
Resposta: nenhum dos dois. “Pagar” e “devolver” não significam exatamente a mesma coisa — e essa diferença é fundamental. Pagar pressupõe uma dívida; devolver pressupõe propriedade. Antes de dizer que o cristão deve fazer uma coisa ou outra, portanto, é preciso demonstrar biblicamente que 10% de sua renda continuam pertencendo a Deus e, sobretudo, que Deus transferiu a alguma organização religiosa o direito de receber essa parcela em Seu nome.
“Você paga o dízimo?” A pergunta já foi corrigida incontáveis vezes nos púlpitos adventistas. O membro aprende que não deve dizer que “paga”, porque ninguém paga a Deus aquilo que já pertence a Ele. A palavra considerada teologicamente correta é “devolver”. O raciocínio parece simples: dez por cento da renda pertenceriam antecipadamente a Deus; o cristão administraria os outros noventa por cento e, quando recebesse seu salário, deveria “devolver” ao Senhor aquilo que nunca lhe pertenceu.
Mas a troca de verbo está longe de ser apenas uma questão de vocabulário religioso. Existe uma diferença pequena na aparência, porém enorme nas consequências, entre pagar e devolver. Quem paga reconhece uma obrigação e quita aquilo que lhe é devido. Quem devolve faz algo diferente: restitui ao proprietário aquilo que já lhe pertencia. “Pagar” pressupõe dívida. “Devolver” pressupõe propriedade. E é exatamente por isso que, antes de perguntar se o cristão deve pagar ou devolver dez por cento, existe uma pergunta anterior que precisa ser respondida: de quem são esses dez por cento?
Essa diferença parece sutil até percebermos sua consequência teológica. Se alguém deixa de pagar uma contribuição, deixou de cumprir determinada obrigação. Mas, se alguém deixa de devolver aquilo que pertence a outro, passa a reter propriedade alheia. É exatamente nesse ponto que a linguagem da “devolução” encontra a acusação de Malaquias 3: “Roubará o homem a Deus?” Primeiro se estabelece que os dez por cento pertencem a Deus; depois se identifica a organização religiosa como destinatária autorizada dessa propriedade; finalmente, quem não entrega a quantia pode ser apresentado não simplesmente como alguém que deixou de contribuir, mas como alguém que reteve aquilo que pertence ao próprio Deus.
Portanto, a palavra “devolver” já contém boa parte da doutrina que deveria ser demonstrada. Para afirmar que o cristão “devolve” o dízimo, não basta provar que a Bíblia menciona dízimos. É necessário demonstrar pelo menos três coisas: que dez por cento da renda do cristão continuam sendo propriedade exclusiva de Deus; que Deus determinou que essa parcela seja obrigatoriamente entregue; e que Ele autorizou determinada estrutura eclesiástica a recebê-la em Seu nome. Sem essas três demonstrações, o verbo “devolver” deixa de ser uma simples descrição bíblica e passa a funcionar como conclusão antecipada.
É por isso que nossa pergunta precisa ser formulada com precisão. Não estamos perguntando se a palavra “dízimo” aparece na Bíblia. Aparece muitas vezes. Não estamos perguntando se Israel entregava dízimos. Entregava. Não estamos perguntando se pessoas anteriores a Moisés deram a décima parte em determinadas circunstâncias. Deram. A pergunta é outra: depois da morte e ressurreição de Cristo, existe algum mandamento dirigido à comunidade cristã estabelecendo que cada seguidor de Jesus deve separar obrigatoriamente dez por cento de seus rendimentos e entregá-los à instituição religiosa que frequenta?
A resposta é não. E esse “não” precisa ser demonstrado pela própria Escritura, porque durante muito tempo textos pertencentes a contextos diferentes foram reunidos até produzirem a impressão de que existe na Bíblia uma doutrina única, contínua e imutável segundo a qual Abraão, Jacó, Israel, Jesus, os apóstolos e a Igreja cristã praticaram essencialmente o mesmo sistema financeiro. Quando examinamos cada passagem dentro de seu próprio contexto, porém, essa construção começa a apresentar problemas sérios.
ANTES DE PERGUNTAR QUEM DEVE DAR, PERGUNTE O QUE ERA O DÍZIMO
O primeiro erro é começar a discussão pelo cristão moderno. Precisamos começar pelo próprio texto bíblico. O sistema legislado para Israel não descreve simplesmente alguém recebendo dinheiro e transferindo dez por cento dele para uma organização religiosa. Deuteronômio manda separar anualmente a décima parte da produção e identifica aquilo que seria utilizado: cereal, vinho, azeite, rebanhos e manadas (Dt 14:22-23). O israelita deveria levar esse dízimo ao lugar escolhido por Deus e, numa das disposições descritas, ele próprio e sua família deveriam comê-lo diante do Senhor.
Se a distância fosse grande demais para transportar os produtos, Deuteronômio permitia convertê-los em dinheiro. Mas é justamente aquilo que acontecia depois que torna o texto particularmente esclarecedor. Chegando ao lugar determinado, o israelita poderia utilizar aquele dinheiro para adquirir bois, ovelhas, vinho, bebida fermentada ou aquilo que desejasse para a celebração diante do Senhor (Dt 14:24-26). O dinheiro aparece, portanto, como meio para facilitar o transporte do valor representado pelos produtos; o texto não transforma o dízimo numa transferência monetária permanente de dez por cento da renda familiar para uma administração religiosa.
O mesmo capítulo contém uma disposição social que raramente recebe nos sermões sobre dízimo a mesma atenção dispensada a Malaquias. Ao final de cada terceiro ano, o dízimo da produção deveria ser armazenado localmente para que o levita, o estrangeiro, o órfão e a viúva pudessem comer e ficar satisfeitos (Dt 14:28-29). Portanto, qualquer tentativa de afirmar que estamos simplesmente “seguindo o sistema bíblico” precisa enfrentar o sistema inteiro, não apenas extrair dele o número dez. O dízimo bíblico estava ligado à terra, à produção agropecuária, aos levitas sem herança territorial, ao culto de Israel e também ao sustento de pessoas vulneráveis.
Números 18 acrescenta outro elemento decisivo. Deus atribui os dízimos de Israel aos levitas como compensação pelo serviço realizado na Tenda da Congregação, justamente porque eles não receberiam herança territorial como as demais tribos (Nm 18:21-24). Os próprios levitas, por sua vez, deveriam separar a décima parte daquilo que recebessem e entregá-la aos sacerdotes (Nm 18:25-32). Mais tarde, Neemias descreve os levitas recolhendo os dízimos e levando o “dízimo dos dízimos” para os depósitos da casa de Deus (Ne 10:37-38).
Portanto, o sistema possuía sujeitos, destinatários, produtos e funções identificáveis. Não basta substituir “levita” por “pastor”, “Templo” por “denominação”, “depósito” por “tesouraria” e “Israel” por “Igreja” sem demonstrar biblicamente que os apóstolos fizeram essa transferência. Se eles fizeram, precisamos encontrar o texto. Se não encontramos, não podemos atribuir à Bíblia uma equivalência que nós mesmos construímos.
MAS ABRAÃO DEU O DÍZIMO ANTES DE MOISÉS
Este é provavelmente o argumento mais importante utilizado para retirar o dízimo do sistema mosaico: Abraão deu o dízimo a Melquisedeque antes do Sinai. O fato é verdadeiro. A conclusão frequentemente construída a partir dele não é necessariamente verdadeira. Gênesis 14 relata uma situação extraordinária. Abraão retornava de uma batalha depois de libertar Ló e recuperar pessoas e bens capturados. Melquisedeque o abençoou, e Abraão lhe entregou a décima parte (Gn 14:18-20).
Mas observe o que o texto não diz. Não apresenta ali um mandamento universal. Não registra Deus ordenando a Abraão que estabelecesse uma contribuição periódica. Não informa que Abraão entregasse dez por cento de toda a sua renda anual. Não registra que repetisse aquele procedimento regularmente. Não estabelece uma instituição que passaria a receber continuamente dez por cento de seus rendimentos. E Hebreus 7:4, quando posteriormente comenta o episódio, identifica aquilo que Abraão entregou como a décima parte dos despojos.
Mais importante ainda: um relato de algo que Abraão fez não se transforma automaticamente em mandamento para todos os cristãos. Abraão também praticou circuncisão, ofereceu animais em sacrifício e construiu altares. A precedência histórica em relação ao Sinai não transforma automaticamente cada uma dessas práticas em obrigação da Igreja. Para que Gênesis 14 estabelecesse o sistema moderno seria necessário encontrar posteriormente uma ordem apostólica dizendo que, assim como Abraão entregou a décima parte a Melquisedeque, todos os cristãos devem entregar periodicamente dez por cento de sua renda a uma organização eclesiástica. Essa ordem simplesmente não aparece.
E JACÓ?
Gênesis 28 é igualmente utilizado. Depois do sonho em Betel, Jacó fez um voto: se Deus estivesse com ele, o guardasse, lhe desse alimento e roupa e o fizesse retornar em paz à casa de seu pai, então o Senhor seria seu Deus e, de tudo aquilo que Deus lhe desse, ele daria a décima parte (Gn 28:20-22). O texto é interessantíssimo precisamente porque mostra Jacó fazendo um voto. Ele não diz que estava obedecendo a uma lei universal previamente estabelecida para toda a humanidade. Muito menos estabelece que todos os descendentes de Jacó — e posteriormente todos os cristãos — deveriam entregar dez por cento de qualquer salário recebido.
Transformar um voto pessoal narrado em Gênesis numa obrigação universal exige novamente uma etapa que o texto não fornece. Se a décima parte já constituísse uma obrigação universal e incondicional, seria no mínimo curioso apresentar Jacó prometendo-a dentro de um voto condicionado às circunstâncias que acabara de mencionar. O relato demonstra que Jacó prometeu dar um décimo. Não demonstra a existência de uma legislação cristã de dízimos.
“ROUBARÁ O HOMEM A DEUS?”
Chegamos então ao texto que provavelmente exerceu maior influência sobre a linguagem religiosa do “roubo” do dízimo: Malaquias 3:8-10. “Roubará o homem a Deus?” A pergunta é seguida pela acusação: “nos dízimos e nas ofertas”. Depois vem a ordem para levar os dízimos à “casa do tesouro”, seguida da promessa das janelas do céu e de bênçãos abundantes.
O primeiro detalhe que precisa ser recuperado é aquilo que frequentemente desaparece quando o texto chega ao púlpito: Malaquias identifica seus destinatários como uma nação. “Vós, toda a nação”, diz o texto (Ml 3:9). A acusação não foi originalmente pronunciada contra um trabalhador brasileiro do século XXI que deixou de transferir dez por cento de seu salário para uma denominação. O profeta está tratando da infidelidade de Israel dentro de uma ordem religiosa que possuía sacerdócio, Templo, levitas, depósitos e produtos destinados ao sustento daquele sistema.
O segundo detalhe está na expressão “casa do tesouro”. O depósito não era uma metáfora para Associação, Missão, União, Divisão, Conferência Geral ou tesouraria de uma igreja moderna. Neemias 13 fornece um paralelo esclarecedor porque descreve justamente uma crise na qual as porções dos levitas não estavam sendo entregues. Os levitas e cantores haviam voltado para seus campos porque não estavam recebendo sua manutenção; Neemias repreendeu os dirigentes e Judá voltou a levar aos depósitos cereal, vinho e azeite (Ne 13:10-12).
Isso muda profundamente a leitura. Quando Malaquias exige que o dízimo seja levado ao depósito “para que haja mantimento em minha casa”, mantimento significa mantimento. O contexto envolve produtos destinados ao sistema religioso israelita. Transformar “casa do tesouro” em tesouraria denominacional moderna pode constituir uma interpretação teológica posterior, mas não é uma equivalência que Malaquias estabeleça.
Há ainda um problema maior. Se Malaquias 3:9 é aplicado literalmente aos cristãos como legislação vigente, também precisamos explicar a maldição da aliança anunciada no mesmo versículo. Não é metodologicamente coerente retirar do sistema israelita a obrigação, a acusação de roubo e a maldição; transferi-las ao cristão; substituir levitas por ministros denominacionais e depósitos do Templo por tesourarias administrativas; e deixar para trás os demais elementos do sistema que dão sentido ao texto. Ou demonstramos no Novo Testamento que essa transferência foi feita, ou estamos fazendo nós mesmos uma transferência que os apóstolos não fizeram.
É AQUI QUE “DEVOLVER” SE TORNA MUITO MAIS FORTE QUE “PAGAR”
Agora podemos perceber por que a preferência adventista pelo verbo “devolver” é teologicamente tão importante. Quando Malaquias é transportado diretamente para o cristão moderno, forma-se uma cadeia de raciocínio extremamente poderosa: o dízimo pertence a Deus; a Igreja foi autorizada a recebê-lo; portanto, quem não o entrega retém propriedade de Deus; e quem retém propriedade de Deus rouba a Deus. O verbo “devolver” deixa de ser simples escolha vocabular e passa a funcionar como uma peça fundamental dessa construção.
Por isso, não basta perguntar se Malaquias chama a retenção do dízimo de roubo. Evidentemente chama, dentro do contexto ao qual se dirige. A pergunta decisiva é outra: onde o Novo Testamento transfere para o cristão e para a organização eclesiástica moderna a relação jurídica e religiosa que tornaria possível repetir essa acusação? É essa ponte que precisa ser encontrada.
“Pagar” pressupõe uma dívida. “Devolver” pressupõe propriedade. Antes de discutir a dívida, portanto, é preciso provar de quem são os dez por cento. E, mesmo que se demonstrasse que pertencem a Deus, ainda restaria demonstrar quem recebeu de Deus autoridade para recolhê-los.
“JESUS MANDOU DAR O DÍZIMO”
Mateus 23:23 parece inicialmente resolver a questão. Jesus repreende escribas e fariseus porque dizimavam hortelã, endro e cominho enquanto negligenciavam justiça, misericórdia e fé, e afirma que deveriam praticar estas coisas sem omitir aquelas. Portanto, argumenta-se, Cristo confirmou expressamente o dízimo.
Sim: Jesus falou a judeus que viviam sob o sistema vigente de Israel antes de sua morte. Isso precisa ser levado a sério. O mesmo Jesus mandou um homem curado apresentar-se ao sacerdote e oferecer aquilo que Moisés determinara (Mt 8:4). O fato de Jesus reconhecer obrigações vigentes dentro da ordem mosaica antes da cruz não significa automaticamente que cada uma delas tenha sido transformada em obrigação da comunidade cristã posterior.
Há um detalhe que frequentemente passa despercebido: os objetos dizimados em Mateus 23:23 são novamente produtos da terra — hortelã, endro e cominho. O versículo não mostra Jesus recebendo dinheiro dos discípulos nem ordenando que eles entreguem dez por cento de sua renda ao grupo apostólico. Muito menos estabelece uma tesouraria cristã destinada a receber compulsoriamente a décima parte dos rendimentos de cada convertido.
Se Mateus 23:23 deve ser usado para estabelecer uma lei cristã pós-ressurreição, precisamos demonstrar isso a partir do ensino apostólico posterior. Caso contrário, estamos tomando uma declaração dirigida a pessoas submetidas a uma ordem religiosa ainda existente e transportando apenas uma parte dela para outro sistema.
ATOS 15: COMO OS APÓSTOLOS “ESQUECERAM” DE COBRAR OS 10%?
Se existe um capítulo do Novo Testamento no qual esperaríamos encontrar a obrigação cristã do dízimo claramente estabelecida, esse capítulo não é Malaquias 3. É Atos 15. A razão é simples: ali a Igreja apostólica precisou enfrentar diretamente a questão das exigências que seriam colocadas sobre os convertidos gentios. Homens provenientes da Judeia ensinavam aos irmãos que precisavam submeter-se a determinadas exigências relacionadas à lei de Moisés. A controvérsia tornou-se suficientemente grave para levar Paulo e Barnabé a Jerusalém, onde apóstolos e anciãos se reuniram.
Perceba a importância histórica daquele momento. O evangelho estava atravessando definitivamente as fronteiras de Israel. Pessoas que não haviam crescido dentro do sistema judaico estavam entrando na comunidade cristã. Elas precisavam saber quais obrigações seriam colocadas sobre elas. Se existisse uma determinação divina segundo a qual todo seguidor de Cristo deveria entregar obrigatoriamente dez por cento de seus rendimentos, aquele era um momento extraordinariamente apropriado para explicá-la. Não estamos diante de uma conversa de Jesus com fariseus antes da cruz. Estamos diante dos apóstolos, depois da ressurreição, deliberando sobre aquilo que deveria ou não ser imposto aos convertidos gentios.
Pedro fala. Paulo e Barnabé relatam aquilo que Deus realizara entre os gentios. Tiago apresenta sua conclusão. A assembleia finalmente redige uma carta destinada às comunidades. E nela aparece uma declaração extraordinária: “Pareceu bem ao Espírito Santo e a nós não vos impor maior encargo além destas coisas necessárias” (At 15:28). Em seguida são enumeradas as determinações.
O dízimo não aparece.
Esse silêncio é relevante não porque todo silêncio bíblico prove automaticamente a inexistência de uma obrigação, mas porque estamos diante de uma controvérsia precisamente sobre aquilo que seria exigido dos convertidos gentios. Se entregar dez por cento fosse uma obrigação divina permanente, independente do sistema levítico e vinculante aos novos cristãos, seria difícil imaginar ocasião mais apropriada para ensiná-la.
Os apóstolos poderiam ter escrito que a circuncisão não seria exigida, mas que o dízimo continuava pertencendo ao Senhor. Poderiam ter determinado que, assim como Israel sustentava os levitas, os cristãos sustentariam seus ministros mediante a décima parte de seus rendimentos. Poderiam ter explicado quem receberia esse dinheiro e como ele deveria ser administrado. Não fizeram nada disso.
Mais significativo ainda é perceber que dinheiro não era assunto desconhecido da Igreja apostólica. Atos já havia narrado ofertas, venda voluntária de propriedades, distribuição aos necessitados e administração comunitária de recursos. Posteriormente, as cartas apostólicas discutiriam sustento ministerial, assistência às viúvas, ajuda aos pobres e grandes coletas entre as igrejas. Portanto, não podemos explicar a ausência dizendo que os apóstolos simplesmente não se preocupavam com questões financeiras. Eles se preocupavam. O que não encontramos é a transformação do dízimo israelita numa taxa cristã obrigatória de dez por cento.
Isso cria uma dificuldade séria para qualquer sistema moderno que apresente o dízimo como obrigação universal e permanente. Se sua retenção fosse equivalente a roubar o próprio Deus, por que os apóstolos não advertiram os gentios? Se dez por cento de tudo aquilo que recebessem já pertencessem a Deus, por que a carta não informou isso? Se a Igreja havia herdado o direito dos levitas de receber os dízimos, por que nenhum dos apóstolos explicou essa transferência justamente quando estavam discutindo obrigações relacionadas à lei?
Atos 15, sozinho, não precisa carregar todo o peso da argumentação. Mas quem sustenta a obrigatoriedade cristã do dízimo precisa explicar sua ausência dentro do conjunto das evidências. Não somos nós que precisamos encontrar um versículo abolindo uma obrigação cristã que ainda não foi demonstrada. Quem afirma que Deus exige dez por cento dos cristãos é que precisa mostrar onde essa obrigação foi estabelecida para eles.
HEBREUS 7: QUANDO O TEXTO USADO PARA SALVAR O DÍZIMO MUDA O SACERDÓCIO
Se Atos 15 apresenta um silêncio desconfortável para a tese do dízimo cristão, Hebreus 7 talvez seja o texto que mais frequentemente parece oferecer uma saída. O raciocínio é conhecido: Abraão entregou o dízimo a Melquisedeque antes da existência de Levi; Cristo é sacerdote segundo a ordem de Melquisedeque; portanto, o dízimo não pertence exclusivamente ao sistema levítico e deve continuar sendo entregue na era cristã. À primeira vista, o argumento parece elegante. O problema começa quando lemos não apenas as palavras “Abraão”, “Melquisedeque” e “dízimo”, mas o argumento inteiro do capítulo.
Hebreus 7 realmente menciona repetidamente o dízimo. O autor recorda que Abraão entregou a Melquisedeque a décima parte dos despojos e observa que, segundo a lei, os descendentes de Levi que recebiam o sacerdócio tinham mandamento para recolher dízimos do povo (Hb 7:5). Essa informação é particularmente importante. Hebreus sabe perfeitamente quem possuía mandamento para receber dízimos: os filhos de Levi ligados ao sacerdócio. O texto não diz que qualquer dirigente religioso possui automaticamente esse direito. Ele identifica uma autorização legal vinculada a um sacerdócio específico.
Depois o autor constrói seu argumento: Melquisedeque é apresentado como superior a Abraão, pois recebe dele a décima parte e o abençoa. E, de maneira argumentativa, o próprio Levi — que posteriormente receberia dízimos — teria entregado dízimo por meio de Abraão, porque ainda estava nos lombos de seu ancestral. O objetivo dessa construção não é estabelecer uma tabela financeira para a Igreja. É demonstrar a superioridade do sacerdócio representado por Melquisedeque em relação ao sacerdócio levítico.
É nesse ponto que frequentemente ocorre um salto extraordinário. O intérprete lê que Abraão deu o dízimo a Melquisedeque e acrescenta mentalmente uma frase que Hebreus jamais escreveu: “Portanto, assim como Abraão deu o dízimo a Melquisedeque, os cristãos devem entregar dez por cento de sua renda à Igreja, que os entrega a Cristo.” Essa conclusão não está em Hebreus 7. O capítulo não manda nenhum cristão dizimar. Não determina um percentual para as igrejas. Não identifica os ministros cristãos como novos recebedores legais do dízimo. Não estabelece uma tesouraria sucessora dos levitas. Não informa sequer um procedimento pelo qual aquilo que supostamente seria entregue a Cristo deveria chegar a uma organização.
Há mais. Quando chegamos ao versículo 12, o próprio autor declara: “Pois, mudando-se o sacerdócio, necessariamente se faz também mudança da lei.” O contexto relaciona diretamente sacerdócio e legislação. Se o sacerdócio levítico foi substituído e a legislação ligada a ele sofreu mudança, surge uma pergunta inevitável: por que deveríamos retirar justamente a obrigação que sustentava economicamente aquele sacerdócio, preservá-la intacta e transferi-la para uma classe ministerial que o próprio texto jamais identifica como sucessora levítica para fins de arrecadação?
Hebreus não faz essa operação. Ela precisa ser feita pelo intérprete.
O contraste torna-se ainda mais forte quando observamos a direção do capítulo. O autor não está tentando demonstrar continuidade institucional entre Levi e o ministério cristão. Está demonstrando justamente que surgiu outro sacerdócio, fundamentado de maneira diferente. A insuficiência do sistema anterior conduz à apresentação de uma esperança superior e de um sacerdócio superior. Portanto, utilizar Hebreus 7 simplesmente para retirar o dízimo do sistema levítico e entregá-lo à administração eclesiástica moderna corre o risco de utilizar o capítulo na direção oposta àquela em que seu argumento caminha.
MAS CRISTO É SACERDOTE SEGUNDO A ORDEM DE MELQUISEDEQUE; ENTÃO O DÍZIMO NÃO SERIA DELE?
Mesmo que alguém formule o argumento dessa maneira, ainda falta demonstrar a conclusão institucional. Admitamos, para fins de raciocínio, que alguém diga: “Se Abraão entregou o décimo a Melquisedeque e Cristo exerce sacerdócio segundo a ordem de Melquisedeque, então devemos entregar o dízimo a Cristo.” Surge imediatamente outra pergunta: onde Cristo mandou entregar esse dinheiro a uma denominação?
Esse passo não pode ser considerado automático. Cristo é nosso sumo sacerdote, mas nenhum presidente de Associação se torna por isso representante financeiro do sacerdócio de Melquisedeque. Uma denominação não se transforma em Melquisedeque por possuir uma tesouraria. Uma administração eclesiástica não se torna destinatária de Gênesis 14 simplesmente porque afirma administrar a obra de Deus.
Se a tese é que o dízimo agora pertence a Cristo, seria necessário mostrar no Novo Testamento como Cristo determinou que essa propriedade fosse administrada. Quem deveria recebê-la? Os apóstolos? Os anciãos locais? Os evangelistas? Os pobres? As viúvas? A igreja de Jerusalém? Cada congregação? Uma administração regional? Uma sede mundial? Hebreus não responde porque Hebreus não está instituindo um sistema financeiro.
E aqui surge uma diferença fundamental entre aquilo que o texto diz e aquilo que posteriormente foi construído sobre ele. Hebreus afirma que Abraão entregou o décimo a Melquisedeque. Hebreus afirma que os levitas possuíam mandamento para receber dízimos. Hebreus afirma que o sacerdócio mudou e que essa mudança implica mudança da legislação correspondente. O que Hebreus não afirma é que os administradores da Igreja herdaram o mandamento levítico de receber dez por cento da renda dos cristãos.
O SILÊNCIO MAIS BARULHENTO DO NOVO TESTAMENTO
Agora chegamos ao teste decisivo. Depois da ressurreição, milhares de pessoas entram na comunidade cristã. Judeus e gentios precisam aprender como viver. Surgem problemas financeiros. Missionários precisam ser sustentados. Pobres precisam ser alimentados. Viúvas precisam de assistência. Igrejas enviam recursos umas às outras. Paulo organiza grandes coletas. Discute detalhadamente dinheiro, sustento ministerial, generosidade e assistência aos necessitados. Esse seria o lugar perfeito para ordenar o dízimo.
Mas a ordem não aparece. E isso precisa ser observado com precisão: não faltam textos sobre dinheiro. Falta justamente o texto que o sistema moderno precisaria possuir — um mandamento apostólico estabelecendo que todo cristão deve entregar dez por cento de sua renda a uma estrutura eclesiástica. Os apóstolos ensinam generosidade, sustento de obreiros, socorro aos pobres, assistência às viúvas e responsabilidade comunitária. O que não encontramos é a recriação do sistema levítico sob nova administração.
PAULO ENSINA A SUSTENTAR QUEM PREGA — MAS NÃO ESTABELECE 10%
Isso não significa que o Novo Testamento ensine que ministros devam viver sem sustento. Paulo argumenta explicitamente em 1 Coríntios 9 que quem trabalha na proclamação pode receber sustento dessa atividade. Utiliza exemplos do soldado, agricultor e pastor, menciona aqueles que serviam no Templo e conclui que o Senhor determinou que os que anunciam o evangelho vivam do evangelho (1Co 9:14).
Mas observe aquilo que Paulo poderia ter escrito e não escreveu. Ele não diz: “Assim como os levitas recebiam os dízimos, os ministros cristãos agora recebem os dízimos.” Se essa sucessão financeira existisse, uma frase resolveria grande parte da controvérsia. Paulo conhecia perfeitamente o sistema levítico. Mesmo assim, argumenta a favor do direito ao sustento sem estabelecer uma taxa universal de dez por cento.
Essa distinção é fundamental: sustentar quem trabalha no evangelho não é a mesma coisa que estabelecer uma lei de dízimo. Demonstrar biblicamente a primeira proposição não demonstra automaticamente a segunda.
E QUANDO PAULO FINALMENTE DIZ QUANTO O CRISTÃO DEVE DAR?
Em 2 Coríntios 8 e 9 encontramos uma das exposições mais extensas do Novo Testamento sobre contribuição cristã. A ocasião envolve uma coleta para necessitados. Se existisse uma regra universal determinando dez por cento, Paulo poderia simplesmente lembrá-la. Em vez disso, sua linguagem caminha em outra direção: disposição, proporcionalidade, generosidade, capacidade e decisão pessoal.
A formulação de 2 Coríntios 9:7 é particularmente importante: cada um deve contribuir segundo aquilo que decidiu em seu coração, não com tristeza nem por constrangimento. Isso não significa que Paulo esteja escrevendo um tratado contra o dízimo, e não precisamos fazê-lo dizer aquilo que não disse. O ponto é justamente mais simples e mais sólido: quando Paulo instrui cristãos sobre contribuição, ele não fixa dez por cento e não apresenta aquela contribuição como cobrança compulsória.
Isso tampouco significa que o Novo Testamento promova avareza. É exatamente o contrário. A generosidade cristã pode ultrapassar largamente dez por cento. Em determinados casos, os primeiros discípulos venderam propriedades para atender necessidades concretas. Paulo elogia pessoas que deram além daquilo que parecia sua capacidade. O cristianismo apostólico não substitui generosidade por mesquinharia; apresenta uma ética de liberalidade voluntária, responsável e voltada às necessidades reais sem estabelecer nesse contexto uma tarifa religiosa fixa.
E O “DÍZIMO É DO SENHOR”?
Levítico 27:30 declara santo ao Senhor o dízimo da terra, da semente e do fruto. Mas novamente precisamos permitir que o próprio texto defina aquilo de que está falando. O capítulo pertence à legislação de Israel e menciona especificamente produto da terra; os versículos seguintes tratam também do rebanho. Declarar que determinado bem era santo ao Senhor dentro daquela ordem não estabelece automaticamente que dez por cento do salário de um empregado, do faturamento de um comerciante ou da aposentadoria de um cristão brasileiro pertençam juridicamente a uma tesouraria denominacional.
Se alguém afirma que a regra de Levítico permanece literalmente obrigatória, precisa explicar quais partes permanecem, quais foram modificadas e, sobretudo, quem recebeu autoridade para modificá-las. O sistema bíblico tinha levitas porque eles não possuíam herança territorial; tinha sacerdotes descendentes de Arão; tinha santuário; tinha depósitos; tinha produtos agrícolas; tinha festas e tinha disposições específicas para estrangeiros, órfãos e viúvas. A versão moderna preserva o percentual e redefine praticamente todo o restante. Isso não é simplesmente “seguir a Bíblia”. É interpretar e reconstruir um sistema. E toda reconstrução precisa justificar suas mudanças.
O DÍZIMO BÍBLICO NÃO ERA SIMPLESMENTE “10% DO SALÁRIO”
Deuteronômio torna esse ponto especialmente difícil de ignorar. O israelita podia participar do consumo do dízimo em determinadas circunstâncias; o dinheiro obtido pela conversão dos produtos podia ser utilizado para comprar alimento e bebida para uma celebração diante de Deus; e o dízimo do terceiro ano deveria alimentar levitas, estrangeiros, órfãos e viúvas. Isso não se parece simplesmente com a fórmula moderna: “recebeu R$ 5.000; R$ 500 pertencem automaticamente à organização”. Pode-se construir uma teologia que chegue a essa fórmula, mas não se pode apresentá-la como simples reprodução literal de Deuteronômio. Deuteronômio não descreve o sistema financeiro denominacional moderno.
E A GENEROSIDADE CRISTÃ?
Rejeitar a cobrança obrigatória de dez por cento não significa ensinar que o cristão não deve contribuir. Essa seria uma falsa alternativa. O Novo Testamento fala abundantemente de compartilhar, socorrer pobres, sustentar trabalhadores, hospedar irmãos, cuidar de viúvas, ajudar necessitados e financiar a proclamação do evangelho. O ponto é justamente que contribuição cristã e dízimo levítico não são expressões necessariamente equivalentes.
O cristão pode contribuir com dez por cento, menos ou muito mais, conforme suas possibilidades, consciência e as necessidades que pretende atender. Pode sustentar diretamente uma família necessitada, ajudar alguém que perdeu o emprego, financiar um missionário, comprar alimento para uma viúva, contribuir para sua comunidade, hospedar alguém ou entregar recursos para uma emergência. Nenhuma dessas formas de generosidade precisa ser diminuída simplesmente porque não passou por uma tesouraria central.
Essa liberdade, evidentemente, é muito mais difícil de administrar institucionalmente. Uma estrutura não consegue construir seu orçamento com a mesma previsibilidade quando cada membro decide conscientemente quanto, quando e para quem dará. Um percentual fixo, revestido da afirmação de que pertence previamente a Deus, oferece estabilidade muito maior. Mas utilidade administrativa não é prova bíblica.
“MAS SEM DÍZIMO, COMO A IGREJA SOBREVIVERIA?”
Essa pergunta pode ser perfeitamente legítima do ponto de vista administrativo, mas não resolve a questão bíblica. Uma organização pode precisar de determinado sistema para sobreviver; isso não demonstra que Deus tenha ordenado esse sistema. Se uma estrutura se tornou tão grande que depende permanentemente de uma contribuição fixa de milhões de pessoas, podemos discutir orçamento, administração, prioridades e sustentabilidade. O que não podemos fazer é transformar a necessidade financeira da estrutura em exegese.
E aqui este artigo encontra diretamente nossa investigação anterior. Há membros que permanecem formalmente dentro da Igreja enquanto deixam de entregar dízimos. A instituição pode interpretar esse comportamento como sinal de afastamento religioso, e em muitos casos talvez realmente seja. Mas essa não é a única possibilidade. Há também pessoas que podem continuar crendo em Deus, lendo a Bíblia, orando e participando da comunidade enquanto passam a questionar se existe realmente um mandamento bíblico que entregue à instituição dez por cento de sua renda.
É nesse ponto que a questão financeira se torna teológica. Quando alguém pergunta “onde está escrito que eu devo entregar dez por cento da minha renda a esta organização?”, responder apenas “Malaquias 3” não encerra a discussão. É justamente aí que ela começa.
O TEXTO QUE PODERIA TER RESOLVIDO TUDO — MAS NÃO EXISTE
Depois de percorrer Gênesis, Levítico, Números, Deuteronômio, Malaquias, os Evangelhos, Atos, Hebreus e as cartas apostólicas, começa a ficar evidente aquilo que falta. Não faltam textos sobre dízimo. Há muitos. Falta o texto estabelecendo o dízimo cristão obrigatório.
Seria extremamente simples. Bastaria uma frase apostólica: “Todo cristão separe a décima parte de sua renda para o sustento da Igreja.” Ou: “Assim como os levitas recebiam os dízimos, agora aqueles que ministram o evangelho devem recebê-los.” Ou ainda: “Dos gentios convertidos não exigimos circuncisão, mas devem continuar entregando ao Senhor a décima parte de tudo aquilo que recebem.” Uma única declaração desse tipo mudaria completamente a discussão.
Ela não existe.
Em seu lugar, quando Paulo trata extensamente de contribuição entre cristãos, encontramos decisão, generosidade, capacidade, necessidade e ausência de coerção. Isso não estabelece um teto de generosidade. Um cristão pode dar dez, vinte, cinquenta por cento ou, numa circunstância extraordinária, muito mais. O que não encontramos é a afirmação apostólica de que dez por cento de toda renda já não pertencem ao cristão e que determinada instituição possui direito divino de reclamá-los.
O ÔNUS DA PROVA FOI COLOCADO SOBRE A PESSOA ERRADA
Talvez seja aqui que séculos de tradição tenham produzido uma das inversões mais eficientes da discussão. Quando alguém pergunta se o dízimo continua obrigatório, frequentemente recebe outra pergunta: “Onde a Bíblia aboliu o dízimo?” Mas essa pergunta já pressupõe aquilo que deveria demonstrar. Primeiro seria necessário provar que o sistema de dízimos de Israel foi imposto à Igreja; somente depois faria sentido exigir um texto que abolisse essa obrigação cristã.
Ninguém precisa encontrar um versículo dizendo “os cristãos não entregarão dízimos aos levitas” para perceber que o sacerdócio levítico não governa a Igreja. Da mesma forma, ninguém precisa encontrar uma frase dizendo “Associações, Uniões e Conferências Gerais não receberão dízimos”, porque essas estruturas sequer existiam no mundo apostólico. Quem reivindica para uma organização moderna um direito financeiro apresentado como pertencente a Deus é quem precisa demonstrar biblicamente a transferência desse direito.
Esse é o verdadeiro ônus da prova. É preciso mostrar onde os apóstolos transferiram o direito dos levitas para os ministros cristãos; onde transformaram os produtos vinculados ao sistema israelita em dez por cento de todo salário moderno; onde identificaram a “casa do tesouro” com uma tesouraria denominacional; onde disseram aos gentios que a décima parte de sua renda pertencia a Deus; onde Paulo, ao organizar suas coletas, cobrou os dez por cento; e onde a retenção dessa porcentagem é chamada de roubo a Deus depois da cruz. Não basta demonstrar que havia dízimo em Israel. É preciso demonstrar que existe dízimo obrigatório na Igreja.
ATOS 15 E HEBREUS 7, LIDOS JUNTOS
É quando colocamos esses dois capítulos lado a lado que a dificuldade se torna ainda maior. Atos 15 mostra os apóstolos deliberando sobre exigências aos gentios e não lhes impondo o dízimo. Hebreus 7 recorda que a lei concedia aos levitas o mandamento de receber dízimos, mas desenvolve um argumento sobre a mudança do sacerdócio e a consequente mudança da legislação relacionada a ele. Um texto não transfere o dízimo aos gentios; o outro não transfere o direito levítico de recebê-lo aos ministros cristãos.
E então chegamos a Paulo. Quando finalmente encontramos instruções diretas sobre contribuição cristã, o percentual não aparece. O levita não aparece como destinatário cristão. O depósito do Templo não é transformado em tesouraria denominacional. A ameaça de Malaquias não é repetida contra os membros das igrejas gentílicas. Em seu lugar aparece o coração do doador, a generosidade, a necessidade e a ausência de compulsão.
Isso não é ausência de generosidade. É uma lógica diferente. O cristão pode entregar muito mais do que dez por cento quando existe amor, necessidade e disposição. Mas não encontramos autorização apostólica para colocar Deus diante do membro como credor de uma porcentagem fixa e a instituição diante dele como cobradora autorizada dessa dívida.
NÃO, VOCÊ NÃO PRECISA ESCOLHER ENTRE “PAGAR” E “DEVOLVER”
Talvez uma das maiores vitórias retóricas do sistema tenha sido convencer o membro de que a discussão está entre dois verbos. O cristão diz “pagar”; o pregador o corrige: “Não se paga dízimo; devolve-se”. E, enquanto todos discutem qual verbo é mais apropriado, permanece intocada a pergunta que deveria vir antes dos dois: o Novo Testamento ordena isso?
E agora podemos formular a diferença com toda precisão. “Pagar” e “devolver” não são sinônimos. Quem paga reconhece uma dívida. Quem devolve reconhece propriedade alheia. Por isso, “devolver” é uma afirmação teologicamente ainda mais forte e exige demonstração ainda maior. Antes de corrigir o membro que diz “pagar”, é preciso provar o “devolver”. Antes de dizer que ele está devolvendo, é preciso demonstrar que aquilo nunca lhe pertenceu. Antes de afirmar que não lhe pertence, é preciso mostrar que a legislação que estabelecia o dízimo para Israel permanece aplicável ao cristão. E, mesmo depois disso, ainda seria necessário demonstrar que determinada instituição recebeu autoridade divina para receber essa propriedade.
Israel tinha dízimos. Os levitas receberam dízimos. Deuteronômio regulamentou dízimos. Malaquias repreendeu uma nação por negligenciar dízimos. Abraão entregou a décima parte de despojos a Melquisedeque. Jacó prometeu uma décima parte. Jesus repreendeu fariseus que dizimavam até ervas. Hebreus utilizou o dízimo de Abraão num argumento sobre a superioridade do sacerdócio representado por Melquisedeque. Nada disso, isoladamente ou simplesmente colocado em sequência, produz uma ordem apostólica para que o cristão entregue dez por cento de sua renda à tesouraria de uma denominação.
ENTÃO, AFINAL: PAGAR OU DEVOLVER?
Nenhum dos dois. Não no sentido de uma obrigação cristã de entregar compulsoriamente dez por cento da renda a uma organização religiosa simplesmente porque essa organização reivindica para si a continuidade do sistema bíblico de dízimos. Quem afirma possuir esse direito carrega o ônus de mostrar onde Cristo ou seus apóstolos transferiram dos levitas para a estrutura eclesiástica cristã o direito de receber essa parcela.
O cristão é chamado à generosidade. É chamado a socorrer quem sofre, compartilhar seus bens, sustentar aqueles que trabalham legitimamente pelo evangelho e não fechar os olhos diante do irmão necessitado. Pode entregar muito mais do que dez por cento se sua consciência, suas possibilidades e a necessidade alheia assim o conduzirem. Mas isso é profundamente diferente de ouvir que determinada porcentagem de sua renda já pertence a Deus, deve necessariamente ser entregue a uma instituição e, se for retida, transforma o fiel em ladrão de Deus.
Malaquias falou a uma nação dentro de um sistema que possuía levitas, Templo e depósitos. Deuteronômio falou de cereal, vinho, azeite, animais, levitas, estrangeiros, órfãos e viúvas. Números atribuiu dízimos aos levitas porque não receberam herança como as demais tribos. Atos 15 não impôs o dízimo aos gentios. Hebreus 7 não transferiu o direito levítico de recebê-lo aos ministros cristãos. Paulo, quando tratou diretamente da contribuição dos crentes, não estabeleceu dez por cento como taxa religiosa da Igreja.
Por isso, antes de alguém perguntar ao membro se ele está “pagando” ou “devolvendo” fielmente o dízimo, existe uma pergunta biblicamente anterior e muito mais importante:
Quem disse que Deus entregou à sua organização o direito de receber esses dez por cento?
Não responda com o orçamento, com a tradição ou dizendo que “sempre fizemos assim”. Mostre onde os apóstolos disseram aos gentios que dez por cento de sua renda pertenciam à Igreja; mostre onde o direito dos levitas foi transferido à administração cristã; mostre onde Paulo fixou a porcentagem; mostre onde uma tesouraria denominacional tornou-se a “casa do tesouro” de Malaquias.
Mostre o texto.
Porque, se o texto não existe, trocar a palavra “pagar” pela palavra “devolver” não resolve o problema. Pelo contrário: torna a afirmação ainda mais grave. “Pagar” pressupõe uma dívida; “devolver” pressupõe que a propriedade já tenha dono. E, quando se acrescenta que a retenção dessa propriedade constitui roubo contra Deus, a instituição não está mais apenas pedindo contribuição. Está reivindicando para si o direito de receber aquilo que afirma pertencer ao próprio Deus.
É exatamente esse direito que precisa ser provado pela Bíblia. E, até que apareça o texto apostólico que faça essa transferência, a resposta à pergunta do título continua sendo a mesma: a Bíblia manda o cristão pagar o dízimo hoje? Não. Manda devolvê-lo a uma organização religiosa? Também não. O que ela manda é outra coisa: ser generoso, socorrer, compartilhar e sustentar aqueles que necessitam. Isso, sim, está escrito.





