Testemunho raro em encontro de ex-alunos descreve aventura autorizada em que estudantes quase foram mortos, bombardeio aéreo contra o colégio adventista, prisão de alunos e professores que trabalhavam na gráfica e evento em que depois de ser homenageado pelo coral da escola como grande líder, Fidel usou o banheiro feminino.

O relato que publicamos a seguir foi apresentado durante o evento “Concierto con el Colegio de las Antillas”, realizado em 3 de setembro de 2024 na Winter Park Spanish SDA Church. Em meio ao reencontro de antigos alunos, fotografias, lembranças e apresentações relacionadas à história do colégio, um dos ex-estudantes, Orlando Mastrapa, começou a reconstruir diante dos próprios colegas episódios que havia vivido em Santa Clara durante os anos da Revolução Cubana.
Não se tratava de uma entrevista preparada por historiadores, nem de um texto escrito décadas antes para publicação oficial. Era memória oral sendo recuperada diante de pessoas que haviam compartilhado aquela mesma instituição, reconheciam nomes, rostos e lugares e, em alguns momentos, ajudavam o próprio narrador a completar recordações.

É justamente esse contexto que torna o material tão importante. Quando utilizamos esse depoimento anteriormente, chamamos atenção principalmente para um detalhe impressionante: durante a visita de Fidel Castro ao Colegio de las Antillas, o coral da instituição cantou o hino do Movimento 26 de Julho e o doutor Walton J. Brown acrescentou duas estrofes, uma delas iniciada, segundo a lembrança de Mastrapa, por palavras como “Fidel, grande líder”.
Esse episódio já era suficiente para revelar uma proximidade simbólica muito maior do que normalmente aparece nas narrativas denominacionais. Mas, ao examinarmos agora a transcrição completa, percebemos que o depoimento guarda algo ainda mais relevante.

Mastrapa relata um incidente que, até o momento, não encontramos narrado em nenhuma outra fonte consultada: estudantes do Colegio de las Antillas deixaram o campus acompanhando um grupo de rebeldes para buscar ovos e galinhas numa propriedade rural, depois de receberem autorização que lhes foi apresentada como tendo vindo do próprio doutor Brown. Durante o deslocamento, o grupo ficou exposto a ataques aéreos e metralhamentos na região de Santa Clara.

Os estudantes precisaram abandonar o jipe, atirar-se em valas e esconder-se em meio à vegetação. Mastrapa recorda que uma bala passou tão perto dele que ouviu seu assobio e, convencido de que morreria, escreveu no próprio braço: “Orlando Mastrapa, Colegio de las Antillas”, para que seu corpo pudesse ser identificado.

Esse episódio muda a dimensão documental do material. Já não estamos apenas diante de rebeldes que ocasionalmente apareciam para comer na cafeteria do colégio. O próprio ex-aluno descreve estudantes saindo com eles do campus, participando de uma busca de suprimentos e compartilhando os riscos de uma operação realizada em plena zona de combate. E esse é apenas um dos episódios preservados naquele testemunho.

Mastrapa também relata a queda de uma bomba dentro do terreno do colégio, a denúncia de que a gráfica da instituição estaria produzindo propaganda contra a Revolução, a prisão de catorze estudantes e professores, a chegada posterior de Fidel Castro para almoçar no campus e a apresentação do coral diante do líder revolucionário.

Temos, portanto, um documento oral de valor excepcional. Ele reúne, numa mesma memória, rebeldes comendo com estudantes, alunos acompanhando guerrilheiros fora do campus, bombardeios, atividade gráfica politicamente suspeita, prisões, a presença de Fidel Castro e a participação pessoal de Walton J. Brown em momentos decisivos. O fato de esse material ter sido apresentado num reencontro de ex-alunos, diante de colegas que podiam reconhecer pessoas e situações, acrescenta outra camada de interesse histórico ao registro.

Mais do que uma curiosidade sobre duas novas estrofes acrescentadas a um hino revolucionário, o vídeo do reencontro de 2024 preserva uma peça importante para reconstruirmos a história do Colegio de las Antillas durante a Revolução Cubana — inclusive um episódio que, até agora, permaneceu fora das demais fontes conhecidas.

“O doutor Brown disse que sim, que podíamos ir”
Mastrapa começa mostrando uma fotografia e procurando identificar algumas das pessoas que aparecem nela. Em seguida, passa a falar sobre os rebeldes que haviam chegado à região e que frequentavam a cafeteria do Colegio de las Antillas. Segundo ele, esses homens comiam junto com os estudantes. Em uma dessas ocasiões, enquanto estava sentado à mesa com dois ou três rebeldes, um deles fez um convite: perguntou se alguns alunos gostariam de acompanhá-los até a propriedade rural de um americano para buscar ovos e galinhas.

O americano, segundo a lembrança de Mastrapa, chamava-se Haight. Diante do convite, ele respondeu que os estudantes não poderiam simplesmente sair do campus; precisariam antes pedir autorização ao doutor Brown. Um dos alunos, Enrique Garbo, correu para procurá-lo. Pouco depois voltou trazendo a resposta: o doutor Brown havia autorizado a saída.

Mastrapa admite que o grupo chegou a duvidar da informação. Parecia difícil acreditar que o doutor Brown realmente tivesse permitido que estudantes deixassem o colégio acompanhando um grupo de rebeldes em plena guerra. Ainda assim, eles foram. Mastrapa entrou num jipe. Ele recorda também a presença de Ovet Amado, Rafael Curbelo e Héctor Torres, além de outro estudante cujo nome já não conseguia lembrar.

Do campus para a estrada, em meio a bombardeios
Assim que deixaram o terreno do colégio e chegaram à estrada de Camajuaní, viraram à esquerda em direção à ponte do rio Ochoa. Foi então que o motorista do jipe lhes deu uma ordem inesperada: todos deveriam descer e se jogar dentro da vala. Segundo ele, a pequena aeronave que se aproximava servia como aviso de que atrás dela vinha outro avião equipado com metralhadoras.

Os estudantes obedeceram. Jogaram-se no chão e esperaram a passagem das aeronaves. Assim que o perigo imediato passou, voltaram para o jipe e continuaram em direção à propriedade rural. A viagem, porém, transformou-se numa sucessão de interrupções. Depois de atravessarem a ponte do rio Ochoa, os aviões voltaram. Segundo Mastrapa, eles sobrevoavam a região, atacavam Santa Clara e a Universidade Central, davam a volta e retornavam.

O grupo precisava parar repetidamente, abandonar a estrada, jogar-se no chão e procurar abrigo. Em determinado momento, já numa estrada vicinal que levava à propriedade do americano, o responsável pelo grupo concluiu que não era possível continuar. Eles teriam de se esconder onde estivessem.

O problema era que praticamente não havia onde se proteger. Mastrapa se recorda de um pequeno pasto coberto por uma vegetação tão baixa que nem sequer escondia sua cabeça. Foi ali que ouviu uma bala passar muito perto. O ruído ficou gravado em sua memória. Ao ouvir o assobio do projétil, teve certeza de que morreria.

“Escrevi no braço: Orlando Mastrapa, Colegio de las Antillas”
Convencido de que talvez não sobrevivesse, Mastrapa tomou uma decisão desesperada. Escreveu no próprio braço seu nome e sua identificação: “Orlando Mastrapa, Colegio de las Antillas.” Queria que, caso fosse morto, seu corpo pudesse ser reconhecido e relacionado ao colégio.

O ataque terminou somente no final da tarde. Por volta das cinco horas, segundo sua lembrança, as aeronaves deixaram de bombardear e circular sobre Santa Clara. Quando o grupo voltou para a estrada, encontrou uma camponesa próxima ao jipe. Ao vê-los vivos, a mulher reagiu com espanto: imaginava que todos tivessem morrido, porque o ataque havia sido terrível.

Ao retornarem ao Colegio de las Antillas, os estudantes descobriram que a violência da guerra também havia alcançado diretamente o campus. Uma das bombas lançadas durante os ataques, que segundo a informação recebida por eles tinha Che Guevara como alvo, havia caído dentro do terreno do colégio.

A gráfica do colégio e a acusação de propaganda contra a Revolução
O depoimento de Mastrapa prossegue revelando outro episódio pouco conhecido. Com a saída de funcionários americanos, mudanças ocorreram na biblioteca e na gráfica da instituição. Roberto Castro, que havia assumido a chefia da gráfica e era amigo próximo de Mastrapa, convidou-o a deixar a fábrica de doces do colégio e passar a trabalhar ali.

Foi então que surgiu uma denúncia. Segundo Mastrapa, um “chivato”, expressão cubana utilizada para designar um informante ou delator, acusou a gráfica do Colegio de las Antillas de produzir propaganda contra a Revolução. As autoridades apareceram e prenderam catorze estudantes.

Quando soube que os presos estavam sendo selecionados entre os estudantes ligados à gráfica, Mastrapa acreditou que também seria levado, pois acabara de ser transferido da fábrica de doces para aquele setor. Seu nome, porém, não apareceu na lista. Ele recorda que, além dos catorze alunos, professores também foram detidos. Menciona Roberto Castro, Ashleman e Manuel Carballal, além de uma porto-riquenha chamada Sara Escobar e possivelmente o pastor Adiel Acosta. Segundo sua lembrança, os detidos permaneceram por quase uma semana no ginásio da Universidade de Santa Clara.

Esse episódio é particularmente significativo porque revela que o Colegio de las Antillas não viveu a Revolução apenas como observador distante. Dentro do próprio campus havia atividade gráfica suficientemente sensível para provocar uma denúncia política e uma operação que terminou com a prisão de estudantes e professores.

O testemunho também mostra como as linhas de proximidade e suspeita podiam mudar rapidamente: a mesma instituição em que rebeldes comiam, da qual estudantes saíam acompanhando esses homens e que posteriormente receberia Fidel Castro também podia ser acusada de produzir propaganda contrária ao novo movimento.

Fidel Castro vai almoçar no colégio
Mastrapa então salta aproximadamente um ano e chega a um dos episódios mais conhecidos, mas seu testemunho oferece detalhes pessoais que ajudam a reconstruir a cena. Fidel Castro foi à Universidade Central para inaugurar sua biblioteca. Durante a visita, o doutor Brown recebeu uma mensagem do presidente da universidade informando que Fidel e sua comitiva iriam almoçar no Colegio de las Antillas.

O ex-aluno começa então a identificar pessoas presentes nas fotografias daquele dia. Menciona Alejandro Delgado, conhecido como Bachicha; Luguita; o próprio Mastrapa; o pastor Héctor Torres; Enrique Garmut, que aparece segurando uma bandeja e havia vindo da Nicarágua; e Honora Chávez.

Mas Fidel não apenas almoçou no colégio. O coral da instituição, dirigido pelo doutor Brown, realizou uma apresentação para ele. Foi nesse contexto que ocorreu o episódio que já havíamos destacado anteriormente: ao hino “26 de Julho”, ligado à Revolução, Brown acrescentou duas novas estrofes. Mastrapa não conseguia reconstruí-las integralmente, mas recordava que uma delas começava com uma expressão como “Fidel, grande líder”, seguida de palavras de louvor ou afeto.

Segundo sua lembrança, Fidel ficou emocionado com a apresentação e afirmou que gostaria de estabelecer em Cuba outras instituições semelhantes ao Colegio de las Antillas. Essa declaração dá à cena um significado ainda maior: naquele momento, o colégio não aparecia diante do novo chefe revolucionário apenas como instituição tolerada, mas como modelo que ele publicamente elogiava.

O aperto de mão que ficou na memória
O depoimento ganha então um tom quase doméstico. Fidel precisou usar o banheiro, e Mastrapa, movido pela curiosidade juvenil, correu para se aproximar dele e descobrir se o comandante era realmente tão alto quanto parecia. Colocou-se ao lado de Fidel e constatou que ele era, de fato, mais alto.

Conseguiu também apertar sua mão. Décadas depois, o detalhe continuava vivo na memória. Mastrapa descreveu a mão de Fidel como extremamente macia e lembrou que tinha unhas compridas, algo que lhe pareceu estranho num homem cuja imagem estava associada à guerrilha e às armas. No momento do reencontro, o antigo aluno acrescentou uma comparação amarga, dizendo que hoje aquela mão lhe parecia “como uma serpente”.

Fidel foi levado ao banheiro feminino, situado atrás da capela, próximo à área das estudantes. Ao concluir essa parte do relato, Mastrapa olha retrospectivamente para o destino do colégio e contrasta as palavras elogiosas de Fidel com aquilo que aconteceria depois com a instituição.

Depois de Santa Clara, outras lembranças
Ao encerrar essa parte de sua apresentação, Mastrapa informa que aquela seria a última fotografia relacionada diretamente à sequência que vinha comentando e passa a mostrar outros registros. Aparece então o Colégio de Bartley, cuja entrada havia sido fotografada numa visita que o doutor Brown quis realizar àquela instituição. Em seguida, ele mostra a lavanderia do colégio, instalada junto a um pequeno riacho de onde era retirada a água utilizada naquele serviço, e depois fotografias dos alunos e das salas de aula.

Na sequência, outro participante é apresentado para falar sobre Porto Rico. Antes de começar, ele pede para se posicionar de frente, de maneira que as pessoas possam vê-lo, cumprimenta a audiência com um “Boa tarde, Deus os abençoe” e agradece a quem havia insistido em sua presença naquele encontro, explicando que também fazia parte daquela história.
Ele recorda que, em 1959, vivia na Califórnia e já levava uma vida independente. Seu pai, que estava em Porto Rico, insistia repetidamente para que ele fosse estudar em Cuba. O jovem respondia que não tinha motivo algum para procurar alguma coisa em Cuba, pois estava muito bem estabelecido na Califórnia e, ainda com dezessete ou dezoito anos, já possuía três carros.
O pai, porém, continuou insistindo. O antigo aluno interpreta hoje aquela insistência também em termos religiosos, dizendo que o Espírito Santo estava trabalhando. Finalmente, resolveu ceder: iria para Cuba para satisfazer o pai, mas permaneceria ali apenas durante um ano.
O plano de ficar somente doze meses não se cumpriu como imaginava. Ao chegar a Cuba, conheceu Xenia. Décadas depois, diante dos antigos colegas reunidos, podia concluir sua lembrança dizendo que naquele ano os dois completavam sessenta e dois anos de casamento.
Um documento oral que precisa ser tratado como fonte de primeira importância
Esse testemunho merece muito mais atenção do que recebeu até agora. O episódio das duas estrofes acrescentadas ao hino revolucionário é importante, mas é apenas uma parte do que Mastrapa preservou. Seu relato acrescenta uma dimensão inteiramente nova à reconstrução da relação entre o Colegio de las Antillas e a Revolução Cubana.
Ele afirma que rebeldes frequentavam regularmente o refeitório; que estudantes se sentavam e comiam com eles; que alguns alunos aceitaram acompanhá-los numa missão externa para buscar alimentos; que essa saída foi autorizada, segundo a mensagem levada pelos próprios estudantes, pelo doutor Walton J. Brown; que o grupo enfrentou bombardeios e metralhamentos durante o trajeto; que uma bomba caiu dentro do campus; que a gráfica do colégio foi denunciada por suposta propaganda contra a Revolução; que estudantes e professores foram presos; e que, posteriormente, Fidel Castro e sua comitiva foram recebidos para almoço e homenageados pelo coral da instituição.
Até onde vai o material que temos reunido, a saída de estudantes do Colegio de las Antillas acompanhando rebeldes para buscar alimentos não aparece narrada dessa maneira em outra fonte. Isso transforma o depoimento do reencontro num documento oral especialmente precioso. Não porque devamos tratar cada lembrança de décadas depois como uma transcrição mecânica do passado, mas porque ele preserva um episódio concreto, com personagens, trajetória, lugares e circunstâncias que podem agora ser confrontados com outras evidências.
Mais importante ainda: o relato foi feito diante de ex-alunos, dentro de um ambiente de memória coletiva, e vários nomes e cenas eram apresentados enquanto fotografias eram mostradas aos participantes.
O testemunho, portanto, não deve ser reduzido à curiosidade das “duas estrofes para Fidel”. Ele abre um capítulo até agora praticamente ausente da reconstrução do Colegio de las Antillas durante a Revolução: estudantes adventistas circulando com rebeldes fora do campus, participando de uma busca de suprimentos em plena zona de combate e retornando a uma instituição que, pouco depois, seria simultaneamente suspeita, visitada e cortejada pelo novo poder revolucionário.
É um material que muda a escala da discussão. A relação já não aparece apenas como conversa, simpatia ou hospitalidade. O depoimento coloca estudantes, administração, rebeldes, alimentação, deslocamento, guerra, propaganda, prisão e aproximação política dentro da mesma sequência histórica. Foi isso que a versão resumida anterior deixou escapar.
Vídeo original:
Mais vídeos desse encontro:
Um reencontro anterior:





