A IASD é de Direita ou de Esquerda? Williams Costa Jr. Responde: a Igreja Adventista é do “Centrão”

Ex-diretor mundial de Comunicação diz que a Igreja não é de esquerda nem de direita. Mas quem não pertence definitivamente a nenhum lado pode estar disponível para todos eles.

Williams Costa Jr., que durante quinze anos dirigiu a Comunicação mundial da Igreja Adventista do Sétimo Dia, publicou uma reflexão aparentemente destinada a afastar a denominação da polarização política contemporânea, mas acabou oferecendo uma definição particularmente reveladora da posição que a Organização procura ocupar diante do poder. Depois de advertir contra os perigos representados pelos extremos políticos, Williams apresenta o centro como espaço de equilíbrio e de construção de consensos, especialmente em matéria de liberdade religiosa, e conclui com uma declaração categórica: “A Igreja Adventista do Sétimo Dia não é de esquerda nem de direita. É de Jesus e segue a Bíblia.”

A frase é bonita, funciona perfeitamente em um vídeo curto e corresponde à imagem que a denominação procura apresentar de si mesma, mas contém uma pergunta histórica inevitável: quando examinamos aquilo que a Igreja Adventista efetivamente fez diante do poder político, encontramos a mesma equidistância proclamada no discurso? É precisamente nesse ponto que a declaração de Williams se torna muito mais interessante do que provavelmente pretendia. Ele não coloca a Igreja simplesmente fora da direita e da esquerda; antes, apresenta o centro como “o ponto de equilíbrio” e, historicamente, como o lugar possível do consenso nacional em torno da liberdade religiosa.

UMA IGREJA DO “CENTRÃO”?

Transportada do discurso religioso para a realidade política, a posição apresentada por Williams Costa Jr. tem um nome bastante conhecido no Brasil: “Centrão”. Não se comprometer definitivamente com a direita nem com a esquerda significa conservar liberdade para negociar com ambas, aproximar-se de uma quando ela controla o poder, aproximar-se da outra quando o governo muda de mãos e permanecer sempre numa região política suficientemente elástica para estabelecer relações com quem possa oferecer aquilo de que a Organização necessita ou deseja. Nesse modelo, o centro deixa de representar apenas moderação e passa a funcionar como posição camaleônica: não possuir uma cor política permanente permite assumir a tonalidade conveniente em cada ambiente.

E os interesses envolvidos nessa capacidade de adaptação não se resumem à liberdade religiosa ou ao direito de continuar funcionando. Uma organização religiosa mundial administra dinheiro, patrimônio, instituições educacionais, hospitais, meios de comunicação, propriedades, projetos missionários, estruturas administrativas e enormes redes de influência; precisa de autorizações, reconhecimento jurídico, interlocução governamental, acesso às autoridades e condições favoráveis para preservar e ampliar sua presença. Portanto, aproximar-se do poder pode produzir vantagens financeiras, patrimoniais, políticas, administrativas, institucionais e estratégicas, além do próprio poder que nasce da capacidade de chegar aos governantes, negociar diretamente com eles e converter relacionamento político em espaço institucional.

É nesse sentido que o apartidarismo pode produzir uma extraordinária vantagem política: quem não pertence definitivamente a nenhum partido pode estar disponível para todos eles. Hoje o governo pode ser conservador; amanhã, socialista; depois, liberal, nacionalista ou alguma combinação diferente dessas correntes. A Organização permanece. Mudam os reis da terra, mudam as ideologias, mudam as bandeiras e muda a cor necessária para continuar próxima do poder. Apartidária porque não possui partido definido; camaleônica porque assume a cor conveniente; de aluguel porque transforma essa flexibilidade em instrumento para proteger, ampliar e fortalecer a própria Organização, seu patrimônio, sua influência, seus interesses financeiros e seu poder.

MAS O QUE ACONTECE QUANDO ESSA TEORIA ENCONTRA A HISTÓRIA?

É justamente aqui que recomendamos ao leitor uma experiência diferente. Em vez de respondermos neste artigo o que aconteceu quando a proclamada neutralidade adventista encontrou uma das maiores revoluções políticas do século XX, preferimos colocar em suas mãos a documentação. O Adventistas.Com acaba de publicar IACSD — Igreja Apartidária Comunista do Sétimo Dia: Cumplicidade e parceria adventista com Che Guevara, Fidel Castro e a Revolução Cubana, uma investigação construída precisamente para permitir que o leitor confronte o discurso do apartidarismo com documentos históricos produzidos por participantes dos acontecimentos, dirigentes adventistas, pesquisadores e publicações denominacionais.

Não vamos contar aqui aquilo que o livro documenta. Seria desperdiçar justamente o impacto de acompanhar a investigação na ordem em que as evidências aparecem. Basta fazer uma pergunta: o que aconteceu quando uma Igreja que se apresenta como não sendo de esquerda nem de direita encontrou Fidel Castro, Che Guevara e uma revolução que estava disputando pelas armas o poder em Cuba? A resposta está no livro, acompanhada dos documentos que permitem ao leitor conferir por si mesmo até onde foi essa história.

E há uma razão adicional para não anteciparmos a conclusão. Depois de ouvir Williams Costa Jr. afirmar que a Igreja não é de esquerda nem de direita, a leitura dos documentos cubanos ganha um significado completamente diferente. O leitor poderá observar a distância — ou a proximidade — entre a definição institucional apresentada hoje e aquilo que ocorreu quando a questão política deixou de ser uma discussão abstrata e passou a envolver homens, instituições, interesses, revolução e poder. Leia primeiro. Depois volte ao vídeo de Williams.

IACSD: UMA SIGLA, DUAS PERGUNTAS

O título do novo livro já provoca suficientemente: IACSD — Igreja Apartidária Comunista do Sétimo Dia. Não precisamos revelar aqui por que chegamos a essa expressão. O livro existe justamente para apresentar a documentação e construir o argumento. Mas a declaração de Williams Costa Jr. acrescenta uma segunda possibilidade à mesma sigla e amplia a pergunta para muito além de Cuba: IACSD — Igreja Apartidária Camaleônica do Sétimo Dia.

A questão passa a ser não apenas qual posição política uma organização religiosa declara possuir, mas como ela se comporta quando a cor do poder muda. Uma instituição realmente independente pode relacionar-se administrativamente com governos sem transformar essa relação em cumplicidade, parceria ou instrumento de crescimento do próprio poder. Uma instituição camaleônica, porém, encontra outra solução: conserva o discurso permanente de apartidarismo enquanto adapta suas relações às diferentes configurações políticas que encontra.

É por isso que a frase de Williams merece ser examinada com cuidado. “A Igreja Adventista do Sétimo Dia não é de esquerda nem de direita.” Exatamente. E essa ausência de pertencimento fixo pode ser apresentada como virtude espiritual, mas também contém uma vantagem política extraordinária: não ser definitivamente de nenhum lado permite estar disponível para diferentes lados. O problema deixa então de ser a existência de uma carteirinha partidária e passa a ser a natureza das relações construídas com aqueles que controlam o poder.

SETE CABEÇAS, MUITOS REIS E MUITAS CORES

É nesse ponto que a questão política encontra a linguagem profética do Apocalipse. As sete cabeças colocam diante de nós uma pluralidade de manifestações do poder, enquanto os reis da terra aparecem associados a um sistema em que religião, autoridade, interesses e sedução política se misturam. Há muitas cabeças, muitos reis e diferentes configurações pelas quais o poder deste mundo pode apresentar-se. O problema profético, portanto, não se resolve escolhendo simplesmente entre direita e esquerda, porque a sedução do poder não possui obrigação de vestir sempre a mesma cor.

Uma organização camaleônica encontra justamente aí sua vantagem. Se determinada cabeça governa, relaciona-se com ela; se outra ocupa seu lugar, muda-se a linguagem, preservam-se os canais, reorganizam-se as aproximações e continua-se buscando espaço. O rei muda; a Organização permanece. A ideologia muda; os interesses permanecem. A bandeira muda; patrimônio, dinheiro, influência, acesso e poder continuam necessitando de proteção.

É nesse sentido que o “Centrão” deixa de ser apenas uma brincadeira com a política brasileira e se transforma numa pergunta séria sobre comportamento institucional. O centro pode ser o lugar do equilíbrio descrito por Williams; mas pode também ser o ponto privilegiado de quem pretende conservar acesso aos dois lados. Não ser de direita nem de esquerda pode soar como independência; também pode significar estar permanentemente disponível para negociar com quem estiver no poder.

“É DE JESUS E SEGUE A BÍBLIA”

Williams encerra sua resposta deslocando a questão da política para Cristo: “É de Jesus e segue a Bíblia.” É precisamente essa afirmação que torna a discussão ainda mais séria. Porque, se a Igreja é de Jesus e segue a Bíblia, sua relação com o poder não pode ser medida apenas pelos resultados administrativos que produz, pelo patrimônio que protege, pelos espaços que conquista ou pela liberdade institucional que consegue negociar. Existe um limite anterior a tudo isso.

A Escritura pergunta: “Que parceria pode haver entre a luz e as trevas?” Essa pergunta não desaparece quando a parceria é administrativamente conveniente, financeiramente vantajosa, politicamente útil ou institucionalmente necessária. Tampouco desaparece porque a Organização decidiu chamar a si mesma de apartidária. O nome que uma instituição dá à própria posição não substitui o julgamento sobre aquilo que ela efetivamente faz.

Por isso, antes de respondermos definitivamente se a Igreja descrita por Williams está fora da direita e da esquerda, no centro ou suficientemente próxima de todas essas posições para adaptar-se a elas, recomendamos uma leitura. Leia o novo livro. Examine os documentos. Acompanhe a história sem começar pela conclusão. Depois volte à afirmação de Williams Costa Jr.: “A Igreja Adventista do Sétimo Dia não é de esquerda nem de direita. É de Jesus e segue a Bíblia.”

E então faça uma pergunta ainda melhor: quando o poder muda de cor, a Igreja permanece da cor de Jesus — ou muda de cor também?

Leia agora: IACSD — Igreja Apartidária Comunista do Sétimo Dia: Cumplicidade e parceria adventista com Che Guevara, Fidel Castro e a Revolução Cubana.

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