Nova regra política da IASD em pleno ano eleitoral: Mudou para os pastores, mas não contaram aos membros

Oportunismo eleitoral? A DSA mudou a regra em maio e o artigo “Fé Sem Bandeiras” saiu em agosto na Revista Adventista como se nada houvesse acontecido.

Em pleno ano eleitoral, a Igreja Adventista na América do Sul retirou de seu documento oficial justamente as orientações sobre manifestações públicas. A explicação foi a mudança do contexto político e social. Três meses depois, porém, a Revista Adventista colocou na capa um artigo ensinando discrição política aos membros. Nenhum texto bíblico mudou, nenhuma nova declaração de Ellen G. White apareceu. Mudou a regulamentação. E isso nos obriga a perguntar se estamos diante de princípio religioso imutável ou de conveniência administrativa adaptada à conjuntura eleitoral.

UMA MUDANÇA MUITO ESPECÍFICA EM PLENO 2026

Em 4 de maio de 2026, quando o Brasil já avançava para mais uma eleição presidencial marcada pela polarização política e religiosa, a Comissão Diretiva Plenária da Divisão Sul-Americana da Igreja Adventista do Sétimo Dia aprovou uma atualização de seu documento oficial “Os adventistas e a política”. Não precisamos especular sobre qual mudança nos interessa, porque a própria comunicação oficial da denominação a destacou ao anunciar a decisão. Segundo a notícia publicada pela Igreja, as modificações privilegiaram três aspectos: reafirmaram a neutralidade partidária da Organização, reforçaram o cuidado esperado de pastores e membros diante do partidarismo político e ideológico e, no terceiro ponto, promoveram a “remoção de orientações sobre manifestações públicas, deixadas para posteriores documentos”. É esta última alteração que colocamos sob nossa lupa. A Igreja não anunciou o abandono do apartidarismo, não liberou púlpitos para candidatos e não autorizou a transformação de templos em comitês eleitorais. Fez algo muito mais específico: retirou do documento geral as orientações que regulamentavam manifestações públicas e informou que o assunto ficaria para documentos posteriores.

A REGRA DESAPARECEU; O PRINCÍPIO, SEGUNDO A DSA, CONTINUOU O MESMO

Esse detalhe é fundamental porque a própria DSA insistiu que a essência do documento permanecia. A neutralidade partidária continuava sendo apresentada como princípio da Organização, assim como a cidadania e a participação dos cristãos na vida pública. Portanto, não ocorreu uma revolução teológica dentro da sede sul-americana. O que ocorreu foi uma alteração na maneira de regulamentar o comportamento político. Uma orientação específica que anteriormente fazia parte da política denominacional deixou de constar do documento principal. A diferença pode parecer burocrática até percebermos aquilo que ela demonstra: existe uma distância entre o princípio religioso proclamado pela Igreja e as regras administrativas que dirigentes produzem para aplicá-lo em cada momento histórico. Se a essência permaneceu, como a própria DSA afirma, enquanto uma regulamentação concreta foi retirada, então essa regulamentação não pode ser confundida automaticamente com a essência. Uma coisa é o princípio que a Organização declara permanente; outra são as normas que administradores acrescentam, modificam ou retiram conforme interpretam as circunstâncias.

MAS POR QUE MUDARAM? OPORTUNISMO ELEITORAL?

Não houve nova revelação de Ellen G. White, nenhuma sessão espírita para consultá-la e, até onde os documentos permitem saber, Alberto Timm também não psicografou qualquer orientação inédita da profetisa. A Bíblia continuou a mesma. Os escritos de Ellen White continuaram os mesmos. O princípio de apartidarismo que a denominação apresenta como permanente continuou oficialmente o mesmo. O que mudou foi a regulamentação administrativa justamente em 2026. E a explicação oferecida pela própria Organização foi surpreendentemente terrena: mudou o contexto. Ao anunciar a atualização, a comunicação oficial informou que o documento anterior estava sendo revisto levando em consideração os conflitos políticos e religiosos da atualidade. Jorge Rampogna, diretor de Comunicação e Assuntos Públicos da sede sul-americana, afirmou que o contexto social e político do planeta havia se tornado ainda mais tenso e que uma equipe trabalhou para deixar o posicionamento adventista mais claro e alinhado com aquilo que atualmente se espera de uma organização religiosa responsável na América do Sul. Portanto, não foi apresentada nova exegese, nova doutrina ou nova luz profética para justificar a alteração. A própria explicação institucional remete à conjuntura.

QUANDO A CONJUNTURA MUDA E A REGRA MUDA JUNTO

É exatamente aqui que aparece nossa pergunta sobre oportunismo eleitoral. Não afirmamos possuir uma ata secreta na qual administradores tenham confessado que decidiram alterar o documento para obter alguma vantagem eleitoral; não temos esse documento. O que temos é uma cronologia que merece interpretação. Em pleno 2026, ano de eleições gerais no Brasil, a DSA revisa sua política; declara que o cenário político e religioso está mais tenso; afirma que pretende adequar seu posicionamento ao que se espera atualmente de uma organização religiosa responsável; mantém o princípio geral de neutralidade e, ao mesmo tempo, retira justamente as orientações específicas sobre manifestações públicas. Isso não demonstra sozinho oportunismo eleitoral, mas torna legítima a pergunta. Quando a conjuntura muda e uma regra política muda junto, precisamos saber quanto daquela regra era realmente princípio religioso e quanto era administração circunstancial da participação política dos membros e obreiros. Se ontem determinada restrição era apresentada como necessária para preservar a missão e hoje pode ser retirada sem que a “essência” mude, então ontem não estávamos diante da essência. Estávamos diante de uma aplicação administrativa.

NÃO MUDOU A BÍBLIA. MUDOU A ADMINISTRAÇÃO

Essa distinção parece óbvia, mas possui consequências enormes. Regulamentos denominacionais são frequentemente apresentados aos membros revestidos de vocabulário religioso: missão, unidade, prudência, testemunho, neutralidade, consciência e preservação da Igreja. Essa linguagem pode produzir a impressão de que determinada regra administrativa decorre inevitavelmente da Bíblia ou dos escritos de Ellen G. White. Mas a atualização de 2026 demonstra que a própria Organização sabe distinguir as coisas. A essência, segundo ela, permaneceu; a regulamentação mudou. Nenhum verso bíblico foi retirado das Escrituras. Nenhuma página de Ellen White foi revogada. Nenhum novo manuscrito apareceu para anunciar que aquilo que era prudente antes deixou de ser prudente agora. Administradores reuniram-se, avaliaram um cenário político mais tenso e decidiram alterar o documento. Isso se chama administração e interpretação institucional. Pode ser legítimo fazê-lo. O que não se pode fazer é transformar a regulamentação de determinada época em mandamento divino enquanto ela está em vigor e, quando a conjuntura muda, simplesmente modificá-la como se nunca tivesse sido apresentada aos membros com enorme peso religioso.

E O CALENDÁRIO NÃO PARA EM MAIO

A atualização foi votada em 4 de maio. O documento oficial atualmente disponível no portal institucional está datado de 6 de maio de 2026. Três meses depois, em agosto, quando o processo eleitoral brasileiro avançava, a Revista Adventista decidiu colocar na capa justamente o tema da participação política. O título escolhido foi “Fé sem bandeiras”. O autor, Felippe Amorim, professor da Faculdade de Teologia do Uniaene, procurou responder como o cristão deveria comportar-se em relação ao voto. A proximidade temporal é importante. Não estamos comparando um documento de 1970 com um artigo escrito meio século depois. Estamos colocando lado a lado duas manifestações denominacionais produzidas praticamente no mesmo momento histórico: em maio, a administração sul-americana altera oficialmente sua regulamentação política e retira as orientações sobre manifestações públicas; em agosto, a principal revista denominacional brasileira publica uma matéria de capa enfatizando prudência, discrição e cautela na exposição política do membro.

ENTÃO VEIO “FÉ SEM BANDEIRAS”

O ponto de partida de Felippe Amorim é perfeitamente compreensível. Ele observa que períodos eleitorais podem transformar diferenças políticas em hostilidade, romper relacionamentos familiares, dividir irmãos na igreja e fazer candidatos ou projetos humanos assumirem um lugar que não lhes pertence na experiência religiosa. O problema, escreve ele, não está no voto, mas na paixão política capaz de comprometer a comunhão e o testemunho cristão. Felippe recorre principalmente a Ellen G. White para defender uma participação eleitoral consciente e prudente e desenvolve sua argumentação no sentido de evitar que a escolha individual seja transformada em proclamação pública capaz de influenciar, constranger ou dividir outras pessoas. Não precisamos negar os perigos que ele descreve. Eles existem. Nossa pergunta é outra: por que, justamente quando a própria administração acabara de retirar do documento oficial as orientações específicas sobre manifestações públicas, a Revista Adventista decidiu transformar em matéria de capa uma teologia da discrição política dirigida ao membro?

A REGRA ESCRITA RECUOU; A PEDAGOGIA DA DISCRIÇÃO CONTINUOU

Aqui aparece uma situação muito interessante. Em maio, a regulamentação específica sobre manifestações públicas sai do documento. Em agosto, o discurso pastoral continua ensinando cautela na exteriorização política. Isso não constitui necessariamente uma contradição jurídica, porque a DSA não declarou que qualquer tipo de manifestação estava agora liberado e manteve outras restrições relacionadas ao partidarismo. Mas revela duas camadas diferentes do funcionamento institucional. Existe a norma escrita, produzida e modificada pela administração, e existe uma cultura denominacional transmitida pela revista, pelos professores, pelos pastores e pelos formadores de opinião. A primeira pode mudar formalmente enquanto a segunda continua ensinando ao membro qual comportamento é considerado mais seguro. A antiga regra específica desapareceu do documento, mas a pedagogia da contenção permanece. E isso torna ainda mais necessária a pergunta sobre quem ganha maior liberdade quando a regulamentação é flexibilizada e quem continua recebendo a recomendação de permanecer discreto.

OPORTUNISMO ELEITORAL NÃO PRECISA SIGNIFICAR APOIO A UM CANDIDATO

Quando utilizamos a expressão “oportunismo eleitoral”, não estamos necessariamente afirmando que a DSA alterou o documento para favorecer determinado candidato ou partido. O oportunismo pode assumir forma muito mais sofisticada. Pode significar conservar margem institucional para adaptar-se a um ambiente eleitoral imprevisível; retirar uma regra excessivamente rígida que poderia criar dificuldades administrativas; evitar comprometer previamente a Organização com uma proibição que depois se mostrasse inconveniente; deixar determinadas situações para análise posterior enquanto se mantém junto aos membros uma cultura geral de discrição. Essa é uma hipótese interpretativa que a cronologia nos autoriza a investigar. Afinal, a própria DSA afirma que atualizou o documento porque o contexto político mudou. Se a política denominacional precisa ser suficientemente flexível para responder à conjuntura, então devemos abandonar a ideia de que cada detalhe dessa política constitui expressão direta e imutável de um princípio religioso. Há princípio, há interpretação e há conveniência administrativa. O trabalho jornalístico consiste justamente em não permitir que as três coisas sejam apresentadas como se fossem uma só.

A PRÓPRIA DSA NOS DEU A CHAVE: “O QUE SE ESPERA ATUALMENTE”

Há uma expressão utilizada na explicação oficial que merece atenção. Rampogna disse que os ajustes procuravam deixar o posicionamento adventista mais claro e alinhado com aquilo que “se espera atualmente” de uma organização religiosa responsável na América do Sul. A palavra importante é “atualmente”. Ela reconhece temporalidade. Existe um agora. Existe um contexto. Existe uma percepção social contemporânea daquilo que uma denominação religiosa deve ou não deve fazer diante da política. Nada há de escandaloso em uma organização considerar o ambiente em que atua; seria irresponsável não fazê-lo. Mas essa admissão impede que a regulamentação resultante seja posteriormente apresentada como se tivesse simplesmente descido pronta das Escrituras. Se determinada formulação é escolhida porque corresponde ao que se espera “atualmente”, estamos diante de uma decisão contextual. Amanhã aquilo que se espera poderá mudar outra vez. E, se mudar, o documento poderá ser novamente atualizado sem que a Bíblia ou Ellen White precisem mudar uma única palavra.

O PROBLEMA COMEÇA QUANDO CONVENIÊNCIA ADMINISTRATIVA VESTE ROUPA DE PRINCÍPIO ETERNO

Uma denominação possui todo o direito de produzir políticas administrativas. Precisa delas. Uma organização presente em vários países precisa regulamentar o comportamento de seus representantes, proteger instituições, evitar que púlpitos sejam apropriados por campanhas eleitorais e estabelecer limites para o uso de seu nome. Nada disso está sendo contestado. O problema aparece quando uma decisão administrativa contingente recebe tamanho revestimento espiritual que o membro passa a considerá-la praticamente uma extensão da vontade de Deus. Se depois a administração muda a regra porque mudou o ambiente político, descobre-se que aquilo que parecia absoluto não era absoluto. Era uma decisão institucional. A atualização de 2026 oferece uma oportunidade preciosa para separar essas categorias. O apartidarismo pode ser apresentado pela Igreja como princípio. A maneira de regulamentar manifestações públicas é uma política. E políticas mudam. Mudaram em 2026 porque, segundo a própria Organização, o contexto mudou.

MAS “FÉ SEM BANDEIRAS” VOLTA A ELLEN WHITE

É curioso, portanto, que apenas três meses depois a matéria de capa retorne principalmente a Ellen G. White para ensinar como o adventista deve comportar-se eleitoralmente. Felippe Amorim utiliza seus escritos para sustentar prudência, ausência de paixão partidária e discrição na exposição das escolhas. Não questionamos o direito de recorrer à autora nem o fato de existirem em seus escritos advertências contra o envolvimento partidário. O que perguntamos é por que uma aplicação contemporânea específica deve ser apresentada como consequência necessária desses textos quando a própria Organização acaba de demonstrar que suas aplicações administrativas podem mudar. Ellen White não escreveu uma atualização em maio de 2026. Quem a escreveu foram administradores. Ellen White não retirou a seção sobre manifestações públicas. Quem a retirou foi uma Comissão Diretiva. Portanto, quando em agosto seus escritos são novamente mobilizados para orientar o comportamento político do membro, precisamos distinguir cuidadosamente o texto histórico da interpretação contemporânea que está sendo construída sobre ele.

QUEM DECIDE O QUE ELLEN WHITE SIGNIFICA EM CADA ELEIÇÃO?

Chegamos, então, a uma pergunta inevitável. Se os mesmos escritos podem conviver com regulamentações diferentes em épocas diferentes, quem decide qual aplicação deve prevalecer em cada momento? Ellen White não pode responder a uma consulta administrativa em 2026. A Bíblia não publica circulares eleitorais. São seres humanos vivos, ocupando cargos administrativos, acadêmicos e editoriais, que selecionam textos, interpretam princípios e produzem regras para o presente. Isso não torna automaticamente suas interpretações erradas; apenas devolve a elas sua verdadeira natureza humana e institucional. A decisão não veio do céu pronta para ser protocolada. Foi discutida, redigida e votada. Por isso podemos examiná-la, compará-la com versões anteriores, questionar suas razões e perguntar a quem beneficia determinada formulação. Quando a administração interpreta, ela também precisa aceitar que sua interpretação seja interpretada.

QUEM GANHA LIBERDADE QUANDO A REGRA É RETIRADA?

Esta talvez seja a questão mais importante deixada pela alteração de maio. Se as orientações específicas sobre manifestações públicas foram retiradas, quem efetivamente ganha espaço de atuação até que apareçam os prometidos documentos posteriores? O membro comum? O pastor? O administrador? O comunicador? A instituição? Todos igualmente? A resposta não está suficientemente explicitada no anúncio da mudança. E justamente por isso o momento escolhido para retirar a regulamentação merece atenção. Em ano eleitoral, regras sobre manifestações públicas não são detalhe administrativo. Elas podem alcançar pastores, funcionários, professores, comunicadores e dirigentes diante de protestos, atos cívicos, mobilizações sociais e eventos que rapidamente adquirem identidade partidária. Retirar uma regulamentação nesse ambiente significa aumentar a necessidade de interpretação caso a caso. E quem possui maior poder para interpretar casos dentro de uma organização hierarquizada? Certamente não é o membro sentado no último banco.

A ORGANIZAÇÃO PRESERVA PARA SI O PODER DE INTERPRETAR A POLÍTICA

É por isso que a discussão não pode permanecer limitada ao comportamento individual do eleitor. O documento oficial de 2026 continua organizando cuidadosamente as relações entre Igreja e política, definindo limites para estruturas denominacionais, candidatos, pastores, servidores e comunicadores. Ao mesmo tempo, a própria Organização preserva sua capacidade de relacionar-se com autoridades e de manifestar-se diante de temas sociais que considere relevantes. Isso significa que a voz política não desaparece do sistema. Ela é administrada. Há assuntos sobre os quais falar pode ser considerado testemunho; há outros em que falar pode ser entendido como partidarismo. Há relacionamentos com o poder considerados necessários à missão; há proximidades capazes de comprometer a neutralidade. Mas alguém precisa classificar cada situação. Portanto, a questão fundamental não é apenas se a Igreja é apartidária. É quem possui o poder institucional de definir, em cada circunstância, aquilo que o apartidarismo permite.

QUEM DECIDE QUANDO POLÍTICA VIRA PRINCÍPIO MORAL?

A dificuldade aumenta porque política e moral frequentemente ocupam o mesmo território. Aborto, pobreza, corrupção, racismo, liberdade religiosa, educação, guerra, violência, imigração, direitos civis, liberdade de consciência e proteção da vida são questões políticas e também podem ser interpretadas como questões morais. O próprio discurso adventista reconhece que o cristão não precisa permanecer moralmente indiferente ao mundo. Então quem determina quando um pronunciamento sobre determinado assunto representa defesa legítima de um princípio e quando representa envolvimento político indevido? A fronteira não está desenhada naturalmente no chão. Ela é interpretada. Quando a Organização fala, pode classificar sua manifestação como defesa de valores. Quando o membro fala, sua manifestação pode ser interpretada como militância. Algumas diferenças são justificáveis; outras precisam ser demonstradas. O que não podemos aceitar é que a classificação funcione como palavra mágica capaz de tornar política a voz de quem está embaixo e moral a voz de quem está em cima.

“FÉ SEM BANDEIRAS” PARA QUEM?

É nesse contexto que o título escolhido pela Revista Adventista começa a adquirir outro significado. “Fé sem bandeiras” é excelente se significa independência diante de todos os partidos, recusa de transformar políticos em salvadores e rejeição da tentativa de sequestrar a igreja para qualquer projeto eleitoral. Mas precisamos perguntar para quem essa ausência de bandeiras é exigida e como ela é aplicada. O membro deve exercer discrição. O pastor precisa proteger a percepção de neutralidade. O comunicador institucional deve cuidar de sua exposição. O candidato adventista não pode utilizar a igreja. Tudo isso é compreensível. Mas e a Organização quando se relaciona com o poder? E seus dirigentes quando recebem autoridades? E suas instituições quando necessitam negociar interesses legítimos? E sua própria história quando encontramos aproximações políticas muito mais concretas do que simplesmente declarar um voto? Se “fé sem bandeiras” é princípio, precisamos encontrar a mesma exigência subindo toda a escada administrativa.

A REGRA PRECISA SUBIR A ESCADA

Existe um teste bastante simples para descobrir se estamos realmente diante de um princípio: aplicá-lo também a quem produz as regras. Se determinada exposição política ameaça a missão quando praticada por um membro, precisamos investigar se ameaça igualmente quando parte de um administrador. Se proximidade com candidatos compromete a neutralidade da igreja local, precisamos perguntar quais limites existem para a proximidade institucional com governantes. Se a preferência pública pode influenciar indevidamente irmãos, precisamos avaliar também a influência exercida por revistas, professores, líderes e canais oficiais. Se determinada regra pode ser retirada porque mudou o contexto, precisamos reconhecer que se tratava de uma política administrativa e não transformá-la retroativamente em mandamento religioso. O princípio verdadeiro não pode funcionar apenas de cima para baixo. Precisa subir a escada e alcançar também aqueles que o interpretam, administram e aplicam.

SE NÃO VALE PARA A ORGANIZAÇÃO, NÃO É PRINCÍPIO

É aqui que nossa discussão sobre oportunismo eleitoral se encontra com uma questão maior. Não precisamos demonstrar que a DSA escolheu determinado candidato em 2026 para perceber o problema. Basta constatar que a regulamentação política é suficientemente flexível para ser alterada quando o cenário político muda. Isso nos obriga a rejeitar qualquer tentativa de apresentar todas essas regras como consequências inevitáveis de um princípio religioso imutável. A própria Igreja demonstrou que pode rever sua aplicação. Portanto, daqui em diante, sempre que uma orientação política for apresentada ao membro como exigência necessária do apartidarismo, teremos o direito de perguntar: isso está na Bíblia, está realmente em Ellen White ou está numa regulamentação produzida por administradores para responder às circunstâncias de determinada época? E, se for regulamentação administrativa, por que foi criada, a quem alcança, como foi aplicada e por que mudou?

O PRINCÍPIO FICOU. A REGRA MUDOU. E A ELEIÇÃO CHEGOU.

A cronologia permanece diante de nós. Em maio de 2026, a DSA atualizou oficialmente “Os adventistas e a política”. Disse que a essência permanecia. Disse que o cenário político e religioso estava mais tenso. Disse que precisava ajustar seu posicionamento ao que se espera atualmente de uma organização religiosa responsável. E retirou as orientações sobre manifestações públicas, remetendo o tema para documentos posteriores. Em agosto, a Revista Adventista colocou “Fé sem bandeiras” na capa e voltou a ensinar prudência e discrição política ao membro. Não precisamos inventar uma conspiração para perceber a tensão. Precisamos apenas fazer aquilo que o jornalismo deve fazer diante de instituições poderosas: guardar as versões, comparar as datas, observar aquilo que entrou e aquilo que saiu e perguntar pelas razões. Se a resposta for simplesmente que os tempos mudaram, ótimo. Mas então assumamos todas as consequências dessa resposta: regras políticas denominacionais mudam porque os tempos mudam.

FÉ SEM BANDEIRAS — OU APARTIDARISMO CONFORME A CONVENIÊNCIA?

É essa a pergunta que deixamos aberta. Talvez a alteração de maio tenha sido tecnicamente necessária. Talvez documentos posteriores realmente ofereçam uma regulamentação melhor. Talvez a administração tenha percebido problemas legítimos na formulação anterior. Tudo isso é possível. Mas o fato documental permanece: a Organização retirou uma orientação política em pleno ano eleitoral e explicou a atualização recorrendo ao contexto político e social contemporâneo. Três meses depois, sua principal revista brasileira publicou uma matéria de capa ensinando ao membro como administrar sua manifestação política. Por isso não basta repetir “apartidarismo”. Precisamos investigar como esse apartidarismo é construído, modificado e aplicado. Quando a regra endurece, queremos saber por quê. Quando afrouxa, também. Quando o membro precisa calar, queremos conhecer o princípio. Quando a Organização precisa falar, queremos conhecer o mesmo princípio. E quando a conjuntura eleitoral muda e a regulamentação muda junto, perguntaremos sem constrangimento se estamos diante de prudência administrativa ou oportunismo eleitoral.

MUDOU PARA OS PASTORES. MAS CONTARAM AOS MEMBROS?

Há ainda uma consequência dessa mudança que não pode passar despercebida. A alteração foi feita no nível administrativo, aprovada pela Comissão Diretiva Plenária e anunciada nos canais institucionais: as orientações específicas sobre manifestações públicas haviam sido retiradas do documento e seriam tratadas posteriormente. Pastores, administradores, comunicadores e demais pessoas que acompanham de perto as decisões da estrutura denominacional tinham, portanto, meios para saber que a regulamentação havia mudado. Mas onde esteve a comunicação equivalente dirigida à massa dos membros explicando claramente: “A orientação sobre manifestações públicas que vocês conheciam foi retirada”? Onde esteve a matéria de capa mostrando o que saiu, por que saiu e o que passaria a valer enquanto não chegassem os prometidos documentos posteriores? Não podemos afirmar que nenhum membro tenha tomado conhecimento da mudança, porque a notícia estava publicamente disponível. Podemos, porém, perguntar por que uma alteração dessa importância não recebeu junto à igreja a mesma força pedagógica empregada para ensinar durante anos como o adventista deveria comportar-se politicamente.

NEM OS PASTORES SABIAM QUE A REGRA HAVIA MUDADO

E aqui aparece uma informação que torna a situação ainda mais surpreendente. A mudança não parece ter chegado apenas com pouca força aos membros. Segundo reportagem publicada pela Revista Zelota em 29 de maio de 2026, nem mesmo pastores diretamente alcançados pela nova regulamentação sabiam o que havia acontecido. A revista ouviu seis pastores e informou que nenhum deles estava ciente do voto e de suas motivações. Um pastor da região Norte explicou que a mudança era recente e ainda não havia sido discutida internamente porque não ocorrera concílio para tratar do assunto. Outro, em São Paulo, declarou não ter ouvido qualquer repercussão sobre o novo documento. A reportagem registrou ainda que, nos campos locais, permaneciam orientações e práticas anteriores, inclusive restrições à exposição política de pastores. Ou seja: a Comissão Diretiva Plenária havia votado, o documento havia mudado, a notícia estava publicada, mas a informação aparentemente ainda não havia descido pela própria estrutura pastoral.

UM PASTOR PEDIU ANONIMATO E FALOU EM UMA “CÚPULA”

Há um elemento ainda mais delicado. Entre os ministros ouvidos pela Zelota estava um pastor de São Paulo descrito pela revista como alguém familiarizado com esses processos denominacionais. Ele pediu anonimato e afirmou que a decisão teria sido influenciada por uma determinada “cúpula”. A Zelota não revelou sua identidade e, portanto, não temos como verificar independentemente quem é esse pastor, qual posição ocupa nem quais informações internas fundamentaram sua avaliação. Por isso não transformaremos sua declaração em fato comprovado sobre a origem da mudança. Mas ela existe como testemunho jornalístico publicado e ganha importância quando colocada ao lado daquilo que podemos comprovar documentalmente: houve uma mudança significativa em pleno ano eleitoral; a orientação específica sobre manifestações públicas foi retirada; a própria DSA relacionou a atualização ao novo contexto político e religioso; e, segundo os pastores entrevistados pela Zelota, a decisão sequer havia sido adequadamente comunicada à base ministerial. A referência à existência de uma “cúpula” influenciando a decisão, portanto, não prova nosso questionamento sobre oportunismo eleitoral, mas acrescenta uma pergunta que a documentação oficial não responde: quem, dentro da estrutura, desejava essa mudança e por quê?

A AMBIGUIDADE BENEFICIA QUEM ESTÁ NO PODER?

Outro depoimento anônimo publicado na mesma reportagem talvez seja ainda mais revelador para compreendermos o problema administrativo criado pela retirada da regra. Um pastor afirmou que a obscuridade e a ambiguidade do novo cenário acabam favorecendo aqueles que detêm o poder, porque, em suas palavras, numa situação ambígua prevalece a vontade deles. É uma observação que merece ser preservada exatamente como aquilo que é: a avaliação de um pastor ouvido sob anonimato, e não uma confissão oficial da Igreja. Mas ela toca diretamente no problema que identificamos independentemente neste artigo. Retirar uma regra específica sem colocar imediatamente outra em seu lugar não elimina o poder de regulamentação; pode simplesmente transferir mais poder para quem interpreta cada caso. O pastor quer participar de uma manifestação? O campo pode interpretar. O administrador considera determinada exposição inadequada? A estrutura pode decidir. A norma geral desaparece, mas a hierarquia permanece. E, se a informação sobre a própria mudança nem sequer alcançou uniformemente os pastores, a diferença entre aquilo que foi votado no topo e aquilo que continua sendo exigido na base torna-se ainda mais evidente.

E MICHELSON BORGES CONTINUAVA ENSINANDO A REGRA QUE JÁ HAVIA SIDO RETIRADA

A reportagem da Zelota registra um detalhe quase didático sobre a velocidade — ou a falta dela — com que a mudança circulou. Quatro dias depois da decisão da DSA, Michelson Borges publicou em seu blog pessoal orientações para as eleições de 2026 ainda recorrendo à seção sobre manifestações públicas que acabara de ser retirada. Independentemente das posições políticas de Michelson, o episódio serve como termômetro da circulação da informação: se um editor da Casa Publicadora Brasileira, permanentemente envolvido na comunicação adventista e nas discussões sobre política e religião, ainda utilizava a orientação anterior poucos dias depois da votação, é razoável perguntar quanto da mudança havia efetivamente chegado aos pastores das igrejas locais — e muito mais aos membros comuns. A regra havia mudado em Brasília; a cultura denominacional continuava funcionando com a regra anterior.

A MUDANÇA FICOU NO DOCUMENTO; “FÉ SEM BANDEIRAS” FOI PARA A CAPA

E a comparação se torna ainda mais incômoda quando chegamos a agosto. A mudança administrativa estava disponível para quem procurasse o documento e acompanhasse a comunicação institucional. Mas aquilo que a Revista Adventista decidiu colocar diante dos membros, com a força editorial de uma matéria de capa, foi “Fé sem bandeiras”. Em maio, retiram-se as orientações específicas sobre manifestações públicas; em agosto, oferece-se ao membro uma extensa reflexão sobre prudência, discrição e os perigos da exposição política. A diferença de visibilidade é aquilo que nos interessa. A flexibilização ficou registrada na documentação administrativa; a contenção ganhou a capa. Quem acompanha a engrenagem sabe que a regra mudou. Quem recebe apenas a pedagogia religiosa destinada à igreja pode continuar com a impressão de que o modelo permanece exatamente como antes. Não é necessário esconder formalmente uma mudança para que ela permaneça praticamente desconhecida da maioria; basta não lhe conceder a mesma publicidade que se concede ao ensinamento que interessa preservar.

POR QUE A MUDANÇA NÃO VIROU CAPA?

Essa pergunta é inevitável porque a própria Revista Adventista demonstrou considerar o comportamento político dos membros suficientemente importante para transformá-lo em assunto principal de sua edição de agosto. Se havia espaço para ensinar novamente como o adventista deveria relacionar fé, voto e exposição pública de suas escolhas, por que não explicar com igual destaque que apenas três meses antes a Divisão Sul-Americana havia retirado do documento oficial justamente as orientações específicas sobre manifestações públicas? Essa informação mudaria a maneira como o leitor receberia “Fé sem bandeiras”. Ele saberia que não estava diante de uma regulamentação imóvel transmitida intacta através do tempo, mas de uma política denominacional que acabara de ser alterada pela própria administração em razão de um contexto político considerado diferente. A pergunta, portanto, deixou de ser apenas por que mudaram. Precisamos perguntar também por que a mudança não recebeu a mesma publicidade dada à mensagem de contenção.

PARA QUEM ADMINISTRA, A REGRA PODE MUDAR; PARA QUEM OBEDECE, O PRINCÍPIO PARECE O MESMO

Aqui aparece uma diferença de poder produzida pela própria circulação da informação. Quem participa da administração conhece documentos, versões, alterações, votações, exceções e justificativas. Sabe que determinada orientação foi criada em certo contexto e pode ser modificada em outro. O membro comum recebe principalmente o resultado pastoral dessa engrenagem: prudência, unidade, testemunho, neutralidade, cuidado com manifestações e exposição política. Assim, aquilo que para o administrador é reconhecidamente uma regulamentação sujeita a revisão pode chegar ao membro revestido da aparência de princípio permanente. Em 2026 essa diferença ficou exposta: a administração modificou a regulamentação porque reconheceu que o contexto havia mudado, enquanto a principal revista da denominação continuou ensinando ao membro uma ética de discrição política. Se foi importante ensinar a antiga orientação quando ela restringia, deveria ser igualmente importante explicar com clareza quando a própria Organização decidiu retirá-la.

OPORTUNISMO ELEITORAL? ENTÃO MOSTREM AOS MEMBROS O QUE MUDOU

É nesse ponto que nossa pergunta sobre oportunismo eleitoral se torna ainda mais necessária. Se a mudança foi meramente técnica, expliquem-na aos membros. Se a antiga regulamentação tornou-se inadequada, digam por quê. Se a retirada ocorreu porque o ambiente político de 2026 exigia maior flexibilidade, esclareçam qual flexibilidade passou a existir. Se as antigas restrições continuam valendo por outros fundamentos, mostrem quais são. E se novos documentos ainda serão produzidos, expliquem o que deve orientar a igreja enquanto eles não chegam. O que não pode acontecer é o apartidarismo funcionar com duas velocidades de informação: uma para quem conhece a máquina e sabe que as regras administrativas podem ser revistas conforme a conjuntura; outra para o membro que continua recebendo o princípio sem ser informado, com igual destaque, de que sua regulamentação acabou de mudar. Se a Organização exige transparência e prudência política de seus membros, a mesma transparência precisa existir quando é a própria Organização que muda as regras em pleno ano eleitoral.

E AGORA A HISTÓRIA SERÁ CHAMADA A DEPOR

Até aqui estamos tratando de 2026: documentos, normas, interpretações e uma matéria de capa. Mas existe um teste muito mais difícil para qualquer doutrina de apartidarismo: confrontá-la com aquilo que a própria denominação e seus membros fizeram ao longo da história. É relativamente fácil recomendar discrição ao eleitor sentado no banco da igreja. Mais difícil é explicar relacionamentos construídos pela própria estrutura e por adventistas com homens que disputavam, conquistavam ou exerciam o poder. É exatamente por isso que nossa investigação não terminará numa discussão semântica sobre “Fé sem bandeiras”. Aplicaremos o princípio à história. Se ele vale para o membro em 2026, deve oferecer critérios para avaliar também o comportamento adventista em outros tempos. E, quando abrirmos os documentos de Cuba, a pergunta deixará de ser apenas se um adventista deveria tornar pública sua preferência eleitoral. Encontraremos uma situação muito mais concreta.

EM CUBA, A QUESTÃO NÃO ERA LEVANTAR UMA BANDEIRA. ERA SUSTENTAR QUEM CARREGAVA O FUZIL.

É aí que a teoria será submetida ao arquivo. Felippe Amorim preocupa-se com a palavra pública do eleitor, com sua influência e com os efeitos espirituais de transformar preferência política em proclamação. Pois bem: aplicaremos a mesma preocupação moral a documentos que registram adventistas diante de homens envolvidos numa revolução armada. Se manifestar publicamente uma escolha eleitoral pode comprometer o apartidarismo, o que acontece quando a relação com a política ultrapassa palavras, votos e manifestações? Se o princípio realmente existe, precisa ser suficientemente robusto para avaliar não apenas o membro contemporâneo que declara sua preferência, mas também adventistas que, em determinado momento histórico, se aproximaram de forças que lutavam para conquistar o poder. Não responderemos antecipadamente com slogans. Abriremos os documentos. Porque, se o apartidarismo é princípio, ele precisa sobreviver ao teste da própria história adventista. Se não sobreviver, talvez nunca tenha sido aplicado como princípio. Talvez tenha funcionado, demasiadas vezes, como poder de decidir quem pode falar, quando pode falar e de que lado a conveniência institucional permite estar.






REVISTA ZELOTA: Pastores reagem ao novo documento da DSA sobre Política

O novo documento representa uma vitória para uma facção da comissão, e foi motivo de celebração. Geralmente alinhados a candidatos de direita e extrema-direita, como Bolsonaro, esses líderes agora terão mais liberdade para se pronunciar publicamente. Um pastor de São Paulo que tem familiaridade com esses processos e pediu anonimato sugeriu à Zelota que a decisão foi influenciada por uma “cúpula” específica.

A mudança no documento foi significativa, mas não alcançou os pastores na base da denominação, embora afete diretamente a prática ministerial. Seis pastores entrevistados pela Zelota não estavam cientes do voto e de suas motivações. Michelson Borges, editor da CAsa Publicadora Brasileira (CPB) — conhecido por seu envolvimento com discussões políticas e interpretações conspiratórias — chegou a publicar orientações para as eleições de 2026 em seu blog pessoal, ainda enfatizando a seção sobre manifestações públicas que a DSA havia removido. Seu texto foi publicado quatro dias após a decisão, demonstrando a falta de informação do editor a respeito do processo no Brasil.

Um pastor na região norte do país, antes de saber quais eram as mudanças exatas no documento, sugeriu que as ações dos pastores tendem a permanecer restritas em relação a manifestações públicas. “Como a mudança é recente e ainda não tivemos concílio, a questão ainda não foi abordada internamente”, disse ele. Restringir a participação de líderes em manifestações é algo necessário, em sua opinião, devido à influência da figura pastoral sobre as decisões dos membros, especialmente em congregações mais vulneráveis: “Existem igrejas [mais humildes] onde o que eu digo é lei”, explicou o pastor, lembrando de uma membra que perguntou se podia votar num político de esquerda por ele apoiar os pobres.

De qualquer forma, “essas coisas nunca são decididas do nada”, alertou o pastor. É, de fato, possível que alguns membros, sentindo-se ameaçados pelo “ateísmo militante” de certos setores da esquerda, exijam mais espaço para manifestações públicas. Para ele, restringir essa atividade limitaria a vida pública dos membros a algo mais apolítico, e não somente apartidário. Essa preocupação seria ainda mais sensível no norte, especialmente em cidades menores, onde os políticos estão envolvidos diretamente na vida diária das pessoas, e os cidadãos defendem ferozmente suas preferências. “Não para os pastores”, reforçou, “eu sou a favor de restrições para pastores na participação em manifestações públicas.”

Não tendo participado ativamente de nenhum concílio periódico nas uniões da DSA, um pastor de São Paulo disse que não tinha ouvido qualquer repercussão a respeito do documento. Mesmo assim, se houver qualquer mudança significativa, em sua opinião, não vai fazer muita diferença: “Todo mundo, sem exceção, já se manifesta como quer. Seja no púlpito ou no WhatsApp. Por meio de piadas, etc.” Outro pastor de uma região próxima disse que, apesar das mudanças, as eleições de 2026 podem ser mais moderadas, e que a orientação no seu campo ainda é que os pastores não devem se expor no debate público.

Também em São Paulo, um pastor explicou que, com ou sem mudanças no documento sobre manifestações públicas, “no meu campo, isso não vai rolar, mesmo que uma regulamentação diga em qualquer instância”. Ele disse que as orientações da sua associação são rígidas nesse assunto, e que o vácuo deixado pelo documento não mudaria o posicionamento de seus superiores. Como os pastores acima, ele acredita que, se surgir alguma orientação específica desse documento, ela será discutida em alguma reunião ou concílio. Ainda assim, embora a conversa gire em torno de permitir manifestações para o benefício da igreja, ele não acha que ela será implementada no seu campo, “porque esse é o discurso aqui, e eu duvido que mude.”

Além disso, o pastor observou que ministros adventistas têm um medo indireto de se expressar publicamente, mesmo com um possível relaxamento das restrições. O voto da DSA, nesse caso, seria irrealizável na vida ministerial se fosse levado ao pé da letra: “Se eu for a uma manifestação contra a escala 6×1, serei demitido?” , perguntou. Em sua opinião, a obscuridade e ambiguidade do voto só servem aos que estão no poder, já que, “em uma situação de ambiguidade, a vontade deles prevalece, não a nossa.”

Por fim, um pastor trabalhando no interior de São Paulo disse que não vê muita efetividade no documento, seja antes ou depois da revisão: “Nunca vi esse documento ter um impacto no cotidiano”, observou. Na prática, ele listou situações nas quais candidatos participaram livremente de programas da igreja; por exemplo, numa ocasião em que trabalhava num colégio adventista, alguns funcionários concorreram como candidatos enquanto mantinham seus vínculos empregatícios. Em sua opinião, isso aconteceu porque as comunidades locais ainda não conhecem o documento, e o comportamento aprendido pelos pastores os impede de tomar uma posição.

“Agora, sempre tem uns sem noção”, disse ele, “que acabam esticando a corda.” Da sua perspectiva, essas expressões se limitam a pastores que insistem em questões moralistas de comportamento ou de patriotismo. Tais ministros “sentem mais liberdade para falar e apelar à política”. Por esse motivo, além de sempre ser desconsiderada, a decisão da DSA pode fazer pouca diferença, a menos que venha de departamentos que podem controlar o comportamento de pastores, como o departamento ministerial. “Se for só um documento votado pelo departamento de comunicação, a questão fica ambígua, e o documento é usado por conveniência, ou seja, quando eles precisam punir alguém que saiu da linha. Daí eles puxam o documento.”Especulações eram inevitáveis, visto que a única comunicação oficial sobre o assunto foi uma reportagem breve e vaga de 450 palavras.

Com o objetivo de ter uma perspectiva oficial, a Zelota entrou em contato com Jorge Rampogna, diretor de Assuntos Públicos da DSA, e Felipe Lemos, o diretor de comunicação da DSA, com questões sobre a votação e suas motivações, mas não houve resposta. Outras questões foram enviadas para pelo menos 10 presidentes de uniões da DSA sobre a revisão do documento, mas também não houve resposta.

Possíveis discordâncias acadêmicas

Dada a importância do documento — especialmente com a proximidade das eleições de 2026 no Brasil — a Zelota também entrou em contato com dois pastores e acadêmicos cujas perspectivas sobre política e adventismo são reconhecidas pela denominação. O primeiro, Marcos de Benedicto, pastor aposentado, ex-editor-chefe da CPB e autor do livro Política: o que você precisa saber? (2022), disse cordialmente que preferia não entrar no debate para não se envolver em polêmicas.

Benedicto também evitou comentar a revisão do documento, afirmando que não foi parte dos processos que o produziram — embora fale ativamente sobre o assunto em associações, igrejas e universidades adventistas, e uma entrevista com ele esteja anexada ao documento.

Em seu livro, o capítulo “A visão adventista” não discute manifestações públicas especificamente. Benedicto, no entanto, distingue “ativismo social” e “militância política”: o primeiro seria uma atividade saudável e necessária, como no caso dos adventistas que, em 1850, se opuseram à perseguição de escravizados fugitivos, e no caso do que deveriam fazer hoje em defesa de imigrantes ilegais. Essa posição seria parte de um “legado” deixado pelos pioneiros adventistas, em sua defesa da liberdade e dos direitos humanos. O “ativismo” discutido por Benedicto parece orientado a uma postura abertamente crítica do governo, e não envolve participação em manifestações.

Por outro lado, Benedicto enfatiza os conselhos de Ellen G. White proibindo o envolvimento de pastores e obreiros denominacionais em “assuntos políticos”, embora reconheça que algumas situações exigem uma resposta da denominação. Para Benedicto, portanto, seria possível discordar da participação de pastores em manifestações públicas como um “assunto político” — já que ele, aparentemente, entende o termo num sentido amplo — principalmente em situações nas quais a IASD sofre com a polarização.

Outro pastor contatado, Felippe Amorim, autor do livro Política para Cristãos (2026), teve seu livro promovido e recomendado pelo veículo de notícias da IASD. Amorim é um apresentador na TV Novo Tempo e professor de teologia no Centro Universitário Adventista de São Paulo (UNASP). Em resposta à Zelota, o pastor também escolheu não comentar sobre o assunto e pediu que as perguntas fossem direcionadas ao escritório de comunicação da DSA.

No entanto, enquanto respondia à Zelota, Amorim publicou um texto no canal oficial de notícias da denominação intitulado “Como o cristão deve se comportar em relação ao voto?”. Ele não usou o termo “manifestação pública”, mas criticou abertamente a “propaganda pública” de um posicionamento político, discutindo o mesmo assunto com uma terminologia diferente da usada pelo documento. Na prática, Amorim critica o que considera um equívoco comum em meio a cristãos que querem “exibir sua posição política”. Por outro lado, a decisão em Brasília foi tomada precisamente para facilitar a expressão pública dos adventistas, segundo Rampogna, já que esta seria uma tendência na América Latina.

Com essa posição, Amorim insiste numa orientação que não existe mais nos documentos oficiais da denominação, mas permanece consistente com seu livro: baseado em 1 Timóteo 2.1-4, ele explica que Paulo desejava para Éfeso “não uma manifestação pública, mas uma ação secreta e silenciosa”. Ao longo do livro, ele entende “manifestação pública” como qualquer ato de “militância” ou “ativismo” que prioriza uma perspectiva política ao invés do que chama de “mordomia cristã”; isto é, uma vida política sem rótulos que busca o benefício da sociedade através do testemunho. Ele defende uma espécie de “vida pública bíblica” que inclui o que há de verdadeiro em todos os partidos, dispensando a participação em manifestações que carregam bandeiras ideológicas ou partidárias.

Embora se oponha a manifestações públicas, Amorim sente-se livre para, no mínimo, expressar sentimentos políticos, ou seu “testemunho”, nas redes sociais — uma prática que ainda é proibida pelo documento. Ele defende toda a lista de “valores cristãos” alinhados a agendas instrumentalizadas pela bancada evangélica, tais como a criminalização do aborto, a oposição ao feminismo, uma crítica à “vitimização dos bandidos”, uma demonização da teoria marxista, críticas à teologia da libertação e ao “ativismo social”, críticas ao “ativismo gay”, e um repúdio contra “cristianismos progressistas”.

Aqui, também há consistência dentro das posições de Amorim. Ele lembra seus leitores várias vezes de que não há posição política neutra, e que “a política é inevitável”. Ele entende a internet como um “ambiente que revela o estado real do coração,” isto é, um lugar que “revela quem nós somos”. Em outubro de 2018, quando Bolsonaro foi eleito presidente, Amorim confessou que “ver uma Bíblia em primeiro plano no primeiro discurso do novo presidente do Brasil me faz bem”.

No púlpito de uma igreja, Amorim alegou ter sido processado em 2024 “por causa de um sermão”—o vídeo foi retirado do ar após a publicação desta matéria. No dia 17 de junho daquele ano, em um dos escritórios da Novo Tempo, ele supostamente recebeu uma intimação da procuradoria, indicando um possível processo por “racismo contra homossexuais”, devido a uma afirmação feita no programa Bíblia Fácil. O caso, no entanto, já havia sido encerrado. O pastor usa o episódio para alertar o público de que “chegará o dia em que ser fiel a Deus será ilegal”.

Como Amorim não respondeu às perguntas da Zelota, não é possível saber se ele foi parte dos processos que removeram o voto sobre manifestações públicas do documento. Embora o livro de Benedicto seja, em termos técnicos, mais crítico e complexo, e o de Amorim adote uma abordagem mais pastoral, foi este último que recebeu mais proeminência na mídia adventista, mesmo sendo publicado por uma editora não denominacional.

Fonte: https://revistazelota.com/e-o-fim-da-lei-ezequiel-na-america-latina/

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