“A Terra Bíblica” e o Adventismo do Século XIX: Albert Smith, Alexander Gleason e o Debate Sobre a Cosmologia Literal das Escrituras
Baixe livros desses autores terraplanistas adventistas em inglês:
- A Terra é um Globo Girando no Espaço? (Karl A. Smith) — PDF
- Astronomia Zetética (Lady Blount e Albert Smith) — PDF
- Is the Bible From Heaven? Is the Earth a Globe? (Alexander Gleason ou alex Gleason) — PDF
A história do adventismo do século XIX é muito mais complexa e diversa do que frequentemente se admite nas reconstruções oficiais posteriores. Em meio ao forte apego dos pioneiros ao princípio protestante do Sola Scriptura, surgiram debates sobre a interpretação literal não apenas do sábado, do santuário celestial e das profecias, mas também da própria cosmologia bíblica apresentada em Gênesis, Jó, Salmos, Isaías e Apocalipse.
Nesse contexto aparecem nomes hoje pouco conhecidos, mas historicamente documentados, como Alexander Gleason, Lady Blount e especialmente Karl Albert Smith — identificado em fontes zetéticas britânicas como ex-pastor adventista do sétimo dia expulso por defender a “Bible-Earth”, isto é, a Terra descrita literalmente nas Escrituras.
O assunto não pode ser tratado honestamente como mera excentricidade isolada ou como simples “marginalidade”, porque os registros históricos demonstram que existia interação real entre setores adventistas e o movimento zetético anglo-americano do final do século XIX.
A própria lógica usada por muitos desses autores era profundamente protestante e baseada na literalidade bíblica: se o sábado deveria ser guardado literalmente conforme o quarto mandamento, então também a descrição cosmológica dada pela própria Bíblia deveria ser levada a sério e não reinterpretada segundo modelos filosóficos modernos. Para esses autores, abandonar a cosmologia bíblica enquanto se defendia a literalidade do sábado seria uma incoerência hermenêutica.
Albert Smith: “ex-pastor adventista do sétimo dia”
A principal referência histórica sobre Albert Smith aparece na documentação do movimento zetético britânico preservada em estudos históricos sobre a Universal Zetetic Society. Um dos registros mais importantes afirma explicitamente:
“Talvez tenha sido melhor articulado pelo ex-pastor adventista do sétimo dia Albert Smith.”
A expressão “former Seventh-day Adventist Elder” é extremamente significativa. No contexto protestante inglês do século XIX, “Elder” não significava mero membro leigo. O termo era usado oficialmente no adventismo para anciãos, pregadores e ministros reconhecidos pela denominação. Isso não prova automaticamente que Smith tenha sido pastor ordenado em tempo integral por muitos anos, mas demonstra que fontes históricas contemporâneas realmente o identificavam como antigo líder adventista.
Outro registro ainda mais contundente foi publicado por William Carpenter, importante nome do movimento zetético:
“Um ministro cristão foi excomungado (excluído)da sociedade dos Adventistas do Sétimo Dia de Londres, Inglaterra, recentemente, por defender a Terra Bíblica.”
A citação afirma diretamente que um ministro cristão ligado aos adventistas do sétimo dia em Londres teria sido excomungado por defender a “Terra Bíblica”. O texto prossegue recomendando que simpatizantes enviassem dinheiro para Albert Smith adquirir seus livros e panfletos.
Outro detalhe curioso aparece na própria recomendação:
“Endereço: Sr. Albert Smith — não coloque ‘Rev.’”
Isso sugere que Smith anteriormente carregava um título ministerial reconhecido, mas já não deveria mais ser chamado oficialmente de “Reverendo” após o conflito com os adventistas londrinos.
Leicester, Inglaterra e a Sociedade Zetética
Karl Albert Smith viveu em Leicester, Inglaterra, e tornou-se um dos principais nomes da Universal Zetetic Society. Ele atuou como editor da revista Earth — Not a Globe! — Review, publicação dedicada à defesa da cosmologia bíblica e à crítica da astronomia copernicana.[3]
Smith escrevia frequentemente sob o pseudônimo “Zetetes”, palavra derivada do grego significando “investigador” ou “buscador da verdade”. O movimento zetético insistia na ideia de que a verdade deveria ser obtida pela observação direta e pelos sentidos dados por Deus, e não por construções matemáticas abstratas aceitas apenas por autoridade acadêmica.
Sua crítica à astronomia moderna seguia exatamente essa linha:
“Não sentimos movimento da Terra. Não vemos movimento da Terra. E não ouvimos nenhum movimento da Terra…”[4]
A argumentação combinava empirismo observacional com literalidade bíblica. Para Smith, a astronomia moderna exigia fé em movimentos gigantescos da Terra impossíveis de serem percebidos diretamente pelos sentidos humanos.
Os livros e sermões de Albert Smith
Albert Smith produziu diversos livros e panfletos sobre cosmologia bíblica. Entre os títulos historicamente documentados encontram-se:
- Is the Earth a Globe and Has It Axial and Orbital Motion?
- Discussion on Modern Astronomy
- The So-Called “Mistakes of Moses”
- Sea-Earth Globe
Além de escritor, Smith também atuava como pregador público. Um registro preservado afirma que em 14 de maio de 1893 ele pregou um sermão em Monk’s Hill Chapel, em Lincoln, intitulado “Spoiled Christians” (Cristãos Corrompidos).[1]
Isso demonstra que Smith continuava ativo como expositor religioso mesmo após o conflito com os adventistas londrinos.
Alexander Gleason e o adventismo americano
Outro nome importantíssimo nesse debate foi Alexander Gleason. Diferentemente de Albert Smith, a ligação de Gleason com o adventismo americano é amplamente reconhecida até mesmo por autores adventistas contemporâneos críticos da cosmologia bíblica literal.
O site adventista The Flat Earth and the Gospel reconhece explicitamente:
“Alex Gleason, que era adventista…”[5]
Alexander Gleason tornou-se um dos mais conhecidos defensores da Terra plana nos Estados Unidos. Seu livro:
Is the Bible From Heaven? Is the Earth a Globe?
circulou amplamente no final do século XIX e tornou-se uma das obras mais influentes do movimento zetético americano.
Gleason argumentava que a Bíblia descrevia claramente uma Terra fixa, imóvel e estendida sob o firmamento celestial. Sua famosa projeção cartográfica azimutal da Terra plana influenciaria praticamente todo o movimento terraplanista posterior do século XX.
Seu mapa ficou tão conhecido que décadas depois Wilbur Glenn Voliva ainda o utilizava publicamente em palestras e campanhas.[6]
Lady Blount e o periódico adventista “The Faith”
Outro elo histórico importante entre adventismo e cosmologia bíblica aparece na figura de Lady Elizabeth Blount.
Segundo registros históricos:
“O periódico adventista britânico The Faith publicou algumas de suas cartas ao editor.”[7]
Isso é extremamente relevante porque demonstra que discussões relacionadas à cosmologia bíblica chegaram efetivamente às páginas de um periódico adventista britânico.
Lady Blount mais tarde se tornaria uma das líderes do movimento zetético britânico após o declínio da Universal Zetetic Society. Ela financiou publicações, conferências e experimentos relacionados à cosmologia bíblica.
A coerência hermenêutica do argumento
O ponto central defendido por esses autores era hermenêutico. Eles entendiam que o protestantismo histórico havia abandonado parcialmente o princípio da literalidade bíblica ao reinterpretar a cosmologia hebraica segundo modelos científicos modernos.
Para eles, a Bíblia descrevia:
- firmamento sólido;
- águas acima dos céus;
- Terra imóvel;
- luminares movendo-se sobre a Terra;
- fundamentos da Terra;
- abismo abaixo da criação;
- céus estendidos como tenda.
Esses autores argumentavam que os mesmos cristãos que insistiam corretamente na literalidade do sábado do sétimo dia frequentemente espiritualizavam ou reinterpretavam a cosmologia literal apresentada nas Escrituras.
Dentro dessa lógica, a questão não era “científica” apenas, mas profundamente teológica. O debate envolvia autoridade bíblica, confiança na linguagem inspirada e os limites da acomodação hermenêutica ao pensamento moderno.
O silêncio posterior da historiografia oficial
Com o avanço da institucionalização adventista no século XX, esses episódios passaram a receber pouca atenção ou foram tratados apenas como curiosidades históricas. No entanto, os documentos preservados mostram que o debate realmente existiu e envolveu figuras identificadas explicitamente como adventistas ou ex-adventistas.
Ainda não apareceram atas oficiais completas documentando a expulsão formal de Albert Smith, mas os registros contemporâneos são fortes o suficiente para demonstrar que:
- Albert Smith foi reconhecido historicamente como antigo “Seventh-day Adventist Elder”;
- existiu conflito entre ele e adventistas londrinos;
- Alexander Gleason era identificado como adventista;
- Lady Blount publicou em periódico adventista britânico;
- o debate sobre cosmologia bíblica circulava em ambientes adventistas do século XIX.
Conclusão
A história de Albert Smith e dos demais autores zetéticos ligados ao adventismo mostra que o debate sobre cosmologia bíblica literal não surgiu recentemente na internet, mas possui raízes históricas profundas dentro do próprio ambiente protestante sabatista do século XIX. Esses homens entendiam a defesa do sábado literal, da criação literal e da cosmologia literal como partes conectadas de uma mesma visão de autoridade bíblica.
Independentemente das conclusões posteriores da denominação organizada, os documentos históricos preservam o fato de que ministros, escritores e editores adventistas realmente participaram dessas discussões e publicaram materiais defendendo explicitamente a cosmologia hebraica bíblica como descrição literal da criação.
Notas de Rodapé
[1] “Perhaps it was best articulated by former Seventh-day Adventist Elder Albert Smith.” — Chapter 4: The Universal Zetetic Society. Disponível em: https://www.cantab.net/users/michael.behrend/ebooks/PlaneTruth/pages/Chapter_04.html
[2] William Carpenter, citação reproduzida em Plane Truth, Chapter 5. Disponível em: https://www.cantab.net/users/michael.behrend/ebooks/PlaneTruth/pages/Chapter_05.html
[3] História da Universal Zetetic Society e da revista Earth — Not a Globe! — Review. Disponível em: https://www.cantab.net/users/michael.behrend/ebooks/PlaneTruth/pages/Chapter_04.html
[4] Trecho de Albert Smith citado em materiais zetéticos históricos do final do século XIX.
[5] “Alex Gleason who was an Adventist…” — The Flat Earth and the Gospel. Disponível em: https://seventhdaypress.org/the-flat-earth-and-the-gospel-notes/
[6] Uso do mapa de Gleason por Wilbur Glenn Voliva documentado em: https://www.cantab.net/users/michael.behrend/ebooks/PlaneTruth/pages/Chapter_08.html
[7] “The Faith, a British Seventh-day Adventist periodical, published some of her letters-to-the-editor.” — Lady Blount and the Decline of British Flat-Earthism. Disponível em: https://www.cantab.net/users/michael.behrend/ebooks/PlaneTruth/pages/Chapter_07.html
