IRMÃO FELIPE FOI A CUBA: Cinco anos depois, o jornalista da Revista Zelota voltou confirmando o que Michelson tentou negar

Felipe Carmo esteve pessoalmente na ilha, ouviu adventistas cubanos e publicou em 2026 um relato que volta a registrar aquilo que o Adventistas.Com começou a levantar em 2018: Houve simpatia pelos revolucionários, assistência clandestina aos combatentes, acolhimento aos homens de Che Guevara e uma relação que somente depois seria rompida pela repressão do regime.

A Revista Zelota se define como um periódico adventista de jornalismo contra-hegemônico, independente da estrutura administrativa da Igreja Adventista e voltado ao debate sobre adventismo, evangelicalismo, política, sexualidade, teologia, cultura e temas sociais no Brasil e na América Latina. Sua própria linha editorial assume que não trabalha com a ideia de imparcialidade jornalística e declara abertamente possuir um viés político-ideológico que, embora não esteja vinculado formalmente a partidos, converge em muitos aspectos com valores normalmente associados à esquerda, sobretudo pela prioridade dada às classes populares, aos direitos humanos, à crítica das estruturas de poder e ao diálogo ecumênico latino-americano.

É nesse ambiente editorial mais liberal, crítico e politicamente engajado que Cuba passou a ocupar espaço importante na revista: a Revolução Cubana, o relacionamento dos adventistas com os rebeldes, a posterior repressão religiosa, o bloqueio norte-americano, a crise econômica da ilha e as contradições entre socialismo, religião e memória adventista aparecem como temas recorrentes, não tratados a partir da narrativa denominacional tradicional, mas dentro de uma leitura mais favorável às lutas populares latino-americanas e mais compreensiva em relação às origens da própria Revolução.

Felipe Carmo é o Editor-Chefe e idealizador da revista Zelota. Teólogo, jornalista da religião e mestre em Estudos Judaicos pela Universidade de São Paulo (USP), tornou-se uma das vozes mais importantes dessa investigação da Zelota sobre Cuba. Em seus textos, ele não se limita a reproduzir versões institucionais: recorre a pesquisas históricas como as de Caleb Rosado, recupera personagens como Argelio Rosabal, revisita o auxílio adventista a Che Guevara e seus combatentes e procura reconstruir a experiência dos próprios adventistas cubanos dentro do processo revolucionário.

Em novembro de 2024, Felipe foi pessoalmente à ilha representando os editores da Zelota, ao lado de Bruno Reikdal, durante a Minga Ecumênica realizada em Havana pelo Centro Memorial Martin Luther King Jr.; aproveitou a viagem para visitar igrejas, conversar com adventistas, fotografar a realidade cubana e confrontar suas próprias expectativas com aquilo que encontrou. O resultado apareceu em março de 2026 no extenso artigo “Os espólios de Cuba”, no qual ele assume que levou para a ilha uma determinada visão política e admite que voltou com um quadro mais agridoce e contraditório.

Foi nesse trabalho de campo que encontrou Miguelito, velho adventista de Marianao que dizia estar naquela comunidade desde 1954 e que lhe falou tanto do entusiasmo inicial de adventistas diante do novo processo político quanto da posterior sensação de traição e repressão. Assim, mesmo interpretando Cuba a partir de uma perspectiva bastante diferente da nossa, Felipe acabou acrescentando ao arquivo histórico novos elementos que confirmam a existência daquela aproximação inicial entre adventistas e revolucionários.

Quando esteve em Cuba, Felipe Carmo encontrou entre os próprios adventistas da ilha novas peças de uma história que já vinha sendo recuperada pelo Adventistas.Com desde 2018. Em seu relato publicado em 2026, reaparecem elementos fundamentais dessa trajetória: a simpatia de adventistas pelos rebeldes, o auxílio clandestino prestado aos combatentes, o amparo aos homens de Che Guevara e uma proximidade construída durante a luta revolucionária, antes que o endurecimento do regime transformasse aquela relação em perseguição, frustração e ruptura.

QUANTO MAIS TENTARAM NEGAR, MAIS DOCUMENTOS APARECERAM

Há momentos em que uma guerra de narrativas produz resultados inesperados. Quanto mais diferentes autores tentam reorganizar os acontecimentos para encaixá-los em suas próprias interpretações, mais documentos, testemunhos e lembranças acabam sendo colocados em circulação. Foi exatamente o que aconteceu com a história da relação dos adventistas cubanos com Fidel Castro, Che Guevara e os guerrilheiros que derrubaram Fulgencio Batista. O Adventistas.Com começou a levantar publicamente essa história em 2018, quando perguntou aos leitores se seus pastores sabiam quem havia sido Argelio Rosabal e anunciou que publicaria outros materiais sobre o apoio adventista à Revolução Cubana. Três anos depois, em julho de 2021, enquanto a discussão avançava pela internet, o blog Outra Leitura, de Michelson Borges, publicou textos destinados a sustentar que a Organização Adventista jamais apoiara a Revolução. Na mesma época, porém, a própria Revista Zelota publicou uma série histórica em que reconheceu simpatia, assistência clandestina e participação de adventistas no socorro aos guerrilheiros. Agora a história ganhou uma continuação inesperadamente importante. Felipe Carmo, editor da Zelota, foi pessoalmente a Cuba em novembro de 2024, conversou com adventistas da ilha, recolheu memórias, fotografias e impressões e, em 27 de março de 2026, publicou o longo artigo “Os espólios de Cuba”. Cinco anos depois daquela guerra de postagens, a própria Zelota voltou ao assunto e registrou novamente aquilo que o “nunca” de 2021 não conseguia apagar.

O ADVENTISTAS.COM JÁ ESTAVA NESSA HISTÓRIA ANTES DA GUERRA DE 2021

É necessário começar pela cronologia, porque ela ajuda a compreender o que aconteceu depois. Em 4 de outubro de 2018, o Adventistas.Com publicou “Pergunte a seu pastor se ele sabe quem foi ‘Argelio Rosabal’” e escreveu de maneira direta que o apoio adventista à Revolução Cubana raríssimas vezes era mencionado, anunciando que novos artigos seriam publicados sobre o assunto. Nos dias seguintes vieram textos sobre Che Guevara, sobre a participação de obreiros e membros adventistas em Cuba, sobre a maneira como essa história havia sido apresentada ao público brasileiro e sobre a contradição entre o discurso adventista de apartidarismo e as relações concretas da denominação com personagens e governos políticos. Portanto, quando a controvérsia reapareceu com força em julho de 2021, o Adventistas.Com não estava improvisando uma tese em reação a Michelson Borges. Já havia uma linha de investigação iniciada publicamente quase três anos antes. A pergunta de 2018 era simples: quem foi Argelio Rosabal? Quanto mais documentos apareceram, maior ficou a resposta.

Foi nessa atmosfera que, em julho de 2021, Michelson publicou primeiro um texto sobre a relação dos adventistas com a Revolução e depois buscou o pastor cubano Rolando de los Ríos para falar sobre “a realidade da IASD em Cuba”. Rolando havia deixado a ilha havia aproximadamente quatro décadas, mas era apresentado como alguém que vivera os acontecimentos e podia oferecer sua memória. Quando Michelson lhe fez a pergunta institucional — se a Igreja Adventista havia apoiado a Revolução ou o governo — Rolando respondeu categoricamente que a organização “nunca” o fizera. O problema é que, antes e depois dessa negativa, o mesmo homem começou a contar acontecimentos que não cabiam dentro dela. Recordou que a administração do Colegio de las Antillas forneceu às tropas de Che aquilo de que necessitavam, admitiu que professores adventistas simpatizavam com os jovens barbudos, contou que Che foi convidado para falar numa programação adventista e atribuiu ao próprio guerrilheiro a declaração de que havia uma “velha amizade” entre os adventistas e a Revolução. Dois dias depois, Michelson voltou a procurar a mesma testemunha, mostrou-lhe um novo texto crítico e pediu outra resposta. E Rolando, tentando novamente preservar a fórmula institucional, acabou admitindo que a grande maioria do povo cubano — incluindo adventistas — simpatizava com os jovens rebeldes.

ENTÃO A ZELOTA FOI A CUBA

O que torna “Os espólios de Cuba” particularmente importante é que agora não estamos lidando apenas com um pastor aposentado reconstruindo de memória acontecimentos vividos quarenta ou sessenta anos antes. Felipe Carmo foi à ilha. Sua viagem ocorreu em novembro de 2024, a convite da Minga Ecumênica, organizada pelo Centro Memorial Martin Luther King Jr., em Havana. O próprio autor explica que participou do encontro representando os editores da Revista Zelota, ao lado de Bruno Reikdal, e que aproveitou a permanência na ilha para procurar adventistas cubanos. Seu artigo não é um texto escrito por alguém ideologicamente hostil à Revolução. Pelo contrário. Felipe deixa clara sua proximidade com movimentos latino-americanos de esquerda, chama participantes do evento de “camaradas”, critica duramente as sanções norte-americanas e interpreta grande parte da crise econômica cubana dentro do quadro do bloqueio imposto pelos Estados Unidos. Isso torna ainda mais relevante aquilo que ele acabou registrando sobre a história adventista. Não estamos citando um anticomunista tentando encontrar material para atacar Fidel Castro. Estamos lendo um autor que demonstra simpatia pelo ambiente político em que a Revolução é compreendida como reação histórica à exploração de Cuba e que, mesmo assim, não consegue contar a história dos adventistas sem registrar a simpatia e a assistência oferecidas aos revolucionários.

MIGUELITO ESTÁ EM CUBA DESDE 1954

Na Igreja Adventista de Marianao, Felipe encontrou um velho ancião conhecido como Miguelito. A cena descrita no artigo é extraordinária porque coloca diante do autor uma testemunha ainda vivendo na própria ilha, carregando uma memória que atravessou praticamente toda a história da Revolução. Miguelito afirmou estar naquela comunidade desde 1954. Falou sobre patrulhamento, vigilância dos cultos, prisão e perseguição de pastores e pregadores leigos, hostilidade governamental contra a religião e o medo produzido nos anos posteriores à vitória revolucionária. Mas antes de relatar essa ruptura, Felipe registrou uma informação que nos interessa especialmente: Miguelito testemunhou, “a princípio”, o sentimento otimista dos adventistas em relação ao socialismo. A palavra “traição”, utilizada pelo próprio velho adventista para interpretar o que veio depois, só possui sentido porque havia existido anteriormente expectativa, confiança ou esperança. Miguelito não conta a história de uma comunidade que desde o princípio reconheceu Fidel, Che e seus homens como inimigos ideológicos e permaneceu distante deles. Conta outra história: primeiro houve expectativa; depois veio aquilo que ele passou a compreender como traição.

Essa distinção desmonta uma das reconstruções retrospectivas mais convenientes da história adventista cubana. Décadas depois, quando o regime já havia expropriado propriedades, restringido atividades religiosas, perseguido líderes e produzido sofrimento entre adventistas, tornou-se fácil olhar para trás e apresentar Igreja e Revolução como duas realidades que sempre estiveram inevitavelmente em campos opostos. Os próprios testemunhos impedem essa simplificação. A repressão posterior existiu, e não temos qualquer interesse em escondê-la. Mas ela não pode viajar para trás no tempo e transformar aquilo que ocorreu antes. Os adventistas que simpatizaram com os rebeldes não deixam de ter simpatizado porque posteriormente o regime os perseguiu. Os que alimentaram combatentes não deixam de tê-los alimentado porque anos depois um colégio foi expropriado. Os que esconderam homens, roupas ou armas não deixam de tê-lo feito porque depois descobriram aquilo que o novo Estado faria com a religião. A cronologia não pode ser invertida para proteger uma narrativa.

A PRÓPRIA ZELOTA VOLTA A CALEB ROSADO

Felipe Carmo não deixa a questão restrita à memória de Miguelito. Imediatamente depois, recorre ao estudo publicado por Caleb Rosado na revista Spectrum em 1984 e escreve que vários adventistas “simpatizaram com os revolucionários e os ajudaram clandestinamente”. Em seguida cita justamente Argelio Rosabal, o homem cujo nome o Adventistas.Com havia colocado diante dos leitores em outubro de 2018. Rosabal, conhecido pelos guerrilheiros como “El Pastor”, ofereceu cuidados clandestinos a Ernesto Che Guevara e outros combatentes na Sierra Maestra. Portanto, a sequência documental que começamos a levantar anos antes reaparece dentro de um artigo da Zelota escrito depois de uma viagem pessoal a Cuba. Não é o Adventistas.Com impondo uma palavra sobre o texto. É Felipe Carmo escrevendo que houve adventistas que simpatizaram com os revolucionários e os ajudaram clandestinamente.

E não se tratava de entregar um prato de comida a um desconhecido ferido encontrado casualmente numa estrada. A entrevista de Argelio Rosabal preservada no acervo de Tad Szulc permite enxergar a dimensão concreta daquilo que aconteceu. Rosabal era adventista, diretor da Escola Sabatina e fundador de uma igreja naquela região. Quando soube da situação dos sobreviventes e combatentes, reuniu outros adventistas e apresentou a questão em termos inequívocos: “hay que salvar a esa gente”. Salvar, naquele contexto, não significava evangelizar os guerrilheiros. Significava impedir que fossem capturados ou mortos, conseguir roupas, esconder homens, cuidar de feridos, alimentar combatentes, guardar armas e criar condições para que sobrevivessem e voltassem à luta. Rosabal contou que Che lhe pediu que enterrasse armas, descreveu a forma como elas foram escondidas e relatou uma rede de adventistas utilizada para proteger e alimentar aqueles homens. Nossa compreensão diante desse conjunto documental é simples: quando pessoas sustentam conscientemente uma força armada em guerra, não estão apenas observando a guerra. Participam, em alguma medida, das condições que permitem que aquela força continue combatendo.

NÃO ERA O CHE DA CAMISETA; ERA O GUERRILHEIRO ARMADO

Esse ponto precisa permanecer no centro da investigação porque décadas de construção cultural transformaram Che Guevara numa imagem que muitas vezes se separou do homem histórico. O rosto de boina tornou-se estampa, pôster, símbolo estudantil, objeto de consumo e representação abstrata de rebeldia. Mas os adventistas cubanos que Che agradeceu não estavam ajudando uma camiseta. Não estavam diante do mito póstumo produzido depois de sua morte na Bolívia. Estavam diante de guerrilheiros reais, numa guerra real, portando armas reais, tentando derrotar militarmente o governo de Batista. Che ainda estava construindo a biografia que posteriormente seria transformada em lenda. Por isso é importante recuperar as palavras do próprio guerrilheiro. Em suas memórias da guerra, Che escreveu sobre as irmãs Moya, adventistas, dizendo que, embora fossem contrárias à violência por suas crenças, deram aos rebeldes seu “apoyo franco” naquele momento e durante todo o transcurso da guerra. A expressão é dele. Não precisamos inventar uma palavra mais forte para tornar o episódio significativo. Precisamos apenas perguntar o que significa sustentar conscientemente homens armados durante “todo o transcurso da guerra”.

O COLÉGIO APARECE DE NOVO

Felipe Carmo também registra que, no confronto final pela conquista da ilha, Che Guevara e seus combatentes receberam novamente auxílio adventista, encontrando acolhida no Colegio de la Unión Antillana, em Santa Clara. É precisamente o mesmo ambiente descrito em 1959 por Walton J. Brown, então presidente do colégio, na Review and Herald. Brown registrou que os rebeldes emprestaram um gerador portátil à instituição, que aproximadamente 180 médicos e soldados rebeldes receberam uma refeição no colégio em 1º de janeiro e que posteriormente representantes do novo poder revolucionário visitaram o campus. O coro adventista chegou a cantar diante de Fidel Castro, e oficiais revolucionários disseram conhecer os adventistas porque haviam comido no colégio durante a batalha de Santa Clara. Esses acontecimentos não descrevem uma comunidade invisível tentando sobreviver a homens armados que invadiram suas instalações e desapareceram. Descrevem relações que continuaram sendo lembradas depois da vitória.

É nesse contexto que surge a frase atribuída a Che Guevara: “entre os adventistas e a revolução existe uma velha amizade”. A Zelota a reproduz novamente em “Os espólios de Cuba”. O que interessa aqui não é transformar uma frase em prova isolada de tudo. É perceber como ela se encaixa no conjunto. Che havia registrado o “apoyo franco” de adventistas durante a guerra. Rosabal havia auxiliado diretamente os guerrilheiros. Outros adventistas haviam participado de sua rede. O colégio havia alimentado combatentes. Professores, segundo Rolando de los Ríos, simpatizavam com os barbudos. Depois da vitória, Che compareceu a uma programação organizada pelos adventistas e foi convidado a falar. Fidel também visitou o colégio. Quando, dentro desse cenário, aparece a expressão “velha amizade”, ela não surge no vazio. Ela resume uma memória compartilhada de relações construídas durante a luta.

CINCO ANOS DEPOIS, O “NUNCA” FICA AINDA MAIS SOZINHO

É aqui que o artigo de 2026 se encontra diretamente com a entrevista publicada por Michelson Borges em 2021. Rolando de los Ríos disse que podia responder “com conhecimento de causa” e afirmou que a Igreja Adventista do Sétimo Dia “nunca apoiou a revolução ou o governo comunista”. Essa é a frase que servia à narrativa institucional. O problema estava em tudo aquilo que o próprio Rolando contou antes e depois dela. A administração adventista forneceu aos homens de Che aquilo de que necessitavam. Professores simpatizavam com os “bravos jovens barbudos”. Che foi convidado pelos adventistas. Segundo a memória de Rolando, falou em “velha amizade”. Fidel visitou o colégio e elogiou a instituição. Dois dias depois, quando Michelson voltou a procurar o mesmo pastor e lhe mostrou outro texto que precisava ser respondido, Rolando avançou ainda mais e reconheceu que adventistas faziam parte da grande maioria dos cubanos que simpatizava com os jovens rebeldes.

Agora vem Felipe Carmo, cinco anos depois, visita pessoalmente Cuba, encontra um adventista que afirma estar naquela igreja desde 1954 e volta com outra peça do mesmo quebra-cabeça: existia inicialmente entre adventistas um sentimento otimista em relação ao processo revolucionário. O autor retorna também a Caleb Rosado e repete que vários adventistas simpatizaram com os revolucionários e os ajudaram clandestinamente. Retorna a Rosabal. Retorna a Che. Retorna ao colégio. Retorna à “velha amizade”. O “nunca” continua existindo na entrevista de Rolando, mas começa a parecer cada vez mais uma fórmula cercada de acontecimentos que dizem outra coisa. Quando responde à pergunta institucional, o pastor diz “nunca”. Quando a memória começa a funcionar, aparecem a simpatia, os alimentos, o colégio, os professores, os guerrilheiros e Che. Quando a Zelota volta à história, aparecem novamente a simpatia e a assistência clandestina.

A DEFESA MUDOU: ELES NÃO SABIAM NO QUE A REVOLUÇÃO SE TRANSFORMARIA

Existe ainda outra mudança muito significativa ocorrida durante a discussão de 2021. A primeira fórmula era absoluta: a Organização nunca apoiou a Revolução. Mas, quando as lembranças e os documentos começaram a tornar essa negativa insustentável como descrição de tudo o que havia acontecido, surgiu outra linha defensiva: os adventistas simpatizavam com os rebeldes, mas acreditavam que estavam ajudando homens que derrubariam Batista e estabeleceriam democracia e propriedade privada; somente depois teriam descoberto a natureza socialista e comunista do regime. Essa mudança é importantíssima porque desloca a discussão. Já não se está negando necessariamente que houve simpatia ou auxílio. Passa-se a discutir o que aquelas pessoas imaginavam que aconteceria depois da vitória.

Podemos discutir longamente as expectativas políticas dos diferentes adventistas cubanos e certamente elas não eram idênticas. Alguns podem ter acreditado numa democracia liberal. Outros podem ter desejado apenas a queda de Batista. Outros podem ter admirado os guerrilheiros sem compreender seu projeto ideológico. Outros possuíam maior consciência política. Mas nada disso transforma auxílio em ausência de auxílio. O que alguém imaginava sobre o governo que surgiria depois é questão diferente daquilo que fez enquanto a guerra acontecia. Se adventistas alimentaram combatentes, protegeram guerrilheiros, enterraram armas, ofereceram roupas, esconderam homens e forneceram recursos, essas ações continuam existindo independentemente daquilo que imaginaram sobre 1961, 1962 ou 1967. A discussão sobre eventual engano político pode explicar motivações; não apaga os acontecimentos.

A PERSEGUIÇÃO POSTERIOR NÃO REESCREVE A GUERRA

É justamente aqui que “Os espólios de Cuba” presta outro serviço importante à investigação. Felipe não esconde aquilo que aconteceu depois. Miguelito fala de perseguição. O artigo menciona prisões, vigilância religiosa, desconfiança, expropriações e o fechamento do colégio adventista em 1967. O autor reconhece o trauma daquele velho adventista e considera compreensível que tenha se sentido traído. Nada disso precisa ser escondido para preservarmos nossa interpretação. Pelo contrário. A ruptura posterior torna a cronologia ainda mais clara. Houve um período de aproximação e expectativa; depois o Estado revolucionário alterou profundamente sua relação com as instituições religiosas e atingiu também os adventistas.

Portanto, não foi a perseguição posterior que criou retroativamente uma neutralidade anterior. Esse é o erro que precisamos impedir. Um aliado de determinada etapa pode tornar-se vítima na etapa seguinte. Uma pessoa pode ajudar um movimento e depois lamentar tê-lo ajudado. Pode sentir-se traída. Pode concluir que foi enganada. Pode perder propriedades para os homens que anteriormente apoiou. Tudo isso acontece repetidamente na História. O sofrimento posterior não transforma automaticamente a vítima posterior em adversária desde o princípio. Miguelito utiliza justamente a palavra “traição”. A palavra pressupõe uma expectativa rompida. E o próprio Felipe reconhece que essa expectativa existiu.

NÃO FOI A IASD QUE PRIMEIRO ROMPEU COM O COMUNISMO

Essa cronologia nos leva a uma conclusão que precisa ser afirmada sem rodeios: a documentação disponível não sustenta uma narrativa segundo a qual os adventistas reconheceram antecipadamente a incompatibilidade entre sua fé e o movimento que chegava ao poder e, por essa razão, mantiveram distância dos revolucionários. Houve adventistas que simpatizaram com eles; houve assistência clandestina; houve acolhimento aos combatentes; houve relações com dirigentes revolucionários; houve encontros posteriores à vitória. Mais tarde, à medida que o Estado cubano assumiu políticas mais duras contra instituições religiosas, nacionalizou propriedades e restringiu atividades e liberdades, aquela convivência entrou em crise. Em outras palavras, a ruptura fundamental veio do endurecimento do próprio Estado revolucionário. Não foi a IASD que, ao descobrir subitamente o marxismo, levantou-se e declarou que não poderia mais manter relacionamento com aquele poder. Foi o poder que restringiu, perseguiu e expropriou estruturas religiosas, inclusive adventistas.

Isso também explica por que a relação não desapareceu definitivamente. Décadas depois, quando o governo cubano flexibilizou sua política religiosa, os contatos institucionais reapareceram e voltaram a produzir cooperação. Em 2025, a própria Adventist Review publicaria uma reportagem falando em “long-standing collaboration” — colaboração de longa data — entre o governo cubano, a organização adventista e ministérios de apoio. A reportagem relatou ainda que Caridad Diego Bello, dirigente do Escritório de Assuntos Religiosos do Comitê Central do Partido Comunista Cubano, encontrou, ao assumir suas funções décadas antes, uma lista de assuntos pendentes originada em anotações relacionadas a Che Guevara, entre elas a avaliação da possibilidade de permitir aos adventistas manter um seminário teológico. Portanto, a história não termina com guerrilheiros na Sierra Maestra nem com expropriações nos anos 1960. Ela atravessa décadas e chega ao presente institucional.

FELIPE FOI A CUBA E ENCONTROU UMA REALIDADE MAIS AMARGA

Há outro aspecto fascinante em “Os espólios de Cuba”. O Felipe que retorna da ilha em 2024 e publica em 2026 escreve um texto mais sombrio do que a narrativa que a própria Zelota apresentava em 2021. Ele vê uma Havana em deterioração, encontra falta de água e energia, descreve infraestrutura decadente, observa o desejo de emigração, registra a saída de jovens e até de famílias pastorais adventistas e percebe comunidades religiosas funcionando quase como bunkers de sobrevivência. Ele observa resorts praticamente vazios enquanto a população enfrenta necessidades básicas e admite contradições do próprio modelo cubano, embora continue atribuindo enorme importância ao bloqueio e às sanções dos Estados Unidos. O artigo não é uma conversão ao anticomunismo. Longe disso. Mas a experiência presencial parece obrigá-lo a escrever uma Cuba mais contraditória, mais pobre, mais cansada e menos facilmente resumida por palavras de ordem.

Isso torna o texto ainda mais interessante. Em 2021, a série da Zelota enfatizava a consciência política dos adventistas cubanos, sua participação no ambiente revolucionário e a necessidade de corrigir uma narrativa adventista excessivamente unilateral sobre Cuba. Em 2026, depois de caminhar pelas ruas da ilha, Felipe continua preservando grande parte de sua interpretação política, mas já precisa carregar consigo a decadência, a desilusão, a migração, a insuficiência estatal, a memória da repressão e o sentimento de abandono. Sua Cuba ficou mais complexa. A Revolução que aparecia como horizonte histórico precisa agora dividir espaço com os destroços da própria experiência revolucionária. E, curiosamente, justamente nesse texto mais amargo, a história do apoio inicial dos adventistas reaparece intacta.

A TESTEMUNHA VELHA QUE FELIPE ENCONTROU E A TESTEMUNHA VELHA QUE MICHELSON PROCUROU

A comparação é inevitável. Michelson procurou um pastor cubano já idoso e há décadas fora da ilha para oferecer aos leitores “a realidade da IASD em Cuba”. Felipe foi à própria Cuba e encontrou Miguelito, outro velho adventista que dizia estar naquela comunidade desde 1954. Um falou do exterior; outro permaneceu na ilha. Um havia construído sua carreira pastoral dentro da denominação; o outro continuava sentado nos bancos de uma igreja cubana carregando as memórias do período revolucionário. Os dois são seres humanos, não máquinas de reprodução documental, e suas lembranças precisam ser comparadas com outras fontes. Mas existe algo extraordinário: mesmo partindo de lugares diferentes, nenhum deles consegue produzir uma história em que os adventistas simplesmente estivessem desde o primeiro momento separados dos revolucionários.

Rolando fala dos professores que simpatizavam com os barbudos, da administração que forneceu aos homens de Che aquilo de que precisavam e da velha amizade mencionada pelo guerrilheiro. Miguelito fala do otimismo inicial dos adventistas e depois da traição. Rosado fala de simpatia e assistência clandestina. Rosabal descreve em detalhes aquilo que fez. Che agradece o “apoyo franco” de adventistas. Walton Brown registra os acontecimentos no colégio em 1959. Felipe Carmo, décadas depois, recompõe parte desse conjunto. Quantas fontes diferentes precisam se encontrar antes que o “nunca” deixe de ser tratado como uma explicação satisfatória?

A ZELOTA NÃO PRECISA CONCORDAR CONOSCO PARA CONFIRMAR OS FATOS

É importante esclarecer precisamente o que fazemos com a Revista Zelota. Não precisamos aceitar sua interpretação política sobre Cuba, sobre a Revolução, sobre os Estados Unidos ou sobre o socialismo. Felipe possui sua leitura. Nós possuímos a nossa. Isso é jornalismo e interpretação histórica. O que nos interessa é que os fatos documentados por autores de perspectivas diferentes convergem. Quando uma publicação que demonstra simpatia pelo processo revolucionário cubano reconhece que adventistas simpatizaram com os revolucionários e os ajudaram clandestinamente, essa informação não pode ser descartada como propaganda anticomunista do Adventistas.Com. Quando o próprio Che agradece adventistas, isso não foi escrito por nós. Quando Walton Brown relata o que aconteceu no colégio, isso saiu na Review and Herald. Quando Rosabal conta como escondeu homens e armas, não somos nós falando por ele. Quando Rolando relembra professores simpatizantes, administração fornecendo recursos e “velha amizade”, a entrevista está no blog de Michelson. Quando Felipe vai a Cuba e volta escrevendo novamente sobre simpatia e ajuda clandestina, a matéria está na Zelota.

É exatamente por isso que nossa posição editorial não depende de uma pretensão impossível de neutralidade. Não prometemos neutralidade. Prometemos documentos. Interpretamos os documentos e assumimos nossa interpretação. A Zelota interpreta os fatos de determinada maneira; Michelson procurou interpretá-los de outra; nós os interpretamos à nossa maneira. A diferença precisa ser resolvida pelo leitor diante da documentação. Por isso colocamos os textos lado a lado, observamos a cronologia e perguntamos qual interpretação consegue explicar o maior número de fatos sem precisar apagá-los.

QUANTO MAIS TENTARAM FECHAR A HISTÓRIA, MAIS ELA SE ABRIU

Há uma ironia extraordinária em todo esse processo. Em 2018, o Adventistas.Com colocou diante dos leitores um nome praticamente desconhecido: Argelio Rosabal. Prometemos continuar pesquisando. Em 2021, a tentativa de responder à controvérsia produziu novas publicações. Michelson trouxe Isaac Malheiros. Depois trouxe Rolando de los Ríos. Voltou a procurar Rolando dois dias depois porque a discussão continuava. A Zelota publicou sua própria série sobre Cuba. Cada resposta acrescentou alguma coisa ao arquivo. Quanto mais se procurava demonstrar que não havia história relevante para contar, mais história era publicada. Quanto mais aparecia o “nunca”, mais apareciam pessoas dizendo “simpatizavam”, “ajudaram”, “forneceram”, “acolheram”. A guerra de narrativas não fechou o caso. Expandiu o acervo documental.

Agora Felipe Carmo acrescentou outra camada. Viajou para a ilha, conheceu adventistas, ouviu um velho cubano que vivera a experiência revolucionária, retornou aos estudos históricos da Spectrum e publicou uma narrativa que novamente conduz a Rosabal, Che Guevara, ao colégio adventista e à velha amizade. Cinco anos depois da guerra de postagens, o material continua se acumulando na mesma direção. A interpretação de Felipe pode ser muito diferente da nossa, mas os acontecimentos que ele registra continuam reconhecíveis.

O VELHO CUBANO USOU A PALAVRA CERTA: TRAIÇÃO

Talvez uma das palavras mais importantes de “Os espólios de Cuba” não tenha sido escrita pelo autor para explicar a relação histórica; veio da boca de Miguelito. Ele falou em “traição”. A palavra é poderosa porque revela uma estrutura temporal. Quem nunca confiou não se sente traído; sente-se atacado. Quem nunca esperou nada não experimenta decepção; experimenta apenas hostilidade. A traição pressupõe alguma relação anterior, alguma expectativa, alguma esperança quebrada. Isso não significa que cada adventista cubano tenha apoiado Fidel ou Che. Seria absurdo transformar milhares de indivíduos numa consciência coletiva única. Significa que existiu dentro do adventismo cubano uma relação com o processo revolucionário suficientemente significativa para que testemunhas posteriores pudessem falar de entusiasmo, simpatia, colaboração e, finalmente, traição.

A partir daí, a sequência histórica se torna muito mais inteligível. Adventistas cansados da ditadura de Batista simpatizam com homens que prometem derrubá-la. Alguns fornecem apoio concreto. Guerrilheiros reconhecem esse auxílio. O relacionamento produz confiança e acesso. A Revolução vence. Che fala em velha amizade. Fidel visita o colégio. O novo poder se consolida. O caráter do regime torna-se cada vez mais claro. As políticas religiosas endurecem. Instituições são restringidas e propriedades expropriadas. Adventistas que anteriormente olharam para os revolucionários com esperança passam a sentir-se traídos. Décadas depois, com a flexibilização religiosa, governo e denominação voltam a estabelecer relações de cooperação. Essa cronologia explica muito mais do que a palavra “nunca”.

A ZELOTA FOI A CUBA E VOLTOU CONFIRMANDO O QUE O “NUNCA” TENTAVA APAGAR

Por isso “Os espólios de Cuba” merece entrar definitivamente em nosso dossiê. Não porque Felipe Carmo tenha ido à ilha para confirmar o Adventistas.Com. Evidentemente não foi esse seu propósito. Não porque a Zelota tenha adotado nossa interpretação política. Não adotou. O valor do artigo está justamente no contrário: uma publicação de orientação diferente, escrita por um autor que continua demonstrando solidariedade ao processo cubano e forte oposição às políticas norte-americanas contra a ilha, retorna à história e registra novamente os mesmos elementos fundamentais que temos encontrado em documentos de origens completamente distintas. Adventistas sentiram inicialmente otimismo. Adventistas simpatizaram com os revolucionários. Alguns ajudaram clandestinamente. Rosabal auxiliou Che e outros combatentes. Os homens de Guevara receberam acolhida no colégio adventista. Depois da vitória, ainda se falava numa velha amizade. Mais tarde veio a ruptura e a repressão.

Não precisamos retirar uma única página dessa sequência para reconhecer o sofrimento posterior dos adventistas cubanos. Podemos dizer que foram perseguidos e continuar dizendo que antes houve adventistas que apoiaram os guerrilheiros. Podemos reconhecer que o regime expropriou o colégio e continuar lembrando que aquele mesmo colégio havia acolhido os combatentes durante a guerra. Podemos reconhecer que pessoas se sentiram enganadas e continuar perguntando por que acreditaram nos homens que ajudaram. Uma coisa não apaga a outra. A história não possui obrigação de proteger a reputação posterior de quem participou dela.

EM 2018, PERGUNTAMOS QUEM ERA ARGELIO ROSABAL. EM 2026, A PERGUNTA CONTINUA PRODUZINDO RESPOSTAS

Quando o Adventistas.Com perguntou em outubro de 2018 se os pastores sabiam quem havia sido Argelio Rosabal, talvez nem nós mesmos soubéssemos quantos documentos aquela pergunta acabaria reunindo. O nome nos levou a Che Guevara. Che nos levou às próprias memórias da guerrilha. A guerrilha nos levou às irmãs Moya, ao “apoyo franco”, ao Colegio de las Antillas, a Walton Brown, a Caleb Rosado, à Spectrum, aos documentos sobre relações posteriores com o governo revolucionário e, finalmente, à própria comunicação adventista contemporânea. Em 2021, as respostas de nossos interlocutores acrescentaram Rolando de los Ríos, Isaac Malheiros e a série da Revista Zelota. Em 2026, Felipe Carmo foi pessoalmente à ilha e voltou trazendo Miguelito para dentro do arquivo.

Essa é uma das vantagens de continuar pesquisando durante anos em vez de encerrar a história quando surge uma explicação conveniente. Um documento conversa com outro. Uma testemunha corrige ou amplia outra. Uma frase aparentemente isolada encontra contexto décadas depois. Um artigo destinado a defender uma interpretação termina preservando fatos úteis à interpretação contrária. E as peças começam a formar um quadro cuja força não depende mais de nenhuma delas isoladamente.

A GUERRA DE NARRATIVAS PRODUZIU UM RESULTADO QUE NINGUÉM CONSEGUIU CONTROLAR

Michelson procurava uma resposta. Rolando entregou o “nunca”, mas sua memória trouxe junto os acontecimentos. Michelson voltou a procurá-lo dois dias depois, mostrou-lhe outro texto e pediu nova manifestação; novamente a defesa veio acompanhada da admissão de que adventistas haviam simpatizado com os rebeldes. Isaac Malheiros tentou explicar a relação como algo compatível com o apartidarismo institucional, mas precisou narrar Rosabal, o colégio e os contatos revolucionários. A Zelota entrou na discussão por sua própria perspectiva, mas documentou simpatia e assistência clandestina. Cinco anos depois, Felipe Carmo atravessou o mar, caminhou por Havana, entrou numa igreja adventista, conversou com um homem que dizia estar ali desde 1954 e voltou com uma palavra que resume a passagem da esperança para a repressão: “traição”.

Foi assim que a guerra de narrativas produziu algo maior do que qualquer uma das narrativas. Produziu um arquivo. E arquivos têm uma característica perigosa para versões demasiadamente fechadas: documentos não sabem qual história deveriam proteger. Walton Brown não sabia o que Michelson Borges escreveria em 2021. Che Guevara não sabia que suas palavras seriam confrontadas décadas depois com o apartidarismo adventista. Argelio Rosabal não concedeu sua entrevista pensando numa discussão brasileira do século XXI. Caleb Rosado não escreveu para resolver nossa controvérsia. Miguelito não passou setenta anos em Cuba esperando a visita de Felipe Carmo. As fontes surgiram em épocas, lugares e contextos diferentes. E justamente por isso sua convergência merece atenção.

A MEMÓRIA NÃO OBEDECEU À NARRATIVA

Talvez seja essa a imagem que melhor sintetize toda esta etapa de nossa investigação. Em 2021, um velho pastor cubano tentou responder como pastor, mas também se lembrou como homem. A fórmula denominacional dizia “nunca”; a memória trouxe professores simpatizantes, homens barbudos, alimentos, colégio, Che e velha amizade. Em 2024, outro velho adventista recebeu um jornalista dentro de uma igreja cubana e também abriu sua memória: primeiro havia existido otimismo; depois veio aquilo que chamou de traição. Os dois homens olharam para a mesma Revolução a partir de trajetórias diferentes e, sem combinar entre si, deixaram escapar a mesma estrutura fundamental da história: houve um antes e houve um depois.

É justamente esse “antes” que não pode desaparecer. Antes da repressão havia guerrilheiros precisando sobreviver. Antes da expropriação havia um colégio acolhendo homens da Revolução. Antes da desconfiança havia simpatia. Antes da palavra “traição” havia esperança. Antes do “nunca” institucional havia acontecimentos documentados.

MICHELSON PROCUROU A NEGATIVA. A ZELOTA FOI A CUBA. OS DOCUMENTOS PERMANECERAM.

É por isso que nossa conclusão não depende de convencer Felipe Carmo a pensar como nós nem de convencer Michelson Borges a reconhecer nossa interpretação. Cada um continuará provavelmente enxergando essa história de maneira diferente. Nossa tarefa é outra. Vamos continuar reunindo aquilo que todos eles publicaram, confrontando seus textos com fontes anteriores, examinando documentos produzidos pelos próprios envolvidos e permitindo que o leitor veja a sequência completa. O levantamento documental realizado pelo Adventistas.Com ao longo desses anos deixou de depender de uma única testemunha, de uma única revista, de uma única lembrança ou de uma única interpretação. Temos Che falando dos adventistas. Temos adventistas falando de Che. Temos um dirigente do colégio descrevendo os combatentes que ali comeram. Temos Rosabal descrevendo a rede que protegeu os guerrilheiros. Temos Rosado falando de assistência clandestina. Temos Rolando tentando dizer “nunca” enquanto recorda os fatos. Temos a Zelota documentando a participação adventista. E agora temos Felipe Carmo regressando da própria Cuba com outro testemunho de que existiu inicialmente entre adventistas uma expectativa favorável em relação à Revolução.

Michelson procurou uma testemunha para fechar a questão. A testemunha abriu novas brechas. A Zelota foi a Cuba cinco anos depois e encontrou outras. Quanto mais tentaram organizar o passado dentro de uma narrativa confortável, mais o passado apareceu pelos lados. O “nunca” continuou escrito na entrevista, mas ao redor dele cresceram a simpatia, o “apoyo franco”, a assistência clandestina, o colégio, os combatentes, a velha amizade e, finalmente, a palavra “traição”. A guerra de narrativas não apagou nossa investigação. Fez exatamente o contrário: multiplicou os documentos que agora precisamos interpretar.

Em 2018 perguntamos: quem foi Argelio Rosabal? Em 2026, depois de Michelson, Rolando, Isaac Malheiros, Caleb Rosado, Walton Brown, Che Guevara, a própria Zelota e agora Miguelito, a pergunta tornou-se muito maior: se tudo isso não foi apoio, simpatia, envolvimento e relacionamento político com homens que estavam fazendo uma revolução armada, exatamente o que a Organização chama de apartidarismo?

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