
Da autoridade divina invocada por Ellen G. White para desaconselhar a reprodução de pessoas consideradas hereditariamente debilitadas e os casamentos entre brancos e negros à “melhoria eugênica da raça” divulgada pela Casa Publicadora Brasileira durante o nazismo: a história de uma igreja que denunciava a marca da besta enquanto sua literatura assimilava concepções de seleção humana.
Vida de gado: quando a humanidade passa a ser tratada como rebanho
Antes de examinarmos as relações da Igreja Adventista do Sétimo Dia com Adolf Hitler, precisamos compreender a mentalidade que tornou possível a aproximação de determinados setores religiosos com as concepções de higiene racial do século XX. Estamos falando de uma maneira de pensar que ultrapassava a prevenção de doenças e a promoção da saúde. Em suas manifestações mais graves, ela pretendia classificar seres humanos segundo características hereditárias, estabelecer quais condições biológicas seriam desejáveis nas futuras gerações e restringir a reprodução daqueles considerados inadequados. Era uma lógica familiar à criação de animais, aplicada à humanidade: selecionar os melhores reprodutores, controlar os cruzamentos e impedir a perpetuação de características indesejáveis.
Na linguagem contemporânea da pecuária, chamamos isso de melhoramento genético. Na história das populações humanas, projetos dessa natureza receberam o nome de seleção hereditária de seres humanos. As duas expressões não são tecnicamente idênticas, mas sua aproximação revela a questão moral que atravessa esta investigação: o que acontece quando a reprodução humana passa a ser julgada segundo critérios semelhantes aos utilizados para selecionar animais de criação?
O título deste artigo, Vida de Gado, não pretende equiparar pessoas a animais. Pelo contrário: denuncia a mentalidade que ameaça fazê-lo. A questão é particularmente grave quando uma instituição religiosa atribui autoridade espiritual a recomendações sobre quem deveria ou não constituir descendência, quando estabelece fronteiras raciais para o casamento e quando sua própria editora apresenta o aperfeiçoamento hereditário da população como preocupação legítima da medicina.
A documentação que examinaremos revela uma sequência histórica desconfortável. Ellen G. White publicou declarações sobre amalgamação, hereditariedade, reprodução e casamentos inter-raciais antes da ascensão do nazismo. Na Alemanha, setores adventistas aproximaram sua tradicional reforma de saúde das concepções biomédicas e raciais do Terceiro Reich.
No Brasil, em janeiro de 1939, a Casa Publicadora Brasileira lançou a revista Vida e Saúde com um editorial que incluía expressamente a “melhoria eugênica da raça” entre as preocupações da medicina moderna. A historiografia demonstra ainda que a abordagem higienista e eugênica não desapareceu imediatamente da publicação com a derrota de Hitler. Essa expressão histórica designava a pretensão de aperfeiçoar hereditariamente a população, valorizando determinados traços humanos e desvalorizando outros, com consequências que podiam incluir restrições à reprodução.
O que estamos investigando, portanto, não é apenas o comportamento de alguns dirigentes adventistas diante de um ditador. É a história de concepções sobre corpo, hereditariedade e raça que circularam em ambientes adventistas antes, durante e depois do nazismo.
O mecanismo de desumanização começa muito antes de uma lei autorizar a violência. Começa quando alguém se arroga o direito de definir que uma vida é biologicamente mais promissora que outra; quando a doença, a deficiência, a cor da pele ou a ascendência familiar deixam de ser condições humanas e se convertem em sinais de inadequação. É nesse momento que o discurso de proteção da saúde pode atravessar uma fronteira moral decisiva: em lugar de oferecer cuidados a todas as pessoas, passa a avaliar quais pessoas deveriam existir nas gerações futuras. Não há inocência automática na palavra ‘melhoria’ quando o objeto dessa melhoria é a própria população e o instrumento imaginado é a escolha dos que podem transmitir a vida.
O que torna o caso adventista tão grave para nossa análise não é uma coincidência vocabular entre livros distantes, mas a convivência, numa mesma tradição institucional, de três elementos que exigem explicação: a autoridade religiosa aplicada ao casamento e à reprodução; a circulação de conceitos de aperfeiçoamento hereditário na imprensa sanitária; e a utilização dessa imprensa como ponte missionária com o público. Precisamos olhar para essa combinação sem permitir que o prestígio de uma escritora religiosa, o nome respeitável de uma editora ou a aparência doméstica de uma revista de saúde sirvam de proteção contra perguntas históricas incômodas.
Antes de Hitler, Ellen White já julgava quem deveria ter filhos
Ellen G. White morreu em 1915, dezoito anos antes da chegada de Hitler ao poder. Essa distância cronológica é importante. Ela impede atribuir à escritora qualquer participação nas decisões do regime nazista, mas também demonstra que certas preocupações adventistas com reprodução, hereditariedade e degeneração antecederam o nacional-socialismo.
Nos escritos de White, encontramos advertências dirigidas a pessoas que desejavam constituir família apesar de condições físicas ou mentais consideradas debilitadas. A autora não se limitou a aconselhar prudência médica. Em determinadas passagens, atribuiu responsabilidade moral e religiosa à decisão de transmitir aos descendentes uma herança física ou mental considerada prejudicial.
Essa linguagem exige exame cuidadoso porque desloca a questão da reprodução do campo da responsabilidade pessoal para o julgamento da aptidão hereditária. Uma pessoa doente, uma pessoa com deficiência ou alguém pertencente a uma família marcada por enfermidades poderia ser considerada moralmente censurável por decidir ter filhos. A condição biológica deixava de ser apenas uma circunstância da existência humana e passava a influenciar a avaliação religiosa da legitimidade da reprodução.
O paralelo com a seleção de animais é perturbador. Na criação de gado, avaliam-se características de matrizes e reprodutores para determinar quais devem ser perpetuadas. Quando essa lógica se aproxima da reprodução humana, a pergunta inevitável é quem possui autoridade para decidir quais características merecem continuidade e quais pessoas deveriam interromper sua descendência.
Não estamos afirmando que Ellen White tenha proposto a esterilização compulsória posteriormente instituída pelo nazismo. O aconselhamento religioso e a coerção estatal são práticas diferentes. Mas a afinidade entre censurar a reprodução por critérios hereditários e defender a seleção de características humanas merece investigação, sobretudo quando a censura é apresentada como obrigação moral diante de Deus.
O problema se torna ainda mais profundo porque White não era considerada apenas uma escritora de recomendações sanitárias. Para a denominação adventista, seus escritos possuíam autoridade profética. Assim, declarações sobre reprodução e hereditariedade podiam adquirir um peso religioso muito superior ao de opiniões médicas comuns.
Não se trata de julgar retrospectivamente a medicina do século XIX pelos seus recursos terapêuticos limitados. Trata-se de reconhecer a diferença entre recomendar acompanhamento, tratamento e prudência a uma família e formular uma censura moral à própria possibilidade de descendência. A primeira atitude busca reduzir sofrimento; a segunda pode transformar a pessoa enferma em ameaça hereditária. Quando a recomendação é formulada por uma figura reconhecida como mensageira de Deus, a fronteira entre conselho e pressão espiritual torna-se ainda mais delicada, porque o fiel não recebe apenas uma opinião: pode sentir que sua própria consciência está sendo colocada diante de uma exigência divina.
Também não devemos aceitar que a simples invocação da palavra ‘responsabilidade’ resolva o problema. Responsabilidade por quem? Pela pessoa concreta, com dignidade, desejos e direitos, ou por um ideal abstrato de descendência fisicamente superior? Se a proteção da geração futura exige que os considerados frágeis renunciem à parentalidade, quem define a fragilidade, qual autoridade fiscaliza a decisão e onde termina o aconselhamento para começar a exclusão? Essas perguntas não são periféricas: atingem o centro de uma teologia que proclama o valor da pessoa criada à imagem de Deus.
1864: a amalgamação e as “certas raças de homens”
Uma das controvérsias mais antigas envolvendo a literatura de Ellen White encontra-se no terceiro volume de Spiritual Gifts, publicado em 1864. Ao descrever a corrupção do mundo anterior ao Dilúvio, White relacionou a amalgamação de homens e animais à desfiguração da imagem divina. Na página 75, ao comentar as condições posteriores ao Dilúvio, declarou que a amalgamação podia ser observada na variedade de espécies animais e em “certas raças de homens”.
A expressão provocou uma discussão interpretativa que atravessou gerações. Críticos entenderam que White estava associando determinadas populações humanas a cruzamentos entre seres humanos e animais. Intérpretes adventistas, entre eles Francis D. Nichol, defenderam que a autora se referia a misturas entre grupos humanos, separadamente de misturas entre espécies animais.
A controvérsia não deve ser resolvida mediante a atribuição à autora de palavras que ela não escreveu. O texto não identifica nominalmente os negros como produto de cruzamentos entre humanos e animais. Entretanto, a referência a “certas raças de homens” dentro de uma explicação sobre amalgamação e corrupção da criação constitui, por si mesma, um problema histórico e teológico relevante.
Mesmo na interpretação adventista que separa a mistura entre humanos da mistura entre animais, permanece uma pergunta: por que a mistura de grupos humanos apareceria associada a uma condição condenável, numa narrativa que atribui à corrupção da criação consequências físicas e morais?
White não empregava a terminologia da genética moderna. Seu universo conceitual era religioso e anterior à consolidação científica da genética. Mas a ausência desse vocabulário não elimina o interesse histórico de suas afirmações sobre descendência, mistura e degeneração. Pelo contrário, demonstra que preocupações com a reprodução e a classificação de grupos humanos podiam adquirir formulações religiosas antes da sistematização da seleção hereditária de seres humanos.
A expressão ‘certas raças de homens’ não aparece num tratado neutro de antropologia. Surge num relato de corrupção, transgressão de limites e degradação da criação. Essa moldura narrativa importa. Mesmo que se aceite a defesa de que White não estivesse descrevendo cruzamentos entre humanos e animais, permanece o efeito de inserir diferenças entre grupos humanos numa linguagem religiosa de mistura condenável. A pergunta não é apenas o que a autora teria pretendido dizer em seu íntimo, algo que o documento não permite recuperar com segurança; é também o que o texto efetivamente coloca diante de seus leitores e quais interpretações tornou possíveis.
A história das interpretações adventistas dessa passagem deve ser estudada como parte do próprio problema. Quando uma instituição precisa explicar por que determinada formulação de sua autora profética não significa aquilo que críticos nela enxergam, estamos diante de uma tensão real entre texto, autoridade e recepção. Não é necessário atribuir-lhe uma frase que nunca escreveu para exigir uma resposta. Basta ler a frase que escreveu e perguntar por que diferenças humanas foram aproximadas da linguagem da corrupção da criação.
1896: Ellen White desaconselha casamentos entre brancos e negros
A questão racial torna-se mais concreta no Manuscrito 7, de 3 de fevereiro de 1896, intitulado The Treatment of the Colored Race. Nele, Ellen White condenou o preconceito contra pessoas negras e reconheceu a injustiça de sua humilhação social. Entretanto, no mesmo contexto, apresentou uma objeção ao casamento entre pessoas brancas e negras.
O argumento era que os filhos dessas uniões enfrentariam dificuldades e discriminação numa sociedade marcada pelo racismo. Mas a solução recomendada não foi simplesmente defender a liberdade dessas famílias e combater o preconceito. White concluiu que tais casamentos deveriam ser evitados.
“Por esta razão, caso não houvesse outras, não deveria haver casamentos entre as raças branca e de cor.”
A passagem foi posteriormente publicada em Mensagens Escolhidas, volume 2, página 343. Seu conteúdo permite identificar uma contradição importante. White reconhecia que o sofrimento das crianças decorria do preconceito social, mas aconselhava uma restrição matrimonial baseada precisamente na diferença racial que a sociedade discriminava.
O resultado prático era uma recomendação de separação entre brancos e negros no casamento. Não se tratava de uma lei civil de segregação, mas de uma orientação religiosa que poderia influenciar a formação das famílias dentro da comunidade adventista.
Uma sociedade racista impunha sofrimento às famílias inter-raciais. A orientação de White, em vez de enfrentar exclusivamente a causa desse sofrimento, também recomendava evitar a união que o preconceito social tornava difícil. A discriminação externa acabava, assim, condicionando a recomendação interna da comunidade religiosa.
Aqui a contradição não é abstrata. A autora identifica a discriminação como causa do sofrimento futuro, mas recomenda que a união racialmente discriminada não ocorra. Desse modo, o peso do preconceito social é deslocado para a escolha dos próprios indivíduos atingidos por ele. A sociedade hostil permanece como dado a ser administrado; o casal é que recebe o conselho de desistir. A orientação pode ter sido apresentada como tentativa de evitar sofrimento, mas seu efeito normativo é inequívoco: restringir a liberdade matrimonial precisamente no ponto em que o racismo já impunha obstáculos.
O argumento da proteção dos filhos merece ser examinado com rigor porque pode conferir aparência compassiva à manutenção de uma fronteira racial. Em sociedades segregadas, quase toda transgressão de uma hierarquia produz riscos para quem a desafia. Se a resposta religiosa a esses riscos for recomendar que os discriminados evitem a união, a discriminação ganha uma segunda vida, agora na forma de prudência espiritual. A pergunta dirigida à tradição adventista é se a missão profética deveria apenas calcular o custo social de enfrentar o preconceito ou denunciar a injustiça que produzia esse custo.

1912: a separação racial recebe a autoridade do Senhor
Em 7 de agosto de 1912, Ellen White voltou ao tema na Carta 36, respondendo a perguntas sobre casamentos entre jovens cristãos brancos e negros. A correspondência reafirmou sua oposição a essas uniões e acrescentou um elemento teológico especialmente significativo: a invocação da direção divina.
“Nenhuma animação deve ser dada a casamentos dessa espécie entre nosso povo.”
Ao aconselhar que uma mulher branca desistisse de casar-se com um homem negro, White declarou:
“O Senhor não está dirigindo nessa direção.”
Essas declarações aparecem em Mensagens Escolhidas, volume 2, página 344. A gravidade da passagem não reside apenas na recomendação matrimonial. Reside na autoridade reivindicada para sustentá-la. Uma preferência social poderia ser discutida como opinião humana. Uma orientação apresentada como procedente do Senhor adquiria outro peso dentro de uma igreja que reconhecia White como mensageira profética.
A consequência era a possibilidade de transformar uma fronteira racial historicamente construída em orientação espiritual. Pessoas que desejassem casar-se com alguém de outra origem racial poderiam ser levadas a acreditar que sua escolha contrariava a vontade divina.
Os responsáveis pela preservação dos escritos de White posteriormente explicaram que essas declarações se referiam às dificuldades sociais dos casamentos inter-raciais, não à inferioridade essencial de uma raça. A explicação esclarece a justificativa declarada, mas não modifica o conteúdo da recomendação: casamentos entre brancos e negros foram desaconselhados, e a orientação foi associada à direção de Deus.
A pergunta teológica permanece: por que uma orientação apresentada como divina deveria acomodar uma fronteira racial imposta pela sociedade, em vez de confrontar diretamente a injustiça que tornava esses casamentos socialmente difíceis?
A passagem de 1912 aprofunda a questão porque retira o debate do terreno das conveniências sociais e o leva à autoridade do Senhor. Para o leitor que reconhece a autora como portadora de orientação profética, dizer que Deus não conduz naquela direção é muito mais do que advertir sobre dificuldades previsíveis. É aproximar uma proibição prática de uma obrigação religiosa. Precisamos reconhecer o impacto dessa formulação sobre pessoas reais: casais que desejavam formar família, comunidades que avaliavam sua legitimidade e descendentes que poderiam ouvir que sua própria origem familiar contrariava uma recomendação espiritual.
O exame crítico não depende de supor que White tenha formulado uma teoria de inferioridade biológica dos negros. O documento oferece um problema suficiente por si mesmo: a oposição a determinados casamentos é definida pela cor dos envolvidos e recebe um enquadramento religioso. Mesmo quando o motivo alegado é a hostilidade social, a solução recomendada preserva a separação matrimonial. A diferença entre motivo e consequência precisa ser mantida à vista, sem permitir que um apague o outro.
1933: quando a seleção humana se transformou em violência de Estado
A ascensão de Hitler ao poder, em janeiro de 1933, marcou uma nova etapa na história da seleção hereditária de seres humanos. Em 14 de julho daquele ano, o regime nazista aprovou a Lei para a Prevenção de Descendentes com Doenças Hereditárias, que estabeleceu mecanismos para a esterilização compulsória de pessoas classificadas como portadoras de determinadas condições hereditárias.
O programa atingiu aproximadamente 400 mil pessoas. Entre os grupos submetidos à legislação estavam indivíduos com diagnósticos psiquiátricos, epilepsia, deficiências sensoriais e outras condições classificadas pela medicina e pelo Estado nazista como hereditárias. A decisão sobre a reprodução deixava de pertencer à pessoa e passava a ser imposta por autoridades políticas e médicas.
Não estamos falando de simples aconselhamento para evitar uma gravidez. A esterilização compulsória significava retirar de alguém, contra sua vontade, a capacidade de gerar descendentes. Pessoas com deficiência e pacientes psiquiátricos eram tratadas como portadoras de uma herança que o Estado desejava impedir de chegar às futuras gerações.
A ideologia do aperfeiçoamento biológico da população convertia-se em instrumento de violência. O poder estatal assumia uma função comparável, em sua lógica seletiva, à do criador que decide quais características devem ser perpetuadas num rebanho. Mas suas vítimas eram seres humanos, com histórias, famílias, direitos e projetos de vida.
Essa é a dimensão concreta que não podemos perder quando encontramos expressões aparentemente respeitáveis como higiene racial, hereditariedade saudável ou melhoria da raça em publicações religiosas do período.
O salto entre o conselho moral e a esterilização imposta pelo Estado não deve ser apagado; precisamente por ser enorme, ele revela o que ocorre quando uma sociedade entrega a autoridades o poder de decidir quais vidas merecem continuidade. Na Alemanha nazista, a classificação médica tornou-se decisão administrativa, processo judicial e intervenção física sobre corpos que não consentiam. A violência não estava apenas no resultado estatístico, mas na rotina burocrática pela qual pessoas eram convertidas em diagnósticos, laudos e casos a serem impedidos de gerar filhos.
A comparação histórica exige distinguir responsabilidades sem dissolver a gravidade do vocabulário compartilhado. Não podemos afirmar que uma frase brasileira de 1939 equivalia a uma ordem de esterilização alemã. Podemos, sim, exigir que uma instituição religiosa explique por que considerava digno de celebração um ideal de aperfeiçoamento hereditário da população num mundo em que esse ideal já sustentava políticas de exclusão e violência. O contexto não torna a expressão menos inquietante; torna mais urgente perguntar o que ela significava para seus editores e leitores.
A reforma adventista de saúde e a higiene racial na Alemanha
O historiador Roland Blaich investigou a aproximação de setores adventistas alemães com a visão biomédica do Terceiro Reich. Em seu estudo Health Reform and Race Hygiene: Adventists and the Biomedical Vision of the Third Reich, publicado em 1996 na revista acadêmica Church History, demonstrou como determinados elementos da reforma adventista de saúde encontraram pontos de convergência com concepções sanitárias defendidas pelo nacional-socialismo.
O adventismo já valorizava a temperança, a alimentação natural, a prevenção de doenças, o combate ao álcool e ao tabaco e a disciplina corporal. Essas práticas não eram nazistas por natureza. O problema surgiu quando sua linguagem foi aproximada de uma política que pretendia melhorar biologicamente a população mediante critérios de hereditariedade e raça.
Em publicações adventistas alemãs, a defesa da saúde podia aparecer associada à higiene racial e à preocupação com a reprodução de pessoas consideradas hereditariamente inadequadas. Blaich documentou essa convergência em textos produzidos durante o regime nazista, incluindo materiais de periódicos como Der Adventbote, Gegenwartsfragen e Jugend-Leitstern.
A documentação alemã impede que reduzamos o episódio a uma simples coincidência entre vegetarianismo adventista e hábitos pessoais de Hitler. A questão não era apenas alimentação. Era a aproximação entre um projeto religioso de reforma do corpo e um programa estatal de seleção biológica.
Quando uma publicação religiosa apoiava medidas coercitivas de esterilização, deixava de apenas divulgar orientações sanitárias. Conferia legitimidade moral a uma política que privava pessoas da capacidade de reprodução. A violência estatal encontrava, assim, formas de justificação em ambientes que se apresentavam como defensores da saúde e da moralidade.
É tentador reduzir a aproximação entre saúde adventista e política nazista a uma lista de hábitos cotidianos: abstinência de álcool, alimentação vegetal, exercícios e disciplina. Essa leitura é confortável porque retira de cena o problema das pessoas. A questão documentada por Blaich é mais profunda: a linguagem de regeneração do corpo coletivo podia associar-se à ideia de uma população hereditariamente aperfeiçoada, deslocando o centro da preocupação do cuidado individual para a seleção de grupos. Quando a higiene se transforma em política de pertencimento, o corpo deixa de ser apenas objeto de atenção médica e passa a ser critério de inclusão ou exclusão.
Uma igreja que anuncia a proteção da vida precisa responder por aquilo que seus periódicos legitimaram, e não apenas por aquilo que seus dirigentes afirmaram posteriormente desejar. A análise de artigos publicados sob o regime é indispensável porque a imprensa religiosa forma hábitos de pensamento, estabelece limites do aceitável e dá aparência de normalidade a ideias que, fora daquele enquadramento, poderiam revelar imediatamente seu caráter discriminatório. Não basta perguntar se os autores eram vegetarianos; precisamos perguntar o que escreveram sobre aqueles que julgavam hereditariamente inadequados.
1939: A Casa Publicadora Brasileira defende a “melhoria eugênica da raça”
Se encerrássemos a investigação na Alemanha, seria possível apresentar o problema como um episódio exclusivamente alemão, determinado pelas circunstâncias excepcionais do Terceiro Reich. Mas a documentação brasileira impede essa conclusão.
Em janeiro de 1939, quando Hitler governava a Alemanha havia seis anos e a esterilização compulsória já atingira centenas de milhares de pessoas, a Casa Publicadora Brasileira lançou a revista Vida e Saúde. Seu redator-chefe, Luiz Waldvogel, publicou o editorial inaugural, Nosso Programa, apresentando os objetivos da nova publicação.
Ao celebrar os progressos da medicina e da higiene, Waldvogel incluiu entre as preocupações médicas a alimentação, a pediatria, a cultura física e a expressão:
“À melhoria eugênica da raça, enfim.” Essa expressão histórica designava a pretensão de aperfeiçoar hereditariamente a população, valorizando determinados traços humanos e desvalorizando outros, com consequências que podiam incluir restrições à reprodução.
A passagem encontra-se na página 3 da edição inaugural de janeiro de 1939 e foi recuperada pela historiadora Karina Kosicki Bellotti, na página 494 de seu estudo publicado em 2020.
O significado editorial é direto. Waldvogel não utilizou a expressão para condenar o pensamento de seleção hereditária humana. Incorporou-a a uma enumeração favorável das preocupações da medicina moderna. A melhoria racial aparecia como parte do horizonte de progresso sanitário apresentado ao público brasileiro.
Não se tratava de uma carta particular, de uma conversa informal ou de uma manifestação isolada sem relação com a denominação. A frase integrava o primeiro editorial de uma revista publicada pela Casa Publicadora Brasileira, a editora adventista responsável por divulgar literatura religiosa e sanitária.
O fato de a seleção hereditária de seres humanos circular amplamente na medicina brasileira daquele período ajuda a explicar o contexto da publicação. Não elimina, porém, a responsabilidade editorial de incorporá-la ao programa da revista. Uma instituição religiosa não deixa de responder pelas ideias que divulga apenas porque elas também são defendidas por médicos, educadores ou autoridades governamentais.
É preciso deter-nos na construção dessa frase. Waldvogel não escreveu um estudo especializado para especialistas que debatiam criticamente políticas de reprodução. Escreveu o programa de apresentação de uma revista dirigida ao público. Numa enumeração de temas associados ao progresso da medicina, a expressão ‘melhoria eugênica da raça’ aparece como se fosse uma extensão natural da pediatria e da cultura física. O efeito retórico é poderoso: uma ideia de aperfeiçoamento hereditário da população é colocada ao lado de cuidados familiares comuns, recebendo parte da legitimidade que o leitor atribui à medicina preventiva.
O problema da responsabilidade editorial não pode ser transferido para uma abstração chamada ‘espírito da época’. Editores selecionam palavras, definem o tom de suas publicações e decidem quais objetivos merecem figurar num editorial de estreia. A circulação ampla dessas concepções na sociedade brasileira explica por que a frase era disponível; não explica por que a editora adventista deveria reproduzi-la sem crítica. Uma instituição que pretende orientar famílias e consciências responde também pela maneira como apresenta o valor das vidas que compõem essas famílias.
O trecho inaugural funciona como prova documental especialmente importante porque é datado, assinado e situado numa publicação identificável. Não precisamos inventar um programa secreto, atribuir a Waldvogel decisões que ele não tomou ou insinuar uma ligação administrativa direta com Berlim. Basta enfrentar o que está escrito: a publicação inaugural de uma editora confessional integrou ao seu horizonte de saúde a pretensão de melhorar hereditariamente a raça humana. O silêncio sobre o alcance moral dessa pretensão é parte do problema que investigamos.

As palavras que escondem a seleção humana: quando a linguagem da saúde disfarça o controle dos corpos e da reprodução
Há palavras que, de tanto circularem entre médicos, historiadores, professores e autoridades, acabam perdendo aos olhos do público a violência das ideias que em determinadas épocas ajudaram a legitimar. “Higienismo”, “higiene racial”, “melhoramento da raça”, “aperfeiçoamento hereditário”, “degeneração”, “educação sanitária” e “civilização dos costumes” são expressões que precisam ser examinadas dentro de seus contextos históricos, e não recebidas como se fossem simples recomendações para tomar banho, lavar as mãos, beber água limpa ou alimentar-se corretamente. Algumas designavam políticas legítimas de prevenção de doenças e saneamento público. Outras foram utilizadas para classificar populações, impor modelos de comportamento, atribuir superioridade a determinados grupos e reivindicar autoridade médica sobre decisões íntimas, inclusive sobre quem deveria constituir família e transmitir sua herança biológica aos descendentes. O problema começa quando a linguagem da saúde passa a funcionar como linguagem de classificação do valor humano. E torna-se ainda mais grave quando uma instituição religiosa participa dessa circulação de ideias, conferindo-lhes respeitabilidade moral.
Precisamos esclarecer, especialmente, o significado histórico da palavra “eugenia”: a pretensão de melhorar biologicamente a população mediante a seleção de características hereditárias, incentivando a reprodução daqueles considerados desejáveis e, em suas vertentes coercitivas, restringindo ou impedindo a reprodução dos classificados como inadequados. A palavra pode soar como uma especialidade médica distante, uma doutrina científica ultrapassada ou uma curiosidade dos livros de história. Mas seu conteúdo real envolve perguntas brutais: quem deve nascer? Quem deveria evitar filhos? Quais famílias seriam consideradas biologicamente superiores? Quais condições físicas ou mentais justificariam desaconselhar ou impedir a descendência? Que autoridade teria o direito de responder a essas perguntas em nome da ciência, da sociedade, do Estado ou de Deus?
Na Alemanha nazista, uma das respostas foi a esterilização compulsória de centenas de milhares de pessoas. Em outros países, o mesmo universo de ideias assumiu formas diversas, desde campanhas educativas e aconselhamento matrimonial até propostas de restrição reprodutiva. Não podemos tratar todas essas manifestações como idênticas, mas tampouco devemos esconder, atrás de um vocabulário aparentemente respeitável, a pretensão comum de administrar biologicamente as futuras gerações.
Também precisamos distinguir o saneamento público daquilo que poderíamos chamar de disciplinamento médico e moral da sociedade. Construir redes de esgoto, combater epidemias, garantir água potável e ensinar prevenção de doenças são medidas destinadas a proteger vidas. Outra coisa é transformar a medicina em autoridade para definir quais hábitos, corpos, famílias, origens raciais e características hereditárias representariam o modelo humano desejável. A passagem de uma coisa à outra nem sempre era anunciada.
Podia ocorrer dentro do mesmo discurso, na mesma revista, na mesma campanha educativa. Falava-se de alimentação, infância, exercício físico e higiene doméstica; em seguida, introduzia-se o aperfeiçoamento racial como se fosse apenas mais um capítulo do progresso médico. O leitor era conduzido de uma recomendação sanitária legítima a uma concepção de seleção humana sem que a mudança de natureza moral fosse devidamente explicitada.
O que a pesquisa de Karina Bellotti realmente revela sobre a Casa Publicadora Brasileira
É precisamente por isso que o estudo da historiadora Karina Kosicki Bellotti, intitulado “Um médico em forma de revista: Aspectos constitutivos da revista adventista Vida e Saúde (1939–2019)”, publicado em 2020 na revista acadêmica Estudos de Religião, merece uma leitura muito mais crítica do que a simples reprodução de suas classificações historiográficas. Bellotti investigou oitenta anos da publicação editada pela Casa Publicadora Brasileira, examinando sua filosofia editorial, seus anunciantes, suas formas de distribuição, suas capas, seus slogans, suas seções e seus artigos.
Ao caracterizar a fase inicial, entre as décadas de 1930 e 1960, identificou uma revista fortemente influenciada por modelos norte-americanos e por uma orientação que combinava educação sanitária, disciplinamento dos hábitos e concepções de aperfeiçoamento hereditário da população. O dado decisivo é que estamos falando de uma publicação produzida por uma editora pertencente à Igreja Adventista do Sétimo Dia, cuja mensagem de saúde constituía um dos principais instrumentos de aproximação com a sociedade brasileira.
Na página 493, Bellotti informa que, nessa primeira fase, a revista reproduzia textos provenientes de órgãos públicos de educação sanitária, entre eles o Serviço Nacional de Educação Sanitária e o Serviço de Propaganda e Educação Sanitária de São Paulo, durante e depois do Estado Novo. A informação possui enorme importância histórica. Ela revela uma publicação adventista que não apenas traduzia orientações religiosas sobre alimentação e temperança, mas também participava da circulação de materiais produzidos dentro de estruturas estatais de educação da população. A linguagem médica e a linguagem religiosa encontravam-se num mesmo empreendimento editorial. A autoridade do Estado, a respeitabilidade da medicina e a credibilidade de uma editora denominacional podiam reforçar-se mutuamente. O que precisamos perguntar é como essa aproximação permitiu que concepções sobre melhoramento racial aparecessem misturadas a conselhos aparentemente comuns sobre saúde, infância e vida familiar.
Na página 494, a pesquisadora reproduz a passagem decisiva do editorial inaugural de Luiz Waldvogel, publicado em janeiro de 1939. Ao apresentar as preocupações da medicina moderna, o redator-chefe relacionou alimentação, pediatria e cultura física à “melhoria eugênica da raça”. A expressão histórica precisa permanecer intacta porque constitui o próprio documento da acusação. Mas seu significado não pode continuar protegido pela aparência técnica das palavras: Waldvogel estava incluindo entre os objetivos respeitáveis da medicina o ideal de aperfeiçoar biologicamente a população segundo características hereditárias. Não se tratava de ensinar uma família a conservar alimentos ou proteger crianças contra doenças infecciosas. Tratava-se de acolher, dentro de um programa editorial de saúde, uma concepção que submetia a reprodução e a descendência humanas a critérios de melhoramento racial. A frase foi apresentada favoravelmente, numa enumeração de conquistas e preocupações médicas, e não como denúncia de uma prática desumana.
O momento histórico torna essa escolha ainda mais significativa. Em janeiro de 1939, Adolf Hitler já governava a Alemanha havia seis anos, e o Estado nazista executava uma política de esterilização compulsória contra pessoas consideradas portadoras de características hereditárias indesejáveis. O Brasil vivia sob a ditadura do Estado Novo, num ambiente em que setores da medicina e da administração pública defendiam diferentes projetos de intervenção sanitária e de aperfeiçoamento da população. É nesse cenário que a Casa Publicadora Brasileira colocou em circulação uma revista cuja apresentação inaugural incorporava a expressão sobre melhoramento racial. A publicação brasileira não pode ser descrita como executora das políticas nazistas, mas tampouco pode ser tratada como alheia ao universo internacional de ideias que autorizava médicos e reformadores sociais a discutir a qualidade hereditária das populações. O documento demonstra uma adesão discursiva ao ideal de aperfeiçoamento racial, ainda que não especifique quais medidas concretas Waldvogel pretendia defender.
Da orientação médica à conquista de leitores: a saúde como instrumento de evangelização
Existe, porém, um aspecto ainda mais revelador no trabalho de Bellotti: a relação entre a mensagem adventista de saúde e a estratégia de alcançar pessoas que não pertenciam à denominação. Na página 491, a historiadora registra a importância da literatura impressa para despertar o interesse dos brasileiros pela Igreja Adventista, identificando a mensagem de saúde como uma das principais aliadas dessa estratégia. Na página 493, informa que o público inicialmente pretendido por Vida e Saúde era amplo, preferencialmente não adventista, com atenção especial às famílias e à classe médica. Portanto, a revista não era apenas um veículo de comunicação interna destinado a ensinar membros da igreja a cuidar do corpo. Ela também funcionava como instrumento de presença pública da denominação, oferecendo conhecimentos considerados úteis a leitores que talvez jamais aceitassem receber diretamente uma publicação religiosa.
Aqui encontramos uma questão central para nossa investigação: quando a saúde é utilizada como caminho de aproximação missionária, o conteúdo médico divulgado passa a participar de uma estratégia religiosa mais ampla. A pessoa compra uma revista para aprender sobre alimentação, doenças infantis, exercícios físicos ou higiene doméstica, mas entra em contato com um projeto editorial desenvolvido por uma instituição que deseja conquistar sua confiança. A utilidade prática dos conselhos facilita a entrada da publicação nos lares; a autoridade dos médicos favorece sua aceitação; a aparência científica reduz resistências; e a editora religiosa estabelece uma relação continuada com leitores externos. Essa combinação não torna ilegítima a divulgação de conhecimentos de saúde. Torna, porém, especialmente importante examinar quais ideias foram apresentadas ao público sob essa credibilidade. Se a mesma revista que ensinava a prevenir enfermidades também acolhia concepções de melhoramento racial, precisamos reconhecer que essas concepções circularam dentro de um empreendimento editorial vinculado à expansão da influência adventista.
Bellotti oferece um detalhe documental extraordinário nas páginas 495 e 496. Segundo sua pesquisa, as listas de distribuidores publicadas nos três primeiros meses de 1939 ainda identificavam organizações adventistas responsáveis pela circulação da revista em diferentes regiões do Brasil. A partir de abril daquele ano, essa identificação desapareceu. A pesquisadora observa também que Ellen G. White, quando mencionada, podia aparecer simplesmente como “escritora”, sem explicação de sua autoridade profética dentro da denominação, e que anúncios de seus livros nem sempre identificavam claramente sua autoria. O resultado era uma publicação capaz de apresentar ao público uma mensagem originada no ambiente adventista sem exigir que o leitor reconhecesse imediatamente sua procedência religiosa. A revista podia falar com a autoridade aparente da medicina, enquanto sua vinculação denominacional permanecia discreta.
Não precisamos atribuir aos editores uma intenção oculta que os documentos não demonstram para reconhecer a importância dessa estratégia. Basta observar seu funcionamento: a Casa Publicadora Brasileira produzia uma revista de saúde dirigida principalmente a leitores externos; a revista adotava linguagem científica e pouco confessional; a identificação adventista tornou-se menos visível; e seu editorial inaugural incorporou favoravelmente o ideal de melhoramento hereditário da população. A combinação desses elementos exige uma pergunta que não pode ser afastada por explicações genéricas sobre os costumes da época: por que uma instituição cristã, que utilizava a saúde como meio de conquistar confiança e ampliar sua presença social, considerou aceitável apresentar a seleção racial como parte do progresso médico? A responsabilidade não desaparece porque a publicação evitava apresentar-se ostensivamente como religiosa. Pelo contrário, a vinculação institucional torna indispensável examinar aquilo que foi divulgado em seu nome.
A linguagem científica como abrigo de ideias moralmente indefensáveis
Uma das características mais perturbadoras dessa história é a facilidade com que expressões de aparência científica podem neutralizar a reação moral diante de seu conteúdo. “Degeneração hereditária” parece uma classificação técnica, mas pode converter pessoas reais, com doenças ou deficiências, em exemplos de uma descendência supostamente indesejável. “Melhoramento racial” parece anunciar progresso, mas pressupõe critérios para estabelecer quais características humanas deveriam prevalecer. “Higiene racial” parece uma extensão da prevenção de doenças, mas historicamente também designou políticas de classificação racial e controle reprodutivo. “Seleção negativa” pode parecer uma operação estatística, embora tenha sido utilizada em discussões sobre impedir a reprodução de pessoas consideradas inadequadas. A linguagem não cria sozinha essas práticas, mas pode torná-las socialmente aceitáveis ao substituir o sofrimento humano por categorias abstratas.
Esse é o ponto em que a metáfora de Vida de Gado alcança sua força. Na criação de animais, selecionam-se matrizes e reprodutores segundo características desejáveis para determinado objetivo econômico. Quando um discurso sobre seres humanos começa a falar em aperfeiçoar a raça, evitar a transmissão de características consideradas inferiores e disciplinar a reprodução das futuras gerações, aproxima-se perigosamente dessa lógica de seleção. A dignidade de uma pessoa deixa de ser suficiente; passa-se a avaliar a qualidade presumida de sua descendência. O nascimento de uma criança pode ser discutido como resultado biologicamente desejável ou indesejável. A família deixa de ser apenas uma comunidade de afeto e responsabilidade e torna-se objeto de avaliações hereditárias. E o ser humano corre o risco de ser tratado não como alguém que possui direitos, mas como portador de características que autoridades pretendem perpetuar ou eliminar.
É por isso que a responsabilidade de Ellen G. White e a responsabilidade editorial da Casa Publicadora Brasileira devem ser examinadas em conjunto, sem apagar suas diferenças históricas. White desaconselhou casamentos entre brancos e negros e, em uma de suas orientações, associou a recomendação à direção do Senhor. Também formulou advertências sobre a transmissão de condições físicas e mentais aos descendentes. Décadas depois, a editora adventista brasileira acolheu em seu programa inaugural o ideal de melhoramento racial da população. Não estamos diante de documentos idênticos nem de uma cadeia administrativa que ligue automaticamente cada declaração a todas as políticas posteriores. Estamos diante de manifestações diferentes de uma questão teológica comum: até que ponto uma autoridade religiosa pode interferir na formação de famílias e atribuir valor moral a características hereditárias ou raciais?
O passado que a comemoração institucional preferiu não reproduzir
Outro achado de Bellotti merece ser colocado no centro da denúncia. Ao examinar as edições comemorativas dos setenta anos de Vida e Saúde, publicadas em 2008, a historiadora constatou que a revista recuperou antigos conteúdos sobre alimentação, exercícios físicos e outros cuidados corporais, mas não reproduziu o editorial inaugural de Waldvogel. Na página 497, Bellotti apresenta como hipótese que o conteúdo racialmente comprometedor daquele texto tenha contribuído para sua ausência. A motivação não está documentalmente estabelecida, mas a diferença entre aquilo que foi celebrado e aquilo que não foi republicado é historicamente significativa. A memória institucional destacou aspectos da trajetória editorial que podiam ser apresentados como conquistas duradouras da educação para a saúde; o editorial que associava progresso médico a melhoramento racial não recebeu o mesmo tratamento.
Esse contraste permite uma pergunta ainda mais incômoda. Se a publicação reivindica sua longevidade, sua contribuição para a saúde e sua capacidade de antecipar recomendações médicas, por que não examinar com igual destaque os momentos em que acolheu concepções hoje reconhecidas como profundamente discriminatórias? Uma história editorial não é composta apenas de bons conselhos alimentares, campanhas de prevenção e fotografias de famílias saudáveis. Também é composta pelas escolhas de seus editores, pelos conceitos que legitimaram, pelas autoridades que invocaram e pelos modelos humanos que ajudaram a divulgar. Celebrar oitenta anos de existência sem enfrentar criticamente essas escolhas significaria oferecer ao público uma memória incompleta. A verdadeira prestação de contas histórica começa precisamente nos documentos que não cabem confortavelmente numa edição de aniversário.
Quando a missão de salvar vidas convive com a pretensão de selecionar a humanidade
A contradição que emerge dessa investigação não é apenas médica, política ou editorial. É religiosa. A Igreja Adventista do Sétimo Dia construiu uma identidade pública marcada pela defesa da criação divina, pela valorização da saúde, pela pregação da salvação e pela denúncia profética de poderes que pretendem dominar a consciência humana. Entretanto, sua principal referência profética publicou recomendações que restringiam moralmente determinadas uniões matrimoniais em razão da raça, enquanto sua editora brasileira acolheu uma linguagem de aperfeiçoamento hereditário da população num veículo destinado a alcançar o público externo. A questão não é negar a importância de hábitos saudáveis nem condenar indiscriminadamente a medicina preventiva. É perguntar como uma mensagem que se apresentava como instrumento de cuidado e salvação pôde conviver com concepções que classificavam a reprodução humana segundo características consideradas superiores ou inferiores.
O estudo de Karina Bellotti não foi escrito como acusação teológica contra a Igreja Adventista. Seu valor está justamente na documentação histórica que apresenta: o contexto do Estado Novo, a orientação editorial da primeira fase da revista, o editorial de 1939, a influência da imprensa sanitária norte-americana, a reprodução de materiais de órgãos públicos, o público preferencialmente não adventista, a discreta apresentação da identidade denominacional e a seleção posterior dos documentos comemorados. Nossa leitura crítica parte desses elementos para formular uma pergunta de responsabilidade institucional. Se a saúde era uma das portas de entrada da mensagem adventista na sociedade brasileira, quem respondia pelas ideias que atravessavam essa porta? E, quando o vocabulário do aperfeiçoamento racial entrou junto com os conselhos sobre alimentação, infância e higiene, por que a fronteira entre cuidar de seres humanos e pretender selecionar seres humanos não foi defendida com a mesma convicção religiosa?
Não podemos continuar permitindo que palavras respeitáveis façam desaparecer pessoas reais. Por trás de “degeneração” estavam seres humanos com enfermidades, deficiências e histórias familiares. Por trás de “melhoramento racial” estavam critérios para distinguir descendências consideradas desejáveis ou indesejáveis. Por trás de “higiene racial” existiram, em determinados regimes, políticas de exclusão e violência. E por trás da expressão publicada pela Casa Publicadora Brasileira em janeiro de 1939 havia uma escolha editorial concreta: apresentar o aperfeiçoamento hereditário da população como preocupação legítima da medicina moderna. O fato de essa escolha ter sido feita numa revista de saúde utilizada para alcançar leitores externos torna a contradição ainda mais profunda. A mesma literatura que pretendia conquistar confiança por meio do cuidado com a vida incorporava uma concepção que autorizava julgar biologicamente a reprodução humana. Eis a denúncia que não deve permanecer escondida atrás de eufemismos: quando a religião aceita que a qualidade hereditária determine o valor atribuído à descendência, a promessa de cuidar do rebanho corre o risco de transformar-se na pretensão de selecioná-lo.
Fonte principal: BELLOTTI, Karina Kosicki. “Um médico em forma de revista”: Aspectos constitutivos da revista adventista Vida e Saúde (1939–2019). Estudos de Religião, v. 34, n. 2, p. 489–519, 2020. Especialmente páginas 491, 493–497 e conclusões. Disponível em: texto integral da pesquisa.
A saúde como porta de entrada para a evangelização: o projeto missionário por trás da revista
A publicação internacional de Karina Kosicki Bellotti sobre Vida e Saúde, pela editora Brill, acrescenta uma dimensão decisiva a essa investigação. O estudo examina a saúde e o estilo de vida como estratégias de comunicação capazes de alcançar leitores e aproximá-los da mensagem adventista. Não estamos diante de uma revista médica desvinculada de qualquer finalidade religiosa: a circulação de conselhos sanitários participava de uma forma de presença pública da denominação. O leitor podia ser conquistado inicialmente pela promessa de aprender a cuidar do corpo e da família, antes mesmo de identificar plenamente o projeto confessional da editora. Essa articulação entre serviço, confiança e evangelização altera o peso histórico do editorial de 1939.
Quando uma instituição religiosa utiliza a saúde para estabelecer contato com pessoas de fora de sua comunidade, ela leva consigo não apenas receitas, recomendações de higiene e conselhos de prevenção, mas também critérios de seleção do que considera uma vida boa, uma família desejável e um corpo exemplar. Por isso, a frase de Waldvogel não pode ser tratada como ornamento científico sem consequência. Ao mencionar favoravelmente a “melhoria eugênica da raça” — expressão histórica para o ideal de aperfeiçoar hereditariamente a população, selecionando características humanas consideradas desejáveis —, o programa inaugural da revista incluía essa ideia na mensagem de progresso sanitário oferecida aos leitores. Não temos prova de que a frase fosse uma instrução para impor esterilizações no Brasil; temos a prova de que a editora a julgou adequada para apresentar publicamente seu projeto de saúde.
A responsabilidade torna-se ainda maior porque a estratégia de comunicação podia colocar em segundo plano a identidade adventista da publicação. A autoridade percebida pelo leitor era, muitas vezes, a de uma revista de orientação médica e familiar. Entretanto, por trás da apresentação secularizada, havia uma editora confessional, profissionais vinculados à denominação e um projeto de aproximação religiosa. Isso exige perguntar não apenas o que a revista ensinava, mas também com que finalidade conquistava a confiança do público. Se a saúde servia para abrir portas à evangelização, o discurso de classificação hereditária que circulava nessa mesma porta não pode ser separado artificialmente da responsabilidade missionária da instituição.
O ponto de denúncia é este: a CPB buscava alcançar pessoas pela promessa de vida melhor e, no mesmo ato fundador de sua revista, acolhia um vocabulário que colocava a população humana sob o horizonte do aperfeiçoamento biológico. O paradoxo é severo. Uma mensagem religiosa que pretende alcançar todos os povos convivia, em sua comunicação sanitária, com uma linguagem histórica de hierarquização de características hereditárias. A crítica não precisa presumir que todo leitor foi convertido por esse discurso, nem que todo editor compartilhou idêntica interpretação dele. Basta reconhecer que a aproximação evangelística ampliava a responsabilidade pelaquilo que se escolhia publicar.
Não era apenas uma revista de colportagem: o editor da seleção hereditária humana também dirigia a Revista Adventista
Uma possível tentativa de minimizar a responsabilidade denominacional pelo editorial de 1939 seria apresentar Vida e Saúde como simples revista de circulação pública, sem autoridade doutrinária. Mas a trajetória institucional de Luiz Waldvogel torna essa separação muito menos convincente.
Waldvogel não era um jornalista contratado ocasionalmente para escrever sobre medicina. Estava ligado à Casa Publicadora Brasileira, exercia funções editoriais na Revista Adventista desde fevereiro de 1934 e havia sido ordenado ao ministério adventista em janeiro de 1938. Sua atuação se estendeu por décadas, numa posição relevante para a formação e divulgação do pensamento denominacional brasileiro.
Outro personagem importante dessa rede foi Domingos Peixoto da Silva. Os dois integraram a primeira turma de formandos do Seminário Adventista Brasileiro, em 1922. Domingos participou da recomendação para a ordenação de Waldvogel, em 1938, e posteriormente ocupou posições de direção na Casa Publicadora Brasileira, inclusive durante os anos 1940.
Ambos estiveram ligados à imprensa denominacional e à organização religiosa. Não estamos diante de uma revista independente que ocasionalmente publicava textos adventistas, mas de um empreendimento integrado à estrutura editorial de uma denominação internacional.
Domingos também participou das relações entre a Igreja Adventista e autoridades brasileiras em questões relacionadas ao serviço militar. Em 1937, visitou Getúlio Vargas para apresentar princípios denominacionais sobre o tema. Posteriormente, esteve associado ao desenvolvimento da preparação adventista de enfermeiros-padioleiros, cuja formação obteve reconhecimento oficial na década de 1950.
Essas conexões revelam a importância institucional dos personagens, embora não signifiquem que suas atividades militares e sanitárias constituíssem um único programa. O ponto central, neste artigo, é a responsabilidade editorial: o homem que apresentou favoravelmente a melhoria eugênica da raça era também um dirigente religioso e editor ligado às principais publicações da igreja. Essa expressão histórica designava a pretensão de aperfeiçoar hereditariamente a população, valorizando determinados traços humanos e desvalorizando outros, com consequências que podiam incluir restrições à reprodução.
A pergunta deixa de ser se Vida e Saúde era uma revista doutrinária. Passa a ser por que um pastor e editor central da imprensa adventista considerou apropriado incluir a melhoria eugênica da raça no programa inaugural de uma publicação da denominação. Essa expressão histórica designava a pretensão de aperfeiçoar hereditariamente a população, valorizando determinados traços humanos e desvalorizando outros, com consequências que podiam incluir restrições à reprodução.
A posição de Waldvogel na estrutura denominacional impede que o editorial seja tratado como ruído externo à igreja. Um pastor ordenado, atuante na imprensa adventista e responsável por uma nova revista da CPB, falava a partir de um lugar institucional definido. Não se trata de atribuir automaticamente cada frase ao voto formal de todos os dirigentes, mas de reconhecer que publicações oficiais têm responsáveis, processos de edição e uma autoridade construída pelo nome da organização que as distribui. A própria existência de uma cadeia editorial torna mais pertinente, não menos, a pergunta sobre as ideias acolhidas.
As relações de formação e direção envolvendo Waldvogel e Domingos Peixoto da Silva ajudam a compreender a densidade dessa rede. São trajetórias que atravessam seminário, ministério, administração e imprensa, não personagens isolados de uma iniciativa marginal. O foco desta investigação continua sendo a publicação de 1939; as biografias importam porque mostram que sua mensagem foi produzida dentro de uma instituição que dispunha de mecanismos para formar dirigentes, difundir textos e apresentar sua visão de mundo à sociedade.

O vocabulário da limpeza: Quando a medicina escondia a seleção de seres humanos atrás de palavras respeitáveis
Uma das dificuldades para compreender a história da classificação racial e hereditária de seres humanos está nas próprias palavras utilizadas pelos seus defensores. Higienismo, higiene racial, aperfeiçoamento da população, saúde da raça, regeneração nacional, proteção da descendência e melhoramento humano são expressões que podem soar técnicas, científicas e até benevolentes. Entretanto, não significavam necessariamente a mesma coisa, nem se limitavam sempre à prevenção de enfermidades.
Em determinadas correntes médicas, políticas e sociais dos séculos XIX e XX, esse vocabulário serviu para apresentar como medidas de progresso projetos que pretendiam interferir na formação das famílias, estabelecer quais características hereditárias deveriam prevalecer nas futuras gerações e desencorajar ou impedir a reprodução de pessoas consideradas biologicamente inadequadas. O que parecia uma preocupação com a saúde coletiva podia transformar-se numa pretensão de administrar a própria continuidade da humanidade.
O termo higienismo, por exemplo, designava originalmente um amplo movimento de reforma sanitária, preocupado com saneamento, habitação, alimentação, limpeza, prevenção de doenças e condições de vida. Muitas dessas iniciativas representaram avanços importantes para a saúde pública. O problema histórico surge quando determinadas vertentes desse movimento passaram a tratar a sociedade como um organismo que deveria ser purificado não apenas de micróbios e enfermidades, mas também de comportamentos, famílias e grupos humanos considerados inconvenientes.
Nesse deslocamento, a palavra higiene deixava de designar exclusivamente a limpeza dos ambientes e a prevenção de doenças para adquirir uma dimensão moral, social e, em suas manifestações racializadas, hereditária. Já não se discutia somente como proteger pessoas contra enfermidades, mas como disciplinar sua existência, regular seus relacionamentos e influenciar quem deveria constituir descendência.
Também a expressão higiene racial exigia uma tradução que seus defensores raramente ofereciam com a mesma clareza de suas promessas de progresso. Não se tratava de lavar uma população, melhorar o abastecimento de água ou combater epidemias. Tratava-se de aplicar critérios de classificação racial e hereditária à reprodução humana, atribuindo maior valor a determinadas características e menor valor a outras.
Dependendo do movimento e do regime político, essa pretensão assumiu formas distintas, desde campanhas de aconselhamento matrimonial e estímulo à reprodução dos considerados biologicamente desejáveis até políticas de segregação, proibição de casamentos e esterilização compulsória. Na Alemanha nazista, a linguagem da proteção hereditária foi incorporada a uma estrutura estatal de coerção que retirou de centenas de milhares de pessoas a possibilidade de ter filhos. A brutalidade dessas práticas demonstra por que não podemos permitir que a expressão higiene racial seja recebida como se designasse apenas uma especialidade médica.
Outro termo particularmente revelador é melhoramento da raça. Melhorar pressupõe um padrão de qualidade, alguém autorizado a defini-lo e critérios para identificar aquilo que precisa ser corrigido ou eliminado. Quando essa linguagem é aplicada à pecuária, refere-se à seleção de características dos animais destinados à reprodução. Quando é transportada para seres humanos, introduz uma pergunta profundamente perturbadora: quem teria o direito de determinar quais pessoas possuem características dignas de continuidade e quais deveriam ser desencorajadas de transmiti-las aos filhos?
A expressão parece prometer crianças mais saudáveis e famílias mais fortes, mas pode esconder a classificação de pessoas com deficiência, indivíduos pobres, grupos racializados e famílias consideradas hereditariamente inadequadas como obstáculos ao aperfeiçoamento da população. O problema não está em desejar que crianças nasçam saudáveis. Está em transformar esse desejo numa hierarquia de valor entre seres humanos e, sobretudo, numa justificativa para controlar sua liberdade reprodutiva.
É nesse contexto que encontramos a palavra eugenia — nome histórico dado a projetos de aperfeiçoamento hereditário da população por meio da seleção de características humanas e, em determinadas correntes, da restrição da reprodução dos considerados inadequados. A palavra foi revestida de prestígio científico, mas sua sonoridade técnica não deve substituir a descrição das ideias e das práticas que abrigava. Ao longo desta investigação, preferimos falar em seleção hereditária de seres humanos, classificação racial, controle da reprodução, impedimento da descendência e aperfeiçoamento biológico da população, conforme o conteúdo efetivo de cada documento. Essas expressões tornam mais visível aquilo que o vocabulário especializado frequentemente deixa abstrato: a pretensão de estabelecer critérios para decidir quais características humanas deveriam ser perpetuadas e quais deveriam desaparecer das futuras gerações.
Essa questão adquire gravidade particular quando examinamos publicações religiosas. Uma revista editada por uma igreja podia apresentar alimentação saudável, higiene doméstica, exercícios físicos, prevenção de doenças e educação familiar como partes de uma mesma missão de regeneração moral. Nada disso, isoladamente, equivalia a defender a seleção reprodutiva de pessoas.
Entretanto, quando o discurso sanitário incorporava expressamente o melhoramento hereditário da população, a fronteira entre cuidar da saúde e pretender administrar a reprodução humana tornava-se uma questão editorial incontornável. A linguagem da medicina fornecia respeitabilidade; a linguagem religiosa podia acrescentar autoridade moral; e o leitor recebia ambas no mesmo veículo, frequentemente sem perceber onde terminava o conselho de saúde e começava uma concepção hierárquica sobre a humanidade.
Por isso, não basta reproduzir a expressão utilizada por Luiz Waldvogel no editorial inaugural de Vida e Saúde, em janeiro de 1939, e passar adiante como se estivéssemos diante de uma curiosidade terminológica. Quando o redator-chefe da publicação da Casa Publicadora Brasileira incluiu a “melhoria eugênica da raça” entre as preocupações legítimas da medicina moderna, estava acolhendo, no programa de apresentação da revista, a ideia de aperfeiçoamento hereditário da população.
O documento não descreve, nessa passagem, um programa brasileiro de esterilização compulsória promovido pela editora. Mas também não apresenta a expressão como objeto de denúncia. Ela aparece integrada à celebração do progresso médico. A pergunta que a instituição precisa enfrentar é por que uma publicação adventista destinada a ensinar saúde e alcançar a sociedade considerou aceitável apresentar dessa maneira uma concepção que submetia a reprodução humana a critérios de qualidade hereditária.
O mais inquietante é que a própria aparência respeitável desse vocabulário contribuía para sua circulação. Uma revista religiosa não precisava publicar uma defesa explícita das violências praticadas pelo nazismo para participar de um ambiente intelectual no qual a seleção hereditária de pessoas era tratada como assunto legítimo da medicina. Bastava acolher a premissa de que a população poderia ser biologicamente aperfeiçoada mediante critérios de hereditariedade e apresentá-la como parte do avanço sanitário. O leitor encontrava a promessa de uma vida saudável; dentro dela, podia receber também uma ideia sobre quais características humanas mereceriam ser transmitidas às futuras gerações. É essa passagem, da proteção da vida para a avaliação seletiva das vidas futuras, que precisa ser exposta sem a proteção de palavras confortáveis.
Karina Bellotti: a seleção hereditária de seres humanos não foi apenas uma frase isolada
Em 2020, a historiadora Karina Kosicki Bellotti publicou o estudo Um médico em forma de revista: Aspectos constitutivos da revista adventista Vida e Saúde (1939–2019), no qual examinou a trajetória editorial de uma publicação que atravessou gerações apresentando-se como instrumento de educação sanitária. A importância de sua pesquisa está em demonstrar que a expressão utilizada por Luiz Waldvogel no editorial inaugural de janeiro de 1939 não pode ser examinada como uma frase completamente desligada do ambiente intelectual em que a revista nasceu.
Bellotti identificou, nas primeiras décadas da publicação, a influência de correntes de reforma sanitária e de concepções de aperfeiçoamento hereditário da população, em diálogo com setores da medicina brasileira e com políticas de saúde desenvolvidas durante o Estado Novo. Em outras palavras, a revista adventista não circulava num universo exclusivamente religioso: participava de uma cultura médica e política na qual a prevenção de doenças, a disciplina dos hábitos, a formação de famílias consideradas saudáveis e as preocupações com a hereditariedade podiam aparecer reunidas sob a promessa de construir uma população melhor.
Precisamos compreender o peso histórico dessa constatação. Quando Bellotti utiliza a expressão abordagem higienista, não devemos imaginá-la automaticamente como uma simples campanha para ensinar higiene pessoal. O higienismo abrangia iniciativas legítimas de saneamento e prevenção de doenças, mas algumas de suas correntes também reivindicavam autoridade médica para disciplinar comportamentos, organizar a vida familiar e intervir em questões sociais.
Quando essa linguagem se associava à classificação hereditária e racial, o objetivo podia ultrapassar a proteção das pessoas existentes e alcançar a pretensão de determinar quais características deveriam ser reproduzidas nas gerações futuras. Essa distinção é essencial para a leitura da pesquisa: Bellotti identifica a presença de um discurso sanitário e de concepções de seleção humana na trajetória inicial da revista, e o editorial de Waldvogel oferece uma declaração textual especialmente reveladora dessa combinação. A medicina era apresentada como instrumento de progresso; a saúde adquiria prestígio científico; e a ideia de aperfeiçoar hereditariamente a população encontrava espaço numa publicação da Casa Publicadora Brasileira.
É precisamente por isso que o documento de janeiro de 1939 possui uma importância muito superior à de uma curiosidade retirada de uma revista antiga. Waldvogel não escreveu a expressão “melhoria eugênica da raça” numa denúncia contra a discriminação hereditária, nem a apresentou como exemplo de pensamento que os cristãos deveriam rejeitar. Ele a colocou numa enumeração favorável das preocupações médicas contemporâneas, ao lado da alimentação, da pediatria e da cultura física.
Essa associação editorial é o ponto decisivo. O leitor era convidado a reconhecer o aperfeiçoamento hereditário da população como mais um componente do progresso da medicina. O que hoje nos obriga a perguntar sobre classificação racial, controle reprodutivo e hierarquização biológica aparecia, naquela página, integrado ao programa inaugural de uma revista adventista dedicada à saúde. Não estamos diante de uma publicação clandestina ou de um panfleto marginal, mas de um empreendimento da editora denominacional, dirigido por um pastor que também exercia funções relevantes na imprensa oficial da igreja.
A conclusão de Bellotti amplia o problema porque identifica a presença de uma orientação sanitária e de concepções de aperfeiçoamento hereditário durante as décadas iniciais de Vida e Saúde. Isso não autoriza afirmar que cada edição publicada entre 1939 e os anos 1960 tenha defendido a esterilização compulsória ou qualquer outra medida específica de coerção reprodutiva. Mas impede que a declaração de Waldvogel seja convenientemente isolada como se não existisse uma história editorial a investigar.
A questão deixa de ser apenas por que um editor empregou determinada expressão em janeiro de 1939. Passa a ser como a revista construiu, ao longo do tempo, seus padrões de saúde, seus modelos de família, suas representações do corpo considerado ideal e suas relações com concepções médicas que atribuíam valor diferenciado às características hereditárias. A permanência de uma orientação sanitária marcada por esse ambiente intelectual, conforme identificada pela historiadora, merece ser examinada justamente porque a publicação continuou circulando depois da derrota do nazismo.
O contexto brasileiro torna a investigação ainda mais significativa. Durante o Estado Novo, a medicina, a educação sanitária e as políticas públicas de saúde participaram de debates sobre a formação de uma população nacional considerada forte, disciplinada e produtiva. Em determinados setores desse universo, a preocupação com doenças e condições de vida convivia com propostas de aperfeiçoamento hereditário e classificação de grupos humanos.
A Casa Publicadora Brasileira não precisava receber orientações do governo alemão para acolher conceitos que também circulavam na medicina brasileira. O editorial de 1939 demonstra que a linguagem do melhoramento racial estava disponível e foi incorporada ao discurso inaugural da revista. Essa circunstância desloca a responsabilidade para o lugar correto: a decisão editorial de uma instituição religiosa brasileira que escolheu apresentar favoravelmente aquela preocupação médica ao seu público.
Bellotti também identificou a influência de modelos norte-americanos de imprensa sanitária e a circulação de materiais de educação para a saúde. Esse aspecto é decisivo porque impede que tratemos Vida e Saúde como uma publicação isolada, limitada às opiniões pessoais de um redator. A revista integrava uma rede internacional de produção e circulação de conhecimentos médicos, conselhos domésticos, padrões de comportamento e representações de vida saudável. A influência de periódicos estrangeiros, especialmente da tradição editorial adventista norte-americana, ajudava a conferir à publicação brasileira uma aparência moderna e científica.
Dentro dessa rede, conceitos sobre corpo, alimentação, família e hereditariedade podiam viajar entre países e adquirir novas formulações. Não é necessário supor uma orientação centralizada e uniforme para reconhecer a importância dessa circulação: uma editora religiosa podia participar de debates internacionais sobre saúde e incorporar seletivamente ideias que encontravam aceitação em determinados meios médicos e sociais.
Mas existe uma dimensão ainda mais incômoda, que ganha força quando relacionamos a pesquisa de 2020 ao capítulo publicado por Bellotti em 2023, Health and Lifestyle as Marketing Strategies for Winning Souls: the Magazine Vida e Saúde of Brazilian Seventh-Day Adventists. A revista não era apenas um instrumento para transmitir informações sanitárias aos membros da denominação. Sua apresentação pública da saúde também participava de uma estratégia de aproximação com leitores não adventistas. Alimentação, prevenção de doenças, cuidados familiares e estilo de vida ofereciam temas capazes de despertar interesse muito além das fronteiras confessionais.
A mensagem religiosa podia aproximar-se do público por meio de conselhos que pareciam possuir validade universal. O título do estudo de Bellotti é revelador: saúde e estilo de vida eram examinados como estratégias de comunicação e conquista de almas. Isso acrescenta uma responsabilidade particular ao editorial de 1939, pois a linguagem de aperfeiçoamento hereditário não circulava apenas dentro de uma discussão médica especializada, mas numa publicação associada ao esforço missionário adventista.
Essa relação entre saúde e evangelização precisa ser examinada sem suavizações. Uma pessoa que jamais entraria espontaneamente numa igreja adventista poderia interessar-se por uma revista que prometia ajudá-la a alimentar melhor seus filhos, prevenir enfermidades, conservar a juventude e organizar a vida familiar. A publicação estabelecia uma relação de confiança por meio de assuntos cotidianos, apoiando-se no prestígio da medicina e na utilidade prática de suas recomendações.
A identidade religiosa podia permanecer discreta enquanto o leitor assimilava os valores e modelos de vida oferecidos pela revista. Quando esse veículo incorporava concepções de melhoramento hereditário da população, a questão não era apenas aquilo que a editora pensava sobre saúde, mas também aquilo que ajudava a tornar socialmente respeitável entre pessoas que talvez nem soubessem estar consumindo literatura vinculada a uma missão religiosa.
É aqui que a expressão evangelização pela saúde revela sua ambivalência histórica. Cuidar de enfermos, ensinar prevenção e promover hábitos saudáveis podem constituir formas legítimas de serviço à comunidade. Mas uma estratégia missionária não fica moralmente imune ao conteúdo que transmite simplesmente porque utiliza a saúde como porta de entrada. Se uma publicação apresenta a seleção hereditária de seres humanos como parte do progresso médico, essa ideia não se torna menos problemática por aparecer ao lado de recomendações sobre alimentação e exercícios físicos.
Pelo contrário: o ambiente de confiança criado pelos conselhos úteis pode contribuir para naturalizar concepções que mereceriam contestação. A promessa de cuidar do corpo funcionava como instrumento de aproximação; por essa mesma via, determinadas noções de disciplina social, classificação hereditária e melhoramento racial podiam alcançar leitores que buscavam apenas viver melhor.
Também precisamos considerar as representações visuais estudadas por Bellotti. Ao identificar a recorrência de pessoas brancas, jovens e magras nas capas de Vida e Saúde, a historiadora oferece outro caminho para investigar como a publicação construía imagens de vitalidade, beleza e vida desejável. Uma fotografia de uma família branca ou de um bebê saudável não constitui, isoladamente, uma declaração favorável ao controle reprodutivo ou à hierarquização racial.
Entretanto, a repetição de determinados padrões visuais permite perguntar quais corpos eram escolhidos para representar a saúde e quais permaneciam menos visíveis. Quando colocamos essas imagens ao lado de uma declaração editorial sobre aperfeiçoamento hereditário da população, a análise se torna mais ampla: não examinamos apenas uma frase, mas a maneira como uma revista religiosa apresentava seus ideais de corpo, família, juventude e saúde ao público brasileiro.
A revista de saúde adventista não precisava escrever ‘raça branca ideal’ em suas capas. Bastava observar quem aparecia nelas — e quem permanecia ausente — para perceber o padrão humano que sua comunicação visual privilegiava.
O valor da pesquisa de Bellotti, portanto, está em retirar o editorial de Waldvogel do isolamento em que seria mais confortável mantê-lo. A declaração de janeiro de 1939 permanece como evidência documental direta da aceitação editorial de uma concepção de melhoramento racial. A análise das décadas seguintes abre outras perguntas sobre continuidade, transformação e circulação de valores.
O estudo da apresentação pública da revista revela sua busca de legitimidade científica e sua estratégia de alcançar leitores para além da comunidade adventista. A investigação das capas permite observar os modelos humanos escolhidos para simbolizar saúde. E a relação entre a revista, a Casa Publicadora Brasileira e a missão denominacional obriga-nos a perguntar por que uma instituição que proclamava a criação divina e a dignidade da humanidade permitiu que a linguagem da seleção hereditária encontrasse lugar em sua comunicação pública.
A denúncia histórica não depende de afirmar que todos os médicos adventistas pensavam da mesma maneira, que cada capa escondia um programa racial ou que a CPB executava as políticas coercitivas do Terceiro Reich. O problema documentado é suficientemente grave sem essas equiparações. Uma editora adventista apresentou favoravelmente, em 1939, a pretensão de melhorar hereditariamente a população humana; uma historiadora identificou a presença de concepções relacionadas a esse universo nas décadas iniciais da revista; e a mesma tradição editorial utilizava a saúde como instrumento de aproximação com a sociedade.
O que parecia uma expressão ocasional transforma-se, diante desse conjunto, numa questão de responsabilidade institucional. Não estamos discutindo apenas uma palavra antiga. Estamos discutindo como ideias sobre a qualidade biológica dos seres humanos puderam adquirir aparência de ciência, respeitabilidade editorial e circulação missionária dentro de uma instituição religiosa.
O valor da pesquisa de Bellotti é deslocar a investigação de uma frase solitária para a história de uma linha editorial. O texto de 1939 é um ponto de entrada documental; a análise das décadas seguintes permite perguntar como a revista construiu seu ideal de saúde, quais corpos apareciam como exemplares, que linguagem de disciplina e higiene se repetia e como as concepções sobre hereditariedade se relacionavam ao contexto político e médico brasileiro. O que parecia apenas uma expressão de ocasião passa a integrar uma discussão sobre permanência, adaptação e circulação de valores.
Essa perspectiva exige cuidado com o alcance da prova: identificar uma orientação editorial marcada por discursos de aperfeiçoamento humano não equivale a dizer que cada matéria defendia coerção reprodutiva. Mas tampouco autoriza tratar a expressão inaugural como acidente sem consequências. Entre a generalização abusiva e a absolvição apressada existe o trabalho histórico: ler o programa, acompanhar a revista e reconstruir os padrões de linguagem que davam ao público uma imagem de vida considerada correta, saudável e desejável.
Uma revista adventista que nem sempre se apresentava como adventista
Outro aspecto revelador da pesquisa de Bellotti é a estratégia de apresentação pública de Vida e Saúde. A revista pretendia alcançar leitores não adventistas e adotava uma linguagem predominantemente médica e sanitária, evitando transformar cada edição numa publicação explicitamente confessional.
Nos primeiros meses de 1939, referências à estrutura adventista de distribuição podiam aparecer na publicação. Posteriormente, essa identificação tornou-se menos evidente. Ellen G. White também podia ser apresentada ao público simplesmente como escritora, sem destaque para a autoridade profética que lhe era atribuída dentro da denominação.
O resultado era uma forma de circulação pública da mensagem adventista de saúde que não exigia do leitor adesão religiosa prévia. A revista oferecia conselhos sobre alimentação, higiene, prevenção de doenças e vida familiar sob uma apresentação próxima à das publicações científicas e populares de saúde.
Quando essa estratégia editorial incorporava conceitos de melhoramento racial, ideias de classificação e seleção hereditária de pessoas podiam chegar a um público amplo por meio de uma editora religiosa cuja identidade denominacional não ocupava necessariamente o primeiro plano da apresentação.
O disfarce não precisava assumir a forma de uma mentira explícita. Bastava organizar a comunicação de modo que a identidade confessional fosse menos visível que a promessa de utilidade pública. O leitor comprava ou recebia uma revista que parecia oferecer respostas para problemas cotidianos; por meio dela, entrava em contato com um repertório de disciplina corporal e familiar associado ao projeto adventista. Essa estratégia pode ser compreendida como comunicação missionária, mas também exige perguntar quais ideias atravessavam a mesma porta aberta pela confiança na medicina e na saúde.
Quando uma revista apresenta um conselho como ciência popular, o leitor tende a avaliá-lo pela autoridade médica evocada, não pela doutrina da editora que o publica. Isso aumenta a responsabilidade de quem seleciona o conteúdo. O fato de uma mensagem circular sem identificação religiosa ostensiva não a torna neutra. Ao contrário: torna necessário reconstruir a autoria institucional e verificar se o discurso sanitário também transmitia juízos sobre o valor hereditário das pessoas e das famílias.
A raça ideal também estava nas capas da revista de saúde adventista
A defesa do melhoramento racial pela imprensa adventista brasileira não pode ser examinada apenas por meio dos editoriais. Precisamos olhar também para as imagens que a Casa Publicadora Brasileira escolhia colocar diante de seus leitores. Uma revista ensina tanto pelo que escreve quanto pelo tipo de pessoa que apresenta como modelo de saúde, beleza, juventude e família.
Karina Kosicki Bellotti examinou as capas de Vida e Saúde entre 1939 e 1970 e identificou uma preferência recorrente por pessoas brancas, jovens e magras. Segundo a pesquisadora, essas representações reproduziam padrões estéticos norte-americanos associados à mensagem adventista de saúde. Paisagens naturais, jardins e ambientes domésticos também participavam da construção visual de uma vida considerada saudável e desejável.

Na capa de outubro de 1939, encontramos três pessoas brancas numa cena de alegria e convivência. A edição circulou no mesmo ano em que o editorial inaugural da revista apresentara favoravelmente a melhoria eugênica da raça. A proximidade cronológica não transforma a fotografia numa declaração explícita de eugenia, mas permite compreender como o texto editorial e a representação visual participavam da mesma cultura de saúde e modernidade. Essa expressão histórica designava a pretensão de aperfeiçoar hereditariamente a população, valorizando determinados traços humanos e desvalorizando outros, com consequências que podiam incluir restrições à reprodução.

Em abril de 1950, a capa mostrava um bebê branco, vestido com roupas claras, sobre um fundo que lembrava nuvens ou ondas. Bellotti interpreta a composição como representação de inocência e pureza. A escolha visual merece atenção porque infância, maternidade, família e transmissão da vida eram temas recorrentes nas discussões de classificação e seleção hereditária de pessoas da primeira metade do século XX.
Nessas capas históricas que estamos examinando, quando aparecem pessoas, são pessoas brancas.
- 1939: três pessoas brancas, jovens e sorridentes.
- 1950: um bebê branco, associado visualmente à inocência e à pureza.
- 1956 e 1960 (abaixo): paisagens e ambientes saudáveis, sem protagonismo de pessoas negras.Essa repetição reforça a observação da historiadora Karina Bellotti sobre o predomínio de pessoas brancas, jovens e magras nas capas de Vida e Saúde.O contraste editorial é significativo: em 1939, a CPB falava expressamente em “melhoria eugênica da raça”, enquanto suas capas apresentavam modelos predominantemente brancos de saúde, beleza e felicidade.

As capas de setembro de 1956 e maio de 1960 ampliavam esse imaginário para ambientes considerados saudáveis. A primeira apresentava a Praça Moscoso, em Vitória, Espírito Santo. A segunda mostrava uma paisagem rural fotografada pelo pastor adventista Mário Rasi. Cidade ajardinada, natureza, infância, juventude e família compunham, assim, uma representação editorial da vida ideal.

Essas imagens não constituem, isoladamente, uma defesa de esterilização forçada ou segregação racial. Sua importância está em revelar quais corpos e ambientes a revista escolhia reiteradamente para simbolizar saúde e vitalidade. Colocadas ao lado do editorial de 1939, ajudam a reconstruir a cultura visual de uma publicação que incorporou concepções de melhoramento humano ao seu discurso médico.
Bellotti também observou que a maior visibilidade de pessoas negras nas capas ocorreu em período posterior. Durante décadas, a representação predominante de saúde permaneceu associada a corpos brancos, jovens e magros. A investigação sobre a seleção hereditária de seres humanos na imprensa adventista precisa considerar essa persistência visual, inclusive as ausências que ela produziu.
A leitura dessas capas exige atenção à repetição, não à acusação fácil contra uma fotografia isolada. Uma família branca sorridente, uma criança de pele clara ou um jardim bem cuidado não são, por si, manifestos de segregação. O dado histórico relevante está na seleção reiterada de imagens e na assimetria de representação ao longo do tempo. Quem aparece como rosto universal da saúde? Quem ocupa o lugar da inocência, da juventude e da família exemplar? E quem quase não aparece quando a revista constrói visualmente sua promessa de vida melhor?
A própria materialidade das capas importa: são imagens feitas para atrair, convencer e fixar uma associação emocional antes mesmo que o leitor abra a revista. Em 1939, essa linguagem visual coexistia com um editorial que mencionava o aperfeiçoamento hereditário da raça. Não podemos transformar coexistência em prova de intenção racial específica para cada fotografia; podemos, porém, mostrar que a comunicação de saúde selecionava modelos humanos e que essa seleção merece ser confrontada com o vocabulário empregado pela publicação. A crítica não está em condenar uma criança retratada, mas em interrogar o padrão que uma instituição reiteradamente escolhia tornar visível.
Luanna Bach: a alimentação como disciplina do corpo e da alma
A investigação de Bellotti foi ampliada, em outra direção, pela historiadora Luanna Fernanda da Cruz Bach, autora da tese de doutorado Aquilo que corrompe o corpo tende a contaminar a alma: uma história da alimentação adventista no Brasil a partir do discurso da revista Vida e Saúde (1939–2000), defendida em 2024 na Universidade Federal do Paraná, sob orientação de Karina Bellotti.
Luanna examinou a alimentação como elemento de construção da identidade adventista, disciplina do corpo e formação de hábitos. Sua pesquisa demonstra que Vida e Saúde não era apenas um veículo de informações médicas. A publicação participava de um projeto de educação moral e religiosa no qual os hábitos alimentares eram associados ao domínio próprio, à saúde e à vida espiritual.
O estudo também permite compreender a amplitude e a continuidade do empreendimento editorial da CPB. Ao longo de décadas, a revista ofereceu modelos de comportamento, recomendações de alimentação e concepções sobre a relação entre corpo e alma. A mensagem de saúde tornava-se parte da formação cotidiana de seus leitores.
Entre os personagens ligados à história médica da publicação, destaca-se Galdino Vieira Nunes, médico adventista que exerceu funções de supervisão e participação editorial em diferentes períodos. A presença de médicos na estrutura da revista mostra como a autoridade científica e a orientação religiosa se combinavam no projeto editorial.
É nesse ambiente que a linguagem de seleção hereditária humana de 1939 deve ser compreendida. A revista não tratava a saúde como questão puramente técnica. Ela integrava a promoção da saúde a uma visão de vida, família, disciplina e responsabilidade moral.
A contribuição de Bach ajuda a entender por que a revista tinha alcance maior que o de um manual de hábitos saudáveis. Alimentação, autocontrole e cuidado corporal eram apresentados como práticas capazes de organizar a vida diária e expressar convicções morais. Nesse universo, o corpo não era somente um organismo a tratar, mas um espaço de disciplina e testemunho. Justamente por isso, as ideias sobre quais corpos seriam saudáveis, quais famílias deveriam servir de modelo e que herança seria desejável ganhavam relevância para além do consultório.
A aproximação entre cuidado e disciplina exige uma pergunta incômoda: em que momento uma pedagogia legítima de prevenção passa a avaliar pessoas pelo que supostamente transmitirão aos descendentes? A resposta não pode ser presumida para toda matéria da revista. Mas o editorial de 1939 mostra que o horizonte do aperfeiçoamento hereditário esteve explicitamente presente no projeto inaugural. A pesquisa sobre alimentação e vida espiritual permite situar essa linguagem numa publicação que buscava moldar comportamentos, e não apenas noticiar descobertas médicas.
Criacionismo e seleção hereditária humana: a contradição de uma igreja que defendia a criação divina
Uma das questões mais interessantes desta história é a convivência entre criacionismo e seleção hereditária de seres humanos. A doutrina adventista defendia a criação divina da humanidade e rejeitava aspectos centrais do evolucionismo darwiniano. Entretanto, sua imprensa incorporou uma linguagem de aperfeiçoamento racial que também circulava em movimentos influenciados por teorias de hereditariedade e seleção.
Francis Galton, associado à formulação moderna da seleção hereditária de seres humanos, desenvolveu suas propostas num ambiente intelectual marcado pelas discussões sobre evolução e hereditariedade. Mas a seleção hereditária de seres humanos não permaneceu restrita a pessoas que aceitavam a teoria da evolução. Suas ideias circularam entre médicos, educadores, nacionalistas, religiosos e reformadores sociais de diferentes orientações.
Isso explica como uma instituição criacionista podia rejeitar a evolução como explicação da origem humana e, simultaneamente, acolher conceitos de melhoramento hereditário. A crença na criação divina não impedia automaticamente a adoção de hierarquias raciais ou de recomendações sobre quais características deveriam ser transmitidas às futuras gerações.
A contradição teológica permanece. Se todos os seres humanos foram criados à imagem de Deus, quem pode determinar que determinadas linhagens são superiores, que certos casamentos deveriam ser evitados por razões raciais ou que a humanidade necessita de um projeto de aperfeiçoamento hereditário?
O problema não está em defender alimentação saudável, prevenção de doenças ou responsabilidade familiar. Está em transformar diferenças físicas, condições hereditárias ou origem racial em critérios para atribuir valor desigual à reprodução humana.
O conflito entre criacionismo e seleção humana não desaparece com a afirmação de que os movimentos de aperfeiçoamento hereditário eram variados e nem todos defendiam as mesmas medidas. A contradição está na passagem de uma antropologia da dignidade comum para uma hierarquia de descendências. Uma religião pode proclamar que toda pessoa traz a imagem de Deus e, na prática, aceitar recomendações que tratam certas uniões como indesejáveis ou certas condições como motivo para censurar a parentalidade. O problema não é terminológico; é a diferença entre a igualdade professada e o critério aplicado.
A pergunta torna-se ainda mais incisiva quando a autoridade profética é invocada. Se uma recomendação racial pode ser apresentada como direção divina, o fiel fica diante de uma tensão que a simples explicação sociológica não resolve. Podemos compreender que a autora viveu num ambiente atravessado por preconceitos, mas a reivindicação de autoridade espiritual obriga a examinar por que tais preconceitos puderam receber a forma de orientação religiosa. Uma crítica histórica séria não precisa negar a fé de ninguém; precisa exigir coerência entre a dignidade proclamada e as vidas efetivamente protegidas.
Da Alemanha aos Estados Unidos e ao Brasil
A pesquisa de Bellotti identificou a influência da revista adventista norte-americana Life and Health, publicada pela Review and Herald, sobre a congênere brasileira. Durante décadas, Vida e Saúde reproduziu artigos estrangeiros e adotou modelos de apresentação visual associados à imprensa adventista internacional.
Essa circulação demonstra que a mensagem adventista de saúde atravessava fronteiras, editoras, instituições médicas e redes de distribuição. A história brasileira, portanto, não pode ser interpretada como fenômeno inteiramente isolado.
Na Alemanha, encontramos publicações adventistas que dialogaram com a higiene racial do Terceiro Reich. Nos Estados Unidos, encontravam-se importantes referências da literatura de reforma de saúde e da circulação editorial adventista. No Brasil, a CPB incorporou expressamente o vocabulário do melhoramento eugênico da raça.
Essas conexões revelam um ambiente internacional no qual conceitos de saúde, hereditariedade e aperfeiçoamento humano podiam circular entre instituições religiosas e médicas. Não demonstram que todas as publicações seguiram uma única orientação ou que a CPB tenha recebido instruções diretas do regime nazista. Demonstram, porém, que o problema não pode ser explicado como uma anomalia exclusivamente alemã.
A circulação internacional de revistas e artigos demonstra a força de uma infraestrutura editorial capaz de transportar modelos de saúde, imagens de famílias exemplares e vocabulários médicos entre países. Essa rede não é, por si, prova de coordenação política com regimes autoritários. É, contudo, a condição material pela qual ideias se tornam familiares, ganham prestígio e passam a integrar o cotidiano dos leitores. Por isso, a análise das editoras e dos periódicos é tão importante quanto a biografia dos dirigentes.
O que buscamos não é uma linha reta imaginária que saia da pena de White, atravesse Berlim e termine em São Paulo. A história não funciona assim. Buscamos identificar pontos documentados de convergência e as instituições que lhes deram voz. A CPB tem responsabilidade por aquilo que publicou; os periódicos alemães, por seus próprios textos; e a tradição profética adventista, pelas recomendações que transmitiu e preservou. Essa distinção impede uma acusação sem provas e, ao mesmo tempo, impede que cada instituição se esconda atrás da complexidade das demais.
O problema chegou à Associação Geral
A responsabilidade institucional também entrou em discussão depois da Segunda Guerra Mundial. Em maio de 1948, autoridades do governo militar norte-americano em Berlim cobraram providências da Associação Geral dos Adventistas do Sétimo Dia relacionadas à desnazificação de dirigentes da denominação.
Roland Blaich examinou essa correspondência em seu estudo Religion under National Socialism: The Case of the German Adventist Church. O major J. C. Thompson, ligado à seção de assuntos religiosos do governo militar norte-americano, manifestou insatisfação com a demora em afastar dirigentes comprometidos politicamente com o regime nazista.
O episódio demonstra que as responsabilidades acumuladas durante o Terceiro Reich ultrapassaram o âmbito das administrações locais alemãs. A liderança mundial da denominação foi interpelada por autoridades encarregadas da desnazificação.
A correspondência de 1948 pertence a uma etapa posterior da história, mas ajuda a compreender que as aproximações ocorridas durante o nazismo não se encerraram automaticamente com a derrota militar da Alemanha. Permaneceram questões institucionais sobre dirigentes, responsabilidades e providências administrativas.
O pedido de providências vindo das autoridades de ocupação em 1948 expõe outra dimensão do problema: a responsabilidade não terminou quando as estruturas do regime nazista ruíram. A administração de uma igreja internacional precisou lidar com o passado de seus dirigentes e com exigências externas de responsabilização. O documento não resolve sozinho todas as questões sobre decisões da Associação Geral, mas demonstra que o tema havia alcançado um nível institucional que já não podia ser descrito como mera discussão acadêmica posterior.
É também por isso que devemos evitar uma memória seletiva, interessada apenas nas histórias de coragem religiosa durante a guerra. Elas podem existir e merecer exame; não substituem, porém, a investigação sobre acomodação, colaboração e permanência de dirigentes comprometidos com o regime. Uma tradição que reivindica compromisso com a verdade não deveria depender de uma narrativa sem conflitos para preservar sua identidade.

A derrota de Hitler não apagou a seleção hereditária humana da imprensa adventista
A Segunda Guerra Mundial terminou em 1945. O regime nazista foi derrotado e suas políticas de perseguição racial e esterilização compulsória passaram a integrar a história de seus crimes. Mas a derrota de Hitler não significou o desaparecimento imediato de todas as concepções de classificação e seleção hereditária de pessoas que circulavam internacionalmente havia décadas.
A pesquisa de Bellotti identifica a continuidade de uma abordagem higienista e de seleção hereditária humana na primeira fase de Vida e Saúde, que se estendeu até os anos 1960. Essa permanência mostra que a história brasileira não pode ser limitada aos anos de existência do Terceiro Reich.
Outro aspecto significativo aparece nas edições comemorativas da revista. Bellotti observou que, nas comemorações dos setenta anos, em 2008, foram recuperados textos antigos sobre alimentação e exercícios físicos, mas não o editorial inaugural de 1939. A historiadora levantou a possibilidade de que o conteúdo de seleção hereditária humana daquele texto tenha contribuído para sua ausência.
A ausência é um dado da comparação editorial; sua motivação permanece uma hipótese interpretativa. O contraste, entretanto, merece atenção. A memória comemorativa valorizou orientações antigas consideradas positivas, enquanto a declaração sobre melhoria eugênica da raça não recebeu o mesmo destaque. Essa expressão histórica designava a pretensão de aperfeiçoar hereditariamente a população, valorizando determinados traços humanos e desvalorizando outros, com consequências que podiam incluir restrições à reprodução.
A história institucional não pode ser reconstruída apenas a partir daquilo que uma denominação decide celebrar. Os documentos mais desconfortáveis também fazem parte de seu patrimônio histórico.
A continuidade de uma linguagem de aperfeiçoamento humano depois de 1945 revela um fato frequentemente esquecido: a derrota militar de um regime não extingue automaticamente os conceitos que o antecederam e circularam muito além de suas fronteiras. Ideias de hierarquização hereditária podiam continuar presentes em instituições, revistas e hábitos de pensamento, mesmo quando a referência ao nazismo se tornara moralmente intolerável. A questão brasileira exige precisamente essa atenção à longa duração.
A seleção da memória comemorativa é outro campo de investigação. Uma revista pode recuperar receitas, recomendações de exercícios e conselhos familiares de suas primeiras décadas e deixar de lado textos hoje constrangedores. Isso não prova, sem documentação adicional, uma decisão deliberada de ocultamento; revela, entretanto, a diferença entre celebrar uma trajetória e submetê-la a exame crítico. A história precisa ler também o que a comemoração não escolheu republicar.

“Povo marcado, povo feliz”: o cháragma e a marca da besta
Chegamos à ironia teológica que atravessa o título deste artigo. A Igreja Adventista do Sétimo Dia construiu uma parte fundamental de sua identidade religiosa sobre a advertência contra a marca da besta. Em Apocalipse 13:16–17, a palavra grega cháragma designa uma marca associada à autoridade e à submissão a um poder que condiciona a participação na vida econômica.
Na Antiguidade, marcas e inscrições podiam identificar propriedade, autoridade e pertencimento. A linguagem apocalíptica utiliza essa imagem para representar uma relação de submissão imposta por um poder opressor.
A canção Admirável Gado Novo, de Zé Ramalho, oferece uma metáfora cultural particularmente expressiva para essa reflexão. A imagem do povo marcado, disciplinado e aparentemente feliz com sua condição permite aproximar a crítica social da canção à pergunta teológica que os documentos adventistas provocam.
Não estamos afirmando que a seleção hereditária de seres humanos seja literalmente a marca da besta de Apocalipse 13. A conexão é uma analogia crítica. Sua força está no contraste entre a vigilância adventista contra símbolos de dominação e a presença, em sua própria literatura, de concepções que admitiam classificar a reprodução humana segundo características hereditárias e raciais.
A igreja que ensinava seus membros a temer a marca de um poder opressor também precisa explicar por que sua principal referência profética desaconselhou casamentos inter-raciais invocando a direção divina e por que sua editora apresentou a melhoria eugênica da raça como parte do progresso médico. Essa expressão histórica designava a pretensão de aperfeiçoar hereditariamente a população, valorizando determinados traços humanos e desvalorizando outros, com consequências que podiam incluir restrições à reprodução.
O rebanho de Deus é uma imagem bíblica de cuidado e proteção. Mas o rebanho submetido a critérios de seleção reprodutiva pertence a outra lógica. Quando seres humanos passam a ser avaliados conforme a qualidade atribuída à sua descendência, a metáfora pastoral aproxima-se perigosamente da linguagem do criador que seleciona animais.
A pergunta é inevitável: como uma comunidade tão preocupada em identificar a marca da besta nas instituições alheias pôde conviver com concepções de classificação e aperfeiçoamento racial em sua própria tradição?
A força da analogia com a marca não está em transformar um conceito médico do século XX numa interpretação literal do Apocalipse. Está em perguntar quem recebe o poder de classificar, marcar e condicionar a participação de outras pessoas na vida social. Uma igreja que desenvolveu uma leitura minuciosa dos símbolos de coerção religiosa precisa aceitar que seus próprios documentos sejam submetidos a perguntas igualmente rigorosas sobre autoridade, obediência e exclusão.
O contraste com a imagem do rebanho é deliberado. No discurso pastoral, o pastor cuida das ovelhas; na seleção zootécnica, o criador escolhe quais características deseja multiplicar. A metáfora se torna denúncia quando o cuidado com pessoas cede lugar à classificação de sua capacidade reprodutiva. A diferença entre essas duas imagens não é literária apenas: é uma diferença de poder, de dignidade e de liberdade. É por isso que a música de Zé Ramalho dialoga com a crítica teológica sem precisar ser convertida em prova documental.
As publicações brasileiras também acolheram ideias de seleção hereditária humana presentes no universo racial de Hitler
Uma conclusão importante emerge do conjunto documental: a eugenia na história adventista não foi exclusivamente alemã. A Casa Publicadora Brasileira apresentou favoravelmente o melhoramento eugênico da raça durante o período em que o regime nazista aplicava políticas coercitivas de seleção biológica.
O editorial brasileiro não demonstra adesão integral ao nacional-socialismo nem apoio específico às leis alemãs de esterilização compulsória. Demonstra algo historicamente significativo: uma editora denominacional incorporou ao seu discurso sanitário uma concepção de aperfeiçoamento racial que também integrava o universo ideológico da higiene racial nazista.
É precisamente essa convergência que merece denúncia. O fato de a seleção hereditária de seres humanos brasileira possuir trajetórias próprias, vinculadas ao higienismo e ao Estado Novo, não elimina a afinidade entre projetos que atribuíam à medicina a missão de aperfeiçoar biologicamente as populações.
Na Alemanha, determinados autores adventistas chegaram a apoiar políticas raciais coercitivas. No Brasil, a linguagem de seleção hereditária humana apareceu no programa editorial de uma revista institucional. As práticas não foram idênticas, mas pertenciam a uma história internacional de valorização do melhoramento hereditário humano.
O problema, portanto, não pode ser reduzido à pergunta sobre quais adventistas admiravam Hitler. A questão mais profunda é por que determinadas ideias que encontraram expressão extrema no nazismo também puderam receber acolhimento em publicações de uma denominação cristã.
A comparação com o universo nazista exige mais do que indignação; exige precisão naquilo que denunciamos. O Estado alemão executou um programa de esterilização compulsória e perseguição racial. A CPB publicou, em 1939, uma expressão favorável ao ideal de aperfeiçoamento hereditário da raça. Esses fatos não são idênticos e não devem ser confundidos. A denúncia torna-se mais forte, não mais fraca, quando respeitamos a diferença: o que precisamos explicar é por que a linguagem de seleção humana parecia aceitável no programa de uma editora cristã justamente quando suas possibilidades de violência estavam tão visíveis no cenário internacional.
O editorial brasileiro não é uma nota de rodapé irrelevante porque mostra a normalização de um vocabulário. E a normalização é uma forma de poder: coloca conceitos em circulação sem que o leitor seja convidado a discutir suas consequências para pessoas com deficiência, famílias racializadas ou indivíduos classificados como portadores de heranças indesejáveis. A pergunta à CPB não depende de provar uma adesão partidária ao nazismo. Depende do fato muito mais próximo e documentado de que ela escolheu apresentar essa ideia como parte do progresso da medicina.

A profetisa, a editora e a responsabilidade da igreja
O adventismo atribuiu a Ellen G. White uma posição excepcional em sua história religiosa. Seus escritos orientaram a educação, a alimentação, a saúde, a família e a organização da vida cotidiana de milhões de fiéis. Essa autoridade torna especialmente importante o exame de suas declarações sobre amalgamação, reprodução e casamento interracial.
Não basta responder que determinados preconceitos eram comuns no século XIX. A questão é compreender por que uma autora considerada portadora de orientação divina desaconselhou uniões matrimoniais entre brancos e negros e atribuiu ao Senhor a direção contrária a esses casamentos.
Da mesma maneira, não basta explicar que a eugenia era discutida por médicos brasileiros em 1939. A Casa Publicadora Brasileira escolheu incorporar a expressão “melhoria eugênica da raça” ao editorial inaugural de uma publicação institucional, sob responsabilidade de um pastor que ocupava posição relevante na imprensa denominacional. Essa expressão histórica designava a pretensão de aperfeiçoar hereditariamente a população, valorizando determinados traços humanos e desvalorizando outros, com consequências que podiam incluir restrições à reprodução.
Também não basta apresentar a aproximação de adventistas alemães com a higiene racial nazista como simples interesse comum pela alimentação saudável. A documentação de Roland Blaich demonstra que, em determinados ambientes, a relação alcançou discussões sobre política racial e reprodução humana.
Esses episódios não constituem uma cadeia causal automática. Ellen White não escreveu a legislação nazista; a CPB não foi identificada pela pesquisa de Bellotti como participante operacional do programa alemão de esterilização; e as publicações alemãs precisam ser examinadas segundo seus autores e circunstâncias próprias. Mas os fatos centrais permanecem: a autoridade profética adventista desaconselhou casamentos inter-raciais, a imprensa brasileira acolheu expressamente o melhoramento eugênico da raça e setores adventistas alemães aproximaram a reforma de saúde da higiene racial do Terceiro Reich.
É fácil atribuir a responsabilidade histórica apenas a indivíduos mortos e transformar a instituição em espectadora de seu próprio passado. Mas editoras não são abstrações sem decisões: possuem dirigentes, critérios, catálogos, projetos de divulgação e leitores. Quando uma publicação institucional apresenta determinado ideal como legítimo, participa de sua circulação pública. A análise deve distinguir responsabilidade editorial, autoridade doutrinária e participação operacional em políticas estatais, sem permitir que a ausência desta última apague as duas primeiras.
Também é preciso resistir à defesa segundo a qual a igreja apenas repetiu as ideias de seu tempo. Repetir não é um ato neutro quando se dispõe de autoridade religiosa e de meios de comunicação. A pergunta não é se Waldvogel inventou a classificação hereditária das populações; evidentemente, não. É por que uma instituição que anunciava uma mensagem universal de salvação julgou apropriado oferecer essa classificação aos leitores como sinal de progresso sanitário.
Conclusão: quem marcou o rebanho?
A Igreja Adventista ensinou gerações de fiéis a examinar cuidadosamente os sinais de submissão ao poder político e religioso. Sua tradição profética apresentou a marca da besta como advertência contra a coerção e a falsa autoridade. Mas essa vigilância histórica precisa alcançar também os documentos produzidos pela própria denominação.
Antes de Hitler, Ellen G. White já havia publicado declarações sobre amalgamação, descendência, condições hereditárias e separação matrimonial entre brancos e negros. Durante o nazismo, publicações adventistas alemãs aproximaram a reforma de saúde da higiene racial. No Brasil, em janeiro de 1939, a Casa Publicadora Brasileira apresentou a melhoria eugênica da raça como preocupação legítima da medicina moderna. E a historiografia identifica a continuidade de concepções higienistas e eugênicas na revista brasileira durante décadas posteriores. Essa expressão histórica designava a pretensão de aperfeiçoar hereditariamente a população, valorizando determinados traços humanos e desvalorizando outros, com consequências que podiam incluir restrições à reprodução.
A questão não é simplesmente saber se os adventistas apoiaram Hitler. É compreender como ideias sobre seleção, pureza, reprodução e aperfeiçoamento humano puderam adquirir legitimidade numa tradição religiosa que proclamava a criação divina e a dignidade dos seres humanos.
Uma pessoa com deficiência não é um erro hereditário. Uma família interracial não é um problema que a religião deva evitar. Uma criança não possui maior ou menor dignidade conforme a origem racial de seus pais. E nenhuma instituição religiosa deveria transformar critérios de qualidade biológica em medida do valor humano.
A expressão Vida de Gado resume a contradição. Quando a reprodução humana passa a ser tratada segundo critérios de seleção de características desejáveis, o cuidado com a saúde pode ceder lugar ao controle da descendência. Quando essa lógica recebe legitimidade religiosa, a questão deixa de ser apenas científica ou política e torna-se também teológica.
O adventismo construiu sua identidade denunciando a marca de um poder opressor. Sua própria história, entretanto, exige outra pergunta: quem autorizou que critérios de raça e hereditariedade fossem utilizados para julgar a formação de famílias e o aperfeiçoamento da humanidade?
Vida de gado. Povo marcado, povo feliz. A ironia é musical; a contradição é teológica; os documentos são históricos.
Ao final desta investigação, não estamos diante de uma única frase infeliz nem de uma tentativa de reduzir toda a história adventista a um crime de Estado que ela não cometeu. Estamos diante de documentos que exigem respostas distintas e convergentes: uma autoridade profética que aconselhou a separação matrimonial entre brancos e negros; uma tradição de juízos religiosos sobre a reprodução; periódicos alemães que se aproximaram de políticas de higiene racial; e uma editora brasileira que incorporou ao lançamento de sua revista o ideal de melhorar hereditariamente a população humana. Cada documento tem seu contexto. Nenhum deles deve ser apagado pelo contexto dos outros.
A denúncia é tanto mais necessária porque a linguagem da saúde pode ser uma linguagem de cuidado genuíno. Alimentar melhor uma criança, prevenir doenças, ampliar o acesso a tratamentos e proteger pessoas vulneráveis são compromissos valiosos. Justamente por isso, precisamos denunciar o momento em que essa linguagem é desviada para classificar quem deveria nascer, quem deveria casar-se ou quais descendências seriam preferíveis. A dignidade humana não depende de desempenho biológico, origem racial, aparência corporal ou aprovação de uma autoridade religiosa.
Documentos e referências
Ellen G. White. Spiritual Gifts, volume 3, 1864, páginas 64 e 75. Declarações sobre amalgamação e determinadas raças humanas.
Ellen G. White. The Spirit of Prophecy, volume 1, 1870. Republicação das declarações sobre amalgamação.
Ellen G. White. Manuscrito 7, 3 de fevereiro de 1896, The Treatment of the Colored Race. Documento sobre preconceito racial e casamentos inter-raciais. https://text.egwwritings.org/read/14061.5535001
Ellen G. White. Carta 36, 7 de agosto de 1912. Correspondência sobre casamentos inter-raciais. https://m.egwwritings.org/pt/book/10786.1
Ellen G. White. Mensagens Escolhidas, volume 2, páginas 343–344. Edição da Casa Publicadora Brasileira. https://ellenwhite.cpb.com.br/livro/index/28/343/344/conselho-quanto-ao-casamento-misto-de-brancos-e-de-cor
Luiz Waldvogel. “Nosso Programa”. Vida e Saúde, Casa Publicadora Brasileira, janeiro de 1939, página 3.
Karina Kosicki Bellotti. “Um médico em forma de revista: Aspectos constitutivos da revista adventista Vida e Saúde (1939–2019)”. Estudos de Religião, volume 34, número 2, 2020, páginas 489–519. Especialmente páginas 494, 500–502 e 516.
Karina Kosicki Bellotti. “‘Oito décadas de saúde para diferentes gerações’: aspectos históricos da revista Vida e Saúde no Brasil (1939–2019)”. Em O Adventismo no Brasil, 2023.
Luanna Fernanda da Cruz Bach. Aquilo que corrompe o corpo tende a contaminar a alma: uma história da alimentação adventista no Brasil a partir do discurso da revista Vida e Saúde (1939–2000). Tese de doutorado, Universidade Federal do Paraná, 2024.
Roland Blaich. “Health Reform and Race Hygiene: Adventists and the Biomedical Vision of the Third Reich”. Church History, volume 65, número 3, 1996, páginas 425–440.
Roland Blaich. “Nazi Race Hygiene and the Adventists”. Spectrum, setembro de 1996.
Roland Blaich. “Religion under National Socialism: The Case of the German Adventist Church”. Central European History.
United States Holocaust Memorial Museum. “The Biological State: Nazi Racial Hygiene, 1933–1939”. Documentação histórica sobre esterilização compulsória e política racial nazista.
Apocalipse 13:16–17; Gênesis 1:26–27.






