Quando a “igreja é sua” chega à caixa de comentários da Revista Adventista

Uma reportagem da própria Revista Adventista sobre a perda de quase metade dos recém-batizados abriu espaço para uma pequena, mas reveladora, manifestação de leitores.

Em apenas 21 comentários, surgiram queixas sobre metas de batismo, dinheiro, pastores distantes, congregações sem recursos e prioridades administrativas. Por alguns centímetros de tela, o princípio de que “a Igreja é sua” acabou funcionando também para quem queria discordar.

Durante décadas, os adventistas ouviram que a Igreja não pertence aos pastores, presidentes ou administradores: a Igreja é dos membros. A frase é bonita porque contém uma ideia profundamente protestante de comunidade. O membro não deveria ser mero espectador de uma organização religiosa administrada por profissionais. Ele participa, sustenta, evangeliza, trabalha voluntariamente, ensina, dirige departamentos, constrói templos e mantém grande parte da vida cotidiana das congregações. Se a Igreja é realmente sua, porém, essa pertença deveria significar também alguma coisa quando o membro não quer elogiar, mas perguntar; quando não quer colaborar com um programa, mas discutir o programa; quando não quer repetir uma explicação oficial, mas dizer publicamente que alguma coisa está errada.

Uma página ainda disponível no próprio site da Revista Adventista oferece uma oportunidade extraordinária de observar o que acontece quando essa porta se abre. Em 12 de outubro de 2016, Márcio Tonetti publicou “Perda de fiéis é preocupante”, repercutindo números apresentados durante o Concílio Anual da Associação Geral. O dado principal era suficientemente grave: segundo as estatísticas divulgadas, 49 de cada 100 membros recém-batizados deixavam a Igreja. Em 2000, eram 43 em cada 100. Sem as perdas acumuladas nos cinquenta anos anteriores, dizia a matéria, a denominação teria entre 28,5 e 30 milhões de membros, em lugar dos 19,5 milhões então registrados.

A reportagem procurava respostas para o problema. G. T. Ng, então secretário-executivo da Associação Geral, falava em discipulado, acompanhamento dos recém-batizados, responsabilidade coletiva, pequenos grupos e necessidade de transformar a conservação dos membros em parte da cultura da igreja local. Portanto, seria injusto dizer que o texto oficial se preocupava exclusivamente com números ou dinheiro. A preocupação espiritual e pastoral está expressamente presente. Mas Ng também afirmou que aquela taxa de perda drenava “recursos humanos e financeiros” da Igreja e utilizou comparações com organizações que perdem continuamente as pessoas que as compõem.

Talvez a parte mais interessante da página, porém, comece justamente depois que termina a reportagem.

APENAS 21 COMENTÁRIOS — MAS QUE 21 COMENTÁRIOS

Há um detalhe que inicialmente pode passar despercebido. A reportagem tratava de uma crise gigantesca: 49 em cada 100 recém-batizados estavam deixando a denominação. Mesmo assim, a página preserva apenas 21 comentários. E não se trata de 21 manifestações acumuladas lentamente durante os quase dez anos em que o texto permaneceu disponível. A discussão visível concentrou-se essencialmente no período imediatamente posterior à publicação.

O número é pequeno demais para permitir qualquer pretensão estatística. Vinte e uma manifestações não representam milhões de adventistas e seria absurdo apresentá-las como pesquisa de opinião. Mas seu valor não está na quantidade. Está naquilo que algumas dessas pessoas decidiram dizer justamente dentro do veículo oficial da Igreja.

Em apenas algumas manifestações aparecem críticas às metas de batismo, à preocupação com arrecadação, à atuação pastoral, à escassez de recursos nas congregações, à preparação insuficiente antes do batismo e ao acompanhamento posterior dos novos membros. Não precisamos multiplicar artificialmente essas 21 vozes nem transformá-las em representantes de toda a denominação. O fato documentalmente interessante é precisamente o contrário: um espaço minúsculo de manifestação dos leitores foi suficiente para fazer emergir problemas que a reportagem institucional não colocara no centro de sua explicação.

OS MEMBROS COMEÇARAM A FALAR

É aí que ocorre algo particularmente interessante. A pauta deixa parcialmente as mãos da administração e do jornalista da denominação e passa aos leitores. Alguns concordam com a explicação apresentada. Outros oferecem interpretações espirituais para a apostasia. Há quem defenda a Igreja e conteste críticas feitas por outros participantes. Mas há também adventistas e ex-adventistas expondo descontentamentos que dificilmente poderiam ser classificados como pequenas observações periféricas. Eles falam justamente sobre estrutura, métodos, pastores, metas, dinheiro e a experiência concreta dentro das congregações.

Douglas Barbetto Baião foi diretamente ao problema que enxergava. Para ele, a Igreja havia deixado de concentrar-se suficientemente nas pessoas e passado a privilegiar resultados, especialmente números de batismos e arrecadação. Sua conclusão era dura: via contradição entre essas prioridades e a preocupação posterior com a perda de fiéis. Não se trata de uma acusação produzida pelo Adventistas.com. É uma crítica publicada por um leitor abaixo de uma reportagem no próprio site da Revista Adventista.

Alexandro Pastorello apresentou outro diagnóstico. Criticou pastores que, em sua avaliação, centralizavam atividades e deixavam de preparar suficientemente os membros que conheciam diretamente as dificuldades das congregações. Foi além ao falar de pastores transformados em “estrelas”, preocupados em alcançar alvos e apresentar resultados às Associações e Uniões. A crítica é especialmente significativa porque relaciona o problema local à cadeia administrativa: igreja, pastor, Associação e União aparecem na mesma explicação para aquilo que aquele leitor entendia estar acontecendo.

“JÁ PERDÍAMOS 43%!”

Cleber Machado percebeu uma contradição temporal que a própria reportagem deixava exposta. Se em 2000 a denominação já perdia 43 de cada 100 recém-batizados, por que o problema parecia adquirir caráter tão urgente somente quando o índice chegava a 49%? Para ele, perder até mesmo um membro em cada cem já deveria ser motivo de preocupação. Sua observação atingia, portanto, não apenas a solução apresentada, mas a demora em reconhecer a dimensão de um problema que os próprios números mostravam ser antigo.

José Costa trouxe a discussão para a experiência cotidiana da igreja local. Falou de candidatos batizados sem preparação adequada, de acompanhamento que desaparecia depois do batismo, de cultos que considerava pouco atraentes e da dificuldade de oferecer aos jovens uma experiência religiosa suficientemente significativa. Sandra Pereira descreveu outra realidade: numa região rural, observava muitos batismos e também muitas perdas, enquanto membros sem transporte enfrentavam dificuldades simplesmente para chegar aos cultos.

Esses comentários são importantes porque deslocam o debate da palavra abstrata “apostasia”. A estatística registra que alguém saiu. O comentário pergunta por quê. E, quando os próprios membros começam a responder, aparecem questões que uma tabela dificilmente consegue mostrar: preparação antes do batismo, acompanhamento posterior, distância pastoral, qualidade percebida dos cultos, dificuldades materiais, relações pessoais, prioridades administrativas e frustrações acumuladas.

METAS DE BATISMO, PASTORES SOBRECARREGADOS E DINHEIRO

A sequência formada pelos comentários de Rogério Gomes Costa e Daniel Azevedo merece atenção especial. Rogério descreveu igrejas que, segundo sua experiência, haviam sido abertas sem estrutura adequada, templos que permaneciam inacabados e congregações sem recursos suficientes até para necessidades consideradas básicas. Seu questionamento atingia um modelo de expansão que, em sua percepção, não vinha acompanhado de estrutura proporcional para as comunidades já existentes.

Daniel respondeu enumerando problemas que considerava relacionados ao índice alarmante: pressão por metas de batismo, deficiência de liderança pastoral associada inclusive ao grande número de congregações sob responsabilidade de um mesmo pastor, fragilidade na pregação e escassez de recursos financeiros nas igrejas locais. Sua conclusão talvez seja ainda mais reveladora: lamentava que problemas que considerava concretos fossem ignorados enquanto continuavam sendo repetidas explicações tradicionais para a apostasia.

Observe-se o que aconteceu. A matéria oficial apresentava uma questão e oferecia uma resposta institucional: conservação, discipulado, acompanhamento e pequenos grupos. Os membros, no pequeno espaço aberto abaixo dela, começaram a acrescentar outras hipóteses. Alguns estavam dizendo, essencialmente: antes de ensinar as igrejas a conservar quem entra, examinem também a maneira como a própria estrutura funciona.

E OS “RECURSOS FINANCEIROS” NÃO PASSARAM DESPERCEBIDOS

A expressão utilizada por G. T. Ng sobre “recursos humanos e financeiros” também provocou reação. Willas Barros interpretou aquela formulação como reveladora de uma preocupação econômica da instituição. Outro participante, Fábio Silva Santos, contestou essa interpretação e ofereceu uma leitura diferente: os recursos mencionados poderiam ser entendidos como o investimento humano e financeiro empregado para alcançar pessoas que posteriormente deixam a Igreja, o que tornaria necessário repensar a maneira de investir em evangelismo e conservação.

E justamente essa pequena discussão é uma das partes mais interessantes da página. Um leitor apresenta uma acusação dura. Outro diz que sua interpretação está errada e oferece uma alternativa. Os dois argumentos permanecem diante do leitor. Quem chega à página pode conhecer a declaração original, ler a crítica e encontrar o contraponto apresentado por outro membro. Não é necessário proteger o leitor de nenhum dos dois.

POR ALGUNS CENTÍMETROS DE TELA, A IGREJA ERA DELES

Aqui aparece uma ironia que merece ser reconhecida. Durante anos, slogans e discursos sobre participação procuraram lembrar ao membro que a Igreja também lhe pertence. Na caixa de comentários daquela reportagem, por alguns centímetros de tela, “a Igreja é sua” tornou-se uma realidade bastante concreta. O membro podia falar. Podia discordar. Podia questionar metas, prioridades administrativas, distribuição de recursos, métodos evangelísticos e atuação pastoral.

E podia fazer tudo isso não num site crítico, não num fórum criado por dissidentes e não numa página de oposição à denominação. Fazia-o dentro da Revista Adventista.

Isso torna a página documentalmente valiosa. Muitas vezes a crítica externa pode ser descartada precisamente porque é externa. Aqui essa resposta se torna insuficiente. Algumas críticas foram formuladas por pessoas que escreviam como participantes ou conhecedores da própria comunidade e discutiam aquilo que afirmavam observar dentro das congregações. Naturalmente, seus comentários continuam sendo testemunhos e opiniões individuais. Não demonstram sozinhos que cada diagnóstico seja verdadeiro para toda a denominação. Mas demonstram algo que já é historicamente relevante: havia descontentamento, e algumas pessoas ligadas à experiência adventista estavam dispostas a expressá-lo publicamente no próprio veículo da Igreja.

MAS POR QUE APENAS 21?

A pequenez do número também merece ser observada, embora não autorize conclusões apressadas. Uma reportagem sobre uma denominação mundial, tratando da perda de quase metade dos recém-batizados, preserva somente 21 manifestações. Seria tentador interpretar esse número como sinal de censura, desinteresse dos membros, baixa audiência da página ou dificuldade para comentar. Não temos elementos suficientes para escolher nenhuma dessas explicações como fato.

Hoje, a página informa que é necessário estar conectado para publicar comentário. Não sabemos, apenas a partir da página atual, se essa exigência existia em 2016 nem quando foi implantada. Também não conhecemos suficientemente as regras de moderação então utilizadas, quantos leitores efetivamente acessaram a reportagem ou quantos tentaram comentar. Portanto, não transformaremos o pequeno número numa acusação que os documentos disponíveis não permitem demonstrar.

A pergunta documentalmente segura é outra: como foi possível que, entre apenas 21 manifestações, aparecesse tamanha concentração de críticas justamente aos métodos e à estrutura da própria Igreja?

É isso que torna o conjunto interessante. Não são milhares de comentários entre os quais selecionamos algumas dezenas particularmente negativas. São somente 21 manifestações visíveis, e dentro desse universo minúsculo já encontramos preocupações com metas, arrecadação, sobrecarga pastoral, preparo para o batismo, acompanhamento dos membros, recursos das congregações e funcionamento administrativo. O número reduzido não permite medir a extensão do descontentamento, mas a variedade das críticas permite documentar sua existência.

A REVISTA ABRIU A PORTA, MAS A INSTITUIÇÃO NÃO ENTROU NA CONVERSA

Há ainda outra característica interessante. Entre as manifestações atualmente preservadas aparecem leitores concordando, discordando e respondendo uns aos outros. Na página consultada, porém, não aparece uma resposta institucional sistemática às questões mais sensíveis levantadas nos comentários. A reportagem permanece, as críticas permanecem e outros leitores oferecem contrapontos, mas perguntas sobre metas, distribuição de recursos, sobrecarga pastoral e prioridades administrativas não recebem ali uma resposta oficial equivalente.

Isso cria uma espécie curiosa de participação. O membro recebe espaço para falar, mas falar não significa necessariamente ser respondido. Ainda assim, o fato de a crítica permanecer visível possui valor. O silêncio diante de uma pergunta pode ser percebido pelo leitor; uma pergunta que desaparece deixa de poder ser examinada.

NÃO CHAMEM DE “CRÍTICOS” ANTES DE LER O QUE ESTÃO DIZENDO

Essa página oferece também uma advertência importante para qualquer discussão sobre os chamados críticos da Igreja. É muito fácil transformar “crítico” numa categoria homogênea. Os comentários mostram exatamente o contrário. Há quem considere o problema essencialmente espiritual. Há quem enfatize relacionamentos. Há quem critique métodos evangelísticos. Há quem veja centralização pastoral. Há quem fale de dinheiro. Há quem defenda a instituição contra interpretações que considera injustas. Há ainda quem explique seu afastamento em termos de mudança de convicção e acesso a outras fontes de informação.

Não existe ali uma única oposição organizada. Existe uma pequena comunidade de leitores discutindo um problema.

E talvez esse seja justamente o ponto que se perde quando a crítica é tratada primordialmente como ameaça. Descontentamento também é informação. Uma pessoa que reclama pode estar equivocada, mas também pode estar mostrando uma rachadura que as estatísticas administrativas não conseguem explicar. Quando 49 de cada 100 recém-batizados deixam a denominação, ouvir aqueles que estão insatisfeitos não deveria ser considerado uma concessão feita aos críticos. Deveria ser uma das fontes utilizadas para compreender o problema.

PRESERVEM ESTA PÁGINA

Há uma razão adicional para chamar atenção para esses comentários enquanto continuam disponíveis. Páginas da internet mudam. Sistemas são atualizados, bancos de dados são migrados, políticas de comentários são alteradas e conteúdos antigos podem desaparecer por razões editoriais ou simplesmente técnicas. Por isso, esses 21 comentários merecem ser preservados como documentação do que estava publicamente disponível no site oficial.

Existe a possibilidade de que, depois de receberem nova atenção, os comentários sejam retirados. Existe também a possibilidade de que permaneçam exatamente onde estão. Neste momento, não é possível transformar nenhuma dessas possibilidades em fato. Se permanecerem, isso será particularmente significativo: demonstrará que a Revista Adventista conservou durante anos críticas duras à própria instituição em seu espaço de comentários. Se desaparecerem posteriormente, a situação será outra e poderá ser documentada pela comparação entre o que estava disponível antes e aquilo que restou depois.

É justamente por isso que preservar é mais importante do que antecipar uma acusação. Em investigação histórica, não precisamos prever o que alguém fará quando podemos registrar aquilo que já fez — e conservar as condições para demonstrar qualquer mudança futura.

A IGREJA É SUA — INCLUSIVE QUANDO VOCÊ DISCORDA?

Talvez a melhor pergunta deixada por essa página seja também a mais simples. O princípio de que “a Igreja é sua” vale apenas quando o membro trabalha, oferta, evangeliza, constrói, participa e defende a instituição? Ou continua valendo quando ele pergunta por que faltam recursos em sua congregação, questiona metas de batismo, reclama da atuação pastoral, critica prioridades administrativas e pede explicações?

Se a Igreja é realmente dos membros, a segunda possibilidade precisa estar incluída na primeira. Pertencer não é apenas colaborar. Pertencer é também possuir espaço para perguntar o que está sendo feito com aquilo que se ajudou a construir.

Por isso a caixa de comentários de “Perda de fiéis é preocupante” talvez diga algo que a própria reportagem não pretendia dizer. A instituição publicou os números. Um pequeno grupo de leitores começou a oferecer suas próprias explicações. Alguns defenderam a Igreja. Outros a criticaram duramente. Outros falaram de experiências pessoais. E, apesar de serem apenas 21 manifestações, bastaram para colocar diante do leitor questões que ultrapassavam consideravelmente a explicação estatística da evasão.

Não sabemos quantos outros adventistas pensavam da mesma maneira. Não sabemos quantos leram e permaneceram em silêncio. Não sabemos quantos discordavam completamente daqueles comentários. E justamente por não sabermos, não transformaremos 21 pessoas em milhões.

Não precisamos.

Para a finalidade deste artigo, basta aquilo que a própria página demonstra: quando alguns membros receberam espaço para falar no veículo oficial, nem todos utilizaram esse espaço para repetir a explicação oficial. Alguns olharam para dentro da Igreja e disseram que parte do problema poderia estar justamente ali.

Por alguns centímetros de tela, portanto, cumpriu-se de maneira inesperada o velho princípio:

A Igreja é sua.

Se for mesmo, não deveria ser sua apenas quando chega a hora de trabalhar por ela.

Deveria ser sua também quando chega a hora de falar sobre ela.

Nota de preservação: na consulta realizada para a elaboração deste artigo, a página da Revista Adventista ainda mantinha visível o conjunto de 21 comentários associados à reportagem “Perda de fiéis é preocupante”, publicada em 2016. O registro dessa situação é importante para permitir futuras comparações caso o conteúdo da página seja posteriormente alterado.

Fonte consultada: Revista Adventista, Márcio Tonetti, “Perda de fiéis é preocupante”. :contentReference[oaicite:13]{index=13}

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