Veja o que restou do campus adventista de Santa Clara, Cuba

Visita atual ao local onde funcionava o Colégio de las Antillas

Um vídeo recente percorre a antiga área do Colegio de las Antillas, diante da Universidad Central, e registra um cenário que mistura vestígios reconhecíveis do antigo campus, construções transformadas, abandono e memória. O lugar que um dia recebeu centenas de estudantes e esteve no centro dos acontecimentos da Revolução Cubana ainda pode ser reconhecido — mas hoje aparece profundamente descaracterizado.

Depois de tantas semanas trabalhando com documentos, fotografias, anuários, relatos de Walton J. Brown e testemunhos sobre o Colegio de las Antillas, finalmente temos algo diferente diante dos olhos: uma visita contemporânea ao lugar onde aquela história aconteceu. O vídeo percorre de motocicleta a região próxima à Universidad Central de Las Villas e entra no atual reparto Las Antillas, exatamente na área associada ao antigo colégio adventista. (O áudio está em espanhol. Caso não o entenda, configure as legendas automáticas em português no player do YouTube.)

Logo no início do percurso, os autores observam construções bastante deterioradas e levantam a possibilidade de que parte delas tenha pertencido ao antigo estabelecimento; mais adiante, porém, já dentro do setor visitado, reconhecem diretamente o local como o antigo colégio.

A geografia ajuda imediatamente a compreender aquilo que tantos documentos antigos descrevem. A universidade aparece muito próxima, praticamente diante da antiga área adventista. Os visitantes deixam a estrada de Camajuaní, passam pela Universidad Central e seguem para Las Antillas, explicando que o antigo colégio foi transferido para aquela região justamente por sua localização mais central e acessível.

Para quem vem reconstruindo a Batalha de Santa Clara a partir de textos, essa proximidade espacial impressiona: de repente compreendemos fisicamente como estudantes, professores, guerrilheiros e administradores podiam atravessar de um lado para o outro e por que universidade e colégio aparecem tantas vezes entrelaçados nos relatos de dezembro de 1958.

“MIRA, ESTO ES EL COLEGIO ADVENTISTA”

O momento mais importante ocorre por volta dos nove minutos e quarenta segundos. Depois de contornar a área, os visitantes olham para as construções e dizem diretamente: “Mira, esto es el colegio adventista”. Pouco depois identificam uma inscrição correspondente ao “Hogar de Varones” e comentam que ao lado provavelmente existia a área feminina.  É um detalhe precioso porque transforma o vídeo em algo maior do que simples passeio por um bairro que herdou o nome Las Antillas. A câmera chega a um vestígio funcional reconhecível do antigo campus: o alojamento masculino.

Também aparecem elementos que ajudam a imaginar o antigo conjunto arquitetônico. Os visitantes observam um tanque de água, vegetação antiga, caminhos e edificações em diferentes graus de conservação; em determinado momento comentam como “todo se ha ido destruyendo”.

Mais tarde, ao sair da área, uma das vozes resume sua impressão numa frase carregada de melancolia: “La Antilla está triste, está desolado.” Para quem conhece as fotografias dos anos 1950 — jardins cuidados, edifícios escolares, dormitórios, estudantes uniformizados, coral, fazenda e intensa vida acadêmica — o contraste é particularmente forte.

O LUGAR ONDE A HISTÓRIA DEIXOU DE SER PAPEL

Até aqui trabalhávamos sobretudo com páginas. Brown descrevendo a comunidade escolar; anuários mostrando estudantes e professores; fotografias registrando edifícios; documentos falando da universidade “do outro lado da estrada”. O vídeo permite juntar essas informações numa paisagem real. A Universidad Central continua ali. A estrada continua ali. O setor conhecido como Las Antillas continua carregando o nome. E, dentro dele, ainda aparecem construções associadas ao antigo colégio. O espaço ajuda a compreender que os acontecimentos descritos por Brown ocorreram numa área compacta, onde duas instituições educacionais praticamente se olhavam através da estrada.

Isso é particularmente importante para a reconstrução dos dias finais de dezembro de 1958. Quando Brown relata estudantes atravessando para a universidade, homens de Che circulando naquela região, alimentação sendo levada aos revolucionários e dirigentes adventistas indo pessoalmente falar com Guevara, não estamos tratando de lugares separados por quilômetros. A visita moderna torna concreta a proximidade que os textos repetem. O vídeo percorre primeiro a universidade e poucos minutos depois entra em Las Antillas.

O ANTIGO CAMPUS SOBREVIVE MAIS NA MEMÓRIA DO QUE NA PAISAGEM

O que mais impressiona é perceber como o espaço foi absorvido pelo tempo, pelas transformações urbanas e pelo abandono. Os visitantes encontram casas, caminhos deteriorados, áreas descaracterizadas e construções cujo uso original já não é evidente. Em vários momentos eles próprios precisam tentar compreender o que pertenceu ao antigo colégio e o que foi acrescentado posteriormente. Essa incerteza precisa ser preservada: o vídeo é excelente para reconhecer o espaço atual, mas não autoriza atribuir automaticamente cada ruína ao Colegio de las Antillas. Os próprios narradores por vezes utilizam expressões como “seguramente pertenecía” ou “parece que era”, mostrando que também estão reconstruindo o local enquanto o percorrem.

Por outro lado, quando aparece a identificação direta do colégio e, sobretudo, o antigo Hogar de Varones, a visita ganha enorme valor para nossa investigação. É possível começar a confrontar as imagens atuais com fotografias e plantas antigas, localizar dormitórios, entrada, tanque de água, vias internas e outros pontos do campus. Esse será provavelmente o caminho mais seguro para reconstruir visualmente a propriedade: não confiar apenas na memória dos visitantes, mas colocar lado a lado o vídeo atual, os anuários de 1956 e anos posteriores, fotografias históricas e descrições de Brown.

“A ANTILLA ESTÁ TRISTE”

A frase dos visitantes merece permanecer porque traduz a força emocional da cena. Eles chegam imaginando encontrar um pequeno bairro ligado a uma antiga escola e, ao percorrer a área, reagem ao abandono: “La Antilla está triste, está desolado.”

Não é uma conclusão historiográfica; é a impressão de quem está fisicamente ali. Mas ela ganha peso quando colocada ao lado das imagens antigas. O mesmo lugar que aparece nos anuários repleto de jovens, árvores cuidadas, edifícios em funcionamento e atividades escolares hoje apresenta outra paisagem.

É quase impossível não imaginar Walton J. Brown atravessando aquele terreno. Agora que também recuperamos fotografias muito mais nítidas de sua fisionomia no período, a distância entre documento e personagem diminuiu. Podemos olhar para o rosto de Brown, olhar para as fotografias históricas do campus e depois acompanhar uma câmera passando pelo que restou do lugar onde ele viveu aqueles acontecimentos. O personagem, o livro e o espaço começam finalmente a se encontrar.

AGORA PODEMOS RECONSTRUIR O CAMPUS COM MUITO MAIS PRECISÃO

Esse vídeo abre uma nova etapa interessante para o trabalho do Adventistas.Com. A partir dele, podemos identificar pontos visíveis hoje e compará-los com os anuários antigos do Colegio de las Antillas. O Hogar de Varones já oferece um primeiro ponto de ancoragem. A proximidade da Universidad Central fornece outro. O tanque de água, as árvores antigas, os caminhos e as edificações remanescentes podem ajudar a determinar orientação e distâncias. E as fotografias dos anos 1950 poderão dizer quais dessas estruturas já existiam quando Brown dirigia a escola.

Isso nos permitirá produzir ilustrações históricas muito mais fiéis. Não apenas o rosto de Walton Brown poderá agora ser reconstruído com referências reais; o próprio cenário poderá deixar de ser uma representação genérica de “um colégio cubano dos anos 1950” e aproximar-se do espaço verdadeiro onde ocorreram as cenas documentadas: a chegada dos rebeldes, os estudantes aproximando-se deles, os jipes, os feridos, o refeitório, os deslocamentos até a universidade e toda a extraordinária sequência que culminaria na aproximação entre o colégio e os vencedores da Revolução.

Depois de encontrarmos Walton Brown, agora também podemos voltar ao lugar onde sua história aconteceu.

E o lugar ainda está lá — transformado, descaracterizado e, nas palavras de quem o percorreu, triste e desolado —, mas suficientemente reconhecível para que a investigação continue.

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