
Introdução: quando o texto não fecha a realidade
Há textos bíblicos e intertestamentários que não foram escritos para satisfazer curiosidade geográfica nem para alimentar sistemas fechados de interpretação. Eles existem para afirmar fatos, estabelecer limites e, deliberadamente, deixar zonas abertas. 2 Esdras 13:40–45 é um desses textos.
Ali se afirma, sem metáfora suavizante, que as tribos do norte foram levadas a uma terra “onde nunca havia habitado homem”, fora do conhecimento comum, preservada e oculta “até o último tempo”. O texto não relativiza a afirmação, não introduz condicionais temporais e não fornece coordenadas. Ele declara e silencia.
Este artigo não tem o objetivo de localizar Arzareth, nem de escolher uma hipótese preferida. Seu propósito é mapear honestamente todas as possibilidades plausíveis que o texto permite, cruzando-as com a cosmologia bíblica mais ampla — especialmente no que diz respeito à existência de domínios inferiores, ocultos e habitados, claramente afirmados nas Escrituras. Nomear hipóteses não é o mesmo que dogmatizá-las. Pelo contrário: é respeitar o alcance do texto sem amputá-lo.
O que 2 Esdras afirma — e o que não afirma
O texto de 2 Esdras afirma explicitamente:
– houve uma retirada deliberada das tribos
– para uma terra onde nunca havia habitado homem
– essa terra estava fora do conhecimento comum
– ela permaneceu oculta
– essa ocultação se estende até o último tempo
O texto não afirma:
– onde essa terra está
– se é continental, subterrânea, isolada ou separada por intervenção divina
– se permanece acessível
– como será revelada
– se envolve apenas humanos ou outros seres
Esse silêncio não é falha; é recurso literário e teológico.
O princípio bíblico do ocultamento real
A Escritura trabalha com um princípio constante: Deus oculta realidades inteiras até o tempo determinado, não apenas ideias.
O Éden foi ocultado após a queda.
O mundo antediluviano foi apagado.
O corpo de Moisés foi escondido.
Elias foi retirado da vista comum.
Daniel afirma que “muitas coisas estão seladas até o tempo do fim”.
Portanto, a ideia de uma terra real, não habitada por homens e preservada fora da experiência humana comum não é estranha ao pensamento bíblico.
A cosmologia bíblica: mais do que superfície e céu
A Bíblia não descreve a criação como uma realidade bidimensional (céu acima, terra no meio, nada abaixo). Ela trabalha com camadas/domínios distintos:
– céus
– terra habitada
– mar (domínio liminar e caótico)
– profundezas, abismo, “debaixo da terra”
Essa estrutura aparece de forma consistente.
Em Apocalipse 5:13, há criaturas no céu, na terra, no mar e debaixo da terra.
Em Filipenses 2:10, todo joelho se dobra nos céus, na terra e debaixo da terra. Isso não é figura retórica isolada; é linguagem cosmológica recorrente.
Daniel 7: Poderes que sobem, não que nascem
Em Daniel 7, os poderes que governam o mundo humano não surgem da sociedade comum. Eles sobem do mar, um domínio associado ao caos e ao abismo.
As bestas:
– não são criadas na terra dos homens
– emergem de um domínio inferior
– governam temporariamente
– são julgadas por um tribunal superior
Daniel estabelece um eixo vertical da história: o que governa a superfície vem de baixo e é julgado de cima.
Jó: Habitantes das profundezas e criaturas não humanas
O livro de Jó é decisivo para quebrar a ideia de que “debaixo da terra” significa apenas sepultura.
Jó 26 fala de habitantes que tremem debaixo das águas.
Sheol é apresentado como região real, exposta diante de Deus.
Leviatã, em Jó 41, é descrito como criatura que o homem não domina, associada às profundezas, conhecida e controlada apenas por Deus.
O texto não trata essas descrições como alegorias psicológicas, mas como realidades ontológicas fora do alcance humano.
Ezequiel: descidas literais a regiões inferiores habitadas
Em Ezequiel 26–32, reis e nações são descritos descendo às partes mais baixas da terra. Ali encontram outros já existentes. Há memória, hierarquia e continuidade.
O “abaixo” em Ezequiel não é aniquilação, mas deslocamento de domínio.
Apocalipse 9 e 11: o abismo como domínio selado e funcional
Apocalipse remove qualquer ambiguidade residual.
Em Apocalipse 9, o abismo:
– é fechado
– possui chave
– é aberto por permissão
– contém entidades vivas
– sua abertura afeta o mundo físico
Em Apocalipse 11, a besta sobe do abismo, ecoando diretamente Daniel 7.
Aqui o texto é operacional, não simbólico: o abismo é um domínio real, selado, habitado e liberado apenas por decreto divino.

Hipóteses plausíveis sobre Arzareth (sem imposição)
Diante desse quadro, o que se pode afirmar é que Arzareth não é uma impossibilidade bíblica, qualquer que seja sua natureza. O texto permite, sem exigir, as seguintes hipóteses:
1) Regiões continentais não ocupadas
Territórios reais, fora do alcance civilizacional do mundo antigo, jamais habitados por homens até aquele momento.
Hipótese histórica clássica, plausível, mas limitada pela expansão posterior da ocupação humana.
2) Dispersão múltipla com ocultamento progressivo
Não um único local, mas vários, com preservação identitária fragmentada e revelação apenas no tempo do fim.
Coerente com Isaías, Ezequiel e Romanos 11.
3) Regiões inferiores ou cavitárias
Domínios abaixo da superfície comum, compatíveis com a cosmologia bíblica de camadas, habitados por seres não humanos, ocultos da experiência humana.
Não afirmado explicitamente, mas não negado pela Escritura.
4) Terra separada por intervenção divina direta
Uma região real, preservada e ocultada por Deus, fora do fluxo normal da história humana, assim como o Éden pós-queda.
Hipótese teológica, não cartográfica.
5) Realidades ainda não reveladas
Domínios cuja existência só será plenamente conhecida no “último tempo”, conforme o próprio texto de 2 Esdras indica.
Essa hipótese não depende de modelos cosmológicos modernos; depende apenas do reconhecimento de que Deus ainda não revelou tudo.
O limite honesto da interpretação
O erro não está em nomear hipóteses.
O erro está em fechar o texto.
A Bíblia afirma a existência de:
– domínios ocultos
– criaturas não humanas
– regiões fora da experiência comum
– realidades seladas até o tempo determinado
Ela não fornece mapas. Ela fornece marcos.
Etimologia
Quanto à etimologia de Arzareth, o próprio termo reforça a ideia de separação e ocultamento mais do que de localização geográfica definida. A forma mais aceita entre estudiosos parte de uma raiz semítica associada a separar, retirar, reservar ou apartar, próxima a verbos hebraicos usados para indicar algo posto à parte por decisão soberana, e não simplesmente distante.
Alguns veem em Arzareth uma construção que pode ser entendida como “terra retirada”, “terra reservada” ou “terra separada”, o que harmoniza perfeitamente com a descrição do texto: um lugar fora do conhecimento comum, onde nunca habitou homem e que permanece oculto até o último tempo.
Outros sugerem que o nome funcione menos como topônimo clássico e mais como designação teológica, semelhante a termos bíblicos como Éden, Sheol ou Abismo, que descrevem realidades reais, mas não imediatamente cartografáveis.
Assim, o próprio nome Arzareth parece carregar em si a ideia central do texto: não apenas um lugar distante, mas um espaço deliberadamente apartado por Deus, preservado fora da história visível, aguardando o momento em que aquilo que foi oculto será finalmente revelado.
Conclusão: fidelidade ao texto exige abertura, não certeza artificial
A leitura mais fiel de 2 Esdras não é a que escolhe uma hipótese, mas a que recusa eliminar possibilidades que o texto não elimina.
Arzareth permanece:
– real
– não habitada por homem
– fora do conhecimento comum
– preservada por Deus
– ligada ao tempo do fim
Onde está?
Como é?
Quem a habita?
Essas respostas pertencem ao mesmo conjunto que Daniel chama de “coisas seladas”.
A Escritura não nos pede que inventemos respostas.
Ela nos pede que não amputemos o mistério.
Se algum dia essas coisas forem reveladas, não será por dedução humana, mas por iniciativa divina — exatamente como o texto afirma.

