Os Ministros Adventistas Terraplanistas de Nova York: A Denúncia de Canright e a Cosmologia Bíblica no Adventismo Pioneiro

Um dos episódios mais curiosos — e ao mesmo tempo mais reveladores — da história esquecida do adventismo do século XIX envolve a acusação feita por Dudley Marvin Canright de que ministros adventistas da Associação de Nova York haviam adotado oficialmente a doutrina bíblica da Terra Plana e estacionária.

“The latest discovery is that adopted by the Seventh-day Adventist ministers of the New York conference. It is that the earth is absolutely FLAT and STATIONARY, with sun, moon and stars much smaller than the earth and revolving around it! ‘The sun, he do move,’ the old darkey said, and they say, Amen.”

Tradução:
“A última descoberta é aquela adotada pelos ministros adventistas do sétimo dia da Conferência de Nova York. É que a terra é absolutamente PLANA e ESTACIONÁRIA, com sol, lua e estrelas muito menores do que a terra e girando em torno dela! ‘O sol, ele se move,’ o preto velho disse, e eles dizem, Amém.”

Durante décadas, esse assunto foi tratado superficialmente, quase sempre acompanhado de ironias modernas, como se a simples existência do debate já fosse motivo de escárnio. No entanto, uma análise séria da documentação histórica mostra que a questão é muito mais profunda do que isso.

O tema não surgiu do nada, não foi invenção da internet moderna e tampouco pode ser reduzido a um “desvio excêntrico” isolado. Pelo contrário: ele nasceu dentro do próprio ambiente intelectual e teológico do adventismo pioneiro, especialmente em Nova York, onde vários dos primeiros líderes adventistas desenvolviam uma leitura radicalmente literal das Escrituras.

A declaração de Canright aparece em sua obra Seventh-day Adventism Renounced, onde ele escreve: “A última descoberta é aquela adotada pelos ministros adventistas do sétimo dia da Conferência de Nova York. É que a terra é absolutamente PLANA e ESTACIONÁRIA…” A frase é frequentemente citada por opositores e curiosos, mas raramente contextualizada.

O ponto mais importante aqui não é simplesmente saber se existiam adventistas terraplanistas — isso já parece praticamente confirmado — mas compreender por que esse pensamento surgiu de forma tão natural dentro do adventismo pioneiro. Porque, historicamente, a questão faz muito mais sentido do que muitos imaginam hoje.

O adventismo nasceu como um movimento profundamente literalista. Seus pioneiros rejeitavam a alegorização das profecias, rejeitavam a espiritualização dos textos bíblicos e insistiam em uma leitura concreta da criação, do dilúvio, da escatologia e da cronologia bíblica. A defesa literal dos seis dias da criação e do sábado do sétimo dia como memorial histórico do Éden exigia, inevitavelmente, uma cosmologia igualmente literal.

Afinal, o próprio relato de Gênesis descreve uma Terra fixa, águas acima do firmamento, luminares colocados no céu para servirem à Terra e um universo claramente geocêntrico em sua linguagem. O problema moderno é que muitos cristãos passaram a tratar literalmente apenas as partes da Bíblia que lhes são teologicamente convenientes, enquanto reinterpretam cosmologia, firmamento e estrutura do mundo segundo categorias científicas posteriores.

Mas os pioneiros adventistas viveram em um contexto completamente diferente. O século XIX foi marcado por um conflito intenso entre a leitura literal da Bíblia e o avanço do racionalismo científico europeu. Para muitos protestantes conservadores da época, heliocentrismo, geologia uniformitarista, evolucionismo e crítica bíblica alemã faziam parte do mesmo processo de erosão da autoridade das Escrituras. Dentro desse ambiente, questionar o modelo cosmológico dominante não era visto automaticamente como absurdo. Era, na visão de muitos, uma consequência lógica da fidelidade ao texto sagrado.

É nesse cenário que surge Roswell Fenner Cottrell, provavelmente a figura mais importante para compreender toda essa controvérsia. Cottrell não era um membro periférico da igreja. Ele foi um dos grandes pioneiros adventistas do estado de Nova York, colaborador direto de James White, integrante do comitê editorial da Review and Herald e presidente da New York Conference.

Além disso, foi mentor espiritual do próprio Dudley Canright, que trabalhou em sua fazenda e foi batizado por ele. Ou seja: quando Canright escreveu sobre ministros adventistas de Nova York adotando cosmologia terraplanista ou anti-heliocêntrica, ele não falava de um ambiente desconhecido — ele estava descrevendo um meio no qual viveu pessoalmente.

O elemento mais importante dessa história é que Cottrell realmente publicou textos defendendo uma leitura cosmológica extremamente literal das Escrituras. Em artigos da Review and Herald, ele utilizava passagens como “o mundo está firmado e não pode ser abalado” para questionar a movimentação terrestre. Embora nem sempre utilizasse explicitamente o termo “Terra Plana”, sua posição claramente rejeitava aspectos centrais do heliocentrismo moderno. Isso muda completamente a discussão, porque demonstra que tais ideias não estavam fora do adventismo pioneiro — elas circulavam dentro de seus próprios periódicos oficiais.

Além disso, historiadores adventistas posteriores reconheceram que realmente existiu um “flat-earth debate” dentro da história adventista. Uma edição da revista histórica Adventist Heritage menciona explicitamente a existência desse debate, algo extremamente significativo, porque demonstra que o tema deixou rastros suficientes para entrar na memória historiográfica adventista. Isso praticamente destrói a ideia de que tudo seria invenção moderna ou mera caricatura de opositores. Havia, de fato, uma corrente cosmológica literalista dentro do adventismo do século XIX.

Outro detalhe importante é que Nova York era um centro extremamente peculiar do adventismo primitivo. A região havia sido fortemente influenciada pelo movimento millerita, pelos batistas do sétimo dia e por diversos grupos restauracionistas radicais que defendiam retorno absoluto à Bíblia. Muitos desses grupos já desconfiavam profundamente da astronomia moderna e das instituições científicas europeias. Nesse ambiente, a cosmologia bíblica literal não parecia uma extravagância, mas uma consequência natural da rejeição ao racionalismo secular.

Também não podemos ignorar a influência do zeteticismo britânico, especialmente através de Samuel Rowbotham e sua obra Zetetic Astronomy: Earth Not a Globe. Embora ainda faltem evidências diretas ligando ministros adventistas nova-iorquinos a Rowbotham, é praticamente impossível que tais debates não tenham chegado ao ambiente adventista do fim do século XIX. O movimento zetético já circulava amplamente em círculos protestantes literalistas da Inglaterra e dos Estados Unidos.

O silêncio institucional posterior também chama atenção. Até hoje não apareceu uma grande refutação histórica adventista demonstrando categoricamente que Canright mentiu sobre esse episódio específico. O que existe são tentativas de minimizar sua importância ou apresentá-lo como algo marginal. Mas a documentação sobrevivente aponta para algo mais complexo: provavelmente havia realmente um grupo significativo de ministros adventistas em Nova York defendendo uma cosmologia bíblica literal anti-heliocêntrica, ainda que isso nunca tenha se tornado doutrina oficial mundial da denominação.

E isso faz sentido historicamente. O adventismo pioneiro ainda estava formando sua identidade intelectual. Havia debates intensos sobre organização eclesiástica, natureza dos anjos, gigantes antediluvianos, profecias, geologia, cronologia bíblica e cosmologia. O movimento era muito menos institucionalizado do que hoje. Roswell Cottrell, por exemplo, discordava até mesmo da centralização administrativa da igreja, defendendo maior autonomia local. Esse espírito independente favorecia discussões teológicas muito mais amplas e ousadas.

No fundo, toda essa controvérsia revela algo maior: o conflito entre duas formas completamente diferentes de abordar as Escrituras. De um lado, uma leitura que aceita o relato bíblico como descrição real da criação. De outro, uma tentativa posterior de acomodar a Bíblia às cosmologias modernas. O adventismo sempre insistiu que os seis dias da criação foram literais e que o sábado é memorial histórico dessa criação literal. Mas essa posição inevitavelmente levanta uma pergunta desconfortável: se o relato da criação é literal em relação ao tempo, por que deixaria de ser literal em relação à estrutura cosmológica descrita no próprio texto?

Essa pergunta esteve muito mais viva entre os pioneiros adventistas do que está hoje. E talvez seja exatamente isso que torna o episódio dos ministros adventistas terraplanistas de Nova York tão fascinante historicamente. Ele expõe uma tensão que nunca desapareceu completamente dentro do adventismo: até que ponto a igreja está disposta a sustentar a literalidade integral das Escrituras quando essa literalidade entra em choque com os paradigmas científicos dominantes?

Mais de um século depois, a acusação de Canright continua ecoando não apenas como curiosidade histórica, mas como testemunho de uma época em que setores do adventismo levavam a cosmologia bíblica às suas consequências mais radicais — e o faziam acreditando estar defendendo a própria autoridade da Palavra de Deus.

Referências

CANRIGHT, Dudley M. Seventh-day Adventism Renounced. Disponível em: https://www.bible.ca/7-Seventh-day-Adventism-RENOUNCED-by-D-M-Canright.htm

Roswell F. Cottrell – histórico e atuação no adventismo pioneiro. Disponível em: https://en.wikipedia.org/wiki/Roswell_F._Cottrell

Dudley M. Canright – biografia e contexto histórico. Disponível em: https://en.wikipedia.org/wiki/D._M._Canright

Adventist Heritage Journal – “Flat Earth Debate” no contexto adventista. Disponível em: https://documents.adventistarchives.org/ScholarlyJournals/AH/AH19920401-V15-01.pdf

Review and Herald (século XIX) – artigos de Roswell F. Cottrell sobre cosmologia bíblica literal (consultados via arquivos históricos adventistas).

Adventist Archives – documentos históricos, atas e periódicos adventistas. Disponível em: https://documents.adventistarchives.org

EGW Writings Archive – base de dados textual adventista. Disponível em: https://egwwritings.org

ROWBOTHAM, Samuel Birley. Zetetic Astronomy: Earth Not a Globe. Londres, 1865.

Fontes históricas complementares: jornais regionais norte-americanos do século XIX, debates protestantes sobre cosmologia bíblica e literatura zetética.

Os Ministros Adventistas Terraplanistas de Nova York

Um dos episódios mais intrigantes da história do adventismo do século XIX envolve a afirmação de Dudley Marvin Canright de que ministros adventistas da Associação de Nova York haviam adotado uma cosmologia bíblica literal, incluindo a ideia de uma Terra plana e estacionária. Longe de ser um detalhe irrelevante ou uma curiosidade marginal, essa declaração abre uma janela para um período em que o adventismo ainda estava definindo sua relação com a ciência, com a interpretação bíblica e com a própria estrutura do mundo descrita nas Escrituras.

Canright registra em sua obra: “A última descoberta é aquela adotada pelos ministros adventistas do sétimo dia da Conferência de Nova York. É que a terra é absolutamente PLANA e ESTACIONÁRIA, com sol, lua e estrelas muito menores do que a terra e girando em torno dela! ”1. Essa afirmação, muitas vezes citada de forma isolada, precisa ser compreendida dentro do contexto de alguém que viveu o adventismo por décadas, tendo sido discípulo direto de líderes pioneiros e profundamente inserido no ambiente religioso de Nova York.

O elemento central dessa discussão não é simplesmente a existência da crença, mas o ambiente teológico que a tornou possível. O adventismo pioneiro era marcado por uma leitura radicalmente literal das Escrituras. A criação em seis dias, o sábado como memorial literal e o dilúvio global eram considerados eventos históricos concretos. Nesse contexto, a cosmologia bíblica — com uma Terra estabelecida, luminares colocados no firmamento e águas acima — não era automaticamente reinterpretada. Pelo contrário, era frequentemente tomada em seu sentido direto.

Roswell Fenner Cottrell emerge como figura-chave nesse cenário. Líder adventista influente em Nova York, colaborador da Review and Herald e mentor de Canright, Cottrell publicou textos defendendo explicitamente a imobilidade da Terra com base nas Escrituras. Em um de seus argumentos, ele cita: “A terra também está firmada, de modo que não pode ser movida.”
2, utilizando o texto bíblico como fundamento para questionar modelos cosmológicos que envolviam movimento terrestre.

Esse detalhe é decisivo porque demonstra que o debate não estava fora do adventismo — ele ocorria dentro de seus próprios canais oficiais. A presença de tais ideias em periódicos como a Review and Herald indica que havia espaço real para discussão de cosmologia bíblica literal entre líderes e membros.

Além disso, registros historiográficos posteriores confirmam que esse tipo de debate realmente existiu. Um estudo publicado na revista Adventist Heritage menciona explicitamente a ocorrência de um “flat-earth debate” no contexto adventista do século XIX3. Essa informação é crucial, pois demonstra que o tema deixou rastros suficientes para ser reconhecido por pesquisadores da própria tradição adventista.

Outro fator que reforça a plausibilidade da afirmação de Canright é o contexto cultural da época. O século XIX foi marcado por uma tensão intensa entre o avanço da ciência moderna e a leitura literal da Bíblia. Para muitos protestantes, o heliocentrismo estava associado a um conjunto mais amplo de ideias consideradas ameaçadoras à fé, incluindo o evolucionismo e o racionalismo. Dentro desse ambiente, questionar a cosmologia dominante não era visto como absurdo, mas como defesa da autoridade bíblica.

É importante notar que o adventismo pioneiro não possuía ainda a estrutura institucional rígida que viria a caracterizá-lo posteriormente. Havia maior liberdade de pensamento, especialmente em regiões como Nova York, onde o movimento tinha raízes fortes e influência de correntes restauracionistas. Isso permitia que debates sobre temas como cosmologia se desenvolvessem com maior intensidade.

O silêncio institucional posterior sobre o assunto também é significativo. Não há registro amplamente conhecido de uma refutação oficial detalhada à afirmação específica de Canright sobre ministros da conferência de Nova York. Isso não prova sua veracidade integral, mas sugere que havia, no mínimo, elementos reais por trás da acusação.

No fundo, essa controvérsia revela uma questão mais profunda que permanece relevante: a relação entre a literalidade bíblica e a cosmologia. Uma igreja que sustenta a literalidade dos seis dias da criação e a observância do sábado como memorial histórico enfrenta inevitavelmente o desafio de lidar com a descrição cosmológica presente no próprio relato bíblico. A pergunta que surge é direta: até que ponto essa literalidade será mantida de forma consistente?

O episódio dos ministros adventistas de Nova York, portanto, não é apenas um detalhe curioso do passado. Ele é um reflexo de uma tensão teológica contínua — entre aceitar plenamente a descrição bíblica do mundo ou reinterpretá-la à luz de paradigmas externos. E essa tensão, longe de estar resolvida, continua a ecoar no presente.


Notas de Rodapé

1 CANRIGHT, Dudley M. Seventh-day Adventism Renounced. Disponível em: https://www.bible.ca/7-Seventh-day-Adventism-RENOUNCED-by-D-M-Canright.htm

2 COTTRELL, Roswell F. Artigos publicados na Review and Herald (século XIX), citando Salmos 93:1 e textos correlatos sobre a imobilidade da Terra.

3 Adventist Heritage Journal, Vol. 15, No. 1 (1992). “Flat Earth Debate”. Disponível em: https://documents.adventistarchives.org/ScholarlyJournals/AH/AH19920401-V15-01.pdf

 

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