
Vídeo de Williams Costa Júnior tenta explicar o apartidarismo adventista, mas a reação dos próprios membros expõe uma Igreja dividida entre o discurso da neutralidade e uma membresia que, majoritariamente, parece já ter escolhido seu lado
Um vídeo curto publicado por Williams Costa Júnior e repostado no YouTube em 2 de setembro de 2026 acabou produzindo um retrato muito mais interessante do adventismo brasileiro do que talvez pretendesse seu autor. Na gravação, Williams procura explicar uma conhecida posição adventista diante da política: a Igreja não seria de direita nem de esquerda, porque pertence a Jesus. A fórmula é bonita, conhecida e aparentemente conciliadora. O problema começa quando ela desce do púlpito para a caixa de comentários. No início da tarde desta terça-feira, 8 de setembro, apenas seis dias depois da publicação, o vídeo já acumulava aproximadamente 23.300 visualizações, 1.200 curtidas e 310 comentários. E é justamente nesses comentários voluntários que aparece uma realidade muito menos neutra do que a teoria.
Não estamos fazendo pesquisa eleitoral nem pretendendo transformar 310 comentários numa amostra científica dos adventistas brasileiros. Estamos olhando para algo mais simples e, para nosso propósito, extremamente revelador: pessoas que ouviram espontaneamente uma explicação sobre direita, esquerda e apartidarismo e decidiram responder a ela. Pela nossa leitura aproximada das manifestações que expressam posição política identificável, algo próximo de 80% inclina-se para a direita, rejeita explicitamente a esquerda ou associa pautas tradicionalmente identificadas com a direita aos princípios bíblicos. O percentual é uma estimativa editorial a partir dos comentários, não uma estatística sobre toda a denominação. Mas a direção predominante da reação é difícil de ignorar.
O APARTIDARISMO QUE DUROU ATÉ A CAIXA DE COMENTÁRIOS
Talvez nenhum comentário sintetize melhor o fenômeno do que este: “Eu sou adventista e não sou nem da esquerda nem da direita sou de Jesus mais voto no 22.” A frase parece ter sido escrita especialmente para demonstrar a contradição que o vídeo pretendia resolver. A pessoa aceita integralmente a fórmula religiosa — não é de direita, não é de esquerda, é de Jesus — e, antes de terminar a frase, informa uma opção eleitoral perfeitamente reconhecível. Não há nada de errado nisso. Pelo contrário: é justamente essa naturalidade que torna o comentário tão importante. A eleitora é adventista, é cristã, tem convicções religiosas e, quando chega a hora de exercer sua cidadania, escolhe um lado. O problema não está nela. O problema está numa teoria que parece exigir que uma escolha política real seja revestida por uma neutralidade imaginária.
Outros comentaristas dispensaram completamente o revestimento. “Eu sou adventista, voto na direita e não vejo coerência nas políticas libertinas da esquerda”, escreveu um deles. Outro declarou: “Nós que seguimos os 10 mandamentos, nunca seremos de esquerda”. Há quem diga que “quem é cristão de verdade não vota no PT”, quem considere “cristão de esquerda” uma incoerência e quem afirme simplesmente: “Sou da direita”. Em várias manifestações, aborto, drogas, ideologia de gênero, família, comunismo, liberdade religiosa e criminalidade aparecem como critérios pelos quais esses adventistas concluem que a direita está mais próxima de seus valores. Não se trata, portanto, apenas de simpatia por um candidato. Para muitos deles, existe uma associação entre sua cosmovisão religiosa e sua escolha política.
Alguns levam essa identificação a um terreno quase involuntariamente humorístico. “Jesus está assentado à DIREITA do Pai”, lembra um comentarista. Outro recorre a Eclesiastes para dizer que “o coração do sábio se inclina para a direita”. Um terceiro conclui explicitamente que “nós somos de direita aqui” porque a direita representaria o lado escolhido por Deus. Evidentemente, a “direita” dos textos bíblicos não é uma antecipação profética da classificação política surgida muitos séculos depois. Mas justamente por isso esses comentários são tão interessantes: mostram até que ponto alguns cristãos passaram a interpretar a própria linguagem religiosa através da polarização política contemporânea.
NÃO É APENAS PLURALIDADE: HÁ UMA DIREÇÃO PREDOMINANTE
Há adventistas de esquerda nos comentários? Claro que há. Um deles escreve sem rodeios: “Eu sou adventista do sétimo dia, e sou de esquerda sempre fui.” Outro afirma: “Eu sou adventista sempre votei no Lula.” Uma adventista explica detalhadamente que vota em Lula porque considera biblicamente relevantes o cuidado com pobres, viúvas, órfãos e marginalizados. Há ainda críticas à extrema direita, ao bolsonarismo e ao uso político das igrejas. Essas manifestações existem e fazem parte do quadro. O que chama a atenção, porém, é que elas aparecem em proporção muito menor diante da avalanche de comentários que identificam valores adventistas com posições da direita ou rejeitam explicitamente a esquerda.
Por isso, reduzir aquela caixa de comentários à simples “pluralidade” seria perder justamente aquilo que ela revela. Existe pluralidade, mas existe também uma tendência predominante. Boa parte daqueles adventistas não parece estar procurando um centro abstrato entre dois polos. Está dizendo que determinadas pautas da esquerda são incompatíveis com aquilo que entende ser a Bíblia e, por consequência, escolhendo a direita. Podemos concordar ou discordar da avaliação política deles; esse não é o ponto. O fato interessante é que eles fizeram uma escolha que a fórmula do apartidarismo tenta tornar desnecessária.
A IGREJA NÃO TEM LADO — MAS O MEMBRO PRECISA VOTAR
Aqui surge a questão que realmente nos interessa. O adventista brasileiro não vive num mosteiro fora da sociedade. Trabalha, paga impostos, utiliza serviços públicos, sofre os efeitos da economia, depende de decisões judiciais, educa filhos, preocupa-se com segurança, saúde, liberdade religiosa e costumes. E vota. Na cabine eleitoral não existe a opção “sou de Jesus”. Existem candidatos, partidos, programas e projetos de poder. O cidadão precisa escolher, inclusive quando sua escolha é votar em branco, anular ou não comparecer. Até a recusa é uma decisão política com consequências políticas.
O apartidarismo institucional, entretanto, oferece à organização uma posição extraordinariamente confortável. A membresia escolhe, discute, briga, vota e responde pelas consequências de suas opções, enquanto a estrutura denominacional preserva para si a capacidade de dialogar com governos, autoridades e grupos políticos diferentes sem admitir que determinadas aproximações também são escolhas políticas. E é justamente aqui que nossa divergência com essa teoria se torna mais profunda. O problema não é a Igreja ter relações com governos de esquerda ou de direita. Uma organização religiosa precisa conversar com o Estado. O problema aparece quando o silêncio diante de abusos, a acomodação diante de pautas que sua própria membresia considera antibíblicas e as conveniências institucionais são protegidos pelo escudo retórico do “não somos de direita nem de esquerda”.
Os comentários ao vídeo de Williams mostram que boa parte da membresia não compra essa neutralidade com a mesma facilidade. Alguns chegam a acusar diretamente a organização de agir de maneira diferente daquilo que proclama. “A igreja Adventista sempre foi de direita!”, escreve um. Outro afirma que a prática política da denominação seria de direita apesar do discurso. Em sentido oposto, um comentarista acusa a Igreja de ter apoiado Bolsonaro e de somente depois ter recuado. Outro diz ter ouvido dentro de culto adventista afirmações de que o MST seria coisa do demônio e que Lula fecharia igrejas. Há ainda quem reclame de adventistas de esquerda e até quem se declare “horrorizado” por conhecer pastor adventista petista. Essas declarações não precisam ser transformadas em pronunciamentos oficiais da denominação para terem importância. Elas revelam como os próprios membros percebem, disputam e interpretam politicamente sua Igreja.

O PROBLEMA NÃO É TER LADO. É NEGAR QUE SE TEM
Talvez seja hora de dizer algo que parece escandaloso apenas porque o discurso religioso nos acostumou ao contrário: ter posição política não é necessariamente uma vergonha. Um cristão pode olhar para determinada conjuntura, comparar alternativas e concluir que uma delas é menos injusta, menos perigosa ou mais compatível com seus valores. Pode inclusive descobrir depois que estava errado. Pessoas erram. Igrejas erram. Instituições erram. O que transforma um erro político em problema moral muito maior é a incapacidade de reconhecê-lo e a tentativa posterior de reescrever a própria participação na história.
É exatamente por isso que o debate provocado pelo vídeo de Williams Costa Júnior nos leva inevitavelmente de volta a Cuba. Não porque a Revolução Cubana de 1958-1959 seja equivalente à política brasileira de 2026, mas porque aquele episódio coloca a doutrina adventista do apartidarismo diante de um teste histórico extraordinário. Quando a ditadura de Fulgencio Batista parecia condenada e os rebeldes avançavam, adventistas cubanos e estruturas adventistas fizeram escolhas concretas. O Colegio de las Antillas tornou-se parte daquele cenário. Revolucionários receberam alimentação e assistência, feridos foram atendidos, Che Guevara esteve em contato com a instituição, Fidel Castro visitou o colégio, comeu ali, ouviu seu coral e recebeu manifestações de aproximação. Walton J. Brown não aparece nessa história como um turista que passou acidentalmente por Santa Clara. Era o dirigente da instituição que estava no centro dos acontecimentos.
E aqui está uma distinção essencial: nosso problema maior não é dizer que a Igreja Adventista em Cuba apoiou os rebeldes. Naquele momento, diante de Batista e daquilo que os revolucionários prometiam, muitos cubanos acreditaram que aquela era a melhor escolha. Adventistas também acreditaram. A Igreja em Cuba participou dessa esperança e, através de sua estrutura e de seus dirigentes, aproximou-se dos homens que pareciam representar um futuro melhor. O erro histórico não precisa ser transformado retrospectivamente em pecado imperdoável. Bastaria assumir: apoiamos porque acreditamos; fomos iludidos; avaliamos mal aquilo que viria depois; lamentamos as consequências.
“AQUELLO FUE PEOR QUE UN VELORIO”
É justamente o documentário produzido pelos adventistas de Santa Clara que torna essa história tão humana e, ao mesmo tempo, tão dolorosa. Aqueles irmãos preservaram fotografias, procuraram testemunhas e voltaram à memória do Colegio de las Antillas. Não construíram a história de uma comunidade que permaneceu hermeticamente isolada da Revolução. Pelo contrário. A Revolução atravessa suas lembranças. Che está lá. Fidel está lá. Os revolucionários estão lá. A alimentação está lá. O coral está lá. A esperança está lá. E depois chega a intervenção do governo e a ordem para sair.
Uma antiga aluna resumiu a retirada com palavras que nenhuma reconstrução acadêmica conseguiria melhorar: “Aquello fue peor que un velorio. Aquello fue terrible… no te lo puedo describir.” Pior que um velório. É difícil imaginar expressão mais adequada para quem viu desaparecer um lugar que fazia parte de sua formação, juventude, amizades e identidade religiosa. O governo revolucionário que havia recebido ajuda e despertado esperança acabou avançando sobre a instituição que o acolhera. Aqueles adventistas tinham razões de sobra para sentir que haviam sido traídos.
Mas nossa leitura da história não termina na traição do Estado. Há outra sensação que emerge quando observamos o esforço daqueles irmãos para preservar por conta própria suas lembranças: enquanto a comunidade de Santa Clara retornava ao passado, recuperava fotografias e colocava antigos alunos diante das câmeras, a grande estrutura denominacional havia seguido adiante. O colégio continuou sua história em outro lugar; aquelas instalações ficaram para trás e, com elas, uma parte profundamente desconfortável da memória adventista cubana. O que para a burocracia podia transformar-se em capítulo encerrado continuava sendo, para quem viveu aquilo, uma ferida.

ÓRFÃOS DO PAI ESTADO E DA MÃE IGREJA
Talvez seja essa a imagem mais dolorosa deixada pelo Colegio de las Antillas: órfãos do Pai Estado e da Mãe Igreja. De um lado, o Estado revolucionário que primeiro recebeu ajuda, alimentou expectativas e depois tomou aquilo que aqueles adventistas consideravam seu lar educacional e espiritual. Do outro, uma organização religiosa que prosseguiu sua caminhada institucional enquanto aqueles homens e mulheres carregavam consigo uma história que já não parecia confortável de contar em toda a sua extensão. Fidel tomou o colégio. A Igreja mudou o colégio de lugar. Entre uma coisa e outra ficaram os homens e mulheres que haviam acreditado nos dois.
É por isso que não vemos grande escândalo em admitir que a Igreja Adventista tomou posição em Cuba. O escândalo está em transformar posteriormente o apartidarismo numa espécie de borracha histórica. Se uma instituição acreditou que os rebeldes representavam a melhor saída para Cuba, que diga isso. Se foi enganada, que reconheça. Se sua avaliação terminou em desastre, que peça desculpas a Deus e aos homens, preserve as lembranças daqueles que viveram o episódio e prossiga. O que não deveria fazer é permitir que a conveniência posterior transforme participação em silêncio, memória em constrangimento e testemunhas em sobreviventes de uma história que precisa ser reconstruída pedaço por pedaço.
DE CUBA AO BRASIL: A CONVENIÊNCIA DE NÃO TER LADO
É nesse ponto que os comentários ao vídeo de Williams Costa Júnior deixam de ser apenas uma curiosidade das redes sociais. Setenta anos depois de Cuba, encontramos outra geração de adventistas discutindo exatamente a mesma fantasia institucional: a possibilidade de atravessar a política sem fazer política. Williams diz que não somos de direita nem de esquerda, mas de Jesus. Os membros respondem dizendo em quem votam, quais partidos rejeitam, quais pautas consideram antibíblicas, quais governos temem e quais candidatos consideram mais próximos de sua fé. A realidade invade a teoria pela caixa de comentários.
E a maioria politicamente identificável daquela reação, em nossa leitura até este momento, aponta para a direita. Isso torna ainda mais delicado o silêncio institucional diante de comportamentos, abusos e posições da esquerda que esses membros consideram incompatíveis com os princípios que aprenderam na própria Igreja. A questão deixa de ser simplesmente “em quem o adventista deve votar?” e passa a ser: até que ponto o apartidarismo serve para proteger a consciência do membro e até que ponto serve para preservar a liberdade política da própria organização? Porque uma instituição que nunca admite ter lado pode aproximar-se de qualquer lado conforme mudam governos, interesses e circunstâncias, sempre reivindicando para si a mesma inocência suprapartidária.
Talvez os membros tenham compreendido uma coisa que a fórmula institucional insiste em complicar. Somos cidadãos. Escolhemos. Podemos escolher certo e podemos escolher errado. Podemos votar à direita, à esquerda, ao centro ou rejeitar todos. Podemos descobrir amanhã que o candidato em quem confiamos nos decepcionou. A dignidade não está em fingir que nunca escolhemos. Está em responder pelas escolhas que fizemos.
Cuba deveria ter ensinado isso à Igreja Adventista. Aqueles irmãos fizeram uma escolha diante da história. A instituição cubana também fez. A esperança terminou em desilusão, o aliado transformou-se em interventor e o colégio foi perdido. O mais honrado teria sido preservar integralmente essa história e dizer às gerações seguintes: “Foi isso que fizemos. Foi nisso que acreditamos. Foi assim que nos enganamos. Foi este o preço que pagamos.”
Em vez disso, décadas depois, ainda encontramos uma denominação tentando explicar que não é de direita nem de esquerda, enquanto seus próprios membros transformam a caixa de comentários numa eleição informal. E entre centenas de respostas, uma adventista talvez tenha resumido involuntariamente toda a história melhor do que qualquer tratado sobre Igreja e Estado:
“Eu sou adventista e não sou nem da esquerda nem da direita sou de Jesus mais voto no 22.”
Talvez seja exatamente isso. O cidadão pode dizer que pertence a Jesus. Mas, quando chega a hora das escolhas deste mundo, ele escolhe. A Igreja também. O problema nunca foi escolher. O problema é escolher e depois chamar a própria escolha de apartidarismo.





