APARTIDARISMO FAKE — No 2º turno entre Flávio Bolsonaro e Lula, a IASD volta a vestir a máscara da neutralidade

A face camaleônica de uma Igreja que proíbe a base de fazer política, mas não abre mão de conversar com o poder

O problema é que, quando juntamos o documento oficial de 2026, a Revista Adventista, o policiamento de pastores e comunicadores e a liberdade institucional para cultivar relações com governos, surge uma pergunta inevitável: estamos realmente diante de apartidarismo ou de uma política cuidadosamente administrada de cima para baixo, cujo efeito prático tem sido muito mais confortável para a esquerda do que para a direita evangélica?

O primeiro turno terminou e agora já não estamos discutindo cenários hipotéticos. O Tribunal Superior Eleitoral confirmou Flávio Bolsonaro, do PL, com 47,03% dos votos válidos, e Luiz Inácio Lula da Silva, do PT, com 45,16%, separados por apenas 1,87 ponto percentual e convocados novamente às urnas em 25 de outubro. Confira a informação no Tribunal Superior Eleitoral. É justamente nesse momento, quando cada gesto de liderança religiosa passa a ter peso multiplicado, que a Igreja Adventista do Sétimo Dia reaparece diante de nós com sua conhecida máscara de neutralidade institucional. Não apoia oficialmente ninguém, não autoriza pastores a apoiarem ninguém, não quer seus comunicadores demonstrando preferência, não quer seus templos contaminados pelo debate eleitoral, não quer seus funcionários expondo posições político-partidárias e recomenda até mesmo contenção nas redes sociais.

Na superfície, parece uma organização que decidiu manter-se muito longe da política. Quando se lê o documento inteiro, porém, descobre-se que essa distância não existe. O que existe é outra coisa: uma estrutura que restringe severamente a ação política individual de quem fala sob seu guarda-chuva enquanto preserva para a própria máquina administrativa o direito de relacionar-se com autoridades e instâncias de poder. É precisamente nessa diferença que localizamos aquilo que já chamamos de apartidarismo fake do Sétimo Dia.

O documento oficial “Os Adventistas e a Política”, votado pela Comissão Diretiva Plenária da Divisão Sul-Americana em maio deste ano, não poderia ser mais revelador. Ele afirma que a denominação pretende cumprir seus deveres institucionais e individuais “desenvolvendo relacionamentos saudáveis com as instâncias de poder”. Em seguida, estabelece uma extensa disciplina para quem está abaixo na estrutura: pastores, obreiros, funcionários, jornalistas, apresentadores, editores, assessores de comunicação e outros servidores não devem transformar púlpitos, instituições, rádios, televisão, publicações ou redes sociais em instrumentos de promoção político-partidária; aqueles que possuem vínculo religioso, missionário ou laboral com a organização são orientados a não postar nem encaminhar opiniões partidárias ou opções eleitorais, especialmente durante as eleições.

Em outras palavras, a boca do pastor é regulada, o perfil do comunicador é regulado, o templo é regulado, a escola é regulada, a emissora é regulada, o funcionário é regulado. Mas a instituição que regula todos eles declara, no mesmo documento, que continuará desenvolvendo relações com o poder. Se isso é apartidarismo, trata-se de um apartidarismo extraordinariamente seletivo: a política é perigosa quando sobe da base; torna-se “relacionamento institucional” quando desce da cúpula.

É aí que entra a face camaleônica. O discurso muda de cor conforme o ambiente em que precisa sobreviver. Diante do membro comum, fala-se em separação entre Igreja e Estado, cidadania celestial, preservação da unidade e perigo da polarização. Diante do Estado, a mesma denominação não se apresenta como eremita profética, isolada das engrenagens públicas; apresenta-se como instituição socialmente relevante, administradora de hospitais, escolas, projetos assistenciais, meios de comunicação e organizações que inevitavelmente dependem de legislação, concessões, convênios, autorizações, emendas, interlocução burocrática e relacionamento governamental.

A pergunta editorial é simples e incômoda: por que vender ao povo a imagem de uma igreja “fora da política” quando o próprio documento oficial admite relações permanentes com as instâncias de poder? O problema não é a existência da relação política; é a tentativa de monopolizá-la administrativamente enquanto a neutralidade é exigida como disciplina de quem está embaixo.

Stanley Arco, presidente da Igreja Adventista para a América do Sul, reforçou essa arquitetura em artigo publicado na Revista Adventista de agosto sob o título “O lugar da igreja”. Sua tese central é que a neutralidade partidária preserva a liberdade para anunciar Cristo a todos. Ele repete que atividades político-eleitorais não são permitidas em templos, escolas, universidades, escritórios administrativos e veículos de comunicação da Igreja, e chega ao ponto de dizer que nenhum adventista está autorizado a falar em nome da denominação sobre questões políticas nem a manifestar preferências ideológicas.

O vocabulário é espiritual, prudente, quase irrefutável quando lido isoladamente. O problema começa quando o colocamos ao lado da realidade institucional. Se a direção conversa com autoridades, se departamentos especializados fazem relações públicas e liberdade religiosa, se organizações denominacionais buscam interlocução com governos, se instituições adventistas dependem do Estado para uma série de operações legais, administrativas e financeiras, então não estamos diante de ausência de política. Estamos diante de política profissionalizada, centralizada em quem recebeu autorização para fazê-la, enquanto o membro, o pastor e o comunicador são ensinados a tratar qualquer manifestação mais explícita como ameaça à missão.

A Revista Adventista completa o quadro. Em “Acima da polarização”, Wellington Barbosa sustenta que a unidade da Igreja está acima das divisões políticas e afirma que o voto deve refletir valores do reino. Felippe Amorim, em texto publicado no portal Notícias Adventistas sob o título “Como o cristão deve se comportar em relação ao voto?”, também chama atenção para os conflitos produzidos pela política entre cristãos e defende prudência diante do voto. Jorge Rampogna, diretor de Comunicação da Divisão Sul-Americana, tratou diretamente da presença adventista no espaço público em “Presença pública e a missão de proclamar”.

É uma cadeia muito bem construída: a administração estabelece a regra, o presidente lhe oferece fundamentação institucional, a revista lhe concede verniz pastoral e os comunicadores traduzem a disciplina para o comportamento cotidiano. O resultado é uma máquina religiosa inteira ensinando sua própria força de trabalho a falar cada vez menos sobre política enquanto a própria instituição permanece apta a falar com políticos.

É nesse ponto que a expressão “opção pela esquerda” precisa ser entendida naquilo que nossa investigação vem apontando: não como uma resolução denominacional declarando oficialmente preferência partidária, mas como uma assimetria política concreta produzida pela própria estrutura. Quando a direção cala um ambiente evangélico em que a direita possui forte capacidade de mobilização, o silêncio não cai no vazio. Ele tem consequência. Neutralizar pastores, comunicadores e estruturas religiosas num campo social em que o conservadorismo eleitoral possui grande presença significa retirar do jogo uma das forças que poderiam operar contra a esquerda.

Ao mesmo tempo, conservar intactas as pontes institucionais da denominação com governos, autoridades e estruturas públicas permite que a organização continue dialogando com quem estiver ocupando o poder. É uma fórmula extraordinariamente eficiente: a base perde voz; a burocracia mantém acesso. O membro é chamado à “neutralidade”; o administrador pratica “relacionamento institucional”. A primeira é apresentada como virtude espiritual; o segundo, como necessidade administrativa. Eis o camaleão em seu habitat natural.

Nossa publicação de 18 de setembro já chamou atenção justamente para essa engenharia. No artigo “Jeitinho Adventista: Apartidarismo Fake do Sétimo Dia favorece a reeleição de Lula”, mostramos que a política institucional de 2026 merece ser comparada com as formulações anteriores, sobretudo para verificar aquilo que foi acrescentado, retirado ou reformulado. Isso revela que o chamado apartidarismo adventista não deve ser tratado como uma cápsula administrativa intocável.

É uma política denominacional que pode ser recalibrada, ganhar cláusulas, perder cláusulas e estabelecer novos limites segundo decisões da própria organização. Quando uma regra muda, portanto, é legítimo perguntar quem ganha espaço, quem o perde e que efeito a mudança produz no ambiente político em que a Igreja está inserida.

E agora chegamos ao segundo turno de 2026. Desde a confirmação da nova disputa presidencial, voltamos às fontes públicas da denominação, à Revista Adventista, aos portais oficiais e ao YouTube. O que aparece com força é justamente a continuidade do discurso de neutralidade, unidade e contenção da manifestação partidária.

A estrutura não precisa mandar votar em um candidato para produzir efeito político. Basta determinar quem pode utilizar o capital simbólico da Igreja, quem não pode utilizá-lo e em quais circunstâncias. Ao mesmo tempo, a organização continua plenamente capaz de manter suas relações institucionais com o governo atual ou com aquele que resultar das urnas. É uma tecnologia de poder muito mais sofisticada do que um santinho distribuído na porta da igreja.

O contraste torna-se ainda mais relevante numa disputa presidencial apertada. Em eleições desse tipo, nenhuma grande rede religiosa pode tratar sua própria política de comunicação como se ela operasse num vácuo social. Quando uma denominação com milhares de templos, escolas, instituições, funcionários, pastores e comunicadores estabelece que seus agentes devem evitar manifestações político-partidárias, ela altera o fluxo da informação e da mobilização dentro daquele universo.

Essa alteração pode produzir consequências distintas conforme o perfil político das pessoas submetidas à regra. Não é necessário que exista uma ordem partidária explícita para que uma decisão institucional gere consequência eleitoral. E é precisamente aí que reside a utilidade da expressão “apartidarismo fake”: ela nos obriga a abandonar a pergunta infantil — “a Igreja declarou oficialmente apoio a algum partido?” — e formular uma pergunta muito mais relevante: como as regras institucionais da Igreja redistribuem voz, silêncio, acesso e influência no ambiente político real?

A face camaleônica aparece novamente quando observamos a maneira como a denominação reivindica para si duas identidades ao mesmo tempo. Quando teme a contaminação partidária, apresenta-se como comunidade espiritual cuja missão transcende governos, candidatos e ideologias. Quando precisa negociar sua presença social, reivindica sua condição de organização robusta, representativa, institucionalmente organizada e capaz de conversar com o Estado.

A tensão surge quando esse relacionamento institucional com o poder é encoberto pela retórica simplificada de que “política não é assunto da igreja”, sobretudo quando essa mesma retórica é utilizada para disciplinar quem ocupa posições inferiores na hierarquia. A frase correta talvez fosse outra: política é assunto da Igreja, desde que feita pelas pessoas certas, nos lugares certos e sob o controle da estrutura certa.

Por isso, o segundo turno oferece uma oportunidade rara de observarmos o mecanismo funcionando em tempo real. Não precisamos esperar documentos secretos nem confissões cinematográficas. Basta acompanhar quem pode falar, quem é aconselhado a calar, quem se reúne com autoridades, quem mantém acesso institucional, quais relacionamentos permanecem depois das eleições e com que naturalidade o discurso se adapta ao vencedor.

Mudando o ocupante do poder, a máquina denominacional possui vocabulário institucional suficiente para continuar conversando com o governo. Essa capacidade de alterar o tom sem alterar a estrutura é precisamente aquilo que chamamos de face camaleônica. O poder muda de cor; a organização ajusta a pele.

O mais curioso é que tudo isso acontece numa Igreja que nasceu cultivando profunda desconfiança em relação à mistura entre religião e poder político. Os pioneiros adventistas construíram boa parte de sua identidade profética denunciando alianças entre estruturas religiosas e o Estado. Em 2026, porém, a grande questão já não parece ser simplesmente como manter distância do poder, mas como administrá-lo sem permitir que a base desorganize a política institucional.

O membro pode votar. O pastor pode votar. O funcionário pode votar. Mas a expressão pública desse voto é cercada de advertências, restrições e riscos institucionais, enquanto a corporação religiosa conserva intacta sua capacidade de relacionamento com quem governa. Essa inversão deveria incomodar qualquer adventista que ainda leve a sério a tradição profética que a denominação afirma representar.

Nós continuaremos chamando isso pelo nome que escolhemos: apartidarismo fake do Sétimo Dia. Não porque a Igreja possua formalmente um partido; não porque todos os seus dirigentes votem da mesma maneira; mas porque a palavra “apartidário” passou a desempenhar uma função publicitária muito maior do que sua realidade administrativa.

O sistema vende distância enquanto pratica interlocução; exige silêncio enquanto preserva acesso; repreende a politização individual enquanto institucionaliza seus próprios canais com o poder. E quando esse mecanismo opera num segundo turno em que esquerda e direita disputam voto a voto o comando do país, fingir que ele não produz consequências políticas seria acreditar demais no camaleão — justamente quando ele está mudando de cor diante dos nossos olhos.

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