Pode um adventista crer na literalidade dos “gafanhotos intraterrestres” da quinta trombeta do Apocalipse?




OBS. Discordamos obviamente dessa interpretação do amigo pastor Marcos Ribas quanto ao arrebatamento pré-advento e em relação à ordem divina para que essas estranhas criaturas que vivem no submundo terrestre, firam aqueles que não receberem o selo da aprovação divina. Em nossa opinião, trata-se simplesmente de uma permissão limitada para que esses estranhos demônios ajam.




Evidentement4e, nos vídeos acima, o pastoral influencer Marcos Ribas e o geofísico e pesquisador cristão-nazareno Afonso de Vasconcelos propõem um cumprimento literal para a quinta trombeta do Apocalipse, à semelhança do que fazem nossos irmãos do movimento “World Last Chance”, que interpretam a quinta trombeta como uma invasão literal da superfície terrestre por demônios vindos do abismo.




Na interpretação tradicional adventista do significado da quinta trombeta do Apocalipse o sentido do texto é alegórico, simbólico, não-literal. A quinta trombeta representaria o surgimento e o progresso do Islamismo na Arábia a partir do século VII da era cristã. E a Arábia teria sido chamada “o poço do abismo”, por causa de seus desertos e áreas vazias.

Supondo que cinco meses em profecia equivalem a 150 anos (30 dias x 5 = 150 dias proféticos/anos literais), teólogos adventistas, como Leandro Quadros, defendem que “esse período se cumpre entre 27 de Julho de 1299, quando Otman (ou Osman), fundador do Império Otomano, invadiu pela primeira vez o território de Nicomédia, até 27 de julho de 1449, quando Constantino XII, último imperador grego, chega ao trono com a permissão do sultão do Império Otomano”.

“A profecia revela que surgiria um rei cujo nome era “destruidor” (Abadom e Apolion – Apocalipse 9:11), e junto com seus súditos, representados pelos turcos otomanos, assolariam as províncias do Império Romano do Oriente. Como hordas de gafanhotos (soldados) saíram do fumo do maometismo e se lançaram a guerra até 27 de Julho de 1449, quando terminam os 150 anos do soar da quinta trombeta.”

Pode um adventista discordar da interpretação tradicional das Trombetas do Apocalipse?

Ao falar sobre a tradicional interpretação historicista das trombetas (ou “berrantes”?) do Apocalipse, Ángel Manuel Rodríguez, ThD, diretor aposentado do Instituto de Pesquisa Bíblica, admite literalmente que temos “problemas”:

“Um ciclo visionário de Apocalipse que se provou ser um dos mais difíceis de interpretar é Apocalipse 8-11, as sete trombetas. A linguagem e as imagens são complexas e sua aplicação a um determinado evento histórico tem resultado numa variedade de pontos de vista. Esta incerteza de interpretação pode ser confusa para os membros da igreja e para os interessados em descobrir nessa profecia apocalíptica uma interpretação clara e final.”

No texto “Significado e Natureza da Profecia Bíblica” publicado pelo Instituto Bíblico de Missões da UNB, o Pr. Rafael Monteiro enumera três diferentes modalidadesde historicismo na interpretação profética dos livros de Daniel e o Apocalipse, admitindo inclusive a possibilidade de aplicação do chamado “princípio apotelesmático”, formulado e defendido por Desmond Ford, já falecido e tido como herege pelo adventismo por sua discordância com a doutrina do Juízo Investigativo:

“Dependendo da maneira como é suposto que o material profético prediz os eventos da História, o intérprete irá se valer de uma ou mais de uma das diferentes modalidades de historicismo. Estas podem ser assim referidas:

Sequência linear. Futuros eventos são descritos um após o outro até o fim dos tempos. Há uma ordem cronológica para a maior parte dos eventos previstos na profecia. Essa posição foi adotada por Lutero e mais recentemente por Hengstenberg (1852).

“Esta modalidade pode aparecer na feição desdobrativa, adotada por Robert Hauser.91 Para esse autor os 7 selos, por exemplo, devem ser vistos como um desdobramento da 7ª igreja, Laodicéia. ‘Os 7 selos devem ser tratados como eventos escatológicos ou dos últimos dias, tendo a ver com o juízo investigativo.’92 Assim o segundo bloco de material no Apocalipse aponta para eventos que se cumprem a partir do tempo em que se cumprem os eventos preditos na parte final do primeiro bloco, nesse caso 1844. Pode ser observada uma sequência cronológica aqui.

“Com base nesse raciocínio, teríamos o seguinte: os 7 selos desdobram a 7ª igreja, as 7 trombetas desdobram o 6º e o 7º selos, e as 7 pragas desdobram a 7ª trombeta. O conteúdo de Apoc 12-14 seria uma exposição de como ocorre o cumprimento do ‘mistério de Deus’ como fato da 7ª trombeta (10:7).

Recapitulação. A profecia apocalíptica descreve os mesmos eventos várias vezes, de diferentes perspectivas. Várias séries de visões são, cada uma, diferentes quadros do mesmo conjunto de eventos. O princípio aqui envolvido é: mais de uma profecia para um mesmo evento histórico.

“Essa é a mais antiga modalidade de historicismo conhecida, tendo sido adotada já por Vitorino de Pettau em 304 AD, e por Ticônio um pouco mais tarde, os quais, embora interpretasse o Apocalipse de um ponto de vista mais espiritual, observaram que determinadas porções do livro tocavam determinados acontecimentos que eram re-expostos em outra porção. Exemplo: tanto as trombetas como as taças predizem as punições escatológicas que sobrevirão aos impenitentes.

“Os Adventistas do 7º Dia se valem principalmente desta modalidade ao interpretarem Daniel e Apocalipse.

Re-Ocorrência. Também identificada como apotelesmática, supõe o cumprimento múltiplo de uma profecia. O princípio aqui envolvido é: mais de um evento histórico para uma mesma profecia. No seio do adventismo, Desmond Ford deve ser considerado um recente preconizador desta modalidade. Ele entende que a apotelesmática seria uma solução pelo menos parcial ao impasse criado pelos diferentes sistemas de interpretação, em razão dos pontos fracos de cada um deles. ‘Se o princípio apotelesmático fosse mais amplamente entendido, algumas diferenças entre os sistemas estariam automaticamente resolvidas.’93 

“É inegável que pelo menos algumas porções proféticas deveriam ser interpretadas do ponto de vista da apotelesmática. O chifre pequeno de Dan 8, por exemplo, e o ‘homem vil’ de 11:21 exigem, a nosso ver, um cumprimento no mínimo dual. O discurso escatológico de Jesus, registrado nos Evangelhos Sinóticos, pode igualmente conter algumas predições que requerem um duplo ou mesmo triplo cumprimento.”

Abner F. Hernandez, no artigo “O Código da Profecia”, publicado pela Revista Adventista, exemplifica o princípio apotelesmático adotado duplamente por Desmond Fors ao interpretar Daniel 12, sem excluir a possibilidade de um novo cumprimento futuro:

“A interpretação tradicional adventista, que defende que as profecias de Daniel 12 devem ser interpretadas usando- se o princípio de um dia por um ano (conforme Lv 25:8; Nm 14:34; Ez 4:6, 7) e o método historicista, permaneceu por décadas sem ser desafiada. Contudo, uma série de estudos recentes feitos por teólogos e leigos mudou o panorama. …

“Alberto Timm e Gerhard Pfandl consideram a interpretação futurista a mais desafiadora para a escatologia adventista. Ao que parece, Robert Hauser foi um dos primeiros a apresentar a ideia de um cumprimento futuro dessas profecias. Seu pensamento encontrou eco em alguns membros e até pastores e teólogos. Por exemplo, o Dr. Siegfried Schwantes, teólogo brasileiro, e Kenneth Cox, conhecido evangelista, defenderam um cumprimento literal desses ‘dias’ de Daniel antes da segunda vinda de Jesus. Samuel Nuñez, um erudito na área do Antigo Testamento, também advoga essa interpretação.

“…Não tiveram muita aceitação os cumprimentos múltiplos defendidos por Desmond Ford (o chamado “princípio apotelesmático”) e a abordagem literária de Zdravko Stefanovic. Ford propôs uma interpretação para tentar harmonizar todos os principais sistemas de estudos proféticos (historicista, preterista e futurista). Por sua vez, Zdravko defendeu uma abordagem idealista ou espiritual que minimiza a aplicação histórica das profecias apocalípticas.

“Desmond Ford analisou Daniel 12 a partir de um método histórico-crítico-gramatical-contextual. No prefácio do Commentary of Daniel escrito por Ford, o erudito F. F. Bruce observou que o teólogo adventista redigiu sua dissertação de doutorado ‘com base na exegese primária do texto bíblico’, enquanto no comentário ele explorou o ‘senso plenário’ das visões de Daniel. Ford esboçou brevemente sua posição a respeito dos 1290 e dos 1335 dias, dizendo que essas datas poderiam ser entendidas pelo princípio do dia-ano ou dia-dia. Assim, esses períodos teriam dois cumprimentos completos. Para ele, a profecia se cumpriu com Antíoco Epifânio e suas ações repulsivas no templo de Jerusalém. Um cumprimento secundário teria ocorrido ao longo da história da igreja medieval, com ‘a supremacia do anticristo entre 538 e 1798’. Mas Ford não limitou os possíveis cumprimentos dessas profecias a esses dois eventos, pois haveria outro provável cumprimento nos últimos dias.

“Há poucos anos, Zdravko Stefanovic, professor de estudos em Antigo Testamento, escreveu um comentário sobre Daniel intitulado Daniel: Wisdom to the Wise, que recebeu elogios por apresentar novas perspectivas e, ao mesmo tempo, preservar a compreensão histórica adventista.

“…A interpretação adventista tradicional das profecias de Daniel [e o apocalipse] continua válida e faz parte da nossa identidade escatológica. Contudo, aproveitando o conceito de ‘verdade presente’ tão caro ao adventismo, ela pode ser refinada e se beneficiar da mentalidade pós-moderna para apresentar novos aspectos e apoiar uma contínua expectativa da segunda vinda de Jesus.”

Por todas as razões acma mencionadas, insistimos em publicar aqui no Adventistas.Com interpretações de Daniel e do Apocalipse, que destoam da visão tradicional adventista, mas são evidentemente também cabíveis, considerando-se que a própria igreja já admite, ainda que de forma minoritária, uma multiplicidade de possíveis cumprimentos de palavras proféticas, divinamente inspiradas.

“Temos, assim, tanto mais confirmada a palavra profética, e fazeis bem em atendê-la, como a uma candeia que brilha em lugar tenebroso, até que o dia clareie e a estrela da alva nasça em vosso coração, sabendo, primeiramente, isto: que nenhuma profecia da Escritura provém de particular elucidação; porque nunca jamais qualquer profecia foi dada por vontade humana; entretanto, homens [santos] falaram da parte de Deus, movidos pelo Espírito Santo.” 2 Pedro 1:19-21

1 comentário em “Pode um adventista crer na literalidade dos “gafanhotos intraterrestres” da quinta trombeta do Apocalipse?”

  1. Gostaria de parabenizar o irmão pelo artigo. De forma respeitosa, mostrou as diferentes interpretações que existem com relação a um assunto tão importante. Acredito que assim podemos crescer no conhecimento da Palavra de Deus. Existem profecias que precisamos continuar estudando e pedindo a Deus compreensão, e não apenas dizer que um ponto de vista é o correto, finalizando o assunto e tomando por herege quem entende diferente.

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