
Donald Trump acaba de endurecer novamente o cerco ao regime comunista de Cuba. Mas será que o presidente dos Estados Unidos sabe que adventistas ajudaram homens da Revolução Cubana e o próprio Che Guevara na Sierra Maestra, que essa relação não terminou quando Fidel Castro chegou ao poder e que, em 1963, o adventista Argelio Rosabal ainda recorria diretamente a Che em favor de uma reivindicação de sua Igreja?
A pergunta se torna ainda mais incômoda quando lembramos quem era Guevara: médico, guerrilheiro, executor, comandante de La Cabaña e defensor público dos fuzilamentos revolucionários. Enquanto isso, no Brasil, adventistas mantinham relações de prestígio com Jânio Quadros antes e depois de o presidente brasileiro condecorar Che com a Ordem Nacional do Cruzeiro do Sul. Em tempos de “Fé sem bandeiras”, chegou a hora de abrir os arquivos.
Donald Trump transformou Cuba novamente numa questão central de segurança nacional dos Estados Unidos. Em janeiro de 2026, o presidente declarou formalmente que as políticas e ações do governo cubano constituem uma ameaça extraordinária à segurança nacional e à política externa norte-americana. Em maio, avançou mais um passo, ampliando sanções contra autoridades, entidades e pessoas relacionadas ao regime, inclusive por apoio material ao governo cubano e envolvimento em graves violações de direitos humanos. O governo Trump descreve explicitamente o regime comunista cubano como incompatível com valores democráticos e acusa Havana de repressão, perseguição de opositores e violações de direitos fundamentais.
É diante dessa ofensiva política que surge uma pergunta que provavelmente jamais foi colocada dessa maneira à Casa Branca: Trump sabe da história dos adventistas com Che Guevara? Sabe que adventistas cubanos auxiliaram homens que combatiam ao lado de Fidel Castro? Sabe que entre os beneficiados estava Ernesto Che Guevara? Sabe que o relacionamento não desapareceu depois da vitória revolucionária? Sabe que, em 1963, quando Che já era uma das figuras centrais do novo Estado cubano, o adventista Argelio Rosabal ainda tinha acesso a ele para apresentar uma questão de interesse de sua comunidade religiosa? E sabe que essa história envolve uma denominação internacional cuja sede mundial está justamente nos Estados Unidos?
A pergunta é explosiva porque o homem situado no centro dessa história não é o Che higienizado pela cultura popular. É o Che dos documentos.
Antes da boina virar camiseta, Che já matava pessoalmente
A fotografia mais famosa de Ernesto Guevara tornou-se uma das mais extraordinárias operações de transformação simbólica do século XX. O rosto jovem, a boina com a estrela, os cabelos ao vento e o olhar fixo no horizonte atravessaram décadas como representação de rebeldia, juventude e justiça social. O revolucionário tornou-se pôster, camiseta, bandeira e objeto de consumo. Nesse processo, o homem histórico desapareceu progressivamente atrás do ícone. Restou o médico preocupado com os pobres, o jovem idealista que percorreu a América Latina e o guerrilheiro romântico enfrentando a ditadura de Fulgencio Batista.
Mas existe outro Che nos documentos, inclusive nos documentos produzidos pelo próprio Guevara. Eutimio Guerra, camponês ligado aos rebeldes na Sierra Maestra, foi acusado de colaborar com as forças de Batista e fornecer informações sobre os guerrilheiros. Em fevereiro de 1957, Che executou pessoalmente Guerra com um tiro. O episódio foi registrado pelo próprio Guevara. Não precisamos recorrer a uma lenda anticomunista fabricada décadas depois, porque o próprio protagonista deixou o registro da morte.
Esse episódio destrói a interpretação confortável segundo a qual Guevara teria começado aquela história apenas como médico humanitário e somente muito depois se transformado num revolucionário disposto a matar. A violência já fazia parte de sua experiência na guerrilha. Acusações de traição, espionagem e colaboração com o inimigo podiam terminar em execução. Che participou dessa justiça revolucionária e assumiu pessoalmente a responsabilidade de matar.
O médico havia escolhido também o fuzil
A formação médica de Ernesto Guevara é constantemente utilizada para humanizar sua trajetória. Justamente por isso o contraste é tão perturbador. Um homem formado para preservar vidas passou a aceitar conscientemente que determinadas vidas poderiam ser eliminadas em nome da revolução. Guevara não deixou simplesmente de ser médico para tornar-se soldado. O médico e o executor passaram a coexistir no mesmo personagem.
A violência não era apenas consequência inevitável de combates entre duas forças armadas. A concepção revolucionária admitia a eliminação deliberada daqueles classificados pela própria revolução como traidores, informantes, desertores ou inimigos. A Sierra Maestra possuía disciplina, acusações, julgamentos e punições. Che estava dentro dessa estrutura e não como simples espectador.
Adventistas estavam ali — ajudando os homens da Revolução
É exatamente nesse momento da cronologia que aparecem os adventistas. Não depois da Revolução. Não décadas depois, quando Che já havia se transformado em personagem histórico. Adventistas da Sierra Maestra auxiliaram revolucionários durante a própria luta contra Batista. A documentação sobre o adventismo cubano registra fornecimento de alimentos, abrigo, roupas, informações e outras formas de auxílio aos homens envolvidos na insurreição.
Entre eles estava Che Guevara.
Argelio Rosabal tornou-se personagem central dessa história. Adventista, conhecido entre os revolucionários como “El Pastor”, Rosabal e sua família auxiliaram integrantes do movimento. Che sofria violentamente de asma, e nas condições precárias da Sierra Maestra uma crise podia significar incapacidade de deslocamento ou até morte. O auxílio oferecido por adventistas não ocorreu numa enfermaria isolada da guerra. O homem recuperado voltava para a guerrilha.
Comida significava continuar marchando. Abrigo significava escapar das forças de Batista. Informação significava não cair numa emboscada. Roupa significava conseguir continuar a campanha. Auxiliar aqueles homens possuía consequência política objetiva: contribuía para sua sobrevivência e, portanto, para a continuidade da Revolução.
Não foi apenas comida. Houve oração pela proteção dos revolucionários
A dimensão religiosa torna o episódio ainda mais extraordinário. Rosabal não aparece apenas fornecendo recursos materiais. Os relatos preservados sobre aquela experiência registram oração com os revolucionários e pedidos de proteção divina sobre os homens e sobre aquilo que enfrentariam. A fé adventista entrou, portanto, naquele cenário político e militar através do alimento, do abrigo, da assistência e também da oração.
Comparemos isso com 2026. A Revista Adventista publica “Fé sem bandeiras”, do professor de Teologia Felippe Amorim, enfatizando discrição política, responsabilidade na manifestação das preferências e preservação da unidade. Mas a história denominacional coloca diante de nós adventistas orando com homens envolvidos numa revolução armada. Se queremos discutir seriamente “fé sem bandeiras”, não podemos começar a história ontem.
Depois veio La Cabaña
A Revolução venceu. Batista fugiu. Fidel Castro entrou em Havana. E Che Guevara deixou de ser apenas comandante guerrilheiro para tornar-se uma das principais autoridades do novo regime. Em janeiro de 1959, assumiu o comando da fortaleza de La Cabaña, utilizada como prisão e sede de tribunais revolucionários. Homens ligados ao regime deposto e outros acusados de crimes foram julgados, condenados e enviados aos pelotões de fuzilamento.
Não precisamos disputar números para compreender o fato histórico. As estimativas sobre o total de executados variam, mas isso não altera aquilo que interessa à nossa investigação: houve tribunais revolucionários, houve sentenças de morte, houve pelotões de fuzilamento e Che ocupava posição de comando naquela estrutura. O homem auxiliado por adventistas na Sierra Maestra havia se tornado autoridade de uma revolução que utilizava abertamente a pena de morte contra seus inimigos.
Seria aqui que os adventistas romperiam com Che? Não.
Este é o ponto que altera completamente a história. Se a relação adventista com Che terminasse na Sierra Maestra, ainda seria possível construir a narrativa de um auxílio circunstancial prestado durante a guerra a homens cuja trajetória posterior não poderia ser conhecida. Mas os documentos nos obrigam a continuar a cronologia.
Em 1963, adventistas cubanos enfrentavam dificuldades relacionadas ao serviço militar obrigatório e às suas convicções religiosas. Uma comissão preparou um memorando para as autoridades. Quatro pastores participaram da iniciativa, acompanhados justamente por Argelio Rosabal, o adventista ligado a Che desde a guerrilha.
Rosabal levou pessoalmente a questão a Guevara.
Em 28 de outubro de 1963, Che encaminhou a documentação a Carlos Rodríguez e fez referência direta ao adventista sobre quem já havia conversado. A importância desse episódio é enorme. A relação construída durante a guerrilha sobrevivera à Revolução. O antigo combatente auxiliado pelos adventistas agora fazia parte do Estado; o adventista que possuía acesso a ele utilizava esse relacionamento quando sua comunidade religiosa precisava apresentar uma reivindicação.
Ajuda durante a guerra. Acesso depois da vitória.
Essa sequência precisa ser encarada sem maquiagem. Primeiro houve auxílio aos revolucionários. Depois houve vitória revolucionária. Em seguida houve consolidação do regime, tribunais, execuções e transformação de Che numa das autoridades mais conhecidas de Cuba. E, quatro anos depois da tomada do poder, o relacionamento adventista com Guevara ainda produzia acesso.
Não estamos falando, portanto, de um prato de comida entregue por engano a um desconhecido que somente muitos anos depois revelaria quem realmente era. Estamos diante de relacionamento historicamente identificável: Sierra Maestra, Rosabal, Che, Revolução, vitória, novo governo e contato posterior.
Enquanto isso, no Brasil, os adventistas cultivavam Jânio Quadros
Qualquer tentativa de confinar o problema a alguns adventistas cubanos encontra outro obstáculo: o arquivo brasileiro da própria denominação. Antes de chegar à Presidência da República, Jânio Quadros já mantinha relacionamento prestigioso com ambientes adventistas. Em 1957, quando governava São Paulo, foi convidado especial e paraninfo de uma grande formatura conjunta de escolas primárias adventistas promovida pela Associação Paulista. A Revista Adventista registrou sua presença como a mais alta autoridade estadual.
Durante a caminhada de Jânio em direção à Presidência, representantes evangélicos, inclusive adventistas, dialogaram com o candidato sobre questões de interesse religioso. A Revista Adventista posteriormente publicou material relacionado a esse relacionamento. Não era uma denominação absolutamente indiferente a quem governaria o país. Havia diálogo, interesse e aproximação.
Jânio colocou uma condecoração no peito de Che
Em agosto de 1961 ocorreu um dos acontecimentos mais controversos da curta Presidência de Jânio Quadros. O presidente brasileiro concedeu a Ernesto Che Guevara a Ordem Nacional do Cruzeiro do Sul. Em pleno ambiente da Guerra Fria, o gesto provocou enorme reação política. Che já não era o asmático escondido na Sierra Maestra. Era uma das faces internacionais da Revolução Cubana.
Se a proximidade com Jânio dependesse de sua distância de Che, aquele deveria ter sido um ponto de ruptura. Mas o arquivo adventista mostra outra coisa. Em 1962, depois da renúncia e depois da condecoração de Guevara, Jânio foi recebido no Instituto Adventista de Ensino. Almoçou com dirigentes, permaneceu durante horas na instituição, conversou com a administração e recebeu atenção de estudantes.
O presidente que havia condecorado Che continuava sendo recebido com prestígio pelos adventistas.
Em 1964, Che disse ao mundo exatamente o que pensava dos fuzilamentos
Se ainda restasse alguma possibilidade de alegar desconhecimento sobre a relação de Guevara com a violência revolucionária, ela desapareceu em 11 de dezembro de 1964. Che compareceu às Nações Unidas e falou diante de representantes do mundo inteiro. Não pediu desculpas pelos fuzilamentos. Não atribuiu as mortes a subordinados indisciplinados. Não prometeu abandonar o método. Reconheceu que Cuba havia fuzilado e declarou que continuaria fazendo isso enquanto julgasse necessário.
Não é interpretação de um adversário de Che. É Guevara descrevendo sua própria posição.
A partir daquele momento, o fuzilamento não podia ser tratado como segredo escondido nos porões de Havana. Uma das principais autoridades da Revolução o havia assumido diante do mundo.
E é justamente aqui que “Fé sem bandeiras” começa a desmoronar
O professor Felippe Amorim propõe em 2026 uma reflexão sobre voto, manifestação política, responsabilidade moral, discrição e unidade. Como professor de Teologia, porém, sua tese precisa sobreviver ao arquivo da própria denominação. Não basta ensinar aos futuros pastores aquilo que a instituição diz que deve ser sua relação com a política. É necessário mostrar-lhes aquilo que a instituição e seus membros fizeram quando se encontraram diante do poder político real.
Onde estava a “fé sem bandeiras” quando adventistas auxiliavam homens de uma revolução armada? Onde estava quando Rosabal orava pela proteção dos revolucionários? Onde estava quando o Colégio das Antilhas foi envolvido nos acontecimentos que cercaram a vitória revolucionária? Onde estava quando a relação com Che continuou depois de 1959? Onde estava quando, em 1963, o acesso ao antigo guerrilheiro já convertido em autoridade foi utilizado numa questão de interesse adventista? E onde estava no Brasil quando a denominação mantinha relações de prestígio com Jânio Quadros antes e depois da condecoração de Guevara?
A IASD não viveu fora da política. Aprendeu a administrar sua proximidade com ela.
O arquivo revela algo mais complexo do que uma Igreja permanentemente comunista, permanentemente conservadora ou permanentemente alinhada a qualquer partido. Revela uma instituição capaz de relacionar-se com diferentes poderes em diferentes circunstâncias. Isso é muito mais importante do que tentar colar uma etiqueta ideológica definitiva na denominação.
Em Cuba, adventistas auxiliaram revolucionários que combatiam Batista e depois utilizaram relações construídas naquele período quando precisaram tratar de interesses religiosos com o novo governo. No Brasil, cultivaram Jânio Quadros. Décadas depois, instituições e estruturas adventistas apareceriam próximas de políticos pertencentes a campos completamente diferentes. O padrão não é fidelidade permanente à esquerda ou à direita. O padrão é pragmatismo institucional diante do poder.
Por isso precisamos desconstruir as palavras “unidade”, “discrição”, “apartidarismo” e “preservação da igreja”. Unidade pode significar comunhão cristã, mas também pode ser invocada para conter dissenso. Discrição pode significar prudência, mas pode transformar-se em silêncio imposto ao membro. Apartidarismo pode significar independência diante dos partidos, mas perde credibilidade quando aplicado seletivamente. E preservação da igreja pode significar proteção da missão ou simplesmente proteção da imagem institucional.
Então chegamos novamente a Donald Trump
Em 29 de janeiro de 2026, Trump declarou uma emergência nacional em relação ao governo de Cuba. A Casa Branca afirmou que o regime comunista cubano ameaça interesses norte-americanos, persegue opositores, viola direitos humanos e desestabiliza a região. Em 1º de maio, Trump ampliou as medidas e autorizou novas sanções contra autoridades, entidades e pessoas relacionadas ao regime, incluindo aqueles considerados responsáveis por graves abusos de direitos humanos ou por fornecer apoio material ao governo cubano.
A ironia histórica é difícil de ignorar. Enquanto a administração Trump procura responsabilizar pessoas e estruturas que sustentam o regime cubano contemporâneo, existe nos arquivos uma história praticamente desconhecida fora do ambiente adventista: membros de uma denominação norte-americana internacional ajudaram os homens que fizeram a Revolução Cubana e auxiliaram pessoalmente um de seus personagens mais famosos.
TRUMP SABE DISSO?
Essa pergunta agora deixa de ser mero recurso de título. Até onde conseguimos verificar, não existe registro público demonstrando que Donald Trump conheça especificamente os episódios envolvendo Argelio Rosabal, adventistas cubanos e Che Guevara. Portanto, não podemos afirmar que saiba. Mas podemos perguntar — e podemos perguntar oficialmente.
O presidente dos Estados Unidos sabe que adventistas ajudaram integrantes da guerrilha de Fidel Castro? Sabe que Che Guevara esteve entre os beneficiados? Sabe que adventistas forneceram recursos que contribuíram para a sobrevivência daqueles homens durante a guerra? Sabe que o relacionamento de Argelio Rosabal com Che não terminou com a vitória revolucionária? Sabe que, em 1963, quando Guevara já integrava o governo revolucionário, Rosabal ainda conseguia apresentar diretamente a ele uma questão de interesse adventista?
E existe uma pergunta ainda mais atual. Se a administração Trump considera o apoio material ao atual regime cubano questão suficientemente grave para aparecer explicitamente em sua política de sanções de 2026, como a Casa Branca interpreta historicamente o auxílio prestado por integrantes de uma denominação norte-americana aos homens que construíram a Revolução Cubana? Evidentemente, estamos falando de épocas, pessoas e contextos jurídicos completamente diferentes; justamente por isso a questão que propomos é histórica e política: o presidente conhece esse capítulo da formação do regime que hoje combate?
Talvez Trump deva ser informado
O Adventistas.Com pode transformar “Trump sabe disso?” numa pergunta jornalística real. Podemos encaminhar à Casa Branca um pedido formal de posicionamento, acompanhado da documentação histórica. Não uma acusação genérica, mas uma pergunta precisa: “O presidente Donald Trump tem conhecimento dos registros históricos segundo os quais adventistas do sétimo dia em Cuba auxiliaram Ernesto Che Guevara e outros integrantes da Revolução Cubana durante a guerrilha e de que, posteriormente, Guevara manteve contato com o adventista Argelio Rosabal, inclusive encaminhando em 1963 uma questão relacionada aos adventistas?”
A mesma documentação pode ser encaminhada à Associação Geral da Igreja Adventista do Sétimo Dia, em Silver Spring. Se estamos falando de “Fé sem bandeiras”, a sede mundial pode explicar como interpreta hoje essa história. Considera o auxílio prestado aos revolucionários simples ação humanitária? Como interpreta as orações pela proteção daqueles homens? Como compreende a continuidade do relacionamento de Rosabal com Guevara depois da vitória? E como concilia essa história com as atuais orientações denominacionais sobre participação e manifestação política?
Felippe Amorim também precisa responder
A discussão não pode terminar na Casa Branca nem em Silver Spring. Ela retorna à Revista Adventista e ao professor Felippe Amorim. Seu artigo não foi publicado numa rede social particular. Foi publicado pela principal revista denominacional brasileira e apresentado como orientação sobre comportamento cristão diante do voto e da política. Amorim é professor de Teologia. Seus alunos serão pastores, professores e dirigentes. Portanto, existe uma questão acadêmica legítima: essa história política adventista faz parte da formação deles?
Os futuros pastores estudam Argelio Rosabal? Estudam o auxílio adventista aos revolucionários cubanos? Leem o que o próprio Che escreveu sobre adventistas? Conhecem o envolvimento do Colégio das Antilhas nos acontecimentos de Santa Clara? Conhecem o documento de 1963? Estudam a aproximação da Igreja brasileira com Jânio Quadros? Ou recebem apenas a formulação normativa segundo a qual a IASD sempre foi apartidária, politicamente discreta e cuidadosamente separada dos conflitos políticos?
Uma teologia que ensina somente aquilo que a Organização declara ser, sem colocar ao lado dessa declaração aquilo que a Organização efetivamente fez, não permite ao estudante avaliar criticamente a história institucional. O arquivo precisa entrar na sala de aula.
O próprio Che é nossa principal testemunha contra o Che romantizado
Não precisamos fabricar atrocidades para tornar esse artigo mais contundente. O material documental já é suficientemente grave. Eutimio Guerra morreu pela mão de Guevara. A justiça guerrilheira admitia execuções. Che comandou La Cabaña durante o funcionamento dos tribunais revolucionários e dos pelotões de fuzilamento. Depois, diante das Nações Unidas, assumiu publicamente que a Revolução havia fuzilado e continuaria fuzilando.
O Che real é suficientemente perturbador sem exagero.
E justamente por isso a história adventista se torna tão incômoda. O relacionamento não pode ser reduzido à imagem de um cristão que ofereceu água a um inimigo ferido. Os documentos mostram auxílio durante a Revolução, relações pessoais, memória do apoio e contato posterior.
Do Che que matava ao governo que Trump combate em 2026
Há uma linha histórica que não deve ser confundida com identidade absoluta entre épocas, mas também não pode ser apagada: a Revolução que levou Fidel Castro e Che Guevara ao poder deu origem ao regime político cubano cuja continuidade o governo Trump combate hoje. Em 2026, Trump declarou formalmente que as políticas e práticas do governo cubano representam uma ameaça extraordinária aos Estados Unidos. Décadas antes, adventistas estavam presentes numa história muito próxima daqueles que fizeram a Revolução.
É precisamente essa distância temporal que torna a pergunta interessante. Não estamos acusando adventistas contemporâneos de terem praticado aquilo que fizeram adventistas cubanos nos anos 1950. Estamos recuperando uma história institucional e religiosa que aparentemente desapareceu da memória popular da denominação.
E há documentos que tornam essa história ainda maior
Esta investigação não termina aqui. Pelo contrário. Os documentos que localizamos abrem uma nova série. Um relato adventista publicado praticamente no calor dos acontecimentos descreve o Colégio das Antilhas durante a Revolução. Décadas depois, Caleb Rosado recuperou uma afirmação extraordinária atribuída ao próprio Che sobre o apoio recebido de adventistas durante a guerra. Joseph Tahbaz estudou academicamente a relação singular estabelecida entre adventistas e a Revolução Cubana, incluindo Rosabal e os contatos posteriores. E, surpreendentemente, uma publicação adventista de 2025 voltou ao assunto ao revelar que entre antigas anotações atribuídas a Che Guevara havia uma referência à possibilidade de autorização de um seminário teológico adventista.
Vamos traduzir esses materiais. Vamos publicar os trechos fundamentais. Vamos procurar as fotografias. Vamos colocar lado a lado aquilo que Che escreveu, aquilo que adventistas escreveram e aquilo que pesquisadores encontraram. A história não precisará depender de nossa descrição. O leitor poderá examinar os documentos.
TRUMP SABE DISSO? A CASA BRANCA PODE RESPONDER. A IASD TAMBÉM.
Em 2026, Donald Trump voltou a colocar Cuba no centro de uma ofensiva norte-americana contra o regime comunista. Em janeiro, declarou emergência nacional. Em maio, ampliou sanções. O governo dos Estados Unidos fala novamente em repressão, direitos humanos, apoio ao regime e responsabilidade política. É exatamente nesse momento que emerge do arquivo adventista uma história quase esquecida: adventistas ajudaram homens que fizeram a Revolução Cubana; Che Guevara esteve entre eles; o relacionamento não terminou quando Fidel venceu; e, em 1963, o antigo vínculo ainda abria portas.
Trump sabe disso?
Não encontramos até agora evidência pública de que saiba. Mas agora existe documentação suficiente para perguntar diretamente.
E talvez a pergunta ainda mais incômoda não seja dirigida ao presidente dos Estados Unidos, mas à própria Igreja Adventista: se hoje a denominação ensina “Fé sem bandeiras”, por que sua própria história contém tantas bandeiras, tantos governos, tantos políticos e tantas aproximações com o poder?
O arquivo não desaparece porque incomoda. Che matou. Che comandou. Che defendeu os fuzilamentos. Adventistas ajudaram homens da Revolução e auxiliaram o próprio Guevara. O relacionamento continuou depois da vitória. Jânio condecorou Che e continuou sendo recebido em ambiente adventista. Agora Donald Trump confronta o regime que nasceu daquela Revolução.
TRUMP SABE DISSO?
É uma pergunta que merece atravessar os portões de Silver Spring e chegar à Casa Branca.





