FÉ SEM BANDEIRAS? A própria Revista Adventista ensinou que há momentos em que devemos nos posicionar

O professor de Teologia Felippe Amorim recomenda discrição, silêncio sobre preferências eleitorais e preservação da unidade. Mas a história do discurso político da própria denominação mostra que, durante décadas, adventistas foram orientados a avaliar ideologia, crenças, estilo de vida e propostas de candidatos — e a Revista Adventista chegou a afirmar que, quando questões morais dividem uma eleição, “devemos nos posicionar”. O que mudou: os princípios ou a maneira de aplicá-los?

Quando publicamos nossa primeira resposta à matéria de capa “Fé sem bandeiras”, da Revista Adventista de agosto de 2026, concentramos a crítica numa pergunta fundamental: uma igreja pode ser rigorosamente apartidária sem transformar o apartidarismo em silêncio moral? Agora precisamos avançar, porque o artigo não é uma peça anônima surgida no vazio institucional. Seu autor é Felippe Amorim, professor da Faculdade de Teologia do Uniaene, e a Revista Adventista decidiu transformar sua formulação em matéria de capa. Isso atribui peso acadêmico, pastoral e institucional à tese.

O texto não circula apenas como opinião pessoal de um membro que decidiu escrever sobre política. Circula numa publicação denominacional, assinado por um professor que participa da formação de futuros pastores, obreiros e líderes. Por isso, suas afirmações precisam ser confrontadas não apenas com algumas citações de Ellen G. White selecionadas para sustentar a ideia de discrição eleitoral, mas com a história do próprio discurso adventista sobre política e com a prática concreta da Organização ao longo das décadas.

Felippe Amorim insiste que o adventista deve exercer o voto com consciência e responsabilidade, mas recomenda discrição, cautela na manifestação pública de preferências e preservação da unidade da igreja. A linguagem é familiar. Unidade, prudência, liberdade de consciência, missão, apartidarismo e preservação da igreja aparecem como conceitos capazes de organizar todo o debate. O problema surge quando esses termos são apresentados quase como se fossem autoexplicativos e historicamente uniformes. Não são. “Unidade” pode designar comunhão cristã, mas também pode ser invocada para restringir divergência. “Discrição” pode significar prudência, mas também pode funcionar como mecanismo de silenciamento. “Apartidarismo” pode significar independência diante de todos os partidos, mas também pode ser aplicado seletivamente para limitar a manifestação de membros enquanto relações institucionais com o poder permanecem fora do escrutínio. “Preservar a igreja” pode significar proteger sua missão, mas também pode significar proteger sua imagem. É por isso que esse vocabulário precisa ser desconstruído institucionalmente, confrontando aquilo que se diz com aquilo que se fez.

Antes de ensinar silêncio, precisamos abrir o arquivo da própria Revista Adventista

Existe documentação suficiente para impedir que esse debate seja reduzido a opiniões. O pesquisador Kevin Willian Kossar Furtado examinou academicamente o discurso da Revista Adventista sobre política partidária após a redemocratização brasileira. Seu trabalho demonstra que a denominação construiu, ao longo das décadas, uma verdadeira gramática adventista da participação política.

Essa gramática inclui separação entre Igreja e Estado, liberdade religiosa, temperança, sábado, família, educação, moralidade, responsabilidade social, candidatura de membros e atuação de adventistas em cargos públicos. A história que emerge desse estudo é incompatível com a caricatura de um adventismo que apenas manda votar e voltar para casa em silêncio.

A própria metodologia do estudo indica que ainda há muito material a ser recuperado. Furtado delimitou seu levantamento principalmente ao discurso sobre “política partidária”. Não esgotou referências a “política”, “eleição”, “eleições”, candidatos, presidentes, governadores, autoridades, partidos e eventos institucionais. Isso significa que a documentação conhecida já é suficiente para revelar tensões importantes, mas provavelmente representa apenas parte do acervo disponível.

E é justamente essa documentação que precisa ser colocada diante de “Fé sem bandeiras”. O artigo de 2026 pretende orientar o comportamento contemporâneo do membro. O arquivo da própria revista permite perguntar se essa orientação é coerente com aquilo que a denominação ensinou em outros momentos.

A Igreja se dizia apolítica, mas ensinava critérios políticos ao eleitor adventista

Um dos pontos mais reveladores é a convivência entre duas afirmações aparentemente contraditórias. De um lado, a IASD insiste que é apartidária, que não possui candidato oficial, que instituições não devem transformar-se em comitês eleitorais e que dirigentes e pastores não devem utilizar autoridade religiosa para impor escolhas. De outro, a própria tradição editorial ensina que o adventista deve considerar candidatos cuja ideologia, crenças, estilo de vida e propostas políticas estejam mais próximos dos princípios adventistas.

Entre esses princípios aparecem liberdade religiosa, separação entre Igreja e Estado, sábado, temperança, moralidade, educação adventista, família e preocupação com os desfavorecidos. Portanto, a denominação não ensinou simplesmente “vote em quem quiser e não pense religiosamente sobre isso”. Ensinou quais categorias religiosas deveriam influenciar a escolha.

Isso é orientação política, ainda que não seja indicação nominal de candidato. Quando uma igreja ensina ao eleitor que considere ideologia, crenças, comportamento moral e determinadas propostas, ela estabelece um filtro. Esse filtro aproximará alguns candidatos e afastará outros. Podemos chamá-lo de princípio bíblico, consciência cristã, orientação moral ou responsabilidade cívica. O efeito permanece: a fé participa da decisão eleitoral.

A questão, portanto, nunca foi apenas se o adventista pode tomar posição. A própria história denominacional demonstra que sim. A questão real é quem define quais posições são legítimas, quais assuntos são suficientemente “morais” para justificar manifestação e em que momento uma convicção deixa de ser tratada como princípio e passa a ser classificada como ameaça à unidade.

Felippe Amorim, sua própria argumentação impede que “discrição” seja transformada em silêncio

É aqui que o confronto com Felippe Amorim precisa ser direto. O próprio “Fé sem bandeiras” admite que Ellen G. White reconheceu situações em que os adventistas deveriam exercer influência “a favor do que é correto e contra o erro”. A matéria também recupera o episódio em que a omissão diante de candidatos comprometidos com a intemperança poderia produzir consequências negativas. Portanto, o professor não sustenta — nem poderia sustentar — uma neutralidade moral absoluta.

Seu próprio artigo admite que há circunstâncias nas quais deixar de agir também é uma escolha moral. Uma vez feita essa concessão, o debate muda completamente. Já não basta reproduzir a advertência contra proclamar pela caneta ou pela voz determinadas preferências eleitorais. É necessário responder onde termina a preferência privada e onde começa o dever moral de falar.

Professor Felippe Amorim, se o alcoolismo era uma questão moral suficientemente grave para justificar posicionamento, o que fazemos com corrupção? Se a intemperança de um candidato merecia consideração pública, o que fazemos com desvio de dinheiro destinado a aposentados? Se a moralidade familiar é critério político, por que abuso de autoridade não seria? Se venda de bebidas alcoólicas pode funcionar como divisor de águas moral, por que fraude comprovada, enriquecimento ilícito, favorecimento, perseguição, suborno, mentira deliberada, exploração dos vulneráveis ou uso indevido do poder seriam reduzidos à categoria conveniente de “política”?

A Bíblia não possui uma moralidade limitada ao sexo, ao álcool e ao comportamento privado. Os profetas denunciaram governantes, juízes, comerciantes, sacerdotes e estruturas de poder. Falaram de balanças fraudulentas, propina, opressão, exploração, roubo, corrupção e injustiça. Portanto, uma teologia adventista da política que reconhece responsabilidade moral não pode escolher arbitrariamente quais pecados permanecem morais quando entram no Estado e quais deixam de sê-lo porque passaram a causar desconforto político.

“Se assuntos morais são o divisor de águas da eleição, devemos nos posicionar”

A dificuldade para a tese de 2026 aumenta quando voltamos à Revista Adventista de 2010. Ali encontramos uma formulação que deveria ser colocada em destaque ao lado de “Fé sem bandeiras”: “Se assuntos morais são o divisor de águas da eleição, devemos nos posicionar.” A frase é clara. Não diz apenas que devemos pensar silenciosamente. Diz “devemos nos posicionar”.

O contexto tratava de questões como casamento entre pessoas do mesmo sexo, venda irrestrita de bebidas alcoólicas e aborto. O raciocínio era que, se temas morais se tornam determinantes numa eleição, o cristão não deve agir como se fossem irrelevantes. Sua fé orienta sua decisão política.

Mas, se aceitarmos esse princípio, precisamos aplicá-lo de forma completa. A corrupção é questão moral. Roubar aposentados é questão moral. Subornar é questão moral. Manipular licitações é questão moral. Utilizar cargo público para favorecer aliados é questão moral. Perseguir adversários por meio de instrumentos do Estado é questão moral. Mentir deliberadamente à sociedade é questão moral. Proteger culpados por conveniência institucional é questão moral. A própria Bíblia nos impede de criar uma moralidade seletiva em que determinados assuntos são espiritualizados e outros são neutralizados porque sua discussão poderia gerar conflito político.

O político adventista podia ser considerado útil à Igreja

A documentação histórica vai além. O discurso adventista sobre política reconheceu que membros em posições públicas poderiam produzir benefícios para a Igreja, inclusive em matérias relacionadas ao sábado e à liberdade religiosa. Essa constatação é decisiva porque coloca diante de nós a dimensão institucional do problema.

A denominação sabia que decisões políticas afetam seus interesses. Sabia que leis podem proteger ou ameaçar o sábado. Sabia que governantes e parlamentares influenciam liberdade religiosa. Sabia que escolas confessionais dependem de legislação. Sabia que interlocução política importa. Portanto, a política nunca esteve verdadeiramente fora da vida adventista.

Se a Igreja considera legítimo desejar leis favoráveis à liberdade religiosa e ao exercício de suas convicções, então reconhece que a esfera política possui importância moral e institucional. Se reconhece que um adventista em posição pública pode beneficiar a Igreja, então admite que representação política tem consequências religiosas concretas.

O problema começa quando essa realidade histórica desaparece da memória e sobra apenas a recomendação para que o membro seja discreto. A pergunta passa a ser inevitável: por que a discrição parece ser exigida principalmente de baixo para cima?

2014: o apartidarismo passa a ser administrado como política institucional

O documento “Os adventistas e a política”, sistematizado pela Divisão Sul-Americana, procura organizar essa relação. Proíbe propaganda eleitoral em programas oficiais, uso do púlpito para candidatos, financiamento de campanhas pela Igreja e transformação de estruturas denominacionais em plataformas partidárias.

Ao mesmo tempo, mantém critérios confessionais para orientar a decisão política dos membros. A conclusão é evidente: a IASD não elimina política da vida religiosa; administra a política. Define fronteiras, espaços, autoridades, comportamentos permitidos e comportamentos considerados inadequados.

Essa constatação é importante para nossa resposta a Felippe Amorim porque demonstra que o problema não é apenas teológico. É institucional. Quem controla o espaço determina também quem pode falar. Quem controla a revista escolhe quais interpretações chegam à membresia. Quem controla o púlpito determina quais assuntos são apresentados como espirituais e quais são considerados divisivos. Quem controla instituições mantém relações com governos e autoridades. Por isso o discurso sobre “unidade” precisa ser examinado em conexão com poder institucional. Não basta perguntar o que a palavra significa na Bíblia. Precisamos perguntar como ela funciona dentro de uma Organização concreta.

“Instrumentalização da política para fins benéficos à Igreja”

É nesse ponto que a conclusão de Kevin Furtado se torna central. Ao estudar o discurso adventista, ele identifica a possibilidade de “instrumentalização da política para fins benéficos à Igreja”. A expressão é importante exatamente porque não foi criada por nós. É resultado de análise acadêmica do próprio discurso denominacional. O pesquisador também observa que existe incentivo implícito à candidatura de membros comprometidos com valores bíblicos. Portanto, a política não aparece apenas como ameaça à unidade. Também aparece como instrumento potencialmente útil à instituição.

Essa duplicidade precisa ser colocada diante da matéria de capa de 2026. Quando a política ameaça dividir membros, fala-se de prudência, silêncio e unidade. Quando decisões públicas afetam sábado, liberdade religiosa, educação, projetos sociais ou outros interesses denominacionais, a política aparece como espaço legítimo de influência. Isso não é necessariamente ilegítimo. O problema é esconder essa assimetria sob a aparência de um apartidarismo puro e uniforme. Uma instituição pode defender seus interesses legítimos. O que não pode é fazê-lo enquanto constrói para a membresia uma narrativa na qual quase toda manifestação política individual aparece como risco espiritual.

A Revista Adventista fala publicamente de política para ensinar que o membro deve ser discreto ao falar de política

Existe uma contradição adicional no próprio ato editorial de publicar “Fé sem bandeiras” como matéria de capa. A Revista Adventista decidiu falar publicamente sobre política. Interpretou Ellen White, discutiu voto, analisou comportamento eleitoral, tratou de liberdade de consciência e definiu os riscos da exposição de preferências. Portanto, demonstrou na prática que é perfeitamente possível falar publicamente sobre política sem fazer campanha partidária. Essa constatação derruba a falsa equivalência entre falar de política e transformar a igreja em palanque.

Se a revista pode discutir política publicamente para ensinar princípios, o membro também pode discutir política publicamente a partir de princípios. Pode denunciar corrupção sem filiar-se a partido. Pode criticar um presidente sem idolatrar seu adversário. Pode questionar um governador sem transformar outro em messias. Pode examinar fraudes, abusos e escândalos sem fazer campanha eleitoral. O critério não pode ser simplesmente “falou de política”. O critério precisa ser verdade, evidência, justiça, coerência e aplicação do mesmo padrão a todos.

Unidade para quê — e unidade em torno de quem?

Chegamos ao conceito mais sensível. Unidade é apresentada repetidamente como valor a ser preservado. Mas unidade cristã não é uniformidade administrativa. A unidade do corpo de Cristo não consiste em evitar toda pergunta capaz de constranger dirigentes. Os profetas não preservaram a “unidade” de Israel escondendo o pecado de reis. Elias não se calou para preservar a imagem da monarquia. Natã não decidiu que denunciar Davi poderia dividir o povo. João Batista não concluiu que a denúncia contra Herodes prejudicaria a missão. A unidade bíblica nasce da verdade, não da supressão da verdade.

Quando uma instituição religiosa utiliza “unidade” como argumento, precisamos perguntar: unidade entre quem? Unidade em torno de quê? Unidade em Cristo ou unidade em torno da administração? Unidade doutrinária ou silêncio institucional? Comunhão ou disciplina da opinião? Essas perguntas não são periféricas. São indispensáveis porque estruturas religiosas, como todas as estruturas de poder, também desenvolvem mecanismos de autopreservação.

Felippe Amorim não escreveu no vazio: escreveu como professor de uma instituição que forma pastores

A condição acadêmica do autor torna a discussão ainda mais relevante. Felippe Amorim não é apenas alguém que publicou um artigo devocional. É professor de Teologia. Seus alunos serão pastores. Alguns serão administradores. Alguns dirigirão igrejas, associações, escolas, instituições e departamentos. As categorias teológicas ensinadas hoje poderão tornar-se práticas pastorais amanhã. Se “unidade” for entendida como evitar confrontação pública, isso será reproduzido. Se “discrição” for assimilada como virtude superior ao dever de denunciar injustiça, isso será reproduzido. Se apartidarismo for confundido com despolitização seletiva da membresia, isso será reproduzido.

É justamente por isso que a discussão deve alcançar alunos, professores e estruturas acadêmicas adventistas. Uma Faculdade de Teologia digna desse nome não deveria formar repetidores de documentos. Deveria formar ministros capazes de confrontar documentos com a Escritura, história com discurso, prática com princípio e poder com responsabilidade. O debate iniciado pela matéria de capa pertence legitimamente à sala de aula.

O professor levantou a questão; agora a história da Igreja precisa entrar na discussão

Chegamos então à pergunta que prepara o próximo artigo. Se apartidarismo significa independência, como a própria Organização se relacionou com políticos? Se discrição é princípio, a instituição foi discreta? Se a igreja não deve oferecer capital religioso a candidatos, o que aconteceu quando políticos frequentaram espaços adventistas, receberam homenagens, participaram de eventos e estabeleceram relações públicas com instituições denominacionais? Se a manifestação política dos membros ameaça a unidade, como interpretar episódios nos quais adventistas, pastores ou instituições aparecem associados a personagens políticos em contextos eleitorais?

A resposta não está apenas em documentos normativos. Está na história. E essa história leva muito além de Lula e Bolsonaro. Leva à Revolução Cubana, a Fidel Castro e Che Guevara. Leva a Jânio Quadros. Leva a UNASP, ADRA, Novo Tempo, candidatos, governadores, presidenciáveis e fotografias que atravessam décadas. A matéria de Felippe Amorim abriu uma discussão sobre o comportamento político do membro. Nossa resposta exige agora abrir uma discussão sobre o comportamento político da própria Organização.

Fé sem bandeiras, sim. Fé sem voz, não. E memória sem arquivos, jamais.

O estudo da própria Revista Adventista demonstra que o adventismo nunca ensinou simplesmente ausência de posicionamento. Estabeleceu critérios eleitorais, reconheceu questões morais como divisores legítimos, admitiu benefícios decorrentes da presença de adventistas no poder e sistematizou regras para administrar sua relação com política. Portanto, o slogan “fé sem bandeiras” só pode ser aceito se significar independência diante dos partidos. Não pode significar submissão diante do poder, silêncio diante da injustiça ou suspensão da consciência crítica do membro.

E existe uma exigência final de coerência: o princípio que se aplica ao membro deve aplicar-se à instituição. Se não vale para a Organização, não é princípio; é mecanismo de controle. No próximo artigo, deixaremos a teoria e abriremos o arquivo histórico para descobrir até onde foi, na prática, essa alegada distância adventista do poder político.

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