica

Seu texto denuncia, com razão, o uso da parábola para promover medo, controle e moralismo religioso. Essa preocupação pastoral é legítima; a religião frequentemente distorce o texto bíblico.
Entretanto, o problema não está na mensagem da parábola, mas na má leitura que se faz dela. Jesus não contou essa história primariamente para oferecer terapia emocional ou corrigir abusos institucionais, mas para revelar a lógica do evangelho. Em Lucas 15, os perdidos não são salvos por sentirem-se aceitos, mas por serem achados e declarados vivos por aquele que tem autoridade para fazê-lo.

3. A gramática narrativa sustenta uma leitura forense

A estrutura de Lucas 15 é intencionalmente teológica:
  1. A condição de perdição (ovelha, moeda, filho).
  2. A iniciativa soberana daquele que busca.
  3. A restauração como ato gracioso, não como resposta a progresso moral.
Não se trata de esperar o tempo certo, nem de demonstrar amadurecimento interior. Trata-se de um ato de juízo gracioso: o Pai declara o filho vivo, reintegra-o publicamente e o reveste de sinais objetivos de filiação, antes de qualquer reparação. A túnica, o anel e as sandálias não são meros símbolos emocionais, mas marcadores forenses de restauração oficial.
Essa ordem corresponde exatamente à doutrina bíblica da justificação pela graça mediante a fé, na qual a justiça é imputada, não conquistada.

4. O centro da história e o centro da salvação

Sua leitura busca libertar a imagem do Pai de uma caricatura legalista — e nisso estamos de acordo. Contudo, o próprio texto bíblico nunca apresenta o Pai como um observador passivo. Ele age, declara, restaura e concede dignidade antes de qualquer reforma moral.
O Pai veste o filho antes que sua confissão seja concluída. Isso é decisivo teologicamente. A Escritura insiste que Deus salva “quando ainda estávamos mortos em nossos delitos e pecados” (Ef 2:1–5). O retorno humano é consequência da graça, não sua condição. A ovelha e a dracma deixam isso ainda mais evidente do que o filho.

5. Convergências e um alerta fraterno

Concordo plenamente com seu esforço de afastar leituras moralistas de Lucas 15. Concordo também que muitos utilizaram a Bíblia para controlar em vez de libertar. Minha preocupação, contudo, é que, ao reagirmos contra uma distorção, possamos introduzir outra: reduzir a centralidade da salvação como ato soberano e declarativo de Deus.
Lucas 15 não é apenas uma história acolhedora sobre pertencimento familiar. É um relato evangélico sobre como Deus:
  • justifica o ímpio,
  • ressuscita o morto,
  • encontra o perdido,
sozinho.
Essa leitura não empobrece a mensagem do amor do Pai; ela a aprofunda. Pois revela um amor poderoso o suficiente para salvar a ovelha que não pode voltar, a moeda que não pode reagir, e o filho que não tem nada a oferecer além de sua dependência total.
Esse, creio, é o retrato bíblico mais pleno do Pai amoroso em Lucas 15.
Com respeito, estima e fraternidade cristã,
A. G.

Nossa resposta ao amigo A.G.

Querido A. G.,

Recebo sua mensagem com gratidão sincera. Fico honrado pelo cuidado com que você leu nosso material e pela forma respeitosa e teologicamente densa com que dialogou com a proposta. Seu retorno não é apenas acadêmico — é fraterno, e isso diz muito sobre sua postura como teólogo e pastor. Guardo com carinho nossas memórias do SALT, do Prof. Pedrinho Apolinário e das conversas que nos ensinaram a levar o texto bíblico a sério, no grego e na vida real.

Concordo com você em pontos centrais, e faço questão de afirmá-los logo de início:

Lucas 15 é, sim, um texto profundamente soteriológico. A iniciativa é do Pai. A salvação é graciosa, anterior a qualquer mérito, progresso moral ou reforma de comportamento. O Pai corre, restaura, declara, reintegra. Não estamos em desacordo quanto a isso. Sua leitura forense da túnica, do anel e das sandálias é sólida, bíblica e necessária — e não vejo conflito algum entre essa dimensão objetiva da justificação e a ênfase pastoral que procurei dar à figura do Pai.

Talvez onde nos aproximemos por caminhos diferentes seja no lugar da ênfase e na função do texto em nosso contexto eclesiástico atual.

Meu esforço não foi reduzir Lucas 15 a uma terapia emocional, nem deslocar o centro da salvação da iniciativa soberana de Deus para a experiência subjetiva do filho. Pelo contrário: ao insistir no rosto do Pai, no seu movimento, no seu modo de olhar e acolher, minha intenção foi justamente recuperar o escândalo teológico do texto — o mesmo que você aponta com precisão no nível gramatical e estrutural.

O problema que tento enfrentar pastoralmente não é a doutrina da justificação em si (que, como você bem expôs, está intacta no texto), mas a imagem funcional de Deus que se formou na experiência religiosa de muitos. Em ambientes onde a justificação pela graça é afirmada no discurso, mas negada na prática cotidiana por estruturas de controle, medo, vigilância moral e condicionalidade de pertencimento, Lucas 15 acaba sendo lido — e pregado — não como evangelho, mas como ameaça velada: “volte, mas volte do jeito certo; volte, mas já transformado; volte, mas já limpo”.

Nesse sentido, quando trago a poeira da estrada, o portão aberto e o cheiro de churrasco, não estou substituindo a teologia pela estética. Estou tentando fazer o leitor sentir o escândalo da graça que o texto já contém — escândalo que, paradoxalmente, muitas vezes foi neutralizado por leituras corretas no papel, mas esvaziadas no púlpito e na prática comunitária.

Você tem razão ao dizer que:

“O retorno humano é consequência da graça, não sua condição.”

Estamos plenamente de acordo. Minha ênfase no Pai que espera, observa e corre não é para sugerir passividade divina, mas para destacar aquilo que o texto mostra de forma desconcertante:
o Pai não negocia, não condiciona, não prova, não impõe pedagogias corretivas prévias. Ele declara vivo quem ainda cheira a morte. E isso, como você bem lembrou com Efésios 2, é o coração da soteriologia bíblica.

Talvez a diferença entre nós não seja teológica em essência, mas missiológica e pastoral em aplicação. Você está zelando (com razão) para que a leitura não perca a densidade forense da justificação. Eu estou zelando para que essa mesma doutrina não continue sendo proclamada em termos corretos, porém vivida sob uma imagem distorcida do Pai — mais próxima do irmão mais velho do que do Pai da parábola.

Vejo, portanto, nossa leitura não como concorrente, mas complementar:

  • Sua ênfase protege a verdade objetiva do evangelho: Deus salva sozinho.

  • A minha ênfase tenta confrontar a distorção subjetiva da imagem de Deus que tem adoecido pessoas dentro da igreja.

Ambas são necessárias. Sem a sua, caímos no sentimentalismo.
Sem a minha, corremos o risco de pregar a graça correta com o rosto errado.

Recebo seu alerta com espírito ensinável. Ele é legítimo e importante. Da mesma forma, deixo aqui um alerta fraterno da minha parte: às vezes, a teologia mais precisa corre o risco de não perceber o quanto o “irmão mais velho” continua definindo, na prática, quem se sente autorizado a entrar em casa e quem acha que precisa se consertar do lado de fora antes de ser aceito.

Seguimos juntos no mesmo evangelho, buscando honrar o mesmo Cristo e o mesmo Pai — você zelando para que não percamos a espinha dorsal soteriológica do texto; eu tentando evitar que percamos o rosto do Pai que Jesus revelou.

Com respeito, amizade e gratata memória dos tempos de SALT,
Robson

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