História de “El Pastor” Algério Rosabal pode virar filme e HQ

COMEÇAR POR “EL PASTOR”

Uma sugestão à Casa Publicadora Brasileira e à Divisão Sul-Americana

Depois de tudo o que estamos encontrando sobre a presença adventista nos bastidores da Revolução Cubana, talvez seja hora de fazer uma proposta diferente, não como cobrança, denúncia ou provocação, mas como uma demonstração sincera de boa vontade e como convite para que a própria Igreja Adventista participe da recuperação de uma parte pouco conhecida de sua história. A Casa Publicadora Brasileira e a Divisão Sul-Americana poderiam considerar a produção de uma história em quadrinhos sobre Argelio Rosabal, o adventista cubano conhecido como “El Pastor”, aproveitando uma narrativa que reúne fé, perseguição, solidariedade, risco, coragem e escolhas morais em meio a um dos acontecimentos mais importantes do século XX.

A proposta não seria transformar Rosabal num herói artificial, nem converter sua história em propaganda política. O valor do personagem está justamente em sua condição de homem comum, agricultor, adventista, dirigente religioso local e conhecedor da região. Ele não aparece como guerrilheiro, não usa uniforme revolucionário e não precisa ser apresentado como alguém que abraçou um projeto ideológico. O que torna sua história forte é o fato de ter sido colocado diante de homens feridos, perseguidos e exaustos e ter decidido ajudá-los. Uma HQ permitiria contar isso de maneira acessível e visual, sem apagar as ambiguidades do contexto e sem obrigar o leitor a chegar a uma conclusão política determinada.

O primeiro volume poderia ser relativamente curto e concentrado nos acontecimentos de dezembro de 1956. A narrativa começaria com o desembarque do Granma, a dispersão dos expedicionários, o ataque em Alegría de Pío, a perseguição das forças de Batista e a condição física dos sobreviventes. Em seguida surgiria Rosabal, não como combatente, mas como homem da região capaz de oferecer comida, roupas, esconderijos, informações e contatos. Aos poucos, a história mostraria que não se tratava apenas de um encontro individual entre Rosabal e Che Guevara, mas de uma rede local de solidariedade que envolvia outras pessoas e famílias.

A cena da camisa poderia se tornar o centro emocional da obra. Che aparece ferido, com o pescoço e o peito machucados, depois de ter improvisado ataduras com partes da própria roupa. Rosabal o encontra, presta auxílio e, em determinado momento, entrega a própria camisa. A sequência visual permitiria mostrar primeiro Rosabal vestido, depois retirando a camisa e oferecendo-a, em seguida Che usando aquela mesma peça e Rosabal com uma roupa improvisada de saco rústico. Essa passagem possui uma força narrativa extraordinária porque não depende de grandes discursos. Um simples objeto muda de corpo e passa a resumir a relação entre aqueles dois homens.

A Casa Publicadora Brasileira poderia explorar esse material com grande competência editorial, combinando narrativa em quadrinhos, mapas, páginas documentais, reprodução de trechos de fontes e explicações históricas. Depois de cada capítulo, poderiam aparecer notas mostrando quais fatos estão diretamente documentados, quais vêm de entrevistas posteriores e quais elementos visuais foram reconstruídos artisticamente. Dessa forma, a publicação teria valor para adolescentes e jovens, mas também para adultos, professores, pesquisadores e leitores interessados em história.

Da Divisão Sul-Americana para a Igreja mundial

Se o projeto funcionasse no Brasil, o passo seguinte poderia ser sua apresentação à Associação Geral. A história de Rosabal não pertence apenas à memória adventista brasileira, cubana ou latino-americana. Ela possui dimensão internacional porque envolve Che Guevara, o Granma, a Revolução Cubana e uma comunidade adventista inserida num momento decisivo da história moderna. Uma edição em português poderia ser acompanhada de versões em espanhol e inglês, ampliando imediatamente seu alcance.

A Associação Geral poderia tratar essa publicação como uma recuperação histórica e não como um gesto de alinhamento político. Reconhecer que adventistas ajudaram revolucionários em 1956 não equivale a aprovar tudo aquilo que o governo cubano viria a fazer posteriormente, assim como documentar uma relação humana concreta não transforma a Igreja em defensora de uma ideologia. Pelo contrário, uma obra bem construída poderia demonstrar maturidade institucional ao reconhecer acontecimentos complexos sem reduzi-los a slogans.

Uma iniciativa desse tipo também poderia representar um gesto de abertura para leitores de diferentes sensibilidades políticas. Pessoas de esquerda poderiam perceber que a Igreja não precisa apagar episódios em que adventistas ajudaram homens ligados à Revolução. Pessoas de direita poderiam compreender que narrar esses fatos não significa endossar posteriormente o regime cubano. Para muitos outros leitores, a história permaneceria no nível mais humano: pessoas simples tomando decisões difíceis diante de homens feridos e perseguidos.

Da HQ para o cinema

A história em quadrinhos poderia ser apenas o primeiro passo, porque o material possui evidente potencial cinematográfico. O filme poderia começar com o desembarque do Granma, a lama, o caos, os tiros, a dispersão dos homens e a sensação de derrota iminente. Depois, a narrativa mudaria de escala e se aproximaria de uma pequena comunidade adventista rural, de suas casas, de sua igreja e de um homem conhecido como “El Pastor”, que de repente se vê diante de uma situação muito maior do que sua própria vida.

A força dramática estaria no fato de Rosabal não saber o que acontecerá depois. Quando ele ajuda aqueles homens, não sabe que Fidel Castro governará Cuba, não sabe que Che Guevara se transformará em um dos rostos mais reconhecidos do século XX e não sabe que sua própria história acabará quase desconhecida fora da região. Ele toma decisões sem conhecer o final, e é exatamente isso que transforma sua trajetória em material cinematográfico de primeira ordem.

As gravuras que já produzimos mostram que a ideia funciona

As imagens que já produzimos servem como demonstração visual do projeto e ajudam a imaginar como uma HQ poderia ser construída. A capa em inglês traz o título “CHE GUEVARA DISCOVERS WHY ARGELIO ROSABAL WAS CALLED ‘EL PASTOR’”, que em português significa “Che Guevara descobre por que Argelio Rosabal era chamado de ‘El Pastor’”. A força do título está em apresentar Rosabal primeiro por sua identidade religiosa e comunitária, criando a curiosidade necessária para o leitor querer descobrir quem era aquele homem e por que seu nome entrou na memória de Che.

Na página seguinte aparece “THE ADVENTIST PASTOR OF SIERRA MAESTRA”, que pode ser traduzido como “O pastor adventista da Sierra Maestra”. Logo abaixo, a legenda “December, 1956 — Somewhere near Niquero, Cuba” situa o leitor em “Dezembro de 1956 — Em algum lugar próximo de Niquero, Cuba”. Essa abertura funciona porque começa pelo contexto mais difícil, mostrando os expedicionários do Granma não como vencedores, mas como homens perseguidos, exaustos e feridos, o que permite compreender a importância da ajuda oferecida pelos moradores da região.

Outra legenda diz “But history is not just shaped by generals and rifles”, ou “Mas a História não é moldada apenas por generais e rifles”. Essa frase resume muito bem a proposta da HQ, porque desloca o foco dos grandes comandantes para pessoas anônimas. A história de guerras costuma conservar nomes de líderes, generais e presidentes, mas raramente registra com a mesma força quem ofereceu abrigo, comida, informação ou roupa. Rosabal entra justamente nesse espaço da memória que costuma desaparecer.

Na sequência, a imagem mostra o encontro entre Rosabal e Che. Argélio ainda está com sua própria camisa e estende a mão ao guerrilheiro ferido. Depois, na cena seguinte, os dois aparecem sem camisa. Che está com bandagens limpas ao redor do pescoço e do peito, enquanto Rosabal segura a própria camisa e a oferece. A legenda pode ser traduzida como “a própria camisa do corpo para vestir o guerrilheiro ferido no pescoço e no peito”. Essa cena concentra toda a carga simbólica da história, porque transforma a solidariedade em gesto visível e concreto.

Na imagem posterior, Che já aparece usando a camisa de Rosabal, enquanto Argélio está vestido com uma peça improvisada de saco de estopa rústico. A continuidade visual torna a narrativa compreensível mesmo sem explicação adicional, pois o leitor identifica a mesma camisa passando de um personagem para o outro. Esse tipo de sequência é justamente o que mostra como o episódio pode funcionar tão bem em quadrinhos.

Na cena final, Che e Rosabal aparecem observando caminhos e desenhando referências no chão. A frase “tactical maps were drawn in the dirt” pode ser traduzida como “mapas táticos eram desenhados na terra”. Esse momento amplia o papel de Rosabal, que deixa de ser apenas o homem que ofereceu uma camisa e passa a representar conhecimento local, contatos, rotas, casas, famílias e possibilidades de deslocamento. É nesse ponto que a ideia de uma rede adventista deixa de parecer abstrata e se torna parte visível da narrativa.

A partir daí, a HQ poderia continuar mostrando outros membros da rede, os esconderijos, as transferências, as armas ocultadas, os riscos e, finalmente, os acontecimentos de 1959. A narrativa poderia chegar à carta de Che, à promessa de ajuda financeira e ao novo templo, fechando o arco com Rosabal novamente em ambiente religioso, agora olhando para uma igreja que continuou existindo enquanto a Revolução seguia seu próprio curso.

Essa seria a proposta: começar pequeno, com uma HQ historicamente séria, visualmente forte e cuidadosamente documentada, e permitir que a própria Igreja participe da recuperação dessa história. Se a experiência funcionar, o passo seguinte poderia ser ainda maior. A trajetória de Rosabal tem densidade suficiente para um livro, para uma série documental e, principalmente, para um filme que conte toda essa história com a complexidade que ela merece.






A sequência visual criada a partir da trajetória de Argelio Rosabal ajuda a demonstrar como esse episódio da história adventista cubana pode ganhar forma em quadrinhos e, futuramente, em uma produção cinematográfica de grande impacto humano e histórico.

Depois de apresentarmos a sugestão à Casa Publicadora Brasileira e à Divisão Sul-Americana, vale mostrar por que a história de Argelio Rosabal possui tanto potencial narrativo. As imagens já produzidas ajudam a visualizar uma sequência coerente, emocionante e facilmente compreensível, na qual acompanhamos o encontro entre Rosabal e Che Guevara, o cuidado com os ferimentos, a entrega da camisa, a alimentação, a orientação pelos caminhos da região, a despedida e a oração.

Não se trata apenas de ilustrar fatos. A força dessas cenas está em permitir que o leitor enxergue aquilo que muitas vezes desaparece em documentos e relatos históricos: expressões, gestos, ambiente, proximidade humana, precariedade, risco e compaixão. Rosabal deixa de ser apenas um nome citado numa fonte e passa a ser percebido como personagem inserido num mundo rural, pobre e religioso, diante de homens feridos e perseguidos.

É justamente por isso que essa sequência pode servir como demonstração do potencial de uma HQ adventista sobre “El Pastor”. Ela também permite imaginar, com bastante facilidade, como a mesma história poderia ganhar movimento, voz, silêncio, música, paisagem e emoção no cinema.

Che Guevara descobre por que Argelio Rosabal era chamado de “El Pastor”

O título em inglês diz: “Che Guevara discovers why Argelio Rosabal was called ‘El Pastor’”, que em português significa: “Che Guevara descobre por que Argelio Rosabal era chamado de ‘El Pastor’”. A legenda inferior apresenta: “Issue #1. Sierra Maestra, Dec. 1956. A life saved, a name revealed”, ou: “Edição nº 1. Sierra Maestra, dezembro de 1956. Uma vida salva, um nome revelado.”

Essa primeira imagem já contém quase tudo o que a história precisa para despertar interesse. Che aparece fragilizado, Rosabal se aproxima como homem da região, e a Sierra Maestra domina o cenário. Em vez de começar com a Revolução vitoriosa, a narrativa começa quando tudo ainda era incerteza. Esse ponto de partida é excelente porque permite ao leitor conhecer Che antes da fama e Rosabal antes de ser esquecido.

O encontro com Che ferido

A legenda diz: “Dec. 1956. Argelio Rosabal finds the wounded Che. ‘This shirt is not much, but it’s yours.’”, que em português pode ser traduzida como: “Dezembro de 1956. Argelio Rosabal encontra Che ferido. ‘Esta camisa não é grande coisa, mas é sua.’”

A cena apresenta o encontro de maneira simples e direta. Che está ferido, cansado e necessitado de ajuda. Rosabal entra no ambiente não como soldado nem como comandante, mas como alguém que reconhece a vulnerabilidade do outro. Esse contraste é uma das maiores forças da história e funciona muito bem para uma HQ, porque o leitor entende imediatamente que algo importante está prestes a acontecer entre os dois.

Rosabal cuidando de Che

A legenda apresenta Rosabal como “a humble Cuban adventist”, ou “um humilde adventista cubano”, enquanto ele cuida de Che. O ambiente rústico reforça a condição de pobreza e simplicidade da região e ajuda a situar a narrativa longe de hospitais, quartéis ou qualquer estrutura organizada de assistência.

É uma imagem importante porque mostra o início do cuidado. Rosabal não aparece apenas conversando ou oferecendo conselhos. Ele se aproxima fisicamente do homem ferido e começa a ajudá-lo. Essa proximidade prepara emocionalmente o leitor para tudo o que virá depois.

A limpeza dos ferimentos

A legenda diz: “Argelio Rosabal cleaning Che Guevara’s wounds in the Sierra Maestra, Dec. 1956. Raw wounds on neck and chest. Pity and resilience.” Em português: “Argelio Rosabal limpa os ferimentos de Che Guevara na Sierra Maestra, dezembro de 1956. Ferimentos no pescoço e no peito. Compaixão e resistência.”

A cena aprofunda ainda mais a relação entre os personagens. O Che que aparece aqui está muito distante da imagem posterior do guerrilheiro transformado em símbolo internacional. Ele sente dor, precisa de ajuda e depende da disposição de um homem simples para continuar. Em uma adaptação cinematográfica, esse tipo de momento poderia ser especialmente forte por causa do silêncio e da vulnerabilidade dos personagens.

O uso de folhas medicinais

A legenda diz: “Argelio Rosabal applies a remedy of macerated medicinal leaves to Che’s fresh wounds”, ou: “Argelio Rosabal aplica um remédio de folhas medicinais maceradas nos ferimentos recentes de Che.”

A cena reforça a rusticidade e a precariedade do ambiente. Não há estrutura médica sofisticada. O que existe é aquilo que as pessoas da região têm à disposição e o conhecimento prático acumulado num mundo rural. Esse detalhe dá à história uma textura muito particular e ajuda a transportar o leitor para aquele contexto.

As bandagens

A legenda mostra Rosabal enfaixando Che: “Argelio Rosabal delicately bandages Che Guevara’s wounds treated with medicinal leaves, 1956, Pilón”, que pode ser traduzida como: “Argelio Rosabal enfaixa cuidadosamente os ferimentos de Che Guevara, tratados com folhas medicinais, 1956, Pilón.”

Essa cena ajuda a construir uma progressão muito boa. Primeiro o encontro, depois o cuidado, a limpeza dos ferimentos, o tratamento e as bandagens. O leitor percebe que a ajuda de Rosabal não foi apenas um gesto rápido ou simbólico. A sequência sugere tempo, atenção e preocupação real com a condição de Che.

Rosabal tira a própria camisa

A legenda diz: “Argelio Rosabal removes his own shirt for the surprised Che, 1956, Pilón. A selfless gift”, ou: “Argelio Rosabal tira a própria camisa diante do surpreso Che, 1956, Pilón. Um gesto altruísta.”

Esse é um dos momentos mais fortes de toda a história. Rosabal não vai buscar uma roupa qualquer. Ele tira a própria camisa. A imagem transforma uma ação simples em símbolo, porque o leitor percebe que o gesto tem custo pessoal. É justamente essa cena que permite resumir toda a narrativa em uma frase de grande força: antes de milhões vestirem Che Guevara, Che Guevara vestiu a camisa de um adventista.

A camisa passa para Che

A imagem seguinte mostra Che recebendo a camisa de Rosabal. A ideia da legenda pode ser expressa em português como: “Argelio Rosabal veste Che com sua própria camisa, 1956, Pilón. Um sacrifício.”

A partir desse momento, a camisa passa a funcionar como elemento de continuidade visual. O leitor já sabe de onde ela veio e compreende imediatamente o que aconteceu. Em uma HQ, isso permite contar parte da história praticamente sem palavras. No cinema, poderia se transformar em uma das cenas mais memoráveis do filme.

Rosabal ajuda Che a se vestir

A legenda diz: “Argelio meticulously helps Che Guevara button his new shirt, Sierra Maestra, Dec. 1956”, ou: “Argelio ajuda cuidadosamente Che Guevara a abotoar sua nova camisa, Sierra Maestra, dezembro de 1956.”

A imagem prolonga o gesto anterior e o torna ainda mais humano. Che não apenas recebe a camisa; Rosabal o ajuda a colocá-la e fechá-la. A cena reforça a fragilidade física do guerrilheiro e a proximidade entre os dois homens naquele momento.

Rosabal passa a usar saco de estopa

A legenda apresenta Rosabal vestido com pano de saco enquanto Che aparece novamente entre companheiros. Em português, a ideia central é: “Che está com seus companheiros quando Argelio se aproxima vestido com pano de saco. A luta continua.”

Essa imagem completa visualmente a história da camisa. O que antes estava no corpo de Rosabal agora está no corpo de Che, enquanto Rosabal improvisa para si uma roupa extremamente rústica. É uma cena muito importante porque mostra a consequência do gesto anterior e ajuda o leitor a compreender, sem necessidade de explicação longa, o tamanho daquilo que foi entregue.

Che com a camisa; Rosabal com a roupa improvisada

A legenda diz: “Next day, outside the new base, Argelio’s shirt passed to Che; Argelio’s improvised replacement. Dec. 1956, Sierra Maestra”, ou: “No dia seguinte, diante da nova base, a camisa de Argelio passou para Che; Argelio usa uma roupa improvisada em seu lugar. Dezembro de 1956, Sierra Maestra.”

A força dessa imagem está no contraste entre os dois personagens. Agora é possível enxergar claramente a passagem da camisa. Che está vestido, enquanto Rosabal aparece com a peça rústica que improvisou para si. Em uma adaptação em quadrinhos, essa seria uma daquelas cenas que o leitor pode compreender mesmo sem legenda.

O agradecimento de Che

A legenda diz: “A moment of profound gratitude and solidarity. Che holds Argelio close; ‘I’ll never forget this.’”, que pode ser traduzida como: “Um momento de profunda gratidão e solidariedade. Che segura Argelio junto de si: ‘Jamais esquecerei isto.’”

A cena concentra a dimensão emocional da relação. Depois de receber cuidado, tratamento, roupa e auxílio, Che reconhece o homem que o ajudou. Em uma HQ, esse seria um bom momento para reduzir o ritmo da narrativa e permitir que o leitor sinta a dimensão humana daquele encontro antes que a história volte a avançar.

Rosabal leva alimentos

A legenda diz: “Argelio Rosabal provides: ‘These will help you reach the Sierra.’”, ou: “Argelio Rosabal fornece provisões: ‘Isto vai ajudá-los a chegar à Sierra.’”

A imagem amplia a história para além da camisa. Rosabal aparece levando alimentos e demonstrando que a ajuda aos sobreviventes também envolvia aquilo que mantém qualquer ser humano vivo: comida, água, repouso e condições para continuar caminhando. É um detalhe importante porque mostra que a solidariedade era prática e cotidiana.

O caminho seguro desenhado no chão

A legenda diz: “Argelio Rosabal draws the safe route on the dirt floor. ‘Avoid the main roads here.’”, ou: “Argelio Rosabal desenha no chão de terra a rota segura. ‘Evitem as estradas principais por aqui.’”

Essa cena mostra outro aspecto fundamental do personagem. Rosabal conhece a região. Ele conhece caminhos, casas, distâncias, rotas alternativas e perigos. Isso dá ao personagem uma importância que vai muito além do cuidado físico. Ele pode orientar homens que estão tentando escapar e sobreviver num território que conhecem muito menos do que ele.

Che chama Rosabal para perto

A legenda diz: “Moved by his sacrifice, Che Guevara insists Argelio join the circle”, ou: “Comovido com seu sacrifício, Che Guevara insiste para que Argelio se junte ao grupo.”

A cena mostra o reconhecimento da proximidade criada entre os dois. Rosabal continua sendo visualmente diferente dos guerrilheiros, o que ajuda a preservar aquilo que torna sua história tão interessante. Ele está perto deles, mas não se confunde com eles. Sua identidade continua sendo a de um homem da região, adventista e ligado à sua própria comunidade.

O abraço de despedida

A legenda mostra Che abraçando Rosabal e diz: “A final, silent embrace. Che thanks Argelio: ‘You saved my life.’”, ou: “Um último abraço silencioso. Che agradece a Argelio: ‘Você salvou minha vida.’”

O abraço funciona como síntese do vínculo estabelecido durante aquele período. Tudo o que foi mostrado antes converge para esse momento: os ferimentos, o cuidado, a camisa, os alimentos e a orientação. Em termos cinematográficos, é uma cena simples, mas carregada de significado.

Che parte e olha para trás

A legenda diz: “Dawn, Dec. 1956. Che looks back; Argelio’s last blessing for ‘The Few’. Near Niquero”, ou: “Amanhecer, dezembro de 1956. Che olha para trás; a última bênção de Argelio para o pequeno grupo de sobreviventes. Próximo de Niquero.”

Essa imagem possui uma força especialmente cinematográfica porque marca a separação dos caminhos. Che continua em direção à Sierra, enquanto Rosabal permanece para trás. É um momento em que a paisagem também participa da narrativa, porque a mata e o caminho passam a representar o futuro incerto dos homens que seguem adiante.

Rosabal ora enquanto os homens partem

A legenda diz: “Dawn, Dec. 1956. Che and the few disappear into the Sierra neblina. Argelio’s last prayer”, ou: “Amanhecer, dezembro de 1956. Che e os poucos sobreviventes desaparecem na neblina da Sierra. A última oração de Argelio.”

Essa é uma das imagens que melhor expressam quem é “El Pastor”. Rosabal não parte armado ao lado dos guerrilheiros. Ele permanece ajoelhado, em oração, enquanto aqueles homens desaparecem pelo caminho. A cena permite encerrar o encontro devolvendo Rosabal à sua identidade religiosa, o que seria especialmente importante numa publicação adventista.

O encerramento emocional

A última cena traz a frase: “A final emotional embrace on the dawn path. ‘I’ll never forget you, Argelio.’”, que pode ser traduzida como: “Um último abraço emocionado no caminho ao amanhecer. ‘Jamais esquecerei você, Argelio.’”

É um encerramento muito forte porque os dois homens se despedem sem conhecer o futuro. Che ainda não sabe que se transformará em uma das imagens mais conhecidas do século XX, e Rosabal não sabe que sua própria história permanecerá praticamente desconhecida durante décadas. Essa diferença entre o destino dos dois personagens pode oferecer um final especialmente marcante para o primeiro volume de uma HQ.

Uma demonstração clara do potencial da história

Quando observamos toda essa sequência, percebemos que a história já possui uma estrutura visual muito natural. O encontro conduz ao cuidado, o cuidado conduz à camisa, a camisa conduz à confiança, a confiança conduz à alimentação, à orientação e à despedida. Nada parece forçado porque cada cena nasce da anterior e prepara a seguinte.

Para a Casa Publicadora Brasileira e para a Divisão Sul-Americana, isso demonstra que existe aqui matéria suficiente para um projeto editorial realmente atraente. Uma HQ poderia combinar essas cenas com mapas, documentos, relatos históricos, referências à comunidade adventista local e outros episódios da rede de auxílio que estamos reconstruindo.

Também é fácil perceber por que essa mesma história poderia funcionar no cinema. As imagens praticamente já sugerem a linguagem de um filme: a chegada de homens exaustos, uma casa pobre na zona rural, um ferido sendo tratado, uma camisa passando de um corpo para outro, comida sendo entregue, caminhos desenhados na terra, abraços silenciosos, uma despedida ao amanhecer e um homem de fé ajoelhado enquanto os futuros revolucionários desaparecem na Sierra.

A HQ poderia ser o começo. Um projeto viável, acessível e capaz de apresentar Argelio Rosabal a leitores que jamais ouviram falar dele. Depois disso, a própria força visual da história poderia abrir caminho para algo maior. O cinema permitiria contar não apenas o episódio da camisa, mas toda a trajetória da rede adventista, a sobrevivência dos expedicionários, a promessa de Che, a carta de 1959 e a história posterior da igreja associada a Rosabal.

Talvez seja justamente essa a melhor demonstração de boa vontade que podemos oferecer à Igreja neste momento. Em vez de apenas apontarmos aquilo que ficou esquecido, estamos mostrando uma possibilidade concreta de recuperar essa memória, valorizá-la e transformá-la numa história que novas gerações de adventistas poderiam conhecer. A oportunidade está diante de nós, e ela pode começar de maneira muito simples: contando, em quadrinhos, a história do homem que todos chamavam de “El Pastor”.

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