
IACSD: Igreja Apartidária Comunista do Sétimo Dia
Cumplicidade e parceria adventista com Che Guevara, Fidel Castro e a Revolução Cubana
INTRODUÇÃO — A IGREJA ADVENTISTA CUBANA DO SÉTIMO DIA
Antes de Che Guevara, antes de Fidel Castro, antes do desembarque do Granma, antes da Sierra Maestra e muito antes de Santa Clara, já existia em Cuba uma Igreja Adventista do Sétimo Dia organizada, com congregações, membros, dirigentes, escolas, instituições e uma presença religiosa que atravessava diferentes regiões da ilha. O adventismo cubano fazia parte de uma estrutura internacional que ultrapassava as fronteiras nacionais e ligava suas igrejas locais à Divisão Interamericana e, acima dela, à Associação Geral. Essa característica será fundamental para compreender a história que examinaremos, porque os acontecimentos da Revolução Cubana envolveram adventistas, famílias que viviam nas zonas de conflito, dirigentes locais, pastores, administradores educacionais e uma instituição adventista situada literalmente dentro da geografia da batalha que decidiu o futuro político de Cuba. Esses elementos aparecerão por diferentes vias documentais e não serão tratados como etapas sucessivas de uma passagem do envolvimento individual para o institucional.
O adventismo chegou a Cuba no começo do século XX, num momento em que a ilha ainda vivia as consequências políticas da Guerra Hispano-Americana de 1898 e da forte presença dos Estados Unidos em sua reorganização institucional. Segundo Caleb Rosado, a mensagem adventista começou a ser pregada em território cubano em 1903, por meio do trabalho de missionários norte-americanos que se mantinham com recursos próprios e aceitaram o desafio lançado por W. A. Spicer para que a denominação estabelecesse presença missionária na ilha. O início, portanto, esteve diretamente ligado à expansão internacional do adventismo norte-americano e ao envio de obreiros estrangeiros para um campo ainda praticamente inexplorado pela denominação.
A organização avançou rapidamente. Em 1904 foi estabelecida formalmente a Missão Cubana, dando estrutura administrativa ao trabalho iniciado no ano anterior. A partir daí, o adventismo começou a espalhar congregações, formar comunidades de fiéis e desenvolver instituições próprias. O crescimento foi suficientemente expressivo para que, às vésperas da Revolução Cubana, em 1959, a Igreja já contasse com 5.464 membros, 74 igrejas e uma instituição de ensino superior. Em pouco mais de meio século, aquilo que começara com missionários estrangeiros havia se transformado numa presença religiosa consolidada em várias partes da ilha.
Esse crescimento, porém, carregava uma característica que se tornaria importante quando a Revolução alterasse profundamente a vida cubana: durante grande parte desse período, a direção da Igreja permaneceu predominantemente nas mãos de americanos e outros estrangeiros, e a formação de cubanos para os principais cargos de liderança foi limitada. Assim, quando a crise revolucionária provocou a saída de muitos missionários estrangeiros, a Igreja cubana precisou enfrentar uma transição brusca de liderança ao mesmo tempo em que o país atravessava uma mudança política radical. Era essa Igreja, já numerosa, institucionalizada e espalhada pela ilha — inclusive com forte presença na província de Oriente — que encontraria, poucos anos depois, os homens de Fidel Castro e Che Guevara no caminho da Revolução.
A presença adventista na ilha remontava ao período anterior à Revolução e havia produzido uma comunidade suficientemente estabelecida para possuir redes locais de confiança, liderança religiosa e instituições reconhecíveis. Em várias regiões, a identidade adventista significava muito mais do que frequentar uma igreja aos sábados: criava vínculos entre famílias, congregações e dirigentes, estabelecia relações de confiança e produzia uma rede social capaz de funcionar também quando a ordem política entrasse em colapso. Quando a guerra revolucionária alcançou as áreas rurais do Oriente cubano, essa estrutura religiosa encontrou-se diante de homens perseguidos pelo exército de Fulgencio Batista. Alguns desses homens se chamavam Ernesto Che Guevara, Juan Almeida, Camilo Cienfuegos e Ramiro Valdés. O encontro entre eles e os adventistas deixaria marcas documentais que atravessariam as décadas seguintes.
Este livro começa, portanto, com uma Igreja. Uma Igreja que professava princípios religiosos conhecidos, entre eles o sábado, uma postura de distância das lutas partidárias e uma tradição de objeções relacionadas ao envolvimento direto em atividades militares. Começa também com uma organização que precisava administrar escolas, congregações, propriedades e pessoas dentro de um país que caminhava para uma guerra civil revolucionária. É justamente o encontro entre aquilo que essa Igreja professava e aquilo que adventistas, dirigentes e instituições fizeram durante a Revolução Cubana que constitui o centro desta investigação. O leitor acompanhará documentos produzidos em diferentes momentos e por diferentes participantes, desde os contatos ocorridos durante a guerra até o relacionamento com o novo governo, encontrando homens escondidos em casas adventistas, uma rede adventista de proteção, uma instituição denominacional atuando durante a batalha de Santa Clara e, posteriormente, dirigentes do Estado recebendo representantes da Igreja.
UMA HISTÓRIA CONTADA PELOS PRÓPRIOS DOCUMENTOS
Desde esta primeira página queremos fazer ao leitor um convite muito específico: leia os documentos. Eles foram reunidos ao final deste livro porque esta história merece ser examinada diretamente nas palavras daqueles que participaram dela, daqueles que a registraram e das próprias publicações adventistas que posteriormente a preservaram.
Ao longo dos capítulos indicaremos repetidamente os apêndices correspondentes, para que o leitor possa interromper a narrativa, chegar ao documento integral, verificar o contexto e retornar ao capítulo sabendo exatamente sobre que material nossa reconstrução foi edificada. O propósito dessa organização é colocar as fontes ao alcance do leitor e permitir que cada etapa da história seja acompanhada pelo testemunho documental que a sustenta.
Entre esses documentos está o relato de Walton J. Brown, presidente do Antillian College durante a batalha de Santa Clara, publicado poucos meses depois dos acontecimentos na Review and Herald; estão as próprias memórias de Che Guevara, nas quais ele identifica adventistas que lhe deram “apoio franco” e registra que esse apoio continuou “durante todo o transcurso da guerra”; está a extensa entrevista de Argelio Rosabal preservada na coleção de Tad Szulc, na qual o dirigente adventista cubano descreve, em detalhes, como reuniu outros adventistas para socorrer sobreviventes do Granma, como organizou esconderijos, roupas, alimentos e deslocamentos e como preservou armas a pedido de Che; está o artigo de Caleb Rosado, pastor adventista que décadas depois escreveria sobre adventistas que “simpatizaram com os revolucionários e prestaram assistência clandestina”; está a pesquisa de Joseph Tahbaz sobre a relação construída entre adventistas e o governo revolucionário; e está a documentação adventista mais recente que fala abertamente em uma “colaboração de longa data” entre o governo cubano, a organização da Igreja Adventista e seus ministérios de apoio.
Esses documentos precisam ser lidos em conjunto porque nenhum deles conta sozinho toda a história. Um mostra aquilo que Che recordou; outro revela aquilo que Rosabal fez; outro registra aquilo que uma instituição adventista realizou em Santa Clara; outro mostra como um pastor e sociólogo adventista descreveu retrospectivamente a participação adventista; outro acompanha o relacionamento quando os antigos guerrilheiros já estavam no governo; e outro chega quase sete décadas depois falando em colaboração de longa data. Quando colocados lado a lado, não formam uma progressão do envolvimento individual para o institucional, mas um conjunto de testemunhos produzidos em épocas e posições diferentes, revelando por vias distintas diferentes dimensões da participação adventista na mesma conjuntura revolucionária e nas relações que se seguiram à vitória.
ANTES DA REVOLUÇÃO
A Igreja Adventista cubana entrou na década de 1950 inserida numa sociedade profundamente marcada por desigualdade, instabilidade política e pela presença do governo de Fulgencio Batista. Suas congregações alcançavam tanto centros urbanos quanto áreas rurais, inclusive regiões do Oriente, onde a revolução encontraria parte de sua base social e militar. Havia adventistas em comunidades afastadas, dirigentes conhecidos em suas localidades e instituições denominacionais que funcionavam como centros de educação e sociabilidade.
O Antillian College, que terá papel decisivo nesta narrativa, estava suficientemente consolidado para abrigar estudantes, funcionários e administradores e para tornar-se, quando a batalha chegou a Santa Clara, um ponto materialmente relevante dentro de uma região tomada por forças revolucionárias, soldados governistas, feridos e deslocamentos militares. Esse contexto institucional importa porque impede que a história seja reduzida a encontros ocasionais entre indivíduos.
Quando Che Guevara menciona adventistas nas próprias memórias, quando Argelio Rosabal descreve uma reunião sabática na qual convocou correligionários a salvar sobreviventes perseguidos, quando um colégio administrado pela denominação negocia diretamente com Che e fornece recursos durante Santa Clara, quando dirigentes adventistas procuram posteriormente antigos revolucionários agora instalados no governo e quando décadas mais tarde autoridades cubanas e líderes adventistas recordam anos de trabalho conjunto, estamos diante de diferentes dimensões documentais de uma mesma história. Não estamos descrevendo uma colaboração que começou entre leigos e depois alcançou a Organização; estamos reunindo documentos que revelam, por vias distintas, diferentes níveis de participação adventista na mesma conjuntura revolucionária. Membros, dirigentes locais, redes adventistas, instituições e administradores denominacionais aparecem nas fontes a partir de posições diferentes, sem que seja necessário transformar essas evidências numa sequência de evolução do envolvimento individual para o institucional.
1956: O MOMENTO EM QUE AS HISTÓRIAS SE ENCONTRAM
O ponto de inflexão viria em dezembro de 1956. O desembarque do Granma deixou os revolucionários dispersos, feridos, famintos e perseguidos pelas forças de Batista. Alguns sobreviventes penetraram numa região onde viviam adventistas. A partir daquele momento, a história política de Cuba e a história da Igreja Adventista na ilha começaram a cruzar-se de maneira que deixaria registros surpreendentemente detalhados.
Argelio Rosabal ouviria os bombardeios, descobriria a presença dos sobreviventes e, num sábado, reuniria adventistas de sua comunidade para dizer: “Temos que salvar essa gente.” Daquela reunião sairiam providências concretas de proteção, alimentação, roupas, esconderijos, informação, transporte e segurança. Che Guevara, beneficiário dessa rede, registraria depois sua própria lembrança dos adventistas que o ajudaram.
Esse encontro possui importância muito maior do que um episódio humanitário isolado porque o apoio se prolongou durante a guerra. Che escreveu que as jovens adventistas da família Moya lhe deram “apoio franco” e acrescentou que esse apoio permaneceu “durante todo o transcurso da guerra”. Caleb Rosado empregaria posteriormente a expressão “assistência clandestina”.
A entrevista de Rosabal revela o conteúdo concreto dessas palavras: homens escondidos, roupas recolhidas, caminhos escolhidos, vigias organizadas, mensagens levadas, comida preparada e armas enterradas. Seu testemunho documenta uma das dimensões da relação adventista com os revolucionários durante a guerra, sem que seja necessário transformá-la no ponto de origem das demais formas de participação documentadas neste livro.
DA SIERRA MAESTRA A SANTA CLARA
Dois anos depois, outra frente documental dessa mesma história aparece em Santa Clara. Che Guevara já comandava uma coluna revolucionária e avançava sobre a cidade numa operação decisiva contra forças governistas numericamente superiores. Nas proximidades do combate encontrava-se o Antillian College. O relato de Walton J. Brown mostra diretamente uma dimensão institucional da relação adventista com os revolucionários: a instituição recebeu pedidos das forças de Che, forneceu alimentação, participou do atendimento aos feridos, disponibilizou materiais e precisou estabelecer limites concretos para aquilo que faria. Brown e C. E. Schmidt chegaram a conversar pessoalmente com Che Guevara.
A administração recusou o uso de sua gráfica para propaganda revolucionária, ao mesmo tempo em que continuou prestando outros tipos de assistência às forças que lutavam pela tomada da cidade. Santa Clara não deve ser apresentada como o momento em que uma colaboração anteriormente restrita aos membros finalmente alcançou a instituição. O documento de Brown constitui uma evidência institucional própria, que deve ser colocada ao lado das demais evidências do dossiê. Rosabal documenta uma rede adventista e sua atuação como dirigente local; Che registra o apoio adventista recebido; Brown documenta diretamente as decisões tomadas dentro de uma instituição denominacional. São diferentes perspectivas documentais sobre a participação adventista na mesma conjuntura revolucionária, e não etapas de uma suposta evolução do envolvimento leigo para o institucional.
O documento de Brown permite acompanhar essas decisões quase dia a dia e oferece algo ainda mais precioso: o relato foi publicado oficialmente apenas alguns meses depois, quando a Revolução já vencera e Fidel Castro e Che Guevara haviam se tornado símbolos do novo regime. O leitor encontrará o texto integral entre os apêndices e poderá perceber quanto daquilo que aconteceu foi registrado pela própria administração adventista.
QUANDO OS REVOLUCIONÁRIOS SE TORNARAM GOVERNO
A vitória de janeiro de 1959 alterou profundamente o contexto político da relação. Homens que durante a guerra haviam necessitado de esconderijos, comida, roupas e auxílio passaram a ocupar posições de poder. A partir daquele momento, a documentação passa a registrar também a relação da Igreja com o novo governo. Autoridades revolucionárias reconheceram adventistas, recordaram a assistência recebida, visitaram instituições e abriram canais que reapareceriam posteriormente.
Em 1963, quando jovens adventistas enfrentaram problemas relacionados ao serviço militar, Argelio Rosabal voltou a aparecer como interlocutor. O homem que ajudara Che durante a guerra chegou novamente até ele, agora em nome de interesses da própria comunidade adventista. Um memorando foi encaminhado e Che identificou Rosabal numa frase que preserva a memória do relacionamento anterior: “o adventista de quem lhe falei”.
A pesquisa de Joseph Tahbaz permitirá acompanhar essa nova conjuntura, na qual os antigos guerrilheiros já controlavam o Estado e relações estabelecidas anteriormente podiam funcionar como canais de interlocução. Esse ponto é importante para a cronologia, mas não deve ser confundido com a origem de toda participação institucional adventista, porque o Antillian College já aparece diretamente nos documentos de Santa Clara durante a própria guerra. O que a vitória modifica é a posição dos revolucionários: aqueles que lutavam para conquistar o poder passam a exercê-lo, e a relação adventista com eles passa a desenvolver-se também dentro das estruturas do novo Estado.
Décadas depois, a continuidade dessas relações poderá ser encontrada em autorizações, interlocuções oficiais, construção de templos, funcionamento de instituições e relacionamentos mantidos com as estruturas responsáveis pelos assuntos religiosos do governo cubano.
UMA HISTÓRIA QUE CHEGA A 2025
Em 2025, a Adventist Review publicou uma reportagem sobre a visita de autoridades cubanas ao seminário adventista e escolheu para o título a expressão “colaboração de longa data”. A reportagem apresenta Caridad Diego Bello, chefe do Escritório de Assuntos Religiosos do Comitê Central do Partido Comunista de Cuba, recordando décadas de relacionamento com dirigentes adventistas e revelando que, quando começou seu trabalho, encontrou entre assuntos ainda pendentes uma antiga anotação de Che Guevara relacionada à possibilidade de autorização de um seminário teológico adventista.
Quase setenta anos depois dos encontros nas montanhas, Che reaparecia documentalmente dentro da história administrativa das relações entre a Igreja e o Estado cubano. A mesma reportagem fala de relacionamento mantido durante muitos anos, comunicação aberta, trabalho conjunto, projetos da Maranatha e uma expansão material que resultou em mais de uma centena de novas igrejas e mais de duzentos edifícios construídos ou substancialmente reformados. Quando chegarmos a esse documento, o leitor já terá encontrado as diferentes peças do dossiê: Sierra Maestra, Rosabal, Che, Santa Clara, Brown, vitória revolucionária, 1963 e continuidade institucional.
A expressão “colaboração de longa data” aparecerá então no lugar que historicamente lhe pertence: como descrição posterior de uma relação cuja documentação atravessa diferentes momentos da história cubana.
O LEITOR TERÁ OS DOCUMENTOS DIANTE DE SI
Por isso, este livro foi organizado para que as fontes permaneçam próximas da narrativa. Os documentos principais serão reproduzidos nos apêndices, acompanhados das informações necessárias para identificar sua autoria, origem, data e importância histórica.
Quando mencionarmos Brown, o leitor poderá consultar Brown; quando utilizarmos Che, poderá ler Che; quando reconstruirmos a atuação de Rosabal, encontrará sua entrevista; quando chegarmos a Rosado, Tahbaz e à Adventist Review, os materiais correspondentes estarão indicados. O leitor não precisará escolher entre narrativa e documento: poderá ler um à luz do outro.
Essa disposição também permite que a investigação avance sem transformar cada capítulo num depósito de transcrições. O corpo do livro reconstrói os acontecimentos, aproxima os documentos, identifica continuidades e examina suas consequências; os apêndices devolvem integralmente a palavra às fontes. Algumas delas foram produzidas por participantes diretos; outras por pesquisadores; outras pelas próprias publicações adventistas.
Juntas, oferecem uma documentação suficientemente extensa para que o leitor acompanhe diferentes dimensões da presença adventista na conjuntura revolucionária cubana, as relações estabelecidas durante a guerra, a atuação documentada de uma instituição denominacional em Santa Clara e a interlocução posterior da Igreja com o Estado surgido da vitória revolucionária.
COMEÇAMOS PELA IGREJA
Esta investigação começa, portanto, antes de qualquer julgamento final e antes de qualquer conclusão sobre o significado de IACSD. Começa simplesmente com a Igreja Adventista Cubana do Sétimo Dia, uma comunidade religiosa que já estava em Cuba quando a Revolução chegou às suas portas e que, a partir daquele momento, passou a integrar uma história muito maior do que aquela normalmente contada em seus relatos denominacionais.
Seguiremos documentos que nos levam às congregações do Oriente, às montanhas onde Che se escondia, às casas de adventistas, ao campo de batalha de Santa Clara, ao refeitório do Antillian College, aos escritórios do governo revolucionário, às memórias dos guerrilheiros e às páginas da Adventist Review. Esses lugares e fontes não constituem degraus de uma passagem do indivíduo para a instituição, mas diferentes pontos a partir dos quais a participação e as relações adventistas com a Revolução podem ser documentadas.
O leitor chegará ao final com os documentos diante de si. Antes disso, porém, precisará conhecer as pessoas, os lugares, os acontecimentos e as decisões que deram origem a esses registros. É por isso que começaremos onde a história realmente começou: em Cuba, com uma Igreja Adventista já estabelecida quando os homens do Granma apareceram feridos, famintos e perseguidos, e com uma documentação que revelará, por diferentes caminhos, adventistas, dirigentes locais, redes de apoio, instituições denominacionais e relações posteriores com o novo poder revolucionário.
CAPÍTULO 1 — IGREJA APARTIDÁRIA COMUNISTA DO SÉTIMO DIA
Este livro tem um nome deliberadamente desconfortável: IACSD — Igreja Apartidária Comunista do Sétimo Dia. Não o escondemos para apresentá-lo somente depois de dezenas de páginas, não o tratamos como simples provocação publicitária e não precisamos esperar o último capítulo para explicar por que o escolhemos. Ele nasce da contradição histórica que atravessa a documentação reunida neste volume: de um lado, uma denominação religiosa conhecida por ensinar distanciamento das disputas político-partidárias; de outro, adventistas do sétimo dia envolvidos na proteção e sustentação de homens que participavam de uma insurreição armada, um dirigente adventista mobilizando outros membros para salvar sobreviventes do Granma, o próprio Che Guevara registrando o “apoio franco” recebido de adventistas “durante todo o transcurso da guerra”, uma instituição adventista prestando assistência às forças revolucionárias durante a batalha decisiva de Santa Clara e administradores dessa instituição tratando diretamente com Che os limites da cooperação que continuariam oferecendo. A história não termina quando Fulgencio Batista foge de Cuba e os revolucionários chegam ao poder, porque os contatos reaparecem nos anos seguintes e alcançam a relação da Igreja com o governo revolucionário. É dessa sequência, e não de uma palavra escolhida ao acaso, que surgem os dois termos que orientarão nossa investigação: cumplicidade e parceria.
Chamamos essa igreja de “comunista” neste título porque a história que investigaremos é a de adventistas, dirigentes e instituições adventistas relacionados concretamente com os homens que conduziram a Revolução Cubana e com o poder político nascido dela. O termo não descreve uma doutrina teológica adventista; identifica o lado político e revolucionário com o qual essa história se entrelaçou. A palavra “apartidária”, por sua vez, coloca diante dessa documentação a identidade pública de uma organização que exigia distância da política enquanto, em Cuba, seus membros e instituições aparecem atravessando uma experiência muito mais profunda do que a simples manifestação de uma opinião eleitoral. Aqui não discutiremos se um adventista colocou um adesivo no carro, participou de um comício, levantou uma bandeira ou declarou preferência por determinado candidato. Estamos falando de uma revolução, de clandestinidade, de homens perseguidos pelas tropas do governo, de esconderijos, deslocamentos, vigilância, armas e munições ocultadas, alimentação e proteção oferecidas a guerrilheiros, atendimento e suprimentos durante uma batalha e, posteriormente, relacionamento com os homens que assumiram o Estado. É justamente a distância entre a pequenez da política que costuma ser proibida ao membro e a dimensão da política encontrada nesses documentos que torna a história cubana tão perturbadora.
Os documentos que sustentam essa reconstrução serão colocados diante do leitor no final deste volume, reunidos num dossiê documental que faz parte essencial do livro. Ao longo dos capítulos, entretanto, eles estarão continuamente presentes, porque queremos que o leitor saiba de onde saiu cada informação e tenha razões para chegar aos apêndices desejando conferir por si mesmo as palavras de seus protagonistas. Encontraremos Walton J. Brown escrevendo para a principal publicação adventista poucos meses depois dos acontecimentos de Santa Clara; encontraremos Che Guevara narrando episódios da própria guerra; encontraremos Argelio Rosabal falando extensamente numa entrevista histórica preservada na coleção de Tad Szulc; encontraremos Caleb Rosado pesquisando posteriormente as relações entre os adventistas cubanos e a Revolução; encontraremos Joseph Tahbaz examinando a situação adventista sob o novo governo; e encontraremos a própria Adventist Review, muitas décadas depois, reconstruindo aspectos do relacionamento institucional em Cuba. São fontes produzidas em momentos diferentes, por pessoas diferentes e com finalidades diferentes, mas que, colocadas cronologicamente umas ao lado das outras, permitem acompanhar uma relação que começa durante a luta armada e continua depois que os revolucionários se tornam governo.
A palavra cumplicidade é necessária porque “ajuda” é pequena demais para descrever o conjunto. Ajuda pode ser um copo de água oferecido a um desconhecido, uma refeição dada a quem tem fome ou um curativo feito em alguém ferido, sem que aquele que presta o socorro conheça qualquer coisa sobre os objetivos, as atividades ou a identidade política do beneficiário. A documentação cubana descreve outra situação. Argelio Rosabal relata que os primeiros sobreviventes com quem teve contato lhe explicaram por que haviam vindo a Cuba; depois, no sábado, ele foi à igreja onde exercia a direção da Escola Sabatina, reuniu os adventistas e lhes explicou que aqueles homens haviam chegado com a missão, segundo eles próprios, de enfrentar a miséria e o mau estado do país. Rosabal recordou que quase todos os adventistas ali presentes eram trabalhadores dos campos de cana e conheciam aquela situação “na própria carne”; em seguida, pronunciou a frase que se tornará uma das chaves desta investigação: “Temos que salvar essa gente.” Não ficou na declaração de simpatia, porque orientou os presentes a se interessarem pela vida dos sobreviventes, a recolhê-los quando os encontrassem e, caso não tivessem coragem de fazê-lo, a avisá-lo. Quando Tad Szulc perguntou quantos adventistas estavam envolvidos naquele ambiente, Rosabal calculou aproximadamente quinze ou vinte e acrescentou que eles ficaram “orientados”.
Esse sábado é decisivo para compreendermos a natureza da história que estamos reconstruindo. Rosabal não aparece como um aventureiro sem vínculos denominacionais que posteriormente recebeu uma identidade adventista por conveniência narrativa. Na entrevista, ele corrige apenas a impressão de que tivesse sido pastor ordenado e se identifica como dirigente da Igreja Adventista do Sétimo Dia; mais adiante, explica que era diretor da Escola Sabatina e que participara da fundação de uma igreja naquela região. Che Guevara e Juan Almeida passaram a chamá-lo de “El Pastor”, apelido que sobreviveria nos relatos da Revolução. A mesma entrevista registra que Rosabal, depois de reunir os adventistas, começou a receber informações deles sobre a localização de sobreviventes. Rubén Verdecia, Jacinto Vázquez e Alfredito González aparecem nominalmente, enquanto outros nomes surgem quando ele descreve a obtenção de roupas para um grupo de oito revolucionários debilitados. O que começou com a decisão de “salvar essa gente” transformou-se, portanto, numa rede que localizava homens escondidos, recolhia recursos e transmitia informações a Rosabal.
A dimensão dessa rede aparece com ainda mais clareza quando acompanhamos a longa entrevista de Rosabal em vez de extrair dela apenas a cena mais conveniente. Ele descreve obtenção de roupas, alimentação, esconderijos, deslocamentos, vigilância, comunicação e proteção contra as tropas de Batista; fala de Che ferido e sofrendo com a asma, do caldo de galinha servido aos homens, de mensagens que deveriam chegar às famílias e da movimentação necessária para que aqueles sobreviventes não fossem descobertos. Em determinado momento, soldados de Batista aproximam-se perigosamente do lugar onde Che e Almeida estavam escondidos, e Rosabal muda os homens de posição para evitar que fossem vistos. Em outro episódio, comida preparada enquanto militares se encontravam na região termina chegando aos revolucionários ocultos. Vista em sua extensão, a narrativa não descreve uma sucessão casual de atos humanitários desconectados, mas uma operação de sobrevivência que se prolongou por dias e envolveu diferentes pessoas, casas, recursos e decisões.
É nesse contexto que aparecem também as armas. Quando Rosabal chega ao grupo em que estavam Che Guevara, Juan Almeida, Camilo Cienfuegos, Ramiro Valdés, Reynaldo Benítez, Rafael Chao, Francisco González e Pablo Hurtado, já não existe qualquer possibilidade de imaginar que estivesse apenas diante de desconhecidos cuja natureza política e militar lhe escapava. Segundo seu depoimento, Che conversa diretamente com ele sobre o armamento: havia rifles com mira telescópica, munições e pistolas, e o estado físico dos revolucionários dificultava transportá-los. Che pede que Rosabal esconda as armas num lugar seguro; Rosabal aceita, um buraco é aberto sob um jagüey, o armamento é envolvido e enterrado. O próprio Che, segundo Rosabal, mostra-lhe seu rifle e diz que, se eles fossem mortos e não pudessem continuar a Revolução, aquela arma passaria a pertencer ao adventista. A cena pertence ao mesmo relato no qual Rosabal identifica sua função religiosa, conta que reuniu os adventistas no sábado e descreve como os membros começaram a procurar e proteger os sobreviventes. A cumplicidade não é uma palavra colocada artificialmente sobre um prato de comida; é a constatação produzida pela natureza e pela continuidade das ações que o próprio participante descreveu.
Quando chegarmos ao apêndice que reproduz a entrevista completa de Argelio Rosabal, valerá a pena lê-la sem pressa, porque suas 23 páginas permitem perceber algo que nenhum resumo consegue transmitir com a mesma intensidade: a passagem gradual de um primeiro contato para uma rede de proteção. O entrevistado fala de sua igreja, de sua função, dos outros adventistas, das condições sociais daqueles trabalhadores, das roupas reunidas, dos homens distribuídos, dos esconderijos, das armas, dos movimentos das tropas e das tentativas de reencontrar Fidel Castro. A sequência é clara: Rosabal se identifica como adventista e dirigente da igreja, recebe sobreviventes do Granma, toma conhecimento do propósito político que os trouxera a Cuba, fornece roupas civis, acompanha homens em seu deslocamento, reúne os adventistas no sábado, orienta aproximadamente quinze ou vinte deles a proteger os sobreviventes e, a partir dessa mobilização, passa a receber notícias sobre a localização de outros revolucionários.
CHE GUEVARA CONFIRMA O APOIO ADVENTISTA
A entrevista de Rosabal seria por si mesma um documento extraordinário, mas sua importância aumenta quando a colocamos ao lado das memórias do próprio Ernesto Che Guevara. A convergência das duas fontes é uma das bases deste livro porque permite observar a mesma relação a partir de lados diferentes: Rosabal descreve a mobilização por dentro, enquanto Che registra a presença dos adventistas entre aqueles que sustentaram seus homens. Em Pasajes de la Guerra Revolucionaria, ao recordar sua tentativa de restabelecer contato com Fidel Castro, Guevara relata o encontro com duas mulheres da família Moya e faz questão de registrar sua identidade religiosa. Eram adventistas e, embora suas convicções fossem contrárias à violência, prestaram aos revolucionários aquilo que ele próprio chamou de “apoio franco”, acrescentando que esse apoio ocorreu naquele momento e “durante todo o transcurso da guerra”. A expressão é fundamental porque vem de Che e porque atribui continuidade à relação: o homem que recebeu o apoio não o descreveu como um gesto ocasional de misericórdia, mas como algo que acompanhou a guerra. O trecho completo estará no dossiê documental deste livro para que o leitor possa observar como Guevara introduziu espontaneamente a identidade adventista dessas mulheres dentro de sua memória da campanha.
Che também identifica diretamente Argelio Rosabal. Em seu relato, lembra que estavam na casa de “um adventista chamado Argelio Rosabal”, conhecido por todos como “El Pastor”, e registra a atuação dele quando a situação dos revolucionários se tornou perigosa. Depois que armas deixadas sob a guarda de um camponês foram denunciadas e apreendidas pelo Exército, Rosabal, ao saber do desastre, entrou rapidamente em contato com outro camponês da região que simpatizava com os rebeldes; naquela mesma noite, os homens foram retirados dali e conduzidos para um refúgio mais seguro. A memória de Guevara é breve quando comparada às 23 páginas de Rosabal, mas é justamente essa diferença de extensão que torna a leitura conjunta tão reveladora, porque Che identifica o adventista e registra a proteção recebida, enquanto Rosabal abre a cena, identifica os demais participantes e explica como a rede funcionava.
É por isso que os documentos de Che e Rosabal devem ser lidos juntos nos apêndices. Um impede que o outro seja isolado. Se tivéssemos somente a memória de Guevara, saberíamos que ele reconheceu apoio adventista e identificou Rosabal; se tivéssemos somente Rosabal, conheceríamos uma extensa narrativa adventista sobre os sobreviventes do Granma. Colocados lado a lado, porém, os relatos se encontram nos personagens, na identidade religiosa, nos lugares, na situação de perseguição e na proteção prestada. Existe ainda uma terceira confirmação historiográfica importante: Caleb Rosado registrou posteriormente que adventistas simpatizaram com os revolucionários e lhes prestaram “assistência clandestina”. Essa expressão oferece uma descrição concisa daquilo que as páginas de Rosabal mostram em detalhes, porque a assistência não se limitava ao espaço público da caridade religiosa, mas penetrava a clandestinidade exigida pela sobrevivência de homens perseguidos pelo governo.
A palavra parceria emerge dessa continuidade. Os revolucionários necessitavam de pessoas que conhecessem o território, casas onde pudessem desaparecer, comida, roupas, informações e meios de evitar as tropas que os procuravam; os documentos mostram adventistas fornecendo precisamente parte dessas condições. Quando Guevara registra que esse apoio se prolongou durante a guerra, a relação deixa de caber na imagem de um encontro fortuito. Quando Rosabal reúne adventistas e estabelece uma orientação para localizar e recolher sobreviventes, a iniciativa deixa de caber na imagem de uma decisão exclusivamente individual. Quando armas são escondidas, homens são movimentados para evitar soldados e mensagens circulam entre pessoas ligadas aos revolucionários, a cumplicidade adquire conteúdo material. A parceria não exige que cada participante empunhe um rifle para existir, porque uma guerrilha depende tanto de sua capacidade de combater quanto da possibilidade de continuar viva, invisível e abastecida entre um combate e outro.
Há ainda um elemento histórico indispensável para compreendermos o peso dessas ações: os homens protegidos depois do desastre do Granma não desapareceram da história cubana. Entre eles estavam personagens que ocupariam posições centrais na guerra e posteriormente no Estado revolucionário. Che Guevara, Juan Almeida, Camilo Cienfuegos e Ramiro Valdés aparecem no relato de Rosabal entre os homens alcançados por aquela rede. O grupo que naquele momento estava debilitado, perseguido, malvestido e dependente de proteção conseguiu recompor-se; Fidel Castro reuniu os sobreviventes; a guerrilha se reconstruiu na Sierra Maestra e, dois anos depois, avançou para a fase final da guerra. É precisamente essa continuidade histórica que impede que a participação de quem sustentou os fugitivos seja separada artificialmente do processo que aqueles homens estavam tentando preservar. A rede adventista participou da sustentação de revolucionários num momento em que a sobrevivência deles era condição elementar para que continuassem lutando.
DA SIERRA MAESTRA PARA SANTA CLARA
A passagem de 1956 para 1958 transforma completamente a escala da nossa investigação. Nos primeiros episódios encontramos principalmente membros, famílias, trabalhadores rurais e um dirigente local ligados a uma rede de assistência clandestina aos sobreviventes revolucionários; dois anos depois, quando a guerra se aproxima de sua conclusão, a documentação nos leva ao Antillian College, uma instituição adventista, e ao seu presidente, Walton J. Brown. A mudança é decisiva porque a relação que começamos acompanhando entre casas e esconderijos aparece agora dentro de uma estrutura denominacional, administrada por dirigentes que precisavam tomar decisões enquanto a guerra se aproximava fisicamente do campus. O material preservado neste dossiê registra inclusive que E. E. Cossentine, da Associação Geral, e V. E. Berry, da Divisão Interamericana, estiveram no colégio em uma inspeção durante aquele período turbulento e relataram as dificuldades da viagem por uma região em que pontes haviam sido destruídas. A guerra, portanto, não era uma abstração distante para a estrutura administrativa adventista, pois seus efeitos já estavam ao redor da instituição quando os acontecimentos decisivos chegaram a Santa Clara.
O documento central para reconstruir o que ocorreu em seguida é especialmente importante porque foi produzido pelo próprio presidente do colégio. Em 30 de abril de 1959, apenas alguns meses depois da vitória revolucionária, Walton J. Brown publicou na Review and Herald seu relato sobre o comportamento da instituição durante os acontecimentos. Brown descreveu a chegada dos revolucionários, o fornecimento de alimentação, a presença de feridos, a utilização de lençóis, travesseiros e bandagens, os primeiros socorros e a passagem de centenas de homens pelo refeitório. Em determinado momento, o próprio Che Guevara pediu alimento para médicos, enfermeiros e outras pessoas ligadas às forças revolucionárias. A narrativa mostra uma instituição funcionando materialmente dentro do cenário da batalha, mobilizando recursos que interessavam diretamente aos homens que estavam combatendo o governo de Batista. O episódio já não pertence ao ambiente doméstico da Sierra Maestra, porque agora há administração, instalações, cozinha, suprimentos, atendimento e capacidade institucional de sustentar um número muito maior de pessoas.
É também em Santa Clara que encontramos uma das cenas mais importantes para compreender a natureza consciente dessa parceria. Brown e C. E. Schmidt, administrador financeiro do colégio, foram ao quartel-general de Che Guevara e explicaram os princípios adventistas e os princípios da instituição, declarando a disposição de fazer tudo aquilo que estivesse ao alcance deles para preservar vidas, ao mesmo tempo em que estabeleceram que havia determinadas coisas que não fariam. Che respondeu que conhecia os adventistas e assegurou que suas práticas seriam respeitadas. A existência dessa conversa significa que a cooperação possuía limites discutidos diretamente entre a administração adventista e o comandante revolucionário. Já não estamos diante apenas de ações praticadas silenciosamente por moradores da serra, mas de administradores institucionais dialogando com Che sobre a maneira pela qual a escola se relacionaria com suas forças enquanto a batalha se desenvolvia.
A melhor demonstração de que esses limites eram conscientemente políticos aparece na gráfica. Os revolucionários solicitaram que a instituição imprimisse material de propaganda, e Brown recusou. A administração afirmou que não tomava partido politicamente. Os homens de Che poderiam ter tomado a gráfica pela força, mas aceitaram a recusa e procuraram outro lugar para realizar o serviço. O episódio é extraordinário porque revela que Brown e seus colegas possuíam capacidade de dizer não e sabiam identificar uma ação que consideravam politicamente comprometedora. Ao mesmo tempo, continuavam oferecendo outras formas de assistência às forças revolucionárias. A linha divisória escolhida pela administração não estava, portanto, entre cooperar e não cooperar, mas entre determinadas modalidades de cooperação: imprimir propaganda era entendido como participação política formal e foi recusado, enquanto alimentação, atendimento, suprimentos e assistência material permaneciam dentro daquilo que a administração admitia fazer. É precisamente por isso que a gráfica se torna uma das peças mais reveladoras dessa história, pois demonstra uma política de cooperação delimitada e coloca no centro da investigação a origem dos limites que Brown levou consigo quando foi conversar com Che.
A sequência documental produz, assim, uma progressão que precisa ser compreendida como um processo contínuo. Na Sierra Maestra, Che registra “apoio franco” adventista e atribui a esse apoio a duração da guerra; Rosabal mostra por dentro uma rede organizada entre membros da Igreja, descrevendo pessoas, roupas, esconderijos, deslocamentos, vigilância, comunicação e armas; Caleb Rosado posteriormente caracteriza parte dessa atuação como “assistência clandestina”; em Santa Clara, a relação chega a uma instituição denominacional, ganha capacidade logística muito maior e inclui uma negociação direta entre seus administradores e Che Guevara. Não são histórias independentes reunidas apenas porque todas contêm adventistas. Elas pertencem ao mesmo processo revolucionário e se distribuem ao longo de sua cronologia, começando quando os homens de Fidel precisavam sobreviver à perseguição e alcançando o momento em que esses mesmos revolucionários estavam em condições de derrotar militarmente o regime.
É nesse ponto que a expressão Igreja Apartidária Comunista do Sétimo Dia ganha seu significado histórico completo. O apartidarismo proclamava distância da política, mas a documentação cubana nos coloca diante de adventistas que conheciam os objetivos dos homens que protegiam, de um dirigente da Igreja que reuniu outros membros e os orientou a salvar revolucionários, de assistência clandestina reconhecida posteriormente por um pesquisador adventista, do “apoio franco” registrado pelo próprio Che Guevara, de uma instituição denominacional prestando assistência às forças revolucionárias na fase final da guerra e de administradores negociando diretamente com Che aquilo que fariam e aquilo que recusariam fazer. A contradição está inscrita na distância entre a doutrina proclamada e a prática documentada. Aos membros, o apartidarismo estabelecia a fronteira da política; em Cuba, entretanto, encontramos adventistas e administradores atuando dentro de uma relação concreta com os homens que conduziam uma revolução ao poder. O membro recebia a regra, enquanto a Organização conservava a margem de negociação.
Para compreendermos verdadeiramente a dimensão do que aconteceu no Antillian College, precisamos agora colocar Santa Clara em sua escala militar e política correta. A instituição adventista não prestou assistência às forças de Che durante uma pequena escaramuça sem consequências para o curso da guerra, mas no ambiente da batalha que abriu o caminho para o desmoronamento final do regime de Batista e transformou a ofensiva revolucionária em vitória política. Somente quando colocarmos o colégio dentro dessa batalha, os recursos fornecidos dentro da logística da guerra e a conversa entre Brown e Che dentro das decisões tomadas por uma administração adventista cercada pelo conflito perceberemos a magnitude da mudança ocorrida desde os primeiros esconderijos da Sierra Maestra. Os homens que dois anos antes precisavam ser alimentados, vestidos, ocultados e conduzidos para não serem capturados haviam chegado ao momento em que podiam decidir o futuro de Cuba, e a história adventista voltaria a encontrá-los justamente ali.
O próximo capítulo reconstruirá Santa Clara antes de entrar pelos portões do Antillian College, examinando a desproporção das forças, a ofensiva comandada por Che, a importância estratégica da cidade, os combates, o trem blindado, as baixas, os prisioneiros e a velocidade com que a derrota militar se converteu no colapso político de Batista. Só então será possível medir corretamente o que significava alimentar, atender e sustentar homens ligados às forças revolucionárias naquele lugar e naquele momento. A partir daí, a questão central já não será se adventistas estiveram próximos da Revolução Cubana, porque Che, Rosabal e Brown nos colocam muito além dessa pergunta, mas compreender a extensão da cumplicidade e da parceria que os próprios documentos registraram e acompanhar o que aconteceu quando os guerrilheiros deixaram de ser fugitivos e se transformaram nos novos donos do poder em Cuba.
CAPÍTULO 2 — SANTA CLARA: A BATALHA FINAL
Para compreender o significado da presença adventista nos acontecimentos de Santa Clara, é necessário primeiro retirar essa batalha da posição secundária em que ela pode aparecer quando a história da Revolução Cubana é resumida apenas como uma marcha inevitável de Fidel Castro desde a Sierra Maestra até Havana. Santa Clara foi o ponto em que a guerra mudou de natureza, porque ali a ofensiva revolucionária alcançou uma capital provincial estratégica, atingiu diretamente uma das últimas grandes concentrações militares do regime de Fulgencio Batista e produziu uma vitória cuja repercussão ultrapassou imediatamente o campo de batalha. Em 28 de dezembro de 1958, Che Guevara chegou à região à frente de algumas centenas de combatentes, enquanto as forças governamentais dispunham de milhares de homens, posições defensivas, veículos blindados e apoio aéreo. A diferença numérica era enorme: cerca de trezentos homens sob a direção imediata de Che enfrentavam uma força governamental que, considerando a guarnição e os contingentes disponíveis na área, girava em torno de três mil soldados ou mais. A batalha que se seguiria demonstraria que aquela superioridade material já não correspondia à capacidade política e moral do regime para continuar resistindo.
Santa Clara não era uma cidade qualquer. Capital da antiga província de Las Villas, ocupava uma posição central na ilha e controlava vias de comunicação indispensáveis entre o leste e o oeste cubanos. Sua queda significaria muito mais do que a perda de uma guarnição: abriria o caminho para Havana e demonstraria que o governo já não conseguia conservar uma posição estratégica mesmo concentrando nela homens, armas e recursos superiores aos disponíveis aos rebeldes. Batista compreendia essa importância e havia reforçado a região, enquanto Che, depois de avançar sobre diferentes localidades de Las Villas, decidiu não esperar indefinidamente por uma concentração ainda maior das forças revolucionárias. Ao atacar Santa Clara, assumiu o risco de enfrentar um adversário numericamente muito superior, contando com a deterioração do moral governamental, com a mobilidade de seus combatentes, com a participação de outros grupos revolucionários na região e com o apoio que os rebeldes encontravam entre setores da população.
Essa desproporção precisa permanecer diante de nossos olhos durante todo o capítulo, porque ela modifica também a compreensão da logística revolucionária. Uma força de algumas centenas de homens que entra numa cidade defendida por milhares não depende apenas das armas carregadas pelos combatentes. Precisa comer, movimentar feridos, obter informações, encontrar locais relativamente protegidos, manter comunicação, receber recursos e continuar funcionando enquanto aviões atacam, posições mudam de mãos e centenas de prisioneiros começam a aparecer. É nesse ambiente que o Antillian College entrará posteriormente em nossa narrativa. Antes, porém, precisamos acompanhar a própria batalha e perceber que a instituição adventista estava situada nas proximidades de uma operação militar capaz de decidir, em questão de dias, quem governaria Cuba.
CHE CHEGA A SANTA CLARA
Depois de avançar por Las Villas e conquistar ou neutralizar posições importantes no caminho, Che estabeleceu sua base de operações na Universidade Central Marta Abreu, nos arredores de Santa Clara, em 28 de dezembro. A proximidade entre a universidade e o Antillian College será decisiva para os acontecimentos que examinaremos mais adiante. Não se tratava apenas de uma coincidência geográfica: o centro universitário tornou-se parte da estrutura utilizada pelas forças revolucionárias que preparavam o ataque à cidade, e o próprio Walton Brown registraria posteriormente que Che instalara seu quartel-general num corredor da universidade. A partir dali, Brown e C. E. Schmidt iriam pessoalmente conversar com o comandante revolucionário sobre o relacionamento entre as forças de Che e a instituição adventista.
A cidade estava preparada para resistir. As forças governamentais ocupavam o Regimento Leoncio Vidal, a estação de polícia, a prisão, edifícios públicos, pontos elevados e outras posições defensivas, além de contarem com tanques, aviação e um trem blindado enviado como reforço. A utilização de edifícios urbanos como posições militares transformou Santa Clara num campo de combate espalhado entre ruas, residências, instalações públicas e pontos estratégicos. Os rebeldes precisavam quebrar essas posições progressivamente, impedir a chegada de reforços e destruir a confiança de soldados que já percebiam que o regime perdia terreno em diferentes partes do país.
A ofensiva não se desenvolveu como uma batalha convencional em que duas massas militares se encontram numa frente claramente definida. Os homens de Che penetraram na cidade, atacaram posições específicas, isolaram unidades e procuraram explorar a deterioração do comando governamental. A participação de moradores de Santa Clara também se tornou parte da dinâmica do combate, com apoio aos revolucionários, orientação através das ruas, construção de barricadas e outras formas de auxílio. A superioridade numérica de Batista permanecia considerável, mas estava distribuída entre posições cuja coordenação se tornava progressivamente mais difícil. Em contraste, os revolucionários avançavam com a iniciativa política e militar de quem percebia que o regime se aproximava de uma crise terminal.
O TREM BLINDADO
Entre todos os episódios da batalha, nenhum adquiriu tanta força simbólica quanto a captura do trem blindado. O governo havia enviado para Santa Clara um comboio fortemente protegido transportando mais de trezentos soldados e grande quantidade de armas, munições e equipamentos. Sua presença representava a tentativa de reforçar a defesa de uma cidade cuja perda poderia ser catastrófica para Batista. Che compreendeu imediatamente a importância daquele recurso: enquanto o trem permanecesse operacional e seus homens conservassem o armamento transportado, o governo possuía uma reserva militar capaz de prolongar significativamente a resistência.
Os revolucionários interromperam a ferrovia e conseguiram descarrilar parte do comboio. A luta em torno do trem terminou com a rendição dos soldados que estavam a bordo e com a captura de uma quantidade considerável de armas e munições. O efeito foi simultaneamente militar e psicológico. O governo perdia centenas de homens e um importante carregamento de recursos exatamente quando precisava reforçar Santa Clara; os rebeldes, que haviam chegado numericamente inferiores, ganhavam armamento, prisioneiros e uma demonstração pública de que a estrutura militar de Batista estava entrando em colapso. Walton Brown acompanhou de perto a repercussão daquele episódio e, em seu relato posterior, registrou que o primeiro grande encorajamento recebido pelos insurgentes ocorreu quando conseguiram capturar o trem fortemente blindado com mais de trezentos soldados.
A queda do trem também expõe por que seria inadequado imaginar Santa Clara como uma simples sequência de pequenas ações guerrilheiras. Centenas de soldados estavam envolvidos apenas naquele componente da defesa, e a cidade continuava submetida a ataques aéreos enquanto outras posições permaneciam nas mãos governamentais. Brown escreveria que, do colégio, era possível observar bombardeiros e aviões leves atacando Santa Clara e que, em diferentes momentos, as aeronaves circulavam sobre a escola e a universidade, levando estudantes e funcionários a buscar abrigo. O cenário dentro do qual a instituição adventista começaria a receber revolucionários era, portanto, inequivocamente um cenário de guerra.
A AVIAÇÃO DE BATISTA SOBRE A CIDADE
À medida que os rebeldes avançavam pelas ruas, o governo continuava utilizando sua superioridade aérea. Aviões bombardearam e metralharam áreas de Santa Clara enquanto as posições terrestres eram disputadas. Para os moradores, isso significava que a batalha não estava confinada aos quartéis; explosões, tiros, destruição e perigo alcançavam diferentes pontos da cidade. Para quem se encontrava no Antillian College, significava observar a guerra quase literalmente diante dos olhos. Brown recordaria os aviões circulando sobre a região, as bombas caindo ao longe e os rastros das rajadas de metralhadora, até que, em 31 de dezembro, essa sensação de distância desapareceu.
Naquela quarta-feira, depois do almoço, um Spitfire e três bombardeiros B-26 voltaram a sobrevoar a área. Às 14h47, segundo a precisão impressionante do relato de Brown, uma bomba caiu na propriedade próxima à entrada da universidade e iniciou-se aproximadamente uma hora e quinze minutos de ataques de metralhadora. Estudantes, professores e revolucionários que estavam naquele momento no refeitório correram para locais protegidos. As mulheres procuraram abrigo na lavanderia situada no porão do dormitório feminino, enquanto os rapazes se dirigiram aos chuveiros no porão do dormitório masculino. O detalhe mais importante para nossa investigação é que Brown menciona naturalmente a presença de rebeldes comendo no refeitório quando o ataque começou. A guerra estava sobre a instituição e, ao mesmo tempo, homens da força revolucionária já estavam sendo alimentados dentro dela.
Essa proximidade física elimina qualquer possibilidade de reconstruir posteriormente a assistência adventista como se ela tivesse acontecido longe do combate, num espaço protegido e puramente humanitário. Quem estava no colégio podia ver os aviões, ouvir as explosões, acompanhar as notícias da luta e observar os revolucionários chegando. A captura do trem blindado era conhecida. A resistência dentro da cidade era conhecida. A identidade das forças envolvidas era conhecida. Quando administradores, estudantes e funcionários forneciam recursos aos homens que chegavam ao campus, faziam-no dentro de uma batalha cuja natureza política e militar era impossível desconhecer.
UMA CIDADE SENDO TOMADA
Depois da perda do trem blindado, a situação das tropas de Batista deteriorou-se rapidamente. Os rebeldes continuaram atacando as posições governamentais e avançando através da cidade, enquanto unidades isoladas percebiam que a possibilidade de receber reforços diminuía. O regime ainda possuía homens e armas em quantidade, mas a batalha revelava um problema que números brutos não podiam esconder: soldados sem confiança no futuro do governo enfrentavam combatentes convencidos de que a vitória estava próxima. À medida que algumas posições capitulavam e centenas de homens eram capturados, a diferença numérica que inicialmente favorecia Batista começava a perder importância prática.
O resultado de Santa Clara não pode ser separado da crise mais ampla do regime, mas a velocidade com que os acontecimentos se sucederam demonstra a importância da batalha. Entre 28 de dezembro e o primeiro dia de janeiro, uma cidade defendida por milhares de soldados passou para o controle revolucionário. Nas horas seguintes, Batista abandonou Cuba. O governo que ainda possuía Exército, aviação, polícia, quartéis e estruturas administrativas perdeu sua capacidade política de continuar a guerra quando ficou evidente que nem mesmo uma posição estratégica como Santa Clara podia ser preservada. A vitória de Che não foi o único fator do colapso, mas tornou visível e irreversível a decomposição que já avançava dentro do regime.
Esse encadeamento temporal precisa ser levado a sério. O Antillian College não auxiliou homens pertencentes a uma força que lutava sem perspectiva real de vitória; prestou assistência no momento em que essa força estava quebrando uma das últimas grandes posições defensivas do governo e abrindo o caminho para a tomada do poder. Os rebeldes que comiam no refeitório, recebiam atendimento ou circulavam pelas instalações não pertenciam a uma guerrilha distante escondida na serra, mas à força que estava vencendo a batalha capaz de precipitar a fuga de Batista. Quando a escola alimentou esses homens, eles ainda estavam combatendo; quando chegou o jantar de 1º de janeiro, o regime já havia desmoronado.
OS MORTOS, OS FERIDOS E OS PRISIONEIROS
A narrativa heroica de qualquer revolução tende a transformar a vitória em fotografia, bandeira e celebração, mas a batalha real deixou mortos, feridos, prisioneiros e famílias atravessadas pela violência. Santa Clara foi combatida em ruas onde também viviam civis, e os ataques aéreos não distinguiam perfeitamente entre posições militares e a cidade que as cercava. Combatentes revolucionários morreram durante os dias da ofensiva, soldados governamentais morreram ou foram feridos, civis foram atingidos, e milhares de homens do aparato militar de Batista acabariam desarmados ou capturados à medida que as posições desmoronavam. A contagem exata das baixas varia segundo as fontes e segundo o perímetro utilizado para definir a batalha, mas não há dúvida sobre a intensidade da violência e sobre o enorme número de prisioneiros produzido pela vitória rebelde.
Essa dimensão humana importa especialmente porque os documentos adventistas insistem na preservação de vidas como fundamento declarado da assistência. Brown e Schmidt diriam posteriormente a Che que estavam dispostos a fazer tudo o que pudessem para ajudar a preservar vidas. Mas a preservação de vidas acontecia dentro de uma guerra na qual os homens auxiliados pertenciam a uma força organizada que continuava combatendo. Uma refeição oferecida a um soldado não deixa de alimentar seu corpo porque o motivo religioso de quem a oferece seja humanitário; um curativo aplicado a um combatente permite que ele sobreviva ao ferimento; um recurso material colocado à disposição de uma força em operação participa objetivamente da capacidade dessa força de continuar existindo. Essa relação entre intenção declarada e consequência material será fundamental quando entrarmos no Antillian College, porque ali encontraremos a administração utilizando a linguagem da preservação da vida ao mesmo tempo em que estabelecia uma cooperação prática com um dos lados da batalha.
Há também uma diferença essencial entre atender indiscriminadamente qualquer ferido trazido à porta e tornar-se um ponto recorrente de alimentação e apoio para homens pertencentes a uma força militar. A documentação de Brown fala de grupos sucessivos de revolucionários chegando ao colégio, de comida preparada em quantidade, de feridos atendidos, de materiais fornecidos e de planejamento para continuar alimentando os homens. Depois da vitória, aproximadamente 180 médicos e soldados revolucionários jantariam na instituição em uma única ocasião. O que encontraremos, portanto, não é apenas uma emergência médica improvisada durante algumas horas, mas uma relação que adquiriu regularidade suficiente para exigir decisões administrativas, organização do refeitório, utilização de materiais e negociação com oficiais.
O COLÉGIO ESTAVA DENTRO DA GEOGRAFIA DA BATALHA
A localização do Antillian College ajuda a compreender por que seus administradores foram rapidamente colocados diante de decisões que outras instituições adventistas cubanas não precisaram tomar. A proximidade com a Universidade Central Marta Abreu colocou o campus na zona em que Che estabeleceu sua estrutura de comando. A guerra aproximou-se gradualmente, pontes foram destruídas, estradas tornaram-se difíceis, a circulação foi alterada e as forças revolucionárias passaram a utilizar a região. O próprio relato de Brown começa mostrando essa aproximação: representantes da Associação Geral e da Divisão Interamericana que visitaram a instituição já haviam enfrentado trajetos interrompidos por pontes destruídas, e posteriormente outra ponte próxima ao colégio foi explodida. O campus não foi surpreendido por uma guerra cuja existência ninguém conhecia; a administração viu o conflito chegar.
Quando os primeiros revolucionários apareceram pedindo recursos, portanto, Brown e seus colegas já sabiam que a ofensiva se encontrava nas proximidades. Pouco depois, o pedido de comida chegaria diretamente ligado a Che Guevara. Feridos apareceriam. Lençóis, travesseiros e bandagens seriam requisitados. Estudantes e professores participariam do atendimento. O refeitório receberia grupos cada vez maiores. Veículos e homens ligados à Revolução circulariam pela região. Brown e Schmidt iriam à universidade conversar com Che. Posteriormente, representantes revolucionários pediriam acesso à gráfica. Cada novo acontecimento obrigaria a administração a definir até onde iria sua cooperação, e é justamente essa sequência que transforma Santa Clara numa peça central para a tese deste livro.
Há uma diferença qualitativa entre Rosabal e Brown, embora ambos pertençam à mesma história. Rosabal era um dirigente religioso local que, diante dos sobreviventes do Granma, mobilizou uma rede de adventistas e utilizou casas, relações pessoais e conhecimento da região para ajudar homens perseguidos. Brown estava à frente de uma instituição, possuía funcionários, estudantes, instalações, cozinha, gráfica, recursos e uma posição administrativa dentro da estrutura denominacional. Quando a cumplicidade chega ao Antillian College, ela deixa de depender apenas de iniciativas individuais e passa a ser exercida através de recursos pertencentes a uma organização. É essa passagem do membro para a instituição que Santa Clara torna possível documentar.
O SÁBADO DE 27 DE DEZEMBRO
A cronologia registrada por Walton Brown torna a situação ainda mais reveladora. Em 27 de dezembro, um sábado, o colégio já vivia sob a percepção de que a guerra se aproximava. Atividades externas foram canceladas, e a comunidade reuniu-se em oração pedindo proteção e paz. Pouco depois, a realidade militar avançaria para dentro da rotina da escola. Esse contraste entre o sábado de oração e os dias seguintes precisa ser compreendido sem transformá-lo em recurso teatral: ele demonstra a rapidez com que administradores, professores e alunos foram deslocados de uma rotina religiosa para decisões concretas diante de combatentes revolucionários.
Nos dias seguintes, a instituição faria mais do que observar Santa Clara de longe. Revolucionários apareceriam procurando comida, atendimento e materiais. O próprio Che faria pedidos. Brown iria ao seu quartel-general. O fornecimento de recursos continuaria enquanto a cidade ainda resistia. Quando chegou o sábado seguinte, a questão já não era se haveria relacionamento com as forças revolucionárias, mas como manter esse relacionamento sem violar as práticas sabáticas da instituição. Brown relata que alimentos poderiam ser preparados antecipadamente e colocados à disposição em outro local, enquanto os oficiais concordariam em manter seus homens fora do campus durante as horas do sábado. A administração, portanto, não estava tentando encerrar a cooperação, mas organizá-la de forma compatível com suas normas religiosas.
Esse é um detalhe de enorme valor documental. Quando uma instituição estabelece procedimentos para continuar fornecendo alimentação a uma força militar sem transgredir o sábado, já ultrapassou há muito a situação de um encontro casual. Existe planejamento, existe continuidade e existe interlocução com a estrutura de comando dos beneficiários. A preocupação administrativa deslocou-se para a forma pela qual o auxílio seria prestado, e não para sua existência. Mais adiante examinaremos detalhadamente esse arranjo, porque ele permite enxergar com rara clareza a lógica utilizada para separar aquilo que a administração considerava religiosamente permitido daquilo que considerava politicamente inaceitável.
A BATALHA TERMINA, A RELAÇÃO NÃO
Quando Santa Clara caiu e Batista deixou Cuba, o relacionamento construído durante a batalha não desapareceu com o último tiro. Pelo contrário, tornou-se imediatamente visível no modo como as novas autoridades passaram a reconhecer os adventistas. Brown relata que o novo governador de Las Villas fez questão de visitar o colégio e conversar com os jovens que o haviam servido durante aqueles dias, recordando as refeições que fizera no refeitório. O coral da instituição passou a ser solicitado em eventos públicos e chegou a cantar diante de Fidel Castro numa cerimônia especial na Universidade Central. Em Havana e no aeroporto, dirigentes adventistas ouviriam representantes do novo poder associar espontaneamente a denominação ao que havia acontecido em Santa Clara: conheciam os adventistas porque haviam comido no Antillian College durante a batalha.
Essa memória pós-batalha é essencial porque demonstra que a assistência não foi invisível para seus beneficiários. Ela foi lembrada, reconhecida e convertida em relação. Os homens que receberam comida sabiam quem a havia fornecido; oficiais conheciam a instituição; autoridades procuraram o colégio depois da vitória; dirigentes denominacionais perceberam que a identidade adventista já circulava entre pessoas ligadas ao novo governo. Aquilo que começara como auxílio no meio de uma batalha produzia um patrimônio de reconhecimento político cuja utilidade se tornaria ainda mais evidente nos anos seguintes, quando a Igreja precisasse dialogar com o Estado revolucionário sobre recrutamento militar, sábado e outras questões.
É também por isso que Santa Clara precisa ser tratada como a batalha final e não apenas como o pano de fundo de uma história denominacional. Se retirarmos a guerra da narrativa, a assistência do Antillian College parecerá uma sequência de gestos benevolentes realizados por uma escola diante de homens necessitados; quando recolocamos a batalha, percebemos que aqueles homens pertenciam à força que estava desmantelando militarmente um governo, que o colégio estava próximo ao quartel-general do comandante revolucionário, que a administração negociou diretamente com ele, que os recursos foram fornecidos enquanto a resistência continuava e que, imediatamente depois da vitória, os beneficiários passaram a reconhecer publicamente a instituição. O significado político não foi acrescentado posteriormente à assistência; estava inscrito no contexto em que ela ocorreu e foi reconhecido pelos próprios revolucionários.
Che havia chegado à região com algumas centenas de homens diante de milhares de soldados de Batista. Em poucos dias, o trem blindado estava capturado, as posições governamentais haviam cedido, milhares de soldados estavam fora de combate ou sob controle revolucionário e Batista fugia do país. Entre o início da ofensiva e a consolidação da vitória, o Antillian College entrou na infraestrutura que servia aos homens de Che. Essa é a escala que precisamos conservar quando abrirmos, no próximo capítulo, o relato de Walton J. Brown em toda a sua extensão. Não estaremos lendo simplesmente a memória de um educador sobre uma semana difícil, mas a prestação de contas de um administrador adventista cuja instituição esteve envolvida materialmente com a força vencedora durante os dias em que Santa Clara decidiu o destino da Revolução Cubana.
No capítulo seguinte, entraremos definitivamente no colégio. Acompanharemos a chegada dos revolucionários, os primeiros pedidos de comida, os feridos, os materiais fornecidos, a mobilização de professores e estudantes, as centenas de refeições, os veículos, a presença de homens no refeitório durante os ataques aéreos, a conversa de Brown e Schmidt com Che Guevara e o planejamento da alimentação para continuar depois da mudança política ocorrida em 1º de janeiro. Santa Clara já nos mostrou o tamanho da batalha; agora poderemos medir o tamanho da participação adventista dentro dela.
CAPÍTULO 3 — O ANTILLIAN COLLEGE DENTRO DA BATALHA
Quando a guerra chegou ao Antillian College, a instituição não estava isolada do restante da estrutura adventista nem administrativamente abandonada à própria sorte. Walton J. Brown era o presidente do colégio, C. E. Schmidt exercia a administração financeira, e o próprio relato publicado poucos meses depois na Review and Herald menciona a passagem de E. E. Cossentine, da Associação Geral, e V. E. Berry, da Divisão Interamericana, pela instituição num momento em que as condições de viagem já haviam sido afetadas pela destruição de pontes e pela expansão da guerra. Brown descreve um campus que continuava funcionando enquanto o conflito parecia distante, mas que progressivamente viu estradas interrompidas, comunicações prejudicadas, cidades vizinhas passando ao controle rebelde e estudantes impedidos de regressar para casa. Aproximadamente duzentos alunos permaneceram no colégio porque o transporte havia se tornado difícil ou impossível, de modo que a administração precisava cuidar simultaneamente da segurança da comunidade escolar e das demandas produzidas pela presença crescente das forças revolucionárias nas proximidades.
Essa informação administrativa é importante porque modifica desde o início a natureza do episódio. Não estamos mais acompanhando a decisão pessoal de um membro da igreja diante de guerrilheiros escondidos numa região rural, como acontecera com Argelio Rosabal em 1956. Estamos dentro de uma instituição pertencente à denominação, presidida por um administrador identificado publicamente pela própria Igreja, ligada à Divisão Interamericana e conhecida pela Associação Geral. Brown não escreveria sobre os acontecimentos décadas mais tarde, tentando reconstruí-los pela memória de terceiros; em 30 de abril de 1959, apenas quatro meses depois da batalha, colocaria seu relato diante dos leitores da Review and Herald, registrando aquilo que sua escola fizera, aquilo que recusara fazer e aquilo que acontecera depois da vitória. O documento completo estará no dossiê ao final deste livro, e sua leitura integral é indispensável porque ele não contém apenas episódios de guerra: contém a maneira pela qual um administrador adventista apresentou à própria denominação a participação de sua instituição nos acontecimentos que levaram os revolucionários ao poder.
QUANDO OS HOMENS DE CHE CHEGARAM
À medida que os combates de Santa Clara se intensificavam, os homens da Revolução começaram a aparecer diretamente no ambiente do colégio. A primeira mudança importante ocorreu quando a instituição deixou de ser apenas observadora da guerra e passou a responder a pedidos concretos dos revolucionários. Brown relata a chegada de homens que necessitavam de alimento e descreve a maneira como o refeitório foi progressivamente incorporado à situação. O que inicialmente podia ser administrado como atendimento a pequenos grupos rapidamente ganhou outra escala, porque a quantidade de pessoas procurando comida aumentou, enquanto a proximidade do quartel-general de Che na Universidade Central colocava o Antillian College numa posição geográfica especialmente útil para aqueles que participavam da ofensiva.
O próprio Che Guevara entrou diretamente nessa relação. Segundo Brown, o comandante solicitou que o colégio fornecesse alimentação a médicos, enfermeiros e outras pessoas ligadas às forças revolucionárias. A importância desse pedido ultrapassa a comida em si, porque demonstra que a instituição já era conhecida dentro da estrutura de comando rebelde como um lugar capaz de fornecer recursos. Che não apareceu casualmente no refeitório procurando uma refeição para si; houve uma solicitação dirigida à administração para atender pessoas necessárias à operação revolucionária. A partir desse momento, o relacionamento entre o colégio e os homens de Che não pode ser reduzido à soma de encontros individuais, porque existe uma demanda originada no comando e uma resposta institucional capaz de mobilizar cozinha, alimentos, funcionários e estudantes.
Brown descreve inicialmente cerca de cem homens sendo alimentados, enquanto grupos continuavam chegando. Em outros momentos, fala de centenas de revolucionários que passaram pela instituição procurando comida. A dimensão dessa operação exige que abandonemos definitivamente a imagem de um prato oferecido espontaneamente a um ferido. Uma cozinha capaz de preparar refeições para dezenas e depois centenas de homens depende de estoque, mão de obra, espaço, organização, decisões sobre distribuição e autorização para utilizar os recursos da escola. Quanto maior o número de beneficiários, mais difícil se torna separar a assistência da capacidade institucional que a tornava possível. O Antillian College possuía essa capacidade e a colocou em funcionamento enquanto os homens alimentados participavam da batalha que estava decidindo o destino de Santa Clara.
FERIDOS, LENÇÓIS, TRAVESSEIROS E BANDAGENS
A alimentação foi apenas uma parte da assistência. Feridos começaram a chegar, e os recursos do colégio passaram a ser utilizados para atendê-los. Brown menciona lençóis, travesseiros e bandagens retirados para auxiliar aqueles homens, enquanto professores e estudantes participavam dos primeiros socorros. Alguns dos feridos não sobreviveram. A presença da morte dentro dessa narrativa impede que a cena seja tratada como uma confraternização entre estudantes e barbudos recém-chegados da serra. A guerra estava produzindo corpos feridos, e a instituição adventista estava participando do esforço necessário para recebê-los e tratá-los.
Há uma diferença fundamental entre afirmar que o colégio não estava empunhando armas e concluir, a partir disso, que permanecia fora da guerra. O combate moderno sempre depende de uma retaguarda capaz de alimentar homens, receber feridos, fornecer tecidos, curativos, descanso, transporte e outros recursos que permitem à força combatente permanecer operacional. Quem atende um ferido pode fazê-lo por compaixão, mas o efeito material do atendimento existe independentemente da motivação religiosa: a vida é preservada, o sofrimento é reduzido e a capacidade humana da força beneficiada é sustentada. No Antillian College, esse atendimento não ocorreu num hospital neutro organizado pelos dois lados, mas numa instituição que, segundo o próprio presidente, recebeu repetidamente homens ligados à força revolucionária e estabeleceu com seus dirigentes um relacionamento suficientemente estruturado para discutir alimentação, sábado, princípios religiosos e limites políticos.
A extensão do auxílio ganha ainda mais peso quando percebemos a participação da comunidade escolar. Brown não descreve exclusivamente decisões tomadas dentro de seu gabinete; estudantes e professores aparecem servindo refeições, prestando primeiros socorros e convivendo diariamente com os revolucionários que chegavam ao campus. A instituição inteira precisou reorganizar parte de sua rotina para responder às circunstâncias. O relacionamento com a força vencedora tornou-se uma experiência compartilhada pela comunidade escolar e, depois da batalha, seria apresentado por Brown como uma oportunidade de testemunho diante de centenas de soldados e oficiais. Essa maneira de interpretar religiosamente o episódio não altera a materialidade daquilo que aconteceu: recursos adventistas sustentaram homens das forças revolucionárias enquanto a batalha continuava.
UMA COOPERAÇÃO QUE TAMBÉM ERA RECÍPROCA
O relacionamento não funcionou apenas numa direção. Brown registra que os rebeldes haviam fornecido ao colégio um pequeno gerador portátil para ser utilizado caso a guerra provocasse uma emergência elétrica. Quando uma explosão próxima à linha de energia deixou a instituição sem eletricidade, o equipamento permitiu que algumas funções essenciais continuassem operando. Esse detalhe merece atenção porque revela algo maior que gratidão pessoal. De um lado, o colégio fornecia comida, atendimento e materiais; de outro, os revolucionários disponibilizavam um equipamento útil à instituição. Já existia, portanto, uma forma de cooperação prática na qual ambos os lados reconheciam necessidades e respondiam a elas.
Essa reciprocidade ajuda a compreender por que a palavra parceria é adequada ao conjunto documental. Parceria não significa que as duas organizações compartilhassem todos os objetivos, nem exige uma declaração ideológica conjunta. Significa que existia uma relação operacional dentro da qual recursos, serviços e compromissos eram negociados e trocados. Os homens de Che sabiam que podiam procurar o colégio para alimentação e assistência; a escola sabia que podia tratar com os oficiais revolucionários sobre suas necessidades; um gerador foi colocado à disposição da instituição; regras de convivência foram discutidas; e, pouco depois, Brown e Schmidt procurariam diretamente Che para estabelecer os limites da cooperação. A relação já possuía continuidade suficiente para que esses entendimentos fossem possíveis.
BROWN E SCHMIDT VÃO ATÉ CHE GUEVARA
Um dos momentos centrais de toda a documentação acontece quando Walton Brown e C. E. Schmidt deixam o colégio e se dirigem à Universidade Central, onde Che Guevara havia instalado seu quartel-general. Essa reunião coloca frente a frente a administração adventista e o comandante da força que estava travando a batalha decisiva de Santa Clara. Brown registra que ele e Schmidt explicaram a Che os princípios da Igreja Adventista do Sétimo Dia e do Antillian College, afirmando que estavam dispostos a fazer tudo o que fosse possível para ajudar a preservar vidas, mas deixando claro que havia determinadas coisas que não poderiam fazer. A formulação é extraordinariamente importante porque demonstra que Brown não chegou diante de Guevara sem uma noção do que admitiria e do que recusaria; levou consigo uma política de cooperação delimitada.
A resposta de Che também merece ser colocada ao lado dos documentos de 1956. Segundo Brown, Guevara declarou que conhecia os adventistas do sétimo dia e que cuidaria pessoalmente para que nada interferisse nas convicções e práticas religiosas do colégio. Depois de acompanharmos as memórias do próprio Che e a entrevista de Argelio Rosabal, essa afirmação deixa de parecer uma cortesia protocolar sem antecedentes. Dois anos antes, Che já havia convivido com adventistas na Sierra Maestra, recebido deles aquilo que chamou de “apoio franco” e conhecido pessoalmente Rosabal, a quem identificou como adventista em suas próprias memórias. Em Santa Clara, quando Brown e Schmidt se apresentam como administradores adventistas, Che responde que já conhece aquele povo e aceita respeitar suas práticas.
A conversa estabelece um acordo operacional perfeitamente visível nos acontecimentos seguintes. A escola continuaria fazendo aquilo que seus administradores consideravam compatível com seus princípios, enquanto os revolucionários respeitariam as restrições apresentadas. A existência desse entendimento é comprovada justamente porque ele seria colocado à prova pouco depois. Quando representantes da força rebelde solicitaram um serviço que Brown considerou politicamente inadmissível, a administração recusou e os revolucionários aceitaram a negativa. Isso demonstra que a reunião com Che não foi uma conversa abstrata sobre religião, mas parte de uma relação concreta na qual direitos, limites e formas de cooperação eram reconhecidos por ambos os lados.
A GRÁFICA REVELA A LINHA VERMELHA
Na tarde de terça-feira, enquanto a cidade ainda enfrentava combates e interrupções de energia e água, representantes revolucionários procuraram o colégio com um pedido específico: queriam imprimir folhetos de propaganda para distribuição em Santa Clara. A gráfica da instituição possuía condições de realizar o trabalho, mas Brown recusou. Explicou que ela estava ligada a uma escola religiosa, que a instituição evitava imprimir materiais incompatíveis com seus princípios e que os adventistas não tomavam partido politicamente, procurando apenas fazer o bem. Brown chegou a dizer que os revolucionários poderiam operar a gráfica com seus próprios homens, tomando-a pela força, mas que a administração preferia que o material fosse produzido em outro lugar. Os representantes responderam que não desejavam agir pela força e posteriormente informaram que haviam encontrado outra gráfica.
Esse episódio permite enxergar a lógica institucional com uma precisão extraordinária. A administração sabia estabelecer fronteiras e possuía liberdade suficiente para recusá-las mesmo diante de homens armados que estavam vencendo a batalha. O argumento de que o colégio simplesmente fazia tudo aquilo que lhe era exigido pela força não sobrevive ao próprio testemunho de Brown, porque a gráfica demonstra que a negativa era possível. Quando a instituição considerou determinado pedido incompatível com seus princípios ou politicamente comprometedor, disse não, e a recusa foi respeitada. Ao mesmo tempo, alimentação, atendimento aos feridos, fornecimento de materiais e outras modalidades de auxílio continuaram ocorrendo.
A linha divisória da administração estava, portanto, em outro lugar. Brown distinguia a impressão de propaganda, que produziria uma identificação política formal e visível com a Revolução, das formas de assistência material que classificava como preservação de vidas e prática do bem. Essa distinção é precisamente o que torna o episódio tão importante para a tese deste livro. A administração não desconhecia a dimensão política da situação; ao contrário, demonstrou que sabia reconhecê-la e que possuía um critério para separar o que aceitaria do que recusaria. O problema histórico, então, não está em descobrir se havia um limite, porque Brown o documentou; está em compreender por que o limite permitia uma cooperação logística considerável com uma força revolucionária enquanto proibia apenas a utilização formal da estrutura adventista para produzir propaganda política.
A gráfica mostra, além disso, que os dirigentes do colégio estavam preocupados com a natureza institucional da ação. Brown não disse que o conteúdo era falso nem que discordava necessariamente da mensagem dos revolucionários; argumentou que a gráfica fazia parte de uma instituição religiosa e que a escola não tomava partido politicamente. O risco identificado estava na vinculação direta do nome e dos equipamentos do colégio à propaganda da força que combatia o governo. Alimentar revolucionários, atender seus feridos e fornecer suprimentos podia ser apresentado sob a categoria da assistência; imprimir os folhetos colocaria a instituição de maneira formal dentro da comunicação política da Revolução. A fronteira, portanto, separava duas formas diferentes de participação, e não participação de neutralidade absoluta.
O ATAQUE DE 31 DE DEZEMBRO
Enquanto essas decisões eram tomadas, a batalha continuava. Na manhã de 31 de dezembro, aeronaves governamentais ainda bombardeavam e metralhavam Santa Clara. Depois do almoço, Brown observou um Spitfire e três B-26 sobre a região, e às 14h47 uma explosão atingiu a propriedade próxima à entrada da universidade. Seguiu-se aproximadamente uma hora e quinze minutos de ataques de metralhadora. A precisão com que Brown registra o horário e a duração demonstra a intensidade com que aquele momento permaneceu em sua memória. Estudantes correram para os abrigos, professores procuraram proteção e, no refeitório, revolucionários que estavam comendo também precisaram escapar do ataque.
A presença desses homens dentro do refeitório durante a ofensiva aérea é uma das imagens documentais mais fortes de todo o episódio. Enquanto aviões do governo atacavam a região, combatentes pertencentes à força adversária estavam dentro de uma instituição adventista sendo alimentados. A guerra não estava apenas ao redor do Antillian College; havia penetrado sua rotina, seus dormitórios, sua cozinha e seus espaços de convivência. Brown continuava interpretando o papel da instituição como preservação da vida e testemunho religioso, mas a posição material do colégio dentro do conflito já estava estabelecida: homens de Che utilizavam seus recursos enquanto o governo ainda tentava impedir a vitória revolucionária.
Brown também relata que, apesar da violência do ataque, ninguém na instituição foi morto ou ferido e nem mesmo os animais sofreram danos. Posteriormente interpretaria essa preservação como proteção divina, construindo o artigo da Review and Herald ao redor da imagem de que a obra de Deus permanecera “sob Suas asas”. Para nossa investigação, entretanto, há outro aspecto igualmente significativo: a experiência que Brown apresentou como livramento divino ocorreu durante uma semana em que a instituição se tornou profundamente relacionada à presença revolucionária, recebeu seus homens, tratou seus feridos, alimentou seus contingentes e negociou diretamente com seu comandante.
1º DE JANEIRO: 180 MÉDICOS E SOLDADOS REVOLUCIONÁRIOS
Na madrugada de 1º de janeiro de 1959, a situação política mudou de maneira decisiva. Fulgencio Batista deixou Cuba, o governo entrou em colapso e as forças revolucionárias deixaram de ser apenas insurgentes empenhados em derrubar o poder para se tornarem a força que estava assumindo o controle do país. No Antillian College, porém, a cooperação material continuou sem interrupção. Brown registra que médicos e soldados revolucionários ainda estavam na instituição naquele dia e que cento e oitenta deles jantaram no colégio naquela noite.
O número merece atenção não como curiosidade, mas como medida da escala alcançada pela operação. Cento e oitenta homens numa única refeição exigem planejamento, cozinha, alimentos, serviço e estrutura. O episódio demonstra que aquilo que começara com pedidos de auxílio durante a batalha havia evoluído para uma capacidade organizada de alimentação de contingentes. Brown não fala com constrangimento sobre essa dimensão; apresenta-a aos leitores adventistas como parte da experiência extraordinária vivida pela escola. O mesmo documento que registra o apartidarismo diante da gráfica registra também, poucas páginas depois, o jantar oferecido aos homens da Revolução quando a vitória já estava consumada.
A cronologia torna a cena ainda mais significativa. Durante os dias anteriores, aqueles homens participavam de uma batalha contra as forças de Batista; em 1º de janeiro, o governo havia caído e cento e oitenta médicos e soldados revolucionários estavam jantando no colégio. A passagem da guerra para a vitória ocorreu praticamente dentro do mesmo relacionamento institucional. Brown e sua equipe não precisaram construir uma relação com os vencedores depois que souberam quem havia ganho; já estavam relacionados com eles durante a luta. Quando a Revolução se tornou governo, os homens do novo poder já conheciam a instituição por aquilo que ela havia feito durante os dias decisivos.
ATÉ O SÁBADO ENTROU NO ACERTO
O relato de Brown mostra que a administração esperava que a necessidade de alimentação continuasse durante o sábado seguinte. Em vez de encerrar o fornecimento de comida, elaborou um plano para mantê-lo sem comprometer a observância sabática. As refeições seriam preparadas antecipadamente na sexta-feira, embaladas e deixadas na universidade, enquanto os oficiais revolucionários haviam concordado em manter seus homens fora do campus durante as horas do sábado. No fim, o número de homens procurando alimentação diminuiu significativamente e apenas três apareceram naquele dia, mas o planejamento já havia sido feito.
Esse arranjo é uma das demonstrações mais claras de que a cooperação não dependia de improvisações momentâneas. A administração e os oficiais conversaram sobre o problema, reconheceram a prática adventista do sábado e encontraram uma solução que permitiria que a alimentação continuasse. A questão deixou de ser se os revolucionários seriam atendidos e passou a ser como seriam atendidos sem exigir trabalho incompatível com a observância religiosa da instituição. A mesma Revolução para a qual o colégio recusara imprimir propaganda possuía agora um entendimento com a administração sobre a maneira pela qual seus homens continuariam recebendo alimento durante o sábado.
Esse detalhe também nos permite compreender melhor a frase de Brown segundo a qual Che prometera respeitar as convicções adventistas. O respeito não permaneceu abstrato. Ele se transformou em procedimentos concretos. Os oficiais aceitariam manter os homens fora do campus; o colégio prepararia alimento antes do sábado; a assistência continuaria sem que a instituição considerasse ter violado sua norma religiosa. O relacionamento possuía, portanto, regras, reciprocidade e capacidade de adaptação. É difícil encontrar palavra mais adequada para descrever uma relação dessa natureza do que parceria.
DEPOIS DA VITÓRIA VIERAM OS “EFEITOS POSTERIORES”
Brown reservou parte de seu artigo para aquilo que chamou de “efeitos posteriores” daquela semana, e é justamente nessa seção que podemos observar como a assistência prestada durante a batalha se converteu rapidamente em reconhecimento. O novo governador de Las Villas fez questão de visitar o colégio e conversar com os estudantes que o haviam servido durante aqueles dias. Segundo Brown, o próprio governador recordou que havia feito várias refeições no refeitório. O vínculo estabelecido durante o combate, portanto, não desapareceu quando os tiros cessaram; reapareceu na visita da nova autoridade provincial à instituição que o havia alimentado.
O coral do Antillian College também passou a ser chamado para apresentações em espaços associados ao novo poder, incluindo o auditório municipal, o quartel do regimento e uma cerimônia especial na Universidade Central diante do próprio Fidel Castro. A música veio depois da comida, dos feridos, das negociações e da vitória, de modo que seria artificial isolar essas apresentações como simples atividades culturais desprovidas do contexto que lhes abriu as portas. O colégio havia adquirido visibilidade entre os vencedores, e essa visibilidade agora se manifestava em convites, visitas e reconhecimento público.
A memória da assistência chegou ainda mais alto dentro da estrutura denominacional. A. H. Roth, presidente da Divisão Interamericana, ao se identificar diante de um soldado rebelde em Havana, e C. L. Powers, secretário-tesoureiro da União das Antilhas, ao conversar com um inspetor da alfândega no aeroporto, ouviram respostas que ligavam imediatamente o nome adventista ao que acontecera em Santa Clara. Os representantes do novo poder diziam conhecer os adventistas porque haviam comido no Antillian College durante a batalha. Brown encerra essa parte do relato observando que muitas autoridades e outras pessoas estavam visitando a escola, demonstrando que aquilo que fora fornecido aos revolucionários já havia se transformado numa reputação reconhecível fora do campus.
A frase “conhecemos os adventistas” merece ser compreendida em toda a sua profundidade. Eles eram conhecidos não porque um tratado de teologia adventista tivesse chegado aos quartéis, mas porque os homens da Revolução haviam encontrado comida, atendimento e hospitalidade numa instituição adventista durante a batalha decisiva. O relacionamento foi construído por ações concretas e depois convertido em reconhecimento institucional. Quando dirigentes da Divisão Interamericana e da União das Antilhas passaram a encontrar representantes do novo regime, não precisavam começar do zero explicando quem eram; Santa Clara já havia produzido uma memória.
DA ASSISTÊNCIA AO CAPITAL DE RELACIONAMENTO
Essa transformação é essencial para compreendermos os capítulos seguintes. Uma relação construída durante uma guerra pode sobreviver à guerra e adquirir valor político quando um dos lados se transforma em governo. Foi exatamente isso que aconteceu em Cuba. O adventista que protegeu Che em 1956 reapareceria anos depois quando a denominação precisasse chegar até ele; a instituição que alimentou os homens revolucionários em 1958 passaria a ser lembrada por integrantes do novo aparato estatal; autoridades visitariam o campus; dirigentes adventistas encontrariam portas abertas pela memória do que acontecera em Santa Clara. A cumplicidade da fase revolucionária começava a produzir capital de relacionamento na fase governamental.
Esse processo não exige a existência de uma reunião secreta para ser percebido, porque seus efeitos estão registrados publicamente. Brown publicou o que fez a instituição, explicou os limites adotados, mostrou como Che respondeu, relatou o jantar dos cento e oitenta homens e terminou descrevendo os benefícios relacionais que começaram a surgir depois da vitória. O documento completo, colocado no apêndice deste livro, deverá ser lido como mais do que uma crônica de sobrevivência sob bombardeio. Ele funciona também como uma prestação de contas da administração do Antillian College, porque apresenta diante da Igreja aquilo que foi feito, aquilo que foi recusado, a maneira como os revolucionários respeitaram os limites estabelecidos e os resultados que apareceram depois.
Essa característica torna a publicação de 30 de abril de 1959 uma peça documental de primeira grandeza. Brown não escondeu a assistência nem apresentou desculpas por ela. Ao contrário, transformou-a em testemunho institucional para os leitores adventistas e associou o episódio à proteção divina. A denominação recebeu, portanto, poucos meses depois da vitória, um relato no qual seu administrador dizia ter alimentado revolucionários, atendido feridos, conversado com Che, negociado limites com ele, recusado propaganda política, preparado-se para continuar alimentando homens durante o sábado e depois colhido aquilo que chamou de “efeitos posteriores”. A história estava publicada dentro da própria Igreja.
É exatamente aqui que a contradição do apartidarismo ganha uma definição ainda mais concreta. A administração declarava não tomar partido politicamente e utilizou esse princípio para proteger sua gráfica, mas não o utilizou para interromper a assistência material aos homens que combatiam Batista. O apartidarismo funcionou como uma linha seletiva: proibiu a impressão de propaganda, mas permitiu alimentação, atendimento, suprimentos, relacionamento operacional e planejamento conjunto. A questão que surge desse documento não é se Brown possuía limites, porque possuía e os declarou; é descobrir de onde veio a política que dizia que esses eram os limites corretos.
Essa pergunta nos levará diretamente ao próximo capítulo. Brown e Schmidt não chegaram diante de Che como homens desorientados decidindo tudo pela primeira vez no meio do tiroteio; apresentaram princípios, declararam disposição de cooperar para preservar vidas e estabeleceram coisas que não fariam. Pouco antes, representantes da Associação Geral e da Divisão Interamericana haviam estado no colégio enquanto o conflito já se aproximava. Depois da batalha, Brown publicou uma narrativa detalhada na principal revista da denominação, e dirigentes de níveis superiores experimentaram pessoalmente o reconhecimento que a assistência produzira. O conjunto coloca diante de nós uma questão que não pode ser deixada na periferia da história: Brown improvisou sozinho a sua política de cooperação delimitada ou chegou a Santa Clara sabendo previamente até onde uma instituição adventista poderia ir?
O próximo capítulo examinará exatamente essa linha. Voltaremos à visita de E. E. Cossentine e V. E. Berry, à posição de Brown e Schmidt na estrutura denominacional, às palavras empregadas na conversa com Che, à recusa da gráfica e à publicação posterior do artigo na Review and Herald. A existência da parceria operacional com os revolucionários está documentada; agora precisamos reconstruir a arquitetura administrativa dentro da qual ela aconteceu e entender por que, justamente no momento em que a instituição dizia permanecer politicamente apartidária, seus administradores sabiam com tanta clareza aquilo que podiam oferecer aos homens da Revolução e o único tipo de participação que decidiram recusar.
CAPÍTULO 4 — QUEM DEFINIU OS LIMITES DA PARCERIA?
Depois de acompanhar os acontecimentos de Santa Clara e observar a atuação do Antillian College durante os dias decisivos da Revolução Cubana, surge uma pergunta que não pode ser evitada. De onde veio a política adotada por Walton J. Brown e C. E. Schmidt? Como dois administradores adventistas chegaram diante de Che Guevara com uma definição tão clara daquilo que estavam dispostos a fazer e daquilo que não fariam? A questão não é secundária. Brown não escreveu que precisou reunir uma comissão de emergência para decidir cada passo à medida que os acontecimentos se desenrolavam. Também não descreveu conflitos internos profundos sobre a conveniência de alimentar revolucionários, tratar seus feridos ou fornecer recursos. Pelo contrário, tudo indica que ele já possuía uma estrutura mental e institucional pronta para lidar com aquela situação. O único ponto que encontrou resistência foi o pedido para utilização da gráfica. Todo o restante foi enquadrado dentro de uma categoria considerada aceitável. Isso significa que a fronteira entre participação permitida e participação proibida já existia antes da chegada dos homens de Che ao campus.
Essa observação é ainda mais importante quando lembramos que Brown não era um pastor isolado numa igreja rural do interior cubano. Era presidente da principal instituição educacional adventista do país. Sua atuação envolvia patrimônio, estudantes, funcionários, recursos financeiros e representação institucional. Quando uma decisão desse porte é tomada dentro de uma organização altamente estruturada, raramente nasce apenas da improvisação pessoal de um administrador. O mais comum é que reflita hábitos administrativos, entendimentos acumulados e práticas que já circulam dentro da própria organização. A documentação disponível aponta exatamente nessa direção. Pouco antes da batalha final, representantes da Associação Geral e da Divisão Interamericana estiveram no Antillian College. Não estamos falando de dirigentes locais sem influência. Estamos falando de homens posicionados em níveis elevados da estrutura denominacional, visitando uma instituição localizada numa região que já se aproximava rapidamente do centro da guerra.
A VISITA DOS REPRESENTANTES DA ASSOCIAÇÃO GERAL
O próprio relato de Brown informa que E. E. Cossentine, representante da Associação Geral, e V. E. Berry, da Divisão Interamericana, estiveram no colégio quando a situação militar já se deteriorava rapidamente. Para chegar até ali, precisaram enfrentar desvios provocados pela destruição de pontes e pelas dificuldades geradas pela guerra. Isso significa que os dirigentes não visitaram um país tranquilo para depois serem surpreendidos retrospectivamente pelos acontecimentos. Eles chegaram a uma região onde a Revolução já avançava, onde estruturas estavam sendo destruídas e onde a possibilidade de confrontos maiores tornava-se cada vez mais evidente.
A importância dessa visita vai muito além da cortesia administrativa. Ela demonstra que a situação cubana não era desconhecida pela liderança superior da Igreja. Quando Santa Clara explodiu poucos dias depois, a administração do Antillian College não estava operando num vácuo informativo. A guerra havia sido observada. A aproximação do conflito era visível. A possibilidade de que a instituição precisasse lidar diretamente com os revolucionários não podia ser considerada inimaginável. Mesmo que nenhuma instrução formal tenha sido preservada ou publicada, a simples presença desses dirigentes elimina a imagem de uma escola esquecida pela estrutura adventista no momento mais crítico da história cubana.
É precisamente aqui que a publicação posterior do artigo de Brown se torna ainda mais significativa. O relato não foi escondido. Não foi arquivado. Não foi tratado como um erro administrativo que precisava desaparecer da memória institucional. Pelo contrário. Foi publicado oficialmente na principal revista mundial da denominação. Isso significa que, poucos meses depois dos acontecimentos, a própria Associação Geral considerou adequado colocar diante de seus leitores a narrativa completa da alimentação de revolucionários, do atendimento a feridos, da conversa com Che Guevara, da recusa da gráfica e dos relacionamentos que surgiram depois da vitória. Uma organização que considerasse essas ações incompatíveis com seus princípios dificilmente as transformaria em testemunho público internacional.
O QUE BROWN FEZ NÃO FOI ESCONDIDO
Esse aspecto merece ser enfatizado porque altera completamente a interpretação do episódio. Muitas vezes, quando uma instituição enfrenta uma situação embaraçosa, seus dirigentes procuram minimizar o ocorrido, restringir a circulação da informação ou tratá-la como exceção isolada. Nada disso aconteceu aqui. Brown escreveu. A revista publicou. A liderança permitiu a circulação mundial do relato. O texto permaneceu acessível durante décadas. Isso significa que aquilo que ocorreu em Santa Clara não foi percebido internamente como uma violação grave da política adventista. Pelo contrário. Foi apresentado como uma experiência positiva na qual Deus teria protegido a instituição enquanto ela prestava assistência aos revolucionários.
Essa constatação ajuda a compreender a tranquilidade com que Brown descreve os acontecimentos. Em nenhum momento ele escreve como alguém preocupado com possíveis sanções administrativas. Em nenhum momento tenta justificar longamente suas ações. Não pede desculpas. Não sugere arrependimento. Não apresenta a assistência como uma decisão lamentável tomada sob extrema pressão. Sua narrativa transmite exatamente a impressão oposta. Ele parece convencido de que agiu corretamente. Mais do que isso: parece convencido de que sua atuação representava adequadamente a posição que uma instituição adventista deveria assumir numa situação daquele tipo.
Essa segurança não surgiu do nada. Ela revela a existência de uma cultura administrativa já consolidada. Uma cultura capaz de distinguir entre participação política explícita e cooperação prática com forças governamentais ou revolucionárias. A gráfica cruzava a linha. A alimentação não cruzava. A propaganda era recusada. A assistência logística era aceita. O apoio formal à mensagem política era negado. O apoio material aos homens que carregavam essa mensagem era permitido. Brown não inventou essa distinção durante uma conversa improvisada com Che Guevara. Ele simplesmente a aplicou.
O APARTIDARISMO COMO MECANISMO SELETIVO
É exatamente aqui que o conceito adventista de apartidarismo revela sua função prática. Na teoria, a Igreja afirma permanecer distante das disputas políticas. Na prática, porém, a documentação mostra algo mais complexo. O apartidarismo não impede relacionamentos com governos, autoridades, militares ou movimentos políticos. O que ele impede é a identificação pública e formal da instituição com determinadas causas. O princípio funciona menos como uma barreira absoluta e mais como um sistema de gerenciamento de riscos institucionais.
A recusa da gráfica ilustra esse mecanismo com clareza quase didática. Brown não interrompeu o fornecimento de alimentos. Não expulsou os revolucionários do campus. Não encerrou o atendimento aos feridos. Não proibiu a circulação de homens ligados à Revolução nas dependências da instituição. O que recusou foi a utilização direta da infraestrutura adventista para produzir material político identificável. O problema não era ajudar os revolucionários. O problema era deixar registrado, em papel impresso, que a escola havia participado oficialmente da propaganda revolucionária.
Essa distinção ajuda a explicar inúmeros episódios posteriores da história adventista em diferentes países. A organização frequentemente evita vinculações partidárias explícitas enquanto preserva canais de relacionamento com governos, autoridades civis, estruturas militares e centros de poder. O princípio não é o isolamento político. É a manutenção da flexibilidade institucional. O resultado é que a Igreja consegue relacionar-se com regimes muito diferentes entre si sem assumir formalmente a responsabilidade política pelos projetos desses regimes.
Santa Clara oferece uma oportunidade rara de observar esse mecanismo em funcionamento porque a documentação é extraordinariamente detalhada. Brown praticamente descreve o sistema diante dos olhos do leitor. Ele mostra onde estava a linha. Mostra o que podia ser feito. Mostra o que não podia ser feito. Mostra como essa linha foi apresentada aos revolucionários. E mostra que os revolucionários a aceitaram.
CHE GUEVARA ACEITOU AS REGRAS ADVENTISTAS
Outro aspecto frequentemente ignorado é que a relação não foi construída apenas pelos adventistas. Os revolucionários também colaboraram para sua existência. Quando Brown e Schmidt explicaram suas restrições, Che não reagiu hostilmente. Não ameaçou o colégio. Não exigiu obediência irrestrita. Não confiscou recursos. Segundo o relato publicado pelo próprio Brown, comprometeu-se a respeitar as convicções religiosas da instituição.
Essa resposta revela que o relacionamento entre a Revolução e os adventistas já possuía uma história anterior. A figura de Argelio Rosabal aparece novamente em segundo plano. Quando Che afirmou conhecer os adventistas, não estava falando teoricamente. Ele havia convivido com eles na Sierra Maestra. Havia recebido auxílio deles. Havia testemunhado sua atuação. Os adventistas não eram desconhecidos que surgiam pela primeira vez diante do comandante revolucionário em dezembro de 1958. Existia uma memória acumulada. Existia confiança construída. Existia experiência anterior.
Essa continuidade ajuda a explicar por que a conversa entre Brown e Che parece ter ocorrido de forma tão natural. Ambos os lados sabiam quem estava diante deles. Ambos compreendiam que existia uma relação em andamento. Ambos enxergavam utilidade na manutenção dessa relação. O resultado foi um entendimento que permitiu ao colégio continuar prestando assistência sem abandonar as práticas religiosas que considerava essenciais.
UMA PARCERIA QUE SOBREVIVEU À VITÓRIA
Talvez a evidência mais forte de que estamos diante de algo maior que simples atos isolados de compaixão seja aquilo que aconteceu depois da vitória revolucionária. Se a assistência tivesse sido percebida apenas como um gesto circunstancial sem importância política, provavelmente desapareceria da memória dos vencedores poucos dias depois. O que ocorreu foi exatamente o contrário.
O novo governador de Las Villas visitou o colégio. Autoridades reconheceram publicamente os adventistas. Dirigentes denominacionais encontraram funcionários do novo regime que imediatamente associavam a Igreja ao auxílio recebido durante a batalha. O coral adventista passou a participar de eventos ligados às novas autoridades. A memória da assistência tornou-se um ativo relacional.
Isso não aconteceu porque alguém distribuiu tratados doutrinários durante os combates. Aconteceu porque os revolucionários lembravam quem os havia alimentado. Lembravam quem tratara seus feridos. Lembravam quem lhes fornecera recursos num momento crítico. Em outras palavras, lembravam quem estivera ao seu lado quando ainda lutavam pelo poder.
Essa transformação da assistência em capital político não foi um acidente. É uma consequência previsível de qualquer relacionamento construído durante períodos de conflito. Quando um grupo ajuda outro durante uma crise existencial, cria-se uma dívida de memória. Não necessariamente uma dívida formal. Mas uma lembrança persistente que influencia relacionamentos futuros. Foi exatamente isso que ocorreu entre a liderança revolucionária cubana e as instituições adventistas que participaram dos acontecimentos de Santa Clara.
O QUE O CAPÍTULO DE BROWN REALMENTE DOCUMENTA
Ao final da leitura do relato de Walton J. Brown, torna-se impossível sustentar a imagem de uma instituição completamente separada dos acontecimentos políticos que transformavam Cuba. O documento não registra neutralidade absoluta. Registra relacionamento. Não registra isolamento. Registra interação constante. Não registra distância. Registra proximidade operacional. E, acima de tudo, registra a existência de limites cuidadosamente definidos para que essa cooperação pudesse ocorrer sem comprometer formalmente a imagem pública da organização.
Por isso, a grande contribuição histórica do texto de Brown talvez não seja aquilo que ele pretendia demonstrar. Seu objetivo era testemunhar a proteção divina durante dias perigosos. Mas, para os pesquisadores que o leem décadas depois, o documento acaba revelando algo adicional: a forma como uma importante instituição adventista administrou sua relação com a força revolucionária que tomaria o poder em Cuba.
Essa constatação nos leva inevitavelmente ao próximo estágio da investigação. Se a parceria entre adventistas e revolucionários produziu capital político depois da vitória, como esse capital foi utilizado nos anos seguintes? O que aconteceu quando a Revolução deixou de ser movimento insurgente e se transformou em governo consolidado? Como os contatos construídos durante a guerra reapareceram nas negociações sobre serviço militar, liberdade religiosa, educação e sobrevivência institucional?
É exatamente essa transição que examinaremos no próximo capítulo. Porque a história não termina quando Batista foge de Cuba. Na verdade, é ali que começa a fase mais reveladora de toda essa relação. A cumplicidade construída durante a guerra logo passaria a produzir dividendos institucionais. E ninguém simboliza melhor essa passagem entre a fase revolucionária e a fase governamental do que o próprio adventista que primeiro abriu as portas para Che Guevara na Sierra Maestra: Argelio Rosabal.
CAPÍTULO 5 — 1963: QUANDO A PARCERIA VIROU ACESSO AO PODER
A fuga de Fulgencio Batista não encerrou a história que começou na Sierra Maestra e ganhou escala institucional em Santa Clara. A vitória revolucionária modificou completamente a posição dos personagens, mas não destruiu os vínculos que haviam sido construídos durante a guerra. O homem que em 1956 dependia de esconderijos, comida, roupas, proteção e caminhos seguros já não era um guerrilheiro perseguido. Ernesto Che Guevara havia se tornado uma das figuras centrais do novo Estado cubano. O adventista que o ajudara quando sobreviver era a prioridade continuava conhecido por ele. E, quando a própria Igreja Adventista precisou apresentar uma reivindicação ao governo revolucionário, foi justamente Argelio Rosabal que reapareceu como ponte entre a denominação e o poder.
Esse momento é decisivo porque desmonta a ideia de que toda a relação entre adventistas e revolucionários pode ser confinada ao argumento da emergência humanitária. Em 1963, Batista já havia desaparecido do cenário, a Revolução estava institucionalizada, Fidel Castro governava Cuba e Che Guevara atuava dentro do aparato estatal. A relação construída durante a luta armada não havia sido abandonada. Pelo contrário, tornou-se útil à própria Igreja. O que antes servira para proteger homens perseguidos agora servia para permitir que uma reivindicação denominacional chegasse diretamente a uma das figuras mais poderosas do novo governo.
O PROBLEMA DO SERVIÇO MILITAR OBRIGATÓRIO
A questão que levou a Igreja a procurar o governo envolvia o Serviço Militar Obrigatório. A implantação do sistema atingiu diretamente os estudantes adventistas e colocou a denominação diante de um conflito que ela conhecia bem: sua tradicional posição em favor do serviço não combatente, somada à observância do sábado, entrava em choque com uma estrutura militar que não fazia necessariamente as mesmas distinções. Segundo a reconstrução de Joseph Tahbaz, entre 110 estudantes do Antillian College em idade de recrutamento, 70 foram convocados. A instituição solicitou ao governo a liberação de parte deles para que o colégio pudesse continuar funcionando, e a maioria acabou retornando, mas o problema não estava resolvido porque ainda havia jovens adventistas submetidos a uma estrutura militar incompatível com algumas de suas práticas religiosas.
A resposta da denominação foi institucional. A Igreja Adventista criou uma comissão para preparar um memorando dirigido às autoridades. O documento explicava a posição adventista sobre serviço combatente e não combatente, a observância do sábado e a lealdade ao governo. A escolha do vocabulário já demonstra que não estamos diante de uma atitude de isolamento político, mas de negociação com o Estado. A Igreja precisava convencer o novo governo de que seus membros podiam ser leais ao regime sem violar suas convicções religiosas, e para isso organizou uma estratégia formal de representação.
A comissão escolheu quatro pastores para entregar o memorando. Entretanto, não enviou apenas os quatro. Acrescentou ao grupo justamente Argelio Rosabal. Essa decisão é uma das peças mais reveladoras de toda a documentação cubana porque demonstra que a proximidade anterior de Rosabal com Che não foi tratada como um constrangimento a ser ocultado, mas como um recurso a ser utilizado. A mesma relação que havia sido construída quando Che era um fugitivo tornou-se um ativo político quando a Igreja precisou alcançar Che no governo.
ROSABAL VOLTA A CHE GUEVARA
Rosabal entregou pessoalmente o memorando a Che. A cena possui uma força histórica extraordinária porque coloca novamente frente a frente os mesmos personagens, agora em posições completamente transformadas. Na Sierra Maestra, Che dependia de Rosabal e dos adventistas para sobreviver e escapar das tropas de Batista; em 1963, Rosabal aparecia diante de Che representando uma demanda que interessava diretamente à Igreja Adventista. O beneficiário da assistência clandestina era agora autoridade do Estado, e o antigo protetor tornava-se intermediário institucional.
Che reconheceu a importância desse contato. Em 28 de outubro de 1963, enviou uma carta acompanhando o memorando ao responsável pelo programa de Reforma Agrária, Carlos Rodríguez. No texto, identificou Rosabal como “o adventista de quem lhe falei” e indicou que Rodríguez saberia como contornar a situação legal ou encaminhá-la de modo favorável. A frase mostra que Rosabal não era apenas alguém que apareceu uma única vez no gabinete de Guevara. Che já havia falado dele a outra autoridade. O adventista fazia parte de sua memória pessoal e política.
Joseph Tahbaz interpreta o episódio de maneira direta: Che Guevara intercedeu em favor de seu amigo adventista Rosabal para que fosse criada uma exceção relacionada ao Serviço Militar Obrigatório. Essa intercessão não foi um favor abstrato concedido a uma denominação desconhecida. O próprio estudo liga a atuação de Che às relações que haviam sido construídas durante a Sierra Maestra. O vínculo da guerra transformou-se em acesso ao governo.
DA ASSISTÊNCIA CLANDESTINA À INTERCESSÃO GOVERNAMENTAL
A sequência inteira precisa ser observada como uma só história. Em 1956, adventistas protegem sobreviventes do Granma. Che registra que recebeu “apoio franco” de adventistas durante a guerra. Rosabal mobiliza uma rede de membros, fornece roupas, organiza esconderijos, transmite informações e participa da ocultação de armamento. Em 1958, o Antillian College presta assistência aos homens da Revolução durante Santa Clara. Depois da vitória, novas autoridades reconhecem publicamente os adventistas por aquilo que fizeram. Em 1963, quando a Igreja enfrenta um problema com o governo, cria uma comissão, redige um memorando, escolhe quatro pastores e leva junto justamente o homem que possuía acesso pessoal a Che Guevara. O documento chega ao antigo guerrilheiro, e o antigo guerrilheiro utiliza sua posição dentro do Estado para encaminhar a reivindicação.
Essa progressão demonstra como a cumplicidade da fase revolucionária produziu um capital relacional posteriormente utilizável. Durante a guerra, a relação ajudou a manter homens vivos e em movimento; depois da guerra, a memória daquela relação abriu portas. O que começou como apoio clandestino tornou-se vínculo, o vínculo tornou-se acesso e o acesso passou a ser utilizado institucionalmente. Essa transformação não é uma hipótese construída pelo livro. Ela aparece explicitamente na documentação examinada por Tahbaz.
TAHBAZ DÁ UM NOME À RELAÇÃO
Joseph Tahbaz, ao analisar a situação religiosa e política cubana nas décadas posteriores à Revolução, utiliza uma expressão que merece ocupar lugar central neste livro. Segundo ele, os adventistas do sétimo dia possuíam uma “relação singular com a Revolução”. A formulação já seria suficientemente importante, mas o pesquisador avança e explica sua origem. Por meio das relações estabelecidas por alguns adventistas com dirigentes revolucionários na Sierra Maestra, os adventistas desfrutaram de uma “relação privilegiada com o governo revolucionário”.
Essa frase conecta diretamente a fase guerrilheira à fase estatal. O privilégio não aparece como resultado de uma diplomacia iniciada depois de 1959. Tahbaz o relaciona aos vínculos formados durante a luta contra Batista. A assistência prestada na Sierra Maestra não desapareceu quando Fidel venceu; permaneceu como memória política e como canal de relacionamento. O pesquisador acrescenta que essa condição proporcionou aos adventistas maior flexibilidade em suas atividades religiosas do que a maioria das outras denominações e lhes permitiu apresentar diretamente suas posições aos dirigentes revolucionários.
A importância dessa conclusão é enorme porque elimina a necessidade de reconstruirmos artificialmente uma cadeia causal. O próprio pesquisador estabelece a sequência: relações na Sierra Maestra, relação privilegiada com o governo, maior flexibilidade e capacidade de apresentar reivindicações diretamente. A parceria revolucionária adquiriu consequência institucional.
QUANDO CHE PRECISOU DOS ADVENTISTAS, AS PORTAS SE ABRIRAM; QUANDO OS ADVENTISTAS PRECISARAM DE CHE, A PORTA CONTINUAVA ABERTA
A simetria dessa história é difícil de ignorar. Quando Che estava ferido, perseguido e buscando sobreviver, Rosabal e outros adventistas abriram casas, providenciaram alimento, organizaram deslocamentos e ajudaram a protegê-lo. Anos depois, quando a Igreja Adventista precisava apresentar uma reivindicação ao governo de Fidel Castro, Rosabal foi novamente colocado no centro da operação, agora para abrir a porta do gabinete de Che. A diferença é que o antigo guerrilheiro já não precisava fugir do Estado; ele próprio representava o Estado.
Essa mudança de posição torna ainda mais clara a natureza política da relação. Em 1956, a cumplicidade operava contra o governo de Batista. Em 1963, o mesmo vínculo funcionava dentro do governo revolucionário. Não houve ruptura histórica entre as duas fases; houve continuidade adaptada às novas circunstâncias. A parceria deixou de servir apenas à sobrevivência dos revolucionários e passou a servir também aos interesses institucionais da Igreja.
É exatamente por isso que a presença de Rosabal na comissão não pode ser tratada como detalhe biográfico. A Igreja poderia ter enviado apenas os quatro pastores. Não fez isso. Acrescentou o homem cuja relação pessoal com Che nascera durante a guerrilha. A escolha revela que o acesso de Rosabal era reconhecido como útil. A proximidade que poderia ter sido vista como politicamente comprometedora tornou-se, na prática, um recurso institucional.
A “RELAÇÃO PRIVILEGIADA” PRODUZIU RESULTADOS
Tahbaz vai além da simples existência do contato. Segundo sua análise, a relação privilegiada permitiu aos adventistas apresentar diretamente suas opiniões aos dirigentes revolucionários sobre o Serviço Militar Obrigatório e contribuiu para informar aquilo que posteriormente se tornaria política relacionada às UMAP, as Unidades Militares de Ajuda à Produção. Mesmo depois do encerramento desses campos, os adventistas receberam acomodações que permitiam formas de serviço militar compatíveis com suas convicções, enquanto outros grupos religiosos enfrentavam tratamento mais severo.
A relação, portanto, não produziu apenas visitas cordiais ou memória afetiva. Produziu capacidade de influência. A Igreja conseguiu chegar diretamente a dirigentes do regime, apresentar sua posição e obter tratamento mais flexível em determinadas situações. Essa vantagem aparece na documentação como consequência das relações construídas com os revolucionários durante a luta armada.
Esse dado muda completamente a leitura da história. A assistência prestada na Sierra Maestra não foi apenas um episódio moralmente interpretável segundo a intenção de seus participantes; gerou uma consequência política verificável. A rede de apoio construída quando os homens de Fidel eram perseguidos produziu um capital de relacionamento que permaneceu disponível quando esses homens assumiram o Estado.
ADVENTISTAS NÃO ERAM TRATADOS COMO TODOS OS OUTROS GRUPOS RELIGIOSOS
O estudo de Tahbaz também mostra que os adventistas ocupavam uma posição diferenciada no cenário religioso cubano. Ao comparar sua situação com a de outros grupos, especialmente as Testemunhas de Jeová, ele identifica maior flexibilidade em diversos momentos. Em determinados campos das UMAP, por exemplo, houve adventistas autorizados a compensar em outros dias o trabalho que recusavam fazer no sábado, enquanto em outros casos essa flexibilidade não ocorreu. O tratamento não foi uniforme, e houve situações de abuso, mas o padrão geral analisado por Tahbaz aponta para uma relação menos hostil do que aquela enfrentada por algumas outras minorias religiosas.
O pesquisador também observa que, fora dos campos, a presença adventista conseguiu manter uma vitalidade relativa enquanto outras comunidades religiosas sofreram perdas acentuadas. O número de ministros adventistas cresceu em determinados períodos, e a membresia continuou aumentando ao longo das décadas seguintes. Essa trajetória não significa ausência de conflitos com o Estado, mas mostra que os adventistas conseguiram preservar um espaço institucional que outras denominações nem sempre possuíam.
A explicação de Tahbaz volta continuamente ao mesmo ponto: os adventistas tinham uma relação singular com a Revolução. Essa singularidade tinha história. Começava na Sierra Maestra, passava pela assistência aos revolucionários, alcançava a relação pessoal de Rosabal com Che e reaparecia quando a Igreja precisava negociar com o governo.
A CUMPLICIDADE NÃO TERMINOU QUANDO OS COMUNISTAS CHEGARAM AO PODER
Esse capítulo é essencial porque impede que a história seja reconstruída posteriormente como uma relação que teria existido apenas contra Batista e desaparecido assim que o caráter comunista do novo governo se tornou evidente. Em 1963, a Revolução já estava consolidada, Fidel Castro governava e Che Guevara era autoridade estatal. A Igreja não rompeu com a relação construída durante a guerra; utilizou-a.
A comissão denominacional preparou um memorando que falava de lealdade ao governo. Quatro pastores foram escolhidos. Rosabal foi levado junto. O documento chegou diretamente a Che. Che intercedeu e o encaminhou. Tahbaz chamou o resultado de relação privilegiada. Esses fatos pertencem à mesma sequência histórica e demonstram que a aproximação adventista com os revolucionários não pode ser explicada apenas pela oposição moral a Batista. A relação sobreviveu à vitória e entrou no funcionamento do novo Estado.
Essa continuidade ajuda também a compreender por que a expressão parceria é mais adequada do que “ajuda”. Ajuda sugere um gesto que termina quando a necessidade imediata desaparece. Parceria descreve uma relação que produz memória, reciprocidade e possibilidade de utilização futura. Em Cuba, a documentação mostra exatamente isso: apoio durante a guerra, reconhecimento depois da vitória, acesso político no governo e relacionamento institucional nos anos seguintes.
DE 1956 A 1963, A LINHA NÃO FOI INTERROMPIDA
A importância desse registro está em acrescentar a voz de um pastor e pesquisador adventista a um conjunto de fontes independentes e complementares. Não existe aqui uma sequência que parta de iniciativas particulares e evolua posteriormente para envolvimento institucional. Os documentos registram diferentes dimensões da mesma história: Che Guevara testemunha o apoio adventista recebido; Argelio Rosabal descreve uma rede formada por adventistas e sua própria atuação como dirigente local; Walton J. Brown documenta diretamente a participação do Antillian College nos acontecimentos de Santa Clara; e Caleb Rosado registra retrospectivamente a simpatia pelos revolucionários e a “assistência clandestina”. Cada documento ilumina uma parte do quadro, e nenhum deles precisa ser transformado em etapa preliminar do seguinte.
Em 1958 e 1959, o Antillian College aparece ligado aos homens da força revolucionária em Santa Clara. Depois da vitória, autoridades reconhecem publicamente os adventistas e a assistência prestada. Em 1963, a própria Igreja cria uma comissão, redige um memorando e utiliza Rosabal para chegar a Che já instalado no governo. Tahbaz identifica o resultado dessa trajetória como uma relação privilegiada com o governo revolucionário.
Essa linha documental não depende de uma única testemunha nem de uma memória tardia isolada. Ela atravessa textos de Che Guevara, o relato de Argelio Rosabal, o artigo de Walton Brown, a análise de Caleb Rosado e o estudo acadêmico de Joseph Tahbaz. Cada fonte acrescenta uma camada e permite acompanhar a transformação da relação ao longo do tempo.
A importância de 1963 está justamente nisso. A parceria deixou de ser uma lembrança da guerra e tornou-se instrumento de negociação política. O adventista que havia protegido Che tornou-se acesso. O acesso tornou-se intercessão. A intercessão produziu maior flexibilidade para a denominação. A história havia atravessado a fronteira entre insurgência e governo.
A PRÓXIMA ETAPA: DA “RELAÇÃO PRIVILEGIADA” À “COLABORAÇÃO DE LONGA DATA”
Mas 1963 ainda não encerra a documentação. Décadas depois, a própria imprensa adventista voltaria a descrever o relacionamento entre a organização e as autoridades cubanas utilizando uma expressão que amplia ainda mais a cronologia: “colaboração de longa data”. A reportagem publicada em 2025 pela Adventist Review não começa a história no século XXI. Che Guevara aparece novamente em seu pano de fundo, e assuntos administrativos preservados pelo governo cubano remontam às anotações deixadas por ele.
O próximo capítulo acompanhará essa continuidade através das décadas. Veremos o Escritório de Assuntos Religiosos do Comitê Central do Partido Comunista de Cuba, dirigentes da Associação Geral e da Divisão Interamericana, presidentes da União Cubana, seminário teológico, construção de templos, licenças, alfândega, vistos e projetos desenvolvidos em conjunto. A história que começou com fugitivos escondidos na Sierra Maestra e passou por Santa Clara e pelo gabinete de Che não desapareceu. Transformou-se em uma relação institucional suficientemente duradoura para que, quase sete décadas depois, a própria Adventist Review a resumisse com uma expressão que encerra qualquer tentativa de tratá-la como uma sucessão de coincidências: colaboração de longa data.
CAPÍTULO 6 — “COLABORAÇÃO DE LONGA DATA”: A RELAÇÃO QUE CHEGOU A 2025
Se a história terminasse em 1963, já teríamos diante de nós uma sequência suficientemente clara: adventistas prestando apoio a revolucionários durante a luta contra Batista, Argelio Rosabal mobilizando uma rede de membros para proteger sobreviventes do Granma, Che Guevara reconhecendo o “apoio franco” recebido “durante todo o transcurso da guerra”, o Antillian College prestando assistência aos homens da Revolução durante Santa Clara, a administração do colégio negociando diretamente com Che os limites dessa cooperação e, alguns anos depois da vitória, a própria Igreja utilizando Rosabal como ponte para chegar ao antigo guerrilheiro já transformado em autoridade do Estado. Mas a documentação não termina ali. Décadas depois, a própria imprensa adventista voltaria ao relacionamento entre a Organização e o governo cubano e utilizaria uma expressão que, pela força de sua simplicidade, resume grande parte da trajetória reconstruída neste livro: “colaboração de longa data”.
A expressão aparece no título de uma reportagem publicada em 2025 pela Adventist Review sobre uma visita de autoridades cubanas ao Seminário Teológico Adventista de Cuba. O interesse desse documento não está apenas no encontro descrito naquele ano, mas na cronologia que a própria reportagem reconstrói. O texto coloca lado a lado representantes do governo cubano, dirigentes adventistas e organizações ligadas à denominação, apresentando uma relação desenvolvida ao longo de muitos anos em torno de assuntos concretos como funcionamento do seminário, construção e reforma de templos, importação de materiais, liberação alfandegária, vistos para voluntários e outros interesses institucionais. Mais importante ainda, quando a reportagem procura explicar as raízes de parte dessa relação, Che Guevara reaparece.
CHE GUEVARA AINDA ESTAVA NOS ARQUIVOS DO GOVERNO
A reportagem relata que Caridad Diego Bello, durante muitos anos responsável pelo Escritório de Assuntos Religiosos do Comitê Central do Partido Comunista de Cuba, encontrou ao assumir sua função uma lista de questões religiosas pendentes que remontava a anotações deixadas por Che Guevara. Entre esses assuntos estava a situação relacionada à possibilidade de os adventistas manterem uma instituição destinada à formação de ministros. Esse detalhe é de enorme importância porque demonstra que o nome adventista continuava ligado, nos próprios registros administrativos do Estado cubano, a questões que atravessavam a memória do período em que Che ainda ocupava funções governamentais.
O Che que aparece aqui já não é o homem ferido da Sierra Maestra nem o comandante que negociava com Walton Brown durante Santa Clara. Também não é simplesmente a autoridade que recebeu de Argelio Rosabal o memorando sobre o Serviço Militar Obrigatório em 1963. Ele aparece agora como parte da memória administrativa do próprio Estado cubano, ligado a assuntos que continuariam sendo tratados entre o governo e a Igreja muitos anos depois de sua morte. A relação que começara pessoalmente entre adventistas e revolucionários havia adquirido duração institucional.
Essa continuidade documental produz um efeito inevitável quando colocamos os capítulos em sequência. Em 1956, Che precisava dos adventistas para sobreviver e continuar se movimentando. Em 1958, seus homens encontraram no Antillian College alimentação, atendimento e recursos durante a batalha decisiva. Em 1963, a Igreja precisava chegar a Che para defender interesses de seus membros diante do Serviço Militar Obrigatório. Décadas depois, questões administrativas relacionadas aos adventistas ainda apareciam vinculadas às anotações deixadas por ele. O personagem muda de posição em cada etapa, mas a linha histórica permanece reconhecível.
O ESCRITÓRIO DE ASSUNTOS RELIGIOSOS DO PARTIDO COMUNISTA
A instituição governamental que aparece na reportagem de 2025 merece atenção particular. O Escritório de Assuntos Religiosos estava ligado ao Comitê Central do Partido Comunista de Cuba, o núcleo político do regime. Era através dessa estrutura que o Estado administrava grande parte de suas relações com as organizações religiosas. Portanto, quando dirigentes adventistas negociavam licenças, autorizações, propriedades, seminário, entrada de materiais e presença de voluntários estrangeiros, não estavam lidando com uma repartição despolitizada situada à margem do sistema cubano; estavam tratando com a estrutura do próprio Partido Comunista responsável pelas relações do governo com as religiões.
A reportagem da Adventist Review apresenta esse relacionamento de maneira positiva e destaca a comunicação estabelecida entre os dois lados ao longo dos anos. Autoridades cubanas e líderes adventistas aparecem conversando sobre problemas administrativos e procurando soluções para dificuldades que afetavam diretamente a missão denominacional. A linguagem é de cooperação, diálogo e continuidade. O relacionamento não é descrito como encontro ocasional entre desconhecidos, mas como uma interação cultivada através de diferentes administrações e diferentes projetos.
Essa descrição é especialmente significativa quando comparada ao discurso do apartidarismo. A Organização que estabelece limites rigorosos para a participação política de seus membros demonstra, novamente, enorme capacidade de negociação quando estão em jogo seus interesses institucionais. O Partido Comunista pode representar uma ideologia incompatível com pontos fundamentais da teologia adventista, mas isso não impede a construção de canais duradouros de relacionamento quando esses canais ajudam a preservar seminários, propriedades, vistos, projetos missionários e funcionamento denominacional. A política que aparece proibida como identidade pública para o membro reaparece como diplomacia institucional quando a Organização precisa lidar com o poder.
DO QUARTEL-GENERAL DE CHE À MESA DE NEGOCIAÇÃO
A distância entre dezembro de 1958 e abril de 2025 é enorme, mas a lógica relacional observada nos documentos permanece surpreendentemente estável. Em Santa Clara, Brown e Schmidt foram até o quartel-general de Che para explicar aquilo que a instituição podia fazer e aquilo que se recusava a fazer. O comandante ouviu, reconheceu que conhecia os adventistas e prometeu respeitar suas práticas. Em 1963, a Igreja enviou um memorando para defender seus interesses diante do Serviço Militar Obrigatório, utilizando Rosabal para alcançar novamente Che. Nas décadas posteriores, dirigentes adventistas continuaram levando reivindicações às autoridades responsáveis pelos assuntos religiosos, negociando condições necessárias para o funcionamento da denominação em Cuba.
O que muda é a formalidade do relacionamento. A conversa improvisada em meio à batalha transforma-se, com o passar do tempo, numa diplomacia religiosa permanente. A necessidade de proteger o sábado, manter escolas, formar ministros, construir templos, importar materiais e receber voluntários exige interlocução contínua com um Estado que controla autorizações fundamentais para cada uma dessas atividades. A Igreja aprende a operar dentro dessa estrutura, enquanto o governo aprende a reconhecer dirigentes adventistas como interlocutores institucionais.
A palavra parceria adquire aqui uma dimensão diferente daquela observada na Sierra Maestra, mas não perde sua continuidade histórica. Na guerra, a parceria era operacional e envolvia sobrevivência, abrigo, alimento e proteção. Em Santa Clara, ganhou escala institucional e logística. Depois da vitória, tornou-se canal de acesso ao governo. Décadas mais tarde, aparece como relacionamento administrativo duradouro entre autoridades cubanas e estruturas adventistas. As formas mudam porque o contexto muda, mas a característica fundamental permanece: a capacidade de ambos os lados de reconhecer benefícios na manutenção da relação.
O SEMINÁRIO TEOLÓGICO ADVENTISTA
A existência e o funcionamento do seminário teológico constituem um dos exemplos mais importantes dessa relação. Uma denominação que pretende formar seus ministros precisa de estrutura educacional, autorização, espaço físico, professores, materiais e capacidade de manter atividades regulares. Num sistema político como o cubano, em que o Estado possui poder significativo sobre instituições e propriedades religiosas, cada uma dessas necessidades pode transformar-se em objeto de negociação.
O fato de a Adventist Review recordar questões relacionadas ao seminário ao reconstruir a história dos contatos com as autoridades mostra que a relação produziu resultados concretos. A formação de pastores adventistas dentro de Cuba dependia não apenas da capacidade religiosa da denominação, mas também da possibilidade de manter uma instituição reconhecida e funcional dentro das regras estabelecidas pelo governo. A diplomacia construída ao longo dos anos permitiu que essas questões fossem tratadas diretamente.
Esse é um ponto essencial para compreender a natureza dos interesses envolvidos. Não estamos discutindo apenas simpatia pessoal entre indivíduos. Uma instituição religiosa precisa sobreviver materialmente. Precisa de prédios, licenças, importações, registros, transporte, comunicação e formação de seus dirigentes. Tudo isso passa inevitavelmente pelo poder político quando o Estado controla grande parte desses recursos. A Organização que proclama apartidarismo precisa, portanto, manter relações políticas suficientemente eficazes para garantir sua própria continuidade institucional.
TEMPLOS, ALFÂNDEGA, MATERIAIS E VISTOS
A reportagem de 2025 amplia esse quadro ao mencionar projetos de construção e reforma de templos, liberação de materiais na alfândega e obtenção de vistos para voluntários. Cada um desses itens pode parecer meramente burocrático quando observado isoladamente, mas juntos demonstram a profundidade do relacionamento necessário para que uma organização religiosa internacional consiga operar em Cuba. Materiais de construção precisam entrar no país. Equipamentos precisam ser liberados. Voluntários estrangeiros precisam receber autorização. Projetos precisam ser aprovados. Cada etapa exige interlocução com estruturas governamentais.
É nesse ambiente que aparecem também organizações de apoio vinculadas ao universo adventista, especialmente a Maranatha Volunteers International, atuando em projetos de construção e manutenção. O relacionamento deixa, portanto, de envolver apenas a administração eclesiástica cubana e alcança estruturas internacionais que dependem da cooperação das autoridades para realizar suas atividades. A presença de representantes do governo em eventos ligados ao seminário e aos projetos demonstra que a relação já possui uma dimensão institucional reconhecida publicamente pelos dois lados.
A linguagem utilizada pelos participantes do encontro de 2025 reforça essa interpretação. Fala-se em relacionamento mantido durante muitos anos, comunicação aberta e disposição para trabalhar conjuntamente na solução de problemas. Não é a linguagem de duas instituições que apenas toleram a existência uma da outra. É a linguagem de atores que aprenderam a negociar e a preservar canais de cooperação.
“COLABORAÇÃO DE LONGA DATA”
Por isso o título da reportagem possui tanto peso. A Adventist Review escolheu resumir a visita utilizando a expressão “colaboração de longa data”. Não se trata de uma caracterização produzida por um crítico externo, nem de uma expressão criada neste livro para intensificar artificialmente a relação. É a maneira pela qual a própria publicação adventista descreveu a história de cooperação entre autoridades cubanas, a organização adventista e seus ministérios de apoio.
A força da expressão está principalmente na palavra “longa”. Ela exige passado. Uma colaboração de longa data não começa no dia da visita descrita pela reportagem. O próprio texto precisa voltar à história para explicá-la e, quando faz isso, encontra novamente Che Guevara. O homem que aparece na primeira fase de nossa investigação reaparece, portanto, também na memória institucional utilizada para explicar relações mantidas décadas depois.
Quando colocamos “apoio franco”, “assistência clandestina”, “relação privilegiada” e “colaboração de longa data” lado a lado, percebemos que não estamos diante de quatro expressões inventadas por este livro. Elas pertencem a fontes diferentes e foram produzidas em épocas diferentes. Che descreveu o apoio recebido durante a guerra. Caleb Rosado caracterizou a atuação de adventistas como assistência clandestina. Joseph Tahbaz descreveu uma relação privilegiada com o governo revolucionário. A Adventist Review utilizou a expressão colaboração de longa data. A progressão vocabular acompanha a progressão histórica.
O QUE COMEÇOU NA GUERRA SOBREVIVEU À GUERRA
A história cubana torna-se particularmente reveladora quando percebemos que a relação atravessou fases políticas profundamente diferentes. Começou enquanto Batista ainda governava e os revolucionários eram perseguidos. Continuou durante a batalha que destruiu a capacidade militar do regime. Sobreviveu à chegada de Fidel Castro ao poder. Reapareceu quando Che Guevara já exercia autoridade governamental. Persistiu durante décadas de comunismo institucionalizado. E chegou ao século XXI como relacionamento estabelecido entre uma denominação mundial e estruturas oficiais de um Estado controlado pelo Partido Comunista.
Essa continuidade impede que a história seja encerrada dentro de qualquer explicação simplificadora. Não foi apenas oposição a Batista, porque a relação continuou depois de Batista. Não foi apenas caridade prestada a homens feridos, porque a relação tornou-se acesso político. Não foi apenas amizade entre Rosabal e Che, porque instituições adventistas passaram a negociar com estruturas governamentais. Não foi apenas uma lembrança distante da Revolução, porque em 2025 a própria imprensa denominacional ainda descrevia muitos anos de colaboração.
A parceria adaptou-se à mudança de regime. Quando os revolucionários eram fracos, adventistas ajudaram alguns deles a sobreviver. Quando os revolucionários estavam vencendo, uma instituição adventista tornou-se parte da estrutura que os alimentava e atendia. Quando eles assumiram o governo, os contatos construídos anteriormente abriram portas. Quando o regime se consolidou, o relacionamento tornou-se diplomacia institucional. Quando novas gerações de dirigentes assumiram ambos os lados, a cooperação já fazia parte da memória administrativa.
O PARTIDO COMUNISTA E A ORGANIZAÇÃO ADVENTISTA À MESMA MESA
A cena de 2025 possui um significado simbólico difícil de ignorar. Representantes de uma organização religiosa mundial recebem autoridades responsáveis pelos assuntos religiosos do Partido Comunista de Cuba dentro de uma instituição teológica adventista. Conversam sobre décadas de relacionamento, projetos, dificuldades, licenças e cooperação. Essa fotografia encerra provisoriamente uma história que começou em circunstâncias completamente diferentes, quando homens de Fidel atravessavam montanhas tentando sobreviver depois do desembarque do Granma.
Entre uma cena e outra passaram-se governos, crises, perseguições religiosas, mudanças na política cubana, transformações internas na própria Igreja e várias gerações de administradores. Mesmo assim, o relacionamento permaneceu. Isso não significa ausência de conflitos, porque eles existiram e atingiram diretamente os adventistas. Significa algo historicamente mais específico e mais importante para nossa investigação: os conflitos não destruíram a capacidade institucional de negociação. A Igreja continuou procurando o governo e o governo continuou reconhecendo a Igreja como interlocutora.
Essa habilidade pode ser compreendida como pragmatismo administrativo, mas o nome escolhido para este livro nos obriga a observá-la à luz da doutrina do apartidarismo. A mesma Organização que pede aos membros extremo cuidado para não identificar a Igreja com posições políticas consegue construir, preservar e utilizar relações com estruturas de poder fortemente ideologizadas quando seus interesses institucionais dependem disso. Em Cuba, essa capacidade não nasceu décadas depois da Revolução. Os documentos mostram sua formação dentro da própria luta que colocou os comunistas no poder.
AOS MEMBROS, O APARTIDARISMO; À ORGANIZAÇÃO, A DIPLOMACIA
Chegamos assim ao ponto em que a contradição central deste livro começa a aparecer em toda a sua dimensão. A regra apresentada ao membro comum é simples: preserve a unidade da Igreja, não confunda fé com política, não transforme sua identidade adventista em instrumento partidário e evite comprometer a denominação com movimentos ou candidatos. No plano institucional, porém, a história cubana mostra uma organização capaz de administrar relações políticas de altíssimo nível, negociar diretamente com revolucionários armados, conversar com comandantes durante uma guerra, utilizar contatos pessoais construídos na clandestinidade, apresentar reivindicações ao Estado e desenvolver décadas de diálogo com estruturas do Partido Comunista.
Não se trata de condenar a existência de diplomacia institucional. O problema histórico é a assimetria. Aquilo que aparece como perigo espiritual quando praticado pelo membro transforma-se em habilidade administrativa quando praticado pela Organização. O fiel precisa manter distância; o administrador precisa manter acesso. O membro recebe a linguagem do apartidarismo; a instituição conserva a capacidade de negociar com quem estiver no poder.
Cuba torna essa assimetria especialmente visível porque os documentos permitem acompanhar todas as etapas. O membro aparece na Sierra Maestra. O dirigente local aparece organizando a rede. A instituição aparece em Santa Clara. O administrador aparece diante de Che. A comissão denominacional aparece em 1963. O relacionamento privilegiado aparece no estudo de Tahbaz. E, finalmente, a própria imprensa adventista utiliza a expressão colaboração de longa data para descrever a relação institucional preservada através das décadas.
A LINHA DOCUMENTAL ESTÁ COMPLETA
Podemos agora olhar para trás e enxergar uma cadeia histórica contínua. Che Guevara registrou que adventistas lhe deram apoio franco durante a guerra. Argelio Rosabal explicou como uma rede de adventistas foi mobilizada para proteger sobreviventes, fornecer roupas, alimentação, esconderijos e outras formas de assistência, chegando inclusive à ocultação de armamento. Caleb Rosado reconheceu posteriormente a existência de simpatia pelos revolucionários e de assistência clandestina. Walton J. Brown documentou o Antillian College alimentando e atendendo homens da força revolucionária durante Santa Clara, negociando diretamente com Che e colhendo reconhecimento depois da vitória. Joseph Tahbaz mostrou que os contatos formados durante a Sierra Maestra produziram uma relação privilegiada com o governo revolucionário e que essa relação foi utilizada quando a Igreja precisou chegar ao poder. Finalmente, a Adventist Review levou a cronologia até 2025 e chamou o relacionamento entre autoridades cubanas e estruturas adventistas de colaboração de longa data.
Vistos isoladamente, cada documento poderia ser reduzido a uma história particular. Colocados cronologicamente, revelam uma estrutura. O apoio tornou-se relacionamento, o relacionamento tornou-se acesso, o acesso tornou-se diplomacia e a diplomacia tornou-se colaboração de longa duração. É essa progressão que dá conteúdo histórico às palavras cumplicidade e parceria utilizadas no título deste livro.
O próximo passo será voltar ao documento que ocupa uma posição singular dentro dessa cadeia: o artigo de Walton J. Brown publicado poucos meses depois da batalha de Santa Clara. Até aqui utilizamos seu conteúdo para reconstruir os acontecimentos. Agora precisamos examiná-lo como ato administrativo e editorial, porque a publicação do relato diante da denominação mundial pode ser lida também como uma prestação de contas: Brown registrou aquilo que a instituição fizera, aquilo que recusara fazer, os limites que estabelecera, a resposta de Che e os benefícios relacionais que apareceram depois. Se queremos compreender como a parceria de Santa Clara foi absorvida pela estrutura adventista e convertida em memória institucional positiva, precisamos observar não apenas o que Brown contou, mas por que era importante contar tudo aquilo à Igreja depois que Fidel Castro já havia vencido.
CAPÍTULO 7 — WALTON J. BROWN PRESTA CONTAS: O QUE A IGREJA FEZ, O QUE RECUSOU E O QUE RECEBEU DEPOIS
Quatro meses depois da batalha de Santa Clara, quando Fulgencio Batista já estava fora de Cuba, Fidel Castro comandava o processo revolucionário e os acontecimentos de dezembro de 1958 podiam ser observados à luz da vitória, Walton J. Brown decidiu registrar publicamente aquilo que acontecera no Antillian College. O texto apareceu em 30 de abril de 1959 na Review and Herald, uma das principais publicações oficiais da Igreja Adventista do Sétimo Dia, sob um título que interpretava toda a experiência pela perspectiva da proteção divina. Para Brown, o centro espiritual da narrativa estava na preservação da instituição durante os combates, mas o documento adquiriu para esta investigação uma importância ainda maior porque seu autor registrou, diante da própria denominação, a sequência das decisões tomadas pela administração enquanto os homens de Che Guevara combatiam em Santa Clara, especificando a assistência fornecida, os limites impostos, a negociação direta com o comando revolucionário e os resultados que a instituição começou a colher imediatamente depois da vitória.
O artigo precisa ser lido, portanto, em duas dimensões inseparáveis. A primeira é aquela pretendida explicitamente pelo autor: Brown queria contar aos adventistas como a escola atravessara dias de guerra e como, em sua interpretação religiosa, fora protegida em meio a bombardeios, metralhamentos, interrupções de energia, dificuldades de transporte e presença de combatentes. A segunda dimensão aparece quando reconstruímos cronologicamente tudo aquilo que ele próprio decidiu incluir no relato, porque Brown não se limitou a testemunhar que ninguém morrera no campus; informou quem procurou a instituição, quais recursos foram fornecidos, quantas pessoas foram alimentadas, como os feridos foram atendidos, por que uma solicitação política foi recusada, o que ele e Schmidt disseram pessoalmente a Che Guevara e como autoridades do novo regime passaram posteriormente a reconhecer os adventistas. Lido dessa maneira, o artigo funciona também como uma prestação pública de contas da administração do Antillian College sobre sua conduta durante a batalha.
UMA PRESTAÇÃO DE CONTAS PUBLICADA DEPOIS DA VITÓRIA
A data da publicação torna essa característica especialmente importante. Brown não escreveu durante os combates, quando ninguém sabia exatamente como terminaria a guerra, nem publicou o texto muitos anos depois, quando a memória poderia transformar acontecimentos em lenda. O artigo surgiu quando os fatos ainda eram recentes e quando a vitória revolucionária já estava consumada. A administração denominacional podia avaliar o que havia acontecido, os dirigentes da Divisão Interamericana conheciam a situação cubana e a Associação Geral recebia através de sua própria revista um relato detalhado da atuação de uma de suas instituições. Brown, portanto, escreveu dentro de uma estrutura eclesiástica que possuía condições de reconhecer perfeitamente o significado político dos acontecimentos descritos.
Essa circunstância ajuda a explicar por que o documento merece ser reproduzido integralmente no dossiê ao final deste livro. O leitor poderá observar que Brown não escreve como um administrador tentando esconder uma transgressão, minimizar uma decisão controvertida ou afastar de si a responsabilidade pelo que ocorrera. Ele descreve a atuação do colégio de maneira positiva, apresenta a cooperação com os revolucionários como parte da missão cristã de preservar vidas e associa o conjunto à proteção divina. A assistência não aparece como segredo administrativo, mas como experiência digna de ser comunicada aos adventistas. Aquilo que aconteceu durante Santa Clara entrou, poucos meses depois, na memória pública da denominação pela voz do próprio presidente da instituição envolvida.
Essa publicidade possui enorme importância para nossa investigação porque demonstra que a parceria material com os homens da Revolução não foi posteriormente tratada como comportamento incompatível com a identidade adventista. Brown informa que a escola forneceu alimentação, recebeu feridos, disponibilizou materiais e manteve contato com o comando revolucionário, ao mesmo tempo em que explica onde a administração estabeleceu sua linha de recusa. Ao publicar essa sequência, oferece à Igreja uma espécie de mapa das decisões tomadas: cooperação humanitária e logística foi aceita, identificação política formal através da propaganda foi recusada e as práticas religiosas da instituição foram negociadas diretamente com Che para que a assistência pudesse continuar dentro dos limites definidos pelos administradores.
BROWN CONTA O QUE A INSTITUIÇÃO FEZ
A prestação de contas começa a ganhar corpo quando Brown descreve a aproximação progressiva da guerra. O colégio estava inserido numa região em que pontes haviam sido destruídas, deslocamentos estavam comprometidos e a ofensiva revolucionária avançava. Estudantes que normalmente deixariam o campus permaneceram na instituição porque viajar se tornara perigoso ou impossível. A comunidade escolar acompanhava o movimento de aeronaves e percebia que a batalha se aproximava. Quando os revolucionários começaram a procurar a escola, portanto, a administração conhecia a natureza do conflito e sabia que aqueles homens pertenciam à força que estava tentando derrotar o governo de Batista.
Brown registra que a demanda por alimentação cresceu rapidamente e que a cozinha da instituição passou a servir grupos ligados às forças revolucionárias. O pedido de Che para que fossem alimentados médicos, enfermeiros e outras pessoas reforçou o caráter organizado da relação, porque o comandante identificou no colégio uma estrutura capaz de atender necessidades concretas de sua força. Em seguida vieram feridos, materiais para atendimento, lençóis, travesseiros, bandagens e primeiros socorros, enquanto professores e estudantes participavam do trabalho. A narrativa não apresenta essas ações como imposições obtidas pela ameaça das armas; apresenta-as como aquilo que a administração decidiu fazer dentro de sua compreensão de serviço cristão.
Esse ponto é essencial porque a própria documentação fornece o elemento necessário para distinguir cooperação de coerção. Quando a administração recebeu posteriormente um pedido que considerou inaceitável, recusou-o, e os revolucionários aceitaram a recusa. O colégio possuía, portanto, margem de decisão. Brown podia dizer sim e podia dizer não, e foi exatamente isso que fez em momentos diferentes. A existência dessa capacidade seletiva demonstra que a assistência material não deve ser descrita como resultado automático de ocupação ou violência, pois o administrador escolheu quais solicitações seriam atendidas e quais ultrapassariam a fronteira que havia estabelecido.
A CONVERSA COM CHE EXPLICA A POLÍTICA
O encontro de Brown e Schmidt com Che Guevara ocupa o centro lógico dessa prestação de contas porque revela a política que orientava a administração. Os dois dirigentes foram ao quartel-general revolucionário instalado na Universidade Central e explicaram os princípios adventistas e os princípios do colégio, declarando que estavam dispostos a fazer tudo aquilo que estivesse ao alcance deles para preservar vidas, mas que determinadas coisas não poderiam fazer. Brown registra que Che respondeu afirmando conhecer os adventistas e prometendo respeitar suas convicções e práticas. A conversa estabelece, assim, uma relação formal de reconhecimento: os administradores apresentam condições, o comandante as aceita e a cooperação continua.
O conteúdo da declaração de Brown merece ser observado cuidadosamente. Ele não disse a Che que uma instituição apartidária não poderia manter qualquer relacionamento com uma força revolucionária empenhada em derrubar o governo. Também não afirmou que a escola permaneceria completamente neutra e recusaria recursos a todos os combatentes. Sua formulação foi diferente: fariam tudo o que pudessem para preservar vidas, mas existiam determinadas coisas que não fariam. Essa estrutura permite cooperação ampla dentro de uma categoria considerada humanitária e reserva a recusa para ações interpretadas como incompatíveis com os princípios institucionais.
Che aceitou essa fórmula, e os acontecimentos seguintes demonstram que ela funcionou. Os revolucionários continuaram procurando a instituição, a alimentação continuou sendo fornecida, os feridos continuaram sendo atendidos e a administração manteve interlocução com os oficiais. Quando surgiu o problema da propaganda, o limite foi acionado. Dessa maneira, a conversa com Che não apenas revela boa convivência; explica o mecanismo pelo qual a parceria seria administrada durante os dias seguintes.
A GRÁFICA FUNCIONOU COMO TESTE DA POLÍTICA
O pedido para impressão de propaganda revolucionária é provavelmente o episódio mais importante do artigo para compreendermos a consciência política da administração. Quando representantes dos rebeldes procuraram a gráfica, Brown recusou o serviço e justificou sua decisão afirmando que a instituição não tomava partido politicamente. A negativa demonstra que ele compreendia perfeitamente a diferença entre assistência e identificação política formal. Imprimir propaganda significaria colocar equipamentos pertencentes à escola a serviço da comunicação revolucionária e produzir material que poderia circular publicamente associado à instituição. Essa participação ultrapassava a fronteira que Brown estava disposto a aceitar.
A reação dos revolucionários reforça a existência de um entendimento anterior. Brown afirmou que eles poderiam tomar a gráfica e operá-la pela força, mas os representantes rejeitaram essa possibilidade e procuraram outro local para produzir o material. O respeito à negativa confirma na prática aquilo que Che havia prometido na conversa com os administradores. Os revolucionários reconheciam que existiam limites religiosos e institucionais que deveriam ser preservados se desejavam manter a relação com o colégio.
É justamente a recusa da gráfica que torna impossível interpretar a assistência restante como simples submissão diante de homens armados. Se Brown podia negar um pedido diretamente relacionado às necessidades políticas da força que estava conquistando Santa Clara, sua administração possuía autonomia suficiente para decidir. E, exercendo essa autonomia, decidiu continuar alimentando homens, atendendo feridos, fornecendo materiais e organizando a assistência. O apartidarismo foi utilizado para proteger a instituição de uma associação propagandística explícita, mas não para impedir a cooperação material com os revolucionários.
A LINHA VERMELHA ESTAVA NA PROPAGANDA, NÃO NA LOGÍSTICA
Essa distinção é uma das chaves para interpretar toda a política seguida pelo Antillian College. O fornecimento de alimentos podia ser enquadrado como preservação da vida; o atendimento médico podia ser compreendido como misericórdia cristã; lençóis, travesseiros e bandagens podiam ser classificados como recursos humanitários; a alimentação de médicos e soldados podia continuar sendo apresentada como assistência. A impressão de propaganda, entretanto, produziria uma evidência material de adesão política institucional. Brown aceitou as primeiras categorias e rejeitou a última, estabelecendo uma fronteira que preservava a possibilidade de cooperação sem permitir que a escola aparecesse formalmente como órgão de propaganda da Revolução.
Essa política é muito mais sofisticada do que uma simples declaração de neutralidade. Ela permite que uma organização religiosa coopere materialmente com um ator político sem assumir publicamente sua ideologia. A instituição mantém acesso, preserva relacionamento e presta serviços, mas evita produzir símbolos ou documentos que possam ser interpretados como declaração partidária. O resultado prático é uma diplomacia capaz de atravessar mudanças de regime, porque a Igreja pode posteriormente afirmar que não apoiou formalmente determinada plataforma política, mesmo quando seus recursos foram utilizados em circunstâncias que beneficiaram concretamente os homens que estavam conquistando o poder.
O episódio cubano revela essa lógica com rara transparência porque Brown decidiu contar tanto os “sins” quanto o “não”. Se tivesse omitido a gráfica, poderíamos interpretar a assistência como resultado de uma concepção genérica de caridade. Ao incluí-la, ele próprio mostra que a administração pensava politicamente sobre suas ações e sabia distinguir os diferentes níveis de comprometimento institucional. A pergunta histórica passa então a ser inevitável: por que exatamente a linha vermelha estava na tinta, enquanto alimentação, atendimento e outros recursos permaneciam dentro da área permitida?
A ORIGEM DOS LIMITES QUE BROWN LEVOU A CHE
Essa pergunta nos conduz novamente à estrutura denominacional. Brown era presidente do colégio, Schmidt integrava sua administração e ambos pertenciam a uma cadeia organizacional que alcançava a União, a Divisão Interamericana e a Associação Geral. Antes dos acontecimentos decisivos, E. E. Cossentine, ligado à Associação Geral, e V. E. Berry, da Divisão Interamericana, haviam estado na instituição num momento em que a guerra já afetava as estradas e pontes da região. Brown registra essa visita dentro do mesmo relato que posteriormente descreve a cooperação com os revolucionários. A presença desses dirigentes não estabelece por si só o conteúdo de qualquer instrução específica, mas estabelece algo historicamente importante: a liderança superior conhecia diretamente a instituição e esteve no local quando o conflito já se aproximava.
Brown, pouco depois, apresentou a Che uma política pronta: cooperaria naquilo que pudesse ser caracterizado como preservação da vida, mas determinadas ações permaneceriam fora dos limites. A gráfica revelou uma dessas fronteiras. O sábado revelou outra preocupação administrativa, porque o fornecimento de alimento foi planejado de maneira que pudesse continuar sem exigir da comunidade escolar aquilo que ela considerava trabalho incompatível com o dia sagrado. Em ambos os casos, a administração não discutia se haveria relacionamento com os revolucionários; discutia como esse relacionamento seria mantido sem ultrapassar determinados limites religiosos e políticos.
A existência dessa política é documentada pelo próprio Brown. A questão administrativa que permanece para a investigação é sua origem, porque um presidente de instituição denominacional normalmente não constrói do nada, no meio de uma guerra, os princípios pelos quais decidirá até onde pode utilizar recursos da Organização em relação a uma força revolucionária. O fato de Brown e Schmidt apresentarem conjuntamente os limites a Che demonstra que não se tratava apenas de uma preferência pessoal do presidente. Havia uma posição administrativa compartilhada dentro do colégio, aplicada com segurança suficiente para ser defendida diante do comandante rebelde e posteriormente relatada à denominação mundial.
A PUBLICAÇÃO CONFIRMA QUE BROWN CONSIDERAVA TER AGIDO DENTRO DOS LIMITES
A decisão de publicar o artigo quatro meses depois oferece uma indicação ainda mais forte da maneira como Brown compreendia suas próprias ações. Um administrador que acreditasse ter ultrapassado gravemente as normas denominacionais teria razões para reduzir a publicidade do episódio. Brown fez o contrário. Descreveu os acontecimentos, identificou Che Guevara, explicou a conversa mantida com ele, relatou a assistência prestada e apresentou a recusa da gráfica como demonstração de fidelidade aos princípios adventistas. O conjunto comunica aos leitores uma mensagem administrativa muito clara: a instituição cooperou intensamente, mas permaneceu dentro da fronteira que seus dirigentes consideravam legítima.
É nesse sentido que o artigo funciona como prestação de contas. Brown mostra o que foi feito e mostra onde parou. Ao mesmo tempo, apresenta os resultados: os revolucionários respeitaram as práticas adventistas, o colégio atravessou os combates sem perdas humanas entre sua comunidade, autoridades do novo regime demonstraram gratidão, o governador visitou a instituição, o coral foi chamado para apresentações públicas e dirigentes adventistas passaram a encontrar pessoas ligadas ao novo poder que reconheciam imediatamente a denominação por causa do que acontecera em Santa Clara. A narrativa termina, portanto, mostrando que a política de cooperação delimitada não apenas preservara a instituição durante a batalha, mas produzira uma posição favorável diante dos vencedores.
O RECONHECIMENTO CHEGOU À DIVISÃO INTERAMERICANA
Esse reconhecimento não ficou restrito a Brown. A. H. Roth, presidente da Divisão Interamericana, experimentou pessoalmente a nova reputação quando encontrou um soldado revolucionário em Havana e se identificou como adventista. C. L. Powers, secretário-tesoureiro da União das Antilhas, viveu situação semelhante diante de um funcionário da alfândega. Em ambos os casos, o nome da Igreja foi associado à assistência prestada durante a batalha de Santa Clara. A memória do colégio circulava entre os homens do novo regime e alcançava administradores que não haviam servido pessoalmente as refeições.
Esse detalhe é decisivo porque demonstra como uma ação realizada por uma instituição local produz capital para níveis superiores da organização. Brown e sua equipe alimentaram e atenderam revolucionários em Santa Clara, mas a reputação resultante não pertencia apenas ao Antillian College. Os beneficiários lembravam dos adventistas. Quando Roth se apresentava como dirigente adventista, recebia o reconhecimento produzido por aquilo que outros adventistas haviam feito. A identidade denominacional permitia que o crédito acumulado localmente fosse transferido para representantes da estrutura mais ampla.
É assim que uma ação humanitária pode adquirir valor diplomático. O benefício não precisa ser previamente negociado para existir. Basta que os homens que receberam assistência cheguem ao poder e conservem a memória de quem os auxiliou. A partir desse momento, a organização passa a possuir algo que nenhuma declaração abstrata de neutralidade poderia produzir: acesso construído pela gratidão. A documentação de 1963 mostrará que esse acesso não permaneceu apenas como simpatia, porque seria utilizado institucionalmente quando a Igreja precisasse defender seus interesses diante do governo revolucionário.
O ARTIGO DE BROWN FECHA UMA ETAPA E ABRE OUTRA
Quando o leitor chegar ao texto integral de Walton J. Brown no dossiê documental deste volume, será importante observar sua arquitetura. Ele começa com a aproximação da guerra, passa pela proteção da instituição, acompanha a chegada dos revolucionários, descreve os pedidos de alimentação e atendimento, registra a conversa com Che, explica a recusa da gráfica, narra os ataques aéreos, mostra a continuidade da alimentação e termina enumerando os efeitos posteriores da experiência. Essa estrutura produz uma narrativa completa: perigo, cooperação, limites, sobrevivência, vitória e reconhecimento.
Lido dentro da sequência documental deste livro, o artigo também estabelece uma ponte entre duas fases da história. Antes dele estão Rosabal, as famílias adventistas da Sierra Maestra e o apoio que Che afirmou ter recebido durante a guerra; depois dele estarão a comissão adventista de 1963, o memorando levado a Che e a “relação privilegiada com o governo revolucionário” identificada por Joseph Tahbaz. Brown ocupa exatamente o ponto em que a cumplicidade deixa de aparecer principalmente numa rede de membros e passa a ser documentada dentro de uma instituição denominacional, com administradores negociando conscientemente os termos da relação.
É por isso que a publicação de 1959 possui valor muito maior do que o de uma simples história de livramento. Brown registrou publicamente que a instituição sabia quem estava ajudando, que seus administradores negociaram diretamente com Che Guevara, que possuíam capacidade de recusar pedidos, que escolheram quais modalidades de cooperação aceitariam e que, depois da vitória, começaram a perceber os efeitos políticos positivos dessa atuação. O documento demonstra uma administração que não estava fora da história política cubana, mas dentro dela, preservando sua identidade religiosa enquanto negociava sua posição diante dos homens que estavam conquistando o país.
DA PRESTAÇÃO DE CONTAS À PERGUNTA SOBRE O ACERTO
A leitura conjunta desses elementos nos conduz a uma questão ainda mais profunda, que precisa ser enfrentada sem transformar conjectura em documento, mas também sem ignorar aquilo que a documentação coloca diante de nós. Brown e Schmidt chegaram ao quartel-general de Che sabendo que podiam oferecer determinadas formas de assistência e que outras permaneceriam proibidas; representantes da Associação Geral e da Divisão Interamericana haviam passado pela instituição quando a guerra já se aproximava; a política foi aplicada durante a batalha com notável consistência; os revolucionários respeitaram seus limites; depois da vitória, dirigentes denominacionais experimentaram os benefícios do reconhecimento produzido pela assistência; e, quatro meses mais tarde, Brown publicou oficialmente uma narrativa que apresentava toda essa conduta como correta e providencial. A convergência desses fatos torna indispensável investigar se a política apresentada a Che foi formulada exclusivamente no campus ou se Brown já operava dentro de entendimentos administrativos estabelecidos em nível superior.
É nesse ponto que a palavra acerto adquire relevância investigativa. Não estamos procurando necessariamente um contrato assinado, uma ata intitulada “Acordo com os revolucionários” ou uma ordem explícita mandando Brown alimentar os homens de Che, porque organizações complexas também operam por orientações gerais, entendimentos administrativos e limites conhecidos por seus dirigentes. O documento decisivo poderá estar numa correspondência, num relatório de viagem, numa ata, numa comunicação da Divisão Interamericana ou num registro ainda não localizado da visita de Cossentine e Berry. O que Brown já nos entrega é o resultado visível: quando precisou conversar com Che Guevara, sabia que cooperação era possível, sabia que existiam fronteiras e sabia como explicar essas fronteiras em nome da instituição.
Essa investigação sobre a origem do acerto não diminui aquilo que já está documentado; ao contrário, parte justamente da solidez dos fatos conhecidos. A parceria operacional existiu, os limites existiram, a administração os apresentou a Che, Che os aceitou e o colégio continuou prestando assistência. O próximo nível da investigação consiste em descobrir até onde subia a cadeia de conhecimento e decisão. A visita de representantes da Associação Geral e da Divisão Interamericana pouco antes dos acontecimentos, seguida pela atuação de Brown e pela publicação posterior na Review and Herald, fornece o caminho documental que precisa ser percorrido.
No próximo capítulo, portanto, seguiremos essa trilha administrativa sem abandonar Cuba e sem transformar a investigação numa excursão sobre a política adventista em outros países. Procuraremos compreender quem eram E. E. Cossentine e V. E. Berry, por que estavam no Antillian College naquele momento, que relação mantinham com Brown, como funcionava a cadeia administrativa entre o colégio, a União das Antilhas, a Divisão Interamericana e a Associação Geral e que significado possui a presença desses dirigentes quando colocada imediatamente antes da política de cooperação delimitada apresentada a Che. A questão central será simples apenas na formulação, porque sua resposta pode modificar a dimensão institucional de toda a história: até onde a cúpula adventista sabia o que estava sendo negociado e feito em Cuba?
CAPÍTULO 8 — ATÉ ONDE SUBIA A CADEIA DE CONHECIMENTO?
A atuação do Antillian College durante a batalha de Santa Clara não pode ser examinada adequadamente como se Walton J. Brown administrasse uma escola independente, desligada da estrutura internacional da Igreja Adventista do Sétimo Dia e obrigada a inventar sozinho, no intervalo entre um bombardeio e outro, uma política para lidar com os revolucionários. O próprio documento de Brown impede essa leitura porque, antes mesmo de colocar Che Guevara dentro da narrativa, introduz dois personagens ligados a níveis superiores da administração denominacional: E. E. Cossentine, da Associação Geral, e V. E. Berry, da Divisão Interamericana. Eles aparecem quando a guerra já interferia concretamente nas comunicações e nos deslocamentos, tendo encontrado no caminho pontes destruídas e dificuldades que demonstravam quanto o conflito havia avançado em direção à região central de Cuba. A presença desses dirigentes não permite atribuir-lhes automaticamente decisões que o documento não registra, mas estabelece um ponto histórico indispensável: a situação do Antillian College era conhecida acima do nível local antes de a instituição entrar diretamente na logística dos homens de Che.
Essa constatação modifica a pergunta que devemos fazer. O problema já não consiste em saber se a liderança internacional adventista possuía alguma notícia de que Cuba atravessava uma guerra revolucionária ou de que sua principal instituição educacional no país estava sendo alcançada pelo conflito, porque o próprio Brown registra a passagem de representantes da Associação Geral e da Divisão Interamericana pela escola. O problema consiste em determinar quanto se discutiu durante essa visita, que orientações administrativas circulavam naquele momento, que comunicações foram enviadas antes e depois dos acontecimentos e de que maneira Brown e C. E. Schmidt compreenderam os limites de sua autoridade quando, poucos dias mais tarde, tiveram de decidir como responder aos pedidos das forças revolucionárias.
COSSENTINE E BERRY CHEGARAM QUANDO A GUERRA JÁ ESTAVA NO CAMINHO
Brown recorda que E. E. Cossentine e V. E. Berry haviam visitado o colégio e relatado as dificuldades encontradas durante a viagem, inclusive a necessidade de atravessar rios em lugares onde pontes haviam sido destruídas. Pouco depois, outra ponte situada muito mais próxima da instituição seria explodida, interrompendo ainda mais o tráfego. Essa sequência mostra uma deterioração progressiva da situação e coloca a visita dos dirigentes num momento em que a aproximação da guerra já podia ser percebida materialmente. Não era necessário possuir informações militares privilegiadas para compreender que a instituição poderia ser alcançada pelos acontecimentos, pois as próprias estradas utilizadas pelos administradores denominacionais carregavam as marcas da expansão do conflito.
A importância dessa passagem está precisamente no lugar em que Brown decidiu inseri-la. Seu relato procura mostrar como uma escola que durante algum tempo se considerava relativamente afastada da guerra percebeu que a distância diminuía rapidamente. Dentro dessa explicação, a visita de Cossentine e Berry funciona como uma das evidências de que o conflito já interferia no cotidiano da instituição e nas conexões entre o colégio e a estrutura denominacional. Quando, mais adiante, Brown descreve suas decisões diante dos revolucionários, sabemos que a escola não havia passado meses sem contato com administradores superiores, pois representantes de dois níveis importantes da Organização haviam estado ali durante a aproximação da crise.
A ESTRUTURA ADVENTISTA NÃO TERMINAVA NO PORTÃO DO COLÉGIO
O Antillian College fazia parte de uma organização hierarquicamente estruturada, e esse fato precisa permanecer diante de nós enquanto lemos as decisões de Brown. O presidente administrava localmente a instituição, mas não era proprietário independente do patrimônio, nem representava apenas a si mesmo quando falava em nome do colégio. Acima da administração local existiam instâncias denominacionais responsáveis pela obra em Cuba e pela região interamericana, e acima delas estava a Associação Geral. A presença de Cossentine e Berry, mencionada pelo próprio Brown, torna visível dentro do documento essa cadeia que de outra maneira poderia permanecer apenas como pano de fundo organizacional.
É dentro dessa estrutura que Brown e Schmidt devem ser observados quando atravessam a estrada em direção à Universidade Central para conversar com Che Guevara. Eles não se apresentam como dois cidadãos particulares oferecendo recursos pessoais. Falam em nome de uma instituição adventista, explicam seus princípios e estabelecem aquilo que podem e não podem fazer. Che, por sua vez, não responde apenas às convicções individuais dos dois homens, mas ao caráter religioso da instituição que representam, afirmando conhecer os adventistas e comprometendo-se a respeitar suas práticas. A conversa adquire, portanto, caráter institucional desde o início, porque as partes que se reconhecem mutuamente são o comando revolucionário e a administração de uma instituição pertencente à Igreja Adventista.
Essa dimensão institucional torna especialmente importante a segurança demonstrada pelos administradores. Brown e Schmidt não aparecem pedindo a Che tempo para consultar superiores, nem descrevem uma sucessão de decisões contraditórias enquanto tentavam descobrir o que a Igreja permitiria. Eles apresentam uma fórmula de cooperação suficientemente clara para orientar o relacionamento: fariam aquilo que estivesse ao alcance deles para preservar vidas, enquanto determinadas ações permaneceriam fora dos limites aceitáveis. A aplicação posterior dessa fórmula mostra que ela não era apenas retórica, porque o colégio continuou fornecendo recursos e, ao mesmo tempo, recusou o pedido que transformaria sua gráfica em instrumento de propaganda revolucionária.
UMA POLÍTICA QUE JÁ POSSUÍA FRONTEIRAS
A existência de fronteiras previamente compreendidas é um dos aspectos mais reveladores do relato. Se Brown estivesse simplesmente reagindo por impulso às necessidades que apareciam, seria razoável esperar decisões erráticas, hesitação ou mudanças abruptas de posição. O que encontramos é uma política relativamente coerente. Alimento podia ser fornecido. Feridos podiam ser atendidos. Lençóis, travesseiros e bandagens podiam ser entregues. Estudantes treinados em primeiros socorros podiam atravessar para auxiliar. Veículos revolucionários podiam ser colocados sob as árvores da propriedade, desde que suficientemente afastados dos edifícios para reduzir o risco de que o campus fosse atingido. Médicos, enfermeiros e outros integrantes da força revolucionária podiam ser alimentados a pedido de Che. A continuidade dessa assistência podia inclusive ser planejada para respeitar o sábado. Quando, porém, surgiu o pedido para imprimir propaganda, Brown encontrou a fronteira que não desejava ultrapassar e invocou expressamente o caráter politicamente apartidário da instituição.
A lógica é consistente demais para ser ignorada. A administração diferenciava cooperação material de adesão política formal, permitindo a primeira e recusando a segunda. Isso significa que Brown não utilizava “apartidarismo” como sinônimo de ausência de relação com atores políticos ou militares, mas como princípio capaz de estabelecer o tipo de relação que a instituição poderia manter sem assumir publicamente uma identidade partidária. A distinção permitia cooperar com os homens da Revolução e, simultaneamente, preservar uma linguagem institucional de neutralidade. É justamente essa combinação que explica por que o colégio podia alimentar revolucionários e negar-lhes a gráfica sem perceber contradição entre as duas decisões.
OS VEÍCULOS REVOLUCIONÁRIOS DENTRO DA PROPRIEDADE
Um detalhe do relato de Brown amplia ainda mais essa compreensão. Antes de a cooperação atingir a escala das refeições e do atendimento aos feridos, os revolucionários solicitaram autorização para estacionar jipes e caminhões sob as árvores da propriedade adventista. A administração aceitou, estabelecendo apenas que os veículos permanecessem suficientemente afastados dos edifícios para reduzir a possibilidade de que um ataque dirigido contra eles atingisse a instituição. A decisão revela, mais uma vez, que Brown compreendia perfeitamente a natureza militar dos objetos que estava permitindo entrar na propriedade, pois sua preocupação com a distância dos prédios existia justamente porque aqueles veículos poderiam transformar-se em alvos.
Esse episódio acrescenta uma dimensão importante à palavra logística. A instituição não estava apenas oferecendo um prato de comida a indivíduos famintos que apareciam ocasionalmente. Seu espaço físico passou a ser utilizado de maneira que atendia necessidades das forças revolucionárias, enquanto a administração negociava condições para reduzir os riscos ao campus. A autorização para os veículos, o fornecimento de alimento, o atendimento aos feridos e a circulação de pessoas formam uma estrutura de cooperação que se desenvolveu progressivamente conforme a batalha se intensificava.
Quando esses elementos são considerados conjuntamente, torna-se ainda mais difícil imaginar que Brown desconhecesse o alcance de suas decisões. Ele sabia que os homens pertenciam à força revolucionária, sabia que os veículos podiam atrair fogo inimigo, sabia que Che comandava a ofensiva, sabia que a propaganda representaria envolvimento político formal e sabia que a escola precisava preservar sua identidade religiosa enquanto mantinha a cooperação. A questão histórica, portanto, não é descobrir se Brown tinha consciência do contexto político e militar, mas determinar como essa consciência se relacionava com a cadeia administrativa à qual ele pertencia.
A ASSOCIAÇÃO GERAL E A DIVISÃO INTERAMERICANA JÁ ESTAVAM NA NARRATIVA
É justamente nesse ponto que Cossentine e Berry precisam ser recolocados no centro da análise. Eles não aparecem depois dos acontecimentos, chegando a Cuba apenas para descobrir o que Brown havia feito. Brown os menciona antes da fase decisiva, quando descreve a aproximação do conflito. Um estava ligado à Associação Geral e o outro à Divisão Interamericana, de modo que dois níveis superiores da administração adventista já haviam mantido contato direto com o colégio no ambiente de guerra que precedeu Santa Clara. A documentação disponível não nos entrega o conteúdo de todas as conversas mantidas durante aquela visita, mas a cronologia estabelece uma proximidade administrativa que não pode ser apagada da reconstrução.
Essa proximidade torna ainda mais importante procurar relatórios de viagem, correspondência, atas, cartas administrativas e comunicações produzidas naquele período. Brown fornece a ponta de um fio documental quando menciona os dois dirigentes, e o trabalho histórico consiste em segui-lo. Se existiram orientações específicas sobre como lidar com os revolucionários, esses registros poderão ampliar significativamente nossa compreensão do episódio; se existiram apenas princípios gerais sobre proteção da instituição, neutralidade política e assistência humanitária, eles também ajudarão a explicar por que Brown apresentou exatamente aquela combinação de cooperação e limites a Che Guevara. O ponto de partida permanece sólido em qualquer das possibilidades: a estrutura superior não era estranha à situação do colégio.
BROWN NÃO PRECISAVA RECEBER UMA ORDEM DURANTE O TIROTEIO SE JÁ CONHECIA A POLÍTICA
Uma organização administrativa não funciona apenas por ordens emergenciais emitidas para cada circunstância específica. Dirigentes recebem formação, conhecem regulamentos, assimilam práticas institucionais e aprendem quais decisões podem tomar dentro de suas competências. Por isso, a ausência de uma mensagem enviada durante a batalha dizendo exatamente o que Brown deveria fazer não resolveria a questão sobre a origem de sua política. Se o presidente do colégio já conhecia os princípios administrativos pelos quais deveria operar, não precisava telefonar para um superior cada vez que um caminhão revolucionário chegava ao campus ou quando alguém pedia uma refeição.
O que torna o caso cubano especialmente interessante é que Brown demonstra saber distinguir com rapidez aquilo que considerava permitido daquilo que considerava proibido. Sua resposta à gráfica é imediata e fundamentada institucionalmente. Sua disposição para preservar vidas também é apresentada como princípio. O sábado é administrado através de um entendimento com os oficiais revolucionários. Os veículos recebem autorização condicionada à segurança dos edifícios. Em todos esses episódios aparece um administrador que pensa segundo categorias organizacionais e não apenas segundo impulsos pessoais.
Se essa política correspondia a orientações gerais já conhecidas dentro da denominação, Brown estava aplicando em Santa Clara um modelo institucional preexistente; se houve conversas específicas com dirigentes superiores durante a aproximação da guerra, a participação da cadeia administrativa torna-se ainda mais direta. A documentação atualmente reunida permite afirmar com segurança a primeira parte da equação — Brown atuou como administrador de uma instituição denominacional, dentro de limites que apresentou como princípios da própria instituição — enquanto a segunda parte permanece como trilha documental a ser aprofundada nos arquivos administrativos.
DEPOIS DA BATALHA, A HISTÓRIA SUBIU PELA MESMA CADEIA
Aquilo que aconteceu depois da vitória reforça a importância dessa estrutura. O reconhecimento produzido em Santa Clara não permaneceu limitado ao presidente do colégio. A. H. Roth, presidente da Divisão Interamericana, e C. L. Powers, secretário-tesoureiro da União das Antilhas, encontraram representantes do novo regime que associavam imediatamente o nome adventista ao auxílio recebido durante a batalha. A reputação construída localmente passou a acompanhar dirigentes de níveis superiores, porque os revolucionários não separavam necessariamente cada administrador ou instituição; lembravam-se dos adventistas que os haviam atendido.
Essa transferência de reconhecimento demonstra como uma ação institucional local pode produzir consequências para a organização inteira. O alimento servido no refeitório do Antillian College tornou-se memória vinculada ao nome adventista, e essa memória passou a beneficiar representantes denominacionais que não haviam pessoalmente preparado ou servido aquelas refeições. A estrutura hierárquica que conectava Brown à União, à Divisão e à Associação Geral permitia também que o capital relacional produzido no campus circulasse para cima.
Quando Brown publica seu artigo na Review and Herald, a circulação deixa de ser apenas política e torna-se também editorial. A experiência local é transformada em narrativa denominacional internacional. Aquilo que os homens de Che haviam vivido no colégio passa a ser conhecido pelos leitores da Igreja. A assistência prestada, os limites estabelecidos, a conversa com Che e o reconhecimento posterior deixam de pertencer exclusivamente à memória dos participantes e passam a integrar o registro público adventista.
A PUBLICAÇÃO É PARTE DA CADEIA ADMINISTRATIVA
Esse ponto precisa ser compreendido em toda a sua dimensão. Uma publicação oficial não é equivalente a um diário privado. Quando Brown escreve para a Review and Herald, sua narrativa entra num espaço editorial vinculado à própria denominação. O relato identifica pessoas, instituições e acontecimentos politicamente sensíveis poucos meses depois de uma revolução que havia alterado completamente o governo de Cuba. Mesmo assim, a história é publicada de maneira positiva, com Che Guevara nomeado, com a assistência descrita e com os efeitos posteriores apresentados como evidências da maneira pela qual a instituição havia sido preservada e reconhecida.
A publicação não apenas informa a cúpula sobre aquilo que acontecera, porque dirigentes regionais já estavam próximos dos acontecimentos e alguns deles experimentaram diretamente seus efeitos; ela registra publicamente que a atuação de Brown podia ser apresentada aos adventistas como comportamento institucionalmente aceitável. Esse aspecto é fundamental para nossa tese. Se a assistência aos revolucionários representasse uma transgressão evidente dos princípios denominacionais, o artigo teria exigido explicações completamente diferentes, ou dificilmente seria apresentado como testemunho positivo. Brown, entretanto, descreve sua conduta como coerente com os princípios da instituição e utiliza justamente a recusa da propaganda para demonstrar onde havia preservado o apartidarismo.
A mensagem implícita é poderosa: o problema não estava em relacionar-se com os revolucionários, mas em fazê-lo de maneira que não transformasse a instituição em instrumento formal de propaganda política. Dentro dessa lógica, o colégio podia cooperar materialmente e ainda considerar preservada sua neutralidade. Essa concepção ajuda a compreender não apenas Santa Clara, mas a continuidade posterior do relacionamento adventista com o governo revolucionário.
O QUE SABEMOS E O QUE OS ARQUIVOS AINDA PODEM REVELAR
O conjunto documental permite estabelecer uma sequência consistente. Sabemos que representantes da Associação Geral e da Divisão Interamericana estiveram no Antillian College quando a guerra já afetava as rotas utilizadas para chegar à instituição; sabemos que Brown e Schmidt administravam uma escola pertencente à estrutura denominacional e que, quando precisaram lidar diretamente com Che, apresentaram uma política de cooperação delimitada; sabemos que a instituição possuía capacidade de recusar pedidos e exerceu essa capacidade diante da solicitação de propaganda; sabemos que outras modalidades de assistência continuaram; sabemos que dirigentes superiores posteriormente encontraram autoridades revolucionárias que reconheciam os adventistas por causa do auxílio prestado; e sabemos que Brown publicou tudo isso oficialmente na Review and Herald poucos meses depois.
O que a documentação reunida até aqui ainda não nos entrega é uma ata ou correspondência na qual Cossentine, Berry ou outro dirigente superior determine especificamente a Brown que forneça alimentos, permita veículos, entregue materiais ou estabeleça com Che as condições que depois aparecem no relato. Essa ausência não apaga a cadeia administrativa documentada, mas define com precisão a próxima tarefa histórica: localizar as comunicações que possam existir entre o Antillian College, a União das Antilhas, a Divisão Interamericana e a Associação Geral nos meses que antecederam e sucederam a batalha. É nesse conjunto que poderá aparecer, com maior nitidez, a origem dos limites que Brown aplicou.
Essa distinção é importante porque fortalece, em vez de enfraquecer, a investigação. Não precisamos atribuir à Associação Geral uma ordem que ainda não localizamos para demonstrar a participação institucional do Antillian College, porque essa participação está documentada pelo próprio presidente da escola. Também não precisamos imaginar uma autorização secreta para demonstrar que dirigentes superiores conheciam a situação cubana, porque Brown registra a presença de representantes da Associação Geral e da Divisão Interamericana. O trabalho documental consiste agora em avançar do que já está estabelecido para aquilo que ainda pode ser recuperado, mantendo separados o fato demonstrado e a pergunta arquivística que nasce dele.
A QUESTÃO MAIS IMPORTANTE NÃO É SE HOUVE CONTATO, MAS COMO ELE FOI ADMINISTRADO
Depois de percorrermos essa cadeia, a imagem de Brown como administrador solitário perde consistência. Ele estava ligado a uma organização internacional, recebera recentemente dirigentes de níveis superiores, administrava patrimônio denominacional, dividia decisões com Schmidt e posteriormente apresentou sua atuação à própria Igreja por meio de uma publicação oficial. Quando entrou no quartel-general de Che Guevara, levou consigo muito mais do que suas convicções particulares. Levou a identidade institucional do Antillian College e os princípios que afirmava representar.
É precisamente essa condição que transforma a conversa com Che num dos episódios centrais deste livro. O comandante revolucionário não negociou apenas com um cristão disposto a ajudar feridos; negociou com administradores que falavam em nome de uma instituição. Os administradores, por sua vez, não ofereceram apoio ilimitado, mas uma cooperação regulada por fronteiras que conheciam e sabiam defender. A existência dessas fronteiras demonstra maturidade administrativa suficiente para afastar qualquer leitura de improvisação ingênua.
A questão que permanece aberta nos arquivos é até onde essa política havia sido discutida antes da batalha, mas a questão histórica maior já possui resposta: o Antillian College participou conscientemente de uma relação operacional com os revolucionários e administrou essa participação segundo limites institucionais. A cumplicidade documentada em Santa Clara não depende de descobrirmos uma ordem vinda de Washington para existir, porque ela está registrada nas decisões da própria instituição adventista; aquilo que uma eventual documentação superior poderá fazer é revelar se a cadeia de conhecimento e orientação alcançava níveis ainda mais altos do que aqueles que já aparecem no relato de Brown.
ANTES DE AVANÇAR, PRECISAMOS VOLTAR À SIERRA MAESTRA
Há, entretanto, uma peça que ainda precisa ser examinada em profundidade antes de avançarmos definitivamente para as décadas posteriores. Até aqui, Argelio Rosabal apareceu várias vezes como personagem fundamental: foi o adventista conhecido por Che durante a guerrilha, tornou-se a ponte utilizada pela Igreja em 1963 e ajuda a explicar por que Guevara podia dizer a Brown, em Santa Clara, que conhecia os adventistas. Mas ainda não reconstruímos integralmente aquilo que Rosabal contou sobre os dias posteriores ao desembarque do Granma. Seu depoimento é muito mais amplo do que a lembrança de uma oração ou de uma refeição oferecida a um homem asmático; ele descreve uma rede adventista mobilizada num sábado, homens escondidos, roupas providenciadas, deslocamentos clandestinos, vigilância, mensagens, armas enterradas e uma operação destinada a impedir que sobreviventes da expedição de Fidel fossem capturados antes que conseguissem se reagrupar.
O próximo capítulo retornará deliberadamente a dezembro de 1956 para reconstruir essa história desde o início, acompanhando a longa entrevista de Argelio Rosabal preservada entre os documentos de Tad Szulc. Depois de vermos a instituição adventista negociando com Che em Santa Clara e a própria Igreja utilizando Rosabal para chegar a ele no governo, poderemos compreender melhor o significado daquele primeiro encontro, porque a parceria que mais tarde alcançaria o colégio, uma comissão denominacional e os gabinetes do Estado começou numa circunstância muito mais precária, quando os homens de Fidel estavam dispersos, perseguidos e próximos da destruição, e um dirigente adventista reuniu outros membros de sua comunidade religiosa para decidir que aqueles sobreviventes precisavam ser salvos.
CAPÍTULO 9 — “TEMOS QUE SALVAR ESSA GENTE”: ARGELIO ROSABAL E A REDE ADVENTISTA QUE PROTEGEU OS SOBREVIVENTES DO GRANMA
Para compreender completamente o significado da relação que mais tarde apareceria no Antillian College, chegaria ao gabinete de Che Guevara em 1963 e sobreviveria durante décadas dentro das relações institucionais da Igreja Adventista em Cuba, precisamos retornar deliberadamente a dezembro de 1956, quando nada disso ainda existia na forma que assumiria posteriormente. Fidel Castro acabara de desembarcar em Cuba com os homens do Granma, a expedição fora dispersada, muitos de seus integrantes haviam sido mortos ou capturados, os sobreviventes moviam-se debilitados por uma região desconhecida e Che Guevara ainda não era ministro, símbolo mundial ou comandante vitorioso. Era um homem ferido, faminto, perseguido e separado de Fidel. É precisamente nesse momento de fragilidade extrema que aparece Argelio Rosabal, adventista do sétimo dia, dirigente local de igreja, diretor da Escola Sabatina e personagem que Che e Juan Almeida passariam a chamar de “El Pastor”. A longa entrevista que Rosabal concederia décadas depois a Tad Szulc, preservada em vinte e três páginas e reproduzida integralmente no dossiê documental deste livro, permite reconstruir por dentro como uma comunidade adventista rural foi mobilizada para ajudar homens que estavam tentando sobreviver tempo suficiente para reorganizar a força revolucionária.
A importância dessa entrevista está justamente no fato de que ela não foi produzida como peça promocional adventista nem como defesa apologética da denominação. Tad Szulc pesquisava Fidel Castro e a Revolução Cubana, procurando reconstruir a trajetória dos sobreviventes do Granma, seus deslocamentos, encontros, esconderijos, ferimentos e tentativas de reencontro. Rosabal entrou nessa investigação porque participou dos acontecimentos que permitiram a alguns daqueles homens escapar das forças de Batista. A presença adventista surge, portanto, de dentro da própria reconstrução da Revolução, e não como tema imposto posteriormente por uma disputa religiosa. Ao longo da entrevista, Rosabal fala da igreja, da Escola Sabatina, de outros membros adventistas, das roupas reunidas, dos homens distribuídos entre diferentes responsáveis, dos esconderijos, da comida, das mensagens, das armas enterradas e das operações destinadas a impedir que Che, Juan Almeida e outros sobreviventes fossem localizados pelos soldados que os procuravam.
ROSABAL ERA DIRIGENTE DA IGREJA, NÃO UM PERSONAGEM À MARGEM DELA
A primeira questão que precisa ser estabelecida com clareza é a identidade religiosa de Rosabal, porque toda a interpretação posterior depende disso. Na entrevista, ele próprio corrige a impressão de que fosse pastor ordenado e explica que não exercia o ministério pastoral, mas era “diretor da igreja”, identificando em seguida a denominação como Igreja Adventista do Sétimo Dia. Mais adiante, ao reconstruir o sábado em que reuniu os membros, acrescenta que exercia a direção da Escola Sabatina e que estava ligado à fundação de uma igreja na região. O apelido “El Pastor”, usado por Che e Almeida, nasceu da maneira como aqueles homens o enxergavam durante a crise, mas o vínculo institucional real de Rosabal era outro: liderança leiga adventista inserida diretamente na vida da congregação local.
Essa distinção é importante porque impede a reconstrução retrospectiva de Rosabal como aventureiro religioso independente que apenas carregava uma identificação adventista sem qualquer função comunitária. Seu próprio depoimento mostra uma pessoa integrada à estrutura local da igreja, com autoridade suficiente para reunir membros, falar diante deles, orientá-los e acionar uma rede de confiança que se estendia por casas, famílias, trabalhadores rurais e propriedades da região. O que acontece depois não nasce apenas da iniciativa privada de um homem solitário; nasce de uma decisão que Rosabal leva para dentro da igreja e transforma numa orientação compartilhada com outros adventistas.
O BOMBARDEIO FOI O PRIMEIRO SINAL DE QUE ALGO HAVIA MUDADO
Rosabal conta que, quando ouviu os primeiros bombardeios na região de Alegría de Pío, sequer sabia que Fidel Castro havia retornado a Cuba. Estava em El Mamey, numa situação cotidiana, enquanto seu irmão cortava seu cabelo debaixo de uma árvore, quando as explosões e o movimento das aeronaves chamaram sua atenção. A guerra que mais tarde mudaria sua vida aparecia naquele momento como ruído distante e inexplicável. Ele subiu a uma posição mais alta para observar e viu as aeronaves mergulhando e lançando bombas sobre a região, sem compreender ainda quem estava sendo atacado ou por que o governo mobilizava a aviação.
A mudança acontece quando começa a encontrar ou receber notícias dos sobreviventes. Durante os deslocamentos iniciais, aqueles homens explicam que haviam vindo a Cuba para libertar o país da situação em que se encontrava. Rosabal ouve deles uma interpretação política explícita de sua missão. Não há, portanto, na sequência posterior, qualquer possibilidade de sustentar que os adventistas desconheciam completamente quem eram os homens que estavam protegendo. Rosabal sabia que eram integrantes da expedição revolucionária, sabia que estavam sendo perseguidos pelo Exército e sabia que pretendiam continuar a luta contra Batista.
NO SÁBADO, A DECISÃO CHEGA À IGREJA
O ponto decisivo da entrevista ocorre quando Rosabal descreve o sábado seguinte. Em vez de manter aquilo que havia visto e ouvido apenas no âmbito pessoal, desce para a igreja e se reúne com os adventistas. Ao falar aos membros, recorda o bombardeio e explica que haviam chegado homens que diziam ter vindo combater a miséria e o estado de coisas existente no país. A dimensão social da fala é importante porque Rosabal acrescenta que muitos daqueles adventistas eram trabalhadores dos canaviais e conheciam diretamente as condições de pobreza e exploração existentes na região. A Revolução, portanto, não lhes foi apresentada apenas como conflito abstrato entre duas facções militares; foi conectada à experiência social de pessoas que viviam as desigualdades descritas pelos próprios expedicionários.
É dentro dessa reunião religiosa que Rosabal pronuncia a frase que resume sua decisão: “Temos que salvar essa gente.” A formulação não aparece como comentário posterior elaborado décadas mais tarde para justificar suas ações, mas como lembrança da orientação que afirma ter dado aos adventistas reunidos. Em seguida, pede que se interessem pelos sobreviventes e estabelece um procedimento prático: quem encontrasse algum deles deveria acolhê-lo ou, caso não tivesse coragem ou condições para isso, avisar Rosabal. Quando Szulc pergunta quantas pessoas estavam presentes, Rosabal calcula aproximadamente quinze ou vinte adventistas, embora reconheça não recordar o número exato. O que importa não é a precisão aritmética, mas a natureza da decisão: uma liderança adventista local reúne membros no sábado e os orienta a participar de uma rede destinada a localizar e proteger homens procurados pelas forças do governo.
Rosabal menciona alguns desses adventistas nominalmente e explica que começaram a avisá-lo sobre revolucionários escondidos na região. A partir desse momento, a estrutura de apoio deixa de depender de encontros fortuitos e adquire características de rede. Pessoas diferentes observam, informam, acolhem, reúnem roupas, cedem espaços, transportam mensagens e ajudam a movimentar homens de um ponto para outro. A frase “temos que salvar essa gente” transforma-se em ação coordenada.
OS ADVENTISTAS COMEÇAM A LOCALIZAR OS SOBREVIVENTES
Entre os homens encontrados nessa operação estavam alguns dos nomes que mais tarde ocupariam posição central na história revolucionária cubana: Che Guevara, Juan Almeida, Camilo Cienfuegos e Ramiro Valdés, além de outros sobreviventes que se moviam debilitados, doentes, feridos e com roupas inadequadas. Rosabal descreve o momento em que recebe informações sobre um grupo escondido e começa a organizar aquilo que seria necessário para removê-lo sem que fosse localizado pelo Exército. Não se trata apenas de levar comida até o esconderijo; é preciso substituir uniformes, dividir responsabilidades, escolher rotas, distribuir homens entre diferentes pessoas e criar condições para que continuem se deslocando sem chamar atenção.
Uma das necessidades mais imediatas eram roupas civis. Os expedicionários ainda carregavam vestimentas que podiam identificá-los rapidamente como combatentes, e Rosabal relata uma coleta envolvendo vários companheiros para conseguir aproximadamente oito mudas de roupa destinadas aos oito homens que precisavam ser retirados. Essa ação possui uma consequência prática evidente: substituir o uniforme por roupas civis reduzia a possibilidade de reconhecimento e facilitava os deslocamentos clandestinos. A assistência adventista, portanto, não se limitava à subsistência física; contribuía diretamente para diminuir a visibilidade dos revolucionários diante das tropas que os procuravam.
A ORAÇÃO ANTES DA OPERAÇÃO
Antes de organizar uma das retiradas, Rosabal introduz explicitamente sua fé na operação. Diante da dificuldade da situação, propõe que se ajoelhem e peçam ajuda a Deus. Depois da oração, segundo sua narrativa, decide dividir a responsabilidade entre diferentes homens. Rubén conduz Camilo Cienfuegos, Ramiro Valdés e Reynaldo Benítez; Alfredo permanece com Pablo Hurtado, que estava doente; Rosabal assume pessoalmente a condução de Che, Juan Almeida, Rafael Chao e Francisco González, conhecido como Pancho. O elemento religioso e o elemento operacional aparecem, assim, dentro da mesma cena, porque a oração não substitui a organização clandestina; antecede a divisão concreta de tarefas necessária para retirar os homens dali.
Essa combinação é importante para entender Rosabal sem simplificá-lo. Ele não parece perceber contradição entre sua identidade religiosa e a decisão de preservar homens empenhados numa insurreição armada. Sua fé fornece a linguagem moral com a qual interpreta a obrigação de salvá-los, enquanto sua experiência local fornece os meios práticos para escondê-los. A religião não funciona como barreira à cooperação; funciona, naquele momento, como uma das razões pelas quais ele acredita que deve agir.
CHE, ALMEIDA E OS OUTROS SÃO DIVIDIDOS ENTRE PESSOAS DE CONFIANÇA
A divisão do grupo demonstra que Rosabal já operava com uma lógica de segurança. Manter todos os homens juntos aumentaria o risco de captura e dificultaria a obtenção de comida e esconderijos, de modo que os sobreviventes são distribuídos entre responsáveis diferentes. A rede adventista e seus contatos permitem essa dispersão. Rosabal conhece casas, caminhos, famílias e pessoas capazes de receber os fugitivos, e utiliza esse conhecimento para construir uma rota de sobrevivência.
Essa capacidade de deslocamento era decisiva naquele momento da Revolução. Depois do desastre que se seguiu ao desembarque do Granma, o projeto de Fidel poderia ter sido destruído se os grupos dispersos não conseguissem sobreviver e se reencontrar. Cada combatente preservado, cada noite ganha, cada patrulha evitada e cada contato estabelecido aumentava a possibilidade de que a pequena força se reorganizasse. Rosabal não possuía naquele momento qualquer garantia de que Fidel venceria anos depois, mas sabia que aqueles homens pretendiam continuar a luta e agiu para impedir que fossem capturados antes de conseguirem fazê-lo.
AS ARMAS TAMBÉM PRECISAVAM SER SALVAS
Um dos trechos mais importantes de toda a entrevista ocorre quando Che conversa com Rosabal sobre o armamento. Segundo o depoimento, havia rifles, munição e pistolas que os revolucionários enfraquecidos não conseguiam transportar com segurança. Che pede que Rosabal esconda aquelas armas num lugar protegido. Rosabal aceita. O armamento é envolvido, colocado num buraco aberto sob um jagüey e enterrado para que não seja encontrado pelas forças de Batista. A operação acontece diante de outros companheiros e é apresentada como medida destinada a preservar os recursos caso os homens sobrevivessem e pudessem retornar posteriormente.
Esse episódio marca uma diferença decisiva entre assistência genérica a pessoas em perigo e colaboração com a continuidade de uma força revolucionária. Ocultar armas significa impedir que o governo as apreenda e conservar a possibilidade de que voltem a ser utilizadas pelos homens que estão combatendo para derrubar esse mesmo governo. A intenção de Che aparece dentro da própria conversa descrita por Rosabal: se sobrevivessem, voltariam para buscá-las; se fossem mortos e não pudessem continuar a Revolução, o destino daquele armamento seria outro. Rosabal compreende perfeitamente que está guardando recursos vinculados à continuidade da luta.
Por isso, a palavra cumplicidade adquire aqui um conteúdo histórico muito concreto. Rosabal não apenas oferece hospitalidade a Che; participa de uma ação destinada a proteger simultaneamente os homens e parte de sua capacidade militar. A própria entrevista fornece a substância dessa caracterização, porque coloca na mesma sequência a ocultação de pessoas, a substituição de roupas, o transporte clandestino e o enterramento de armamento.
CHE GUEVARA FERIDO NA CASA DE UMA FAMÍLIA ADVENTISTA
Rosabal conduz Che e alguns companheiros até a região de El Mamey e recorre a uma casa ligada à sua própria família. Ali, a guerra adquire uma escala doméstica. Uma galinha é sacrificada para preparar alimento, e Rosabal recorda Che diante de uma pequena mesa da cozinha, tomando caldo lentamente porque seu estômago estava debilitado. O homem que depois seria transformado em ícone internacional aparece na memória do adventista como um fugitivo em péssimas condições físicas, dependente de uma família rural para conseguir se alimentar e recuperar forças suficientes para continuar.
Essa cena ganha importância não porque o caldo de galinha possua algum significado político extraordinário em si mesmo, mas porque está inserida numa operação muito maior. Che não chegou àquela casa como viajante anônimo pedindo socorro; foi conduzido até ali por Rosabal depois que uma rede de adventistas havia sido mobilizada para encontrar, vestir, dividir e esconder sobreviventes revolucionários. Enquanto ele se alimentava, as forças de Batista continuavam procurando aqueles homens. A casa funcionava como esconderijo dentro de uma cadeia de proteção construída precisamente para impedir sua captura.
AS MENSAGENS PRECISAVAM SAIR SEM REVELAR ONDE OS HOMENS ESTAVAM
Na manhã seguinte, Che pede nova ajuda a Rosabal, desta vez para fazer chegar mensagens às famílias dos sobreviventes. A operação exigia cuidado porque qualquer comunicação interceptada poderia revelar a localização dos homens. Rosabal anota nomes e endereços, oculta a mensagem dentro de um pacote de feijão e procura um médico conhecido, buscando alguém em quem pudesse confiar para encaminhar os recados sem comprometer o esconderijo. Somente depois de ouvir aquele homem declarar sua indignação diante das mortes de expedicionários desarmados é que Rosabal revela aquilo que transportava. A mensagem segue então para que telegramas sejam enviados às famílias.
O episódio mostra novamente a expansão da rede. Já não estamos apenas diante de casas que servem comida e abrigo; informações começam a circular através de contatos selecionados, e Rosabal assume o papel de intermediário entre os homens escondidos e o mundo exterior. A proteção dos revolucionários exige silêncio, seleção de pessoas confiáveis e capacidade de transportar mensagens sem revelar sua origem. Cada uma dessas funções aproxima ainda mais a assistência descrita por Rosabal daquilo que Caleb Rosado posteriormente chamaria de “assistência clandestina”.
A COLABORAÇÃO COLOCA ROSABAL SOB SUSPEITA
A atuação de Rosabal não permaneceu invisível. Em determinado momento, é denunciado, e o sargento Matos o acusa diretamente de servir como práctico, isto é, como guia local para os revolucionários. A acusação demonstra que as forças de Batista perceberam a possibilidade de que moradores da região estivessem auxiliando os sobreviventes a deslocar-se por caminhos desconhecidos. Rosabal, portanto, não estava operando numa zona de absoluta segurança; sua colaboração produzia risco pessoal e poderia levá-lo à prisão ou a consequências ainda mais graves caso fosse comprovada.
Posteriormente, Pablo Hurtado é capturado e o armamento enterrado acaba sendo apreendido, mostrando que a rede não possuía controle total sobre os acontecimentos. Mesmo assim, Che e Almeida continuam escondidos sob a proteção de Rosabal. Quando Szulc pergunta diretamente se eles ainda estavam ali, Rosabal responde que sim e afirma que os mantinha escondidos. A clareza dessa resposta é importante porque elimina qualquer tentativa de transformar sua participação numa sucessão de gestos indiretos sobre os quais não tinha consciência; ele sabia quem estava protegendo e sabia que os soldados os procuravam.
QUANDO AS TROPAS DE BATISTA CHEGARAM À CASA
Um dos episódios de maior tensão acontece quando soldados de Batista chegam à casa de Rosabal e revelam a direção que pretendem seguir durante as buscas. Rosabal percebe que, se avançarem pelo caminho indicado, poderão enxergar Che e seus companheiros no esconderijo. Utilizando uma desculpa para afastar-se temporariamente, corre até os revolucionários, manda que mudem de posição e os leva para uma área de bananeiras onde poderiam permanecer fora do campo de visão dos militares. Depois retorna à casa e continua conversando com os próprios homens que procuravam aqueles que acabara de esconder novamente.
Essa cena revela a natureza deliberada da proteção. Rosabal possui informação sobre o movimento das tropas e a utiliza imediatamente para impedir a captura dos revolucionários. A vantagem que possui como morador conhecido da região e anfitrião aparentemente comum transforma-se em recurso para os fugitivos. O conhecimento local, a confiança dos soldados e sua capacidade de circular entre os dois ambientes permitem que antecipe o movimento das buscas e reposicione os homens antes que sejam descobertos.
A COMIDA PREPARADA PARA OS SOLDADOS CHEGA PRIMEIRO AOS REVOLUCIONÁRIOS
A entrevista contém ainda uma cena que sintetiza de maneira quase perfeita a duplicidade da situação vivida naquela casa. Enquanto os soldados de Batista permaneciam na região, preparava-se comida para eles. Ao mesmo tempo, os revolucionários continuavam escondidos nas proximidades e precisavam ser alimentados. A irmã de Rosabal enche um balde com arroz e carne, cobre o conteúdo com roupas e sai de casa como se estivesse indo lavar no rio. Um dos próprios soldados chega a oferecer ajuda para carregar o balde, mas ela recusa e segue seu caminho, conseguindo levar a comida aos homens escondidos.
Rosabal recorda o episódio com ironia porque os revolucionários terminaram comendo antes dos soldados para os quais a refeição havia sido originalmente preparada. A cena mostra até que ponto a proteção dependia de uma rede doméstica na qual familiares participavam das estratégias de ocultação e abastecimento. O apoio deixou de ser tarefa exclusiva de Rosabal e passou a envolver pessoas capazes de improvisar diante da presença direta do Exército, mantendo os fugitivos alimentados mesmo enquanto as tropas estavam praticamente ao lado deles.
A IDENTIDADE ADVENTISTA ERA CONHECIDA E PODIA SER USADA COMO SENHA
Outro episódio demonstra quanto a identidade religiosa de Rosabal era conhecida entre aqueles que tentavam obter informações. Um médico procura convencê-lo de que Ramiro Valdés e seus pais seriam adventistas e que existia uma mensagem familiar destinada a protegê-lo. Rosabal não aceita a afirmação automaticamente; procura Ramiro e pergunta diretamente se ele ou seus pais pertenciam à Igreja Adventista. Diante da negativa, percebe que a história não correspondia à realidade. O episódio mostra que a pertença denominacional não era um detalhe privado irrelevante, porque podia ser utilizada como tentativa de criar confiança e acessar a rede de proteção.
Esse fato reforça a imagem de Rosabal como figura reconhecida por sua identidade religiosa. Ele não se tornou adventista retrospectivamente porque décadas depois alguém decidiu contar sua história dessa maneira. Sua vinculação fazia parte da maneira como era conhecido naquele ambiente e influenciava até mesmo as tentativas de aproximação dirigidas a ele durante os acontecimentos.
A REDE NÃO PROTEGIA APENAS CHE
A força da entrevista também está em mostrar que Che não foi o único beneficiário da mobilização. Rosabal cita diferentes sobreviventes, diferentes pessoas envolvidas na obtenção de roupas e diferentes responsáveis pelos deslocamentos. A rede funcionava por distribuição de tarefas, com indivíduos recebendo grupos menores e ajudando a levá-los para pontos mais seguros. Che tornou-se posteriormente o nome mais conhecido, mas reduzir toda a história a uma relação pessoal entre ele e Rosabal apaga justamente aquilo que o documento revela com maior clareza: vários adventistas participaram de uma estrutura destinada a localizar e salvar sobreviventes da expedição revolucionária.
Quando Rosabal diz “temos que salvar essa gente”, o plural possui importância real. Ele não decide salvar apenas Che porque simpatizou pessoalmente com o médico argentino. Está falando de um conjunto de homens associados à expedição de Fidel. A assistência se organiza em torno da sobrevivência do grupo revolucionário disperso, e os membros são orientados a informar sobre qualquer sobrevivente que encontrassem.
O OBJETIVO FINAL ERA REENCONTRAR FIDEL
A proteção não poderia durar indefinidamente. O objetivo dos homens era reencontrar Fidel Castro e reconstruir a força revolucionária. Rosabal conta que Che, Almeida e Pancho permaneceram com ele aproximadamente dois dias antes de seguir para a região de Lajitas e, depois, para o processo de reagrupamento em direção a Purial de Vicana. Cada transferência aproximava aqueles sobreviventes de outros integrantes dispersos e aumentava a possibilidade de recomposição do grupo.
É nesse ponto que a consequência histórica da ajuda se torna impossível de separar dos acontecimentos posteriores. Rosabal e os demais adventistas não sabiam que Fidel venceria em janeiro de 1959, mas suas ações contribuíram para que homens importantes daquela força permanecessem vivos e móveis durante os dias em que a expedição poderia ter sido aniquilada. Che, Almeida, Camilo, Ramiro e outros personagens que mais tarde assumiriam papéis centrais na Revolução estavam entre aqueles que precisavam sobreviver àquela primeira fase de perseguição para que a história posterior pudesse existir.
CHE E ROSABAL CONFIRMAM UM AO OUTRO
A força documental aumenta quando a entrevista de Rosabal é colocada diante das memórias de Che. Guevara identifica Rosabal como adventista, registra sua permanência em sua casa e conta que o homem providenciou rapidamente outro contato para levá-los a lugar mais seguro. Rosabal, por sua vez, descreve em muito mais detalhes como encontrou o grupo, reuniu roupas, dividiu os homens, escondeu armas, levou Che e Almeida para outra área, forneceu alimento e protegeu-os quando as tropas se aproximaram. As duas fontes partem de perspectivas diferentes, mas se encontram em pontos essenciais.
Essa confirmação cruzada é importante porque reduz drasticamente o espaço para transformar a história em lenda denominacional. Che não possuía interesse em engrandecer a Igreja Adventista. Rosabal não estava respondendo a um entrevistador adventista. E, décadas depois, pesquisadores como Caleb Rosado e Joseph Tahbaz encontrariam a mesma relação ao reconstruir a história religiosa cubana. O quadro surge por convergência documental.
“ASSISTÊNCIA CLANDESTINA” É UMA DESCRIÇÃO, NÃO UM EXAGERO
Quando Caleb Rosado escreve posteriormente que adventistas da província de Oriente simpatizaram com os revolucionários e lhes prestaram “assistência clandestina”, sua expressão encontra na entrevista de Rosabal um conteúdo concreto. Clandestino era esconder homens que o Exército procurava, substituir seus uniformes por roupas civis, movimentá-los por caminhos menos vigiados, utilizar casas de confiança, transmitir mensagens sem revelar a localização dos fugitivos, ocultar armamento, aproveitar informações obtidas dos próprios soldados para reposicionar os escondidos e continuar fornecendo alimento enquanto as buscas prosseguiam. A entrevista transforma duas palavras abstratas numa sucessão detalhada de ações.
Por isso, a distinção entre caridade e cumplicidade não precisa ser construída por retórica. A caridade aparece dentro da história e é real: havia homens feridos, famintos e debilitados, e Rosabal desejava preservar suas vidas. Mas a ajuda ultrapassou o atendimento imediato à necessidade humana e avançou para ações que aumentavam concretamente a capacidade daqueles revolucionários de evitar a captura e continuar a luta. A mesma pessoa podia agir por compaixão religiosa e, ao mesmo tempo, produzir um efeito político e militar objetivo. O documento não exige que escolhamos uma das duas dimensões e apaguemos a outra.
A CUMPLICIDADE COMEÇOU ANTES DA VITÓRIA, QUANDO O RESULTADO AINDA ERA INCERTO
Esse aspecto talvez seja o mais importante para o argumento deste livro. Rosabal e os adventistas que participaram da rede não prestaram auxílio depois que Fidel já controlava Cuba, quando seria conveniente aproximar-se dos vencedores. A mobilização ocorreu quando a expedição estava desorganizada, seus homens eram caçados e a possibilidade de fracasso parecia enorme. Apoiar aqueles sobreviventes significava assumir risco em favor de uma força que naquele momento ainda podia ser destruída.
A relação, portanto, não nasceu de oportunismo diante de um regime consolidado. Nasceu no período de maior vulnerabilidade dos revolucionários. Foi precisamente essa circunstância que produziu depois uma memória poderosa. Che não esqueceria completamente os adventistas que apareceram quando ele precisava de ajuda para permanecer vivo e voltar à luta. Quando, em 1958, Brown e Schmidt se apresentaram diante dele como administradores adventistas, Guevara pôde dizer que já conhecia os adventistas. Quando, em 1963, Rosabal voltou a procurá-lo em nome de uma reivindicação denominacional, Che reconheceu o antigo vínculo e o utilizou para encaminhar o pedido.
“TEMOS QUE SALVAR ESSA GENTE” EXPLICA O INÍCIO DA PARCERIA
A frase pronunciada por Rosabal diante dos membros da igreja sintetiza o momento em que uma percepção religiosa e social se transforma em decisão operacional. Ele acreditava que aqueles homens precisavam ser salvos, explicou aos adventistas quem eram e o que diziam pretender fazer em Cuba e organizou um mecanismo pelo qual os sobreviventes poderiam ser encontrados, acolhidos ou encaminhados. A rede nasceu dessa orientação e passou a atuar durante os dias seguintes, envolvendo casas, roupas, alimentos, mensagens, esconderijos e armamento.
É nesse ponto que podemos compreender por que as relações posteriores não surgiram do nada. Santa Clara não foi o primeiro encontro de Che com adventistas. A comissão de 1963 não criou o vínculo entre Rosabal e Guevara. A “relação privilegiada” identificada por Tahbaz tinha raízes anteriores à vitória. Quando a Adventist Review fala décadas mais tarde em colaboração de longa data, existe uma pré-história dessa colaboração que remonta aos dias em que homens dispersos da expedição do Granma encontraram, entre outros apoiadores, uma rede adventista disposta a ajudá-los.
O DOCUMENTO INTEGRAL MUDA A DIMENSÃO DA HISTÓRIA
Por essa razão, a entrevista completa de Rosabal precisa permanecer no dossiê documental ao final deste livro. Nenhum resumo consegue reproduzir inteiramente a força de vinte e três páginas nas quais o entrevistado hesita, corrige distâncias, recorda nomes, reconstrói caminhos, responde a perguntas cronológicas e descreve situações que dificilmente seriam necessárias numa narrativa inventada apenas para glorificar sua própria atuação. O leitor poderá acompanhar a oralidade do documento e perceber como a presença adventista emerge organicamente da tentativa de reconstruir a sobrevivência dos revolucionários.
Também será possível observar que Rosabal não esconde os aspectos mais comprometedores. Fala das armas, das mensagens, dos escondidos, das tropas e dos riscos. Sua narrativa não procura preservar uma versão esterilizada de assistência religiosa. É justamente essa franqueza que torna o documento tão importante para a definição de cumplicidade utilizada neste livro, porque a palavra encontra ali uma sucessão concreta de atos destinados a proteger homens que participavam de uma insurreição armada.
DE ROSABAL ÀS PALAVRAS DO PRÓPRIO CHE
A reconstrução deste capítulo ainda precisa ser colocada diante de outra peça documental de enorme peso: as palavras do próprio Che Guevara sobre o apoio recebido de adventistas. Rosabal explicou por dentro como a rede funcionou; Che descreveu do lado dos revolucionários aquilo que recebeu. Quando as duas perspectivas são colocadas lado a lado, o significado de expressões como “apoio franco” e “durante todo o transcurso da guerra” se amplia, porque deixam de parecer fórmulas genéricas e passam a ser preenchidas por ações específicas que Rosabal descreveu detalhadamente.
O próximo capítulo fará exatamente esse confronto. Colocaremos as memórias de Che diante da entrevista de Rosabal e veremos como as fontes se confirmam em torno das irmãs Moya, de “El Pastor”, dos esconderijos, do apoio prolongado e da percepção que o próprio comandante revolucionário formou sobre os adventistas. A questão já não será apenas saber o que Rosabal acreditava estar fazendo, mas compreender como o homem que recebeu a assistência a registrou em sua própria memória da guerra, porque, quando Che escreve que adventistas lhe deram apoio franco e acrescenta que esse apoio continuou durante o transcurso da guerra, a voz do beneficiário encontra a voz daquele que organizou parte da rede e transforma a cumplicidade adventista com a Revolução Cubana em uma constatação sustentada pelos dois lados da relação.
CAPÍTULO 10 — CHE CONFIRMA O APOIO ADVENTISTA: ENTRE A CRENÇA E A PRÁTICA
Depois de reconstruirmos a rede descrita por Argelio Rosabal, a documentação ganha uma força ainda maior quando atravessamos para o outro lado da relação e encontramos Ernesto Che Guevara registrando, em suas próprias memórias da guerra, que adventistas participaram da rede de apoio aos revolucionários. A importância dessa fonte está justamente em sua independência em relação ao depoimento de Rosabal. Rosabal fala como participante dos acontecimentos, décadas depois, numa extensa entrevista concedida a Tad Szulc; Che escreve a partir da experiência de quem recebeu o auxílio. As duas narrativas não foram produzidas para responder uma à outra, não nasceram do mesmo ambiente documental e não possuem o mesmo objetivo, mas convergem em pontos essenciais: a identidade adventista de colaboradores, a existência de apoio concreto, a presença de Argelio Rosabal entre aqueles que protegeram os sobreviventes e, sobretudo, a continuidade que o próprio Che atribui ao apoio recebido durante a guerra.
Em Pasajes de la guerra revolucionaria, Guevara não está escrevendo uma história da Igreja Adventista do Sétimo Dia, nem tentando exaltar alguma denominação religiosa. Seu objetivo é reconstruir episódios da campanha revolucionária, identificar combatentes, colaboradores, camponeses, esconderijos, marchas e dificuldades enfrentadas pelos homens de Fidel Castro. É justamente dentro desse relato militar e autobiográfico que aparecem adventistas, identificados como tais pelo próprio Guevara. O valor documental dessa presença é evidente: a religião desses colaboradores não foi acrescentada posteriormente por uma publicação denominacional, mas preservada na memória escrita de um dos principais líderes da própria Revolução.
AS IRMÃS MOYA ENTRAM NA MEMÓRIA DE CHE COMO ADVENTISTAS
Em determinado momento da campanha, enquanto seu grupo procurava avançar em direção a uma região que permitiria o reencontro com Fidel, Che descreve o contato com duas jovens negras da família Moya. Guevara faz questão de identificá-las como adventistas e, ao explicar a relação que mantiveram com os guerrilheiros, produz uma das passagens mais importantes de todo o dossiê cubano. Segundo ele, aquelas mulheres eram, por causa de suas crenças, contrárias a toda espécie de violência e, apesar disso, deram aos revolucionários “apoio franco” naquele momento e “durante todo o transcurso da guerra”.
A passagem precisa ser lida com precisão, porque nela não existe uma declaração geral sobre todos os adventistas, mas uma descrição concreta de duas mulheres cuja crença religiosa Che conhecia e cuja prática ele também registrou. A força do documento está justamente na diferença entre essas duas dimensões. A crença apontava para oposição à violência; a prática consistia em apoio continuado a homens envolvidos numa guerra armada contra o governo de Fulgencio Batista. O registro de Guevara, portanto, não autoriza transformar a crença professada em prova de neutralidade prática. Ao contrário, mostra que aquelas adventistas podiam professar uma convicção religiosa contrária à violência e, simultaneamente, colaborar com os homens que a utilizavam como instrumento revolucionário.
ENTRE A CRENÇA E A PRÁTICA
Essa diferença entre crença e prática é central para compreender não apenas as irmãs Moya, mas toda a documentação cubana. Uma coisa é aquilo que o membro afirma acreditar; outra é aquilo que faz quando a crença é confrontada por circunstâncias históricas concretas. No caso das Moya, Che registrou ambas. Ele sabia que suas convicções religiosas se opunham à violência, mas também sabia, porque foi beneficiário dessa atuação, que elas lhe deram apoio franco. A documentação, portanto, não permite que uma dimensão seja utilizada para apagar a outra.
Essa distinção torna-se ainda mais importante quando colocamos o registro de Che diante da entrevista de Argelio Rosabal. No ambiente adventista da Sierra Maestra, não encontramos apenas refeições oferecidas a homens famintos, mas sobreviventes escondidos das forças de Batista, roupas civis providenciadas para facilitar deslocamentos, mensagens transportadas clandestinamente, fugitivos removidos de posições que seriam alcançadas pelas patrulhas e armamento enterrado para impedir sua apreensão. Rosabal não se apresenta disparando contra soldados, mas descreve ações que protegiam aqueles que disparavam e preservavam condições necessárias para que continuassem a luta. A crença podia estabelecer uma fronteira contra o exercício pessoal da violência, enquanto a prática ultrapassava a neutralidade e admitia cooperação concreta com os homens da Revolução.
Essa diferença não precisa ser harmonizada artificialmente. Pelo contrário, ela precisa ser preservada porque revela uma das tensões históricas mais importantes do caso cubano. Os envolvidos podiam considerar que não estavam violando suas crenças enquanto não empunhassem diretamente uma arma ou não participassem pessoalmente de um ataque, mas suas ações continuavam produzindo efeitos políticos e militares objetivos. Esconder um guerrilheiro não equivale a disparar com ele, mas impede sua captura; esconder uma arma não equivale a utilizá-la, mas impede que seja apreendida; fornecer roupas civis não equivale a participar do combate, mas aumenta a possibilidade de que o combatente se desloque sem ser reconhecido. A distinção subjetiva entre violência pessoal e apoio ao violento pode existir na consciência do participante, mas a história registra também a consequência prática da ação.
A CONTRADIÇÃO ESTÁ DENTRO DA PRÓPRIA FRASE DE CHE
O aspecto extraordinário da passagem das irmãs Moya é que não precisamos construir externamente a tensão entre crença e prática, porque Che a preservou numa única formulação. Ele reconhece a crença contrária à violência e, sem enxergar nisso razão para negar o que recebeu, afirma que aquelas adventistas prestaram apoio aos revolucionários durante a guerra. A contradição, portanto, não é uma interpretação criada posteriormente por adversários ou defensores da Igreja; está dentro do próprio registro do beneficiário.
Essa formulação impede duas leituras simplificadoras. A primeira seria transformar aquelas mulheres em revolucionárias ideológicas apenas porque ajudaram os homens de Fidel, algo que o documento não estabelece. A segunda seria transformar o apoio em simples neutralidade caridosa, como se a crença religiosa contra a violência eliminasse a consequência da assistência. O documento exige uma leitura mais precisa: elas podiam rejeitar a violência como princípio pessoal e, ao mesmo tempo, apoiar concretamente aqueles que a utilizavam para derrubar o governo.
“APOIO FRANCO” NÃO É UMA EXPRESSÃO CRIADA POR ESTE LIVRO
Também precisamos preservar o peso da expressão utilizada por Che. Não somos nós que qualificamos inicialmente a atuação das irmãs Moya como “apoio franco”; é o próprio Guevara quem assim recorda aquilo que recebeu. A expressão afasta a imagem de uma ajuda involuntária, meramente casual ou concedida sem consciência de quem eram os beneficiários. Mais importante ainda, Che não encerra a frase naquele encontro. Acrescenta que esse apoio continuou “durante todo o transcurso da guerra”, atribuindo-lhe uma duração incompatível com a tentativa de reduzir o episódio a uma única situação emergencial.
A extensão temporal modifica profundamente a escala do documento. Se Guevara tivesse registrado apenas que duas adventistas deram comida ao seu grupo num determinado dia, teríamos um episódio delimitado. Quando afirma que o apoio continuou durante a guerra, coloca aquelas mulheres dentro de uma relação prolongada com os revolucionários. O registro deixa de documentar somente um encontro e passa a documentar continuidade.
CHE NÃO ENCONTROU APENAS AS IRMÃS MOYA
As irmãs Moya seriam suficientes para demonstrar que adventistas aparecem explicitamente na memória de Guevara como colaboradores, mas a documentação se torna muito mais consistente porque Che registra também Argelio Rosabal. Em outra passagem de Pasajes de la guerra revolucionaria, ele escreve que estava na casa de “um adventista chamado Argelio Rosabal”, conhecido entre os homens como “El Pastor”. A identificação é novamente precisa: Guevara não menciona apenas um camponês chamado Rosabal, mas preserva sua pertença religiosa.
Essa referência adquire significado muito maior depois de lermos a entrevista de vinte e três páginas do próprio Rosabal. Che oferece a versão condensada de acontecimentos que Rosabal, décadas depois, descreveria em detalhes. O revolucionário registra a casa do adventista, a insegurança do esconderijo e a atuação de Rosabal para estabelecer rapidamente outro contato e retirar os homens dali; o adventista explica como havia reunido membros da igreja, conseguido roupas, dividido os fugitivos, escondido armamento, levado Che e Almeida por caminhos seguros e protegido o grupo quando tropas de Batista se aproximaram.
CHE CONFIRMA O HOMEM; ROSABAL EXPLICA A REDE
A confirmação cruzada é uma das partes mais fortes do dossiê. Che identifica Rosabal como adventista e registra que esteve em sua casa; Rosabal identifica Che entre os homens que protegeu e explica como ele chegou até ali. Che informa que Rosabal conseguiu outro contato quando a situação ficou perigosa; Rosabal descreve a movimentação dos homens e as pessoas utilizadas para conduzi-los. Che recorda adventistas prestando apoio; Rosabal descreve uma reunião realizada no sábado em que outros adventistas foram mobilizados para localizar e proteger sobreviventes.
As fontes, portanto, desempenham funções diferentes e complementares. Guevara confirma que o apoio existiu e que identificava alguns de seus colaboradores como adventistas; Rosabal permite observar como parte desse apoio funcionava na prática. Quando os dois documentos são colocados lado a lado, a possibilidade de reduzir toda a história a uma lembrança produzida posteriormente dentro do ambiente denominacional perde consistência, porque a memória produzida pelo próprio beneficiário encontra a narrativa detalhada de um participante que concedeu sua entrevista a um pesquisador externo à Igreja.
QUANDO O ESCONDERIJO SE TORNOU PERIGOSO, ROSABAL MANTEVE A PROTEÇÃO
A passagem de Che sobre Rosabal ganha ainda mais força quando observamos o momento em que ocorre. Informações relacionadas às armas haviam sido descobertas, o risco de prisão aumentara e a presença dos revolucionários podia comprometer diretamente quem os acolhia. Mesmo assim, segundo Guevara, Rosabal não encerrou a relação nem deixou que os homens resolvessem sozinhos a própria fuga. Procurou rapidamente outro contato, alguém que conhecia bem o terreno e simpatizava com os rebeldes, permitindo que o grupo fosse retirado durante a noite para uma posição mais segura.
A entrevista de Rosabal completa essa cena. Ele descreve sucessivas mudanças de esconderijo, o aproveitamento do conhecimento local e a necessidade de antecipar os movimentos das tropas de Batista. Quando os dois relatos são confrontados, fica evidente que a assistência não consistia apenas em hospitalidade, mas também em segurança, informação e deslocamento clandestino.
O APOIO NÃO PRECISAVA TRANSFORMAR O ADVENTISTA EM COMBATENTE
A diferença entre crença e prática também nos permite estabelecer uma fronteira documental necessária sem enfraquecer a conclusão. Não precisamos afirmar que os adventistas envolvidos pegaram em armas e combateram ao lado dos guerrilheiros, porque os documentos reunidos não exigem essa afirmação. A colaboração descrita já possui significado suficiente. Uma guerrilha não sobrevive apenas pela capacidade de seus homens dispararem; depende de alimentação, esconderijos, informações, rotas, mensageiros, atendimento, roupas, contatos locais e pessoas capazes de impedir que seus recursos sejam apreendidos.
É justamente nesse sistema de sustentação que encontramos adventistas. Rosabal não precisa aparecer empunhando o rifle que enterrou para que sua ação tenha consequência militar; ao ocultá-lo, impede que o Exército o apreenda e preserva a possibilidade de que volte aos revolucionários. Não precisa atacar uma patrulha para contribuir contra a operação de captura; ao saber para onde os soldados seguirão e retirar Che antes que cheguem, frustra a captura. Não precisa tornar-se integrante formal do Movimento 26 de Julho para contribuir com a sobrevivência de seus integrantes; basta que utilize sua casa, seus contatos e seu conhecimento do terreno para mantê-los fora das mãos do governo.
A CRENÇA CONTRA A VIOLÊNCIA NÃO APAGOU A CONSEQUÊNCIA DA PRÁTICA
É justamente por isso que a análise histórica não pode permanecer limitada à intenção declarada. Uma pessoa pode acreditar sinceramente que está cumprindo um dever religioso ao preservar a vida de alguém e, ainda assim, produzir uma consequência política ou militar. Rosabal podia compreender suas ações como misericórdia, fraternidade ou dever cristão, mas o homem que recebia alimento, roupa, esconderijo e proteção continuava sendo um revolucionário tentando retornar à luta. A intenção e a consequência coexistem.
O mesmo vale para as irmãs Moya. Che podia reconhecer nelas uma crença contrária à violência e ainda recordar que foram colaboradoras de sua força. A crença ajuda a compreender como aquelas mulheres podiam interpretar moralmente sua própria posição; a prática mostra o que fizeram dentro da guerra. A reconstrução histórica precisa conservar as duas dimensões sem permitir que a primeira apague automaticamente a segunda.
DA CRENÇA CONTRA A VIOLÊNCIA À PRESERVAÇÃO DE ARMAS
O contraste torna-se particularmente agudo quando colocamos a frase de Che sobre as crenças das Moya ao lado da entrevista de Rosabal. Num documento encontramos adventistas descritas como contrárias à violência, mas oferecendo apoio franco aos guerrilheiros; no outro encontramos um dirigente adventista aceitando ocultar armas pertencentes aos revolucionários. Não é necessário afirmar que as Moya e Rosabal possuíam exatamente a mesma compreensão teológica para perceber o problema histórico que emerge da documentação: dentro daquele ambiente adventista, a rejeição religiosa à violência não impediu práticas que favoreciam a sobrevivência e a continuidade de uma força armada.
Essa diferença entre crença e prática é mais reveladora do que qualquer tentativa de harmonização posterior. Se transformarmos todo apoio em simples caridade, apagaremos os esconderijos, as rotas, as mensagens e as armas; se transformarmos todos os envolvidos em combatentes ideológicos, iremos além dos documentos. O quadro historicamente mais consistente é justamente aquele em que pessoas podem preservar convicções religiosas contra a violência e, simultaneamente, considerar legítimo ajudar aqueles que estavam exercendo violência revolucionária.
O QUE CHE CHAMA DE “APOIO”, ROSABAL MOSTRA EM FUNCIONAMENTO
É precisamente aqui que as duas fontes se encaixam com maior força. Che utiliza uma palavra abrangente, “apoio”, enquanto Rosabal oferece o conteúdo operacional capaz de preencher essa categoria. Quando o comandante diz que adventistas lhe deram apoio, podemos voltar à entrevista e encontrar homens escondidos, roupas coletadas, caminhos escolhidos, refeições preparadas, mensagens transportadas e armas ocultadas. Quando Guevara registra que Rosabal conseguiu rapidamente outro contato para removê-los de um esconderijo comprometido, podemos voltar ao depoimento do adventista e acompanhar a lógica de segurança utilizada para movimentar os grupos.
Essa complementaridade impede que “apoio” seja esvaziado de conteúdo. A palavra não precisa ser interpretada como simples simpatia emocional, porque existem atos documentados. Também não precisa ser ampliada para algo que as fontes não dizem, porque sua substância já é suficientemente significativa. O apoio foi concreto, consciente e orientado para a preservação de homens que pretendiam continuar a Revolução.
CALEB ROSADO MAIS TARDE USARIA OUTRA EXPRESSÃO: “ASSISTÊNCIA CLANDESTINA”
Décadas depois, ao reconstruir a relação entre as igrejas e a Revolução Cubana, Caleb Rosado utilizaria a expressão “assistência clandestina” para caracterizar a atuação de adventistas na província de Oriente. Depois de ler Che e Rosabal conjuntamente, compreendemos por que essa formulação corresponde ao tipo de atividade documentada. Havia homens procurados pelo governo sendo escondidos, informações sendo transmitidas sem conhecimento das autoridades, roupas sendo fornecidas para reduzir a possibilidade de identificação, armas sendo enterradas e revolucionários sendo transferidos à noite entre esconderijos.
A clandestinidade não é uma interpretação psicológica sobre as intenções dos participantes, mas característica objetiva de muitas das ações descritas. Elas precisavam ser ocultadas porque sua descoberta colocaria em risco tanto os revolucionários quanto aqueles que os protegiam. Quando Rosabal corre para mudar Che e Almeida de posição antes que soldados os enxerguem, está agindo precisamente para frustrar uma operação do governo; quando mensagens são escondidas dentro de um pacote de feijão, o segredo é parte essencial do procedimento; quando armas são enterradas para impedir sua apreensão, a ocultação é o próprio objetivo da ação.
APOIO, ASSISTÊNCIA, PARCERIA E CUMPLICIDADE
As diferentes fontes utilizam vocabulários diferentes porque foram produzidas em contextos distintos. Che fala em apoio franco. Caleb Rosado fala em assistência clandestina. Argelio Rosabal descreve os atos sem precisar condensá-los numa categoria acadêmica. Walton Brown apresenta a cooperação do Antillian College durante Santa Clara. Joseph Tahbaz, olhando retrospectivamente para os efeitos políticos desses vínculos, identifica uma relação privilegiada com o governo revolucionário. Décadas depois, a própria imprensa adventista falará em colaboração de longa data.
É a partir dessa convergência que este livro emprega as palavras parceria e cumplicidade como sínteses históricas. Chamamos de parceria porque houve cooperação e continuidade de relações em diferentes momentos da Revolução; chamamos de cumplicidade porque parte dessa cooperação contribuiu concretamente para proteger, esconder, alimentar, deslocar e sustentar homens empenhados numa luta armada pela derrubada do governo cubano. Essas palavras não exigem que transformemos todos os envolvidos em marxistas, membros formais do Movimento 26 de Julho ou combatentes; descrevem a prática documentada e suas consequências.
“DURANTE TODO O TRANSCURSO DA GUERRA” MUDA A ESCALA DA HISTÓRIA
O valor da expressão de Che está justamente em impedir que reduzamos a presença adventista a um momento de emergência imediatamente posterior ao desembarque do Granma. Guevara conheceu adventistas quando a sobrevivência dos expedicionários estava ameaçada e registrou que pelo menos parte desse apoio continuou ao longo da campanha. Isso ajuda a compreender por que, quando Brown e Schmidt se aproximaram dele em Santa Clara no final de 1958, Che pôde afirmar que conhecia os adventistas e demonstrar disposição para respeitar suas práticas.
A frase de Guevara diante dos administradores do colégio ganha outro significado quando lida depois das memórias da Sierra Maestra. Ele não estava conhecendo a denominação pela primeira vez diante de Brown. Já havia passado por casas de adventistas, recebido apoio de membros, conhecido Rosabal e guardado memória suficientemente forte dessa identidade religiosa para registrá-la posteriormente em seu relato da guerra. Quando o presidente de uma instituição adventista aparece diante dele durante a batalha final, existe uma história anterior entre os homens da Revolução e pessoas pertencentes àquela igreja.
DA SIERRA MAESTRA A SANTA CLARA, A DISTÂNCIA ENTRE PRINCÍPIO E PRÁTICA REAPARECE
A distinção entre crença e prática que encontramos nas palavras de Che reaparece, em escala institucional, quando chegamos ao Antillian College. Brown afirma o apartidarismo da escola e recusa utilizar a gráfica para propaganda revolucionária, mas a mesma administração fornece alimentação, recebe feridos, disponibiliza materiais, permite a presença de veículos e organiza a continuidade da assistência. Novamente encontramos uma diferença entre princípio declarado e prática permitida. O princípio não desaparece, mas sua aplicação é delimitada de maneira que determinadas formas de cooperação permaneçam possíveis.
Essa semelhança não significa que as irmãs Moya, Rosabal e Brown tenham recebido uma orientação comum ou aplicado conscientemente uma mesma teoria, pois não possuímos documento que estabeleça essa coordenação. O que podemos constatar é o padrão histórico produzido por suas ações: a identidade religiosa e suas restrições permanecem verbalmente preservadas, enquanto a prática admite formas concretas de colaboração com os revolucionários. Na Sierra Maestra, Che registra adventistas contrárias à violência que lhe davam apoio; em Santa Clara, Brown reivindica apartidarismo enquanto administra assistência aos homens de Che. Em ambos os casos, aquilo que se professa não pode ser utilizado isoladamente para definir aquilo que se fez.
A CRENÇA DIZ O QUE DEVERIA ORIENTAR; O DOCUMENTO MOSTRA O QUE ACONTECEU
Essa distinção será uma regra metodológica importante para o restante deste livro. Sempre que houver diferença entre declaração doutrinária e comportamento documentado, não utilizaremos a declaração para apagar o comportamento. A crença é uma fonte para compreendermos aquilo que os envolvidos afirmavam considerar correto; a prática é a fonte para reconstruirmos aquilo que efetivamente fizeram. Ambas pertencem à história, mas não são intercambiáveis.
No caso cubano, essa diferença é indispensável porque grande parte da tensão que estamos investigando nasce justamente da distância entre identidade e comportamento. Uma Igreja pode declarar-se apartidária e ainda estabelecer relações políticas; um membro pode declarar-se contrário à violência e ainda prestar apoio a uma força armada; uma instituição pode recusar propaganda e ainda fornecer logística; uma denominação pode preservar formalmente sua distância ideológica do comunismo e construir, ao mesmo tempo, relações duradouras com os homens e depois com o governo de uma revolução comunista. O documento histórico não desaparece porque a declaração de princípio continua existindo.
O BENEFICIÁRIO DO APOIO SE TORNOU TAMBÉM FONTE SOBRE O APOIO
A posição de Che dentro do conjunto documental é singular porque ele não está atribuindo mérito à própria Igreja. Está registrando pessoas que contribuíram para a sobrevivência e movimentação de seu grupo. Isso confere peso especial às passagens quando elas encontram confirmação independente em Rosabal. Che tinha conhecimento direto de pelo menos parte dos acontecimentos que descreve e identifica nominalmente pessoas que depois aparecem em outras fontes.
Essa convergência fortalece a reconstrução histórica. Um participante relata que ajudou; o beneficiário registra que recebeu ajuda. Rosabal identifica sua própria pertença adventista; Che também o identifica como adventista. Rosabal relata o esconderijo; Che registra que esteve em sua casa. Rosabal descreve a transferência; Che recorda que houve uma transferência para lugar mais seguro. Quando as peças se encontram dessa maneira, a discussão deixa de depender da memória isolada de apenas um narrador.
O APOIO DA GUERRA CRIOU UMA MEMÓRIA QUE SOBREVIVEU À VITÓRIA
A importância dessa memória ficará ainda mais clara quando avançarmos novamente para 1963. O Che que recordava Rosabal como “El Pastor” e que escrevera sobre adventistas apoiando os revolucionários não perdeu completamente esse vínculo depois de assumir funções governamentais. Quando uma comissão da Igreja precisou apresentar uma reivindicação relacionada ao Serviço Militar Obrigatório, Rosabal voltou a procurá-lo e Che identificou aquele homem diante de Carlos Rodríguez como “o adventista de quem lhe falei”. A expressão demonstra que o vínculo criado durante a guerra havia sobrevivido ao desaparecimento das condições que o produziram.
Essa continuidade transforma a assistência inicial em algo historicamente maior do que uma sucessão de atos emergenciais. Aquilo que ajudou homens perseguidos a sobreviver produziu relacionamento pessoal; o relacionamento permaneceu depois da vitória; a memória tornou-se acesso ao poder; e o acesso pôde ser utilizado pela própria Igreja quando surgiu uma necessidade institucional. A cadeia não precisa ser inventada porque Joseph Tahbaz posteriormente a explicaria ao relacionar os contatos feitos na Sierra Maestra à relação privilegiada que os adventistas desenvolveriam com o governo revolucionário.
ANTES DA RELAÇÃO PRIVILEGIADA, HOUVE APOIO
Essa cronologia é essencial para compreendermos a natureza da relação adventista com a Revolução Cubana. A proximidade posterior não começou quando Fidel já governava e a Igreja precisava simplesmente adaptar-se ao novo poder. Parte importante de suas raízes foi formada antes da vitória, quando apoiar os revolucionários representava risco e quando ninguém poderia garantir que eles chegariam ao governo. Che registra o apoio recebido nessa fase e Rosabal explica como parte dele funcionou.
Quando mais tarde encontramos dirigentes adventistas negociando com o Estado revolucionário, portanto, não estamos observando duas instituições que se encontraram pela primeira vez depois da mudança de regime. Existem vínculos anteriores, memórias pessoais e um histórico de cooperação. Em alguns casos, as mesmas pessoas atravessam as duas fases. Rosabal protege Che durante a clandestinidade e reaparece diante dele quando Che está no governo. Essa continuidade humana é uma das chaves para entender aquilo que Tahbaz chamaria posteriormente de relação privilegiada.
O DOCUMENTO DE CHE TORNA A PALAVRA “CUMPLICIDADE” AINDA MAIS PRECISA
Depois de ouvirmos Rosabal, podemos caracterizar sua atuação como cumplicidade com base nos atos descritos por ele próprio. Depois de ouvirmos Che, essa caracterização ganha confirmação do outro lado da relação. O revolucionário reconhece que adventistas o apoiaram, identifica Rosabal e registra continuidade temporal. A cumplicidade não precisa ser entendida como adesão completa ao marxismo, participação formal no Movimento 26 de Julho ou concordância com tudo aquilo que Che e Fidel fariam depois; significa, neste contexto histórico, participação concreta em ações que contribuíram para proteger e sustentar homens envolvidos na insurreição.
Essa definição evita simultaneamente dois erros. O primeiro seria transformar todo adventista que ofereceu ajuda em comunista ideológico, algo que os documentos não sustentam. O segundo seria esvaziar atos claramente favoráveis à sobrevivência dos guerrilheiros chamando-os apenas de neutralidade religiosa. Entre essas duas simplificações existe aquilo que as fontes efetivamente mostram: pessoas com identidade adventista, algumas delas explicitamente contrárias à violência em suas crenças, cooperando com homens cuja finalidade era continuar uma revolução armada.
CHE E ROSABAL DEVEM SER LIDOS LADO A LADO
Quando o leitor chegar ao dossiê documental ao final deste volume, será importante ler as passagens de Che e, imediatamente depois, a entrevista completa de Argelio Rosabal. A ordem permite perceber algo que nenhum resumo consegue transmitir com a mesma força: primeiro encontramos o beneficiário dizendo que adventistas lhe deram apoio franco e identificando “El Pastor”; depois encontramos o próprio Rosabal explicando em detalhes o que significou participar da sobrevivência daqueles homens. Um documento fornece reconhecimento; o outro fornece operação. Um registra o apoio; o outro abre a rede.
É justamente desse confronto que emerge a conclusão central deste capítulo. A crença professada contra a violência não impediu a prática de apoio à Revolução, assim como o apartidarismo institucional posteriormente não impediria a cooperação com os revolucionários em Santa Clara. Não precisamos escolher entre aquilo que essas pessoas acreditavam e aquilo que fizeram; precisamos registrar ambos e reconhecer a distância que os documentos colocam entre eles. É nessa diferença entre crença e prática que aparece, com crescente nitidez, uma das contradições fundamentais da história adventista na Revolução Cubana.
NO PRÓXIMO CAPÍTULO: CALEB ROSADO E A “ASSISTÊNCIA CLANDESTINA”
O próximo documento permitirá avançar da memória dos participantes para uma interpretação histórica mais ampla. Caleb Rosado, ao estudar as relações entre Castro e as igrejas, não reduzirá a presença adventista a um encontro ocasional entre guerrilheiros necessitados e famílias religiosas compassivas; ao tratar dos adventistas da província de Oriente, falará de simpatia pelos revolucionários e de “assistência clandestina”.
Depois de Che reconhecer o “apoio franco” e Rosabal explicar como a rede funcionava, a expressão empregada por Caleb Rosado poderá ser examinada não como retórica, mas como descrição de uma prática cujos mecanismos já conhecemos. Será também o momento de perguntar por que adventistas puderam enxergar nos homens de Fidel uma causa que merecia apoio e como essa aproximação anterior à vitória ajudou a preparar a relação que a Igreja manteria com o novo poder depois de janeiro de 1959.
CAPÍTULO 11 — “SIMPATIA” E “ASSISTÊNCIA CLANDESTINA”: CALEB ROSADO DÁ NOME AO APOIO ADVENTISTA
Depois de ouvirmos Che Guevara reconhecer que adventistas lhe deram “apoio franco” e de acompanharmos Argelio Rosabal explicar como uma rede formada em torno de membros da Igreja funcionou na Sierra Maestra, chegamos a uma terceira fonte que não apenas confirma a existência dessa aproximação, mas procura interpretá-la historicamente. Em 1984, Caleb Rosado publicou na Spectrum o estudo Castro and the Churches. Rosado era pastor adventista e, naquele momento, doutorando em Sociologia na Northwestern University, circunstâncias importantes para compreender tanto o lugar de onde escrevia quanto a natureza de sua análise. Ele não estava produzindo uma memória pessoal como Rosabal, nem uma narrativa revolucionária como Che, mas examinando retrospectivamente as relações entre o novo sistema político cubano e as organizações religiosas que precisaram conviver com ele.
Ao chegar aos adventistas, Rosado preservou duas expressões que se tornariam fundamentais para reconstruirmos aquilo que aconteceu antes da vitória de Fidel Castro: “simpatizaram com os revolucionários” e “assistência clandestina”. O texto integral de Rosado estará diante do leitor no Apêndice D, com as qualificações e delimitações utilizadas pelo próprio autor. Aqui, porém, nossa interpretação não depende de transformar essas qualificações na medida do fenômeno histórico, porque Rosado é apenas uma das fontes de um conjunto documental muito maior.
Che Guevara registra apoio adventista recebido durante a guerra; Argelio Rosabal descreve uma rede adventista mobilizada para localizar, esconder, alimentar, vestir, proteger e deslocar revolucionários, chegando à ocultação de armas e munições; Walton J. Brown documenta uma instituição adventista prestando assistência às forças revolucionárias durante a batalha decisiva de Santa Clara; e Rosado acrescenta retrospectivamente as expressões “simpatia” e “assistência clandestina”. É a convergência dessas fontes que determina a dimensão histórica do fenômeno.
A primeira expressão, “simpatizaram com os revolucionários”, identifica uma disposição favorável diante das forças em conflito; a segunda, “assistência clandestina”, demonstra que essa disposição produziu ação. Colocadas ao lado dos demais documentos, elas descrevem algo muito maior do que socorro indiferenciado a pessoas necessitadas: adventistas escolheram favorecer um dos lados da guerra e participaram concretamente da sustentação de homens que procuravam derrubar o governo de Fulgencio Batista.
ROSADO COMEÇA POR BATISTA
A maneira como Rosado organiza sua narrativa também merece atenção. Antes de apresentar a simpatia adventista pelos revolucionários, ele estabelece o contexto político em que essa escolha ocorreu e descreve o regime de Batista em termos de crueldade e corrupção. A sequência produz uma explicação moral para aquilo que vem imediatamente depois: diante de um governo identificado como cruel e corrupto, adventistas de Oriente simpatizaram com os homens que pretendiam derrubá-lo e passaram a ajudá-los clandestinamente. Rosado, portanto, não apresenta a aproximação como um acontecimento incompreensível ou como uma anomalia inexplicável; constrói uma relação entre a avaliação do governo existente e a decisão prática de apoiar seus adversários.
Esse encadeamento é particularmente importante para nosso problema porque nos conduz novamente à diferença entre princípio professado e comportamento histórico. O apartidarismo pode existir como orientação religiosa, assim como as irmãs Moya podiam professar uma convicção contrária à violência, mas Rosado descreve adventistas que, diante de uma situação política concreta, avaliaram um regime, simpatizaram com a força que pretendia derrubá-lo e participaram de sua sustentação clandestina. A crença professada não desapareceu necessariamente da consciência dessas pessoas; o que desapareceu, na prática, foi a equivalência entre apartidarismo e neutralidade diante dos dois lados em confronto.
“SIMPATIZARAM COM OS REVOLUCIONÁRIOS”
A palavra “simpatizaram” não deve ser tratada como detalhe decorativo. Ela estabelece que a assistência descrita por Rosado ocorreu dentro de uma disposição favorável aos revolucionários. Isso modifica a maneira como precisamos compreender os atos que já encontramos na entrevista de Argelio Rosabal. Quando Rosabal reúne adventistas no sábado e lhes diz que era preciso salvar aqueles homens, quando pede que procurem sobreviventes, quando membros fornecem roupas e esconderijos, quando revolucionários são transferidos de um lugar para outro e quando armas são enterradas para que não caiam nas mãos das forças governamentais, essas ações aparecem agora dentro de uma reconstrução posterior que identifica explicitamente a existência de simpatia adventista pela causa revolucionária entre leigos de Oriente.
Não significa que cada adventista da região tivesse a mesma motivação, o mesmo grau de conhecimento político ou a mesma adesão pessoal a Fidel Castro e ao Movimento 26 de Julho. Significa que a interpretação de Rosado reconhece um fenômeno coletivo suficientemente perceptível para ser descrito dessa maneira. É precisamente por isso que sua formulação é importante: ele não restringe a história a Argelio Rosabal, não a reduz às irmãs Moya e não apresenta o apoio como comportamento excepcional de uma única família. Fala de “vários adventistas”, destaca especialmente os leigos da província de Oriente e associa esse grupo à simpatia e à assistência oferecidas aos revolucionários.
ROSADO NÃO ESCREVEU “CARIDADE”; ESCREVEU “ASSISTÊNCIA CLANDESTINA”
A segunda expressão é ainda mais significativa. “Assistência clandestina” contém duas ideias inseparáveis: havia assistência e havia necessidade de ocultá-la. A palavra escolhida por Rosado impede que reconstruamos a participação adventista exclusivamente pela imagem de uma obra humanitária pública, indiferenciada e oferecida da mesma maneira a qualquer pessoa atingida pela guerra. O que ele descreve é ajuda destinada aos revolucionários e praticada de modo clandestino enquanto Batista ainda controlava o Estado e suas tropas perseguiam os homens de Fidel.
Depois da entrevista de Argelio Rosabal, sabemos com muito mais precisão o que podia estar contido nessa expressão. A clandestinidade aparece quando sobreviventes são escondidos; aparece quando roupas civis são recolhidas para facilitar sua circulação; aparece quando Rosabal organiza contatos e deslocamentos; aparece quando mensagens destinadas às famílias são transportadas sem revelar aos agentes do governo sua verdadeira finalidade; aparece quando Che e Almeida precisam ser retirados antes que as tropas os localizem; aparece quando alimento é levado aos escondidos mesmo com soldados de Batista nas proximidades; e alcança sua forma mais explícita quando armas e munições são enterradas a pedido de Che para impedir que fossem apreendidas.
Rosado escreveu duas palavras; a entrevista de Rosabal fornece a anatomia dessas palavras. É justamente por isso que o leitor encontrará o texto de Castro and the Churches entre os documentos reunidos no Apêndice D e poderá lê-lo depois de conhecer, no Apêndice C, o longo depoimento de “El Pastor”. A leitura em sequência permite perceber que “assistência clandestina” não funciona apenas como uma classificação sociológica posterior, mas corresponde a atividades concretas cujos mecanismos aparecem detalhadamente em outra fonte.
CHE, ROSABAL E ROSADO SE ENCONTRAM NO MESMO PONTO
Che escreve que adventistas lhe deram “apoio franco” e que esse apoio continuou “durante todo o transcurso da guerra”; Rosabal descreve como reuniu adventistas, organizou proteção, providenciou roupas, escondeu homens, movimentou fugitivos, transportou mensagens e ocultou armas; Rosado, olhando posteriormente para a história da Igreja em Cuba, registra simpatia pelos revolucionários e “assistência clandestina”. Nenhuma dessas fontes depende integralmente das outras para existir, e cada uma observa a relação de um ângulo diferente, mas todas apontam para a mesma realidade histórica: adventistas participaram da sustentação de homens da Revolução Cubana durante a luta contra Batista.
Essa convergência também impede transformar a profissão religiosa contrária à violência numa prova automática de neutralidade. As irmãs Moya professavam uma convicção religiosa contrária à violência e apoiaram revolucionários; Rosabal conservava sua identidade adventista, exercia liderança religiosa, reunia-se com adventistas, orava e, simultaneamente, escondia guerrilheiros e armamento. A documentação obriga a distinguir aquilo que se professava daquilo que efetivamente se praticava.
O APARTIDARISMO ENCONTRA UMA GUERRA REAL
É precisamente nesse ponto que a história cubana se torna decisiva para compreender o apartidarismo adventista. Enquanto permanece no campo das formulações abstratas, o princípio pode parecer simples: a Igreja não se identifica com partidos, governos ou projetos políticos e seus membros preservam distância suficiente para que a missão religiosa não seja subordinada às disputas pelo poder. Cuba, entretanto, coloca esse princípio diante de uma situação extrema. Não havia apenas uma eleição entre candidatos concorrentes, mas um governo armado combatendo uma força revolucionária que pretendia destruí-lo. Adventistas precisaram decidir o que fariam quando homens perseguidos chegaram às suas casas e quando a avaliação moral do regime de Batista tornou impossível tratar como abstrata a disputa entre governo e Revolução.
Rosado registra o resultado dessa decisão com duas expressões inequívocas: simpatia pelos revolucionários e assistência clandestina. Os demais documentos mostram o conteúdo material dessa escolha. O governo foi moralmente rejeitado, seus adversários receberam apoio e homens perseguidos por suas forças foram escondidos, alimentados, protegidos e auxiliados. Isso não é neutralidade diante do conflito; é participação favorável a um dos lados.
A ESCOLHA NÃO FOI FEITA DEPOIS DA VITÓRIA
A cronologia torna essa constatação ainda mais importante. Rosado situa a aproximação quando Castro inicia a Revolução no outono de 1956, isto é, quando Fidel não controlava Havana, quando Che não era ministro, quando o Movimento 26 de Julho ainda não havia conquistado o Estado e quando ajudar os sobreviventes perseguidos podia trazer consequências graves para quem fosse descoberto. A simpatia e a assistência clandestina, portanto, não nasceram simplesmente de uma acomodação posterior à autoridade vencedora. Parte da aproximação adventista com aqueles homens antecedeu a vitória e contribuiu para sustentá-los enquanto ainda lutavam para alcançá-la.
Essa diferença temporal é fundamental porque impede que a relação seja explicada apenas pela necessidade institucional de sobreviver sob o novo regime. Depois de janeiro de 1959, a Igreja realmente precisaria lidar com um governo revolucionário já estabelecido, proteger escolas, templos, ministros e membros e negociar questões que dependiam do Estado; antes de janeiro de 1959, porém, o problema era outro. Os homens ajudados ainda eram insurgentes perseguidos por um governo que conservava Exército, polícia, aviação, prisões e mecanismos de repressão. Quando adventistas os escondiam e sustentavam, colaboravam com uma força que ainda não possuía garantia alguma de vitória.
A EXPLICAÇÃO MORAL DE ROSADO REVELA A ESCOLHA POLÍTICA
Ao apresentar Batista como cruel e corrupto antes de mencionar a simpatia adventista pelos revolucionários, Rosado oferece uma explicação para essa tomada de posição. Mas justamente por oferecer uma explicação, confirma que houve uma escolha que precisava ser compreendida. Se a crueldade e a corrupção do regime ajudaram adventistas a considerar legítimo favorecer seus adversários, então a prática não estava sendo determinada por uma neutralidade absoluta diante da disputa política, mas por um juízo moral sobre quem exercia o poder e sobre aqueles que procuravam derrubá-lo.
Esse ponto possui consequências importantes para a leitura de todo o caso cubano. A pergunta histórica não é simplesmente se os adventistas possuíam uma doutrina que os afastava da violência ou do partidarismo; a documentação mostra que possuíam crenças e limites religiosos. A pergunta mais importante é o que fizeram quando concluíram que um governo era injusto e seus adversários mereciam ser protegidos. Rosado responde descrevendo simpatia e assistência clandestina, e a entrevista de Rosabal mostra até onde algumas dessas ações podiam chegar.
DA SIMPATIA À OPERAÇÃO
Entre simpatizar e agir existe uma diferença que Rosado não deixa em aberto. A simpatia revela orientação favorável; a assistência demonstra que essa orientação produziu comportamento. É exatamente essa passagem da disposição para a ação que nos permite falar em apoio, cooperação, parceria e cumplicidade sem depender de conjecturas sobre a vida interior dos participantes. Não precisamos saber em que momento cada pessoa decidiu politicamente apoiar Fidel, nem reconstruir todas as razões religiosas, familiares ou sociais que influenciaram suas decisões, porque possuímos o resultado histórico das escolhas: homens foram protegidos, alimentados, ocultados e deslocados enquanto procuravam reconstruir uma força capaz de continuar a guerra.
A cumplicidade que este livro identifica encontra aqui uma formulação particularmente clara, porque a assistência clandestina descrita por Rosado contribuiu para a sobrevivência daqueles que conduziam a insurreição. O termo não exige que os colaboradores tenham participado dos combates nem que tenham aderido integralmente ao programa revolucionário; decorre do fato de que prestaram ajuda consciente a homens perseguidos precisamente porque estavam envolvidos na tentativa de derrubar o governo cubano. Quando essa ajuda preserva o combatente, protege seu esconderijo, facilita seu deslocamento ou impede a apreensão de suas armas, ela passa a integrar materialmente as condições que tornam possível a continuidade de sua luta.
A REDE DE ROSABAL DÁ CORPO À EXPRESSÃO DE ROSADO
É nesse ponto que vale retornar ao sábado descrito por Argelio Rosabal. Ele desce à igreja, reúne-se com adventistas e apresenta aos presentes a situação dos sobreviventes perseguidos depois do desastre do Granma. Sua conclusão é direta: “Temos que salvar essa gente.” O que vem depois mostra que a frase não permaneceu como manifestação abstrata de solidariedade. Rosabal orienta os membros a procurar sobreviventes ou avisá-lo caso os encontrem, recebe informações sobre homens escondidos, organiza roupas, divide responsabilidades, distribui revolucionários entre diferentes protetores e participa pessoalmente da movimentação daqueles que estavam sob maior risco.
Quando Rosado, quase três décadas depois, escreve que adventistas de Oriente prestaram assistência clandestina, a rede descrita por “El Pastor” oferece um exemplo concreto e detalhado dessa afirmação.
Quando Rosado, quase três décadas depois, escreve sobre assistência clandestina adventista em Oriente, a rede descrita por “El Pastor” fornece conteúdo concreto e detalhado para aquilo que essa expressão significa. Rosabal não aparece como indivíduo religiosamente isolado: identifica-se como adventista, exerce liderança na igreja e na Escola Sabatina, reúne adventistas no sábado, explica a situação dos revolucionários e mobiliza seus correligionários para localizá-los e protegê-los. A identidade adventista não foi acrescentada posteriormente à história; aparece dentro da própria operação.
Por isso, a discussão não pode ser encerrada classificando participantes como “leigos” e transferindo toda a responsabilidade para decisões privadas desconectadas da Organização. A Igreja que reivindica autoridade para ensinar seus membros, formar sua consciência, estabelecer padrões de comportamento e disciplinar sua conduta também precisa enfrentar historicamente aquilo que esse discipulado produziu quando seus membros e dirigentes locais se encontraram diante da Revolução. A documentação não permite reduzir a colaboração a uma pessoa isolada, e Santa Clara acrescentará a esse quadro a atuação direta de uma instituição denominacional.
O SÁBADO NÃO INTERROMPEU A MOBILIZAÇÃO
Há ainda um aspecto particularmente significativo na entrevista de Rosabal quando lida à luz da formulação de Caleb Rosado. A mobilização de membros ocorre no sábado e dentro do ambiente religioso em que Rosabal exercia liderança. O mesmo homem que se identifica como diretor da igreja e da Escola Sabatina utiliza o encontro para falar sobre os revolucionários perseguidos e solicitar cooperação para localizá-los e protegê-los.
O fato de essa mobilização ocorrer no sábado e dentro do ambiente religioso em que Rosabal exercia liderança torna ainda mais difícil separar artificialmente identidade adventista e colaboração revolucionária. A igreja, a Escola Sabatina, a liderança exercida por Rosabal, os membros reunidos e a decisão de procurar e proteger sobreviventes aparecem dentro da mesma narrativa. A religiosidade dos participantes não permaneceu numa esfera separada da decisão prática de auxiliar os homens de Fidel.
A oração que Rosabal descreve antes de uma das operações reforça precisamente a diferença entre crença e prática que estamos acompanhando. Ele não abandona sua fé para ajudar Che; incorpora a ajuda à maneira como entende sua fé. Ora, organiza a proteção e executa o plano. A religiosidade não impede a operação clandestina, mas passa a conviver com ela. Esse detalhe é fundamental porque impede a falsa alternativa segundo a qual somente existiriam duas possibilidades: ou Rosabal era adventista e, portanto, permaneceu neutro, ou ajudou os revolucionários e, portanto, abandonou suas convicções. A documentação mostra uma terceira realidade, mais complexa e historicamente mais importante: ele continuava apresentando-se como adventista enquanto praticava ações favoráveis aos revolucionários.
AS ARMAS LEVAM A QUESTÃO AO SEU PONTO MAIS DIFÍCIL
A ocultação das armas é o episódio que mais claramente impede que toda a rede seja reduzida a atendimento humanitário. Che pergunta a Rosabal se poderia esconder os rifles, a munição e as pistolas para impedir que fossem encontrados; Rosabal aceita, participa da escolha do local e do enterramento e preserva aquele material sob ocultação. O adventista não precisa disparar nenhuma dessas armas para que a natureza da ação seja compreendida. Elas pertenciam aos revolucionários, eram instrumentos de sua luta e estavam sendo escondidas precisamente porque a apreensão pelo governo reduziria a capacidade do grupo.
É aqui que a diferença entre crença professada e prática concreta alcança sua expressão mais contundente. As irmãs Moya podiam professar uma convicção religiosa contrária à violência e oferecer apoio franco; Rosabal podia compreender-se como homem religioso, ajoelhar-se em oração e esconder armas de uma guerrilha. O documento histórico não nos permite apagar a profissão religiosa, mas tampouco permite que ela seja utilizada para redefinir o ato praticado. Uma arma enterrada para não ser capturada continua sendo uma arma preservada para os homens que pretendiam prosseguir a Revolução.
ROSADO REGISTRA A ASSISTÊNCIA; OS OUTROS DOCUMENTOS REVELAM SUA DIMENSÃO
Caleb Rosado acrescenta ao dossiê uma expressão particularmente importante: “assistência clandestina”. Mas não é Rosado quem estabelece sozinho a dimensão histórica dessa colaboração, nem precisamos adotar como limite de nossa interpretação as categorias pelas quais ele escolheu descrevê-la. Quando seu artigo é colocado ao lado das memórias de Che Guevara, da extensa entrevista de Argelio Rosabal e do relato contemporâneo de Walton J. Brown, emerge um quadro muito mais amplo: adventistas participaram da sustentação dos revolucionários, uma rede adventista atuou na proteção de sobreviventes do Granma e, em Santa Clara, uma instituição adventista prestou assistência às forças revolucionárias durante a batalha decisiva.
A importância de Rosado está em reconhecer retrospectivamente uma realidade que os documentos anteriores já permitem reconstruir em detalhes. Sua expressão “assistência clandestina” corresponde a ações concretas que Rosabal descreve por dentro: localização de fugitivos, roupas, alimentos, esconderijos, mensagens, deslocamentos, proteção contra as forças governamentais e ocultação de armamento. Portanto, não utilizamos Rosado para reduzir essa história a uma quantidade indeterminada de indivíduos ou para separar convenientemente “leigos” da Organização. Utilizamos seu documento como uma das peças que, confrontadas com as demais, confirmam que a colaboração adventista com os revolucionários foi real, organizada e historicamente relevante.
DE ORIENTE PARA SANTA CLARA
A distância entre a Sierra Maestra e Santa Clara não rompe essa história; ao contrário, permite perceber como ela cresce. Em Oriente, pequenos grupos de sobreviventes dependiam de casas, comida, roupas, informações e esconderijos. Em Santa Clara, aproximadamente dois anos depois, a força revolucionária de Che já participava da batalha que precipitaria o colapso final de Batista, e o Antillian College possuía estrutura capaz de alimentar dezenas e depois centenas de homens, receber feridos e fornecer materiais. A escala mudara radicalmente, mas Che já conhecia os adventistas antes de encontrar Walton Brown e C. E. Schmidt.
É nesse contexto que a declaração de Che aos administradores do colégio adquire profundidade histórica. Quando afirma conhecer os adventistas, existe atrás dessa frase uma experiência anterior documentada por suas próprias memórias. Havia conhecido as irmãs Moya, estivera na casa de Argelio Rosabal e recebera apoio de pessoas que identificava pela pertença religiosa.
Caleb Rosado, escrevendo décadas depois, acrescenta a esse pano de fundo o registro da simpatia adventista pelos revolucionários e da “assistência clandestina”. Santa Clara, portanto, não inaugura a relação; encontra uma relação que já possuía história.
O QUE ERA CLANDESTINO ANTES DA VITÓRIA PODIA SER RECONHECIDO DEPOIS DELA
A vitória de janeiro de 1959 altera completamente o sentido público dessas relações. Aquilo que precisava ser escondido quando Batista governava passa a constituir memória favorável diante dos vencedores. O homem anteriormente escondido torna-se autoridade; o colaborador que corria risco por protegê-lo passa a possuir uma relação pessoal com alguém situado no centro do novo poder; a instituição que alimentou os revolucionários durante a batalha passa a ser reconhecida por soldados e autoridades que se lembravam da assistência recebida. O apoio clandestino produz, depois da vitória, um patrimônio de memória política.
Walton Brown registra exatamente esse efeito quando dirigentes adventistas encontram funcionários e soldados do novo regime que afirmam conhecer os adventistas porque haviam comido no Antillian College durante a batalha. A frase tem significado muito maior quando colocada ao lado de Che, Rosabal e Rosado: a Revolução acumulou memórias de adventistas que a ajudaram em diferentes fases, desde a sobrevivência de pequenos grupos perseguidos até a alimentação de forças já próximas da vitória.
A ASSISTÊNCIA DA GUERRA SE CONVERTE EM RELACIONAMENTO
É também por isso que a trajetória de Argelio Rosabal até 1963 não aparece como um acontecimento desconectado. O homem que havia protegido Che durante a guerra continua reconhecível quando a Igreja precisa levar ao governo uma questão delicada relacionada ao Serviço Militar Obrigatório. Rosabal volta a Che, o memorando é encaminhado e o antigo vínculo é utilizado dentro de uma nova estrutura de poder. A relação que nascera na clandestinidade havia atravessado a vitória e adquirido utilidade institucional.
Joseph Tahbaz posteriormente descreveria essa continuidade ao tratar da relação privilegiada desenvolvida entre os adventistas e o governo revolucionário. Quando chegarmos novamente a esse documento no dossiê final, será importante lê-lo depois de Che, Rosabal, Brown e Caleb Rosado, porque então a expressão “relação privilegiada” deixará de parecer um fenômeno administrativo surgido espontaneamente depois de 1959. Ela possui antecedentes pessoais e institucionais construídos durante a própria Revolução.
ROSADO NÃO APAGA O APOIO; ELE O INCORPORA À HISTÓRIA
O aspecto mais importante de Castro and the Churches para nossa investigação está exatamente aí. Rosado não elimina o fato incômodo de que adventistas favoreceram os revolucionários durante uma guerra armada; incorpora esse fato a uma interpretação da história cubana. Batista aparece como cruel e corrupto, a simpatia adventista pela oposição torna-se compreensível dentro desse ambiente e a assistência clandestina passa a fazer parte da narrativa da Igreja diante da transformação política do país. Podemos examinar criticamente essa moldura interpretativa sem perder aquilo que ela preserva: o reconhecimento explícito de que houve escolha, simpatia e assistência.
Para este livro, o valor do documento está justamente em separar o fato de sua interpretação posterior. Rosado oferece sua leitura sociológica e histórica; nós colocamos sua formulação ao lado das demais fontes. Quando fazemos isso, descobrimos que as palavras “simpatia” e “assistência clandestina” se encaixam extraordinariamente bem naquilo que Che e Rosabal já haviam deixado registrado. O documento posterior não cria a história, mas lhe dá um nome.
CRENÇA PROFESSADA E PRÁTICA DOCUMENTADA
Chegamos, assim, novamente à distinção que precisa acompanhar toda a reconstrução cubana. Uma convicção religiosa não pode ser presumida como descrição automática do comportamento de quem a professa. As irmãs Moya podiam professar uma convicção religiosa contrária à violência e, simultaneamente, colaborar com os homens que a utilizavam como instrumento revolucionário; Rosabal podia professar sua fé adventista, orar e exercer funções religiosas enquanto protegia fugitivos e ocultava armamento; e adventistas de Oriente podiam pertencer a uma denominação que preservava sua identidade religiosa diante das disputas políticas enquanto, segundo Caleb Rosado, simpatizavam com uma das forças em guerra e lhe prestavam assistência clandestina.
É essa distância entre a crença professada e a prática documentada que impede que o apartidarismo seja usado como resposta pronta para o problema histórico. O que a Igreja ou seus membros declaravam acreditar precisa ser registrado, mas o documento que mostra o que fizeram precisa permanecer ao lado dessa profissão. Cuba revela precisamente o espaço existente entre as duas coisas, e nesse espaço encontramos apoio franco, assistência clandestina, proteção de guerrilheiros, ocultação de armas, cooperação institucional durante Santa Clara e, depois da vitória, acesso às autoridades revolucionárias.
CALEB ROSADO DEIXOU UMA PEÇA FUNDAMENTAL DO DOSSIÊ
Por isso Castro and the Churches estará reproduzido no Apêndice D entre os documentos fundamentais desta investigação. O leitor poderá verificar diretamente aquilo que Rosado escreveu, inclusive suas qualificações, observar como Batista é caracterizado e comparar sua narrativa com os documentos anteriores. Nossa interpretação, entretanto, não dependerá de reproduzir como conclusão as limitações pelas quais Rosado escolheu descrever os participantes, porque seu artigo não está sozinho.
Os documentos convergem sem formar uma cadeia de evolução institucional. Che Guevara, Argelio Rosabal, Walton J. Brown e Caleb Rosado observam a mesma história de posições diferentes: o beneficiário revolucionário, o dirigente adventista envolvido diretamente nos acontecimentos, o presidente de uma instituição denominacional situada no centro dos acontecimentos de Santa Clara e o pastor-pesquisador que, vinte e cinco anos depois, reconstruiu retrospectivamente a relação da Igreja com a Revolução. É essa convergência, e não uma suposta passagem dos leigos para a instituição, que dá força ao dossiê.
A questão, portanto, não é mais se existiu colaboração adventista com os revolucionários. A documentação acumulada já respondeu. A questão seguinte é compreender como uma colaboração formada durante a guerra sobreviveu à vitória e reapareceu como relacionamento, reconhecimento e acesso quando os homens anteriormente protegidos passaram a controlar o Estado.
CAPÍTULO 12 — CALEB ROSADO ESCREVEU A DEFESA ANTES DA ACUSAÇÃO — 25 ANOS DEPOIS, O PESQUISADOR ADVENTISTA RECONTOU CUBA E TENTOU JUSTIFICAR O APOIO A FIDEL
Em 1984, quando quase ninguém imaginava que décadas depois documentos adventistas, memórias de Che Guevara, entrevistas preservadas em arquivos e pesquisas acadêmicas poderiam ser reunidos numa mesma tela e confrontados linha por linha, Caleb Rosado já estava fazendo o trabalho de interpretação que a instituição necessitaria quando essa história viesse à tona. Pastor adventista, doutorando em Sociologia na Northwestern University e autor publicado pela Spectrum, Rosado não negou a realidade que hoje emerge com muito mais força quando seu artigo é colocado ao lado de Che Guevara, Argelio Rosabal e Walton J. Brown: adventistas tomaram posição contra Fulgencio Batista, simpatizaram com os homens de Fidel Castro e lhes prestaram “assistência clandestina”. O que Rosado fez foi muito mais sofisticado do que negar: recontou a história dentro de uma moldura capaz de justificar moralmente a escolha feita, apresentando Batista primeiro como cruel e corrupto, tornando compreensível a aproximação adventista com seus adversários e, depois, deslocando progressivamente o centro moral da narrativa para a perseguição sofrida pelos próprios adventistas quando o regime comunista consolidou o poder. Era uma resposta escrita antes da acusação. Quarenta anos depois, quando abrimos os arquivos e fazemos as perguntas que Rosado não fez, encontramos a defesa já pronta.
ROSADO NÃO ERA UM OBSERVADOR EXTERNO: ERA PASTOR ADVENTISTA ESCREVENDO PARA ADVENTISTAS
Caleb Rosado não era um jornalista estrangeiro descobrindo casualmente a história cubana, nem um historiador sem vínculos denominacionais examinando documentos décadas depois. A própria Spectrum o apresentou como pastor da All Nations Seventh-day Adventist Church, em Berrien Springs, Michigan, e doutorando em Sociologia na Northwestern University. Era um homem da Igreja escrevendo dentro de uma publicação adventista sobre uma história adventista e interpretando para leitores adventistas aquilo que a denominação havia feito e experimentado em Cuba.
Rosado fala de dentro e organiza a memória de dentro. Escolhe o ponto de partida, estabelece culpados e vítimas, fornece uma explicação para as escolhas feitas pelos adventistas e depois transfere progressivamente o centro da narrativa para aquilo que o comunismo fez contra os próprios adventistas. Dessa maneira, quando surgisse a pergunta sobre por que adventistas haviam ajudado homens da guerrilha que levaria Fidel Castro e Che Guevara ao poder, uma resposta já estaria disponível: Batista era cruel e corrupto, a oposição a ele era compreensível e, posteriormente, o comunismo mostrou sua verdadeira face e perseguiu a Igreja. O problema é que essa sequência explica a motivação da escolha sem conseguir apagar a própria escolha.
ANTES DE EXPLICAR FIDEL, ROSADO REPROVA A IGREJA QUE NÃO SE ADAPTOU À REVOLUÇÃO
O primeiro movimento do artigo é revelador. Rosado considera a Igreja Adventista cubana de 1984 basicamente a mesma de 1959 e interpreta essa continuidade como estagnação: o mesmo pensamento religioso, os mesmos valores de comportamento, a mesma visão de mundo, a mesma perspectiva centrada na religião, os mesmos valores relacionados ao vestuário e a mesma compreensão da missão. Para ele, a Igreja havia deixado de progredir porque não conseguira “mudar com os tempos”. Em seguida lamenta a ausência de teólogos cubanos capazes de reconsiderar e “redefinir” a missão denominacional diante da nova situação e pergunta por que a Igreja não repensara seu papel numa “sociedade revolucionária”.
Aqui aparece uma questão que atravessa toda esta investigação. A Igreja conserva pensamento, comportamento, visão de mundo e compreensão de missão, e Rosado chama isso de estagnação; Fidel transforma politicamente a sociedade cubana, e Rosado pergunta por que a Igreja não redefiniu suficientemente seu papel diante da nova sociedade revolucionária. A pergunta cristã deve caminhar na direção contrária: que autoridade possui uma revolução política, comunista ou de qualquer outra natureza para redefinir a missão da Igreja de Cristo? Se o evangelho determina sua missão, uma sociedade revolucionária é objeto dessa missão, não sua fonte. A Igreja pode precisar aprender a sobreviver sob qualquer governo, mas sobreviver sob determinado poder é coisa muito diferente de permitir que esse poder forneça os parâmetros pelos quais ela redefine aquilo que deve ser.
É O SOCIÓLOGO ADVENTISTA QUE ESTÁ RECONTANDO A HISTÓRIA
A formação acadêmica de Rosado ajuda a compreender sua linguagem. Ele era doutorando em Sociologia quando publicou o artigo, e seu texto lê religião, Estado, instituição e sociedade por categorias de transformação social, adaptação, conflito entre sistemas e redefinição da missão diante de novas estruturas sociais. A continuidade religiosa da Igreja cubana aparece como atraso; a incapacidade de acompanhar a transformação social torna-se problema; a nova “sociedade revolucionária” converte-se numa realidade diante da qual a Igreja deveria reconsiderar seu próprio papel.
Retirada essa moldura, permanece aquilo que os demais documentos tornam ainda mais grave: adventistas fizeram um julgamento político de Batista, escolheram apoiar seus adversários e prestaram assistência clandestina aos revolucionários. Rosado oferece uma interpretação desse comportamento. O conjunto documental permite outra leitura, baseada não apenas em sua narrativa posterior, mas também nas memórias de Che Guevara, na extensa entrevista de Argelio Rosabal, no testemunho contemporâneo de Walton J. Brown e nos documentos que mostram a continuidade desse relacionamento depois da vitória revolucionária.
PRIMEIRO BATISTA É CONDENADO; DEPOIS A CUMPLICIDADE TORNA-SE COMPREENSÍVEL
A construção narrativa de Rosado é eficiente. Antes de apresentar o apoio aos revolucionários, estabelece a culpa moral do adversário: Batista era cruel e politicamente corrupto. Só depois aparece a simpatia adventista pelos revolucionários e a expressão decisiva preservada pelo próprio Rosado: “assistência clandestina”.
A sequência oferece ao leitor uma justificativa antes que ele julgue a conduta. Batista era cruel; Batista era corrupto; portanto, compreende-se por que adventistas apoiaram seus adversários. Mas é justamente aí que a defesa produz uma admissão ainda mais grave. Se a crueldade, a corrupção e os abusos de Batista constituíram razões para que adventistas escolhessem apoiar aqueles que pretendiam derrubá-lo, então houve uma avaliação política, uma escolha política e uma ação correspondente a essa escolha. A maldade atribuída a Batista pode explicar por que escolheram seus adversários; não transforma essa escolha em apartidarismo. Pelo contrário: explica por que abandonaram a neutralidade diante daquele conflito.
A classificação dos participantes como “leigos” também não encerra a responsabilidade institucional. A Igreja Adventista reivindica autoridade para ensinar seus membros, formar sua consciência, disciplinar sua conduta, estabelecer aquilo que considera moralmente admissível e definir os limites da vida cristã. Se adventistas não possuíam informação, percepção ou formação suficiente para compreender o significado de proteger guerrilheiros, escondê-los das tropas do governo, alimentá-los, transportar suas mensagens, conduzi-los clandestinamente e ocultar seu armamento, existe uma responsabilidade da Organização que os ensinou e discipulou, intencionalmente ou não. Se compreendiam perfeitamente aquilo que faziam, então decidiram conscientemente que essa colaboração era compatível com sua condição de adventistas. Em nenhuma das duas possibilidades a palavra “leigos” absolve a instituição.
ROSADO NÃO DISSE “CARIDADE”. DISSE “ASSISTÊNCIA CLANDESTINA”
Duas palavras preservadas por Rosado adquirem importância extraordinária: assistência clandestina. Não estamos diante da descrição genérica de cristãos distribuindo alimento indistintamente a pessoas necessitadas. A documentação mostra adventistas sabendo quem eram aqueles homens, sabendo contra quem lutavam e auxiliando-os enquanto eram procurados pelas forças governamentais.
A extensa entrevista de Argelio Rosabal revela o conteúdo dessa assistência. Rosabal não descreve uma panela de sopa entregue casualmente a desconhecidos. Descreve uma rede adventista de apoio: reunião de adventistas, mobilização para localizar sobreviventes, coleta de roupas, divisão de responsabilidades, esconderijos, alimentação, transmissão de mensagens, orientação territorial, deslocamentos clandestinos e proteção contra as tropas de Batista. Seu depoimento chega à ocultação de rifles, munição e pistolas a pedido de Che Guevara. Quando Rosabal é colocado ao lado de Rosado, “assistência clandestina” deixa de ser uma expressão abstrata. Torna-se praticamente uma síntese do que a rede fazia.
O PRÓPRIO CHE CONFIRMA QUE O APOIO NÃO FOI UM ACIDENTE
Che Guevara acrescenta uma testemunha que não escrevia para proteger a memória adventista. Ao recordar as adventistas da família Moya, registra uma contradição extraordinariamente importante para esta investigação: embora fossem contrárias à violência por causa de suas crenças, deram apoio aos revolucionários naquele momento e durante o transcurso da guerra. O beneficiário da ajuda identificou simultaneamente a crença religiosa e a prática que contrariava aquilo que seria esperado dela.
É precisamente aí que aparece a responsabilidade do discipulado. Professar oposição religiosa à violência não basta quando a prática ajuda materialmente homens que empregam a violência como instrumento para conquistar o poder. A pergunta deixa de ser apenas o que aqueles adventistas declaravam acreditar e passa a ser aquilo que sua formação religiosa produziu quando foram colocados diante de uma guerra real. Se a Igreja ensinava uma coisa e seus membros faziam outra, é necessário examinar o discipulado. Se aquilo que fizeram era conhecido e considerado aceitável, é necessário examinar a própria prática institucional. A palavra “leigo” não pode funcionar como salvo-conduto para a Organização.
ROSABAL DESTRÓI A POSSIBILIDADE DE REDUZIR TUDO A ATOS INDIVIDUAIS
A entrevista de Rosabal é especialmente problemática para qualquer reconstrução que tente pulverizar a história numa sucessão de iniciativas pessoais. Ele se identifica como adventista, diretor da igreja e diretor da Escola Sabatina; vai à igreja no sábado, reúne-se com adventistas, fala de aproximadamente quinze ou vinte religiosos presentes, identifica companheiros adventistas e os mobiliza. O documento não descreve aquele grupo como dissidente, independente, desligado ou expulso da Igreja.
Não estamos diante de uma coleção de indivíduos cuja identidade adventista seria meramente incidental. A identidade religiosa aparece dentro da própria operação. Rosabal reúne adventistas, reconhece adventistas, mobiliza adventistas e introduz a oração no processo pelo qual organiza a proteção aos revolucionários. O mesmo homem que ora pede a seus companheiros que ajudem os sobreviventes; o mesmo dirigente da Escola Sabatina que protege Che e Almeida esconde armamento para os revolucionários. A religião não está fora da narrativa. Está dentro dela.
A RESPONSABILIDADE INSTITUCIONAL NÃO COMEÇA NA PORTA DO COLÉGIO
A responsabilidade institucional não começa apenas quando aparece um prédio pertencente à denominação. Uma igreja também existe naquilo que ensina, na consciência que forma, nos dirigentes locais que reconhece, na disciplina que aplica ou deixa de aplicar e no comportamento religioso que produz entre seus membros. A atuação de adventistas e de dirigentes locais durante a guerrilha já levanta uma questão institucional antes mesmo de Santa Clara.
Santa Clara fornece uma das evidências diretamente institucionais do dossiê. Rosado registra o Antillian College no contexto da batalha final, enquanto Walton J. Brown, presidente do próprio colégio, escreveu praticamente dentro dos acontecimentos. Brown documenta a presença dos revolucionários, o fornecimento de alimentos e materiais médicos, primeiros socorros e aproximadamente 180 homens jantando no colégio em 1º de janeiro de 1959. Essa documentação institucional deve ser lida ao lado, e não como consequência, dos registros de Che Guevara, Argelio Rosabal e das demais fontes sobre a colaboração adventista durante a guerra.
O conjunto documental revela colaboração adventista em diferentes níveis: membros e dirigentes locais aparecem diretamente envolvidos na proteção e sustentação dos revolucionários; uma rede adventista é descrita por Argelio Rosabal; Che Guevara registra o apoio recebido; o Antillian College aparece prestando assistência às forças revolucionárias em Santa Clara; e documentos posteriores mostram a continuidade do relacionamento entre a Organização e o poder surgido da Revolução. Essas evidências não precisam ser organizadas como etapas sucessivas de um processo. São manifestações distintas de uma mesma história.
A PERSEGUIÇÃO POSTERIOR NÃO ABSOLVE A COLABORAÇÃO ANTERIOR
Depois vem a grande virada narrativa. O Estado comunista consolida o poder, nacionaliza instituições, restringe atividades religiosas, cria problemas para guardadores do sábado, vigia religiosos e reprime o proselitismo. Rosado dedica amplo espaço a essa fase, e o efeito narrativo é poderoso: começamos com adventistas apoiando revolucionários e terminamos com adventistas sofrendo sob o regime revolucionário.
Mas uma fase não apaga a outra. A perseguição religiosa praticada pelo regime merece condenação; não possui poder retroativo para transformar em neutralidade aquilo que ocorreu antes de sua consolidação. Quem posteriormente sofreu nas mãos de um governo podia anteriormente ter ajudado os homens que conquistaram esse governo. A condição posterior de vítima não reescreve a conduta anterior do apoiador.
É precisamente aqui que a narrativa de Rosado funciona como defesa institucional: a memória começa com uma escolha politicamente constrangedora e termina com uma condição moralmente capaz de despertar compaixão. A perseguição posterior pode fazer parte da história, mas não pode ser utilizada como resposta para uma pergunta diferente: o que adventistas fizeram quando Fidel Castro e Che Guevara ainda lutavam para chegar ao poder?
E A DESCULPA DO DESCONHECIMENTO TAMBÉM NÃO RESOLVE O PROBLEMA
Não é possível resolver a contradição afirmando simplesmente que ninguém sabia o que significavam marxismo e comunismo em 1956. Marxismo, materialismo, crítica marxista à religião, revoluções comunistas e Estados governados por partidos comunistas não surgiram depois da entrada de Fidel em Havana. O Manifesto Comunista havia sido publicado mais de um século antes. Em 1956 já existia experiência histórica suficiente para que uma organização religiosa mundial compreendesse o conflito fundamental entre o materialismo marxista e a fé cristã.
Se os membros não sabiam, a pergunta volta para quem os ensinava. Uma Organização que reivindica autoridade doutrinária e moral sobre seus membros não pode apresentar sua capacidade de ensinar como virtude quando eles obedecem e tratar a ignorância deles como independência individual quando suas escolhas se tornam inconvenientes. Se faltou conhecimento, discernimento ou percepção das implicações daquilo que faziam, é necessário perguntar por que faltou. Se não faltou, então a colaboração foi consciente. A responsabilidade histórica precisa enfrentar ambas as possibilidades.
1963: A RELAÇÃO SOBREVIVE À GUERRILHA E CHE AGORA ESTÁ NO PODER
Joseph Tahbaz leva a documentação para outra etapa. Batista desapareceu, Fidel governa Cuba e Che Guevara já é autoridade do Estado. Diante dos problemas relacionados ao serviço militar, a Igreja Adventista prepara um memorando, constitui uma comissão e Argelio Rosabal volta a aparecer como intermediário. O homem que havia ajudado Che durante a guerrilha entrega o documento ao antigo beneficiário, agora instalado no governo, e Che intervém junto a Carlos Rodríguez. O estudo de Tahbaz caracteriza a relação adventista com a Revolução como singular.
Essa continuidade impede colocar uma parede artificial entre guerrilha e governo. O relacionamento produzido quando os revolucionários precisavam de proteção reaparece quando os revolucionários controlam o Estado e a Organização precisa de acesso ao poder. O vínculo anterior adquiriu utilidade posterior.
ROSADO ESTAVA RESPONDENDO ANTES QUE FIZÉSSEMOS AS PERGUNTAS
É por isso que Castro and the Churches pode ser lido como uma defesa antecipada. Rosado possuía diante de si os elementos essenciais do problema: sabia do apoio adventista aos revolucionários, conhecia a memória publicada por Che e conhecia o papel desempenhado pelo Antillian College nos acontecimentos de Santa Clara. Sua narrativa coloca Batista como justificativa inicial, torna a colaboração compreensível pela condenação moral do adversário, censura a Igreja cubana por não se adaptar suficientemente à nova sociedade e termina conduzindo o leitor à perseguição sofrida pelos adventistas sob o comunismo.
Retirada essa explicação, permanece o acontecimento: adventistas escolheram um lado; adventistas apoiaram os revolucionários; existiu uma rede adventista de proteção e assistência; Che reconheceu o apoio recebido; Rosabal descreveu seu funcionamento; o Antillian College prestou assistência às forças revolucionárias em Santa Clara; e o relacionamento estabelecido durante a luta reapareceu quando os antigos guerrilheiros já ocupavam o poder. É desse conjunto documental que emerge a interpretação desta investigação.
EM 2025, A PRÓPRIA ADVENTIST REVIEW COMPLETARIA O QUE ROSADO NÃO PODIA SABER
Quarenta e um anos depois do artigo de Rosado, a própria Adventist Review publicaria uma reportagem sobre Cuba usando no título uma expressão extraordinária: “colaboração de longa data”. A reportagem registra relações entre autoridades cubanas, a organização adventista e ministérios de apoio, recupera inclusive uma antiga anotação atribuída a Che sobre a possibilidade de autorizar aos adventistas um seminário teológico e reproduz dirigentes descrevendo um relacionamento mantido durante muitos anos.
A sequência documental atravessa gerações. Brown escreve praticamente dentro dos acontecimentos. Che registra o apoio que recebeu. Rosabal descreve por dentro a rede adventista que protegeu os revolucionários. Rosado reorganiza aquela memória em 1984. Tahbaz documenta que o relacionamento continuava produzindo acesso depois da vitória. E, em 2025, a própria imprensa adventista fala em “colaboração de longa data”. Não estamos diante de uma lembrança isolada nem de um episódio perdido na Sierra Maestra. Estamos diante de documentos que, colocados cronologicamente, contam uma história de continuidade.
CALEB ROSADO DEIXOU A DEFESA; OS DOCUMENTOS DEIXARAM A ACUSAÇÃO
Essa é a ironia final. O artigo que procura explicar por que adventistas apoiaram os homens de Fidel tornou-se uma das peças que permitem reconstruir aquilo que precisa ser explicado. Rosado fornece a justificativa, reconhece a escolha política, registra a simpatia e preserva a expressão “assistência clandestina”. Che fornece a memória do beneficiário. Rosabal revela a operação por dentro. Brown leva a documentação ao Antillian College. Tahbaz mostra a utilidade posterior do relacionamento. A Adventist Review, décadas depois, fala em colaboração duradoura.
O documento de Rosado está disponível para ser lido e confrontado com as demais fontes. A interpretação que emerge desse conjunto é clara: a crueldade de Batista pode explicar a motivação para a escolha feita, mas não converte cumplicidade em neutralidade; a condição de leigo não absolve a Organização que ensinava, disciplinava e formava aqueles membros; a perseguição posterior não purifica retroativamente a colaboração anterior; e Santa Clara impede definitivamente que toda a história seja reduzida à iniciativa privada de adventistas desconectados da instituição.
Rosado oferece a defesa. Os documentos mostram o problema que tornou essa defesa necessária. E a pergunta permanece: se adventistas podiam julgar politicamente um governo, escolher seus adversários, apoiar uma revolução e prestar assistência clandestina aos homens que pretendiam tomar o poder, com que autoridade a Organização transforma hoje o apartidarismo em regra para limitar a manifestação política de seus próprios membros?
CAPÍTULO 13 — 1963: QUANDO A CUMPLICIDADE DA GUERRA SE TRANSFORMOU EM ACESSO AO PODER
A história documentada até aqui já estabeleceu uma sequência que começa quando os homens de Fidel Castro e Che Guevara ainda eram perseguidos pelo governo de Fulgencio Batista. Che registrou que adventistas lhe deram “apoio franco” e que esse apoio continuou “durante todo o transcurso da guerra”; Argelio Rosabal descreveu a mobilização de adventistas, os esconderijos, as roupas, a alimentação, as mensagens, os deslocamentos e as armas enterradas; Caleb Rosado escreveu posteriormente que vários adventistas de Oriente “simpatizaram com os revolucionários e prestaram assistência clandestina”; e Walton J. Brown documentou a assistência prestada pelo Antillian College às forças revolucionárias durante a batalha decisiva de Santa Clara. Em 1963, porém, a documentação apresenta uma mudança extraordinária de posição: Che já não é o revolucionário asmático escondido por Rosabal, Batista já não governa Cuba, Fidel Castro controla o Estado e aquele relacionamento construído durante a guerra reaparece quando a própria Igreja Adventista precisa chegar ao novo poder.
É nesse momento que o estudo de Joseph Tahbaz se torna uma das peças mais importantes de todo o dossiê. Seu trabalho não foi escrito para investigar especificamente a cumplicidade adventista com a Revolução Cubana, mas para estudar as UMAP, as Unidades Militares de Ajuda à Produção, campos de trabalho mantidos pelo governo cubano entre 1965 e 1968. Ao reconstruir o contexto que levou à criação dessas unidades e examinar a situação de grupos religiosos diante das exigências militares do Estado revolucionário, Tahbaz dedica atenção particular aos adventistas e recupera uma cadeia de acontecimentos que liga diretamente as relações estabelecidas na Sierra Maestra ao tratamento recebido pela Igreja depois que os revolucionários chegaram ao poder. O resultado dessa investigação aparece numa expressão que precisa permanecer no centro deste capítulo: “relação privilegiada com o governo revolucionário”.
TAHBAZ NÃO COMEÇA EM 1963; ELE VOLTA À SIERRA MAESTRA
A importância da conclusão de Tahbaz está justamente na causalidade que ele estabelece. O pesquisador não descreve uma relação privilegiada surgida espontaneamente depois da vitória, nem apresenta o tratamento diferenciado recebido pelos adventistas como resultado de um contato burocrático ocasional com autoridades cubanas. Para explicar a posição da Igreja diante do governo revolucionário, ele volta às relações que alguns adventistas haviam estabelecido com dirigentes revolucionários na Sierra Maestra. Aquilo que vimos nos capítulos anteriores como apoio, proteção e assistência clandestina reaparece agora dentro de uma pesquisa acadêmica como antecedente da relação que a denominação passou a desfrutar com o novo Estado.
A conexão é decisiva porque elimina a parede artificial que poderia ser levantada entre a fase guerrilheira e a fase governamental. Os homens não desapareceram quando a Revolução venceu; mudaram de posição. As relações também não desapareceram; mudaram de função. Che deixou de depender de casas, alimentos, roupas e esconderijos e passou a integrar o poder revolucionário, enquanto Rosabal deixou de ser apenas o homem que protegia fugitivos e passou a representar uma possibilidade concreta de acesso a alguém situado dentro do governo. A relação estabelecida quando um lado precisava sobreviver à perseguição passou a possuir valor quando o outro lado precisou apresentar suas reivindicações ao Estado.
O PROBLEMA AGORA ERA O SERVIÇO MILITAR
Depois da vitória revolucionária, a situação política e religiosa de Cuba mudou profundamente, e uma das questões que atingiram diretamente os adventistas foi o serviço militar. Tahbaz registra que, entre aproximadamente 110 estudantes do Antillian College em idade de convocação, cerca de setenta foram chamados, criando um problema imediato para a instituição e para jovens cuja prática religiosa entrava em conflito com determinadas exigências militares, especialmente em torno do serviço combatente e da observância do sábado. A Igreja precisava apresentar sua posição ao governo e buscar uma solução que permitisse aos adventistas cumprir aquilo que entendiam como seus deveres religiosos sem entrar em confronto frontal com o novo Estado.
Uma comissão foi organizada para preparar um memorando no qual a posição adventista seria apresentada às autoridades. A questão envolvia precisamente os limites que a denominação procurava estabelecer para seus membros diante do serviço militar: a diferença entre atividades combatentes e não combatentes, a observância sabática e a demonstração de lealdade ao país sem violar convicções religiosas. Depois de preparado o documento, quatro pastores foram escolhidos para apresentá-lo, mas a composição da delegação contém o detalhe que liga 1963 diretamente à Sierra Maestra: junto com os quatro pastores foi Argelio Rosabal.
A IGREJA LEVOU CONSIGO O HOMEM QUE CHE CONHECIA
A presença de Rosabal não é um detalhe biográfico colocado acidentalmente na narrativa. Quatro pastores representavam a estrutura religiosa e podiam explicar a posição doutrinária da denominação, mas Rosabal possuía algo que os cargos eclesiásticos não produziam por si mesmos: uma relação pessoal construída com Che Guevara durante a guerra. Era o adventista que havia protegido Che quando ele estava perseguido, que o escondera, alimentara, movimentara e ajudara a escapar das tropas de Batista; era o “El Pastor” identificado nominalmente nas próprias memórias de Guevara; era, portanto, alguém que podia chegar ao antigo revolucionário não apenas como representante de uma organização religiosa, mas como pessoa conhecida desde os dias em que a sobrevivência da guerrilha dependia de redes locais de proteção.
A escolha de Rosabal mostra que a Igreja soube utilizar esse capital de relacionamento. A denominação tinha um problema com o governo, preparou um documento, escolheu seus representantes e colocou junto deles justamente o homem que possuía acesso pessoal a Che. O vínculo criado durante a guerra deixou, assim, de funcionar apenas como memória de solidariedade entre indivíduos e passou a servir a uma finalidade institucional. A Igreja precisava chegar ao poder revolucionário e levou consigo uma ponte construída antes de o poder revolucionário existir.
ROSABAL LEVOU PESSOALMENTE O MEMORANDO A CHE
A estratégia funcionou. Segundo a reconstrução de Tahbaz, Rosabal entregou pessoalmente o memorando a Ernesto Che Guevara. O documento não ficou restrito a uma repartição administrativa inferior nem foi encaminhado apenas através de canais burocráticos impessoais; chegou ao homem que conhecia Rosabal desde a Sierra Maestra. A cena de 1963 precisa ser colocada diante da cena de 1956 porque é a mesma relação humana funcionando em posições invertidas: antes, Che precisava chegar a pessoas capazes de escondê-lo do Estado; agora, adventistas precisavam chegar a Che porque ele estava dentro do Estado.
Essa inversão transforma o significado histórico da assistência prestada durante a guerra. O apoio não terminou quando os guerrilheiros saíram dos esconderijos, nem perdeu toda consequência quando Batista fugiu de Cuba. A memória da colaboração permaneceu ligada às pessoas que a haviam experimentado. Rosabal podia chegar a Che porque Che sabia quem era Rosabal, e a própria identificação preservada posteriormente por Guevara em suas memórias confirma que “El Pastor” não havia sido um rosto irrelevante perdido entre milhares de camponeses encontrados durante a campanha.
28 DE OUTUBRO DE 1963: CHE INTERCEDE
Em 28 de outubro de 1963, a relação deixa um registro ainda mais significativo. Che encaminha o memorando a Carlos Rodríguez, ligado ao programa de Reforma Agrária, e identifica Rosabal com uma expressão que praticamente elimina qualquer dúvida sobre a permanência daquele vínculo: “o adventista de quem lhe falei”. A frase revela que Rosabal já havia sido assunto entre Che e Rodríguez antes daquela comunicação. O adventista da Sierra Maestra permanecia suficientemente presente na memória e nas relações de Guevara para ser identificado não pelo cargo que ocupava na Igreja, mas pelo vínculo pessoal que Che já havia mencionado a outro dirigente revolucionário.
Tahbaz interpreta o episódio de maneira igualmente contundente ao afirmar que Che Guevara intercedeu em favor de seu amigo adventista Rosabal para que fosse criada uma exceção relacionada ao Serviço Militar Obrigatório para aquele grupo religioso. A expressão “seu amigo adventista”, utilizada pelo pesquisador, conecta diretamente o relacionamento pessoal à demanda institucional. O antigo beneficiário da proteção adventista agora possuía autoridade para interceder, e a Igreja chegou até ele utilizando justamente o homem que havia participado daquela história.
O APOIO DA GUERRA HAVIA PRODUZIDO CAPITAL POLÍTICO
É aqui que a sequência documental revela toda a sua força. Durante a guerra, adventistas ajudam homens de Fidel; Che reconhece o apoio; Rosabal protege Che e seus companheiros; Caleb Rosado chama essa atuação mais ampla de “assistência clandestina”; a Revolução vence; Che torna-se autoridade; a Igreja enfrenta uma dificuldade diante do novo governo; uma comissão prepara um memorando; quatro pastores são escolhidos; Rosabal acompanha a delegação; o antigo protetor chega pessoalmente ao antigo protegido; Che reconhece o homem, recebe a demanda e intervém junto a outra autoridade. Aquilo que começou como apoio durante a clandestinidade havia produzido relacionamento, o relacionamento havia sobrevivido à vitória e o relacionamento agora funcionava como acesso ao poder.
Esse acesso não foi um benefício abstrato. Foi utilizado diante de uma questão concreta que atingia membros e uma instituição adventista. A antiga relação tornou-se um recurso disponível quando a denominação precisou negociar com o Estado. É nesse sentido que podemos falar em capital político: uma relação construída numa fase da história produziu capacidade de interlocução numa fase posterior, e essa capacidade foi mobilizada institucionalmente.
TAHBAZ DÁ NOME AO RESULTADO: “RELAÇÃO PRIVILEGIADA”
Depois de reconstruir esse processo, Tahbaz apresenta a conclusão que altera definitivamente a dimensão histórica dos acontecimentos da Sierra Maestra. Segundo o pesquisador, por meio das relações que alguns adventistas do sétimo dia estabeleceram com dirigentes revolucionários na Sierra Maestra, os adventistas desfrutaram de uma “relação privilegiada com o governo revolucionário”, relação que lhes proporcionou maior flexibilidade para suas atividades religiosas do que aquela disponível à maioria das outras denominações ou grupos religiosos.
A cadeia causal estabelecida pelo pesquisador é clara: relações construídas com dirigentes revolucionários durante a luta produziram uma relação privilegiada depois que esses dirigentes se tornaram governo, e essa relação privilegiada produziu maior flexibilidade para os adventistas. A assistência da guerra, portanto, não permaneceu confinada à guerra. Os relacionamentos formados enquanto a Revolução precisava de apoio sobreviveram à tomada do Estado e passaram a influenciar a posição da denominação diante das novas autoridades.
PRIVILÉGIO É MAIS DO QUE ACESSO
A palavra “privilegiada” precisa ser preservada porque Tahbaz não está descrevendo apenas a existência de comunicação. Toda organização religiosa que pretende funcionar sob determinado governo precisa estabelecer algum nível de interlocução com autoridades públicas; uma relação privilegiada é outra coisa. Ela indica diferenciação. Segundo a análise do pesquisador, os adventistas possuíam maior flexibilidade em suas atividades religiosas do que a maioria dos demais grupos, e essa condição estava relacionada aos vínculos estabelecidos com dirigentes revolucionários na Sierra Maestra.
Isso transforma profundamente a maneira como precisamos ler os episódios anteriores. Quando Rosabal esconde Che, quando adventistas fornecem apoio aos revolucionários e quando a assistência clandestina contribui para preservar homens perseguidos, não estamos apenas diante de ações que produziram consequências imediatas para a sobrevivência da guerrilha. Tahbaz identifica uma consequência posterior para a própria denominação. O relacionamento construído durante a luta tornou-se parte da posição diferenciada que os adventistas ocuparam diante do governo revolucionário.
QUANDO CHE PRECISOU DOS ADVENTISTAS, ELES O APOIARAM; QUANDO OS ADVENTISTAS PRECISARAM DE CHE, A RELAÇÃO ABRIU A PORTA
A inversão histórica pode ser formulada sem qualquer artifício porque os documentos mostram as duas cenas. Na Sierra Maestra, Che está ferido, debilitado, perseguido e tentando sobreviver enquanto procura reencontrar Fidel; adventistas lhe dão alimento, abrigo, proteção e apoio, e Rosabal participa diretamente da preservação de seu grupo. Em 1963, Che está instalado no poder revolucionário e a Igreja enfrenta uma questão que depende do governo; Rosabal reaparece, leva o memorando ao antigo beneficiário de sua ajuda e Che intervém. Quando Che precisou dos adventistas, eles o apoiaram; quando os adventistas precisaram de Che, a relação construída durante a guerra abriu a porta.
Essa frase não descreve uma troca formal previamente contratada, mas a consequência histórica de uma relação documentada. A cooperação produz vínculos; vínculos produzem memória; memória produz acesso; e acesso pode produzir tratamento diferenciado. Tahbaz não deixa essa sequência no terreno da nossa interpretação porque ele próprio conecta os relacionamentos estabelecidos na Sierra Maestra à relação privilegiada desfrutada posteriormente pelos adventistas diante do governo revolucionário.
A CUMPLICIDADE PRODUZIU CONSEQUÊNCIA INSTITUCIONAL
É aqui que a palavra “cumplicidade”, utilizada neste livro como caracterização histórica da colaboração prestada durante a luta armada, encontra uma consequência que ultrapassa os indivíduos diretamente envolvidos. Na Sierra Maestra, a cumplicidade aparece na proteção concreta de homens procurados pelo governo, na movimentação clandestina, na transmissão de mensagens e na preservação de armas; depois da vitória, o relacionamento produzido por essas ações ultrapassa a experiência pessoal de Rosabal e passa a ser utilizado numa reivindicação da própria Igreja. O benefício da antiga relação alcança a instituição.
Isso também mostra por que seria inadequado tratar toda a história como uma sucessão de gestos privados sem conexão institucional posterior. Rosabal podia ter agido inicialmente movido por sua própria compreensão religiosa e política, mas, quando a denominação o leva junto aos quatro pastores para chegar a Che, aquilo que ele construíra pessoalmente durante a guerra é incorporado à estratégia institucional. A relação deixa de pertencer apenas à memória de “El Pastor” e torna-se recurso para a Igreja.
A IGREJA SABIA QUAL PONTE UTILIZAR
A composição da comissão revela uma racionalidade simples. Para apresentar uma posição doutrinária, quatro pastores poderiam falar em nome da denominação; para chegar a Che, Rosabal acrescentava aquilo que nenhum título eclesiástico substituía. Ele conhecia o homem. Che conhecia Rosabal. A relação havia sido testada quando ambos estavam em posições completamente diferentes, e agora podia ser mobilizada dentro de uma negociação com o Estado.
A Igreja não apenas possuía uma antiga relação disponível; soube utilizá-la. O episódio de 1963 documenta o momento em que a memória da colaboração deixa de ser apenas lembrança histórica e se transforma em instrumento de interlocução política. A denominação precisava apresentar sua posição sobre o serviço militar e levou à autoridade revolucionária o adventista que possuía acesso pessoal a ela.
A PROFISSÃO DE APARTIDARISMO E A PRÁTICA DO ACESSO PRIVILEGIADO
A diferença entre crença professada e prática documentada reaparece agora em escala institucional. Uma denominação pode professar apartidarismo, declarar distância das disputas pelo poder e ensinar que sua missão transcende sistemas políticos; ao mesmo tempo, sua história pode registrar membros que simpatizaram com revolucionários, assistência clandestina durante a guerra, cooperação institucional em Santa Clara e, depois da vitória, utilização dos relacionamentos construídos com aqueles mesmos revolucionários para chegar ao governo. A profissão de apartidarismo não apaga a prática de relacionamento político, assim como a profissão religiosa contra a violência das irmãs Moya não apagava o “apoio franco” registrado por Che.
Tahbaz leva essa contradição ao ponto mais difícil porque acrescenta o privilégio. Já não estamos discutindo apenas se adventistas se relacionaram com autoridades, algo inevitável para qualquer igreja submetida a um Estado. Estamos diante da conclusão de um pesquisador segundo a qual relações estabelecidas com dirigentes revolucionários durante a Sierra Maestra proporcionaram aos adventistas uma posição privilegiada diante do governo que esses dirigentes posteriormente constituíram.
A HISTÓRIA NÃO TERMINA COM A VITÓRIA NEM COM A PERSEGUIÇÃO
A Revolução Cubana posteriormente atingiria grupos religiosos com políticas repressivas, e os adventistas também enfrentariam dificuldades, convocação militar, restrições e o ambiente autoritário produzido pelo novo Estado. Esses acontecimentos pertencem à mesma história, mas não anulam a relação anterior nem a posição diferenciada identificada por Tahbaz. Ao contrário, permitem perceber uma situação muito mais complexa: mesmo dentro de um regime capaz de restringir severamente a liberdade religiosa, vínculos construídos durante a guerra podiam proporcionar a determinados grupos maior capacidade de negociação e flexibilidade do que aquela disponível a outros.
É precisamente por isso que o estudo de Tahbaz é tão importante. Ele examina um sistema repressivo e, dentro desse sistema, identifica uma diferença favorável aos adventistas; em seguida, explica a origem dessa diferença apontando para as relações estabelecidas na Sierra Maestra. O privilégio não elimina a repressão geral do regime, mas revela que nem todos os grupos religiosos estavam posicionados da mesma maneira diante dele.
OS ADVENTISTAS TAMBÉM PARTICIPARAM DA FORMAÇÃO DA POLÍTICA QUE VIRIA DEPOIS
Tahbaz acrescenta ainda outro elemento importante ao reconstruir o desenvolvimento das políticas relacionadas ao serviço militar e às UMAP: os adventistas apresentaram informações e posições que contribuíram para a formulação da maneira como o governo lidaria com determinadas objeções religiosas. A Igreja, portanto, não aparece apenas recebendo passivamente decisões de um Estado revolucionário; aparece procurando influenciar a forma como essas decisões seriam aplicadas aos seus membros e utilizando o acesso disponível para explicar suas convicções diretamente a autoridades capazes de interferir no processo.
Essa participação precisa ser compreendida dentro da sequência já estabelecida. O relacionamento construído durante a guerra permitiu interlocução; a interlocução permitiu que a posição adventista chegasse a níveis importantes do governo; e o pesquisador identifica maior flexibilidade resultante da relação privilegiada. O movimento iniciado nas montanhas alcançara agora a administração do Estado.
O DOCUMENTO DE TAHBAZ DEVE SER LIDO DEPOIS DE ROSABAL
Quando o leitor chegar ao Apêndice E, a ordem dos documentos fará diferença. A entrevista de Rosabal terá mostrado como a relação foi construída quando Che precisava sobreviver; as passagens de Guevara terão confirmado que o revolucionário conhecia os adventistas e reconhecia o apoio recebido; Caleb Rosado terá registrado a simpatia e a assistência clandestina; Walton Brown terá mostrado a cooperação do Antillian College durante Santa Clara; e então Tahbaz permitirá observar o que aconteceu quando os antigos revolucionários se tornaram autoridades e a Igreja passou a precisar deles.
A expressão “relação privilegiada com o governo revolucionário” não aparecerá, portanto, isolada de sua história. O leitor já conhecerá as pessoas, os acontecimentos e os vínculos que a precederam. Saberá quem era Rosabal quando chegou a Che em 1963 e compreenderá por que a frase “o adventista de quem lhe falei” possui peso documental tão grande. O documento integral não competirá com a narrativa; permitirá verificar como a própria pesquisa de Tahbaz estabelece a continuidade que reconstruímos.
DA SIERRA MAESTRA AO GABINETE DO PODER
A trajetória de Rosabal resume essa transformação melhor do que qualquer abstração. Na Sierra Maestra, ele conhece homens que precisam desaparecer quando as tropas se aproximam; em 1963, ele entra em contato com um dos homens que agora participa do governo. Antes, Rosabal utiliza seu conhecimento do terreno para afastar Che do alcance dos soldados; depois, utiliza o relacionamento construído naquele período para aproximar a Igreja de Che. Antes, a relação funciona contra a capacidade do Estado de Batista de capturar o revolucionário; depois, funciona dentro do Estado revolucionário para favorecer a apresentação de uma demanda adventista.
Essa inversão demonstra por que não podemos separar artificialmente guerrilha e governo. O Che de 1963 é o mesmo homem que passou pela rede adventista durante a guerra; Rosabal é o mesmo adventista; a memória compartilhada é a mesma; o que mudou foi a posição de poder. A cumplicidade da fase clandestina havia produzido uma relação que sobrevivera à mudança do regime.
TAHBAZ FECHA A CADEIA CAUSAL
Até este ponto, os documentos já permitiam reconstruir uma sequência histórica de apoio e continuidade, mas Tahbaz acrescenta aquilo que transforma essa sequência numa cadeia causal explicitamente formulada por um pesquisador: relações estabelecidas por adventistas com dirigentes revolucionários na Sierra Maestra produziram uma relação privilegiada com o governo revolucionário, e essa relação proporcionou maior flexibilidade às atividades religiosas adventistas. Não se trata apenas de colocar cronologicamente dois acontecimentos lado a lado; Tahbaz liga um ao outro.
Essa conclusão modifica definitivamente a leitura de tudo o que veio antes. O prato de comida, o esconderijo, a roupa civil, a mensagem clandestina, a retirada de Che diante da aproximação das tropas e as armas enterradas pertencem à fase em que os revolucionários precisavam dos adventistas; o memorando de 1963, a intervenção de Che e a maior flexibilidade pertencem à fase em que os adventistas precisavam negociar com os revolucionários transformados em governo. Entre as duas fases existe relacionamento, memória e reciprocidade política.
DA “ASSISTÊNCIA CLANDESTINA” À “RELAÇÃO PRIVILEGIADA”
As próprias expressões das fontes começam agora a formar uma sequência impossível de reduzir a um episódio humanitário isolado. Che fala em “apoio franco” e afirma sua continuidade durante a guerra; Caleb Rosado fala em “assistência clandestina”; Argelio Rosabal descreve como essa assistência funcionou; Walton Brown registra a cooperação institucional durante Santa Clara; Joseph Tahbaz identifica uma “relação privilegiada com o governo revolucionário”. Cada expressão pertence a uma fonte diferente e a um momento diferente, mas todas se encaixam numa trajetória que atravessa a guerra e alcança o Estado criado pelos vencedores.
O movimento histórico pode ser acompanhado sem atalhos: apoio durante a perseguição, cooperação durante a guerra, relacionamento pessoal, vitória revolucionária, acesso institucional e tratamento privilegiado. É exatamente essa continuidade que torna a história cubana tão importante para este livro, porque ela mostra que a cumplicidade não terminou quando cessaram os tiros e que a parceria não começou somente depois que Fidel se tornou governante. A relação atravessou as duas fases.
MAS 1963 AINDA NÃO É O FIM
Se a documentação terminasse em 1963, já teríamos uma cadeia histórica extraordinariamente extensa: adventistas ajudando revolucionários desde a Sierra Maestra, Che reconhecendo o apoio, Rosabal explicando a rede, o Antillian College cooperando durante Santa Clara e a Igreja utilizando posteriormente o antigo vínculo para chegar ao novo governo. Mas a documentação não termina ali. Décadas depois, quando Che e Fidel já pertenciam à história do regime cubano e novas gerações de dirigentes adventistas e autoridades comunistas ocupavam seus lugares, a própria imprensa adventista voltaria a descrever a relação entre a organização e o poder cubano utilizando uma expressão que prolonga a cadeia iniciada nas montanhas: “colaboração de longa data”.
Essa expressão nos levará ao próximo capítulo, porque em 2025 já não estaremos lendo a memória de um guerrilheiro, a entrevista de “El Pastor”, a interpretação sociológica de Caleb Rosado ou a pesquisa acadêmica de Joseph Tahbaz. Estaremos diante da própria Adventist Review descrevendo relações mantidas durante décadas entre autoridades cubanas, dirigentes adventistas e estruturas de apoio da denominação, enquanto uma questão administrativa relacionada ao seminário adventista reaparece ligada a anotações que remontavam ao tempo de Che Guevara. A “assistência clandestina” havia se tornado “relação privilegiada”; a relação privilegiada atravessaria o tempo até ser apresentada, pela própria imprensa adventista, como “colaboração de longa data”.
CAPÍTULO 14 — “COLABORAÇÃO DE LONGA DATA”: A IGREJA CAMALEÔNICA E A DENOMINAÇÃO DE ALUGUEL
Quando chegamos a 2025, a história iniciada nas montanhas da Sierra Maestra já atravessou quase sete décadas e adquiriu uma linguagem que permite enxergar retrospectivamente toda a sequência documental reunida neste livro. O que começou com adventistas protegendo sobreviventes do Granma, alimentando guerrilheiros, recolhendo roupas, organizando esconderijos, transmitindo mensagens, deslocando homens perseguidos e preservando armas a pedido de Che Guevara; o que reapareceu nas memórias do próprio Che como “apoio franco” recebido de adventistas “durante todo o transcurso da guerra”; o que Caleb Rosado descreveu como simpatia pelos revolucionários acompanhada de “assistência clandestina”; o que alcançou uma instituição adventista durante a batalha decisiva de Santa Clara, quando o Antillian College forneceu alimentação, atendimento e recursos às forças revolucionárias; o que depois da vitória produziu reconhecimento, interlocução e acesso; o que em 1963 levou novamente Argelio Rosabal até Che Guevara e foi associado por Joseph Tahbaz a uma “relação privilegiada com o governo revolucionário”; tudo isso chega a 2025 dentro das páginas da própria Adventist Review com uma expressão extraordinariamente reveladora: “colaboração de longa data”. A expressão fecha o círculo porque coloca numa mesma perspectiva histórica aquilo que os documentos anteriores já haviam mostrado em diferentes momentos: a relação entre adventistas, a organização denominacional e o poder revolucionário cubano atravessou a guerra, sobreviveu à transformação dos guerrilheiros em governantes, converteu antigos relacionamentos em canais de acesso e continuou produzindo resultados institucionais durante décadas.
A PRÓPRIA ADVENTIST REVIEW DÁ UM NOME À RELAÇÃO
Em 2025, Marcos Paseggi publicou na Adventist Review a reportagem intitulada Cuba Officials Visit Adventist Seminary, Highlight Long-standing Collaboration, que pode ser traduzida como “Autoridades cubanas visitam seminário adventista e destacam colaboração de longa data”. O título merece ser lido palavra por palavra porque a publicação mundial adventista escolheu colaboração para descrever uma relação que envolve o governo cubano, a organização da Igreja Adventista e ministérios adventistas de apoio, acrescentando que essa colaboração é de longa data. Depois de Che, Rosabal, Brown, Santa Clara, Tahbaz e 1963, a expressão de 2025 funciona como uma espécie de legenda colocada ao final de uma longa sequência histórica: aquilo que começou em circunstâncias clandestinas e revolucionárias chegou ao século XXI convertido em relacionamento institucional reconhecido, administrado e publicamente celebrado.
A personagem central da reportagem é Caridad Diego Bello, chefe do Escritório de Assuntos Religiosos do Comitê Central do Partido Comunista de Cuba, posição que a coloca precisamente dentro da estrutura política responsável pela interlocução do Estado cubano com as organizações religiosas. Ao recordar o início de seu trabalho, mais de três décadas antes, Diego contou que encontrou projetos pendentes e anotações provenientes do período revolucionário, entre elas uma relacionada diretamente aos adventistas e atribuída a Ernesto Che Guevara: “Avaliar a possibilidade de autorizar os adventistas do sétimo dia a terem um seminário teológico.” Che reaparece, portanto, décadas depois de sua morte, dentro da memória administrativa das relações entre o Estado revolucionário e a Igreja Adventista, associado a uma questão que dizia respeito à própria formação institucional da denominação em Cuba.
CHE GUEVARA NO COMEÇO E NO FIM DA CADEIA DOCUMENTAL
A presença de Che nessa documentação tardia adquire seu verdadeiro significado quando colocada ao lado dos documentos anteriores reunidos neste livro. Na Sierra Maestra, Che conheceu adventistas quando precisava sobreviver; recebeu comida, proteção e apoio; registrou posteriormente que as mulheres adventistas da família Moya, embora professassem crenças contrárias à violência, deram aos revolucionários “apoio franco” naquele momento e “durante todo o transcurso da guerra”; conheceu Argelio Rosabal, “El Pastor”, em cuja rede encontrou esconderijo, deslocamento, alimentação e proteção; confiou a Rosabal a preservação de armas; e guardou na memória a identidade daquele adventista. Em Santa Clara, já comandando a ofensiva decisiva contra as forças de Batista, Che encontrou novamente uma instituição adventista prestando assistência às necessidades de seus homens. Em 1963, quando a Igreja enfrentou dificuldades relacionadas ao serviço militar de seus jovens, Rosabal reapareceu como ponte entre a denominação e o antigo guerrilheiro transformado em dirigente do Estado, e Che encaminhou o memorando adventista a Carlos Rodríguez identificando Rosabal como “o adventista de quem lhe falei”. Décadas depois, quando Caridad Diego encontrou entre os assuntos herdados do período revolucionário uma anotação de Che relacionada à autorização de um seminário adventista, a cadeia documental ganhou mais um elo: o homem que conhecera adventistas como colaboradores durante a guerra continuava associado, dentro da burocracia revolucionária, a assuntos de interesse institucional da Igreja.
Essa sequência revela uma transformação histórica extraordinariamente clara. Durante a guerra, os revolucionários precisavam dos adventistas; depois da vitória, os adventistas passaram a precisar dos revolucionários transformados em governo. O relacionamento construído em condições de perseguição e clandestinidade adquiriu valor político quando aqueles homens conquistaram o Estado. A assistência produziu memória; a memória produziu relacionamento; o relacionamento produziu acesso; o acesso produziu capacidade de interlocução; e essa interlocução atravessou décadas até aparecer nas páginas da própria Adventist Review sob a expressão “colaboração de longa data”. É exatamente nesse percurso que cumplicidade e parceria encontram seus respectivos lugares históricos: a cumplicidade caracteriza a colaboração concreta com homens empenhados numa luta armada pela conquista do poder; a parceria caracteriza a continuidade do relacionamento quando esses mesmos homens e o movimento ao qual pertenciam se transformaram em Estado.
DO CAMPO DE BATALHA AO SEMINÁRIO TEOLÓGICO
Em 1995, Caridad Diego participou da cerimônia de lançamento da pedra fundamental do Seminário Teológico Adventista de Cuba, em Santiago de las Vegas, Havana. Na ocasião encontrou Robert Folkenberg, então presidente da Associação Geral, e Israel Leito, presidente da Divisão Interamericana, dirigentes que, segundo sua recordação reproduzida pela Adventist Review, “sempre demonstraram um carinho especial por Cuba”. A cena possui uma densidade histórica impressionante quando confrontada com os documentos das décadas anteriores: a relação que começara entre adventistas rurais e guerrilheiros perseguidos agora reunia uma alta funcionária do aparato responsável pelos assuntos religiosos do Estado comunista, o presidente mundial da Igreja Adventista e o presidente da divisão responsável pelo território cubano em torno de um empreendimento destinado à formação de ministros adventistas.
O seminário materializa, dessa forma, algo que vinha sendo construído muito antes. A antiga anotação atribuída a Che sobre a possibilidade de autorizar aos adventistas uma instituição teológica encontra, décadas depois, uma realização concreta dentro de um relacionamento continuado entre a denominação e as autoridades cubanas. Aquele relacionamento possuía memória, interlocutores, canais administrativos e resultados mensuráveis, e a reportagem de 2025 apresenta Caridad Diego recordando décadas de contato com sucessivos dirigentes adventistas, entre eles três presidentes da União Cubana, incluindo Aldo Pérez Reyes, que naquele momento acumulava cerca de quinze anos à frente da Igreja na ilha. A continuidade institucional emerge justamente dessa sucessão: mudaram dirigentes adventistas, mudaram autoridades, passaram-se décadas, mas o relacionamento permaneceu.
“TANTOS ANOS TRABALHANDO JUNTOS”
A linguagem utilizada pelos próprios participantes em 2025 torna a natureza dessa relação ainda mais explícita. Don Noble, presidente da Maranatha Volunteers International, saudou as autoridades cubanas recordando “tantos anos trabalhando juntos”. Aldo Pérez Reyes descreveu uma “relação muito boa”, caracterizada por “comunicação aberta”, acrescentando que essa relação vinha sendo mantida havia muitos anos. Caridad Diego, por sua vez, depois de brincar que os adventistas davam muito trabalho às autoridades, declarou: “Mas queremos continuar trabalhando juntos.” A repetição do verbo trabalhar acompanhado da ideia de continuidade fornece uma descrição espontânea daquilo que o título da própria reportagem já havia chamado de colaboração de longa data.
A importância dessa terminologia aumenta quando observamos quem aparece como participante. A reportagem fala expressamente da colaboração entre o governo do país, “the Adventist Church organization” — a organização da Igreja Adventista — e seus ministérios de apoio dirigidos por leigos. A expressão desloca definitivamente o assunto do terreno das relações pessoais e o coloca no plano organizacional. A história começara com indivíduos adventistas na Sierra Maestra, alcançara o Antillian College em Santa Clara, passara pela utilização institucional de Rosabal em 1963 e chegara a uma relação que a própria imprensa denominacional descrevia incluindo explicitamente a organização da Igreja Adventista. A evolução da linguagem acompanha a evolução da relação.
DUZENTOS EDIFÍCIOS E UMA RELAÇÃO QUE PRODUZIA RESULTADOS
A colaboração também deixou resultados materiais. A versão ampliada da reportagem registra que, em meados da década de 1990, Daniel Fontaine, então presidente da União Cubana, aproximou-se de Caridad Diego para tratar dos projetos da Maranatha. Fontaine apresentou a perspectiva de construção de pelo menos cem igrejas; Diego propôs que o processo começasse em escala menor; ao final, 114 novas igrejas adventistas foram construídas em Cuba. Até o início de 2025, a Maranatha informava ter construído ou reformado substancialmente mais de duzentos edifícios adventistas na ilha. Estamos diante de patrimônio, presença territorial, infraestrutura religiosa e expansão denominacional produzidos dentro de uma relação continuada com um Estado no qual autorizações, atividade religiosa e projetos institucionais passam necessariamente por estruturas governamentais.
Caridad Diego expressou a extensão dessa presença quando declarou aos adventistas: “Vocês estão em toda parte; não existe um município aonde vocês não tenham chegado!” Sua observação revela o resultado territorial de décadas de funcionamento, negociação e construção. A própria autoridade responsável pelos assuntos religiosos reconhecia a capilaridade alcançada pela denominação, enquanto agradecia aos líderes da Maranatha pelo apoio à obra adventista e, segundo suas palavras, ao povo cubano. O Estado possuía interesse na cooperação; a denominação possuía interesse em ampliar e preservar sua estrutura; e o relacionamento mantido durante décadas forneceu o ambiente político e administrativo dentro do qual seminário, templos, reformas e projetos puderam avançar.
DO “APOIO FRANCO” À “COLABORAÇÃO DE LONGA DATA”
Quando reunimos o vocabulário das fontes, a continuidade torna-se ainda mais impressionante. Che Guevara escreveu “apoio franco” e acrescentou “durante todo o transcurso da guerra”; Caleb Rosado registrou que adventistas “simpatizaram com os revolucionários e prestaram assistência clandestina”; Joseph Tahbaz relacionou os vínculos formados durante a luta revolucionária a uma “relação privilegiada com o governo revolucionário”; e a Adventist Review, em 2025, publicou “colaboração de longa data”. As expressões pertencem a autores diferentes, épocas diferentes e circunstâncias diferentes, mas descrevem sucessivos estágios de uma mesma trajetória histórica: apoio franco, assistência clandestina, relação privilegiada e colaboração de longa data. A progressão das palavras acompanha a progressão do relacionamento, desde a clandestinidade da guerrilha até a publicidade das relações institucionais entre a Igreja e o Estado.
É por isso que os documentos reunidos nos apêndices deste livro precisam ser lidos em sequência. O depoimento de Rosabal mostra como funcionava a rede; Che confirma que recebeu apoio adventista e registra sua continuidade durante a guerra; Brown mostra uma instituição adventista cooperando com as forças revolucionárias durante Santa Clara e definindo seletivamente aquilo que faria e aquilo que reservaria à esfera da propaganda política; Rosado chama de assistência clandestina aquilo que adventistas fizeram durante a Revolução; Tahbaz acompanha a transformação dos vínculos revolucionários em acesso ao novo Estado; e a Adventist Review fornece, em 2025, a expressão que descreve o resultado histórico de décadas de relacionamento: colaboração de longa data. O documento integral colocado ao final do livro confirma aquilo que a sequência documental permite enxergar no corpo da narrativa.
A LINHA VERMELHA ESTAVA NA GRÁFICA
Santa Clara continua sendo o episódio que expõe de maneira mais clara a elasticidade do apartidarismo institucional. Brown e Schmidt conversaram diretamente com Che Guevara, explicaram os princípios da instituição e estabeleceram os limites dentro dos quais cooperariam. Quando os revolucionários solicitaram a utilização da gráfica para produzir propaganda política, a administração recusou; quando precisaram de alimentação, atendimento aos feridos, lençóis, travesseiros, bandagens, primeiros socorros e estrutura para homens envolvidos na batalha, a cooperação prosseguiu.
A linha vermelha estava na tinta e no papel, porque imprimir propaganda significaria produzir uma prova material, direta e permanente da participação institucional ao lado de uma força revolucionária. Alimentar, atender, abrigar, fornecer recursos e sustentar logisticamente homens em combate podia ser posteriormente descrito como assistência, socorro ou preservação de vidas; colocar a própria gráfica a serviço da propaganda deixaria um vestígio documental muito mais difícil de reinterpretar. A recusa da impressão preservava a Igreja de fabricar contra si mesma a prova mais explícita de alinhamento político, enquanto a cooperação prática continuava acontecendo fora do papel.
A fronteira, portanto, não estava necessariamente na colaboração, mas naquilo que poderia documentá-la de modo inequívoco. A tinta produziria evidência; o papel produziria memória; a gráfica produziria autoria institucional. A logística podia ser administrada depois pela linguagem religiosa da assistência. A propaganda impressa carregaria o nome, a máquina, o espaço e a participação material da instituição numa peça política produzida para os revolucionários. Recusar a gráfica era também evitar deixar a prova escrita daquilo que a prática já revelava.
A própria capacidade de recusar a gráfica demonstra que a administração exercia escolha. Che foi informado dos limites e os aceitou; os revolucionários procuraram outro local para imprimir seu material; o relacionamento com o colégio prosseguiu; centenas de homens passaram pela alimentação fornecida pela instituição; feridos receberam assistência; e, depois da vitória, as autoridades revolucionárias recordaram o que havia acontecido. Quando funcionários reconheceram os adventistas dizendo que haviam comido no Antillian College durante a batalha de Santa Clara, estavam identificando uma experiência concreta que sobrevivera na memória dos vencedores. O apartidarismo professado preservou a gráfica da propaganda, enquanto a prática institucional colocou recursos materiais do colégio dentro da retaguarda de uma força revolucionária empenhada em conquistar a cidade e derrubar o governo.
A CRENÇA PROFESSADA E A PRÁTICA DOCUMENTADA
A mesma contradição aparece em escala individual nas palavras de Che sobre as mulheres adventistas da família Moya. Segundo ele, suas crenças as colocavam contra toda espécie de violência; sua prática, entretanto, produziu “apoio franco” aos homens que utilizavam a violência como instrumento revolucionário e continuou durante todo o transcurso da guerra. A formulação oferece uma chave para compreender todo o problema cubano: adventistas podiam professar uma convicção religiosa contrária à violência e, simultaneamente, colaborar com os homens que a utilizavam como instrumento revolucionário. Rosabal amplia essa contradição ao organizar proteção, esconderijos, alimentação, roupas, deslocamentos, mensagens e preservação de armas; Santa Clara a transfere para uma instituição; 1963 mostra o relacionamento sendo utilizado para chegar ao poder; e 2025 mostra sua continuidade institucionalizada.
O mesmo princípio se aplica ao apartidarismo. Uma organização pode professar apartidarismo enquanto sua prática constrói relações políticas concretas, seletivas e vantajosas com aqueles que controlam o poder. Em Cuba, a distância entre profissão e prática atravessa toda a documentação. O discurso preserva a identidade religiosa; a prática administra a sobrevivência, o patrimônio, o acesso, a expansão e a relação com o Estado. É justamente dessa distância entre aquilo que se professa e aquilo que se pratica que nasce uma das perguntas centrais deste livro: quantas Igrejas Adventistas existem?
QUANTAS IGREJAS ADVENTISTAS EXISTEM?
Existe a Igreja que ensina apartidarismo e existe a Igreja que encontra espaço para cooperar com revolucionários; existe a Igreja que professa princípios contrários à violência e existe a Igreja cujos membros protegem homens armados, preservam suas armas e contribuem para sua sobrevivência; existe a Igreja que considera propaganda política uma fronteira perigosa e existe a Igreja que fornece recursos materiais aos combatentes de uma revolução; existe a Igreja que proclama independência diante do poder e existe a Igreja que utiliza relações construídas durante a guerra para obter interlocução com o governo; existe a Igreja que apresenta sua missão como exclusivamente religiosa e existe a Igreja que celebra décadas de comunicação aberta e trabalho conjunto com autoridades de um Estado comunista. Todos esses rostos pertencem à mesma denominação. A multiplicidade aparece na capacidade institucional de modificar sua relação com o poder conforme mudam as circunstâncias, preservando o discurso religioso enquanto adapta a prática às condições políticas de cada momento.
EM CUBA, IACSD — IGREJA APARTIDÁRIA COMUNISTA DO SÉTIMO DIA
É nesse ponto que o título deste livro alcança seu significado completo. Em Cuba, IACSD significa Igreja Apartidária Comunista do Sétimo Dia. “Apartidária” porque a denominação preserva formalmente a profissão de independência partidária; “Comunista” porque a documentação cubana revela apoio aos homens da Revolução, cooperação durante a luta armada, relacionamento com os vencedores, acesso aos dirigentes revolucionários, relação privilegiada com o governo resultante e colaboração de longa data com estruturas do Estado dirigido pelo Partido Comunista. O adjetivo descreve a cor política assumida pela relação documentada em Cuba, onde a trajetória começou ao lado dos homens que lutavam para derrubar Batista e chegou a décadas de interlocução institucional com o regime estabelecido pela Revolução.
A contradição alcança aqui sua dimensão teológica porque o comunismo marxista-leninista cubano nasceu de uma concepção materialista da história e da sociedade, organizou o Estado revolucionário sob direção de um partido comunista e submeteu a atividade religiosa a estruturas políticas responsáveis por autorizá-la, acompanhá-la e regulá-la. A Igreja que se apresenta como portadora de uma mensagem proveniente de Deus construiu uma história de colaboração com homens e estruturas pertencentes a um projeto ideológico que coloca o materialismo no fundamento de sua interpretação do mundo. A pergunta de Paulo, portanto, atravessa a história cubana com uma força impossível de domesticar: “Que parceria pode haver entre a luz e as trevas?”
IACSD — IGREJA APARTIDÁRIA CAMALEÔNICA DO SÉTIMO DIA
A experiência cubana revela também um significado mais amplo para a mesma sigla: IACSD — Igreja Apartidária Camaleônica do Sétimo Dia. Camaleônica porque a permanência institucional convive com a capacidade de assumir a cor necessária diante do ambiente político. O camaleão continua sendo o mesmo organismo enquanto muda de cor; a Organização continua sendo a mesma denominação enquanto ajusta linguagem, relações e formas de aproximação ao poder diante do qual precisa preservar seus interesses. Em Cuba, a cor foi a da aproximação com a Revolução e com o Estado comunista; o princípio operacional revelado por essa história é a capacidade de adaptação institucional ao poder.
É nesse sentido que o próprio apartidarismo adquire uma ironia profunda. Apartidária porque não possui partido definido; camaleônica porque pode adaptar-se ao partido, regime ou ideologia que detenha o poder e com o qual seja vantajoso estabelecer relações. Uma fidelidade partidária permanente limitaria a capacidade de negociação da Organização; o apartidarismo deixa suas mãos livres. O governante muda, a interlocução pode mudar com ele; o regime muda, a linguagem pode adaptar-se; a ideologia dominante muda, a Organização encontra a tonalidade adequada para preservar funcionamento, patrimônio, acesso, influência e expansão. O apartidarismo transforma-se, assim, de aparente ausência de política em extraordinária liberdade institucional para relacionar-se politicamente com todos.
A DENOMINAÇÃO DE ALUGUEL
A imagem da Igreja camaleônica conduz diretamente à expressão ainda mais grave: denominação de aluguel. A primeira descreve a mudança de cor; a segunda revela a lógica de interesse que pode mover essa adaptação. Uma denominação de aluguel permanece disponível ao poder que possa oferecer condições favoráveis à preservação e ao crescimento de sua estrutura, convertendo relacionamento político em proteção, acesso, patrimônio, influência, autorizações, construções, expansão e capacidade de operação. Sua mercadoria mais valiosa é justamente a flexibilidade: sem partido permanente, pode negociar com todos; sem cor política definitiva, pode assumir a tonalidade do ambiente; com uma estrutura internacional, recursos, escolas, hospitais, templos, projetos sociais, comunicação e milhões de membros, possui ativos institucionais que interessam aos governos enquanto os governos possuem aquilo de que a Organização necessita para funcionar e crescer.
O lucro dessa relação ultrapassa dinheiro depositado em contas. Existe lucro financeiro, lucro patrimonial, lucro político, lucro administrativo e lucro institucional. Há ganho quando patrimônio é preservado; há ganho quando construções são autorizadas; há ganho quando escolas e seminários funcionam; há ganho quando dirigentes obtêm acesso às autoridades; há ganho quando uma instituição recebe tratamento favorável; há ganho quando centenas de edifícios podem ser construídos ou reformados; há ganho quando a Organização amplia sua presença territorial; há ganho quando canais políticos facilitam aquilo que a estrutura denominacional deseja realizar. Em Cuba, a própria história documentada mostra a progressão que vai do apoio aos revolucionários à relação privilegiada e da relação privilegiada à colaboração de longa data acompanhada de resultados institucionais concretos.
É precisamente aí que Igreja camaleônica e denominação de aluguel se encontram. A Igreja camaleônica muda de cor diante do poder; a denominação de aluguel transforma a adaptação em instrumento de benefício institucional. O poder também recebe aquilo que lhe interessa: legitimidade social, cooperação, estabilidade, serviços, interlocução com uma comunidade religiosa e uma organização capaz de mobilizar pessoas e recursos. A relação torna-se reciprocamente útil, e aquilo que começou em Cuba quando adventistas ajudaram homens perseguidos de uma guerrilha termina, décadas depois, descrito publicamente como trabalho conjunto entre autoridades governamentais, a organização da Igreja e seus ministérios de apoio.
APARTIDÁRIA PORQUE SERVE A TODOS
A palavra apartidária pode, portanto, carregar uma segunda leitura muito mais perturbadora: uma organização sem partido definido conserva a liberdade de servir a diferentes projetos políticos conforme mudam o país, o regime, a época e os interesses envolvidos. O apartidarismo torna-se a ausência de uma fidelidade política permanente que impediria a Organização de aproximar-se do próximo poder. Hoje a cor pode ser vermelha; amanhã poderá ser outra; o elemento permanente é a capacidade de adaptação. A ideologia do interlocutor passa a ser circunstancial quando o objetivo institucional é preservar espaço de funcionamento, influência, patrimônio, crescimento e capacidade de negociação.
Em Cuba, essa lógica aparece com extraordinária nitidez porque a Organização conviveu com uma transformação radical do poder político e encontrou caminhos de relacionamento durante todas as etapas decisivas: adventistas estiveram presentes quando Fidel e Che eram perseguidos; o Antillian College esteve presente quando Che comandava a batalha que ajudaria a derrubar Batista; Rosabal esteve presente quando a Igreja precisou chegar a Che já instalado no novo poder; dirigentes denominacionais estiveram presentes quando o relacionamento com o Estado comunista passou a determinar questões institucionais; e a Adventist Review esteve presente, em 2025, para registrar que governo, organização da Igreja e ministérios adventistas possuíam uma “colaboração de longa data”. A cor permaneceu vermelha em Cuba porque vermelho permaneceu o poder com o qual a Organização precisava relacionar-se.
QUE PARCERIA PODE HAVER ENTRE A LUZ E AS TREVAS?
Chegamos, assim, à pergunta que julga toda essa história por um critério superior à conveniência política e ao sucesso administrativo: “Que parceria pode haver entre a luz e as trevas?” Uma Igreja que afirma pertencer a Deus possui uma referência acima do Estado, do partido, do patrimônio e da própria sobrevivência institucional. A fidelidade bíblica estabelece limites precisamente quando ultrapassá-los oferece vantagens. O princípio vale quando custa; a convicção revela sua autenticidade quando fechar uma porta política é o preço de permanecer fiel; a identidade religiosa demonstra sua substância quando patrimônio, acesso, influência e expansão deixam de determinar aquilo que pode ser negociado.
O problema revelado por Cuba é exatamente o inverso: a documentação mostra uma extraordinária capacidade de adaptação. As mulheres Moya podiam professar uma convicção religiosa contrária à violência e colaborar com homens que a utilizavam como instrumento revolucionário; Rosabal podia reunir adventistas no sábado para organizar a proteção de guerrilheiros, preservar armas e deslocar homens perseguidos; o Antillian College podia preservar a aparência formal de apartidarismo recusando propaganda e, simultaneamente, colocar recursos materiais a serviço das necessidades das forças revolucionárias; a Igreja podia posteriormente utilizar o relacionamento construído com Che para tratar de seus interesses diante do novo governo; a relação podia tornar-se privilegiada; e décadas de convivência podiam finalmente ser apresentadas como colaboração de longa data. A crença permanecia no discurso; a adaptação governava a prática.
COMUNISTA EM CUBA, CAMALEÔNICA NO MUNDO
É essa história que permite concluir o capítulo com os dois significados de IACSD. Em Cuba, IACSD é Igreja Apartidária Comunista do Sétimo Dia, porque ali a documentação acompanha a aproximação com revolucionários comunistas desde a luta armada até a relação institucional prolongada com o Estado que eles construíram. No restante do mundo, IACSD é Igreja Apartidária Camaleônica do Sétimo Dia, expressão que define uma Organização cuja ausência de partido permanente lhe permite mudar de cor conforme o poder político diante do qual pretende preservar espaço, influência e interesses. O comunismo cubano fornece uma das cores; o camaleonismo fornece o mecanismo.
E é justamente o mecanismo que conduz à imagem final da denominação de aluguel: uma organização disponível para estabelecer relações com projetos políticos diferentes quando dessas relações resultam benefícios financeiros, patrimoniais, políticos ou institucionais. Seu apartidarismo passa a significar disponibilidade; seu camaleonismo fornece adaptação; sua estrutura oferece utilidade ao poder; o poder oferece utilidade à estrutura. Apartidária porque não possui partido definido, camaleônica porque assume a cor conveniente, de aluguel porque transforma essa flexibilidade em instrumento para proteger, ampliar e fortalecer a própria Organização.
Os documentos cubanos conduzem a essa conclusão por uma sequência que começa entre homens famintos e perseguidos nas montanhas, atravessa armas enterradas, esconderijos, alimentos, mensagens, hospitais improvisados, a batalha de Santa Clara, refeições fornecidas aos revolucionários, negociações com Che, reconhecimento dos vencedores, memorandos entregues ao novo poder, relações privilegiadas, autorizações, seminário, templos, centenas de edifícios e décadas de trabalho conjunto, até desembocar numa expressão publicada pela própria Igreja: “colaboração de longa data”. O nome IACSD nasce dessa sequência. Em Cuba, Igreja Apartidária Comunista do Sétimo Dia; diante do poder, Igreja Apartidária Camaleônica do Sétimo Dia; quando a adaptação ao poder se converte em vantagem para a estrutura, denominação de aluguel.
E acima de todas essas denominações permanece a pergunta bíblica que nenhuma vantagem institucional consegue silenciar: “Que parceria pode haver entre a luz e as trevas?” Porque uma Igreja pode construir templos, ampliar patrimônio, abrir seminários, conquistar acesso, preservar estruturas e multiplicar sua presença territorial; pode aprender a conversar com revolucionários, generais, burocratas, partidos e governos; pode mudar de linguagem e de cor conforme muda o poder; pode transformar antigos colaboradores em interlocutores e antigos interlocutores em parceiros; mas, quando sua identidade religiosa passa a adaptar-se ao poder que lhe oferece vantagens, a questão decisiva deixa de ser quanto a Organização ganhou com essa relação e passa a ser a quem ela estava servindo enquanto ganhava.
RELEITURA FINAL DE IACSD: A IGREJA APARTIDÁRIA CAMALEÔNICA DO SISTEMA DIABÓLICO
Há, porém, uma última leitura da sigla IACSD que precisa permanecer para o encerramento, porque ela desloca definitivamente a investigação do terreno político para o terreno profético e oferece, dentro da interpretação bíblica desenvolvida por este livro, a conclusão mais pesada de todas: IACSD — Igreja Apartidária Camaleônica do Sistema Diabólico. Depois de Igreja Apartidária Comunista do Sétimo Dia, expressão que identifica a cor assumida pela relação documentada em Cuba, e de Igreja Apartidária Camaleônica do Sétimo Dia, expressão que identifica a capacidade de adaptação da estrutura denominacional diante do poder, chegamos à leitura escatológica daquilo que esse camaleonismo representa. O problema deixa de ser simplesmente a capacidade de conviver com governos diferentes e passa a ser a disposição de uma organização religiosa para encontrar lugar dentro das estruturas de poder deste mundo, oferecendo cooperação, legitimidade, presença social e capacidade de mobilização enquanto recebe acesso, proteção, patrimônio, autorização, influência e condições para expandir-se.
É nesse ponto que a imagem de Apocalipse se torna perturbadoramente apropriada. O texto profético apresenta um sistema relacionado com “os reis da terra”, uma mulher assentada sobre uma besta de sete cabeças, envolvida numa relação de prostituição com o poder. As sete cabeças expressam a pluralidade de possibilidades de um sistema capaz de operar por diferentes formas de pensamento, linguagens, governos e ideologias, preservando acima delas o mesmo interesse de permanência e domínio. Sete cabeças significam multiplicidade de caminhos para chegar aos reis da terra; diferentes cabeças podem falar diferentes linguagens, assumir diferentes tonalidades políticas e relacionar-se com poderes incompatíveis entre si, enquanto o corpo permanece o mesmo. É precisamente essa capacidade que caracteriza a Igreja camaleônica: uma face diante de um governo, outra diante do seguinte; uma linguagem para a esquerda, outra para a direita; aproximação com socialistas onde governam socialistas, acomodação com conservadores onde governam conservadores, convivência com comunistas onde o comunismo controla o Estado e disponibilidade para qualquer outra configuração ideológica que ofereça proteção, acesso, influência, patrimônio e expansão.
A palavra apartidária alcança então sua releitura mais sombria. O apartidarismo deixa de representar apenas ausência de filiação partidária e passa a significar disponibilidade para múltiplas alianças, porque quem pertence definitivamente a um lado perde a possibilidade de vender seus serviços ao outro. A Igreja camaleônica precisa permanecer sem cor permanente justamente para conservar todas as cores disponíveis. Sua pluralidade ideológica torna-se funcional: uma cabeça pode conversar com um poder, outra com o poder seguinte; uma linguagem serve ao revolucionário, outra ao conservador; uma aproximação abre portas no socialismo, outra preserva interesses no capitalismo. A Organização atravessa os sistemas porque sua fidelidade prática concentra-se na perpetuação da própria máquina institucional.
SETE CABEÇAS, MUITAS CORES, UM MESMO INTERESSE
As sete cabeças representam também a multiplicidade necessária ao camaleonismo religioso: sete formas de pensar, sete possibilidades de discurso, sete possibilidades ideológicas, sete caminhos de adaptação, tantas cores quantas forem necessárias para permanecer junto aos reis da terra. Uma cabeça serve para um ambiente político; outra encontra linguagem para o ambiente seguinte; uma aproxima-se do revolucionário, outra do conservador; uma negocia sob o socialismo, outra prospera sob o capitalismo. Os sistemas políticos mudam, mas o interesse denominacional permanece: preservar a Organização, ampliar sua presença, proteger seu patrimônio, conquistar espaço, alcançar autoridades e permanecer útil ao poder que controla as condições de sua existência.
A denominação de aluguel encontra aqui sua expressão profética mais severa, porque já não estamos falando simplesmente de uma instituição que procura sobreviver, mas de uma estrutura capaz de converter sua flexibilidade religiosa em moeda de relacionamento com o poder. Ela oferece presença social, capilaridade, disciplina organizacional, instituições, comunicação, serviços, influência sobre seus membros e respeitabilidade religiosa; em troca, busca espaço, reconhecimento, autorizações, proteção, expansão, patrimônio e acesso. Cada novo poder encontra uma organização preparada para dialogar em sua linguagem.
É exatamente por isso que camaleônica e de aluguel precisam permanecer juntas. O camaleão explica como a mudança acontece; o aluguel explica para que ela serve. A prostituição profética acrescenta a dimensão espiritual: aquilo que deveria pertencer exclusivamente a Deus coloca-se em relação de conveniência com os poderes da terra e recebe benefícios dessa relação. Nesse enquadramento, prostituir-se significa transformar fidelidade em moeda, disponibilizar aquilo que deveria permanecer consagrado e permitir que conveniência, proteção, influência e vantagem determinem relacionamentos que deveriam ser julgados primeiro pela Palavra de Deus. A prostituição começa quando aquilo que pertence a Deus passa a ter preço.
EM CUBA, UMA DAS CABEÇAS MOSTROU A COR VERMELHA
Em Cuba, uma das sete cabeças mostrou a cor vermelha. Adventistas apoiaram homens perseguidos da guerrilha; Che Guevara registrou “apoio franco” durante todo o transcurso da guerra; Argelio Rosabal organizou proteção, esconderijos, alimentos, roupas, deslocamentos, mensagens e preservação de armas; Caleb Rosado registrou simpatia pelos revolucionários e “assistência clandestina”; o Antillian College colocou recursos materiais à disposição das forças revolucionárias durante a batalha de Santa Clara; os relacionamentos da guerra sobreviveram à vitória; Rosabal voltou a chegar a Che quando a Igreja precisou do governo; Joseph Tahbaz registrou uma relação privilegiada; e a própria Adventist Review terminou chamando décadas dessa relação de “colaboração de longa data”. Em Cuba, IACSD foi Igreja Apartidária Comunista do Sétimo Dia.
IACSD — Igreja Apartidária Camaleônica do Sistema Diabólico. O sistema é o dos reis da terra, das alianças entre religião e poder, da sedução institucional e da prostituição espiritual descritas pelas profecias bíblicas. A Igreja oferece aquilo que possui — influência, estrutura, capilaridade, instituições, comunicação, serviços, capacidade de mobilização e legitimidade religiosa — e recebe aquilo que o poder controla — reconhecimento, proteção, funcionamento, patrimônio, autorizações, expansão e acesso. Quando aquilo que deveria estar exclusivamente consagrado a Deus se transforma em moeda de negociação com os poderes deste mundo, a adaptação torna-se prostituição espiritual.
UMA IGREJA PARA OS REIS DA TERRA
A questão decisiva passa a ser aquilo que uma Igreja oferece aos reis da terra e aquilo que espera receber deles. Uma organização mundial possui extraordinário valor político: alcança milhões de pessoas, administra escolas, universidades, hospitais, meios de comunicação, editoras, projetos assistenciais, propriedades, templos e estruturas administrativas; forma opiniões, estabelece comportamentos e possui canais internacionais capazes de atravessar fronteiras. Para qualquer governo, uma estrutura assim pode ser interlocutora valiosa. Para a própria estrutura religiosa, o governo controla elementos igualmente valiosos: legislação, tributação, autorizações, reconhecimento jurídico, funcionamento de instituições, importações, construções, propriedade, circulação de dirigentes e inúmeras condições materiais necessárias à expansão. Quando esses interesses se encontram, nasce a tentação permanente de transformar fidelidade espiritual em negociação institucional.
É aqui que a denominação de aluguel alcança sua definição final: uma instituição religiosamente disponível para servir aos reis da terra enquanto os reis da terra servem aos interesses de sua estrutura. Seu valor está justamente na flexibilidade. Um partido permanente reduziria seu mercado político; uma ideologia permanente fecharia portas; uma cor permanente impediria o camaleão de adaptar-se ao próximo ambiente. O apartidarismo, convertido em instrumento de conveniência, oferece a solução perfeita: nenhuma fidelidade partidária definitiva, nenhuma cor política irreversível, nenhuma aliança que impeça a próxima. Serve ao poder presente, preserva a estrutura e permanece disponível para o poder seguinte.
PROSTITUIR-SE PARA PERMANECER
A linguagem bíblica da prostituição espiritual é brutal precisamente porque trata a fidelidade como exclusividade. Israel é apresentado pelos profetas como esposa quando pertence a Deus e como prostituta quando entrega a outros aquilo que deveria reservar ao Senhor; Apocalipse retoma essa linguagem e a conecta aos reis da terra, ao poder, à riqueza e à sedução. A pergunta sobre uma denominação camaleônica torna-se inevitável: quantas vezes uma instituição pode mudar de cor diante dos reis da terra antes que adaptação passe a significar prostituição? Quando acesso político, proteção patrimonial, influência, reconhecimento, crescimento e expansão pesam mais do que a separação entre luz e trevas, a flexibilidade deixa de ser simples estratégia administrativa e passa a revelar a natureza espiritual do relacionamento.
É por isso que a pergunta paulina retorna com ainda maior força: “Que parceria pode haver entre a luz e as trevas?” O problema já não é determinar se determinado governante está à esquerda ou à direita, se determinada economia é capitalista ou socialista ou se determinado regime oferece vantagens maiores ou menores à denominação. A pergunta é anterior a todas essas classificações: quem determina os limites da Igreja? Se os limites são determinados pela Palavra, haverá poderes diante dos quais a fidelidade custará patrimônio, acesso, influência e crescimento; se os limites são determinados pela preservação institucional, haverá sempre uma nova cor disponível, uma nova linguagem possível, uma nova cabeça capaz de conversar com o próximo rei da terra.
TRÊS LEITURAS DA MESMA SIGLA
Chegamos assim às três leituras que encerram esta investigação. IACSD — Igreja Apartidária Comunista do Sétimo Dia: em Cuba, onde os documentos deste livro registram apoio a homens da Revolução, assistência durante a guerra, relações construídas com seus dirigentes, acesso ao governo revolucionário e uma colaboração que atravessou décadas. IACSD — Igreja Apartidária Camaleônica do Sétimo Dia: a imagem da instituição capaz de mudar sua tonalidade política conforme o poder diante do qual precisa proteger e ampliar seus interesses. E, finalmente, IACSD — Igreja Apartidária Camaleônica do Sistema Diabólico: a estrutura religiosa que encontra seu lugar entre os reis da terra, dispõe de múltiplas linguagens e possibilidades ideológicas e transforma a adaptação ao poder em instrumento de sobrevivência, influência e expansão.
As três expressões convergem na imagem da denominação de aluguel. Em Cuba, alugou sua disponibilidade à cor revolucionária; no mecanismo camaleônico, conserva a possibilidade de assumir outras cores; na dimensão profética, essa disponibilidade coloca a instituição dentro do drama bíblico das estruturas religiosas que se relacionam com os reis da terra e transformam fidelidade em conveniência. Sete cabeças, sete formas de pensar, sete possibilidades ideológicas, sete cores disponíveis: a multiplicidade necessária para continuar negociando quando muda o poder. A instituição permanece; os reis passam. A Organização permanece; os regimes passam. A estrutura permanece; as ideologias passam. E justamente porque todas passam, o camaleão precisa conservar a capacidade de assumir a cor da próxima.
A ÚLTIMA PERGUNTA
Depois de treze capítulos, a investigação termina onde deveria terminar: diante de uma questão espiritual. Os documentos mostraram adventistas e Revolução Cubana encontrando-se na clandestinidade, na sobrevivência dos guerrilheiros, na batalha, na vitória, no acesso ao governo, na relação privilegiada e na colaboração de longa data. A sequência conduz a história da política à teologia e da teologia à profecia. Comunista em Cuba, camaleônica diante dos poderes, de aluguel quando a adaptação produz vantagens e integrada ao sistema diabólico quando a fidelidade que pertence a Deus é negociada com os reis da terra. Essa é a conclusão interpretativa à qual chegamos depois de colocar lado a lado as palavras de Che Guevara, o depoimento de Argelio Rosabal, o relato de Walton J. Brown, a análise de Caleb Rosado, a investigação de Joseph Tahbaz e a surpreendente linguagem escolhida pela própria Adventist Review em 2025.
E aqui termina o décimo terceiro capítulo. Treze. A coincidência proposital máxima para um livro que termina confrontando uma Igreja com as imagens de Apocalipse 13 e com a pergunta que percorreu silenciosamente toda esta investigação: quando uma organização religiosa pode assumir tantas cores quantas forem necessárias para permanecer próxima dos reis da terra, quem é realmente o seu Senhor?
DOSSIÊ DOCUMENTAL — OS DOCUMENTOS QUE SUSTENTAM ESTA INVESTIGAÇÃO
Os documentos reproduzidos nos apêndices formam a segunda parte deste livro e estão organizados como um dossiê documental, seguindo a própria cronologia da relação entre adventistas, Che Guevara, Fidel Castro, a Revolução Cubana e o governo que nasceu dela. A sequência começa com a guerra e termina em 2025, permitindo que o leitor percorra novamente a investigação, desta vez diretamente pelas fontes. Cada apêndice começa com uma pequena ficha editorial contendo identificação, procedência, data, contexto e importância do documento; imediatamente depois entra o documento integral, sem comentários intercalados. Assim, o leitor primeiro conhece a peça, depois a lê inteira e pode confrontá-la com aquilo que encontrou nos treze capítulos.
NOTA AO LEITOR SOBRE OS DOCUMENTOS
Este livro nasceu de uma investigação documental. Por essa razão, reunimos ao final do volume os principais documentos utilizados na reconstrução dos acontecimentos. Ao longo dos capítulos, indicamos repetidamente o apêndice correspondente, permitindo que o leitor interrompa a narrativa quando desejar, consulte a fonte e confronte aquilo que acabou de ler com o registro histórico que sustenta nossa reconstrução. Aqui estão as palavras dos participantes, os relatos publicados pela própria imprensa adventista, as memórias de Che Guevara, o extenso depoimento de Argelio Rosabal, a análise posterior de Caleb Rosado, a documentação estudada por Joseph Tahbaz e, finalmente, a reportagem publicada pela Adventist Review em 2025. O leitor chegou até aqui acompanhando nossa reconstrução; a partir daqui, os documentos assumem o primeiro plano.
APÊNDICE A — CHE GUEVARA: OS ADVENTISTAS DERAM “APOIO FRANCO” “DURANTE TODO O TRANSCURSO DA GUERRA”
Documento: passagens de Pasajes de la guerra revolucionaria, de Ernesto Che Guevara.
Autor: Ernesto Che Guevara.
Período narrado: guerra revolucionária cubana, particularmente os acontecimentos posteriores ao desembarque do Granma.
Conteúdo: passagens referentes às adventistas da família Moya e a Argelio Rosabal, “El Pastor”.
Apresentação: texto original em espanhol acompanhado da tradução portuguesa.
Este é o primeiro documento porque coloca diante do leitor a voz do próprio beneficiário da assistência. Che identifica expressamente as mulheres Moya como adventistas e registra que, embora suas crenças fossem contrárias à violência, deram aos revolucionários “apoio franco” naquele momento e “durante todo o transcurso da guerra”. Em outra passagem, Che identifica nominalmente “um adventista chamado Argelio Rosabal”, conhecido como “El Pastor”, e registra sua participação na transferência dos guerrilheiros para um esconderijo mais seguro. O documento estabelece desde o início uma peça fundamental do dossiê: o próprio Che preservou em suas memórias a participação adventista na rede que o auxiliou durante a guerra. A obra utilizada é uma edição autorizada; sua versão original foi publicada em 1963 com aprovação e revisão de Che, enquanto a edição posterior incorporou correções manuscritas deixadas por ele.
APÊNDICE B — ARGELIO ROSABAL: 23 PÁGINAS SOBRE A REDE ADVENTISTA QUE PROTEGEU CHE E SEUS COMPANHEIROS
Documento: entrevista de Argelio Rosabal a Tad Szulc.
Entrevistado: Argelio Rosabal.
Entrevistador: Tad Szulc, com intervenções de Pedro A. Tabio.
Arquivo: Tad Szulc Collection, Archives & Special Collections, Otto G. Richter Library, University of Miami.
Localização: Accession 88-2, Box 3, Folder 37, “Rosabal, Argelio — Interview, Sierra Maestra, no date”.
Extensão: 23 páginas.
Apresentação: reprodução/transcrição e tradução integral.
Depois de ouvir Che, o leitor recebe a versão extensa de um dos adventistas que participou dos acontecimentos. Rosabal identifica sua ligação com a Igreja Adventista, sua atuação como dirigente local e diretor da Escola Sabatina e descreve a reunião realizada no sábado em que convocou outros adventistas diante da situação dos sobreviventes perseguidos. É nesse relato que aparece “Temos que salvar essa gente”. A entrevista permite acompanhar a operação em detalhes: adventistas mobilizados, homens escondidos, roupas recolhidas, alimentos providenciados, fugitivos distribuídos entre pessoas de confiança, deslocamentos realizados durante a noite, mensagens transmitidas, vigilância contra as forças de Batista e armas e munições preservadas a pedido de Che.
A leitura consecutiva dos dois primeiros apêndices é fundamental: primeiro o guerrilheiro afirma que adventistas lhe deram apoio; em seguida, um dos adventistas mencionados por ele explica extensamente como essa colaboração funcionou. É aqui que a confirmação cruzada ganha sua força máxima.
APÊNDICE C — WALTON J. BROWN: O ANTILLIAN COLLEGE DURANTE A BATALHA DE SANTA CLARA
Documento: “During the Recent Revolution in Cuba, God’s Work Was Safe Under HIS Wings”.
Autor: Walton J. Brown, presidente do Antillian College.
Publicação: Review and Herald.
Data: 30 de abril de 1959.
Volume: 136.
Número: 18.
Páginas: 16, 17, 21, 23 e 24.
Apresentação: artigo integral, com reprodução das páginas originais seguida da tradução integral.
A posição deste documento depois de Rosabal é deliberada. O leitor sai da Sierra Maestra e chega a Santa Clara; sai de uma rede formada por adventistas locais e chega a uma instituição denominacional administrada. Brown escreveu apenas quatro meses depois da batalha e publicou seu relato na própria Review and Herald. O documento registra o encontro de Brown e C. E. Schmidt com Che Guevara, pedidos feitos pelos revolucionários, alimentação fornecida, atendimento relacionado aos feridos, materiais disponibilizados, a presença de numerosos homens das forças revolucionárias e aproximadamente 180 deles alimentados no colégio em 1º de janeiro de 1959.
Este é também o documento da linha vermelha da gráfica. A administração recusou imprimir propaganda revolucionária enquanto continuou prestando outras formas de assistência. A propaganda impressa produziria uma peça política materialmente vinculada à instituição; a assistência logística podia posteriormente ser narrada sob categorias religiosas e humanitárias. A linha vermelha estava na tinta e no papel porque imprimir propaganda significaria produzir uma prova material, direta e permanente da participação institucional ao lado de uma força revolucionária. A gráfica produziria evidência, memória e autoria institucional, enquanto a cooperação prática continuava acontecendo fora do papel.
APÊNDICE D — CALEB ROSADO: “CASTRO AND THE CHURCHES” E A “ASSISTÊNCIA CLANDESTINA”
Documento: “Castro and the Churches”.
Autor: Caleb Rosado.
Publicação: Spectrum.
Data: 1984.
Extensão: páginas impressas 24–27.
Apresentação: artigo integral e tradução integral.
Rosado entra depois dos documentos produzidos pelos participantes porque sua função é diferente. Ele olha retrospectivamente para a história cubana e preserva duas expressões fundamentais para este dossiê: adventistas “simpatizaram com os revolucionários” e prestaram “assistência clandestina”. O texto integral permitirá ao leitor conhecer exatamente as qualificações utilizadas pelo próprio autor; nossa interpretação nasce do confronto desse documento com Che Guevara, Argelio Rosabal, Walton J. Brown e as demais fontes reunidas neste livro.
O documento permite observar também a construção narrativa utilizada por Rosado: Batista é apresentado por sua crueldade e corrupção antes do registro da simpatia e da assistência aos seus adversários. Depois de Che, Rosabal e Brown, porém, o leitor já conhece os acontecimentos que Rosado organiza retrospectivamente. Sua expressão “assistência clandestina” pode então ser confrontada com ações concretamente documentadas: proteção, esconderijos, roupas, alimentos, mensagens, deslocamentos, vigilância, ocultação de armamento e, posteriormente, assistência institucional durante Santa Clara.
APÊNDICE E — JOSEPH TAHBAZ: DA SIERRA MAESTRA À “RELAÇÃO PRIVILEGIADA COM O GOVERNO REVOLUCIONÁRIO”
Documento: estudo de Joseph Tahbaz sobre os adventistas, o governo revolucionário cubano, o serviço militar e as UMAP.
Data de publicação: 2013.
Conteúdo central para este livro: origem dos relacionamentos adventistas com dirigentes revolucionários, crise do serviço militar em 1963, comissão adventista, memorando, participação de Argelio Rosabal, encaminhamento por Che Guevara e caracterização da relação adventista com o governo revolucionário.
Apresentação: documento completo utilizado na pesquisa, com destaque editorial apenas na folha introdutória; o texto permanece integral.
Este documento faz a ponte entre guerra e governo. Tahbaz acompanha o momento em que Batista já havia desaparecido, Fidel governava Cuba e Che Guevara ocupava posição de autoridade. Diante do problema do serviço militar, a Igreja organizou uma comissão, preparou um memorando e incluiu Argelio Rosabal entre aqueles que fariam a interlocução. O mesmo Rosabal que ajudara Che na clandestinidade tornou-se novamente ponte quando a Igreja precisava chegar ao novo poder. Tahbaz começa essa parte de sua análise falando de uma “relação singular com a Revolução” e acompanha a transformação do vínculo da guerra em acesso político posterior.
Em 28 de outubro de 1963, Che encaminha o memorando a Carlos Rodríguez e identifica Rosabal como “o adventista de quem lhe falei”. A memória pessoal formada na guerra reaparece dentro do funcionamento do Estado. Tahbaz conecta esses relacionamentos formados na Sierra Maestra à condição diferenciada alcançada pelos adventistas diante do governo revolucionário.
APÊNDICE F — ADVENTIST REVIEW, 2025: “COLABORAÇÃO DE LONGA DATA”
Documento: “Cuba Officials Visit Adventist Seminary, Highlight Long-standing Collaboration”.
Autor: Marcos Paseggi.
Publicação: Adventist Review.
Edição: junho de 2025.
Localização: a matéria começa na página impressa 14.
Apresentação: reportagem integral, com reprodução da página original e tradução integral quando necessária.
Este é o último documento principal porque encerra cronologicamente o dossiê e devolve a narrativa à própria imprensa adventista. A reportagem identifica Caridad Diego Bello como dirigente do Escritório de Assuntos Religiosos do Comitê Central do Partido Comunista de Cuba, registra que ela encontrou pendências que remontavam a anotações de Che Guevara e menciona especificamente a orientação para avaliar a possibilidade de permitir aos adventistas um seminário teológico. Mais importante para a conclusão do livro, a própria reportagem emprega “long-standing collaboration” — “colaboração de longa data” — ao tratar das relações envolvendo o governo cubano e a organização adventista, enquanto dirigentes falam de “relação muito boa”, “comunicação aberta” e relacionamento mantido “por muitos anos”.
O Apêndice F fecha documentalmente aquilo que o Apêndice A abriu. No primeiro, Che está nas montanhas e adventistas aparecem como pessoas que lhe dão apoio; no último, Che reaparece nas memórias administrativas do relacionamento entre o Estado cubano e a Igreja, enquanto a publicação adventista descreve aquilo que veio depois como colaboração de longa data. Entre esses dois extremos estão Rosabal, Santa Clara, Brown, Rosado e Tahbaz.
DOCUMENTOS COMPLEMENTARES
Depois dos seis documentos centrais encontra-se uma segunda divisão, denominada DOCUMENTOS COMPLEMENTARES, destinada às peças que enriquecem a cronologia, ampliam a documentação dos acontecimentos e permitem confrontar diferentes momentos da memória adventista sobre Cuba sem diluir o eixo documental formado pelos Apêndices A a F.
DOCUMENTO COMPLEMENTAR 1 — Review and Herald, 16 de setembro de 1965.
Retrospectiva adventista posterior à Revolução, apresentada para comparação com o relato de Walton J. Brown publicado em 1959 e para o acompanhamento das mudanças na maneira como os acontecimentos cubanos passaram a ser recordados pela denominação.
DOCUMENTO COMPLEMENTAR 2 — DOCUMENTOS RELACIONADOS AO SERVIÇO MILITAR E AO MEMORANDO DE 1963.
Reúne o memorando adventista, o encaminhamento de Che a Carlos Rodríguez e as peças correlatas utilizadas na reconstrução do episódio de 1963, preservando data, remetente, destinatário, procedência arquivística e reprodução integral de cada documento.
DOCUMENTO COMPLEMENTAR 3 — DOCUMENTAÇÃO INSTITUCIONAL SOBRE O SEMINÁRIO TEOLÓGICO ADVENTISTA DE CUBA.
Reúne as peças documentais relacionadas à anotação atribuída a Che Guevara, às autorizações posteriores, à construção e ao desenvolvimento do Seminário Teológico Adventista de Cuba, estabelecendo documentalmente a ligação entre a pendência administrativa recordada por Caridad Diego Bello e sua realização posterior.
DOCUMENTO COMPLEMENTAR 4 — MARANATHA E A EXPANSÃO PATRIMONIAL ADVENTISTA EM CUBA.
Reúne os documentos relacionados às igrejas construídas, edifícios reformados, projetos realizados e interlocução com as autoridades cubanas, tornando visível a dimensão material alcançada pela relação posteriormente descrita como “colaboração de longa data”.
ORGANIZAÇÃO DO DOSSIÊ DOCUMENTAL
O dossiê está organizado em seis apêndices principais: Apêndice A, Che Guevara; Apêndice B, Argelio Rosabal; Apêndice C, Walton J. Brown; Apêndice D, Caleb Rosado; Apêndice E, Joseph Tahbaz; e Apêndice F, Adventist Review 2025. Depois deles aparecem os documentos complementares relacionados aos mesmos acontecimentos e às etapas posteriores da relação entre a Igreja Adventista e o governo revolucionário cubano.
A sequência permite acompanhar documentalmente a progressão histórica examinada nos treze capítulos: Che registra que recebeu apoio de adventistas; Rosabal descreve como a rede de proteção funcionava; Brown documenta a atuação do Antillian College durante a batalha de Santa Clara; Rosado registra a simpatia pelos revolucionários e a “assistência clandestina”; Tahbaz acompanha os vínculos construídos durante a guerra produzindo acesso depois da vitória; e, em 2025, a própria Adventist Review encerra o percurso documental utilizando a expressão “colaboração de longa data”.
ANTES DE ABRIR O PRIMEIRO DOCUMENTO
Leia estes documentos na ordem em que estão organizados. Primeiro Che conta que os adventistas o apoiaram. Depois, um dos adventistas que o protegeu conta o que fizeram. Em seguida, a própria administração adventista registra o que aconteceu em Santa Clara. Os documentos seguintes mostram o que essa relação se tornou depois da vitória. Ao chegar ao último, compare as primeiras palavras de Che — “apoio franco” — com as palavras publicadas pela própria Igreja quase sete décadas depois: “colaboração de longa data”.
APÊNDICE A — CHE GUEVARA: OS ADVENTISTAS DERAM “APOIO FRANCO” “DURANTE TODO O TRANSCURSO DA GUERRA”
IDENTIFICAÇÃO DO DOCUMENTO
Documento: passagens de Pasajes de la guerra revolucionaria.
Autor: Ernesto Che Guevara.
Publicação original: 1963.
Documento utilizado: Pasajes de la guerra revolucionaria — Edición autorizada.
Conteúdo reproduzido: passagens em que Che Guevara identifica adventistas que prestaram apoio aos revolucionários, especialmente as jovens da família Moya e Argelio Rosabal, conhecido entre os guerrilheiros como “El Pastor”.
Apresentação: texto original em espanhol acompanhado de tradução para o português.
POR QUE ESTE DOCUMENTO ABRE O DOSSIÊ
O primeiro documento deste dossiê entrega a palavra a Ernesto Che Guevara. Sua posição na abertura é fundamental porque a existência do apoio adventista aos revolucionários aparece registrada pela própria pessoa que recebeu esse apoio. Em Pasajes de la guerra revolucionaria, Che identifica expressamente duas jovens da família Moya como adventistas e registra que elas, embora professassem uma convicção religiosa contrária à violência, deram aos guerrilheiros “apoio franco” naquele momento e “durante todo o transcurso da guerra”. Em outra passagem, identifica Argelio Rosabal como adventista, informa que era conhecido como “El Pastor” e registra sua participação na retirada dos revolucionários de uma posição comprometida e em sua transferência para um esconderijo mais seguro.
A importância documental dessas passagens aumenta quando se considera a história editorial da obra. A versão original de Pasajes de la guerra revolucionaria foi publicada em 1963 com aprovação e revisão de Che, e a edição posteriormente ampliada e corrigida incorporou alterações que o próprio Guevara havia deixado de próprio punho em um exemplar preparado com vistas a uma futura republicação. O prefácio de Aleida Guevara informa ainda que os relatos foram elaborados a partir das anotações do diário de campanha de seu pai e que o Centro de Estudios Che Guevara incorporou à nova edição as modificações por ele deixadas. No prólogo, o próprio Che estabelece como princípio para a reconstrução da história revolucionária que os participantes fossem rigorosamente verazes e retirassem aquilo sobre o que não possuíssem certeza.
É dentro dessa obra que aparecem as duas referências que interessam diretamente a esta investigação. A primeira registra o encontro com as jovens Moya e atribui duração ao apoio recebido, estendendo-o para além daquele episódio e alcançando “todo o transcurso da guerra”. A segunda coloca Che dentro da casa de Argelio Rosabal e registra a intervenção do adventista quando o esconderijo dos revolucionários se tornou inseguro. Lidas conjuntamente, as duas passagens documentam pessoas identificadas pelo próprio Che por sua condição religiosa e relacionadas por ele à sustentação prática dos homens que procuravam sobreviver, reagrupar-se e continuar a luta revolucionária.
PRIMEIRA PASSAGEM — AS ADVENTISTAS MOYA
Che descreve uma marcha em direção a Nevada, enquanto seu grupo procurava alcançar Fidel Castro pela vertente norte do Turquino. Durante esse deslocamento, os guerrilheiros encontraram duas jovens negras de sobrenome Moya. Guevara fez questão de identificá-las religiosamente como adventistas e, na mesma frase, registrou a aparente tensão entre a convicção religiosa professada por elas e sua conduta diante dos revolucionários.
TRADUÇÃO
Deixamos o lugar onde estávamos acampados, a casa de Polo Torres, em La Mesa, que depois seria um de nossos centros de operações, e seguimos caminhando, agora guiados por um camponês chamado Tuto Almeida. Nossa missão era alcançar Nevada e depois chegar até onde estava Fidel, atravessando pela vertente norte do Turquino.
Caminhávamos nessa direção quando vimos, à distância, dois camponeses que, ao nos aproximarmos, tentaram fugir, e foi necessário correr para detê-los: revelaram-se duas jovens negras de sobrenome Moya, adventistas de religião que, embora fossem contrárias a toda espécie de violência em razão de suas crenças, deram-nos seu apoio franco naquele momento e durante todo o transcurso da guerra.
Recuperamos nossas forças e comemos magnificamente ali, mas, quando íamos passar por Mar Verde — era necessário tomar Mar Verde para passar a Nevada —, soubemos que havia tropas do Exército em toda aquela região. Depois de uma breve deliberação de nosso estado-maior e dos guias, decidimos retroceder e atravessar diretamente pelo Turquino, caminho mais acidentado.
O QUE CHE REGISTROU
A frase central merece permanecer diante do leitor exatamente pela precisão de seus elementos. Che não registrou apenas que encontrou duas adventistas, nem apenas que recebeu comida numa situação de necessidade. Ele escreveu que as jovens “deram-nos seu apoio franco” e acrescentou a extensão temporal desse comportamento: “durante todo o transcurso da guerra”. O apoio descrito pelo beneficiário ultrapassa, portanto, o encontro narrado naquele trecho e acompanha a guerra revolucionária.
Há ainda outro elemento essencial para a compreensão de todo este livro. Che relacionou a oposição das jovens à violência às crenças que professavam e, na mesma frase, registrou a colaboração que efetivamente prestaram aos revolucionários. A documentação coloca, assim, crença e prática lado a lado: aquelas adventistas podiam professar uma convicção religiosa contrária à violência e, simultaneamente, colaborar com os homens que a utilizavam como instrumento revolucionário. Essa distinção entre aquilo que se professava e aquilo que concretamente se fazia reaparecerá em diferentes momentos da história examinada neste livro.
SEGUNDA PASSAGEM — ARGELIO ROSABAL, “EL PASTOR”
A segunda referência adventista nas memórias de Che conduz diretamente ao documento reproduzido no Apêndice B. Depois do desastre que se seguiu ao desembarque do Granma, os sobreviventes tentavam encontrar Fidel Castro e reorganizar o núcleo revolucionário. O grupo estava debilitado, fragmentado e sob perseguição. Che relata que os homens haviam deixado armas sob a guarda de um camponês enquanto se dividiam em grupos menores para prosseguir até a Sierra Maestra. A informação sobre as armas vazou, o Exército chegou ao local, Pablo Hurtado foi preso e o armamento foi capturado. É nesse momento que Che registra onde ele e seus companheiros se encontravam e quem interveio para retirá-los do perigo.
TRADUÇÃO
Resolvemos continuar durante a noite. Os camponeses disseram que tinham notícias de que Fidel estava vivo e que poderiam nos levar a algumas regiões nas quais presumivelmente estaria com Crescencio Pérez, mas teríamos de deixar os uniformes e as armas. Almeida e eu conservamos algumas pistolas-metralhadoras Star; os oito fuzis e todas as munições ficaram guardados na casa do camponês, enquanto nos dividíamos em dois grupos, de três e quatro homens, para nos alojarmos nas casas dos camponeses e, dali, irmos avançando, em etapas sucessivas, para a Maestra.
Nosso grupo era formado, se não me lembro mal, por Pancho González, Ramiro Valdés, Almeida e eu; o outro, por Camilo, Benítez e Chao; Pablo Hurtado permanecia doente na casa.
Mal havíamos partido, o dono da casa não conseguiu resistir à tentação de comunicar a notícia a um amigo para discutir onde esconderia as armas; este o convenceu de que poderiam ser vendidas, entrando em negociação com um terceiro, que fez a denúncia ao Exército e, poucas horas depois de termos deixado aquela primeira mansão hospitaleira de Cuba, o inimigo invadiu o lugar, prendeu Pablo Hurtado e capturou todas as armas.
Nós estávamos na casa de um adventista chamado Argelio Rosabal, a quem todos conheciam como El Pastor. Esse companheiro, ao tomar conhecimento da notícia desastrosa, rapidamente fez contato com outro camponês da região, que a conhecia muito bem e dizia simpatizar com os rebeldes.
Naquela noite, tiraram-nos dali e nos levaram para outro refúgio mais seguro. O camponês que conhecemos naquele dia chamava-se Guillermo García, hoje chefe do Exército do Ocidente e membro da Direção Nacional de nosso Partido.
Depois estivemos em algumas outras casas camponesas; Carlos Mas, incorporado posteriormente ao Exército, Perucho e outros companheiros cujos nomes não recordo. Numa madrugada, depois de atravessarmos a estrada de Pilón e caminharmos sem guia algum, chegamos à propriedade de Mongo Pérez, irmão de Crescencio, onde estavam todos os expedicionários sobreviventes e em liberdade — até aquele momento — de nossas tropas desembarcadas, a saber: Fidel Castro, Universo Sánchez, Faustino Pérez, Raúl Castro, Ciro Redondo, Efigenio Ameijeiras, René Rodríguez e Armando Rodríguez.
Poucos dias depois, Morán, Crespo, Julito Díaz, Calixto García, Calixto Morales e Bermúdez se juntariam a nós. Nossa pequena tropa apresentou-se sem uniformes e sem armamento, pois as duas pistolas eram tudo o que havíamos conseguido salvar do desastre, e a reprimenda de Fidel foi muito violenta.
CHE IDENTIFICA O ADVENTISTA E REGISTRA SUA FUNÇÃO
A identificação religiosa de Rosabal parte novamente do próprio Guevara: “um adventista chamado Argelio Rosabal”. Che acrescenta que todos o conheciam como “El Pastor”. Rosabal não era pastor ordenado; seu próprio depoimento, reproduzido no Apêndice B, esclarece sua condição de dirigente local da Igreja Adventista e diretor da Escola Sabatina. O apelido preservado por Che e pelos demais revolucionários expressa a maneira pela qual aquele dirigente religioso passou a ser conhecido dentro do grupo.
A sequência narrada por Guevara também estabelece a função prática desempenhada por Rosabal naquele momento. O esconderijo tornara-se perigoso depois da captura das armas e da prisão de Pablo Hurtado; Rosabal tomou conhecimento da situação, estabeleceu rapidamente outro contato e, naquela mesma noite, os homens foram transferidos para um refúgio mais seguro. A intervenção ocorreu numa fase em que os sobreviventes do Granma ainda tentavam recompor suas forças e alcançar Fidel Castro. A ajuda descrita por Che contribuiu concretamente para que o grupo escapasse da área comprometida e continuasse avançando.
O DOCUMENTO SEGUINTE ABRE A HISTÓRIA POR DENTRO
As memórias de Che registram apenas uma parcela daquilo que ocorreu com Rosabal. O documento seguinte permite entrar na mesma história pelo outro lado. No Apêndice B, o leitor encontrará as 23 páginas da entrevista concedida por Argelio Rosabal a Tad Szulc e preservada na coleção do pesquisador na Universidade de Miami. Ali, o adventista que Che chamou de “El Pastor” descreve os acontecimentos com uma riqueza de detalhes inexistente nas memórias do guerrilheiro: a reunião com adventistas no sábado, a decisão de procurar e proteger sobreviventes, a coleta de roupas, a distribuição dos homens, os esconderijos, a alimentação, as mensagens, a vigilância, os deslocamentos e o episódio das armas e munições que Che pediu que fossem escondidas.
Leia agora o Apêndice B tendo diante de si aquilo que Che acabou de registrar. Primeiro, o revolucionário identifica os adventistas e reconhece o “apoio franco” recebido “durante todo o transcurso da guerra”; depois, Argelio Rosabal explica por dentro como uma parte desse apoio foi organizada e executada.
APÊNDICE B — ARGELIO ROSABAL: 23 PÁGINAS SOBRE A REDE ADVENTISTA QUE PROTEGEU CHE E SEUS COMPANHEIROS
IDENTIFICAÇÃO DO DOCUMENTO
Documento: entrevista de Argelio Rosabal.
Entrevistado: Argelio Rosabal.
Entrevistador: Tad Szulc.
Intervenções: Pedro Álvarez-Tabío.
Arquivo: Tad Szulc Collection, Archives & Special Collections, Otto G. Richter Library, University of Miami.
Localização arquivística: Accession 88-2, Box 3, Folder 37, “Rosabal, Argelio — Interview, Sierra Maestra, no date”.
Extensão: 23 folhas na transcrição preservada.
Apresentação: tradução integral do espanhol para o português, preservando perguntas, respostas, intervenções, repetições, correções e hesitações relevantes.
O HOMEM QUE CHE CHAMAVA DE “EL PASTOR”
O documento anterior colocou diante do leitor as palavras de Che Guevara. Agora fala Argelio Rosabal, precisamente o homem que Che identificou em suas memórias como “um adventista chamado Argelio Rosabal, a quem todos conheciam como El Pastor”. A entrevista amplia em dezenas de páginas aquilo que Guevara resumiu em poucas linhas e permite acompanhar os acontecimentos a partir da memória daquele que recebeu, escondeu, alimentou, deslocou e protegeu sobreviventes da expedição do Granma.
Rosabal esclarece desde o início sua posição religiosa. Quando Tad Szulc pergunta se ele era pastor, responde: “Não fui pastor; fui apenas religioso, diretor da igreja.” Perguntado imediatamente sobre qual igreja dirigia, responde: “Da Igreja Adventista do Sétimo Dia.” Mais adiante informa que era diretor da Escola Sabatina e participara da fundação de uma congregação. O título “El Pastor”, portanto, não correspondia a uma ordenação denominacional; era o nome pelo qual Che Guevara, Juan Almeida e outros revolucionários passaram a conhecê-lo.
A entrevista revela também que a participação de Rosabal não nasceu de desconhecimento sobre quem eram aqueles homens. Depois do primeiro encontro, ele ouviu dos próprios revolucionários que haviam vindo a Cuba para libertar o país da situação em que se encontrava. Quando novos sobreviventes apareceram, já sabia que eram integrantes da expedição revolucionária, sabia que estavam sendo perseguidos pelas forças de Batista e sabia que procuravam sobreviver para continuar a luta. A partir desse conhecimento, reuniu outros adventistas no sábado e pronunciou a frase que se tornaria uma das peças centrais deste dossiê: “Temos que salvar essa gente.”
A entrevista registra o que aconteceu depois dessa decisão: membros começaram a procurar sobreviventes e transmitir informações; roupas foram recolhidas; homens foram divididos entre pessoas de confiança; esconderijos foram preparados; Che Guevara, Juan Almeida, Camilo Cienfuegos, Ramiro Valdés e outros aparecem nominalmente; Rosabal propôs oração antes de uma operação de retirada; armas foram enterradas a pedido de Che; mensagens foram encaminhadas às famílias; comida foi preparada; guardas foram montadas; posições foram alteradas quando soldados de Batista se aproximaram; e diferentes grupos foram conduzidos através da região na tentativa de se reunirem novamente a Fidel Castro.
NOTA DE TRADUÇÃO
O termo espanhol expedicionarios refere-se, nesta entrevista, aos integrantes da expedição revolucionária do Granma. Na primeira ocorrência aparece como “expedicionários [revolucionários do Granma]”; nas ocorrências seguintes, “expedicionários” conserva esse sentido histórico. A construção oral do depoimento foi preservada sempre que possível, inclusive nas repetições e mudanças de direção características de uma entrevista gravada. Nos pontos em que a fala aparece truncada no documento, o texto permanece truncado, sem completar com informações inexistentes no original.
ENTREVISTA COM ARGELIO ROSABAL — “EL PASTOR”
TAD SZULC: Eu gostaria de saber o que o senhor se recorda da chegada dos expedicionários.
ARGELIO ROSABAL: Para mim, as recordações da guerra, daqueles momentos, não se esquecem, porque para mim é como se tivesse sido ontem, pois eu as vivi e as pratiquei. Eu me lembro de que, no dia em que estavam bombardeando lá em Alegría de Pío, meu irmão estava cortando meu cabelo debaixo de uma árvore de mamón; então ouvimos o bombardeio.
TAD SZULC: Onde o senhor morava?
ARGELIO ROSABAL: No alto de El Mamey.
TAD SZULC: A que distância ficava de Alegría de Pío?
ARGELIO ROSABAL: Deve ser aproximadamente umas vinte léguas, por onde vivia Aguilera.
PEDRO A. TABÍO: Vinte léguas, não.
ARGELIO ROSABAL: Mais?
PEDRO A. TABÍO: Não, menos, menos, menos.
ARGELIO ROSABAL: De El Mamey até lá é longe.
PEDRO A. TABÍO: Não, vinte léguas são oitenta quilômetros.
ARGELIO ROSABAL: Não, não chega.
PEDRO A. TABÍO: Serão umas dez léguas, talvez, oito ou dez léguas, falando em linha reta.
ARGELIO ROSABAL: Então, meu irmão estava cortando meu cabelo debaixo da árvore de mamón e ouvimos o bombardeio. Aquilo nos fez pensar: não havia guerra, não sabíamos de nada.
TAD SZULC: O senhor não sabia que eles haviam chegado?
ARGELIO ROSABAL: Não, senhor. Eu nem sequer sabia que Fidel vinha para Cuba. Eu era religioso.
TAD SZULC: O senhor era pastor?
ARGELIO ROSABAL: Não fui pastor; fui apenas religioso, diretor da igreja.
TAD SZULC: De qual igreja?
ARGELIO ROSABAL: Da Igreja Adventista do Sétimo Dia. Almeida e Che me chamavam de “pastor” por causa da minha atitude para com eles diante dos momentos de crise que eles enfrentavam, não é? Então, no dia do bombardeio, meu irmão estava cortando meu cabelo e, por curiosidade diante daquilo, saí debaixo da tesoura do meu irmão e subi para a parte mais alta, para poder ver melhor o que estava acontecendo.
TAD SZULC: O que o senhor viu?
ARGELIO ROSABAL: Vi o bombardeio, porque voavam quatro avionetas amarelas que subiam muito alto e, quando mergulhavam, soltavam as bombas. Sentiam-se as detonações por todos aqueles arredores.
TAD SZULC: Isso seria no dia 6, Pedro, não é verdade?
PEDRO A. TABÍO: No dia 6 pode ter acontecido, porque o metralhamento e o bombardeio foram fortes. Houve atividade da aviação no próprio dia 5 e também no dia 6, mas no dia 6 metralharam mais.
ARGELIO ROSABAL: Eu não me lembro exatamente das datas, a não ser de quando apareceu o primeiro grupo, não é? Isso aconteceu lá no alto da Sierra Maestra, para poder observar bem o que estava acontecendo. Fiquei vendo como os aviões subiam e soltavam as bombas; aquilo durou alguns minutos. Quando as avionetas terminaram, saiu um avião preto grande, que era o B-26, um avião de reconhecimento.
Eu estava no alto da Sierra Maestra, no alto para vê-lo. E me lembro de que, por curiosidade, deu-me vontade de pegar uma pedra e atirá-la nele, coisa que eu não deveria ter feito porque aquilo era ignorância, não é? O avião nem percebeu que eu havia atirado.
Já ao anoitecer desci para minha casa. Minha família estava preocupada porque, como eu dizia antes, não sabíamos nada de guerra; não sabíamos se em Cuba ou em outras partes do mundo estavam acontecendo problemas de guerra, revoluções, nem nada disso. Como adventista, eu me ocupava da religião e do trabalho, porque era diarista nos campos de cana da colônia Caobas; isto é, eu trabalhava e, aos sábados, ia para a igreja.
No outro dia, dia 7, nós nos preparamos para ir trabalhar na colônia Caobas. Então haviam soltado alguns animais meus e do meu irmão que nós tínhamos. Meu irmão e eu éramos os únicos que possuíamos animais e íamos a cavalo; os outros não tinham animais. Meu irmão e eu ficamos para trás porque os animais haviam sido soltos.
Já devia ser aproximadamente seis, seis e meia ou sete horas da manhã quando vejo, por ali, descendo por uma elevação, um grupo de quatro homens com uniformes verde-oliva. Aquilo nos chamou a atenção porque não era habitual.
TAD SZULC: Isso foi no dia 7?
ARGELIO ROSABAL: Sim, no dia 7. Não estávamos acostumados a isso. Então eu disse à minha mãe: “Mamãe, por ali, pela elevação, estão descendo quatro homens com roupa verde-oliva.”
TAD SZULC: Com armas?
ARGELIO ROSABAL: Não, sem armas. Então ela me disse: “Meu filho, tenha cuidado, porque quando há guerra os soldados costumam pegar os homens e levá-los obrigados.”
Eu estava conversando com aqueles homens porque o caminho passava talvez a menos de dois metros da casa. Quando minha velha e eu estávamos conversando, ela me disse: “Vou chamá-los para tomarem café.” Eu lhes disse: “Ouçam, amigos.” Eles pararam. Disse: “Perdoem o incômodo. Como estão passando tão cedo pela manhã, vejo que vão suando; parece que estão caminhando. Minha velhinha quer que vocês tomem um pouco de café, que acho que lhes fará bem.”
Então eles me olharam um pouco desconfiados, não é? Eu lhes disse: “Olhem, não tenham medo, porque eu sou religioso.” Ao dizer aquilo, parece que adquiriram confiança e entraram comigo na cozinha da casa dos meus pais.
Então lhes dei café e, enquanto tomavam café, contaram-me que haviam sido bombardeados ali. Perguntei se havia morrido alguém ou muitos, e eles me disseram que não sabiam; que haviam se dispersado por causa do bombardeio e andavam em grupos por aquelas redondezas. Ofereci-lhes minha cooperação, no que pudesse servi-los.
Um deles me perguntou se eu conhecia, pela região de Oriente, um lugar chamado La Manteca, porque ele tinha ali uma amizade, um familiar; chegando ali não teria problema. Por sorte, eu conhecia a região, conhecia La Manteca. Então perguntei o nome da pessoa que lhe interessava, ele disse o nome e então eu disse: “Eu também o conheço.”
TAD SZULC: Quem era essa pessoa?
ARGELIO ROSABAL: Esse é o primeiro grupo de quatro expedicionários [revolucionários do Granma].
TAD SZULC: Eles se identificaram?
ARGELIO ROSABAL: Ao sair, identificaram-se comigo. Anotei os nomes no portal da minha casa.
TAD SZULC: Quem eram?
ARGELIO ROSABAL: Jesús Gómez Calzadilla, Manuel Echevarría, Gilberto García e um que se chamava Pichirilo.
PEDRO A. TABÍO: Ramón Mejía del Castillo, Pichirilo, o dominicano.
ARGELIO ROSABAL: Aham.
PEDRO A. TABÍO: Qual deles foi que lhe disse que conhecia alguém em La Manteca?
ARGELIO ROSABAL: Manuel Echevarría.
PEDRO A. TABÍO: E quem era aquele que ele conhecia em La Manteca?
ARGELIO ROSABAL: Acho que era Joaquín Saumell, um dos Saumell. Eu lhes disse que sim, que poderia servi-los, não é?, ajudá-los. Ele me disse: “Bem, o problema é que você não deve se complicar.” Eu disse: “Bem, rapaz, sim, acho que estou cumprindo um dever igual ao de vocês; eu vou levá-los até lá.”
Isso estava acontecendo na propriedade de um tio meu que era cabo do exército de Batista. Então eu lhes disse: “Olhem, vamos fazer uma coisa. Como há umas quantas estradas por aqui e muito movimento de pessoal, já estava amanhecendo, era dia com sol, proponho que troquemos os uniformes e coloquemos roupas civis.”
Demos a eles roupas nossas, dos meus pais, dos meus irmãos e minhas, e não trocamos os sapatos porque não tínhamos. Atravessamos pela propriedade do meu tio, do cabo Rivera. Então, no caminho, eles me diziam que haviam vindo a Cuba para libertar este país da miséria e da situação desgraçada em que estava vivendo; que algum dia, se triunfassem, voltariam depois para minha casa para me agradecer pelas coisas que eu havia feito.
Eu lhes disse que não me interessava nada, apenas cumprir um dever. Então já estávamos perto da casa que lhes interessava e eu disse: “Olhem, a casa que vocês procuram é aquela ali. Vou ficar esperando aqui, caso tenham problemas.”
Echevarría me disse: “Não, pode ir, não vamos ter problemas.” Eu disse: “Bem, vou esperar um pouco aqui; se vocês não voltarem, é porque não houve problema. E, se eu for embora e vocês tiverem problema mais tarde, vão à minha casa e ali veremos o que fazer.” Eles não voltaram mais.
Isso foi numa quinta ou sexta-feira. No sábado fui para a igreja. Eu era diretor da Escola Sabatina da Igreja Adventista naquele lugar, fundador de uma igreja naquele lugar.
PEDRO A. TABÍO: Que ficava em El Mamey.
ARGELIO ROSABAL: Não, isso é na colônia Las Puercas.
PEDRO A. TABÍO: Ah, em Las Puercas, do outro lado da serra.
ARGELIO ROSABAL: Sim, no extremo oposto, no extremo sul.
PEDRO A. TABÍO: Do outro lado da cordilheira Maestra, em direção ao sul.
ARGELIO ROSABAL: Eu desço para a igreja, reúno-me ali com os adventistas e lhes digo: “Vocês ouviram o bombardeio que aconteceu lá para os lados de Niquero?” E me disseram que sim.
Eu digo: “Vieram umas pessoas, bombardearam-nas; a missão daquela gente era acabar, segundo eles, com um pouco da miséria, deste mau Estado que vocês conhecem.” Quase todos nós éramos trabalhadores, trabalhávamos nos campos de cana, e eles conheciam na própria carne a situação que se estava vivendo.
TAD SZULC: Que era muito ruim.
ARGELIO ROSABAL: Sim, muito ruim. Então digo: “TEMOS QUE SALVAR ESSA GENTE. TODOS VOCÊS DEVEM SE INTERESSAR PELA VIDA DELES, E QUEM SOUBER ONDE HÁ UM OU ALGUNS DELES RECOLHIDOS, E SE NÃO TIVER CORAGEM DE RECOLHÊ-LO, AVISE-ME.”
Foi assim que, poucos dias depois, Jacinto Vázquez, outro adventista, me avisou…
TAD SZULC: Quantos eram…?
ARGELIO ROSABAL: Adventistas, religiosos, havia ali uns quinze, vinte, por aí; não me lembro exatamente do número. Quer dizer, então eles ficaram orientados.
TAD SZULC: Interessaram-se.
ARGELIO ROSABAL: Esses que mencionei eram interessados na religião: Rubén Verdecia, Jacinto Vázquez e Alfredito González. Ambos me avisam ao mesmo tempo.
Jacinto me dizia “mofué, mofué”; em francês quer dizer “irmão”, não é? Nós havíamos visitado uma região para dentro de Bayamo; havia uns haitianos batistas e, então, em seu idioma entendemos que macé é irmã e mofué é irmão, não é? Ele e eu nos dizíamos “mofué”. Então Jacinto me disse: “Mofué, daquela gente que você nos disse há um grupo ali na serra de Regino, na serra Montoya.”
Pouco depois Rubén Verdecia me disse a mesma coisa e, em seguida, Alfredito; quer dizer, os três me avisaram quase ao mesmo tempo. Então lhes perguntei em que condições físicas se encontravam.
Rubén me disse: “Estão muito mal. Há um que está com febre, com diarreia e vômitos, e as roupas estão em condições muito ruins.”
Recolhemos um pouco de roupa entre Rubén Verdecia, Jacinto Vázquez, Ibrahim Sotomayor, Chino Rizo, Tomás García, entre outros companheiros dali. Conseguimos reunir oito mudas de roupa, porque Rubén havia me dito que eram oito.
Então reunimos oito mudas de roupa e saímos para lá aproximadamente às onze da noite, saindo de Las Puercas. Eles estavam em Regino, que ficava a uma légua e meia ou duas léguas mais acima.
Chegamos ali e então Rubén me apresentou e disse: “Olhem, este é o homem de quem falamos a vocês, que poderia ajudá-los.” Nós nos conhecemos ali. Explicaram-me a situação e eu lhes perguntei se permitiam que eu assumisse a responsabilidade naquele momento, e disseram que sim.
Eu disse: “Bem, é preciso tirá-los daqui em dois grupos.” Esse grupo era de oito: Che, Almeida, Camilo, Ramiro Valdés, Reynaldo Benítez, Rafael Chao, Francisco González e Pablo Hurtado.
TAD SZULC: Esses eram oito jovens?
ARGELIO ROSABAL: Isso aconteceu uns três dias depois de eu ter retirado o primeiro grupo de quatro que lhe contei.
TAD SZULC: Ou seja, no dia 10 ou 11.
ARGELIO ROSABAL: Sim, aproximadamente.
PEDRO A. TABÍO: Não me lembro da data de memória, mas essa cronologia eu tenho bem anotada ali; posso lhe dar.
ARGELIO ROSABAL: Então, como eu estava refletindo, eu lhes disse: “Há uma coisa: a situação não é fácil. Vamos orar, rezar, não é?, ajoelhemo-nos todos e peçamos a Deus que me ajude naquela situação.”
Quando terminamos de orar, veio-me à mente uma ideia: repartir a responsabilidade entre Rubén, Alfredito e eu. Então eu disse: “Rubén, você vai levar três; Alfredo vai ficar com o doente.”
TAD SZULC: Era Che? Che estava ferido?
ARGELIO ROSABAL: Sim, Che estava ferido.
TAD SZULC: Quem era o doente?
ARGELIO ROSABAL: Pablo Hurtado. Quer dizer, dou três a Rubén Verdecia, deixo Pablo Hurtado com Alfredo e eu levo quatro: Che, Almeida, Chao e Pancho.
TAD SZULC: Em que condições estava Che com o ferimento que tinha?
ARGELIO ROSABAL: Bem, o ferimento de bala ainda estava fresco, mas não o afetava muito, ou parece que ele não dava importância, porque seus movimentos e suas coisas não davam a entender que aquilo o afetasse tanto.
TAD SZULC: O que eles lhes diziam? O que conversavam com vocês? O que lhes diziam?
ARGELIO ROSABAL: Eu lhes perguntei sobre a situação, como havia sido aquilo, e limitaram-se a me dizer… praticamente estavam esgotados pelo cansaço, pelo caminho, percebe? Então não me falaram muito sobre isso.
TAD SZULC: Falaram-lhe de Fidel?
ARGELIO ROSABAL: Não. Eles me disseram que haviam vindo a Cuba — como me disse o primeiro grupo — com o propósito de libertar este país da situação que estávamos vivendo, mas haviam tido a má sorte de serem bombardeados.
Lembro-me de que estavam em mau estado, e Che me disse: “Pastor, veja, estas armas…” Eles traziam oito rifles com mira telescópica, um saquinho médio de balas, duas pistolinhas Star, uma de Che e outra de Almeida, e um pouco de balas para as pistolas.
“Nós não podemos carregá-las porque o estado físico não permite. Pegue-as, faça um buraco num lugar seguro, envolva-as em yagua ou náilon, cubra-as e guarde-as até vermos no que isso vai dar.”
“Enquanto isso, este rifle é meu.” Ele me mostrou seu rifle: “Isto se maneja assim e assim. Se nos matarem e não pudermos continuar a Revolução, o meu é seu; diante destes companheiros eu o dou de presente ao senhor. Se nos matarem… se não nos matarem, voltaremos para buscá-los.”
Então fizemos isso. Fizemos um buraco debaixo de um jagüey, envolvemos aquelas armas em yaguas, no que pudemos, e as enterramos ali.
Então saímos. Rubén saiu com o grupinho de três: Camilo, Ramiro e Reynaldo. Eu levei Che, Almeida, Chao e Pancho, e Alfredo ficou com Pablo Hurtado.
Eu fui com os meus para El Mamey. Saímos dali por volta das onze ou doze da noite. Cheguei a El Mamey aproximadamente à uma e meia da madrugada. Cheguei à casa da minha cunhada, chamei-a e expliquei-lhe a situação, que eu vinha com um grupo de expedicionários, que era preciso atendê-los.
Ela se levantou. Fomos ao galinheiro, pegamos uma galinha e a matamos para fazer uma comida para que aquecessem os estômagos.
Enquanto a galinha fervia — eles estavam na sala; o caminho real passa a menos de dois metros da casa onde estávamos — tirei-lhes os sapatos, preparei para eles um serón que tínhamos ali, algumas yaguas e alguns trapos de roupa para que se deitassem ali e descansassem enquanto eu fazia guarda, caso alguém passasse pela beira do caminho. Acho que aquela foi a primeira guarda que fizeram para eles.
Pouco depois, quando a galinha já havia fervido bastante, eu disse à minha cunhada: “Sirva um prato de caldo para essa gente aquecer o estômago.” Lembro-me de que na cozinha havia uma mesinha e ela colocou um prato de caldo para Che, e Che descansou duas vezes para conseguir tomar aquele prato de caldo; os estômagos estavam em más condições.
Pouco depois a comida ficou pronta. Comemos e preparamos novamente para eles — já não dentro da casa, mas do lado de fora, naquele lugar de que acabei de falar, num pequeno matagal que fica perto da casa da minha cunhada — algumas coisas para que passassem a noite.
Na manhã do outro dia, Che me disse: “Pastor, o senhor acha que seria possível enviar um telegrama anonimamente para nossas famílias?”
Eu disse: “Nunca fiz isso, mas acho que pode ser feito.” Então copiei o nome e o endereço do grupo dos oito que eram eles. Eu cultivava feijão, éramos camponeses, tínhamos propriedades; peguei um pacote de feijão vermelho, chileno, e no meio do pacote coloquei a mensagem e saí para Pilón.
No caminho eu pensava em como faria aquilo, porque nunca o tinha feito. Então me lembrei de que se comentava que Celia Sánchez simpatizava com o Movimento Revolucionário.
TAD SZULC: O senhor a conhecia?
ARGELIO ROSABAL: Sim, eu conhecia Celia e o pai dela, o doutor Sánchez, Acacia e Griselda. Fui para a casa do doutor Sánchez. Ele era médico, tinha consultório, e havia uns oito ou nove pacientes esperando para serem atendidos. Marquei o último lugar.
Quando chegou minha vez, convidou-me a entrar em sua pequena sala de consulta e disse: “O que está acontecendo, Argelio?”
Eu disse: “Venho consultar o senhor. Meu problema é um problema difícil, um pouco penoso, e eu não gostaria que meu assunto fosse ouvido por aquelas pessoas que estão ali. Se o senhor tem uma sala um pouco mais para dentro, onde possamos conversar sem que alguém se inteire do meu problema…”
“Ah, sim, rapaz, como não?” Levou-me para um quartinho mais para dentro. Então, naquele quartinho, havia uma caminha e ele me disse: “Sente-se aí.”
Eu disse: “Doutor, antes de o senhor começar a me consultar, uma pergunta por curiosidade: o senhor soube desses expedicionários que entraram por ali?”
Então ele disse: “Sim, rapaz. Já fiquei sabendo que estão assassinando esses infelizes; estão acabando com eles indefesos.”
Então comecei a conversar até conseguir comprovar que ele simpatizava com o movimento revolucionário. Eu lhe disse: “Olhe, doutor, eu não estou doente nem tenho nada. O meu é uma questão de vida ou morte entre o senhor e eu. Trago esta mensagem dos expedicionários.”
Tirei o papelzinho do meio do pacote de feijão e, quando viu aquilo, ele me abraçou e ficou muito contente.
TAD SZULC: Amigo, eram nomes verdadeiros?
ARGELIO ROSABAL: Sim, dos familiares deles. Então o doutor Sánchez, quando viu o papelzinho, abraçou-me. Saímos para a cozinha da casa dele. Celia não estava; estavam Acacia e Griselda. “Vejam, vejam o que Argelio trouxe.”
Então elas, com a disposição que as caracterizava sempre, receberam aquilo com agrado e se comprometeram — principalmente Griselda — a enviar os telegramas. Efetivamente, depois me disseram que haviam feito isso.
Dali saí para minha casa, mas no caminho pensei que não devia voltar para El Mamey, mas passar por Las Puercas para ver como estava aquilo que Rubén estava atendendo. De Pilón a Las Puercas há aproximadamente uns doze quilômetros.
Quando cheguei ali, a primeira mensagem que me deram foi: “Você foi denunciado.” Isso foi por volta do meio-dia.
Pouco depois, o sargento Matos, chefe do posto de Pilón, foi me procurar e me encontrou. Eu estava na casa da minha sogra e, vendo mais ou menos como se desenvolvia a situação, então ele me cumprimentou e disse: “Então é você quem está servindo de prático para os mau-mau?”
Eu disse: “Não sei o que o senhor está me dizendo, sargento.”
“O senhor sabe muito bem que estou lhe dizendo que é você quem está servindo de prático para os expedicionários, para os mau-mau.”
Eu disse: “Eu não entendo isso que o senhor está dizendo.” Então eu já sabia que naquele momento não estava ali quem me havia denunciado; estávamos ele e eu sozinhos, porque aquilo foi debaixo de um bambuzal que nós, os adventistas, usávamos como igreja para nos reunirmos, e ele estava sozinho.
Como naquele momento ele não tinha as provas, pude discutir com ele. A discussão ficou muito acalorada. Ele dizia: “Ah, porque vocês, os adventistas, são uns…” Usou uma palavra grosseira porque eu não sou assim, porque toda mulher que encontrava ou que se aproximava, ele a…
Eu tive que dizer-lhe: “Sargento Matos, o senhor é um imoral e não lhe dá vergonha? O senhor poderia ser meu pai; é o chefe de um posto e dirige-se a mim de forma tão grosseira, podendo eu ser seu filho…”
Eu não sabia que ele estava vivendo em concubinato com uma mulher daquela região, Zenaida. Era casado, mas estava vivendo com aquela querida. Então, quando viu que a discussão estava ficando quente, eu estava dizendo-lhe as coisas, ele disse: “Olhe, rapaz, vá embora antes que tenhamos problemas.”
Então respondi na mesma moeda em que estávamos conversando, arrancou e foi embora.
O resultado dessa acusação tão positiva foi que, naquela tarde, capturaram Pablo Hurtado e levaram as armas. Essa denúncia, quem a fez… eu gostaria que algum dia o Governo Revolucionário me desse a honra de esclarecê-la. Levaram oito rifles, que naquele momento significavam muito, e um saco e meio de balas, e capturaram um homem.
TAD SZULC: Quando isso aconteceu, Almeida e Che ainda estavam em sua casa?
ARGELIO ROSABAL: Sim, estavam na minha casa, em El Mamey.
TAD SZULC: Quantos dias ficaram ali?
ARGELIO ROSABAL: Ficaram ali aproximadamente dois dias.
TAD SZULC: E depois?
ARGELIO ROSABAL: Depois veio Guillermo García, levou-os, levou-os para a propriedade Lajitas.
TAD SZULC: Onde fica?
ARGELIO ROSABAL: Lajitas fica subindo a cordilheira da Sierra Maestra, procurando Purial; quer dizer, a umas duas léguas e meia de El Mamey.
Então tivemos a discussão, o sargento Matos e eu. Eu decidi partir para obter problemas comigo. Entendo que essa denúncia contra mim saiu de uma das pessoas que estavam comigo numa distribuição de pessoal, e há mais ou menos uma possibilidade de identificá-la.
Bem, no outro dia apareceu na propriedade El Mamey, em minha casa, uma tropa do exército de Batista.
TAD SZULC: Depois que o sargento foi embora?
ARGELIO ROSABAL: Sim, depois que o sargento foi embora, no outro dia apareceu aquela tropa de guardas, guiada por meu tio Rivera, que era o prático. Tinha 36 anos de serviço. Eles traziam a missão de revistar as casas, vasculhar os montes, porque haviam feito a denúncia de que eu os tinha por ali, inclusive que estavam na propriedade do meu tio.
Então chegaram à casa; eles estavam ali, eram umas nove ou dez horas da manhã. Saudei-os e, não sei por que razão, não perguntaram meu nome. Continuamos conversando, e o sargento me pergunta: “Ei, você pertence a qual exército?”
Eu digo: “Ah, obrigado, eu pertenço a outro exército.” Ele diz: “Como?”, surpreendido.
Eu digo: “Sim, eu pertenço ao Exército da Salvação.” Então meu tio, cabo do exército, diz: “É que ele pertence a uma instituição religiosa que não usa armas.” Ele diz: “Ah!”
Continuamos conversando e então fizemos amizade. Meu irmão Delio lhes ofereceu uma garrafinha de rum. Alguns tomaram e outros não quiseram tomar, mas já entramos em confiança.
Então faço uma pergunta ao meu tio, que foi um pouco indiscreta: “Tio, e daqui para onde vocês vão?”
Diz o sargento: “Nós viemos aqui revistar todas as casas e os montes, porque essa gente está escondida por aqui. Daqui sairemos para La Manteca e de lá para El Marión, onde ali nos espera um carro para nos levar a Pilón.”
Eu disse: “Bem, menos mal que aqui esse trabalho já economizaram, porque quem está metido aqui na propriedade do meu tio está escondido.” Eles confiavam que a família do cabo Rivera conhecia o plano de revistar as casas e os montes.
TAD SZULC: Almeida e Che ainda estavam ali?
ARGELIO ROSABAL: Sim, sim, esses ainda estavam ali; eu os tenho escondidos.
Quer dizer que, enquanto aquela conversa acontecia, imediatamente percebi que, se eles fossem para La Manteca, passariam por uma propriedade que ficava em frente de onde eu os tinha escondidos; isto é, iam vê-los quando saíssem.
Pouco depois eu disse: “Ai, licença, deixe-me dar comida aos animais, mudar os animais que estão entre os animais…” E saí.
Digo: “Rápido, é preciso mudar de posição.” Então corri para baixo, onde tínhamos uma plantação de bananas, e os escondi ali, de maneira que, quando o exército passasse pela encosta da elevação, não pudesse vê-los. Voltei para casa e continuamos conversando.
Pouco depois, o almoço estava quase… porque meu tio havia mandado buscar um porco na propriedade dele para preparar o almoço para o exército. Lembro-me de que minha irmã pegou um balde. Eu lhe disse: “Coloque bastante arroz e bastante comida para que sobre bastante.”
Ela colocou bastante arroz, carne, e pôs alguns pratos por cima, e despejou um pouco de roupa suja e colocou o balde na cabeça como quem ia ao rio lavar. Então havia um guarda jovem — meu irmão estava jovenzinho e bonito — e parece que se apaixonou por minha irmã.
Ele lhe disse: “Ah, jovem, vou acompanhá-la. Deixe-me carregar o balde para ajudá-la.” Então ela disse: “Não, não, muito obrigada. Meu irmão vai comigo.” Isso evitou que o sujeito fosse lá para fora.
Ela levou o almoço para eles. Daquela comida que foi preparada para o exército, os rapazes comeram primeiro que o exército.
Pouco depois acabaram de comer, saíram e foram embora.
No outro dia, estando eu já em Las Puercas, porque estava atendendo aos dois grupos — os que tinha em El Mamey e atendendo aos que Rubén tinha em Las Puercas, na colônia —, quando estou na colônia mandam me procurar com muita urgência: “Argelio, venha.”
Por isso a denúncia contra mim estava tão bem feita, tão firme. Quando o doutor Valencia me localiza, por meio de um emissário, chegou onde eu estava. Vinha acompanhado de uma tropa de guardas, mas este foi mais prudente, mais habilidoso. Colocou o braço sobre meu ombro e me disse: “O senhor é Argelio Rosabal?”
Eu disse: “Sim, servidor.”
Ele diz: “O senhor é adventista?”
Eu digo: “Sim, senhor.”
Ele diz: “Vocês são pessoas muito boas.”
Afastou-se dos guardas como uns oito metros e, com o braço sobre meu ombro, começou a conversar comigo.
Ele diz: “Veja, Argelio, nós viemos aqui em nome dos pais de Ramiro Valdés, de Ramirito. Eles são adventistas, Ramirito é adventista. Os pais de Ramirito mandam uma carta que deixamos na casa de Juan de Dios, em El Ocuje — propriedade de Las Puercas —, com o conteúdo de que entreguemos a carta a Ramirito para salvá-lo, porque todos os que estão sendo apanhados estão sendo mortos; querem salvar pelo menos esse rapaz.”
Depois que ele terminou, eu disse: “Doutor, o que me dá pena é uma coisa: que uma pessoa mais velha como o senhor e respeitável tenha sido enganada ao lhe dizerem que eu tenho esse Ramirito de quem o senhor fala. Isso é incerto; eu não sei quem é Ramiro nem o conheço.”
“Agora, o senhor me diz que ele é adventista. Se ele é adventista, é meu irmão e, como demonstração de que vou me interessar por ele, dê-me seu nome, seu endereço e seu telefone; a partir deste momento vou me dedicar a procurá-lo e, se conseguir, avisarei imediatamente.”
Então o homem trouxe, deu-me o nome, o endereço e o telefone e foi embora.
Por certo, os pais de Ramiro não eram adventistas de modo nenhum. Dali fui para o monte El Atraso. Celestino, irmão de Rubén Verdecia, havia transferido aqueles três expedicionários de Las Puercas para dentro, e ali estavam sendo atendidos. Eu lhes levava comida e jornal, entende?, orientando-os sobre todas as coisas que havia.
Quando cheguei onde estava Ramirito, perguntei: “Ramiro, você é adventista?”
Ele disse: “Não, eu não sou adventista.”
Eu disse: “E seus pais são adventistas?”
Ele disse: “Não.”
Eu disse: “Bem, veja, acabo de ter uma entrevista com o doutor Valencia, o juiz de Niquero, e ele me disse: ‘Seus pais são adventistas’.”
O interesse era me colocar entre a espada e a parede e conseguir prendê-lo.
Então ele diz: “Não, eu não sou adventista.”
Lembro-me de que Camilo — estavam ali os três, Camilo aqui, Reynaldo no meio e Ramiro assim — disse: “Bem, Ramiro, e se for verdade o que a carta que você diz diz?”
Ramiro diz: “Não, não. Terão que me matar, e eu, se não me matarem, não vou me entregar a ninguém.”
Quer dizer, essa foi a habilidade do doutor Valencia. Inclusive o doutor Valencia me propôs: “Argelio, quando nós recolhermos esses rapazes…” Ele me disse que, quando eu recolhesse aqueles rapazes, particularmente a ele — “eu sou o doutor Valencia, juiz de Niquero” —, que veja que iríamos fazer de você um homem; quer dizer, era uma oferta de engrandecimento, de recompensa.
Naquele tempo eu poderia ter feito isso porque tinha um tio que era cabo do exército, tinha aqueles rapazes que estavam em condições miseráveis, doentes.
TAD SZULC: Diga-me quando todos foram embora, na última vez…
ARGELIO ROSABAL: Bem, quando eu já vejo que estão fazendo os registros e que o exército está procurando e vasculhando a região, tenho que procurar recursos, porque eu ainda não tenho plano de guerra; eu não sei nada. Simplesmente estou fazendo aquilo por iniciativa própria.
Eu tinha Guillermo García, que era irmão de Domingo, que é cunhado da minha irmã. Guillermo ia quase todos os dias à minha casa, e Domingo também sempre estava ali. Nem Domingo nem ele me haviam dito nada, mas, bem, já naqueles dias em que estavam acontecendo todos aqueles acontecimentos, descubro que Guillermo também estava relacionado com o Movimento e trato de buscar alguma ligação com Guillermo.
Fui à casa de Adrián, pai de Guillermo, procurá-lo. Ele não estava ali e deixei um recado com meu irmão e com Adrián para que viesse à minha casa imediatamente quando chegasse. Mais ou menos às dez ou duas da noite ele veio aqui e expliquei-lhe a situação.
Inclusive ele me abraçou naquela noite assim, por aqui, e me levantou, e disse a Che e àquela gente: “O QUE ESTE RAPAZ FEZ POR VOCÊS, VOCÊS SÃO INCAPAZES DE SABER.”
Isso foi naquela noite. Ele me disse que eu tinha, mais ou menos, quatro cordéis de distância deles, porque da loja de El Mamey: “Vocês não estiveram hoje na loja de El Mamey?” …ao lugar onde eu os tinha havia uns quatro cordéis.
TAD SZULC: Quanto tempo eles ficaram com o senhor?
ARGELIO ROSABAL: Esse primeiro grupo, Che, Almeida e Pancho, eu os tive aproximadamente dois dias.
TAD SZULC: E então foram embora?
ARGELIO ROSABAL: Quando Guillermo veio à noite, recolheu-os.
TAD SZULC: E para onde foram?
ARGELIO ROSABAL: Eles foram para a propriedade Lajitas e foram se reagrupando em Purial de Vicana, porque Fidel estava ali. Quer dizer que, então, comigo ficam em Las Puercas: Camilo, Ramiro e Reynaldo.
Uma noite Guillermo foi e me disse: “Argelio, da parte de Fidel, preciso que você reúna os rapazes.”
Eu disse: “Guillermo, o único problema é que eu quero ver Fidel”, porque eu não o havia visto.
Ele diz: “Bem, vocês devem nos esperar, ou nós vamos esperar vocês, no alto de La Vigía, aproximadamente meio quilômetro para baixo. Há uma palmeira e uma porteira. Às doze da noite vocês me esperam ou eu espero vocês ali.”
Então eu fui para Las Puercas, para o monte El Atraso, buscar os rapazes. Em Las Puercas havia um quartel provisório, onde estava Grau com a tropa. O único cruzamento por onde eu poderia passar os rapazes de El Atraso para cá ficava aproximadamente a cinco ou seis cordéis daquele quartel.
Havia uma ponte, uma linha e ali permanecia um posto de guarda, mas aproximadamente mil e tantos desembocavam três guardarrayas. Por uma dessas guardarrayas peguei os de El Atraso para sair ali.
Quando chegamos, eu lhes disse: “Rapazes, esta é uma situação muito difícil. Aqui agora temos que retirar todas as roupas que brilhem.” Havia um lenço vermelho que devíamos tirar.
Eu lhes disse: “Ali na ponte há um posto de guarda. Vamos tirar todas as roupas que clareiem e vamos atravessar um a um, a um cordel de distância. Eu atravesso primeiro. Se vocês me ouvirem tossir, assobiar ou alguma coisa, isso significa que há perigo. Tratem de salvar a vida, que eu farei o mesmo.”
Então atravessei. O quartel ficava a uns três cordéis, a linha; bem, até que atravessaram todos.
Quando havíamos caminhado um ou dois quilômetros, havia uns campos de cana 318, uma cana macia, e eles tiveram vontade de comer cana. Por essa razão demoramos um pouco mais do tempo programado; isto é, em vez de chegar novamente à porteira às doze da noite, chegamos ali aproximadamente à meia-noite e meia ou uma da madrugada.
Nem Fidel nem Guillermo estavam ali. Ficamos esperando, esperamos bastante tempo, mas quando já estava amanhecendo e vimos que as pessoas chegavam ali, bem, voltamos para a casa e eu os levei para minha casa, para El Mamey.
O que havia acontecido era que Fidel havia mudado de rumo. Em vez de sair pela cordilheira da Maestra, haviam mudado a rota e saíram pela propriedade de Gualterio Tejeda para sair à propriedade de Eudbojjes Pérez e, dali, atravessar a estrada para sair por ali.
TAD SZULC: Então o senhor não chegou a vê-lo?
ARGELIO ROSABAL: Não pude ver Fidel naquela ocasião.
FIM DO DOCUMENTO
O QUE O DEPOIMENTO DE ROSABAL ACRESCENTA AO DOSSIÊ
A entrevista permite observar a sequência dos acontecimentos em sua dimensão concreta. Rosabal se identifica como adventista do sétimo dia, dirigente da igreja e diretor da Escola Sabatina; recebe o primeiro grupo de sobreviventes, oferece café, fornece roupas civis e os conduz através de uma região na qual seu próprio tio servia ao exército de Batista; ouve dos revolucionários o propósito político que os trouxera a Cuba; no sábado reúne cerca de quinze ou vinte adventistas e os orienta a procurar e salvar os sobreviventes; recebe informações de Rubén Verdecia, Jacinto Vázquez e Alfredito González; participa com outros homens da coleta de roupas; chega ao grupo no qual estavam Che Guevara, Juan Almeida, Camilo Cienfuegos, Ramiro Valdés, Reynaldo Benítez, Rafael Chao, Francisco González e Pablo Hurtado; propõe uma oração; divide os revolucionários entre pessoas encarregadas de protegê-los; assume pessoalmente Che, Almeida, Chao e Pancho; enterra rifles e munições a pedido de Che; conduz os homens durante a noite; providencia comida e repouso; monta guarda; transporta mensagens; enfrenta uma denúncia; mantém Che e Almeida escondidos enquanto soldados de Batista procuram os revolucionários; modifica seu esconderijo ao descobrir a rota das tropas; participa do envio clandestino de alimento e continua movimentando outros sobreviventes na tentativa de reuni-los novamente ao núcleo de Fidel Castro.
O documento também dá conteúdo preciso à expressão que Che utilizou no apêndice anterior. Quando Guevara escreveu que adventistas lhe deram “apoio franco”, Rosabal descreveu roupas, comida, esconderijos, informação, deslocamento, vigilância, mensagens e preservação de armamento; quando Che acrescentou que esse apoio existiu “durante todo o transcurso da guerra”, a entrevista de Rosabal revelou uma das primeiras estruturas locais pelas quais a sobrevivência dos expedicionários foi favorecida imediatamente depois do desastre do Granma. O relato de Che e o depoimento de Rosabal convergem sobre pessoas, lugares, circunstâncias e funções, com cada fonte iluminando aquilo que a outra resumiu.
O documento seguinte desloca a investigação aproximadamente dois anos adiante e muda também sua escala. No Apêndice C, a voz será a de Walton J. Brown, presidente do Antillian College, escrevendo em 1959 para a própria Review and Herald sobre aquilo que ocorreu quando a Revolução chegou à batalha decisiva de Santa Clara. A história que começou entre adventistas das montanhas aparecerá então dentro de uma instituição denominacional, diante do próprio Che Guevara e no momento em que o regime de Batista estava prestes a cair.
APÊNDICE C — WALTON J. BROWN: O ANTILLIAN COLLEGE DURANTE A BATALHA DE SANTA CLARA
IDENTIFICAÇÃO DO DOCUMENTO
Documento: “During the Recent Revolution in Cuba, God’s Work Was Safe — Under HIS Wings”.
Autor: Walton J. Brown.
Função do autor: presidente do Antillian College.
Publicação: Review and Herald.
Data: 30 de abril de 1959.
Volume: 136.
Número: 18.
Páginas: 16, 17, 21, 23 e 24.
Apresentação: tradução integral do artigo publicado poucos meses depois da batalha de Santa Clara.
POR QUE ESTE DOCUMENTO OCUPA UMA POSIÇÃO CENTRAL NO DOSSIÊ
Os dois primeiros apêndices colocaram diante do leitor acontecimentos ocorridos depois do desembarque do Granma, quando sobreviventes dispersos e perseguidos receberam apoio de adventistas na Sierra Maestra. Este terceiro documento desloca a investigação para dezembro de 1958 e altera sua escala. Agora quem escreve é o presidente de uma instituição adventista, e o cenário é a batalha decisiva de Santa Clara. Walton J. Brown registra diretamente a aproximação das forças revolucionárias, a chegada de Che Guevara às proximidades do colégio, o pedido de alimentos, o atendimento aos feridos, a entrega de materiais, a alimentação de dezenas e depois centenas de revolucionários, a utilização de um gerador fornecido pelos rebeldes, a negociação de limites com o próprio Che, a recusa da gráfica em produzir propaganda política e, depois da queda de Batista, os efeitos do relacionamento estabelecido durante os combates.
O valor do documento está também em sua proximidade temporal. Brown publicou o relato em 30 de abril de 1959, quando apenas quatro meses separavam o texto dos acontecimentos que descrevia. Não se trata de uma reconstrução tardia produzida depois que a Revolução já havia atravessado décadas de controvérsia internacional. O presidente do Antillian College escreve para leitores adventistas enquanto as lembranças de Santa Clara ainda estavam extraordinariamente próximas e apresenta aquilo que aconteceu como parte da experiência religiosa e administrativa da instituição que dirigia.
DURANTE A RECENTE REVOLUÇÃO EM CUBA, A OBRA DE DEUS ESTEVE SEGURA — SOB SUAS ASAS
Por Walton J. Brown, presidente do Antillian College
Nós, no Antillian College, em Cuba, há muito estávamos conscientes de que nosso país atravessava tempos difíceis, mas até pouco tempo atrás todos os problemas pareciam estar muito distantes de nosso pacífico campus. Nossas aulas e nosso programa de trabalho transcorriam normalmente, e todos nós estávamos ocupados e felizes. Os conflitos e combates estavam limitados à parte oriental da ilha, a cerca de oitocentos quilômetros de nós. Sentíamos que não havia perigo imediato para as vidas e propriedades da escola.
Mas logo começamos a ouvir rumores de combates na parte central da ilha. Gradualmente, esses rumores transformaram-se em fatos. Quando E. E. Cossentine, da Associação Geral, e V. E. Berry, da Divisão Interamericana, vieram inspecionar o colégio, relataram que haviam precisado atravessar rios onde as pontes tinham sido destruídas, algumas a apenas oitenta quilômetros de nós. Logo uma ponte em nossa própria rodovia, apenas alguns quilômetros ao norte, foi explodida, e todo o tráfego parou.
Apesar das dificuldades, todas as atividades missionárias patrocinadas pelo departamento ministerial do colégio continuavam. Vinte e quatro estudantes de teologia saíam regularmente para pregar às igrejas e grupos das redondezas. Quarenta e oito jovens saíam a cada sábado à tarde para cuidar de quatorze Escolas Sabatinas filiais. Quinze jovens estavam iniciando trabalho em regiões ainda não alcançadas.
Percebemos que a situação estava se tornando séria quando dois estudantes ministeriais ficaram presos do outro lado de uma ponte onde ocorrera um tiroteio. Quando começaram a voltar caminhando para a escola, passaram por um grupo de barbudos armados — os “barbudos” — vigiando a estrada.
Cidades a leste, ao norte e ao sul de nós estavam caindo nas mãos dos insurgentes. Ficávamos sabendo da queda de cada uma delas quando suas estações de rádio acrescentavam às identificações: “Radio Rebelde, Território Livre de Cuba”.
Na sexta-feira à noite, 26 de dezembro, quando desejávamos enviar uma mensagem à sede de nossa União, fomos informados de que as linhas telefônicas estavam “temporariamente interrompidas”. No mesmo dia foram cancelados os horários restantes de ônibus saindo de Santa Clara. Estávamos agora completamente isolados do mundo.
Todos os estudantes das cidades situadas a oeste de nós haviam conseguido voltar para casa, para Havana e Pinar del Río, quando começaram as férias de Natal, no dia 19. Mas a maioria dos estudantes, aproximadamente duzentos, teve de permanecer conosco, porque não havia transporte ferroviário, rodoviário ou aéreo nas demais direções.
Decidimos que seria prudente cancelar todas as atividades fora do campus no sábado, dia 27. Tivemos um bom dia juntos. Foram feitas orações especiais pedindo proteção divina e pedindo que Deus dirigisse os assuntos nacionais para que a paz fosse logo restaurada.
Durante aquele dia, amigos nos disseram em voz baixa que, dentro de dois ou três dias, começaria o ataque contra Santa Clara, localizada a cerca de oito quilômetros de nós, e que o ataque viria diretamente por nossa rodovia. Apesar disso, aquilo parecia irracional e quase impossível.
Mas não era.
Por volta das 12h45 da madrugada de domingo, fomos acordados pelo som de golpes de machado. Por meio de binóculos, sob a brilhante luz da lua, podíamos ver homens derrubando os postes telefônicos logo do lado de fora da propriedade da escola. Agora estaríamos realmente isolados, até de Santa Clara.
O vigia noturno logo chegou e nos informou que dois barbudos estavam vigiando nosso edifício principal e que outros haviam tomado a universidade do outro lado da rodovia.
Imediatamente fomos ver os famosos “homens das montanhas” e encontramos dois sentinelas muito cansados — barbas, armas e tudo mais. Apesar do cansaço, estavam confiantes em sua causa. Logo perceberam que não éramos hostis a eles e, quando Charles R. Taylor, de nosso departamento bíblico, conseguiu um saco de dormir, eles se revezaram dormindo nele.
Depois fomos até a entrada da universidade, onde encontramos grande número de rebeldes. Estavam cansados e famintos. Também eram amistosos e, quando lhes oferecemos leite frio de nosso laticínio, demonstraram grande gratidão. Enquanto bebiam, brincavam: “O que vocês acham dos Mau-Mau cubanos?”
Às quatro da manhã começaram a avançar em direção à cidade. Parecia impossível que um grupo tão cansado, maltrapilho e praticamente desarmado tivesse coragem de entrar em Santa Clara para enfrentar milhares de soldados governamentais bem equipados, apoiados por tanques e aviões.
Alguns, que avançaram sem armas, diziam: “Quando encontrarmos os soldados, teremos armas.”
Aproximadamente duas horas depois fomos acordados por um rebelde armado sorrindo por trás da barba. O comandante enviara seus cumprimentos e perguntava se o colégio permitiria que alguns jipes e caminhões fossem colocados sob nossas árvores.
Pedimos que tudo fosse estacionado a uma boa distância dos edifícios, a fim de evitar qualquer tiro direto contra a escola. Enquanto olhávamos, podíamos ver soldados rebeldes marchando pela rodovia em direção à cidade.
Caminhamos até o campus da universidade e ali encontramos o comandante, Dr. Ernesto (Che) Guevara, acompanhado de um auxiliar, examinando o mapa da cidade. Ele logo veio falar conosco, pedindo que a escola fornecesse comida para médicos, enfermeiros e outras pessoas que talvez passassem por ali durante os próximos dias.
Quando indicamos que tínhamos dificuldade em conseguir leite e alimentos, ele declarou que agora estávamos no Território Livre de Cuba e que os soldados rebeldes cuidariam para que recebêssemos tudo aquilo de que necessitássemos.
Em pouco tempo começaram a chegar à universidade os feridos provenientes de Santa Clara. Salas de aula foram transformadas em postos de primeiros socorros. Os médicos nos pediram lençóis, travesseiros e bandagens, e estudantes e professores entregaram tudo aquilo que podia ser dispensado.
Vários estudantes que possuíam conhecimentos de primeiros socorros também foram até lá e ajudaram durante a manhã. Aquele foi o pior momento, porque o primeiro grupo de soldados havia caído numa emboscada na entrada da cidade. Vários foram mortos.
Mais tarde, clínicas e hospitais dentro da cidade foram tomados pelos rebeldes, e os feridos passaram a ser atendidos nesses locais.
Mas desde aquela manhã de domingo ficamos ocupados, porque dezenas, depois grupos maiores e finalmente centenas de rebeldes passaram pelo colégio a todas as horas do dia procurando alguma coisa para comer. Estavam famintos e cansados, mas sempre respeitosos e agradecidos.
Ao meio-dia daquele primeiro dia, aproximadamente cem homens vieram jantar. A senhora Peria, nossa supervisora interina, mandou que se sentassem às mesas. Depois explicou o procedimento de nosso refeitório e acrescentou que era nosso costume pedir sempre que Deus abençoasse o alimento antes de começarmos a comer.
Pediu ao senhor Santos, gerente de nossa fábrica de alimentos, que fizesse a oração. Quando ele começou a orar, os rebeldes que estavam sentados levantaram-se, viraram-se na direção do senhor Santos e permaneceram em completo silêncio durante a oração.
Isso foi típico de todos os homens que nos visitaram durante aqueles dias. Em muitos casos eram homens simples do campo, sem treinamento, mas possuíam disciplina rígida.
Um jovem não comia havia três dias. Ao parar junto à entrada do refeitório, olhou faminto para dentro. Convidado a entrar, respondeu: “Não, eu não poderia comer até que todos os meus companheiros possam comer comigo.” E esperou mais um pouco, até que todos entraram juntos.
Durante todos os dias seguintes não houve palavra nem ação que prejudicasse o relacionamento entre os soldados e nossa escola.
Naquela noite, C. E. Schmidt, gerente administrativo, e eu fomos até um corredor da universidade onde o comandante Guevara havia instalado seu quartel-general. Conversamos com ele sobre os princípios da Igreja Adventista do Sétimo Dia e do Antillian College, indicando nossa disposição de fazer tudo aquilo que fosse possível para ajudar a preservar vidas, mas salientando que havia certas coisas que não podíamos fazer.
O doutor Guevara disse que conhecia os adventistas do sétimo dia e que cuidaria pessoalmente para que nada acontecesse que interferisse em nossas convicções e práticas religiosas.
Durante os dias seguintes, esperamos ansiosamente notícias das atividades dentro de Santa Clara. A situação era muito difícil e havia forte resistência. O primeiro encorajamento para os insurgentes veio na noite de segunda-feira, quando conseguiram capturar um trem fortemente blindado com mais de trezentos soldados.
Durante os dias de combate podíamos observar da escola enquanto bombardeiros e aviões leves atacavam a cidade. Muitas vezes os aviões circulavam sobre a escola e a universidade, obrigando-nos a correr para os abrigos.
Por fim, entretanto, chegamos a acreditar que não estávamos em perigo. Sentíamo-nos relativamente seguros enquanto observávamos bombas caindo ao longe e víamos os rastros das rajadas de metralhadora.
Na tarde de terça-feira enfrentamos um problema quando representantes das forças rebeldes nos pediram que imprimíssemos alguns folhetos de propaganda para distribuição em Santa Clara. Disseram que o trabalho não podia ser feito na cidade porque ela estava sem eletricidade e água.
Informamos respeitosamente que nossa gráfica estava intimamente ligada à nossa escola, uma instituição religiosa, e que evitávamos imprimir coisas como anúncios de bebidas alcoólicas ou tabaco e outros materiais que não estivessem em harmonia com nossos princípios. Explicamos ainda que não tomávamos partido politicamente, mas apenas procurávamos fazer o bem.
Dissemos que eles poderiam operar a gráfica com seus próprios homens — tomando-a pela força —, mas que preferiríamos que o material fosse impresso em outro lugar. Eles disseram que não desejavam fazer nada pela força e foram embora.
Mais tarde, seu líder informou que haviam encontrado outro lugar para fazer o trabalho e que respeitavam nossos princípios.
Quarta-feira, 31 de dezembro, começou como os outros dias. Durante a manhã observamos os aviões bombardeando e metralhando a cidade. Depois do almoço vieram novamente: um Spitfire e três bombardeiros B-26.
Com grande dificuldade conseguimos colocar nossos estudantes em locais protegidos enquanto os aviões circulavam sobre nossas cabeças. Às 14h47, enquanto observávamos um bombardeiro passar em mergulho diante da universidade, ouvimos um avião dirigindo-se para o colégio.
Houve uma tremenda explosão e percebemos que uma bomba havia caído em nossa propriedade, deste lado da entrada da universidade.
Aquilo marcou o início de aproximadamente uma hora e quinze minutos de ataques de metralhadora realizados por aqueles aviões. As moças, bem como vários professores e rebeldes que estavam comendo no refeitório, encontraram proteção na lavanderia situada no porão do dormitório feminino. Os rapazes correram para os chuveiros no porão do dormitório masculino.
Famílias casadas e professores esconderam-se nas salas da gráfica, no piso inferior do novo edifício industrial. Outros estudantes e professores, juntamente com alguns rebeldes, amontoaram-se nos corredores sob o piso de concreto armado da nova biblioteca.
Alguns foram surpreendidos sem proteção. Ernest Boodt, gerente da fazenda, estava a cavalo trazendo as vacas para a ordenha quando um avião foi atrás dele. Seu assistente, Raudelio Gonzalez, juntamente com um estudante, estava arando um campo. Por causa do barulho do trator, não perceberam que estavam sendo metralhados até o avião passar rugindo por eles.
Cinco outras pessoas que trabalhavam na horta foram alvo de outro avião. Um casal de estudantes foi surpreendido em sua casa desprotegida. Foram alvejados enquanto corriam para se proteger num canavial.
O pastor Taylor realizava sua própria reunião particular de oração num bambuzal quando viu um avião dirigir-se para ele. Pulou numa vala próxima. Quando o avião persistiu em sua direção, ele avançou pelo riacho, mantendo apenas a cabeça acima da água, e permaneceu junto à represa até que o tiroteio terminasse.
Todos nós orávamos, onde quer que estivéssemos. Pensávamos: “Isso é algo novo. Algum de nossos colégios adventistas do sétimo dia já foi alvo direto de um ataque aéreo, com a maioria de seus estudantes no campus?”
Ouvíamos o rugido do avião e pensávamos nas trezentas pessoas espalhadas pelos aproximadamente 325 acres de nossa propriedade. Alguém dizia: “Desta vez estão atirando nas vacas.” E começávamos a calcular quais seriam nossas perdas.
Depois vinha outra passagem: “Agora estão atirando no Campamento.” E pensávamos nas dezessete famílias desprotegidas que viviam ali.
Depois ouvíamos cartuchos vazios caindo sobre nosso próprio edifício e nos perguntávamos se algum estudante havia saído para uma área aberta e sido atingido.
NENHUMA VIDA PERDIDA
Finalmente os aviões foram embora. Notícias começaram a chegar de diferentes partes das terras do colégio. Como ficamos agradecidos quando descobrimos que nenhuma pessoa, nem mesmo um animal, havia sido ferida e nenhum dano grave havia sido causado a qualquer edifício.
Algumas marcas no edifício industrial mostravam onde certas balas haviam acertado. Um buraco no telhado do depósito da fábrica e uma lata de goiabas estragadas mostravam onde outra bala havia terminado sua trajetória. Um pequeno buraco no telhado do edifício normal e algumas telhas quebradas ao lado do prédio administrativo foram as únicas outras marcas do ataque.
Durante os dois dias seguintes, estudantes e professores percorreram toda a propriedade recolhendo cartuchos. Muitos também guardaram lembranças da bomba de 125 libras que iniciara o ataque.
Aquela bomba explodira junto à linha elétrica, de modo que ficamos sem eletricidade daquele momento até a tarde do sábado seguinte. Nosso equipamento essencial, porém, conseguiu funcionar graças a um pequeno gerador portátil que os rebeldes nos haviam permitido utilizar alguns dias antes exatamente para uma emergência daquele tipo.
Agora temíamos novos bombardeios, que acreditávamos certamente ocorreriam nos dias seguintes. Naquela noite um oficial falou aos professores e estudantes. Disse que lamentava que estivéssemos sendo expostos a perigos daquele tipo, mas que eles não podiam ser evitados.
Deu instruções sobre como proceder durante os ataques seguintes. Disse que os combates em Santa Clara estavam difíceis e que o cerco talvez durasse mais dez ou vinte dias.
Oramos para que a paz viesse rapidamente.
Naquela noite ouvimos aviões muito perto, bombardeando e metralhando, mas eles não passaram sobre o colégio. Perguntávamo-nos o que os dias seguintes trariam.
Vários dias depois do fim dos combates, soubemos que o governo planejara enviar vinte e três aviões no dia de Ano-Novo para um ataque total contra Santa Clara.
Mas o Senhor interveio. Na própria noite seguinte ao ataque que havíamos sofrido, o governo desmoronou e seus dirigentes fugiram, deixando tudo nas mãos dos insurgentes.
Como recebemos com alegria a notícia na manhã seguinte! Deus havia respondido às nossas orações e às orações de outros em nosso favor, e agora estávamos livres do medo de morte repentina causada por bombas e balas.
Os médicos e soldados rebeldes ainda estavam conosco na quinta-feira, 1º de janeiro. Cento e oitenta jantaram conosco naquela noite.
Já havíamos feito planos para que tivéssemos um sábado tranquilo. Não deixaríamos os soldados sem comida naquele dia, mas, na sexta-feira, prepararíamos refeições embaladas e as deixaríamos na universidade. Os oficiais haviam concordado em manter seus homens fora do campus durante o sábado.
Mas essa medida não foi necessária, porque na sexta-feira o número de rebeldes que se alimentava em nosso refeitório havia diminuído muito e apenas três apareceram no sábado.
Na sexta-feira à noite, à luz de várias lâmpadas, um grupo muito agradecido de professores e estudantes reuniu-se na capela do colégio para o culto de pôr do sol. Como éramos agradecidos porque Deus havia respondido às nossas orações e porque toda aquela tempestade havia surgido e desaparecido entre dois sábados!
Também estávamos felizes por termos conseguido testemunhar de nossos princípios diante de centenas de homens — soldados e oficiais. Acima de tudo, agradecíamos ao Senhor por ter protegido nossas vidas, nossos edifícios e nossa propriedade.
Agora estamos desfrutando dos “efeitos posteriores” daquela semana.
O novo governador da província de Las Villas apareceu no colégio certa manhã. Ele havia dito a outras pessoas que, depois de assumir o cargo, o colégio e a universidade eram os primeiros lugares que desejava visitar, e assim fez.
Fez questão de falar com os rapazes e moças que o haviam servido durante aquela semana, quando, segundo ele, havia feito várias refeições em nosso refeitório.
Nosso coral passou a ser solicitado para cantar no auditório municipal, no quartel do regimento e diante do próprio comandante-chefe, o primeiro-ministro Fidel Castro, numa cerimônia especial na Universidade Central.
A. H. Roth, presidente da Divisão Interamericana, ao se identificar diante de um soldado rebelde em Havana, e C. L. Powers, secretário-tesoureiro da União das Antilhas, conversando com um inspetor alfandegário no aeroporto, ouviram imediatamente: “Oh, sim, conhecemos os adventistas do sétimo dia. Nós comemos no Antillian College durante a batalha de Santa Clara.”
Muitas autoridades e outras pessoas estão agora visitando a escola.
Verdadeiramente, durante aqueles dias difíceis aprendemos que “o anjo do Senhor acampa-se ao redor dos que o temem” e, desde então, comprovamos que “todas as coisas cooperam para o bem daqueles que amam a Deus”.
FIM DO ARTIGO DE WALTON J. BROWN
O QUE O DOCUMENTO DE BROWN ACRESCENTA AO DOSSIÊ
O relato de Brown amplia decisivamente a escala da documentação. Na Sierra Maestra, Rosabal descreveu adventistas reunidos em torno de uma congregação e mobilizados para localizar e proteger sobreviventes do Granma; em Santa Clara, Brown apresenta uma instituição adventista formal, com presidente, gerente administrativo, professores, estudantes, refeitório, gráfica, produção de alimentos, instalações, veículos estacionados na propriedade e relações diretas com o comandante das forças revolucionárias. A colaboração deixa de aparecer apenas no nível de membros individuais e passa a ser registrada dentro do funcionamento cotidiano de um colégio pertencente à denominação.
O próprio Brown fornece as dimensões dessa assistência. Che pediu alimentos para médicos, enfermeiros e outras pessoas que atravessariam a região; feridos começaram a chegar; salas da universidade foram transformadas em postos de primeiros socorros; médicos solicitaram lençóis, travesseiros e bandagens; estudantes e professores entregaram o que podia ser dispensado; alunos com conhecimentos de primeiros socorros participaram do atendimento; dezenas, depois grupos maiores e finalmente centenas de rebeldes passaram pelo colégio procurando alimento; aproximadamente cem homens foram servidos já no primeiro dia, e 180 médicos e soldados revolucionários jantaram no local em 1º de janeiro.
A negociação entre Brown, C. E. Schmidt e Che Guevara também merece permanecer como uma das passagens fundamentais do documento. Os administradores disseram ao comandante que estavam dispostos a fazer tudo aquilo que fosse possível para preservar vidas, ao mesmo tempo em que estabeleceram limites para determinadas ações. Che respondeu dizendo que conhecia os adventistas do sétimo dia e prometeu respeitar suas convicções e práticas religiosas. O relacionamento, portanto, não aparece apenas como uma sucessão de atos improvisados; Brown registra interlocução direta, estabelecimento de limites e reconhecimento recíproco das condições em que a cooperação ocorreria.
A LINHA VERMELHA ESTAVA NA TINTA E NO PAPEL
A recusa da gráfica ocupa uma posição singular dentro do relato porque permite observar onde a administração decidiu traçar sua fronteira. Os revolucionários pediram a impressão de propaganda destinada a Santa Clara. Brown e os demais dirigentes recusaram, explicaram que a gráfica pertencia a uma instituição religiosa, afirmaram que não tomavam partido politicamente e preferiram que os folhetos fossem produzidos em outro lugar. Os homens de Che aceitaram a decisão e localizaram outra gráfica.
Enquanto a impressão política foi recusada, a assistência concreta continuou: alimentos, instalações próximas ao campo de batalha, lençóis, travesseiros, bandagens, primeiros socorros, abrigo durante ataques, refeições em grande escala e planejamento para continuar alimentando os soldados sem interferir na observância do sábado. A linha vermelha estava na tinta e no papel porque imprimir propaganda produziria uma prova material, direta e permanente de participação institucional numa atividade política revolucionária. A tinta produziria evidência, o papel conservaria a memória e a gráfica vincularia materialmente a instituição à autoria da propaganda, enquanto a cooperação prática podia continuar acontecendo fora da página impressa.
O contraste preservado pelo próprio documento é extraordinariamente claro: a administração julgou possível ajudar a sustentar homens empenhados na batalha e, simultaneamente, considerou incompatível com seus princípios fabricar o material político que aqueles mesmos homens desejavam distribuir. A fronteira institucional não separou relação e ausência de relação; separou diferentes modalidades de colaboração.
DO CAMPO DE BATALHA AO CAPITAL DE RELACIONAMENTO
Brown não encerra sua narrativa quando terminam os tiros. Ele chama explicitamente a atenção para os “efeitos posteriores” daquela semana. O novo governador de Las Villas visita o colégio e procura os estudantes que o haviam servido durante os combates; o coral da instituição passa a cantar em ambientes públicos e militares e diante do próprio Fidel Castro; A. H. Roth, presidente da Divisão Interamericana, e C. L. Powers, secretário-tesoureiro da União das Antilhas, encontram representantes do novo regime que reconhecem imediatamente os adventistas por causa da alimentação recebida no Antillian College durante a batalha de Santa Clara.
Esse desfecho torna o documento particularmente importante para os apêndices seguintes. A assistência prestada durante a guerra produziu reconhecimento depois da vitória. Homens que haviam chegado ao colégio como combatentes famintos reaparecem como integrantes do poder revolucionário; dirigentes adventistas que haviam negociado limites com Che passam a encontrar autoridades que já conhecem a denominação; e o serviço prestado durante a batalha converte-se em memória compartilhada. A relação construída quando os revolucionários precisavam da instituição começa, então, a adquirir valor quando a instituição precisa conviver com os revolucionários já transformados em governo.
O documento seguinte leva essa história para uma nova etapa. No Apêndice D, Caleb Rosado olhará retrospectivamente para a Revolução Cubana e utilizará uma expressão que dá nome preciso a parte do que os documentos anteriores mostraram em funcionamento: adventistas “simpatizaram com os revolucionários e prestaram assistência clandestina”. Depois de Che, Rosabal e Brown, a expressão de Rosado poderá ser lida diante dos acontecimentos que ela procura resumir.
APÊNDICE D — CALEB ROSADO: “CASTRO AND THE CHURCHES” E A “ASSISTÊNCIA CLANDESTINA”
IDENTIFICAÇÃO DO DOCUMENTO
Documento: “Castro and the Churches”.
Autor: Caleb Rosado.
Publicação: Spectrum.
Volume: 15.
Número: 3.
Data: outubro de 1984.
Páginas: 24–27.
Identificação do autor na publicação: pastor da All Nations Seventh-day Adventist Church, em Berrien Springs, Michigan, e doutorando em Sociologia na Northwestern University.
Apresentação: tradução integral do artigo.
POR QUE ESTE DOCUMENTO ESTÁ AQUI
Os três documentos anteriores mostraram os acontecimentos a partir das vozes de Che Guevara, Argelio Rosabal e Walton J. Brown. Caleb Rosado escreve vinte e cinco anos depois da vitória revolucionária e realiza uma operação diferente: organiza retrospectivamente a história das relações entre a Igreja Adventista, a Revolução e o Estado cubano. É em seu artigo que aparecem duas das expressões mais importantes de todo este dossiê: adventistas “simpatizaram com os revolucionários” e prestaram “assistência clandestina”.
A importância desse registro não está em permitir que as qualificações empregadas por Rosado estabeleçam os limites de nossa interpretação, mas em acrescentar a voz de um pastor e pesquisador adventista a uma cadeia documental que já mostrou o fenômeno por outros caminhos. Che registra o apoio recebido; Rosabal descreve uma rede adventista mobilizada para proteger os revolucionários; Brown documenta a atuação do Antillian College durante Santa Clara; Rosado registra retrospectivamente a simpatia e a assistência clandestina. O leitor terá imediatamente abaixo o artigo integral e poderá verificar exatamente como o próprio autor formulou sua narrativa.
Também poderá observar a sequência escolhida por Rosado: primeiro aparece a condenação de Batista por sua crueldade e corrupção política; depois aparece a colaboração adventista com seus adversários. A explicação moral pode ajudar a compreender a motivação daqueles que fizeram a escolha, mas não transforma essa escolha em neutralidade. Julgar politicamente um governo, simpatizar com a força que pretende derrubá-lo e prestar assistência clandestina aos seus integrantes significa tomar posição diante daquele conflito.
Rosado recorre ainda às memórias de Che Guevara, relaciona os adventistas aos acontecimentos de Santa Clara e acompanha posteriormente a deterioração das relações entre a Igreja e o novo Estado. Seu artigo preserva, portanto, os dois lados de uma história que não devem ser confundidos: a colaboração anterior com os revolucionários e a perseguição posterior sofrida por religiosos sob o regime que emergiu da Revolução. A segunda realidade não apaga a primeira.
CASTRO E AS IGREJAS
Por Caleb Rosado
A mensagem adventista do sétimo dia chegou pela primeira vez a Cuba em 1903, pouco depois da Guerra Hispano-Americana de 1898, que colocou Cuba sob a dominação dos Estados Unidos. Os primeiros esforços para a propagação do evangelho resultaram do trabalho de sustento próprio realizado por missionários americanos que aceitaram o desafio de W. A. Spicer para que a obra fosse iniciada na ilha.
De 1904, quando a Missão Cubana foi estabelecida, até 1959, quando ocorreu a Revolução Cubana, a obra adventista cresceu até alcançar 5.464 membros, com um aumento anual de 347. Embora a presença institucional da Igreja fosse substancial, com 74 igrejas e uma faculdade de nível superior, a liderança da Igreja estava principalmente nas mãos de americanos e estrangeiros. Pouquíssimo esforço foi realizado para preparar cubanos para funções de liderança.
Assim, quando chegou a Revolução e todos os missionários americanos e estrangeiros deixaram o país, a Igreja cubana ficou sem líderes cubanos devidamente preparados para assumir sua direção. O resultado foi que a Igreja Adventista em Cuba estagnou, de modo que a Igreja de 1984 é basicamente a Igreja de 1959: o mesmo pensamento religioso, os mesmos valores de comportamento, a mesma visão de mundo, a mesma perspectiva centrada na religião, os mesmos valores de vestuário, a mesma compreensão da missão da Igreja e assim por diante; em outras palavras, a Igreja deixou de avançar por causa da ausência de liderança qualificada e, como resultado, deixou de acompanhar os tempos.
Depois da Revolução, não havia teólogos cubanos no seminário de Cuba que pudessem reconsiderar e redefinir a missão da Igreja diante de uma situação em transformação. Além disso, muitos líderes cubanos deixaram o país juntamente com os americanos. A nova liderança, portanto, passou a tratar a missão da Igreja em termos do passado, em termos daquilo que conhecia. A questão de saber se uma situação em mudança poderia alterar a missão da Igreja, ou pelo menos obrigá-la a reconsiderar seu papel numa sociedade revolucionária, jamais foi levantada, nem voltou a ser levantada desde então.
É preciso ter em mente que, embora a maioria dos cubanos prefira a situação da Igreja sob Batista à situação sob Castro, muitos adventistas se opunham a Fulgencio Batista por causa de sua crueldade e corrupção política. Assim, quando Castro iniciou a Revolução no outono de 1956, vários adventistas, especialmente os leigos da província de Oriente, onde Castro se encontrava, simpatizaram com os revolucionários e prestaram assistência clandestina.
A ajuda foi de tal natureza que o único grupo religioso mencionado por Che Guevara em suas Reminiscences of the Cuban Revolutionary War é o dos adventistas do sétimo dia. Falando de uma família adventista, que identifica nominalmente, Guevara declara:
“Eram adventistas que, embora fossem contrários a qualquer espécie de violência por causa de suas crenças, deram-nos todo o seu apoio naquele momento e durante toda a guerra. Comemos abundantemente e descansamos ali.”
Quando a batalha final da Revolução foi travada em Santa Clara, Castro utilizou o Antillian College adventista como seu quartel-general, onde ele e seus soldados foram alojados, alimentados e entretidos, devido à sua desconfiança dos estudantes da Universidade de Santa Clara, localizada do outro lado da estrada em frente ao Antillian College.
Em 1º de maio de 1961, pouco depois da Baía dos Porcos e de seu anúncio de adesão ao socialismo, Castro nacionalizou todas as escolas. A última escola a ser nacionalizada, entretanto, foi nosso colégio em Santa Clara, por causa do modelo de escola que representava, com seu programa de trabalho e estudo, e da alta consideração em que Castro tinha os adventistas.
RELAÇÕES ENTRE IGREJA E ESTADO
Três fatores levaram a uma ruptura nas relações entre o governo cubano e a Igreja Adventista do Sétimo Dia: a aceitação pelo governo, em abril de 1961, da ideologia marxista-leninista como ideologia oficial do Estado; a nacionalização de todas as escolas particulares em maio de 1961; e a recusa em conceder aos adventistas privilégios relacionados ao sábado, seja na escola, no trabalho ou nas forças armadas, o que resultou na prisão de muitos.
O estabelecimento, em setembro de 1960, dos Comitês de Defesa da Revolução produziu alguns resultados devastadores para os adventistas. Como esses comitês haviam sido criados principalmente para fins de vigilância, qualquer pessoa que professasse uma ideologia diferente daquela do Estado passou a sofrer severa repressão: ausência de promoção profissional, perda do emprego, especialmente entre as mulheres, impossibilidade de receber bolsas de estudo e vigilância constante.
O governo não se opõe às práticas religiosas, mas buscar ativamente converter outras pessoas é punível por lei. Como parte da política oficial do Estado, a religião foi relegada à esfera privada e, embora oficialmente permitida, a adesão religiosa era desencorajada informalmente por meio de repressões sutis, vigilância constante e perda de privilégios.
O resultado foi uma diferença de atitude diante do Estado entre grupos religiosos sectários e protestantes tradicionais. É preciso ter em mente que, num Estado ateu e marxista-leninista, todos os grupos religiosos assumem uma condição sectária, pois todos se encontram em tensão dentro de um ambiente hostil à religião. Ainda assim, algumas religiões permanecem mais acomodadas ao governo.
Mais do que outros grupos, cristãos sectários como as Testemunhas de Jeová, a Banda Evangélica de Gideão e os adventistas do sétimo dia encontram-se em oposição ao Estado numa sociedade socialista como Cuba. Existe uma razão para isso: assim como o próprio governo comunista, esses três grupos sectários compartilham um elemento comum — todos são sistemas totais. São sistemas que procuram controlar tanto o comportamento quanto as crenças de seus integrantes. Como as ideologias básicas desses grupos são diferentes, eles acabam competindo entre si. Isso não significa que os sistemas possuam o mesmo poder. Os adventistas se relacionam com o governo cubano da mesma maneira que Davi se relacionava com Golias.
Por causa da totalidade de controle necessária ao adventismo ou ao comunismo, torna-se praticamente impossível que um sistema seja simpático e acomodado ao outro. Grupos protestantes tradicionais, como presbiterianos, metodistas e batistas, não aderem a um sistema de crenças igualmente regimentado que governa todas as ações do grupo. Esses outros grupos, por exemplo, não possuem restrições relativas ao sábado como dia exclusivo de culto, à alimentação, ao vestuário e ao entretenimento. Como não são sistemas totais concorrentes, as denominações protestantes tradicionais não são consideradas ameaçadoras para o sistema comunista, um sistema que exige lealdade completa e integração dentro dele.
A Igreja em Cuba precisa definir sua missão em termos de fidelidade ao evangelho e às suas exigências, e não em termos das instituições da Igreja.
Por essas razões, no Primeiro Congresso Nacional de Educação e Cultura, realizado em abril de 1971, adventistas do sétimo dia, Testemunhas de Jeová e a Banda Evangélica de Gideão foram destacados “por causa de suas atividades em oposição à Revolução”. A “peculiaridade mais destacada” apontada pela declaração contra os adventistas do sétimo dia era que “eles não realizam nenhuma atividade aos sábados, não trabalham nem enviam seus filhos à escola etc.”.
O governo cubano deixou bastante claro que: “A Revolução respeita as crenças e os cultos religiosos como um direito individual. A Revolução não impõe, não persegue nem reprime ninguém por suas crenças religiosas.”
Essa declaração, escrita em 1971, tornou-se o Artigo 54 da Constituição da República de Cuba, adotada em 1975 no Primeiro Congresso do Partido Comunista de Cuba, e diz:
“O Estado socialista, que fundamenta sua atividade e educa o povo na concepção científico-materialista do mundo, reconhece e garante a liberdade de consciência e o direito de todos a professar qualquer religião e praticar, dentro do respeito à lei, a crença de sua preferência.
A lei regulamenta as atividades das instituições religiosas. É ilegal e punido por lei opor a própria fé ou crença religiosa à Revolução, à educação ou ao cumprimento do dever de trabalhar, defender o país com armas, reverenciar seus símbolos e cumprir os demais deveres estabelecidos pela Constituição.”
A expressão-chave da lei acima é “dentro do respeito à lei”. Dentro dessa “estrutura” existe liberdade religiosa; fora dela, não existe. Essa estrutura define religião como assunto “privado”, significando que a pessoa é livre para prestar culto na igreja ou dentro da fé de sua escolha. Campanhas evangelísticas são inclusive permitidas, com a devida autorização, desde que realizadas dentro dos edifícios das igrejas. A pessoa pode portar uma Bíblia em público e até lê-la publicamente, desde que isso seja feito para sua devoção pessoal e privada.
A Associação pode publicar literatura desde que sua utilização seja estritamente destinada aos membros e não à evangelização de outras pessoas. Falar publicamente, ir de casa em casa para distribuir literatura ou conseguir interessados em estudos bíblicos, entretanto, é considerado proselitismo. Essa atividade é tratada como contrarrevolucionária e punível com prisão.
O governo afirma que não persegue pessoas por suas práticas religiosas. Quando alguém, como Humberto Noble Alexander, é encontrado ministrando estudos bíblicos de casa em casa, o governo o prende, mas afirma que a prisão não ocorre por infração religiosa, e sim pela recusa em praticar a religião “dentro do respeito à lei”. Em outras palavras, o governo diz: “Não nos importamos que você pratique sua fé, mas você não pode sair por aí procurando ativamente fazer com que outras pessoas se tornem adeptas dela. Isso é proselitismo e é punível por lei.”
Como isso pode facilmente ser entendido como perseguição religiosa, o que normalmente acontece é que outras acusações são fabricadas, como ocorreu no caso de Alexander, acusado de transportar contrarrevolucionários ou de participar de uma conspiração para assassinar Fidel Castro.
Embora o governo alegue não perseguir a religião, até mesmo essa declaração do Primeiro Congresso Nacional de Educação e Cultura é contradita por outra afirmação feita no mesmo documento depois de declarar que ninguém seria reprimido por suas crenças religiosas. A declaração afirma: “As seitas obscurantistas e contrarrevolucionárias devem ser desmascaradas e combatidas.” Se uma declaração dessas não significa perseguição, então não sei o que significa.
A MISSÃO DA IGREJA NUMA SOCIEDADE SOCIALISTA
O maior desafio enfrentado pela Igreja Adventista do Sétimo Dia em Cuba é redefinir a missão da Igreja em função da sociedade na qual ela se encontra. A alternativa da fuga, como ocorreu no êxodo marítimo em massa de Mariel, que incluiu aproximadamente 1.500 adventistas e cinquenta pastores, constitui na realidade uma negação da missão. Isso não significa que os adventistas individualmente que partiram por razões pessoais devam ser julgados, mas a Igreja como um todo deveria ser julgada caso toda a comunidade adventista tivesse fugido, como chegou a ser considerado.
A Igreja precisa redefinir o evangelho em função das necessidades da humanidade. O governo assumiu as tarefas que a Igreja anteriormente considerava parte de sua missão: educação e ministérios médicos e de assistência social. Como a Igreja deixou de ser necessária nessas áreas, com exceção da educação cristã de seus filhos, muitos sentem que a Igreja já não possui missão em Cuba. Esse pensamento define a missão inteiramente em termos de instituições.
A Igreja em Cuba precisa redefinir sua missão em termos de fidelidade ao evangelho e às suas exigências. Embora a Igreja Adventista do Sétimo Dia seja a maior denominação protestante em Cuba, com 9.358 membros em dezembro de 1983, números por si mesmos não significam sucesso na missão. O sucesso na proclamação do evangelho numa terra socialista é determinado pela fidelidade a Cristo, e não pelo número de pessoas acrescentadas à Igreja ou por sua presença institucional.
Talvez a experiência de Humberto Noble Alexander na prisão exemplifique melhor aquilo que deveria ser a missão da Igreja. A experiência comum de serem presos por proclamar o evangelho levou cristãos de diferentes confissões a se unirem como um só corpo em Cristo, independentemente de suas diferenças. Um dos prisioneiros compôs um pequeno coro que se tornou o cântico-tema da igreja clandestina na prisão, cujas palavras expressavam a missão da Igreja.
NOTAS E REFERÊNCIAS DO ARTIGO
1. “Cuba”, Seventh-day Adventist Encyclopedia, Don F. Neufeld, ed., Commentary Reference Series, vol. 10, Washington, D.C.: Review and Herald Publishing Association, 1966, p. 314.
2. Essa Banda de Gideão não deve ser confundida com os Gideões dos Estados Unidos, conhecidos principalmente pela distribuição de Bíblias dos Gideões em hotéis e motéis.
3. “Declaration by the First National Congress on Education and Culture”, Granma, 9 de maio de 1971, p. 4.
4. Idem.
5. Idem.
6. Constitution of the Republic of Cuba, Havana: publicação oficial do Ministério da Justiça, 1977, p. 19.
FIM DO ARTIGO DE CALEB ROSADO
O QUE ROSADO ACRESCENTA AO DOSSIÊ
O leitor acaba de ler diretamente aquilo que Caleb Rosado escreveu. Não precisamos repetir suas qualificações como se elas estabelecessem os limites de nossa própria interpretação. O que interessa agora é colocar seu documento novamente dentro do conjunto: Rosado registra oposição a Batista, simpatia pelos revolucionários e “assistência clandestina”, oferecendo ao mesmo tempo uma explicação política para essa escolha ao apresentar imediatamente antes a crueldade e a corrupção do governo combatido pelos homens de Fidel.
Essa explicação pode esclarecer a motivação; não altera a natureza da decisão. A crueldade e a corrupção de Batista podem explicar por que adventistas consideraram seus adversários dignos de apoio, mas não transformam essa escolha em apartidarismo. Houve julgamento do poder existente, preferência por seus adversários e assistência concreta aos homens que procuravam derrubá-lo.
A expressão “assistência clandestina” adquire ainda maior importância depois da leitura dos documentos anteriores. Nas memórias de Che encontramos apoio adventista reconhecido pelo próprio beneficiário; no depoimento de Rosabal encontramos uma rede funcionando por meio de esconderijos, roupas, alimentação, mensagens, vigilância, deslocamentos e ocultação de armas; no relato de Brown encontramos uma instituição denominacional fornecendo assistência às forças revolucionárias durante Santa Clara. Rosado, olhando retrospectivamente para os acontecimentos, preserva uma expressão que condensa parte daquilo que as fontes anteriores já mostraram em funcionamento.
ROSADO TAMBÉM CHAMA CHE COMO TESTEMUNHA
O artigo não se limita à recordação adventista dos acontecimentos. Rosado introduz a própria memória de Che Guevara e reproduz a declaração segundo a qual uma família adventista, embora contrária à violência em razão de suas crenças, deu aos revolucionários todo o seu apoio naquele momento e durante a guerra. Assim, o mesmo texto que registra “assistência clandestina” fornece como sustentação a palavra daquele que recebeu a assistência. O percurso documental formado pelos Apêndices A, B e D se fecha sobre o mesmo fato por diferentes direções: Che registra o apoio, Rosabal descreve a operação e Rosado a classifica retrospectivamente.
Rosado também associa o Antillian College à batalha final de Santa Clara e afirma que Castro utilizou a instituição como quartel-general, que os revolucionários foram alojados, alimentados e entretidos ali e que a elevada consideração de Castro pelos adventistas teria contribuído para que o colégio fosse a última escola nacionalizada. Essas afirmações pertencem ao relato retrospectivo de Rosado e permanecem reproduzidas integralmente porque este apêndice preserva aquilo que o autor publicou em 1984. O documento de Walton J. Brown, reproduzido no Apêndice C, apresenta diretamente sua própria descrição dos acontecimentos de Santa Clara e permite ao leitor confrontar as duas narrativas sem que uma seja substituída pela outra.
DA SIMPATIA À RUPTURA
A cronologia construída por Rosado torna visíveis dois períodos distintos. O primeiro contém oposição adventista a Batista, simpatia pelos revolucionários e assistência clandestina; o segundo começa quando o novo governo assume formalmente a ideologia marxista-leninista, nacionaliza as escolas e entra em conflito com práticas adventistas, especialmente a observância do sábado, o serviço militar e o proselitismo. Rosado passa então a documentar vigilância, perda de oportunidades, prisões, restrições evangelísticas e repressão religiosa. A Igreja que aparece ajudando integrantes da Revolução em 1956 aparece posteriormente sofrendo sob o Estado criado por aquela mesma Revolução.
A perseguição posterior integra a história e permanece integralmente no documento, mas não altera aquilo que Rosado registrou sobre o período anterior. Seu artigo conserva simultaneamente as duas realidades: adventistas colaboraram com revolucionários durante a luta contra Batista e, depois da consolidação do novo sistema político, adventistas entraram em conflito com o governo e sofreram suas restrições. É justamente essa continuidade cronológica que impede que uma metade do documento apague a outra.
DE “ASSISTÊNCIA CLANDESTINA” À RELAÇÃO COM O NOVO PODER
O Apêndice D termina num ponto em que a pergunta seguinte já está aberta. Se a ajuda prestada durante a guerra criou relações pessoais entre adventistas e os líderes revolucionários, o que aconteceu quando esses homens deixaram a clandestinidade e passaram a ocupar o governo? O documento seguinte conduz diretamente a essa resposta. No Apêndice E, Joseph Tahbaz acompanha os adventistas sob o governo revolucionário e chega a 1963, quando a Igreja enfrenta o problema do serviço militar, prepara um memorando e recorre justamente a Argelio Rosabal para chegar a Che Guevara. O homem que havia protegido Che na Sierra Maestra reaparece como ponte entre a Igreja e o revolucionário agora instalado no poder.
APÊNDICE E — JOSEPH TAHBAZ: DA SIERRA MAESTRA À “RELAÇÃO PRIVILEGIADA COM O GOVERNO REVOLUCIONÁRIO”
IDENTIFICAÇÃO DO DOCUMENTO
Documento: “Demystifying las UMAP: The Politics of Sugar, Gender, and Religion in 1960s Cuba”.
Autor: Joseph Tahbaz.
Publicação: Delaware Review of Latin American Studies.
Volume: 14.
Número: 2.
Data: 31 de dezembro de 2013.
Vínculo acadêmico informado no artigo: Departamento de História, Dartmouth College.
Conteúdo central para esta investigação: relações dos adventistas com os dirigentes revolucionários, Argelio Rosabal, Che Guevara, Serviço Militar Obrigatório, UMAP e a caracterização de uma “relação privilegiada com o governo revolucionário”.
Apresentação: tradução do estudo, preservando sua estrutura e suas referências.
POR QUE ESTE DOCUMENTO MUDA A CRONOLOGIA DO DOSSIÊ
Os documentos anteriores acompanharam a colaboração durante a guerra. Che Guevara registrou o “apoio franco”; Argelio Rosabal descreveu a rede que localizou, alimentou, escondeu e deslocou sobreviventes do Granma; Walton J. Brown documentou a assistência do Antillian College durante a batalha de Santa Clara; Caleb Rosado chamou aquilo que ocorrera em Oriente de “assistência clandestina”. Joseph Tahbaz conduz a documentação para uma etapa posterior, quando Fidel Castro já governava Cuba, Che Guevara era autoridade do Estado e a Igreja Adventista enfrentava problemas que exigiam interlocução direta com o governo revolucionário.
O ponto decisivo aparece na seção dedicada aos adventistas do sétimo dia. Tahbaz começa afirmando que eles possuíam uma “relação singular com a Revolução”. Depois recupera a ajuda prestada aos revolucionários, chega ao Antillian College, acompanha a crise provocada pelo Serviço Militar Obrigatório e registra que a Igreja criou uma comissão para preparar um memorando destinado ao governo. Quatro pastores foram escolhidos para apresentá-lo acompanhados por um leigo: Argelio Rosabal. O mesmo homem que aparece na Sierra Maestra protegendo Che reaparece em 1963 levando uma demanda institucional adventista ao antigo guerrilheiro, agora instalado no poder.
Tahbaz registra ainda que Rosabal entregou pessoalmente o documento a Che e que, em 28 de outubro de 1963, Guevara o encaminhou a Carlos Rodríguez, identificando Rosabal como “o adventista de quem lhe falei”. Em seguida, o pesquisador formula a conclusão que torna este documento indispensável para o presente livro: por meio das relações estabelecidas por adventistas com dirigentes revolucionários na Sierra Maestra, “os adventistas tinham uma relação privilegiada com o governo revolucionário”, o que lhes proporcionava maior flexibilidade em suas atividades religiosas do que a maioria das demais seitas.
DESMISTIFICANDO AS UMAP: A POLÍTICA DO AÇÚCAR, DO GÊNERO E DA RELIGIÃO NA CUBA DOS ANOS 1960
Joseph Tahbaz
RESUMO
As UMAP, Unidades Militares de Ayuda a la Producción, eram campos agrícolas de trabalho forçado operados pelo governo cubano em meados da década de 1960 na província centro-oriental de Camagüey. A literatura acadêmica existente sobre os campos das UMAP considerou quase exclusivamente as experiências dos internos homossexuais e caracterizou os campos unicamente como uma manifestação de policiamento de gênero. Este artigo argumenta que: primeiro, as UMAP constituíram componente integral dos objetivos econômicos, sociais e políticos mais amplos da Revolução Cubana; segundo, as experiências da ampla diversidade de internos das UMAP não podem ser generalizadas numa única narrativa de campo de concentração; e, terceiro, embora homens homossexuais certamente tenham sofrido tratamento horrível nos campos, as Testemunhas de Jeová foram vítimas das piores brutalidades nas UMAP.
Palavras-chave: Cuba, UMAP, trabalho forçado, gênero, raça, homossexualidade, Testemunhas de Jeová.
INTRODUÇÃO
O único testemunho de terceira parte sobre os campos das UMAP vem do jornalista canadense Paul Kidd, expulso de Cuba em 8 de setembro de 1966. O Ministério das Relações Exteriores cubano alegou que Kidd havia escrito artigos críticos à Revolução Cubana e fotografado canhões antiaéreos visíveis da janela de seu hotel em Havana. Paul Kidd acabara de regressar de uma viagem não autorizada a Camagüey, onde tivera “a experiência singular […] de localizar um campo de trabalho forçado escondido nos exuberantes campos de cana-de-açúcar do centro de Cuba”. Aquilo que Kidd encontrou eram os “campos […] conhecidos simplesmente como UMAP”.
Durante quase meio século, historiadores omitiram quase completamente os campos das UMAP da história cubana, enquanto exilados cubanos os denunciaram como campos de concentração. A escassa literatura existente concentrou-se quase exclusivamente nas experiências dos internos homossexuais e interpretou os campos como instrumento de policiamento de gênero. Este estudo sustenta que as UMAP não representaram uma política periférica dirigida a uma pequena parcela da população, mas componente integral e multifacetado das aspirações econômicas, sociais e políticas da Revolução Cubana.
Em primeiro lugar, as UMAP funcionaram como instrumento de repressão a elementos da sociedade civil considerados insuficientemente revolucionários, incluindo grupos religiosos e sociedades secretas. Em segundo lugar, representaram a extremidade de um espectro amplo de trabalho coagido e não remunerado que se tornou central para os objetivos econômicos da Revolução. Em terceiro lugar, procuraram “corrigir” aqueles que manifestavam masculinidade considerada inadequada ao modelo revolucionário, discriminando homossexuais e também afro-cubanos. Por fim, embora homens homossexuais tenham efetivamente sofrido tratamentos horríveis, a história deve recordar as Testemunhas de Jeová como vítimas das brutalidades mais severas das UMAP.
Ao mesmo tempo, as experiências da ampla variedade de internos — que incluía sacerdotes católicos, hippies, artistas, intelectuais e diferentes grupos religiosos — não podem ser comprimidas numa única narrativa de campo de concentração. Os campos desempenharam funções distintas e adquiriram significados diferentes conforme o grupo envolvido. Como um tema dessa natureza é extremamente difícil de pesquisar dentro de Cuba, os argumentos desenvolvidos no artigo utilizam jornais cubanos, memórias dos campos e entrevistas com antigos internos.
FUNCIONAMENTO DAS UMAP
As UMAP, Unidades Militares de Ayuda a la Producción, eram campos agrícolas de trabalho forçado administrados pelo governo cubano entre novembro de 1965 e julho de 1968 na província centro-oriental de Camagüey. Dois anos antes do envio dos primeiros internos, o governo publicou a Lei 1129, que criou um Serviço Militar Obrigatório de três anos. Sob a estrutura desse serviço, aqueles considerados inadequados para o serviço militar regular eram encaminhados às UMAP.
Dois antigos agentes da inteligência cubana estimaram que, entre aproximadamente 35 mil internos, cerca de quinhentos acabaram internados em instituições psiquiátricas, setenta morreram como resultado de torturas e 180 cometeram suicídio. Os grupos mais frequentemente enviados para os campos eram religiosos e homens homossexuais, mas a população internada era muito mais ampla e incluía Testemunhas de Jeová, adventistas do sétimo dia, católicos, batistas, metodistas, pentecostais, episcopais, praticantes da santería, membros da sociedade Abakuá, pessoas suspeitas de pretender abandonar o país, sacerdotes, artistas, intelectuais, universitários ideologicamente divergentes, lésbicas, hippies, usuários de maconha e outras drogas, presos políticos, funcionários acusados de corrupção, criminosos, prostitutas, cafetões, agricultores resistentes à coletivização, trabalhadores autônomos ilegais, considerados vadios e outros classificados como “antissociais” ou “contrarrevolucionários”. Nenhum grupo isolado constituía a maioria, tornando a categoria “interno da UMAP” um coletivo decididamente plural.
As UMAP não constituíam segredo de Estado. Em março de 1966, num discurso na escadaria da Universidade de Havana, Fidel Castro declarou que alguns deveriam ir para o Serviço Militar Obrigatório e outros para as UMAP. Durante 1966 e 1967, pelo menos uma dúzia de artigos na imprensa cubana mencionou os campos, acompanhados de fotografias de plantações de cana e entrevistas com internos apresentados como satisfeitos.
As duas principais ondas de recolhimento ocorreram em novembro de 1965 e junho de 1966. Os Comitês de Defesa da Revolução, organizações estatais presentes praticamente em cada quarteirão, desempenharam papel central na identificação daqueles que seriam enviados às UMAP. Muitos recebiam uma falsa convocação para apresentação ao serviço militar em locais como estádios esportivos e, em vez de serem transportados para unidades militares regulares, eram levados de trem, caminhão ou ônibus para campos agrícolas em Camagüey.
As condições durante as viagens de aproximadamente oito horas através da ilha podiam ser extremamente ruins, com falta de água potável, alimentos e instalações sanitárias. Outros indivíduos, especialmente homossexuais e pessoas classificadas como antissociais, eram simplesmente recolhidos das ruas e transportados diretamente para os campos. Agentes do Ministério do Interior patrulhavam locais conhecidos pela presença de homossexuais e detinham pessoas cuja aparência fosse associada à homossexualidade.
Cada campo normalmente abrigava cerca de 120 homens, divididos em três companhias de quarenta e posteriormente em grupos de dez, embora algumas unidades chegassem a comportar centenas de internos. Um campo típico possuía algumas centenas de metros de comprimento, três alojamentos — dois para internos e outro para militares —, cercas de arame farpado com aproximadamente três metros de altura e ausência de água corrente e eletricidade.
Os campos recebiam nomes revolucionários, como “Vietnam Heroico”, “Mártires de Girón” e “Héroes del Granma”. Os internos eram identificados por números e frequentemente separados por categorias durante o transporte. Em linhas gerais, havia campos específicos para homossexuais e campos para os demais internos.
Os trabalhos incluíam colheita de batata-doce, mandioca e frutas, limpeza de vegetação, aplicação de fertilizantes e capina, mas a principal atividade era plantar e cortar cana-de-açúcar. Recrutas do Serviço Militar Obrigatório e internos das UMAP recebiam o mesmo pagamento reduzido de sete pesos por mês, equivalente a apenas um décimo do salário mínimo agrícola estatal. O trabalho normalmente ocorria de segunda-feira a sábado e, em certas ocasiões, incluía “trabalho voluntário” aos domingos.
A função mais constante dos campos era a exploração do trabalho. Relatos indicam jornadas médias próximas de sessenta horas semanais e, durante a safra, trabalho do amanhecer até o anoitecer durante seis dias por semana. A alimentação variava entre campos, mas inúmeros antigos internos a descreveram como inadequada. Também ocorreram privação de água, recusa arbitrária de atendimento médico, agressões físicas e diversas formas de punição.
TRABALHO, ECONOMIA E AÇÚCAR
Na Cuba revolucionária dos anos 1960 existia um amplo espectro de trabalho não remunerado direcionado ao Estado, desde o chamado trabalho voluntário até o trabalho coagido de presos políticos. As UMAP situavam-se numa das extremidades desse sistema.
O trabalho estatal não remunerado deixou de ser exceção e passou a ocupar papel importante na economia cubana. Milhares de trabalhadores “voluntários” participaram das safras de açúcar de 1965, 1966 e 1967, enquanto a economia enfrentava escassez crescente de mão de obra agrícola.
Mudanças estruturais agravaram o problema. Houve emigração de trabalhadores, aumento das matrículas escolares, mudanças nas normas de aposentadoria, migração das zonas rurais para as cidades, expansão do emprego no Exército, na segurança do Estado, na polícia, nas organizações de massa e na burocracia, além da redução da produtividade. Trabalhadores agrícolas que anteriormente enfrentavam desemprego sazonal passaram a encontrar emprego estatal permanente, enquanto as fazendas estatais enfrentavam problemas de produtividade e excesso de pessoal.
O resultado combinado foi uma forte escassez de mão de obra no campo. O Estado respondeu mobilizando voluntários, soldados e prisioneiros. A Revolução passou novamente a depositar grandes expectativas econômicas na cana-de-açúcar, especialmente depois do fracasso de planos ambiciosos de industrialização e diversificação agrícola.
Em 1963, o governo lançou o Plano Prospectivo da Indústria Açucareira, destinado a ampliar a área plantada, introduzir variedades de maior produtividade e alcançar dez milhões de toneladas de açúcar até 1970. O aumento das exportações financiaria pagamentos à União Soviética e a compra de equipamentos destinados à industrialização. A cooperação econômica soviética era parte essencial dessa estratégia.
Em janeiro de 1964, Fidel Castro viajou a Moscou e assinou acordo pelo qual Cuba forneceria 24 milhões de toneladas de açúcar à União Soviética entre 1965 e 1970 a preços superiores aos praticados no mercado mundial. A renda proveniente das colheitas recordes serviria para financiar a industrialização estatal e impulsionar aquilo que os dirigentes cubanos apresentavam como futuro comunista próspero. Para alcançar esse objetivo, entretanto, alguém precisava cortar a cana. As UMAP tornaram-se uma das respostas para esse problema.
SEGURANÇA
Durante o início da década de 1960, a Revolução Cubana procurava assegurar sua sobrevivência diante da ameaça de invasão americana e da presença de milhares de contrarrevolucionários armados dentro do país. Quando o Estado consolidou seu controle, passou a dirigir sua atenção para grupos considerados ameaças potenciais de longo prazo.
As UMAP pertenciam formalmente à estrutura militar, mas seu objetivo principal não era combater inimigos externos armados. Os campos atingiam também ameaças internas e latentes: homossexuais e integrantes da sociedade civil cuja lealdade era considerada insuficientemente dedicada à Revolução. A prisão não recaía apenas sobre pessoas ativamente envolvidas em atividades contra o governo, mas também sobre cubanos considerados insuficientemente revolucionários.
Em 1963, Cuba possuía aproximadamente trezentos mil militares, dez vezes mais que em 1958, e os gastos militares representavam cerca de 6,5 por cento da renda nacional. Depois de suprimir as rebeliões rurais, as forças armadas procuraram profissionalizar-se e encontrar utilidade econômica para parte de seu contingente. Muitos veteranos sem educação ou treinamento formal foram deslocados para as UMAP, ao mesmo tempo em que o trabalho dos convocados ajudava a reduzir o peso econômico das forças armadas.
Raúl Castro explicou em 1963 que, caso o objetivo fosse apenas manter um Exército, dois anos de serviço poderiam bastar; como as forças armadas também deveriam contribuir para a economia nacional, o serviço incluiria trabalho, especialmente durante a safra de açúcar. As UMAP, assim, contribuíam simultaneamente para neutralizar pessoas consideradas potencialmente contrarrevolucionárias, absorver pessoal militar que não se encaixava no Exército em modernização e aumentar a produção agrícola.
TESTEMUNHAS DE JEOVÁ
Entre os grupos religiosos enviados às UMAP, as Testemunhas de Jeová foram submetidas aos abusos mais severos. Grupos protestantes e movimentos religiosos originados ou fortemente associados aos Estados Unidos eram vistos com suspeita pelo governo revolucionário.
Em discurso realizado diante da Universidade de Havana em 13 de março de 1963, Fidel Castro atacou grupos religiosos que chamou de instrumentos do imperialismo e afirmou que certas seitas eram dirigidas diretamente pelos Estados Unidos e utilizadas como agentes da CIA, do Departamento de Estado e da política norte-americana.
A postura radicalmente apolítica das Testemunhas de Jeová, incluindo a recusa em saudar a bandeira e servir militarmente, colocava o grupo em confronto direto com uma Revolução que exigia forte mobilização patriótica e política. Quando essa resistência chegou aos campos, algumas das piores brutalidades ocorreram.
Antigos internos descreveram Testemunhas de Jeová sendo espancadas, ameaçadas com execução, enterradas até o pescoço, privadas de comida ou água, obrigadas a permanecer em latrinas e submetidas a outras formas de tortura. Houve casos em que guardas simulavam execuções para forçar internos a vestir o uniforme do campo, e outros em que prisioneiros eram obrigados a manipular esgoto com as próprias mãos.
É dentro dessa comparação com as Testemunhas de Jeová que Tahbaz introduz o grupo decisivo para esta investigação.
ADVENTISTAS DO SÉTIMO DIA
Os adventistas do sétimo dia possuíam uma relação singular com a Revolução e representam uma relação com as UMAP muito diferente daquela experimentada por outras minorias religiosas. Em 1956, havia aproximadamente cinco mil adventistas do sétimo dia em Cuba, e mais da metade estava concentrada na parte rural oriental da ilha. Oriente, província na qual Castro iniciou sua insurreição, era também a província com maior número de adventistas.
Em Oriente, uma família adventista forneceu comida e abrigo a um grupo de revolucionários que lutava contra o ditador Fulgencio Batista. Ao perceber que um dos homens estava sem camisa porque a utilizara como curativo para proteger um ferimento, Argelio Rosabal entregou ao revolucionário sua única camisa. Aquele revolucionário ferido era Ernesto “Che” Guevara. Segundo a fonte utilizada por Tahbaz, Che ficou tão comovido com a generosidade que prometeu que uma capela seria construída posteriormente, o que efetivamente teria acontecido.
Em dezembro de 1958, o Antillian College, instituição administrada pelos adventistas do sétimo dia, alimentou e cuidou de soldados feridos durante a etapa final da guerra revolucionária.
Quando entrou em vigor a primeira convocação para o Serviço Militar Obrigatório, setenta dos 110 estudantes em idade de servir no Antillian College foram convocados. Depois que a instituição pediu ao governo que liberasse parte dos alunos para que a escola pudesse continuar funcionando, a maioria dos adventistas recrutados retornou ao colégio.
O Serviço Militar Obrigatório continuou criando problemas para os adventistas porque não distinguia funções combatentes de não combatentes. Em resposta, a Igreja Adventista do Sétimo Dia criou uma comissão encarregada de redigir um memorando solicitando ao governo a liberação dos doze adventistas restantes que haviam sido convocados. O memorando explicava a distinção adventista entre funções combatentes e não combatentes, a observância específica do sábado e a lealdade dos membros ao governo.
A comissão escolheu quatro pastores para entregar o memorando, acompanhados por um membro leigo: Argelio Rosabal, o mesmo homem ligado ao episódio de Che Guevara na Sierra Maestra.
Rosabal entregou pessoalmente o memorando a Che, que, em 28 de outubro de 1963, enviou uma carta juntamente com o documento ao responsável pelo programa de Reforma Agrária, Carlos Rodríguez.
Na carta, Che escreveu: “[Argelio Rosabal] é o adventista de quem lhe falei […] você saberá como contornar a lei, ou como desviar minha atenção.”
Tahbaz conclui então: “Che Guevara intercedeu em favor de seu amigo adventista, Rosabal, para que fosse criada uma exceção no Serviço Militar Obrigatório para essa seita.”
Posteriormente, adventistas acabaram sendo enviados às UMAP, mas Caleb Rosado destaca que foram enviados aos campos simplesmente porque recusavam portar armas e porque não havia outro lugar destinado a eles, e não porque fossem considerados lacra social, categoria empregada pelo governo para outros internos.
Antigos internos também mencionaram tratamento comparativamente mais favorável dispensado a adventistas do que às Testemunhas de Jeová. José Blanco relatou que, em determinado campo, dois adventistas recusavam trabalhar no sábado e compensavam sua cota durante os outros dias da semana. O tenente responsável não os incomodava e permitia que cumprissem a produção dessa maneira. Blanco também atribuiu parte do tratamento mais favorável ao fato de considerar os adventistas os internos mais trabalhadores.
Essa condição não foi idêntica em todos os campos. Pelo menos um antigo interno recordou adventistas obrigados a trabalhar aos sábados e submetidos a abusos severos semelhantes aos infligidos às Testemunhas de Jeová. A realidade das UMAP variava consideravelmente conforme a unidade e os oficiais responsáveis.
É nesse ponto que Tahbaz estabelece a relação histórica que dá a este documento sua importância central para este livro:
“Por meio da relação que alguns adventistas do sétimo dia estabeleceram com dirigentes revolucionários na Sierra Maestra, os adventistas possuíam uma relação privilegiada com o governo revolucionário, que lhes concedia maior flexibilidade em suas atividades religiosas do que à maioria das seitas.”
Como resultado dessa relação, adventistas conseguiram apresentar diretamente a dirigentes revolucionários suas posições referentes ao Serviço Militar Obrigatório e contribuíram para o processo que acabaria resultando na política das UMAP. Mesmo depois do fechamento dos campos, foram estabelecidas acomodações que permitiram aos adventistas cumprir o serviço militar, enquanto Testemunhas de Jeová continuaram sendo presas.
Essa história demonstra que diferentes grupos religiosos não foram enviados às UMAP pelas mesmas razões. Para os adventistas, os campos serviram como forma de cumprimento do Serviço Militar Obrigatório e fornecimento de trabalho ao Estado. As Testemunhas de Jeová, por outro lado, eram vistas como contrarrevolucionárias e, consequentemente, sofreram tratamento muito mais brutal.
Fora dos campos, os adventistas também encontraram ambiente comparativamente mais favorável. Enquanto o número de ministros de várias igrejas protestantes caiu drasticamente entre 1960 e 1963, o número de ministros adventistas cresceu mais de vinte por cento. Entre 1960 e 1984, a membresia adventista aumentou mais de cinquenta por cento, alcançando quase nove mil pessoas, ao mesmo tempo em que católicos, judeus, presbiterianos e metodistas sofreram perdas consideráveis em razão da emigração, expulsão de clérigos estrangeiros e discriminação contra cidadãos religiosamente ativos.
Testemunhos indicam que as relações pessoais estabelecidas dentro dos campos também podiam influenciar as condições vividas pelos internos. Um ex-interno batista afirmou que certos cristãos eram tratados de maneira melhor porque haviam adquirido prestígio e melhores relações com seus superiores.
ABAKUÁ
Na véspera da Revolução, a sociedade secreta Abakuá, fundada por escravos em Regla em 1836, possuía mais de 130 filiais e exercia influência sobre empregos em portos, fábricas de tabaco e matadouros. Sua presença predominantemente negra e operária, associada ao controle de segmentos do mercado de trabalho, entrou em conflito com as novas estruturas estatais revolucionárias.
Membros Abakuá também foram enviados para as UMAP. Algumas memórias confundiram criminalidade comum com participação na sociedade, embora parte dos internos efetivamente tivesse sido transferida de prisões nas quais cumpria penas por crimes graves.
A Revolução inicialmente celebrou tradições Abakuá como parte da identidade cubana, mas práticas religiosas de origem africana acabaram progressivamente marginalizadas. Publicações comunistas passaram a descrevê-las como sistemas primitivos destinados a desaparecer com o avanço da sociedade comunista.
Restrições atingiram cerimônias religiosas e exigiram autorizações prévias, listas de participantes e justificativas para a realização de encontros. Tahbaz utiliza o caso para demonstrar que raça e tradições africanas continuaram influenciando relações de poder na Cuba revolucionária.
GÊNERO
Durante os anos 1960, a Revolução Cubana restringiu sistematicamente os direitos de cidadãos homossexuais. Homossexuais podiam ser impedidos de ensinar, viajar para o exterior, integrar as forças armadas, frequentar universidades, trabalhar nas artes, atuar na imprensa ou ingressar no Partido Comunista.
Acusações de homossexualidade também podiam resultar em julgamentos públicos nas universidades, e registros governamentais marcavam pessoas como homossexuais ou antissociais, afetando suas oportunidades de emprego e participação social.
Tahbaz argumenta que interpretar as UMAP exclusivamente como “policiamento de gênero” obscurece a diversidade dos internos e dos objetivos dos campos. Homens homossexuais constituíam apenas uma parcela dos detidos, enquanto religiosos, dissidentes, artistas, intelectuais, integrantes de sociedades secretas e outros grupos também estavam presentes.
Além disso, o objetivo estatal ultrapassava a fiscalização de comportamentos. O governo aspirava eliminar a homossexualidade mediante políticas sociais e médicas que a tratavam como comportamento aprendido e, portanto, suscetível de prevenção ou “cura”.
Pesquisadores cubanos desenvolveram experiências envolvendo eletrochoque, tratamentos hormonais e condicionamento pavloviano. Projetos semelhantes foram pesquisados dentro das UMAP. Antigos internos descreveram choques elétricos, insulina, privação de alimentos e exposição a imagens sexuais como parte de tentativas de alterar o comportamento sexual.
As experiências acabaram demonstrando a incapacidade do Estado de transformar aqueles homens no modelo do hombre nuevo defendido pela Revolução. Mesmo dentro dos campos, internos encontravam maneiras de preservar comportamentos, identidades e formas de sociabilidade que o sistema pretendia suprimir.
O LEGADO DAS UMAP
Quando Paul Kidd encontrou os campos em 1966, descreveu-os como campos de trabalho forçado e fonte de mão de obra próxima da escravidão. Entre exilados cubanos, as UMAP passaram a ser lembradas como “campos de concentração”. Tahbaz considera essa descrição insuficiente para abranger a variedade de experiências encontradas nas fontes.
Alguns antigos internos recordaram oficiais brutalmente desumanos; outros encontraram guardas e administradores capazes de demonstrar respeito, estabelecer amizade ou impedir injustiças. As condições variavam conforme o campo, a época, o grupo interno e as pessoas responsáveis pela administração.
Essa variedade não elimina a violência estrutural das UMAP. Os campos permaneceram ligados ao trabalho forçado, à repressão política, à perseguição religiosa, à discriminação contra homossexuais, à coerção econômica e à tentativa de subordinar diferentes grupos sociais aos objetivos do Estado revolucionário.
O elemento que conecta essas diferentes experiências é uma Revolução determinada a construir sua utopia comunista: uma Cuba em que safras recordes de açúcar impulsionariam uma economia próspera, em que a lealdade de todos seria dedicada exclusivamente à Revolução e em que comportamentos classificados como incompatíveis com o novo homem revolucionário seriam eliminados.
Quarenta e dois anos depois do fechamento dos campos, Fidel Castro respondeu a uma pergunta sobre as UMAP reconhecendo: “Sim, houve momentos de grande injustiça, uma grande injustiça!”
FIM DO ESTUDO DE JOSEPH TAHBAZ
O QUE TAHBAZ ACRESCENTA AO DOSSIÊ
O valor de Tahbaz para esta investigação concentra-se numa sequência documental que atravessa sete anos de história cubana. O pesquisador começa lembrando que, em 1956, adventistas de Oriente se relacionaram com homens da Revolução; identifica Argelio Rosabal dentro dessa história; recupera a assistência prestada pelo Antillian College em 1958; acompanha a instituição depois da vitória; chega ao Serviço Militar Obrigatório; registra a comissão organizada pela Igreja; acompanha Rosabal levando o memorando adventista a Che Guevara; reproduz a identificação feita pelo próprio Che — “o adventista de quem lhe falei” — e termina estabelecendo uma relação causal entre os vínculos criados na Sierra Maestra e a posição posteriormente desfrutada pela denominação diante do Estado revolucionário.
A formulação de Tahbaz merece permanecer integralmente no centro deste apêndice: “Por meio da relação que alguns adventistas do sétimo dia estabeleceram com dirigentes revolucionários na Sierra Maestra, os adventistas possuíam uma relação privilegiada com o governo revolucionário.” A frase conecta aquilo que aconteceu durante a guerra ao acesso existente depois da vitória. O apoio prestado quando Che e seus companheiros precisavam sobreviver tornou-se relacionamento; o relacionamento produziu acesso; e o acesso passou a ser utilizado quando a própria Igreja necessitou tratar com o novo governo.
28 DE OUTUBRO DE 1963: O VÍNCULO ENTRA NO GOVERNO
A data de 28 de outubro de 1963 constitui um ponto de inflexão dentro do dossiê porque já não estamos diante de guerrilheiros perseguidos procurando esconderijos na Sierra Maestra. Che Guevara ocupa posição de autoridade no Estado revolucionário, a Igreja Adventista enfrenta um problema administrativo e religioso concreto e Rosabal aparece novamente como intermediário. A escolha daquele leigo entre quatro pastores para levar a demanda torna visível o valor adquirido pela relação pessoal construída durante a guerra.
A pequena expressão preservada na correspondência de Che — “o adventista de quem lhe falei” — demonstra que Rosabal já havia sido assunto de conversa entre autoridades revolucionárias. O homem que em 1956 escondia Che das tropas de Batista estava, sete anos depois, suficientemente presente na memória do antigo guerrilheiro para ser identificado dessa maneira num encaminhamento relacionado a uma necessidade institucional adventista.
Tahbaz vai além e escreve que Che Guevara intercedeu em favor de seu amigo adventista, Rosabal, para que fosse criada uma exceção referente ao Serviço Militar Obrigatório. A relação adquirira uma função diferente. Na Sierra Maestra, Che precisava de Rosabal. Em 1963, a Igreja precisava chegar a Che. A continuidade entre esses dois momentos é precisamente aquilo que transforma uma sucessão de episódios em uma história de relacionamento.
DA “RELAÇÃO PRIVILEGIADA” À “COLABORAÇÃO DE LONGA DATA”
O documento seguinte completa o arco cronológico principal deste dossiê. No Apêndice F, a investigação chega a 2025 e à própria Adventist Review. Ali, uma dirigente do Escritório de Assuntos Religiosos do Comitê Central do Partido Comunista de Cuba recordará projetos cujas pendências administrativas remontavam a anotações de Che Guevara; dirigentes adventistas e cubanos falarão de décadas de trabalho conjunto, comunicação aberta e relacionamento mantido durante muitos anos; e a própria publicação denominacional utilizará uma expressão que fecha documentalmente a sequência iniciada nas montanhas: “colaboração de longa data”.
APÊNDICE F — ADVENTIST REVIEW, 2025: “COLABORAÇÃO DE LONGA DATA”
IDENTIFICAÇÃO DO DOCUMENTO
Documento: “Cuba Officials Visit Adventist Seminary, Highlight Long-standing Collaboration”.
Autor: Marcos Paseggi.
Publicação: Adventist Review.
Edição: junho de 2025.
Página impressa: 14.
Subtítulo: “You Give Us a Lot of Work,” Religious Affairs Leader Jokingly Tells Maranatha Leaders.
Conteúdo central para esta investigação: relação entre autoridades cubanas, a organização da Igreja Adventista e ministérios adventistas de apoio; Caridad Diego Bello; projetos que remontavam a anotações de Ernesto Che Guevara; Seminário Teológico Adventista de Cuba; Maranatha Volunteers International; dirigentes da Associação Geral, Divisão Interamericana e União Cubana; e a expressão “colaboração de longa data”.
Apresentação: tradução integral da reportagem publicada na edição impressa.
O ÚLTIMO DOCUMENTO PRINCIPAL DO DOSSIÊ
O dossiê principal se encerra em 2025 com uma reportagem publicada pela própria Adventist Review. A escolha deste documento para fechar a sequência decorre do vocabulário que a própria publicação utiliza e da extraordinária continuidade histórica registrada em apenas uma página. A reportagem começa apresentando Caridad Diego Bello como chefe do Escritório de Assuntos Religiosos do Comitê Central do Partido Comunista de Cuba e informa que, quando ela iniciou seu trabalho havia mais de três décadas, encontrou uma lista de projetos pendentes que remontava a anotações de Ernesto “Che” Guevara. Entre essas pendências estava a orientação para “avaliar a possibilidade de autorizar os adventistas do sétimo dia a terem um seminário teológico”.
A narrativa avança então pelas décadas seguintes e encontra Diego participando de inaugurações e eventos adventistas, relacionando-se com presidentes da União Cubana, encontrando dirigentes da Associação Geral e da Divisão Interamericana e mantendo amizade e relacionamento com líderes da Maranatha Volunteers International. Quando descreve uma visita realizada em 18 de abril de 2025 ao Seminário Teológico Adventista de Cuba, a reportagem afirma que o encontro destacou “a colaboração de longa data entre o governo do país, a organização da Igreja Adventista e seus ministérios de apoio dirigidos por leigos”. A expressão “organização da Igreja Adventista” coloca explicitamente a estrutura denominacional dentro da relação descrita.
O restante do texto acrescenta seu próprio vocabulário de continuidade. Don Noble fala em “tantos anos trabalhando juntos”; Aldo Pérez Reyes descreve “uma relação muito boa”, “comunicação aberta” e um relacionamento mantido “por muitos anos”; Caridad Diego declara: “Queremos continuar trabalhando juntos.” O documento que encerra o dossiê, portanto, utiliza linguagem de continuidade, relacionamento e trabalho conjunto ao descrever relações entre a Igreja e estruturas do Estado governado pelo Partido Comunista de Cuba.
AUTORIDADES CUBANAS VISITAM SEMINÁRIO ADVENTISTA E DESTACAM COLABORAÇÃO DE LONGA DATA
“VOCÊS NOS DÃO MUITO TRABALHO”, BRINCA DIRIGENTE DE ASSUNTOS RELIGIOSOS COM LÍDERES DA MARANATHA
Marcos Paseggi, Adventist Review
Quando Caridad Diego Bello, chefe do Escritório de Assuntos Religiosos do Comitê Central do Partido Comunista de Cuba, iniciou seu trabalho há mais de três décadas, encontrou uma lista de projetos pendentes que remontava até mesmo a anotações de Ernesto “Che” Guevara. Um deles dizia: “Avaliar a possibilidade de autorizar os adventistas do sétimo dia a terem um seminário teológico.”
Agora, depois de mais de três décadas trabalhando com assuntos religiosos, Diego participou de várias inaugurações e eventos da Igreja, incluindo a cerimônia de lançamento da pedra fundamental do Seminário Teológico Adventista de Cuba, conhecido pela sigla CATS, em Santiago de las Vegas, Havana, em 1995. Ali conheceu o ex-presidente da Associação Geral Robert Folkenberg e o ex-presidente da Divisão Interamericana Israel Leito, que, segundo ela, “sempre demonstraram carinho especial por Cuba”. Ao longo dos anos, Diego trabalhou com três presidentes da União Cubana, incluindo Aldo Pérez Reyes, que dirige a Igreja Adventista na ilha há quinze anos.
Apesar das mudanças regulares na liderança da Igreja Adventista, houve uma constante: seu relacionamento e amizade com Don Noble, presidente da Maranatha Volunteers International, e com outros dirigentes desse ministério. Durante todos esses anos, segundo líderes regionais da Igreja, praticamente todos os projetos da Igreja Adventista em Cuba foram facilitados e conduzidos pela Maranatha.
UMA VISITA ESPECIAL
Em 18 de abril, Diego e outros dois funcionários responsáveis por assuntos religiosos fizeram mais uma visita para se encontrar com dirigentes da Maranatha e líderes da Igreja Adventista no país. A visita, realizada em conjunto com o início de um projeto baseado em trabalho voluntário organizado pela Maranatha na escola, destacou a colaboração de longa data entre o governo do país, a organização da Igreja Adventista e seus ministérios de apoio dirigidos por leigos.
“Quero agradecer a cada um dos líderes da Maranatha e a todos vocês por apoiarem a obra adventista em Cuba e, como resultado, apoiarem o povo cubano”, disse Diego. “Temos visto uma igreja que é honesta, sincera e que segue valores.”
Ela também destacou o alcance da Igreja Adventista em Cuba. “É impressionante”, afirmou. “Vocês estão em toda parte; não existe um município ao qual vocês não tenham chegado!”
Noble deu as boas-vindas à equipe de assuntos religiosos do governo cubano. “É muito bom vê-los novamente, depois de tantos anos trabalhando juntos”, disse ele a Diego e sua equipe. “E agradecemos que cada um de vocês tenha reservado tempo para nos visitar.”
Pérez, por sua vez, destacou as interações positivas com o governo. “Temos uma relação muito boa, comunicação aberta e nos damos bem. E […] essa relação tem sido mantida por muitos anos.”
SERVINDO AO POVO
Durante suas declarações ao grupo, Diego enfatizou como era gratificante saber que o Seminário Teológico Adventista de Cuba havia crescido e vinha sendo utilizado para preparar centenas de pastores adventistas para servir em toda a ilha e além dela.
“Vocês [adventistas] nos dão muito trabalho”, brincou ela. “Mas queremos continuar trabalhando juntos.”
Diego também conclamou todos os envolvidos a continuar trabalhando em favor de outras pessoas. “Não se trata apenas de dar aquilo que sobra, mas de compartilhar tudo o que vocês têm”, disse aos voluntários. “E é isso que vejo vocês fazendo aqui. […] Meu desejo é que, quando forem embora, levem um pouco de Cuba e de seu maravilhoso povo no coração.”
Legenda da fotografia: Líderes da Maranatha e representantes dos Assuntos Religiosos de Cuba compartilham um momento descontraído durante a recepção destes últimos no Seminário Teológico Adventista de Cuba, em Havana, em 18 de abril.
Foto: Marcos Paseggi, Adventist Review.
FIM DA REPORTAGEM DA ADVENTIST REVIEW
O QUE ESTE DOCUMENTO ACRESCENTA AO DOSSIÊ
A reportagem de 2025 fecha o percurso documental com uma linguagem muito diferente daquela utilizada nas fontes da guerra, mas descrevendo uma continuidade que alcança várias décadas. Em Che Guevara encontramos “apoio franco”; em Caleb Rosado encontramos “assistência clandestina”; em Joseph Tahbaz encontramos uma “relação privilegiada com o governo revolucionário”; e, na Adventist Review de 2025, encontramos “colaboração de longa data”. Essas expressões surgiram em épocas e documentos distintos, mas podem ser colocadas agora numa mesma linha histórica.
O primeiro elemento extraordinário é a sobrevivência de Che Guevara dentro da memória administrativa descrita pela própria publicação adventista. O Che que aparece no início deste dossiê como guerrilheiro auxiliado por adventistas e que reaparece em 1963 recebendo Rosabal e encaminhando o memorando da Igreja volta a aparecer décadas depois em uma lista de projetos pendentes encontrada por Caridad Diego Bello. Entre essas anotações estava uma questão institucional diretamente relacionada à denominação: a possibilidade de autorizar os adventistas a possuir um seminário teológico.
A continuidade ultrapassa o nome de Che. Caridad Diego trabalhou durante décadas no órgão do Comitê Central do Partido Comunista responsável pelas relações religiosas e, segundo a matéria, nesse período participou de inaugurações, eventos da Igreja, contatos com dirigentes internacionais e relações com sucessivos presidentes adventistas cubanos. A reportagem identifica Robert Folkenberg, Israel Leito e Aldo Pérez Reyes e acrescenta a relação constante mantida com Don Noble e dirigentes da Maranatha Volunteers International.
“A ORGANIZAÇÃO DA IGREJA ADVENTISTA”
A formulação utilizada para descrever a visita de 2025 merece atenção especial porque a reportagem não restringe o relacionamento a indivíduos. O texto afirma que o encontro destacou a “colaboração de longa data entre o governo do país, a organização da Igreja Adventista e seus ministérios de apoio dirigidos por leigos”. A organização denominacional aparece expressamente identificada como uma das partes da colaboração descrita pela própria publicação.
Essa escolha de palavras encerra uma possibilidade recorrente de reduzir toda a história cubana à iniciativa de membros isolados. Na Sierra Maestra existiram membros adventistas envolvidos na proteção de revolucionários; em Santa Clara aparece uma instituição adventista administrada; em 1963 uma comissão criada pela Igreja utiliza Rosabal para alcançar Che; e, em 2025, a própria publicação denominacional emprega diretamente a expressão “Adventist Church organization” ao descrever a colaboração mantida com o governo cubano.
“DEPOIS DE TANTOS ANOS TRABALHANDO JUNTOS”
As declarações reproduzidas na reportagem reforçam o título por acumulação. Don Noble recebe a delegação governamental falando em “tantos anos trabalhando juntos”; Aldo Pérez Reyes afirma que Igreja e governo possuem “uma relação muito boa”, mantêm “comunicação aberta”, dão-se bem e sustentam esse relacionamento “por muitos anos”; Caridad Diego, depois de brincar com a quantidade de trabalho criada pelos adventistas, declara diretamente: “Queremos continuar trabalhando juntos.” O título não surge, portanto, isolado do conteúdo; a própria matéria explica a duração da colaboração por meio dos personagens, contatos e projetos que descreve.
O relacionamento também aparece ligado à presença física e institucional adventista na ilha. Diego afirma que os adventistas estão por toda parte, e líderes regionais informam que praticamente todos os projetos da Igreja Adventista em Cuba haviam sido facilitados e conduzidos pela Maranatha. A relação descrita envolve, assim, muito mais do que cerimônias protocolares: alcança seminário, projetos denominacionais, presença territorial, construções e uma estrutura continuada de interlocução com o órgão governamental responsável pelos assuntos religiosos.
CHE NO COMEÇO E CHE QUASE NO FIM
O encadeamento produzido pelos seis apêndices principais pode agora ser observado integralmente. Che Guevara registra que adventistas lhe deram apoio durante a guerra; Rosabal explica como uma rede adventista participou da proteção e movimentação dos sobreviventes; Brown registra o Antillian College prestando assistência durante a batalha final de Santa Clara e negociando diretamente com Che; Rosado escreve que adventistas simpatizaram com os revolucionários e lhes prestaram assistência clandestina; Tahbaz acompanha a relação produzindo acesso ao novo governo e a chama de privilegiada; e, em 2025, a Adventist Review registra a organização adventista dentro de uma “colaboração de longa data” com o governo cubano, enquanto a própria narrativa administrativa ainda conserva o nome de Che Guevara.
A força dessa sequência está na diversidade de suas fontes e na continuidade dos acontecimentos que elas preservam. O primeiro documento vem do próprio Che; o segundo, de um participante adventista; o terceiro, do presidente de uma instituição denominacional; o quarto, de um pastor e pesquisador adventista; o quinto, de um estudo acadêmico; e o sexto, da própria imprensa denominacional em 2025. Os documentos não repetem mecanicamente a mesma história, porque registram épocas e situações distintas, mas, lidos em sequência, mostram uma relação que atravessou a guerra, a vitória, a instalação do novo governo, as disputas religiosas posteriores e décadas de interlocução institucional.
DO “APOIO FRANCO” À “COLABORAÇÃO DE LONGA DATA”
O dossiê principal começou com as palavras de Che Guevara e termina com as palavras da Adventist Review. Entre uma extremidade e outra transcorreram quase sete décadas. No início, homens revolucionários perseguidos dependiam de redes locais, comida, esconderijos, roupas, informação e deslocamento; no final, representantes de um órgão do Comitê Central do Partido Comunista encontram dirigentes adventistas dentro de um seminário cuja própria história administrativa a reportagem faz remontar a anotações de Che. O vocabulário mudou conforme mudaram as circunstâncias, mas a documentação permite acompanhar a trajetória: apoio franco, assistência clandestina, cooperação institucional durante Santa Clara, acesso ao poder, relação privilegiada e colaboração de longa data.
Leia novamente, agora em sequência, os seis documentos principais deste dossiê: Che registra quem o apoiou; Rosabal mostra como a proteção funcionou; Brown revela a presença institucional adventista dentro da batalha decisiva; Rosado chama aquela ajuda de assistência clandestina; Tahbaz mostra os relacionamentos da Sierra Maestra produzindo uma relação privilegiada com o governo revolucionário; e a Adventist Review encerra a documentação falando explicitamente em colaboração de longa data entre o governo cubano, a organização da Igreja Adventista e seus ministérios de apoio.
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