
Batizado por J. H. Waggoner, participante da obra adventista, defensor do zeteticismo, autor de um dos mapas de Terra plana mais conhecidos do século XIX e reconhecido pela própria denominação como fiel à mensagem até a morte, Alexander Gleason quase desapareceu da memória adventista. Sua história ajuda a compreender o abandono da cosmologia hebraico-bíblica e sua explicação dos eclipses revela um aspecto praticamente desconhecido de sua obra.
Alexander Strahan Gleason precisa ser reapresentado aos adventistas como aquilo que documentalmente foi: um adventista do sétimo dia do período pioneiro que permaneceu identificado com a mensagem até a morte e que, enquanto adventista, defendeu publicamente uma cosmologia fundamentada das Escrituras. Não estamos falando de alguém que frequentou a Igreja durante alguns anos, rompeu com o adventismo e somente depois se tornou defensor da Terra plana.
Gleason foi batizado por J. H. Waggoner em 1859, participou da obra adventista juntamente com sua esposa, Phoebe, esteve ligado aos primeiros esforços da denominação em Buffalo, Nova York, publicou sua defesa cosmológica durante sua vida adventista e morreu em 1909 sendo chamado pela própria Review and Herald de “Brother Gleason” (“irmão Gleason”), com o testemunho de que nunca havia abandonado a verdade da mensagem que aceitara meio século antes.
Durante os últimos anos, temos recuperado no Adventistas.Com diferentes partes dessa história: o famoso mapa de Gleason, sua ligação com a Astronomia Zetética, suas experiências sobre extensas superfícies de água, sua defesa de uma Terra plana e estacionária, a relação que estabelecia entre a estrutura da Criação e o sábado e, principalmente, o contraste entre sua cosmologia e aquela que acabou predominando no adventismo.
Também já demonstramos como Ellen G. White se afastou da cosmologia hebraico-bíblica ao incorporar às suas experiências visionárias uma estrutura de “outros planetas”, “outros mundos”, habitantes não caídos e até um mundo possuidor de sete luas, onde afirmou ter encontrado Enoque.
Faltava, porém, examinar com maior atenção uma questão que inevitavelmente aparece quando recuperamos Gleason: se ele rejeitava a Terra globular e a explicação astronômica convencional, como explicava os eclipses, especialmente aquela sombra curva que atravessa a Lua durante um eclipse lunar?
Um adventista por aproximadamente meio século
Alexander Gleason nasceu em 1827 e foi batizado em Hillsdale, Michigan, na primavera de 1859, por J. H. Waggoner, um dos nomes importantes do adventismo pioneiro. Esse detalhe biográfico não é periférico. Waggoner foi escritor, pregador e editor dentro do movimento que daria origem à Igreja Adventista do Sétimo Dia, e o batismo de Gleason por ele coloca o futuro autor zetético diretamente dentro da formação histórica da denominação.
Gleason e Phoebe posteriormente aparecem ligados ao desenvolvimento da presença adventista em Buffalo, Nova York, e a documentação denominacional preservou a memória do casal como trabalhadores dedicados à causa. Portanto, quando Gleason começou a escrever sobre cosmologia, não era um estranho olhando o adventismo de fora, mas alguém cuja própria história religiosa estava profundamente vinculada ao movimento.
Seu nome acabou tornando-se conhecido internacionalmente principalmente por seu mapa circular da Terra e por sua extensa obra Is the Bible From Heaven? Is the Earth a Globe? (“Veio a Bíblia do Céu? A Terra é um Globo?”). A edição ampliada tornou-se um volumoso trabalho no qual Bíblia, astronomia, cronologia, profecia, sábado, movimentos celestes e eclipses aparecem interligados.
Essa característica precisa ser compreendida porque Gleason não tratava a forma da Terra como curiosidade separada de sua fé. Para ele, a discussão fazia parte de uma pergunta muito maior: se a Bíblia é realmente revelação divina, qual descrição da Criação deve governar a compreensão cristã dos céus e da Terra?
Mais do que simplesmente “um terraplanista”
É correto dizer que Gleason defendia a Terra plana, mas essa definição isolada empobrece aquilo que ele estava tentando construir. Sua cosmologia incluía uma Terra estabelecida e estacionária, os céus acima dela, o movimento dos luminares, uma leitura literal da estrutura da Criação e a convicção de que aquilo que fosse observado na natureza deveria estar em harmonia com a revelação bíblica.
É nesse sentido mais amplo que identificamos Gleason como defensor da cosmologia hebraico-bíblica. Não estamos reduzindo essa cosmologia à geometria da superfície terrestre, porque o próprio texto bíblico envolve Terra, firmamento, águas superiores e inferiores, Sol, Lua, estrelas, movimentos celestes e uma estrutura vertical dos céus que antecede em muitos séculos a cosmologia moderna.
Essa leitura possuía uma consequência particularmente importante para um adventista do sétimo dia. O sábado é apresentado no quarto mandamento como memorial da Criação: “Porque em seis dias fez o Senhor os céus e a terra, o mar e tudo o que neles há”.
Gleason percebia que o mesmo relato utilizado pelo adventismo para defender seis dias literais e o sábado do sétimo dia também descrevia aquilo que Deus teria criado nesses seis dias. A pergunta implícita em sua obra era inevitável: se devemos tomar literalmente o tempo da Criação porque ele fundamenta o sábado, por que deveríamos abandonar a estrutura cosmológica descrita dentro do mesmo relato?

O zeteticismo dentro do adventismo
Gleason estava relacionado à tradição da chamada Zetetic Astronomy (“Astronomia Zetética”), cujo nome expressava a intenção de investigar, procurar e examinar antes de assumir uma explicação teórica. Samuel Birley Rowbotham tornou-se um dos principais representantes dessa corrente na Inglaterra, defendendo que grandes superfícies de água deveriam ser examinadas diretamente para verificar se apresentavam a curvatura atribuída à Terra.
Gleason transportou essa discussão para seu próprio ambiente, trabalhando com observações, níveis de água, horizontes, distâncias, mapas, movimentos aparentes dos luminares e cálculos astronômicos. Seu objetivo declarado não era simplesmente citar textos bíblicos contra a astronomia, mas sustentar que observação e Escritura apontavam para a mesma estrutura.
O fato de essa discussão ter alcançado o adventismo é historicamente importante. Houve adventistas defendendo ideias zetéticas no século XIX, e a questão chegou à própria Ellen White. Isso significa que a controvérsia atual não pode ser descartada como produto de vídeos de internet ou redes sociais. Adventistas discutiam a forma e a estrutura da Terra enquanto a própria identidade doutrinária da denominação ainda estava sendo consolidada, e Gleason foi um dos personagens mais significativos dessa história.
Gleason, Ellen White e dois caminhos cosmológicos
É precisamente nesse ponto que nossa pesquisa anterior sobre Ellen G. White precisa ser resumida para quem chega a este assunto pela primeira vez. Já demonstramos no Adventistas.Com que Ellen White rejeitou a cosmologia hebraico-bíblica e contribuiu para a incorporação de outra estrutura cosmológica ao imaginário adventista. A conclusão não depende apenas de saber se ela acreditava numa Terra redonda ou plana. O problema é muito maior.
Em seus relatos visionários aparecem “outros planetas”, “outros mundos”, habitantes desses mundos, seres não caídos e até um mundo possuidor de sete luas, onde Ellen White afirmou ter encontrado Enoque. Dessa maneira, a estrutura dos céus passou a ser imaginada dentro de uma pluralidade de mundos habitados que não pertence à descrição cosmológica de Gênesis.
Gleason seguiu pelo caminho oposto. Enquanto Ellen White desestimulava adventistas a transformar a discussão sobre a forma da Terra em parte da mensagem e suas experiências visionárias introduziam outros mundos habitados na cosmologia denominacional, Gleason procurava conservar a estrutura que encontrava diretamente nas Escrituras. Para ele, Terra, céus, luminares, Criação e sábado pertenciam ao mesmo sistema.
Portanto, a divergência entre Gleason e Ellen White não deve ser reduzida à caricatura de um debate entre uma profetisa e alguns excêntricos interessados em Terra plana. Estamos diante de duas direções cosmológicas diferentes que coexistiram no interior do adventismo do século XIX: uma procurando conservar a cosmologia hebraico-bíblica e outra abrindo caminho para a pluralidade de mundos que posteriormente seria assimilada quase naturalmente pela cultura adventista.
Foi essa segunda direção que prevaleceu. O adventismo conservou e difundiu amplamente os relatos de Ellen White sobre mundos não caídos, enquanto a cosmologia defendida por Gleason foi progressivamente marginalizada. Mais significativo ainda, o próprio Gleason quase desapareceu da memória denominacional, embora seu nome permanecesse conhecido fora dela por causa de seu mapa e de sua participação na história do zeteticismo. O resultado é curioso: hoje alguém pode conhecer Alexander Gleason como personagem histórico da Terra plana sem sequer imaginar que aquele homem manteve-se adventista a vida toda, durante aproximadamente meio século.
Ele publicou sua cosmologia e morreu adventista
Esse ponto merece destaque porque impede que Gleason seja removido da história adventista pela simples sugestão de que teria abandonado a denominação. Ele morreu adventista do sétimo dia. Quando faleceu, em 13 de março de 1909, a própria Review and Herald publicou seu obituário, chamou-o de “Brother Gleason” (“irmão Gleason”), recordou seu batismo por J. H. Waggoner e declarou que, desde aquele momento, ele nunca havia duvidado da verdade da mensagem. O autor do obituário, que dizia conhecê-lo pessoalmente havia cerca de vinte e cinco anos, testemunhou ainda que Gleason permanecera fiel aos princípios da mensagem.
O relato de seus últimos meses reforça a mesma identificação. Depois de sofrer uma paralisia, Gleason compreendeu que sua vida se aproximava do fim, preparou seus assuntos e deixou um testemunho de fé. A descrição de sua morte é a descrição adventista de alguém que aguardava a ressurreição e o chamado de Cristo.
Anos depois, quando Phoebe morreu, a memória denominacional voltou a registrar o envolvimento do casal com a causa e sua ligação com os primeiros esforços adventistas em Buffalo. Não há, portanto, necessidade de conjectura: Gleason publicou sua cosmologia enquanto adventista e chegou ao fim da vida ainda reconhecido pelos próprios adventistas como irmão fiel à mensagem.
Isso torna seu posterior desaparecimento ainda mais significativo. Não estamos falando de alguém sem produção escrita, sem participação na causa ou sem importância histórica. Estamos falando de um homem que produziu um dos mapas de Terra plana mais conhecidos do século XIX, escreveu centenas de páginas defendendo sua cosmologia, relacionou-a diretamente à Bíblia e ao adventismo e morreu dentro da fé.
O adventismo posterior preservou cuidadosamente a cosmologia dos “outros mundos” de Ellen White, mas praticamente perdeu a memória do adventista que defendia a estrutura cosmológica bíblica.

Mas como Gleason explicava o eclipse lunar?
É aqui que chegamos ao aspecto que acrescentamos agora à nossa investigação. Quando ocorre um eclipse lunar, uma região escura avança progressivamente sobre o disco da Lua e apresenta uma borda curva. A interpretação astronômica convencional afirma que a Terra se encontra entre o Sol e a Lua e que aquilo que observamos é a sombra terrestre alcançando a superfície lunar. Dessa interpretação nasceu um dos argumentos mais repetidos contra a Terra plana: se a sombra projetada sobre a Lua é circular, a Terra que produz essa sombra precisaria ser esférica.
Gleason, porém, conhecia os eclipses muito bem. Sua obra dedica uma quantidade considerável de espaço ao assunto, apresentando ciclos, tabelas, sequências históricas e cálculos relacionados tanto a eclipses solares quanto lunares. Portanto, o eclipse não era um fenômeno ignorado por ele. Pelo contrário, tornou-se uma das peças mais elaboradas de seu sistema cronológico.
A diferença fundamental estava na interpretação do fenômeno. Dentro do raciocínio zetético, observar uma região escura atravessando a Lua não significava automaticamente demonstrar que aquela região fosse a sombra da Terra. A observação fornecia o fenômeno — o obscurecimento progressivo da Lua —, enquanto identificar a Terra como causa desse obscurecimento já representava uma interpretação baseada num determinado modelo cosmológico. Gleason rejeitava justamente essa passagem automática da observação para a conclusão globular.
A Lua como luminar e o corpo escuro
Outro elemento indispensável para compreender sua explicação é que, dentro da tradição cosmológica em que Gleason trabalhava, a Lua era tratada como um luminar dotado de luminosidade própria — “…o sol escurecerá, e a lua não dará a sua luz…” Mateus 24:29. Ver também Isaías 13:10 –, e não simplesmente como um corpo escuro que refletia a luz solar. Essa diferença alterava inteiramente a necessidade de colocar a Terra entre o Sol e a Lua para explicar um eclipse. Se a luminosidade lunar não dependesse da incidência da luz solar, seu obscurecimento poderia ocorrer por outro mecanismo.
É nesse contexto que aparece a explicação zetética associada ao sistema defendido por Gleason: um corpo celeste escuro, normalmente invisível contra o fundo igualmente escuro dos céus, atravessaria a região da Lua e produziria seu obscurecimento. Na literatura relacionada a essa cosmologia, esse corpo chegou a ser descrito como algo semelhante a um “dark comet” (“cometa escuro”). Sem luminosidade própria, ele normalmente não seria percebido contra o céu; sua presença apenas se tornaria evidente quando passasse diante do disco luminoso da Lua.
Essa explicação também respondia ao conhecido argumento da sombra circular. Se aquilo que atravessava a Lua não era a sombra da Terra, sua forma não poderia ser utilizada para determinar a forma da Terra. O argumento “a sombra é redonda, portanto a Terra é redonda” dependia de uma premissa anterior: demonstrar que a sombra observada pertencia realmente à Terra. Era precisamente essa premissa que o modelo zetético recusava.
Gleason não fugiu dos eclipses: transformou-os em relógio
O aspecto mais surpreendente de sua obra aparece quando percebemos que Gleason não se contentou em oferecer uma explicação para o obscurecimento da Lua. Ele transformou os eclipses em instrumentos de cronologia. Uma extensa seção de seu livro recebeu o título Vox Dei, or Eclipse Line of Time (“Voz de Deus, ou Linha do Tempo dos Eclipses”), na qual trabalhou com sequências de eclipses, períodos de repetição, datas históricas e cálculos destinados a retroceder através do tempo.
Gleason estudava especialmente a recorrência de determinadas sequências aproximadamente a cada dezoito anos e dez ou onze dias, relacionando esses intervalos a ciclos maiores. A regularidade dos fenômenos funcionava, em seu raciocínio, como as engrenagens de um relógio. A partir dessa concepção, desenvolveu aquilo que chamou de Eclipse Chronometer (“Cronômetro dos Eclipses”), tentando utilizar a periodicidade dos céus como instrumento para verificar acontecimentos históricos e estabelecer uma linha cronológica.
Sua ambição chegava até a própria Criação. O título ampliado de sua obra anunciava uma classificação dos eclipses desde a Criação, mostrando que Gleason pretendia retroceder matematicamente através das sequências celestes e relacioná-las à cronologia das Escrituras. Para ele, a astronomia observável não destruía Gênesis; os ciclos regulares dos céus funcionavam como testemunhas da história bíblica.
“A artilharia dos céus” confirmando a história sagrada
Gleason utilizou uma expressão particularmente poderosa para transmitir essa convicção. Falou da “artillery of the heavens” (“artilharia dos céus”), imagem pela qual os eclipses recorrentes pareciam trovejar através do tempo confirmando a regularidade da ordem criada. Essa linguagem mostra como é inadequado imaginar Gleason olhando para um eclipse como se estivesse diante de um problema que precisava esconder. Em sua interpretação, ocorria exatamente o contrário: o eclipse era uma manifestação da precisão matemática dos céus e podia ser utilizado como marcador cronológico.
Isso também explica por que o sábado reaparece no meio de suas discussões astronômicas. Gleason não separava a periodicidade dos céus da semana estabelecida na Criação. Os movimentos dos luminares, a cronologia bíblica e o sábado pertenciam, para ele, à mesma ordem criada. Seu interesse pelos eclipses não era, portanto, apenas astronômico. Fazia parte de sua tentativa de construir uma visão coerente na qual Bíblia, história e observação estivessem integradas.
O eclipse não silenciou o adventista zetético
Agora podemos responder de maneira clara à pergunta que motivou esta investigação. Alexander Gleason não considerava o eclipse lunar uma demonstração de que a Terra fosse um globo. Dentro do sistema zetético que defendia, a Lua era compreendida como luminar com luminosidade própria e seu obscurecimento podia ser atribuído à passagem de um corpo celeste escuro diante dela. Como não identificava automaticamente a região escura observada com a sombra da Terra, também não aceitava que sua borda circular pudesse ser utilizada como prova da esfericidade terrestre.
Mais importante ainda, os eclipses ocupavam lugar positivo em seu sistema. Gleason os estudou, classificou, tabelou, trabalhou com seus períodos de repetição, construiu um “Cronômetro dos Eclipses” e tentou utilizá-los para percorrer retrospectivamente a história até a Criação. Aquilo que hoje costuma ser apresentado como uma pergunta destinada a encerrar instantaneamente qualquer discussão sobre Terra plana estava, no século XIX, ocupando dezenas de páginas da obra de um adventista do sétimo dia que procurava justamente defender sua leitura cosmológica da Bíblia.
O que desapareceu quando Gleason foi esquecido
É por isso que recuperar Alexander Gleason significa recuperar muito mais do que a biografia de um cartógrafo terraplanista. Quando sua memória praticamente desapareceu do adventismo, desapareceu com ela uma parte importante da história intelectual da própria denominação.
Gerações posteriores deixaram de saber que houve adventistas discutindo a estrutura física da Criação, que o zeteticismo circulou entre membros do movimento, que Ellen White precisou lidar diretamente com essa controvérsia e que um adventista reconhecido como fiel até a morte escreveu centenas de páginas tentando relacionar cosmologia, sábado, profecia, observação e cronologia bíblica.
O contraste com o destino da cosmologia de Ellen White é inevitável. Suas descrições de outros mundos, outros planetas, habitantes não caídos e do mundo de sete luas foram preservadas, publicadas, traduzidas e incorporadas à imaginação adventista. Gleason, que seguiu pelo caminho oposto e tentou conservar aquilo que o Gênesis ensina ser a estrutura hebraico-bíblica dos céus e da Terra, foi empurrado para as margens da memória denominacional, apesar de ter vivido, trabalhado, escrito e morrido como adventista do sétimo dia.

Gleason precisa voltar à história adventista
É justamente por isso que Alexander Gleason não pode continuar sendo apresentado como uma curiosidade externa à história da Igreja. Ele pertence a essa história. Foi batizado por um pioneiro adventista, participou da obra, ajudou na presença adventista em Buffalo, escreveu enquanto permanecia identificado com a mensagem e morreu sendo chamado de irmão pela própria imprensa denominacional.
Ao mesmo tempo, tornou-se um dos mais conhecidos representantes norte-americanos da cosmologia zetética e tentou relacionar sua defesa da Terra estacionária à mesma Bíblia que utilizava para defender Criação, sábado e profecia.
Sua explicação do eclipse lunar acrescenta agora outra peça a esse quadro. Gleason não ignorou aquilo que acontecia nos céus. Incorporou o fenômeno ao seu sistema, distinguiu a observação do eclipse da interpretação de sua causa, recusou identificar automaticamente o obscurecimento lunar com a sombra terrestre e transformou os ciclos dos eclipses em instrumentos de cronologia. Para ele, a regularidade desses fenômenos era tão impressionante que podia ser comparada a uma “Voz de Deus” atravessando a história e à “artilharia dos céus” proclamando a ordem da Criação.
O adventismo posterior escolheu outro caminho cosmológico. Preservou os mundos não caídos de Ellen White e praticamente esqueceu Gleason. Mas o livro continua aí, o mapa continua aí, as tabelas de eclipses continuam aí e, sobretudo, o obituário publicado pelos próprios adventistas continua testemunhando que o homem que escreveu tudo aquilo permaneceu fiel à mensagem até o fim.
Por isso a pergunta que Gleason deixou não pertence apenas aos atuais defensores da Terra plana. Ela pertence à própria história adventista: Se o sábado continua sendo apresentado como memorial da Criação de Gênesis, por que a cosmologia daquela mesma Criação foi abandonada?





