A Igreja do Meu Sonho

Eles também guardavam o sábado, descriam da imortalidade da alma e esperavam o iminente retorno de Cristo, que ocorreria após o término de Seu ministério no santuário celestial. Mas os costumes daquela congregação eram um pouco diferentes dos adotados por outras que conheço.
Havia líderes, mas estes eram apenas escolhidos por todo o grupo. E exerciam atividades paralelas, das quais obtinham seu sustento. Desse modo, não podiam ser acusados de trabalhar por amor ao salário ou por não servirem para outra coisa. Além disso, ninguém tinha autoridade sobre eles; e eles não dominavam sobre o grupo. Apenas coordenavam os trabalhos.
A congregação possuía um local adequado para suas reuniões, onde havia inclusive condições para recreação sadia. Nem sempre, porém, seus encontros ocorriam naquele lugar. Às vezes, dividiam-se em grupos menores e realizavam seus cultos nas casas de alguns dos membros. Noutras ocasiões, reuniam-se em praças públicas ou junto à Natureza.
Nas reuniões, incentivavam a participação, não a reverência. E um deles me explicou porque: “Para muitos, reverência é sinônimo de silêncio e não-participação. Na verdade, deve ser apenas respeito pelas coisas sagradas.” E acrescentou: “Mesmo o silêncio pode ser irreverente se estiver acompanhado pelo desinteresse, que revela não-valorização do que está sendo tratado.”
Os encontros do grupo eram bem informais. Pareciam uma conversa entre amigos ou uma mesa-redonda, onde todos emitiam tranqüilamente suas opiniões, sem medo de errar e ser ridicularizados. O tema das reflexões era escolhido previamente pelo próprio grupo, de acordo com a necessidade ou interesse. Mas, se alguém tinha uma mensagem especial para transmitir aos outros, apresentava-a. Depois, à luz da Bíblia, todos avaliavam juntos o que fora dito.
Usavam uma versão bíblica de linguagem compreensível a todos. E nos cânticos, davam preferência àqueles que refletissem sua experiência e cuja letra realmente lhes traduzisse os sentimentos.
Todos sentiam prazer em pertencer àquela congregação e falavam disso a seus vizinhos e amigos. Era assim que o grupo crescia. As pessoas vinham, ficavam impressionadas com a fraternidade e as idéias do grupo, e logo manifestavam o desejo de fazer parte dele.
Confesso que também desejei ser membro daquela congregação. E estava pensando em solicitar que o secretário providenciasse a transferência de meu nome para lá, quando uma estridente campainha soou. Era o despertador! Estava na hora de me levantar para ir ao trabalho na CPB.
Passei o dia todo pensando se voltara ao passado ou viajara ao futuro. — Robson Ramos, texto publicado na Revista Adventista, em junho de 87, pág. 2.
O Editorial de 1987 que a Liderança Adventista Preferia que Nunca Tivesse Sido Publicado

Junho de 1987.
Naquela época eu trabalhava como redator na Casa Publicadora Brasileira, responsável pela Revista Adventista. Era jovem, 24 anos, cheio de convicções e acreditava sinceramente que a missão do movimento adventista era restaurar a simplicidade e a força espiritual da igreja apostólica descrita no Novo Testamento.
Foi nesse contexto que escrevi um pequeno editorial para a página 2 da revista.
O título parecia inocente:
“A Igreja do Meu Sonho”.
Mas aquele texto, aparentemente simples, acabou provocando um desconforto que eu só compreenderia plenamente anos depois.
Um Sonho Estranhamente Familiar
No texto eu descrevia uma congregação que guardava o sábado, rejeitava a doutrina da imortalidade da alma e aguardava o retorno iminente de Cristo após o término de Seu ministério no santuário celestial.
Ou seja, nada ali era estranho à fé adventista.
Pelo contrário: era exatamente aquilo que sempre pregamos.
Mas havia um detalhe importante.
A maneira como aquela igreja vivia sua fé.
Os líderes não dependiam financeiramente da igreja. Trabalhavam em outras atividades e serviam à comunidade por vocação.
Ninguém exercia domínio sobre os demais.
Os líderes apenas coordenavam.
As reuniões não eram cerimônias rígidas conduzidas por poucos diante de muitos espectadores silenciosos.
Eram encontros vivos.
Pareciam conversas entre irmãos.
Todos participavam.
Todos podiam falar.
As reflexões eram avaliadas coletivamente à luz da Bíblia.
Às vezes as reuniões aconteciam no local de culto.
Outras vezes em casas.
Ou ao ar livre.
Era uma comunidade espiritual vibrante.
Uma igreja viva.
O Despertador
No final do texto eu revelava que tudo aquilo era um sonho.
O despertador tocava.
E eu precisava levantar para ir trabalhar na Casa Publicadora Brasileira.
Mas antes de terminar o editorial deixei uma pergunta no ar:
Eu teria voltado ao passado ou viajado ao futuro?
Hoje percebo que essa pergunta continha uma provocação involuntária.
Se a igreja descrita no livro de Atos era parecida com aquela do sonho…
por que nossa realidade institucional parecia tão distante?
Quando um Sonho Vira Problema
O texto foi publicado.
E rapidamente ficou claro que ele havia causado desconforto.
Não porque atacasse doutrinas.
Não porque defendesse ideias estranhas.
Mas porque tocava em algo sensível: a estrutura.
Logo veio uma decisão administrativa.
Fui informado de que seria enviado para o Amazonas.
Pastor distrital.
Igreja do Marco, em Manaus.
O período seria de dois anos.
Não era exatamente uma promoção editorial.
Era uma transferência pastoral.
Na prática, um afastamento da redação.
Recusei.
E pouco tempo depois pedi demissão.
O Que Eu Não Sabia em 1987
Naquele momento eu não imaginava que aquele pequeno editorial marcaria profundamente meu caminho.
Mas marcou.
Porque a pergunta que surgiu naquele texto nunca mais me abandonou.
Alguns anos depois, por incentivo do saudoso irmão Ennis Meier, essa inquietação acabaria dando origem ao Adventistas.com.
Um espaço criado para discutir Bíblia, história da igreja e liberdade de consciência.
Durante quase 30 anos esse site tem reunido adventistas que desejam estudar, investigar e refletir sobre sua fé.
E quando releio hoje aquele texto de 1987, publicado acima, percebo algo curioso:
As perguntas que fazemos hoje já estavam todas ali!
O Sonho Ainda Está Vivo
Continuo acreditando na mesma igreja que descrevi naquele sonho.
Uma igreja centrada na Palavra de Deus.
Uma igreja onde irmãos participam em vez de apenas assistir.
Uma igreja onde a fé não é administrada como um sistema, mas vivida como uma experiência espiritual.
Talvez aquela igreja ainda esteja surgindo. (Nessas três décadas, surgiram várias com irmãos excluídos da IASD.)
Em pequenos grupos.
Em encontros simples.
Em pessoas que decidiram voltar à essência do evangelho.
Se for assim, aquele editorial de 1987 não foi apenas um sonho.
Foi um vislumbre.
Um vislumbre de algo que ainda pode acontecer.
Robson Ramos
Fundador e mantenedor do Adventistas.com