
A história completa de uma das mais importantes instituições educacionais adventistas do Caribe — suas origens missionárias, a transferência para Santa Clara, a formação intelectual, espiritual e profissional de gerações de estudantes, a extraordinária estrutura produtiva do campus, os dias em que a Revolução Cubana atravessou seus portões, a aproximação com Che Guevara e Fidel Castro, a perda progressiva da instituição e aquilo que ainda sobrevive, entre ruínas, casas ocupadas, antigos dormitórios e a memória daqueles que viveram ali.
Há oito quilômetros do centro de Santa Clara, na estrada de Camajuaní, diante da entrada da Universidad Central “Marta Abreu” de Las Villas, existe um lugar que ainda carrega um nome capaz de despertar uma torrente de lembranças entre antigos adventistas cubanos: Las Antillas. Quem passa hoje pela região encontra construções alteradas, antigas casas transformadas em moradias, edifícios absorvidos pela universidade, setores abandonados, paredes deterioradas, vegetação avançando sobre espaços que um dia foram cuidadosamente mantidos e vestígios arquitetônicos de uma instituição que, durante décadas, representou muito mais do que uma escola.
O Colegio de las Antillas foi centro educacional, internato, seminário, fazenda, complexo industrial, gráfica, comunidade religiosa, laboratório de formação profissional e, durante os dias decisivos de dezembro de 1958, um dos lugares onde a história política de Cuba entrou literalmente pelos portões de uma instituição adventista. A própria historiografia oficial adventista o define como a instituição educacional emblemática da Igreja em Cuba e na Divisão Interamericana durante grande parte de sua existência em Santa Clara.

Sua história, entretanto, não começou em Santa Clara. As raízes da educação adventista cubana recuam aos primeiros anos da presença denominacional organizada na ilha. Ainda na primeira década do século XX apareceram pequenas experiências escolares em localidades como San Claudio, em Pinar del Río, além de outras escolas mantidas de forma autônoma ou missionária. A educação era entendida desde o início não apenas como transmissão de conhecimentos, mas como instrumento de evangelização, formação de colportores, preparação de obreiros e construção de uma identidade adventista capaz de sobreviver numa sociedade majoritariamente católica e culturalmente distinta da matriz norte-americana da denominação.
Em 1913, a Missão Cubana iniciou uma experiência educacional sob sua supervisão direta e, em 1914, funcionou em Santa Clara uma Escola Preparatória na Loma de Camacho, próximo à ferrovia. A experiência era ainda pequena, com poucas dezenas de estudantes, mas estabelecia um princípio que acompanharia toda a trajetória posterior: estudar e trabalhar faziam parte da mesma pedagogia. Os jovens podiam ajudar a custear sua educação com atividades práticas, venda de livros e trabalho relacionado à escola.
DE BARTLE A SANTA CLARA: UMA ESCOLA PARA TODAS AS ANTILHAS
O passo decisivo ocorreu em 1922, quando a Igreja estabeleceu em Bartle, na então província de Oriente, uma escola de internato destinada à formação mais avançada de obreiros. A instituição ficaria conhecida como Colegio de Bartle e, posteriormente, incorporaria a identidade de Colegio Adventista Industrial e Colegio de las Antillas. Ali se consolidou o modelo que marcaria a instituição durante décadas: educação acadêmica combinada com trabalho manual, agricultura, ofícios, vida religiosa intensa e treinamento missionário.
Bartle recebia estudantes cubanos e gradualmente passou a atender jovens de outras regiões do Caribe, o que transformou a escola de uma instituição essencialmente nacional em um projeto regional da União Antilhana. A denominação precisava formar pastores, professores, colportores e obreiros que conhecessem a língua, a cultura e as necessidades da região, e o colégio tornou-se instrumento central dessa estratégia.
Ao final da década de 1930, porém, a localização de Bartle começou a ser percebida como um obstáculo. A região oriental ficava distante das principais rotas e centros de comunicação do país; havia limitações físicas para a expansão do campus; e uma instituição destinada a servir Cuba, Porto Rico, República Dominicana e outras partes das Antilhas precisava ocupar posição geográfica mais central.
Em 1939, a Divisão Interamericana e a União Antilhana decidiram transferir a instituição para o centro da ilha. Santa Clara apresentava exatamente aquilo que se buscava: centralidade geográfica, acesso ferroviário e rodoviário, espaço para expansão e proximidade de uma cidade universitária importante. A própria Encyclopedia of Seventh-day Adventists registra a decisão de 1939 e a abertura do novo campus em 1940 como continuidade direta da escola de Bartle.

Em 12 de maio de 1940, o colégio abriu as portas em Santa Clara. O campus ficava afastado do centro urbano, mas suficientemente próximo para manter ligação com a cidade e, ao mesmo tempo, possuir fazenda, dormitórios, oficinas, instalações produtivas e espaços que permitissem desenvolver integralmente a filosofia educacional adventista. A instituição passou por diferentes denominações administrativas e acadêmicas. Inicialmente continuou conhecida como Colegio Adventista de Cuba.
O nome Colegio de las Antillas passou a expressar cada vez mais claramente sua vocação regional, e a denominação consolidou-se enquanto estudantes de outros países da União Antilhana chegavam ao campus. Em inglês, a instituição seria mais tarde conhecida como Antillian Junior College e, a partir da ampliação de seus cursos, simplesmente Antillian College.
“A MÃO, A MENTE E O CORAÇÃO”
O lema do colégio resumia sua filosofia: “La mano, la mente y el corazón” — a mão, a mente e o coração. Educação não deveria desenvolver apenas a inteligência. O aluno precisava aprender a trabalhar, pensar, servir, conviver, cuidar do corpo, cultivar disciplina moral e desenvolver espiritualidade. Essa filosofia explica a extraordinária variedade de atividades existentes no campus. Alunos estudavam matérias acadêmicas e religiosas, mas também trabalhavam na agricultura, cuidavam do gado, participavam da produção de alimentos, aprendiam ofícios e podiam desenvolver habilidades profissionais que seriam úteis independentemente de seguirem posteriormente para o ministério pastoral.
O conjunto possuía leiteria, fazenda agrícola, fábrica de conservas, instalações para criação de animais, oficinas e até um tejar para fabricação de tijolos. A produção não era decorativa. Parte dela servia ao consumo da própria comunidade escolar e parte era comercializada, ajudando a sustentar financeiramente a instituição. A fábrica de conservas alcançou importância econômica real e continuou crescendo até os primeiros anos do governo revolucionário; toneladas de produtos chegaram a ser enviadas para Havana.
O trabalho dos estudantes formava mão de obra, reduzia custos e incorporava uma visão religiosa segundo a qual educação integral significava disciplina intelectual e física reunidas no mesmo projeto. A instituição oficial adventista registra inclusive que suas indústrias prosperaram até 1960, quando a fábrica de conservas ampliou produção e adquiriu novos equipamentos.

A gráfica ocupava posição igualmente importante. Ali eram produzidos materiais internos e circulava o Heraldo Antillano, periódico que ajudava a construir identidade, registrar atividades e ligar estudantes e ex-alunos. A imprensa era uma extensão natural da tradição adventista de evangelização por publicações. O campus não formava apenas pregadores; formava pessoas habituadas a produzir, editar, imprimir, distribuir e ler material religioso.
Décadas depois, quando as forças revolucionárias pediram que aquela mesma gráfica imprimisse propaganda para distribuição em Santa Clara, Walton Brown recusaria justamente porque a imprensa estava organicamente ligada à missão religiosa da escola. O episódio só é plenamente compreensível quando percebemos o papel simbólico e institucional que aquela gráfica possuía.

UM CAMPUS ART DÉCO NO CENTRO DE CUBA
Fisicamente, o Colegio de las Antillas também possuía identidade própria. O conjunto arquitetônico incorporava características do Art Déco: linhas retas, colunas retangulares utilizadas para reforçar verticalidade, frontões escalonados, elementos decorativos discretos e aplicação de cerâmica sem abandonar a sobriedade funcional. Não era arquitetura monumental no sentido europeu do termo, mas uma linguagem moderna, limpa e geométrica que combinava perfeitamente com a imagem de disciplina, progresso e racionalidade que instituições educacionais protestantes procuravam transmitir naquele período.
Dormitórios masculinos e femininos, templo, prédios acadêmicos, residências de professores, instalações industriais e espaços produtivos formavam um pequeno universo comunitário, suficientemente afastado da cidade para possuir vida própria e suficientemente conectado para participar da dinâmica regional.
Algumas das construções ainda permitem identificar visualmente aquela configuração. O antigo Hogar de Varones, por exemplo, permaneceu reconhecível mesmo depois de décadas de transformações. Antigos visitantes recordam também casas confortáveis e semelhantes entre si, ocupadas por professores e funcionários adventistas. Um tanque de água, caminhos internos, restos de instalações produtivas e edifícios posteriormente reaproveitados pela universidade ajudam a recompor aquilo que fotografias aéreas dos anos 1950 mostram com muito mais clareza: um campus organizado, arborizado e intensamente utilizado.

DO ENSINO SECUNDÁRIO AO NÍVEL UNIVERSITÁRIO
Quando abriu em 1940, o colégio oferecia formação até o equivalente ao décimo segundo ano. Em 1946-1947 começaram os primeiros dois anos de ensino superior. A partir de 1955, o programa acadêmico foi ampliado, e a formação ministerial alcançou dezesseis séries, permitindo a concessão de grau equivalente ao Bachelor of Arts. Em 1959-1960, a área de Educação também passou a oferecer formação superior para professores dos níveis elementar e secundário. O crescimento transformou a escola de um internato missionário numa instituição de ensino superior que preparava líderes para diferentes países. Durante esse período, a instituição tornou-se o principal centro educacional adventista de língua espanhola na região antillana.
Essa expansão não ocorria isoladamente. A União Antilhana administrava diretamente a instituição; a Divisão Interamericana acompanhava seu desenvolvimento; e a Associação Geral participava das decisões acadêmicas e administrativas. E. E. Cossentine, dirigente de Educação da Associação Geral, esteve ligado às avaliações do colégio em diferentes ocasiões.
Em 1958, o próprio Comitê da Associação Geral autorizou formalmente sua viagem a Cuba para estudar os problemas educacionais do país e inspecionar o Antillian College. A administração mundial, portanto, conhecia a instituição, acompanhava seu crescimento e a tratava como componente relevante de seu sistema educacional internacional.
WALTON J. BROWN E O APOGEU DO COLÉGIO
É nessa fase de expansão que aparece Walton J. Brown. Presidente da instituição entre 1955 e 1960, Brown era pastor, educador, historiador e administrador. Possuía doutorado em História pela University of Southern California e posteriormente ocuparia cargos educacionais cada vez mais elevados: secretário de Educação e Relações Públicas da Divisão Interamericana, diretor associado do Departamento de Educação da Associação Geral e, entre 1974 e 1980, diretor mundial da Educação adventista. O homem que comandava o campus em Santa Clara, portanto, não era um administrador improvisado. Era integrante de uma carreira educacional que o levaria ao centro da estrutura mundial da denominação.
Durante sua presidência, o campus cresceu academicamente, ampliou cursos, fortaleceu indústrias e viu aumentar o número de estudantes. Em 1958, porém, o mundo externo começou a penetrar cada vez mais naquele espaço cuidadosamente organizado. A guerra contra Fulgencio Batista, inicialmente concentrada na parte oriental da ilha, avançava para o centro. Pontes eram destruídas, estradas ficavam bloqueadas e o transporte tornava-se progressivamente mais difícil. Em dezembro, alunos provenientes de regiões a leste de Santa Clara já não conseguiam retornar para casa. O colégio encheu-se de estudantes obrigados a permanecer no campus enquanto a batalha se aproximava.

13 DE DEZEMBRO DE 1958: A ESTRUTURA SUPERIOR DA IGREJA ESTAVA EM SANTA CLARA
Naquele mesmo mês, E. E. Cossentine, da Associação Geral, e Vernon E. Berry, da Divisão Interamericana, chegaram ao colégio. Não eram visitantes que desconheciam a instituição: ambos pertenciam à estrutura educacional adventista que a acompanhava havia anos.
A situação militar deteriorava-se rapidamente e Brown tratou de fazê-los seguir para Havana antes que ficassem imobilizados em Santa Clara. Levaram consigo um pedido para que a União cancelasse um congresso de colportores que seria realizado durante as férias de Natal. A visita demonstra algo fundamental: quando a Revolução atingiu o campus, o Colegio de las Antillas não existia numa periferia administrativa abandonada. Era uma instituição conhecida, visitada e acompanhada pela Associação Geral e pela Divisão.
Esse dado também impede narrar a história como se houvesse, de um lado, uma “igreja local” ou “alguns leigos” e, do outro, uma instituição que só apareceria posteriormente. A denominação já estava presente em todas as camadas dessa história. Antes, em Oriente, adventistas organizados em torno de Argelio Rosabal haviam participado da proteção aos sobreviventes do Granma. Em Santa Clara, a mesma identidade denominacional aparecia numa escala diferente: um colégio administrado pela União, acompanhado pela Divisão e inspecionado pela Associação Geral. Não eram duas igrejas; eram diferentes personagens e estruturas da mesma organização.

A REVOLUÇÃO CHEGA PELO RÁDIO
Brown conta que a comunidade acompanhava pelo rádio o avanço das forças revolucionárias sobre Las Villas. Havia um sinal quase musical da mudança territorial: quando outra cidade caía, sua emissora passava a tocar La Marcha del 26 de Julio. A cada nova transmissão, estudantes e professores percebiam que os rebeldes estavam mais próximos. A Marcha tornou-se uma espécie de mapa sonoro da ofensiva. O colégio ouvia a Revolução aproximar-se antes de vê-la atravessar a estrada.
Na madrugada de 28 de dezembro, a aproximação deixou de ser abstrata. Linhas telefônicas foram cortadas e homens armados apareceram diante das instalações. Brown e outros administradores foram até a área da Universidad Central e encontraram combatentes cansados e famintos. Leite foi levado. A relação começou imediatamente. O próprio relato de Brown mostra que os revolucionários perceberam rapidamente que a comunidade adventista não lhes era hostil. Nos dias seguintes, dezenas, depois centenas de homens passaram pelo refeitório.
Professores, estudantes, funcionários, médicos e enfermeiros foram envolvidos numa complexa operação de alimentação, atendimento aos feridos, doação de sangue, produção de bandagens, fornecimento de materiais e uso de instalações do campus. Brown publicou esse relato em abril de 1959 na Review and Herald, tornando pública dentro da própria denominação mundial a extensão da colaboração.

BASE, QUARTEL-GENERAL E A BATALHA FINAL
A função do colégio durante a Batalha de Santa Clara seria descrita posteriormente em termos ainda mais fortes. H. B. Lundquist escreveu em 1965 que as instalações haviam servido como base para o ataque final contra Batista. Caleb Rosado, escrevendo em 1984 na Spectrum, foi além: afirmou que as forças de Castro utilizaram o Antillian College como quarte-general durante a batalha final e associou essa escolha à desconfiança em relação aos estudantes da universidade localizada do outro lado da estrada. Rosado era adventista, pastor e sociólogo, mas sua investigação acadêmica seria realizada fora do sistema educacional denominacional, na Northwestern University. Seu artigo “Castro and the Churches” apareceu em 1984, um ano antes da conclusão de seu Ph.D. em Sociologia.
A geografia torna compreensível a utilização simultânea de universidade e colégio. Che instalou sua comandância tática na Universidad Central, enquanto o campus adventista oferecia tudo aquilo que uma força em movimento precisava numa retaguarda: alimento, leite, veículos, oficinas, espaço, dormitórios, pessoas treinadas, primeiros socorros, cozinha e organização. O colégio não foi simplesmente um lugar onde combatentes bateram à porta pedindo um prato de comida. Tornou-se infraestrutura incorporada ao cotidiano da ofensiva.

A JUVENTUDE DO COLÉGIO E O FASCÍNIO PELOS BARBUDOS
A Revolução, entretanto, não entrou apenas na cozinha. Entrou no imaginário de muitos estudantes. Brown registra rapazes “entusiasmados” que dirigiram jipes dos rebeldes e chegaram aos galpões da universidade onde participaram da fabricação de coquetéis Molotov. A administração interveio quando soube e limitou a circulação dos alunos, permitindo apenas atividades ligadas ao atendimento dos feridos. O episódio revela uma fronteira importante: a direção aceitava cooperação ampla para preservar vidas, mas procurava conter atividades diretamente ligadas ao combate. Isso não elimina o fato central de que alguns jovens já haviam atravessado voluntariamente essa fronteira.
As moças também aparecem no relato de forma surpreendente. Um oficial revolucionário procurou a direção e pediu que as estudantes não fossem “tão amistosas” com seus homens porque daquela aproximação poderiam surgir “problemas inevitáveis”. Num internato religioso dos anos 1950, a expressão era transparente: havia preocupação com relacionamentos afetivos e sexuais entre estudantes e combatentes, com tudo o que isso poderia representar naquele ambiente. Os guerrilheiros não estavam sendo tratados como invasores indesejados. Parte da juventude os via como heróis de um processo político que parecia derrubar diante de seus olhos uma ordem que muitos cubanos rejeitavam.
Outro episódio vai ainda mais longe. Um adventista de Havana havia decidido juntar-se às forças revolucionárias nas montanhas do Escambray para realizar trabalho missionário. Em determinado momento, voltou ao Colegio de las Antillas pedindo folhetos e literatura religiosa para distribuir entre seus companheiros. Recebeu o material e retornou às montanhas. No relato de Brown não aparece rompimento religioso, disciplina ou expulsão. A instituição fornece literatura a um correligionário que está dentro da guerrilha. Naquele homem, missão adventista e participação revolucionária não eram identidades incompatíveis. Ele levou uma para dentro da outra.

A POLÍTICA DE BROWN: AJUDAR A PRESERVAR VIDAS, MAS ESTABELECER LIMITES
Brown e o administrador C. E. Schmidt foram pessoalmente conversar com Che Guevara na universidade. Explicaram que estavam dispostos a fazer tudo o que estivesse ao alcance da instituição para preservar vidas: alimentar combatentes, atender feridos, doar sangue e utilizar oficinas. Ao mesmo tempo, estabeleceram limites para aquilo que consideravam incompatível com os padrões da Igreja Adventista.
Quando revolucionários pediram o uso da gráfica para imprimir propaganda política, a direção recusou. Quando estudantes participaram da fabricação de Molotovs, foram contidos. Brown apresentou essa política a Che não como capricho pessoal, mas como expressão dos padrões da Igreja Adventista do Sétimo Dia e do Antillian College. Che respondeu que conhecia os adventistas e respeitaria suas convicções. O relato contemporâneo de Brown registra essa negociação diretamente.
“A DIREÇÃO DE DEUS NOS ACONTECIMENTOS”
Quando a batalha terminou e o governo de Batista desmoronou, Brown não descreveu a experiência apenas como sobrevivência diante de um acontecimento contrário à providência. Sua interpretação religiosa foi mais ampla. Registrou que a comunidade reconheceu a direção de Deus nos acontecimentos.
Só depois acrescentou a convicção paulina de que todas as coisas cooperam para o bem daqueles que amam a Deus. A ordem dessa construção é teologicamente importante: primeiro, os acontecimentos são inseridos na direção divina; depois, afirma-se confiança mesmo diante daquilo que ainda não era plenamente compreendido.
Essa leitura ajuda a compreender o que ocorreu nos meses seguintes. O novo governador de Las Villas, que havia comido no refeitório do colégio durante os combates, voltou ao campus para agradecer. Funcionários revolucionários, ao encontrar dirigentes adventistas como A. H. Roth, presidente da Divisão Interamericana, e C. L. Powers, secretário-tesoureiro da União Antilhana, reconheciam imediatamente a denominação e recordavam a alimentação recebida durante a Batalha de Santa Clara. O auxílio do colégio transformou-se em capital de reconhecimento para a própria Igreja, não apenas para Walton Brown. A história oficial adventista registra que dirigentes do novo governo mantiveram o colégio em alta consideração durante essa primeira fase.

FIDEL CASTRO, O CORAL E A MARCHA DO 26 DE JULHO
A aproximação atingiria seu ponto mais simbólico quando Fidel Castro visitou a Universidad Central e se relacionou diretamente com o Colegio de las Antillas. Fidel esteve no colégio, almoçou no refeitório e demonstrou interesse pelo modelo educacional adotado ali. Em uma dessas ocasiões, afirmou que aquele era o tipo de escola que desejava para a nova Cuba e pediu a possibilidade de enviar representantes para estudar melhor o programa. A história institucional adventista preserva essas visitas e o reconhecimento público do modelo do colégio.
O coral da instituição também passou a ser requisitado para apresentações públicas. Cantou no auditório municipal, no quartel e diante do próprio Fidel numa cerimônia na Universidad Central. Há uma simetria histórica extraordinária: meses antes, a comunidade do colégio havia ouvido La Marcha del 26 de Julio pelo rádio cada vez que outra cidade era conquistada. Agora, o próprio coro adventista cantava aquela mesma marcha diante do líder vencedor. Brown acrescentou uma estrofe especialmente dedicada a Fidel. Chamou-o de “grande líder”, afirmou que se sacrificara pelo povo, pediu que Deus lhe concedesse direção, sabedoria e coração e terminou com uma aclamação: “Viva a Revolução!”
Era mais do que protocolo administrativo. Brown transferiu para Fidel uma linguagem marcada por liderança, sacrifício, providência e aclamação coletiva. A estrofe transformava a vitória política em narrativa carregada de ressonâncias religiosas. E foram estudantes do próprio colégio que cantaram. Quando, em outra visita, os alunos foram informados de que poderiam atravessar a estrada para ouvir Fidel, Brown recordaria que em poucos instantes o campus estava praticamente vazio. Não era uma juventude fria sendo arrastada por um diretor politizado; havia entusiasmo real.

UM MODELO EDUCACIONAL QUE A REVOLUÇÃO PRIMEIRO ADMIRAVA
Nos primeiros anos posteriores à vitória, o colégio viveu uma fase paradoxalmente favorável. O governo revolucionário admirava seu funcionamento, seus dirigentes mantinham boas relações com autoridades locais e nacionais, as indústrias prosperavam e a escola continuava academicamente ativa.
A própria documentação adventista divide o período posterior a dezembro de 1958 em fases e reconhece que, até o início de 1961, a instituição gozou de respeito junto ao novo governo. A fábrica de conservas cresceu, o campus continuou funcionando e o modelo educacional despertou interesse oficial.
Foi também nesse período que o colégio quis criar uma homenagem a José Martí. Para financiar o projeto, o coral organizou um concerto no Teatro Cloris, o maior teatro de Santa Clara, e Che Guevara foi convidado para falar. Ele compareceu, agradeceu publicamente aos adventistas pela ajuda recebida no início da Revolução e elogiou o coral. A história da pequena comunidade de Argelio Rosabal em Oriente e a história do grande campus de Santa Clara voltavam a encontrar-se na figura do mesmo revolucionário.

A REVOLUÇÃO QUE FORA ESPERANÇA COMEÇA A MOSTRAR OUTRA FACE
Essa primeira aproximação não sobreviveria intacta ao aprofundamento do caráter marxista-leninista do Estado cubano e à crescente confrontação entre o governo e instituições religiosas. A partir de 1961, medidas de controle sobre o ensino privado atingiram diretamente o colégio. O governo limitou matrículas, exigiu professores cubanos e anunciou supervisão oficial sobre o conteúdo educacional. A Associação Geral decidiu então deslocar para Porto Rico a parte superior do Antillian College. Em 1962, a instituição de ensino superior começou uma nova vida fora de Cuba, enquanto o campus cubano passou a funcionar como Seminario Adventista Cubano, com programa mais restrito.
A transferência para Porto Rico não significou o encerramento imediato da educação adventista em Santa Clara. A comunidade continuou, cursos religiosos permaneceram e o seminário ainda funcionou por alguns anos. Mas o ambiente nacional havia mudado profundamente. A antiga convivência entre colégio e governo revolucionário foi substituída por desconfiança, controle estatal, restrições religiosas e conflitos envolvendo serviço militar, sábado, evangelização e educação. Adventistas cubanos passaram a enfrentar problemas que incluíram prisão, perda de oportunidades profissionais e envio para unidades de trabalho forçado. Humberto Noble Alexander, adventista cubano, permaneceria preso por mais de duas décadas até ser libertado em 1984.
O contraste histórico é dramático. Os mesmos adventistas que haviam servido refeições a combatentes, tratado feridos e recebido reconhecimento de revolucionários passaram, em poucos anos, a viver num Estado que considerava determinadas práticas religiosas incompatíveis com o projeto revolucionário. A experiência cubana mostrou como rapidamente uma aliança circunstancial de interesses e simpatias podia transformar-se quando o novo poder consolidava sua própria concepção ideológica de sociedade.

1967: O FIM DO COLEGIO DE LAS ANTILLAS EM SANTA CLARA
Em fevereiro de 1967, terminou definitivamente a presença educacional adventista naquele campus. O Estado assumiu o controle da propriedade e as instalações passaram progressivamente para a esfera da Universidad Central “Marta Abreu” de Las Villas. A Encyclopedia of Seventh-day Adventists reconhece que, ao final de 1967, a Igreja havia perdido definitivamente o controle do colégio.
Para antigos alunos e membros da Igreja, a intervenção não significou apenas o desaparecimento administrativo de uma escola. Significou a dispersão de uma comunidade construída ao longo de décadas. Dormitórios deixaram de abrigar estudantes adventistas. A gráfica mudou de função e posteriormente desapareceu. Edifícios acadêmicos foram absorvidos pela universidade. Casas de professores passaram a servir de moradia. Espaços antes dedicados a atividades religiosas ou educacionais foram reaproveitados. A comunidade que havia transformado o campus numa pequena cidade educacional deixou de existir como unidade.

O QUE A UNIVERSIDADE FEZ COM O ANTIGO CAMPUS
Nas décadas seguintes, parte das instalações foi incorporada à UCLV. Há lembranças de que, ao final dos anos 1960, antigos edifícios serviram como alojamento para estudantes mulheres do Instituto Pedagógico, então vinculado à universidade. Ex-alunas recordam ter vivido ali e, posteriormente, trabalhado na região como professoras. Algumas casas foram destinadas a docentes universitários e trabalhadores. Outros prédios transformaram-se em escritórios administrativos. Surgiu também refeitório para professores. Na década de 1970 existiu ali um círculo infantil frequentado por filhos de professores.
A antiga fábrica de conservas ainda funcionou durante um período e permaneceu na memória local associada à produção de alimentos de boa qualidade. Moradores recordam inclusive produtos vendidos na região e a importância econômica que a indústria tivera quando administrada pelo colégio. A gráfica também permaneceu ativa durante algum tempo sob outra administração; um dos testemunhos recorda ter encontrado ali, no início da década de 1970, o conhecido escritor e pesquisador cubano Samuel Feijóo.
As antigas casas dos professores também entraram na memória de moradores e universitários. Construídas segundo padrão semelhante e relativamente confortável para a época, foram ocupadas por famílias vinculadas à universidade. Parte do bairro que hoje recebe o nome Las Antillas desenvolveu-se justamente em torno desses remanescentes. Para gerações mais jovens, o nome pode parecer apenas designação geográfica; para antigos alunos, ele continua ligado imediatamente ao colégio.

33 FAMÍLIAS, MORADIAS, RUÍNAS E UMA PROPRIEDADE REIVINDICADA
Com o passar das décadas, a fragmentação do antigo campus aumentou. Parte das edificações continuou sendo utilizada por funcionários da universidade. Outras áreas foram ocupadas por famílias em busca de moradia, somando-se relatos de aproximadamente 33 famílias instaladas em setores anteriormente pertencentes ao colégio. Outras estruturas ficaram simplesmente abandonadas. Telhados desabaram, paredes foram vandalizadas, instalações desapareceram, vegetação tomou conta de antigas áreas de circulação e a unidade arquitetônica do complexo perdeu-se.
Antigos alunos e visitantes descrevem a experiência de retornar ao local com palavras de tristeza. Onde recordavam limpeza, jardins, disciplina e alegria juvenil, encontram construções deterioradas, lixo, improvisação, vegetação e sinais de décadas sem conservação integrada. Uma visitante resumiu a impressão: “Horror y misterio.” Outra recordou a prosperidade dos anos 1950, quando visitara o colégio ainda criança e ficara impressionada até com a ordenha mecanizada das vacas. O contraste entre a modernidade percebida naquela época e o estado posterior de abandono tornou-se uma das marcas emocionais das memórias do local.
A Igreja Adventista reivindicou a devolução das áreas remanescentes. Lideranças locais afirmaram possuir documentação da propriedade e receberam manifestações verbais favoráveis das autoridades, sem que a restituição integral se concretizasse. O desejo de recuperar o espaço permanece ligado tanto ao patrimônio religioso quanto à memória histórica de uma instituição que marcou o adventismo cubano.

A CASA DO DIRETOR, A CONGREGAÇÃO E UMA PEQUENA CHAMA QUE NÃO SE APAGOU
Nem tudo desapareceu. Quando o colégio foi perdido, a Igreja conseguiu conservar a antiga casa do diretor. Nesse espaço surgiu uma pequena congregação adventista que manteve viva a presença religiosa em Las Antillas. Durante anos, irmãos reuniram-se ali para culto, oração e estudo bíblico. A casa transformou-se numa espécie de ponte física entre o campus desaparecido e a comunidade adventista que sobrevivera.
Com o passar do tempo, porém, o edifício também se deteriorou. O teto apodreceu e as condições de segurança impediram a continuação das reuniões. Mais recentemente, visitantes ligados ao ministério Changing People’s Lives conheceram o local, sensibilizaram-se com sua história e participaram de esforços para restaurá-lo. A antiga residência começou a receber nova estrutura e passou a ser vista não apenas como sede da pequena congregação, mas como potencial centro missionário voltado também aos estudantes da universidade situada do outro lado da estrada.
A imagem possui uma força histórica especial. No mesmo território onde um dia existiu um dos maiores projetos educacionais adventistas do Caribe, uma pequena casa preservada pode novamente tornar-se espaço de culto e aproximação com jovens universitários. A grande instituição desapareceu; a presença religiosa, não.
A IGREJA LAS ANTILLAS CONTINUOU EXISTINDO NA MEMÓRIA E NOS REGISTROS
O colégio abrigava também uma congregação. Quando as atividades educacionais terminaram, seus membros passaram a congregar em outros templos de Santa Clara, mas a identidade de Las Antillas não desapareceu completamente. Registros e memórias continuaram distinguindo a comunidade vinculada ao antigo campus. A história da Igreja Adventista em Santa Clara, portanto, não pode ser separada da história do colégio. O campus formou pastores, professores, instrutores bíblicos, médicos, missionários e famílias inteiras que posteriormente se espalharam pela ilha e por outros países.
Ex-alunos continuaram carregando durante décadas lembranças da vida acadêmica. Martha Amelia Estalella Soler, por exemplo, ingressou no colégio em 1951, formou-se como instrutora bíblica e posteriormente seguiu outros caminhos profissionais. Histórias como a dela mostram que o Colegio de las Antillas era uma verdadeira usina de trajetórias pessoais. Jovens chegavam de cidades e áreas rurais, conviviam em internato, trabalhavam, estudavam, desenvolviam amizades, encontravam futuros cônjuges e saíam dali para servir como professores, pastores, profissionais de saúde ou missionários.

O PATRIMÔNIO ARQUITETÔNICO QUE QUASE DESAPARECEU
A perda da instituição também representou perda patrimonial. O conjunto Art Déco possuía valor arquitetônico reconhecível independentemente de seu significado religioso. Colunas retangulares, verticalidade, frontões escalonados, ornamentação comedida e cerâmica compunham uma arquitetura de transição entre funcionalismo e decoração geométrica. Muitas dessas características poderiam ter sido preservadas e incorporadas à memória arquitetônica de Santa Clara. Em vez disso, décadas de reutilização fragmentada e ausência de conservação sistemática destruíram grande parte da leitura original do campus.
Ainda assim, fotografias aéreas, anuários, plantas, imagens de antigos estudantes e estudos arquitetônicos permitem reconstruir com precisão crescente o que havia ali. Hoje é possível comparar edifícios remanescentes com registros históricos e localizar dormitórios, zonas residenciais, caminhos e antigas estruturas produtivas. Cada fotografia recuperada acrescenta uma peça a esse quebra-cabeça.
O LOCAL AINDA FALA
Visitar Las Antillas atualmente é percorrer uma paisagem sobreposta. Embaixo das moradias, reformas improvisadas, prédios universitários e vegetação está o antigo mapa de uma instituição adventista. O caminho diante da universidade é o mesmo espaço por onde estudantes cruzavam nos dias da Batalha de Santa Clara. A distância entre colégio e campus universitário ainda permite entender fisicamente os relatos de Brown. Não eram dois mundos distantes; estavam frente a frente.
É possível imaginar o final de dezembro de 1958: jovens olhando para a estrada, rádios ligados, La Marcha del 26 de Julio anunciando cidades que mudavam de mãos, famílias preocupadas porque os estudantes não conseguiam viajar, professores organizando alimentação, homens armados surgindo na madrugada, leite sendo levado para combatentes famintos, centenas entrando no refeitório, aviões sobrevoando a região, estudantes correndo para ajudar feridos e alguns, entusiasmados demais, chegando aos jipes e aos Molotovs.
Depois podemos avançar alguns meses na mesma paisagem e imaginar Fidel na universidade, estudantes correndo para ouvi-lo, o coral vestindo seus uniformes, Walton Brown conduzindo os jovens e a Marcha do 26 de Julho sendo cantada agora não por uma estação conquistada, mas pelos próprios alunos da instituição que meses antes ouvira aquela música se aproximar pelo rádio.

A REVOLUÇÃO PRIMEIRO ENTROU NO COLÉGIO; DEPOIS O ESTADO TOMOU O COLÉGIO
A trajetória do Colegio de las Antillas contém uma ironia histórica difícil de ignorar. Em dezembro de 1958, a Revolução encontrou ali alimento, assistência, infraestrutura e jovens fascinados pelos barbudos. Em 1959, dirigentes do novo governo elogiavam a escola. Fidel demonstrava interesse em seu modelo educacional. O governador voltava para agradecer. Che aparecia em eventos ligados ao coral. Brown reconhecia a direção de Deus nos acontecimentos. Poucos anos depois, o mesmo processo político começou a restringir aquilo que fazia do colégio uma instituição adventista independente: currículo, professores, administração, liberdade religiosa e propriedade.
A instituição que fora celebrada como modelo passou a ser incompatível com o novo sistema educacional estatal. Em 1961 começaram as restrições decisivas; em 1962 a estrutura universitária foi deslocada para Porto Rico; em 1967 o campus deixou definitivamente de funcionar sob controle adventista. A história não cabe, portanto, numa narrativa simples de amizade nem numa narrativa simples de perseguição. Ela possui sequência: entusiasmo, aproximação, cooperação, reconhecimento, transformação política, conflito ideológico, restrição e perda.
DE SANTA CLARA A PORTO RICO
O nome Antillian College não desapareceu com a perda do campus cubano. A estrutura transferida para Porto Rico continuou desenvolvendo-se e tornou-se instituição de ensino superior que preservou a herança do projeto antillano. O que nasceu em pequenas experiências educacionais cubanas, ganhou corpo em Bartle e atingiu maturidade em Santa Clara continuou fora da ilha depois que as condições políticas tornaram impossível manter ali o mesmo modelo educacional.
Mas para os cubanos que viveram no campus original, a instituição verdadeira continuaria sendo aquela de Santa Clara: as árvores, os dormitórios, o templo, o refeitório, a fábrica, a gráfica, a fazenda, as casas dos professores e a estrada diante da universidade. O deslocamento administrativo preservou a instituição jurídica e acadêmica; não podia transportar a paisagem nem as memórias.
UM COLÉGIO QUE FORMOU MAIS DO QUE ALUNOS
Talvez seja por isso que antigos alunos falem de Las Antillas com intensidade que ultrapassa a nostalgia escolar comum. Eles não viveram apenas numa sala de aula. Viveram numa comunidade praticamente autossuficiente, onde trabalho, estudo, religião, amizade, disciplina e vida cotidiana ocupavam o mesmo espaço. O aluno podia estudar teologia pela manhã, trabalhar com agricultura à tarde, participar do coro, frequentar o templo, ajudar na gráfica, cuidar de animais, comer alimentos produzidos no próprio campus e conviver diariamente com professores e colegas.
O lema “A mão, a mente e o coração” não era apenas frase ornamental. A mão trabalhava. A mente estudava. O coração era disciplinado pela vida religiosa e comunitária. Essa filosofia produziu gerações de profissionais e obreiros e explica por que, mesmo depois de tantas décadas, antigos estudantes ainda descrevem o colégio como um lugar de ordem, alegria, limpeza e propósito.

E AGORA RESTAM AS RUÍNAS — E A MEMÓRIA
Hoje, quem percorre a região vê aquilo que o tempo, a política, o abandono e a ocupação fragmentada fizeram com o antigo campus. Parte virou casa. Parte virou instalação universitária. Parte desapareceu. Parte foi vandalizada. Parte está coberta por vegetação. Em alguns pontos, somente quem conhece fotografias antigas consegue perceber que determinado muro, caminho ou edifício pertenceu a uma das principais instituições adventistas do Caribe.
Mas a história não desapareceu com os prédios. Está nos anuários que reaparecem na internet, nas fotografias de Walton Brown que estamos recuperando, nas páginas de ¡O Mi C.A.!, nos relatos da Review and Herald, no Heraldo Antillano, nos documentos da Associação Geral, nas lembranças de antigos estudantes, nos testemunhos de professores da UCLV que ocuparam posteriormente as construções e nas imagens atuais de quem percorre Las Antillas tentando reconhecer aquilo que um dia existiu.
O próprio fato de ainda ser possível identificar o antigo Hogar de Varones, localizar a universidade diante do terreno, observar casas e elementos do complexo e recolher testemunhos de pessoas que viveram ou trabalharam ali demonstra que o campus ainda pode ser historicamente reconstruído. O que falta fisicamente pode ser recomposto documentalmente.
POR ISSO O COLEGIO DE LAS ANTILLAS PRECISA SER DEVOLVIDO À HISTÓRIA
Durante muito tempo, a memória pública do Colegio de las Antillas ficou reduzida a pequenas notas denominacionais, lembranças de ex-alunos ou referências esparsas. Isso é pouco para uma instituição que atravessou quase meio século da história adventista cubana, ajudou a formar a elite religiosa da denominação no Caribe, construiu um modelo educacional reconhecido dentro e fora da Igreja, participou involuntária e voluntariamente de um dos momentos decisivos da Revolução Cubana e depois sofreu diretamente as transformações políticas do novo Estado.
Foi ali que estudantes aprenderam a combinar estudo e trabalho. Foi ali que se imprimia o Heraldo Antillano. Foi ali que a fazenda alimentava a comunidade, a fábrica produzia conservas e a leiteria sustentava o internato. Foi ali que jovens ouviram pelo rádio a Revolução aproximar-se. Foi ali que os homens de Che encontraram uma comunidade não hostil. Foi ali que centenas de combatentes comeram. Foi dali que estudantes atravessaram para atender feridos, dirigir jipes e, alguns, chegar aos Molotovs. Foi ali que jovens ofereceram sangue. Foi dali que o coral saiu para cantar diante de Fidel. Foi ali que Brown escreveu e viveu algumas das páginas mais extraordinárias de sua trajetória. E foi aquele mesmo lugar que, menos de uma década depois, deixou de existir como instituição adventista.
O Colegio de las Antillas não foi apenas uma escola. Foi uma comunidade, uma experiência educacional, um projeto missionário, um centro econômico, um espaço arquitetônico singular, uma testemunha da guerra, um ponto de encontro entre religião e Revolução e, por fim, uma vítima das profundas transformações políticas que alteraram Cuba.
Hoje suas estruturas sobrevivem fragmentadas. Mas sua história pode ser reconstruída inteira.
E talvez a frase de uma antiga aluna resuma aquilo que ainda permanece diante das ruínas: “Duele recordar la alegría, la limpieza y el apacible ambiente que allí reinaba.”
O colégio desapareceu como instituição em Santa Clara. Las Antillas, porém, continua existindo na memória de quem passou por seus portões — e agora começa novamente a ser encontrado nos documentos, fotografias, testemunhos e lugares que o tempo não conseguiu apagar.





