
Em julho de 2025, um destacado general americano entregou uma moeda comemorativa do Pentágono ao convidado Ted Wilson num evento da cúpula militar adventista que, de fato, comanda a Igreja, segundo nossa investigação.
Sete meses depois, já sob a presidência de Erton Köhler, o mesmo general assumiu uma função na administração mundial adventista, ao lado de Ivan Omaña e Mario Ceballos. A cerimônia e os documentos oficiais revelam uma continuidade de poder que atravessa presidentes e subordina cada vez mais a direção religiosa aos integrantes do universo militar.

Primeiro encontramos os documentos. Depois encontramos os nomes. Agora encontramos uma cerimônia que parece ter sido preparada para ilustrar tudo aquilo que estamos denunciando. Em 2 de julho de 2025, durante o encerramento do quarto Congresso Mundial de Capelania Adventista, em St. Louis, nos Estados Unidos, o então presidente mundial da Igreja Adventista do Sétimo Dia, Ted N. C. Wilson, recebeu uma homenagem bastante peculiar para o dirigente máximo de uma denominação que nasceu defendendo a não combatência: uma moeda comemorativa apresentada pela própria imprensa adventista como cunhada pelo Pentágono. O responsável pela apresentação foi Andrew R. Harewood, general de brigada aposentado do Exército norte-americano, antigo vice-chefe dos capelães da Reserva e veterano de funções estratégicas dentro do próprio Pentágono. A cena foi registrada e divulgada pela Divisão Interamericana, sem constrangimento, como parte das celebrações de uma organização religiosa que reúne capelães militares de diferentes países.
Se tivéssemos encontrado apenas essa fotografia, poderíamos tratá-la como uma curiosidade. Um presidente religioso recebendo uma lembrança militar durante uma cerimônia de confraternização. Mas sete meses depois o mesmo general apareceria oficialmente na direção mundial adventista, trabalhando ao lado de dois personagens que já conhecemos muito bem: o venezuelano Ivan H. Omaña, diretor da World Service Organization, e Mario E. Ceballos, antigo Commander da Reserva da Marinha dos Estados Unidos e ex-diretor mundial dos Ministérios Adventistas de Capelania. A moeda, portanto, não nos interessa como objeto decorativo. Ela marca publicamente o encontro de personagens cuja relação institucional continuaria depois da cerimônia e atravessaria até mesmo a mudança de presidente da Associação Geral.
Em nossa investigação anterior, publicada sob o título “Igreja Militar Adventista: A verdadeira IASD que você nem imagina que existe, mas está subordinado a ela. São eles que mandam!”, reconstruímos a história da estrutura militar-adventista desde a War Service Commission até a Adventist Military Church. Demonstramos que a denominação possui um escritório oficial de relações militares, uma rede internacional de acompanhamento de adventistas no serviço governamental, programas de treinamento com hierarquias próprias e uma organização eclesiástica destinada a membros vinculados à presença militar e governamental norte-americana no exterior. Não precisamos repetir aquela genealogia. O que precisamos compreender agora é o significado de um general que, depois de exercer responsabilidades no Pentágono, entrega uma homenagem ao presidente mundial da IASD e, meses depois, passa a integrar a direção da estrutura militar-adventista que já investigávamos.

O PRESENTE QUE VEIO DO PENTÁGONO
A reportagem oficial publicada em 4 de julho de 2025 pela Divisão Interamericana tem um título aparentemente inofensivo: “Global Chaplaincy Congress Closes With a Call to Christlike Humility and Love”. Trata-se de uma notícia sobre humildade, serviço cristão e celebração do ministério de capelania. Mas, no meio da descrição do banquete de encerramento, encontramos uma passagem que merece ser lida dentro da história institucional que já documentamos. Depois do discurso de Ted Wilson, Ivan Omaña entregou ao presidente mundial uma escultura de cristal representando um aperto de mãos. Em seguida, capelães militares fizeram a apresentação de uma moeda comemorativa identificada como produzida pelo Pentágono. O general Andrew Harewood participou diretamente dessa homenagem.

A publicação apresenta uma fotografia de Ted Wilson cumprimentando Harewood, com o capitão John R. Logan, capelão da Marinha norte-americana, acompanhando a cena. É importante observar o que a fotografia efetivamente mostra: o cumprimento entre o presidente mundial e o general, antes da apresentação especial. A imagem não registra necessariamente o instante em que a moeda passa de uma mão para outra. A entrega é descrita no texto da reportagem.
Também não encontramos um documento independente do Departamento de Defesa explicando a origem administrativa da moeda ou atribuindo à homenagem qualquer significado oficial de natureza política. O que está documentado é que a imprensa adventista a apresentou como moeda comemorativa do Pentágono e registrou sua entrega durante uma solenidade da própria Igreja. Isso já é suficiente para nossa análise. O símbolo de uma das instituições militares mais poderosas do mundo foi apresentado ao presidente de uma denominação religiosa por um general americano, numa cerimônia organizada por dirigentes adventistas e celebrada como expressão de reconhecimento ao trabalho dos capelães.
O contraste com a imagem conhecida pelo membro comum é evidente. O adventista que frequenta a igreja aos sábados talvez imagine que o relacionamento de sua denominação com militares se limite a oferecer assistência espiritual a soldados que compartilham sua fé. Naquele salão de St. Louis, porém, encontramos uma linguagem de reconhecimento institucional que pertence a outro universo. Não era um soldado procurando um pastor. Era um general homenageando o presidente mundial, diante de uma assembleia de capelães, dentro de um congresso internacional da Igreja.

QUEM ERA O GENERAL QUE CUMPRIMENTOU TED WILSON?
Andrew R. Harewood não chegou àquela cerimônia como um simples pastor aposentado que, por acaso, havia servido no Exército. Sua trajetória profissional incluiu o posto de general de brigada da Reserva do Exército dos Estados Unidos e a função de vice-chefe dos capelães da Reserva. A biografia publicada pelos próprios Ministérios Adventistas de Capelania registra sua atuação no Escritório do Chefe dos Capelães, no Pentágono, como diretor de Estratégia, Planos, Políticas, Recursos e Preparação Espiritual de Militares e Familiares, área conhecida pela sigla SPPRS. São responsabilidades administrativas que ultrapassam amplamente a imagem tradicional de um ministro religioso dedicado exclusivamente a orações e aconselhamento.
O currículo inclui planejamento estratégico, políticas institucionais, recursos, preparação de pessoal, relações governamentais, doutrina, acomodação religiosa e atividades associadas à mobilização e à organização do serviço de capelania militar. Harewood também exerceu responsabilidades relacionadas à supervisão de aproximadamente setecentos capelães da Reserva do Exército, vinculados ao atendimento de uma população militar de cerca de 190 mil reservistas. Esses dados não foram levantados por adversários da Igreja Adventista. Fazem parte da apresentação pública de sua carreira, divulgada por instituições militares e pela própria denominação.
É aqui que a palavra capelão precisa ser examinada com atenção. O público religioso costuma associá-la a assistência espiritual, visitas hospitalares, aconselhamento e cerimônias. Essas atividades realmente pertencem ao ministério de capelania. Mas um capelão que alcança o generalato e assume responsabilidades de estratégia, planejamento e políticas no Pentágono não pode ser compreendido apenas pela imagem de um pastor que ocasionalmente acompanha soldados. Trata-se também de um oficial formado e promovido dentro de uma estrutura militar, habituado a suas normas, procedimentos, hierarquias e responsabilidades administrativas.
Essa é precisamente a dimensão que nossa investigação anterior identificou como característica da outra Igreja Adventista. A palavra religiosa permanece na superfície, enquanto por trás dela encontramos profissionais que acumularam experiências em instituições militares e que posteriormente ocupam cargos de direção denominacional. A questão não é negar a fé pessoal desses profissionais. É reconhecer que sua atuação não se esgota na dimensão pastoral pela qual costumam ser apresentados aos membros.

DOIS DIAS DEPOIS, TED WILSON DEIXOU A PRESIDÊNCIA
Há um detalhe cronológico que transforma a homenagem de St. Louis num episódio ainda mais interessante. A moeda foi entregue a Ted Wilson em 2 de julho de 2025. Dois dias depois, em 4 de julho, a Assembleia da Associação Geral elegeu Erton Köhler para a presidência mundial da Igreja Adventista. Wilson deixou, portanto, a chefia administrativa da denominação logo depois da cerimônia em que recebera a homenagem apresentada pelo general Harewood.
Não existe, nos documentos que examinamos, demonstração de que a entrega da moeda estivesse relacionada à eleição presidencial ou de que Harewood tenha participado de qualquer articulação envolvendo a sucessão. Não precisamos sugerir isso. O que importa é a continuidade institucional. A presidência mudou. O departamento de capelania permaneceu. Ivan Omaña continuou à frente da estrutura mundial. Mario Ceballos permaneceu associado ao Medical Cadet Corps. E, em fevereiro de 2026, Andrew Harewood assumiu uma função de direção nos Ministérios Adventistas de Capelania, já durante a presidência de Erton Köhler.
Essa sequência nos obriga a olhar para além da figura individual de Ted Wilson. Durante anos, muitas de nossas críticas concentraram-se nas decisões e relações públicas de determinados presidentes da Associação Geral. A documentação sobre a estrutura militar-adventista, entretanto, mostra que seus programas, dirigentes e relações profissionais atravessam sucessões administrativas. A homenagem de 2025 ocorreu sob Wilson. A nomeação de 2026 ocorreu sob Köhler. O mesmo universo institucional continuou funcionando.
Não sabemos, a partir das fontes disponíveis, quem propôs inicialmente a nomeação de Harewood ou quais foram todas as etapas administrativas de sua aprovação. Mas sabemos que o resultado foi sua integração à direção mundial da capelania adventista. O antigo general não ficou apenas na fotografia do congresso. Passou a constar do organograma oficial.
SETE MESES DEPOIS, O GENERAL ESTAVA DENTRO DA ASSOCIAÇÃO GERAL
A página oficial de liderança da World Service Organization permite acompanhar o desdobramento. Ivan H. Omaña aparece na direção mundial. Andrew R. Harewood integra a liderança como diretor-assistente. Mario E. Ceballos aparece como MCC Executive Officer, ou oficial executivo do Medical Cadet Corps, prestando apoio aos dois dirigentes. Temos, portanto, uma estrutura formal na qual um pastor venezuelano ocupa a direção, um general americano aposentado integra a direção-assistente e um antigo Commander da Marinha americana permanece responsável por funções executivas ligadas aos cadetes médicos.
Esse é o ponto em que a fotografia de St. Louis adquire novo significado. Em julho de 2025, Harewood aparece diante de Ted Wilson como representante de uma trajetória militar de alto nível, participando da apresentação de uma moeda comemorativa do Pentágono. Em fevereiro de 2026, já não estamos observando apenas uma homenagem. Encontramos o mesmo homem oficialmente incorporado à administração mundial adventista. A passagem do universo militar para a direção denominacional não é uma interpretação nossa. É uma sequência biográfica e administrativa publicada pela própria Igreja.
Precisamos, naturalmente, distinguir essa passagem de uma transferência de comando determinada pelo Exército americano. Harewood ingressou na administração denominacional depois de sua carreira militar; não encontramos prova de que o Pentágono o tenha designado para o cargo ou de que continue a exercer autoridade militar sobre a Igreja. Mas a ausência dessa prova não elimina o fenômeno que estamos examinando: uma organização religiosa escolheu para sua direção mundial um profissional cuja carreira incluiu funções estratégicas de alto nível nas Forças Armadas dos Estados Unidos.
É uma diferença importante. Não precisamos imaginar ordens secretas chegando de Washington para demonstrar a proximidade institucional. A própria denominação publicou o currículo, anunciou a nomeação e apresentou o dirigente. A presença de antigos militares na administração adventista é um fato verificável. A hipótese de que esses profissionais exerçam influência mais ampla sobre decisões e políticas denominacionais precisa ser examinada através de suas atribuições, de seus atos administrativos e dos mecanismos de supervisão existentes.
O VENEZUELANO, O GENERAL E O COMMANDER
Os três nomes que aparecem na direção da WSO não são desconhecidos dos leitores de nossa investigação. Ivan H. Omaña nasceu na Venezuela, pertence a uma família historicamente ligada ao adventismo daquele país e construiu sua carreira no pastorado e na capelania antes de assumir a direção mundial. Mario E. Ceballos também possui raízes venezuelanas profundas e serviu durante 32 anos nas Forças Armadas dos Estados Unidos, entre serviço ativo e reserva, alcançando a patente de Commander. Andrew R. Harewood, por sua vez, chegou ao posto de general de brigada e exerceu responsabilidades no sistema superior de capelania militar norte-americano.
As trajetórias de Ceballos e Omaña, inclusive sua ligação com o desenvolvimento do Medical Cadet Corps na Venezuela, já foram examinadas em nossos artigos anteriores. O dado novo não é sua origem venezuelana. É a configuração administrativa que se consolidou com a entrada de Harewood. Temos agora, reunidos oficialmente na direção da WSO, dois personagens ligados à história adventista venezuelana e um general americano cuja experiência inclui o Pentágono. Ceballos, além disso, continua associado ao programa mundial de cadetes cuja adaptação venezuelana recebeu sua participação técnica.
Essa composição é particularmente significativa para nossa investigação porque reúne experiências institucionais diferentes numa mesma estrutura. Omaña representa a direção denominacional e a continuidade pastoral. Ceballos reúne experiência ministerial, administração adventista e carreira efetiva na Marinha americana. Harewood acrescenta a experiência de comando e planejamento em escalões superiores do Exército dos Estados Unidos. A denominação apresenta essas trajetórias como qualificações para dirigir seus programas de capelania e serviço. Nós perguntamos que tipo de cultura administrativa resulta da reunião desses profissionais e quais consequências essa cultura produz para a identidade religiosa da organização.
Na Igreja conhecida pelos membros, os dirigentes costumam ser apresentados como pastores, administradores, evangelistas ou teólogos. Na estrutura que estamos investigando, os currículos incluem também Commander, brigadier general, deputy chief of chaplains, military relations, executive officer e commanding officer. A mudança de vocabulário não é superficial. Ela revela a convivência de duas culturas institucionais dentro da mesma denominação, uma organizada principalmente em torno da vida congregacional e outra habituada a interagir com sistemas militares e governamentais.

EVERETT DICK: O HOMEM QUE LEVOU A FORMAÇÃO MILITAR ADVENTISTA ATÉ CUBA
Para compreender o que aconteceu no Colegio de las Antillas, precisamos recuperar um personagem que já apresentamos em nossa investigação anterior: Everett Newfon Dick, professor de História do Union College, veterano da Primeira Guerra Mundial e fundador do Medical Cadet Corps adventista. Foi ele quem, em 1934, começou a organizar jovens da denominação para receber treinamento de ordem unida, disciplina, primeiros socorros e medicina de campo, preparando-os antecipadamente para o serviço militar não combatente. O programa nasceu nos Estados Unidos, mas não permaneceu restrito às instituições educacionais norte-americanas. Sob o reconhecimento e a orientação da administração adventista, transformou-se numa iniciativa internacional, alcançando países da América Latina e do Caribe.
Dick não era um militar profissional que ocasionalmente colaborava com uma igreja. Era um educador adventista que havia conhecido a experiência da guerra e defendia a preparação antecipada dos jovens da denominação para atuar dentro de sua estrutura sem necessariamente empunhar armas. Sua iniciativa foi incorporada oficialmente pela Associação Geral em 1939. Nos anos seguintes, o programa desenvolveu relações com autoridades militares norte-americanas e adotou procedimentos de treinamento que procuravam acompanhar os padrões utilizados pelas Forças Armadas. Em 1941, Dick participou de atividades de orientação no ambiente militar de Fort Leavenworth, no Kansas, ampliando sua familiaridade com métodos de formação e organização militar.
O detalhe que torna sua trajetória indispensável à nossa investigação cubana é que Everett Dick esteve pessoalmente no Colegio de las Antillas durante a primeira semana do acampamento de dezembro de 1951. Portanto, não estamos diante de uma experiência isolada, organizada por professores cubanos que resolveram imitar soldados americanos. O fundador do Medical Cadet Corps participou diretamente daquela iniciativa, na qual 104 jovens receberam diplomas após um programa de preparação médica e disciplina militarizada. A presença de Dick estabelece uma ligação concreta entre o projeto originalmente desenvolvido no Union College e sua aplicação no território cubano.
O relato contemporâneo publicado na revista The Youth’s Instructor, em 22 de julho de 1952, registra a organização do acampamento, os responsáveis pelo treinamento, a participação de instrutores da Cruz Vermelha cubana e a presença de representantes do departamento médico do Exército de Cuba. O documento pode ser consultado nos Arquivos da Associação Geral, The Youth’s Instructor, 22 de julho de 1952. A história de Everett Dick também está documentada na Encyclopedia of Seventh-day Adventists.
Não devemos confundir o título de coronel utilizado por Dick no ambiente do Medical Cadet Corps com uma patente efetiva de coronel do Exército dos Estados Unidos. Era uma designação interna do programa adventista. Mas essa distinção torna o fenômeno ainda mais interessante: a própria organização religiosa havia criado um sistema de cargos, comandos e hierarquias inspirado no universo militar, atribuindo a seus dirigentes títulos correspondentes aos de oficiais. Dick foi um dos principais responsáveis pela implantação e expansão dessa cultura dentro da denominação.
Agora podemos compreender melhor a sequência histórica. Em 1934, Everett Dick começou a formar cadetes adventistas nos Estados Unidos. Em 1939, a Associação Geral adotou oficialmente o programa. Em 1951, seu fundador participou do treinamento de 104 jovens no Colegio de las Antillas, em Cuba. Sete anos depois, durante a batalha de Santa Clara, a mesma instituição educacional adventista forneceu alimentos, materiais e assistência às forças revolucionárias. Ainda não demonstramos que os 104 cadetes de 1951 fossem os mesmos estudantes envolvidos no socorro de 1958. O que está documentado é a continuidade institucional: uma escola que havia recebido formação militar-adventista tornou-se, posteriormente, um centro de apoio material em circunstâncias reais de guerra.
Everett Dick é, portanto, muito mais do que uma referência histórica distante. Ele representa o elo entre a preparação militar-adventista desenvolvida nos Estados Unidos e sua implantação em Cuba. Quando chegamos a Mario Ceballos, Ivan Omaña e Andrew Harewood, encontramos os dirigentes contemporâneos de uma tradição institucional cuja presença internacional já podia ser observada no Colegio de las Antillas, muito antes da Revolução Cubana.

LAS ANTILLAS: O COLÉGIO QUE TREINOU 104 CADETES E DEPOIS SOCORREU OS REVOLUCIONÁRIOS
Mas seria um erro imaginar que essa outra Igreja Adventista, com seus oficiais, comandantes, regulamentos e relações militares, seja uma invenção recente, surgida apenas quando antigos oficiais americanos passaram a ocupar cargos na Associação Geral. Muito antes da moeda do Pentágono entregue a Ted Wilson, muito antes de Andrew Harewood, Mario Ceballos e Ivan Omaña, encontramos uma experiência que ajuda a compreender como essa estrutura podia funcionar quando a guerra deixava de ser uma possibilidade teórica e se transformava numa realidade concreta. Precisamos voltar a Cuba, ao Colegio de las Antillas, em Santa Clara, onde, no início da década de 1950, a denominação treinou jovens adventistas segundo uma organização militarizada e, poucos anos depois, diretores, professores e estudantes prestaram auxílio material às forças revolucionárias que combatiam a ditadura de Fulgencio Batista.
Em dezembro de 1951, durante as férias de Natal, o Colegio de las Antillas recebeu um acampamento do Medical Cadet Corps, o Corpo de Cadetes Médicos Adventistas. Ao final do treinamento, 104 jovens receberam seus diplomas. Não estamos falando de uma pequena classe de primeiros socorros improvisada por professores entusiasmados. O programa possuía estrutura de comando, oficiais, instrutores, exercícios de campo, uniformes, disciplina e procedimentos inspirados no ambiente militar. Os secretários dos Missionários Voluntários das duas associações cubanas e o próprio presidente do colégio participaram da organização. A. J. Stewart atuou como capitão; F. G. Drachenberg e C. R. Chavez, como tenentes. Entre os instrutores estavam profissionais ligados à Cruz Vermelha cubana, e o programa recebeu a participação de Everett N. Dick, fundador do Medical Cadet Corps, durante a primeira semana.
A documentação não deixa dúvidas sobre a natureza organizada desse treinamento. O relato contemporâneo de V. Schoen, intitulado “Medical Cadets in the Antillian Union Mission”, publicado na revista The Youth’s Instructor de 22 de julho de 1952, registra a presença de autoridades da Cruz Vermelha e de representantes do departamento médico do Exército cubano. Também informa que a direção adventista havia estabelecido contatos favoráveis com autoridades médicas militares de países da região, interessadas na preparação daqueles jovens para situações de emergência. A fonte original encontra-se preservada nos Arquivos da Associação Geral, The Youth’s Instructor, volume 100, número 30, página 11.
As fotografias históricas que já publicamos na série “GUERRILHEIROS J.A. — Aprendizes de Guerra” completam o quadro. Vemos jovens uniformizados em formação, unidades marchando, guarda de honra, tambores, exercícios com macas e demonstrações de transporte de feridos. Há inclusive registros de cerimônias religiosas realizadas naquele ambiente militarizado. O mesmo campus que preparava pastores, professores e missionários abrigava jovens treinados para obedecer a comandos, trabalhar em unidades e prestar assistência em condições semelhantes às encontradas numa guerra.
Esse detalhe é decisivo: o treinamento ocorreu em 1951, sete anos antes da batalha de Santa Clara. Fidel Castro ainda não havia atacado o quartel Moncada. Che Guevara ainda não havia desembarcado do Granma. A guerrilha da Sierra Maestra ainda não havia colocado a Revolução Cubana no centro das atenções internacionais. Mas a Igreja Adventista já havia preparado, naquele colégio, uma geração de jovens para atuar de maneira organizada em situações de emergência e prestar assistência médica a pessoas feridas em ambientes de conflito. A preparação existia antes da guerra revolucionária. Não foi inventada depois dela.
1958: QUANDO A GUERRA CHEGOU AO MESMO COLÉGIO
Na última semana de dezembro de 1958, o cenário havia mudado radicalmente. Santa Clara tornou-se um dos centros decisivos da ofensiva revolucionária comandada por Ernesto Che Guevara. As estradas estavam bloqueadas, pontes haviam sido destruídas, o transporte era interrompido e estudantes do Colegio de las Antillas permaneciam no campus porque já não conseguiam retornar às suas casas. Aquela instituição, que sete anos antes recebera 104 cadetes médicos para exercícios de formação e socorro, encontrava-se agora cercada por uma guerra verdadeira, com homens armados, feridos, veículos militares e necessidades imediatas de alimentação, transporte e assistência.
A administração do colégio estava sob a responsabilidade de Walton J. Brown. Os relatos preservados pela própria historiografia adventista descrevem como a instituição, seus dirigentes, professores e alunos acabaram envolvidos nos acontecimentos. Instalações e recursos foram utilizados durante a presença das forças rebeldes. Veículos revolucionários permaneceram na propriedade. Alimentos foram preparados e distribuídos. Médicos e enfermeiros receberam assistência, e materiais como lençóis, travesseiros e bandagens foram disponibilizados para o atendimento de feridos. Estudantes com conhecimentos de primeiros socorros participaram dos esforços de assistência. O presidente do colégio chegou a conversar pessoalmente com Che Guevara durante aqueles dias.
Não estamos reconstruindo esse episódio apenas a partir de memórias favoráveis aos revolucionários. A própria Encyclopedia of Seventh-day Adventists, no verbete “Antillian College, Cuba (1940–1967)”, reconhece que o colégio prestou ajuda às tropas rebeldes durante os acontecimentos de dezembro de 1958 e janeiro de 1959. O relato registra ainda que um dos homens beneficiados pela assistência de professores e estudantes tornou-se posteriormente governador da província de Las Villas e realizou uma visita oficial ao colégio para agradecer. A relação não terminou simplesmente quando os tiros cessaram. Os revolucionários vitoriosos conservaram a memória do apoio recebido.
Também seria incorreto reduzir essa participação à imagem de uma escola inteiramente convertida em quartel revolucionário por decisão ideológica de todos os seus integrantes. A documentação descreve uma instituição envolvida numa emergência militar, procurando preservar vidas, atender feridos e administrar a presença de forças armadas em seu território. Mas seria igualmente insuficiente apagar o significado operacional dessa assistência. Alimentação, transporte, abrigo, atendimento médico e fornecimento de materiais não são detalhes secundários numa guerra. São recursos necessários à sobrevivência e à continuidade das operações de qualquer força em combate. A instituição adventista colocou parte de sua capacidade material e humana a serviço das necessidades imediatas dos homens que lutavam pela tomada de Santa Clara.
OS 104 CADETES E OS HOMENS DE CHE: A CONEXÃO QUE PRECISA SER EXAMINADA
É justamente a proximidade entre esses dois acontecimentos que torna o Colegio de las Antillas tão importante para nossa investigação. Em 1951, encontramos uma instituição religiosa preparando jovens uniformizados para atuar organizadamente em situações de emergência e conflito. Em 1958, encontramos a mesma instituição fornecendo assistência material e humana a uma força revolucionária envolvida numa batalha real. O cenário mudou; a capacidade institucional de organização, atendimento e mobilização permaneceu disponível.
Não possuímos, até agora, uma relação nominal que permita identificar quais dos 104 jovens diplomados em 1951 estavam presentes no campus durante a batalha de dezembro de 1958. Portanto, não podemos afirmar que aqueles mesmos cadetes, individualmente, atenderam os feridos de Che Guevara. A conexão documental que podemos estabelecer é institucional e cronológica: o colégio havia sediado treinamento militarizado de cadetes médicos e, sete anos depois, participou efetivamente de uma operação de socorro e apoio material durante a guerra revolucionária. Essa continuidade merece ser investigada sem confundir a experiência da instituição com a trajetória pessoal de cada participante.
O fenômeno é suficientemente significativo mesmo sem essa identificação individual. A denominação possuía, em Cuba, uma estrutura educacional habituada a organizar pessoas, treinar jovens, ensinar primeiros socorros, trabalhar com unidades e manter contatos com autoridades médicas militares. Quando a guerra chegou a Santa Clara, o colégio demonstrou capacidade de mobilizar recursos e responder à emergência. A questão histórica é compreender até que ponto essa experiência anterior facilitou a atuação posterior, quais professores e estudantes possuíam formação específica e como a administração denominacional avaliou o papel desempenhado pela instituição.
Existe ainda um contraste que merece ser registrado. Em 1951, o treinamento dos cadetes médicos foi realizado com a participação e o reconhecimento de representantes do ambiente médico militar cubano existente antes da Revolução. Em 1958, o mesmo colégio prestou auxílio aos revolucionários que derrubariam o regime de Batista. A organização religiosa permaneceu; as autoridades militares e políticas mudaram. A capacidade adventista de atuar em ambientes de conflito atravessou essa transformação histórica.
DO COLÉGIO DE LAS ANTILLAS À ASSOCIAÇÃO GERAL
Agora podemos compreender por que Cuba precisa aparecer num artigo sobre Andrew Harewood, Mario Ceballos e Ivan Omaña. Não porque exista uma linha pessoal de comando demonstrada entre os cadetes cubanos de 1951 e os dirigentes mundiais de 2026. Essa ligação individual não está documentada. Cuba importa porque revela, numa experiência histórica concreta, a natureza de uma tradição institucional que combina formação religiosa, disciplina militar, preparação médica, relacionamento com autoridades e capacidade de atuação em situações de guerra.
O Medical Cadet Corps não nasceu com Ceballos, não foi inventado por Omaña e não dependeu da chegada de Harewood à Associação Geral. Quando esses homens assumiram funções na estrutura mundial, encontraram uma tradição que já havia atravessado guerras, governos e países. O colégio cubano é uma das demonstrações mais eloquentes dessa história. Ali, décadas antes da atual direção da WSO, a Igreja já experimentava a formação de jovens segundo modelos militares e a utilização de recursos denominacionais em circunstâncias reais de conflito.
É por isso que a moeda comemorativa apresentada a Ted Wilson em 2025 não pode ser examinada isoladamente. Ela pertence ao capítulo contemporâneo de uma história muito mais longa. Em 1951, encontramos 104 cadetes médicos adventistas treinando em Santa Clara, diante de representantes da Cruz Vermelha e do Exército cubano. Em 1958, encontramos diretores, professores e alunos do mesmo colégio prestando assistência às forças revolucionárias. Em 2025, encontramos um general americano homenageando o presidente mundial adventista com uma moeda apresentada como proveniente do Pentágono. Em 2026, encontramos esse mesmo general integrando a direção mundial da estrutura que supervisiona a capelania e mantém vínculos administrativos com o Medical Cadet Corps.
Não estamos afirmando que todos esses acontecimentos constituam uma única operação planejada ao longo de 75 anos. Estamos mostrando algo que os documentos permitem reconhecer: a permanência de uma tradição adventista de organização, treinamento, assistência e relacionamento com instituições militares, capaz de adaptar-se a diferentes países, governos e circunstâncias históricas.
Em Santa Clara, essa tradição apareceu em uniformes, macas, exercícios de campo e, posteriormente, no atendimento às necessidades de homens envolvidos numa revolução. Na administração mundial contemporânea, aparece em organogramas, currículos militares, programas de capelania e dirigentes que chegaram à Igreja depois de ocupar posições importantes nas Forças Armadas dos Estados Unidos.
O que mudou foi o cenário. A questão que permanece é a mesma: até onde vai a estrutura militar-adventista, quem efetivamente a dirige e quanto dessa realidade é conhecido pelos membros da Igreja que continuam vendo apenas o púlpito?
O CAPELÃO COMO PERSONAGEM DE DUPLA AUTORIDADE
O aspecto mais delicado dessa história talvez esteja na própria identidade do capelão militar. Ele pode ser simultaneamente ministro reconhecido por uma denominação e oficial de uma instituição armada. Sua autoridade religiosa depende do reconhecimento eclesiástico; sua posição profissional no serviço militar depende de regras e procedimentos da organização estatal. Essa dupla vinculação é apresentada normalmente como uma solução para garantir assistência espiritual aos militares. Mas também produz uma zona de contato permanente entre duas estruturas que possuem finalidades, hierarquias e interesses diferentes.
É nesse ponto que nossa expressão “versão militar da Igreja Adventista” precisa ser compreendida. Não estamos falando simplesmente de pastores que visitam quartéis. Estamos falando de uma organização que reconhece e administra capelães militares, acompanha adventistas em instituições governamentais, participa de programas de formação e mantém dirigentes com experiência efetiva em sistemas de comando militar. A capelania é a face religiosa dessa estrutura, mas não esgota sua realidade institucional.
Quando um pastor aparece diante dos membros usando terno e segurando uma Bíblia, sua identidade religiosa ocupa o primeiro plano. Quando o mesmo profissional exerce funções de oficial militar, utiliza uniforme, integra uma cadeia de comando e participa de decisões administrativas do sistema militar, outras responsabilidades entram em cena. A existência dessas duas dimensões não comprova uma intenção de enganar os fiéis. Mas torna indispensável perguntar quais obrigações prevalecem quando surgem conflitos, quem supervisiona o profissional e que informações a denominação fornece aos membros sobre a natureza dessas funções.
É por isso que nossa crítica não pode limitar-se a denunciar a presença de militares na Igreja como se ela fosse clandestina. A presença é pública. Os currículos são oficiais. As fotografias estão disponíveis. O problema que identificamos é a distância entre essa realidade institucional e a imagem predominantemente pastoral oferecida ao membro comum. Uma coisa é dizer que a Igreja possui capelães para atender soldados. Outra é reconhecer que mantém uma estrutura mundial de relações militares dirigida, em parte, por homens que passaram décadas dentro das Forças Armadas e alcançaram postos superiores.
O QUE A MOEDA REVELA — E O QUE NÃO REVELA
Seria tentador apresentar a moeda do Pentágono como a prova definitiva de que o Departamento de Defesa controla a Associação Geral. Mas isso transformaria um documento interessante numa conclusão que ele não sustenta. Uma moeda comemorativa não é uma ordem administrativa, uma autorização de operação militar ou um instrumento de transferência de poder. A reportagem não demonstra que o Pentágono tenha determinado a nomeação de Harewood ou que Ted Wilson tenha assumido compromissos secretos durante a cerimônia.
O que a documentação efetivamente revela é mais específico. Em primeiro lugar, demonstra que a liderança adventista mantém relações públicas e institucionalmente valorizadas com capelães militares de alta patente. Em segundo, identifica um antigo general com responsabilidades estratégicas no Pentágono entre os participantes de uma homenagem ao presidente mundial. Em terceiro, mostra que esse mesmo general assumiu posteriormente uma função na direção mundial da capelania adventista. Em quarto, permite identificar seus colegas de administração: Ivan Omaña e Mario Ceballos, personagens centrais da estrutura que já vínhamos investigando.
É a combinação desses fatos, e não o objeto isolado, que merece atenção. A moeda torna visível uma relação; o organograma demonstra sua continuidade administrativa; os currículos revelam a experiência militar dos dirigentes; e os documentos anteriores sobre a WSO explicam a natureza do departamento em que passaram a trabalhar. Quando essas informações são reunidas, a homenagem deixa de ser uma fotografia protocolar sem contexto e passa a integrar a história institucional da relação entre adventismo e poder militar.
O PENTÁGONO NÃO PRECISA APARECER NO ORGANOGRAMA
Nossa investigação sobre a Igreja-Estado já mostrou que a antiga National Service Organization foi descrita pela historiografia adventista como órgão de ligação entre a Igreja e o Pentágono. Essa função histórica está documentada. Mas uma interface institucional não significa, automaticamente, subordinação da denominação ao Departamento de Defesa. O desafio agora é investigar como essa tradição de relacionamento se manifesta nas carreiras, nas nomeações, nas políticas e nas decisões da estrutura contemporânea.
O caso de Harewood é exemplar porque permite observar a circulação de um profissional entre os dois universos. Sua experiência militar foi desenvolvida no interior de uma organização que administra pessoal, políticas, recursos e estratégias de defesa. Sua função posterior passou a ser exercida dentro de uma organização religiosa que mantém programas de relacionamento com militares e instituições públicas. Não encontramos uma ordem do Pentágono determinando essa passagem. Encontramos uma carreira que atravessou os dois ambientes, com reconhecimento público de ambos.
Essa circulação também exige uma pergunta sobre autoridade. Quem define as prioridades da WSO? Quem aprova seus programas de treinamento? Quais são os limites de atuação de seus dirigentes? Como são supervisionadas as relações com autoridades militares? Que decisões dependem da presidência da Associação Geral e quais são tomadas no âmbito do próprio departamento? Essas perguntas são mais importantes do que imaginar uma cadeia de comando secreta sem documentos. Se existe influência institucional relevante, ela precisa ser identificada nos mecanismos concretos de decisão.
Em nossa leitura editorial, a estrutura militar-adventista constitui uma outra realidade de poder dentro da denominação, diferente daquela que se apresenta aos membros nos cultos e campanhas evangelísticas. Afirmar que ela controla secretamente toda a IASD, porém, exigiria provas adicionais sobre subordinação administrativa ou interferência efetiva nas decisões superiores da Igreja. O organograma conhecido mostra a WSO como parte dos Ministérios Adventistas de Capelania, dentro da administração denominacional. A crítica que fazemos é que essa estrutura, mesmo formalmente integrada à Igreja, desenvolveu uma cultura própria de relações militares e governamentais que merece investigação pública.
ERTON KÖHLER HERDOU A ESTRUTURA
Há uma pergunta que deve ser dirigida agora à administração de Erton Köhler. Quando o novo presidente mundial assumiu em julho de 2025, a estrutura militar-adventista já possuía décadas de história, programas internacionais, dirigentes especializados e relações estabelecidas com instituições públicas. A nomeação de Harewood em fevereiro de 2026 ocorreu dentro dessa continuidade. Portanto, a questão não se limita ao que Ted Wilson sabia ou autorizava. Trata-se de compreender como a atual administração supervisiona uma organização que mantém vínculos institucionais com o universo militar e incorpora antigos oficiais superiores a suas funções de direção.
Não estamos atribuindo a Köhler a criação dessa estrutura, nem afirmando que tenha participado da homenagem de St. Louis ou escolhido pessoalmente todos os seus dirigentes. O que observamos é que, sob sua presidência, a WSO continuou funcionando e Harewood passou a integrar sua liderança. A continuidade administrativa torna o assunto responsabilidade institucional da denominação, independentemente das preferências individuais de seus presidentes.
Essa distinção é fundamental para nossa tese da outra Igreja Adventista. Presidentes mundiais mudam. A estrutura especializada permanece. Sua memória administrativa, seus programas de formação, seus contatos profissionais e seus mecanismos de relacionamento não desaparecem a cada eleição da Associação Geral. Por isso, quando procuramos compreender quem exerce influência nesse universo, não podemos olhar apenas para a pessoa que ocupa temporariamente a presidência mundial. Precisamos examinar os departamentos que atravessam administrações e preservam sua própria continuidade.
E A VENEZUELA CONTINUA NO CENTRO DA PERGUNTA
O interesse deste episódio para nossa investigação venezuelana é direto, embora não deva ser exagerado. Ivan Omaña, diretor mundial da WSO, nasceu na Venezuela. Mario Ceballos, seu antecessor e atual oficial executivo do MCC, também possui profundas raízes naquele país e participou da revisão técnica do manual venezuelano de cadetes de 2025. Harewood integra agora a direção da mesma organização mundial. A ligação institucional entre a WSO e a formação de cadetes na Venezuela já foi documentada. O que ainda não demonstramos é qualquer participação desses dirigentes numa operação clandestina relacionada à crise política venezuelana.
Precisamos, portanto, localizar documentos sobre as atividades concretas da direção mundial no programa venezuelano: correspondência, orientações técnicas, relatórios de treinamento, visitas oficiais, convênios, registros de reuniões e eventuais relações com instituições governamentais. O manual de 2025 fornece nomes e estrutura. As biografias de Ceballos e Omaña oferecem continuidade administrativa. A entrada de Harewood acrescenta à direção mundial um profissional com experiência militar superior. Mas somente documentos específicos poderão esclarecer que decisões esses dirigentes efetivamente tomaram em relação à Venezuela.
Essa é a vantagem de uma investigação construída a partir de documentos oficiais. Não precisamos atribuir aos personagens ações que ainda não conseguimos comprovar. A estrutura que estamos examinando é suficientemente significativa por aquilo que reconhece publicamente. O trabalho seguinte consiste em descobrir como funcionava na prática e quais eram os limites de sua autoridade.
A MOEDA, O GENERAL E A OUTRA IGREJA
Agora podemos retornar à cena de St. Louis com uma compreensão mais completa. Ted Wilson estava encerrando seu período à frente da Associação Geral. Ivan Omaña dirigia os Ministérios Adventistas de Capelania. Andrew Harewood, general aposentado com experiência de direção no Pentágono, participava da homenagem. Uma moeda comemorativa do universo militar norte-americano era entregue ao presidente mundial de uma denominação que nasceu defendendo a objeção de consciência ao uso de armas. Dois dias depois, a presidência mudaria. Sete meses depois, o general apareceria oficialmente na administração mundial adventista.
A moeda não criou a relação entre Igreja e poder militar. Essa relação é muito mais antiga, como demonstramos em nosso artigo anterior. Também não prova que o Pentágono governe a denominação. O que ela oferece é uma imagem pública e concreta de uma aproximação institucional que atravessou gerações e que hoje pode ser examinada através das carreiras de seus dirigentes e das funções oficialmente atribuídas à WSO.
O membro comum talvez continue vendo apenas a Igreja dos sermões, dos dízimos, das escolas, das campanhas missionárias e dos cultos de sábado. Mas existe também a estrutura dos capelães militares, dos antigos oficiais, dos programas de cadetes, dos contatos governamentais e dos dirigentes cuja experiência profissional foi construída dentro de instituições armadas. Não se trata de uma denominação juridicamente separada. Trata-se de uma realidade institucional instalada dentro da mesma organização religiosa, com uma cultura e um universo de relações que não se confundem com a experiência cotidiana da congregação.
Em nossa interpretação, essa é a contradição que precisa ser exposta. Uma Igreja que apresenta aos membros uma identidade essencialmente religiosa mantém, em sua administração mundial, uma estrutura especializada em relações militares e governamentais. Seus dirigentes podem ser pastores, mas alguns também foram comandantes, oficiais superiores e responsáveis por políticas e estratégias dentro das Forças Armadas. A denominação não esconde completamente essa realidade: publica os nomes, os currículos e as fotografias. O que permanece insuficientemente discutido é o significado dessa presença para sua identidade, suas prioridades e sua independência diante do poder estatal.
Em julho de 2025, o general levou uma moeda do Pentágono ao presidente mundial adventista. Em fevereiro de 2026, o antigo general passou a integrar a direção mundial adventista. Entre os dois acontecimentos, Ted Wilson deixou a presidência e Erton Köhler assumiu. A estrutura militar-adventista permaneceu.
É essa continuidade que importa. A fotografia mostra o encontro. O currículo revela a trajetória. O organograma identifica a posição. E a investigação sobre a Igreja Militar Adventista, que já publicamos, explica por que esses três documentos precisam ser lidos juntos.
A moeda foi entregue a Ted Wilson. Mas a pergunta que ela deixou não pertence apenas ao passado de sua administração. Pertence também ao presente da Igreja que Erton Köhler preside: quem supervisiona, com que autoridade e com quais limites, a estrutura militar-adventista que opera dentro da denominação?
De Everett Dick a Andrew Harewood, do Colegio de las Antillas ao Pentágono, dos 104 cadetes treinados em Cuba aos generais e comandantes instalados na administração mundial adventista, o que encontramos não é uma sucessão de coincidências, mas a continuidade histórica de uma estrutura que aprendeu a conciliar a linguagem da fé com a disciplina dos quartéis.
Em 1951, jovens adventistas eram preparados para socorrer vítimas de guerra; em 1958, o mesmo colégio fornecia assistência material aos revolucionários de Che Guevara; em 2025, um general americano entregava uma moeda do Pentágono a Ted Wilson; em 2026, esse general assumia funções na Associação Geral, ao lado de Ivan Omaña e Mario Ceballos. Não afirmamos que todos esses acontecimentos obedeceram a um comando único, mas os documentos revelam uma tradição institucional que atravessou gerações, governos e fronteiras.
Enquanto milhões de fiéis conhecem a Igreja Adventista pelo sábado, pela Bíblia e pela promessa da volta de Cristo, outra realidade se desenvolveu dentro da mesma denominação, com oficiais, capelães militares, cadetes e relações permanentes com o poder estatal. E talvez esta seja a pergunta mais perturbadora de nossa investigação: quando o membro comum pensa que está seguindo uma igreja conduzida exclusivamente por pastores, quanto sabe sobre os homens de formação militar que também participam de sua direção mundial?
O GENERAL ADVENTISTA DO PENTÁGONO: QUEM OBEDECE A QUEM?
Andrew Harewood dirigiu estratégia, políticas e recursos do Exército americano, entregou a Ted Wilson uma moeda comemorativa produzida pelo Pentágono e agora ocupa um cargo de direção na Associação Geral, presidida por Erton Köhler. Afinal, quem exerce autoridade sobre quem?
A investigação sobre a chamada Igreja Militar Adventista encontrou um documento de importância extraordinária, publicado não pela denominação, mas pelo próprio Exército dos Estados Unidos. No site oficial da Reserva do Exército americano, uma fotografia do general de brigada Andrew R. Harewood aparece acompanhada de informações sobre suas responsabilidades militares e sua condição de ministro ordenado da Igreja Adventista do Sétimo Dia. O documento permite compreender algo que as apresentações religiosas frequentemente deixam em segundo plano: Harewood não era simplesmente um pastor autorizado a acompanhar soldados e oferecer assistência espiritual. Era um oficial-general com responsabilidades administrativas, estratégicas e institucionais na estrutura militar americana.
Em reportagem oficial publicada em 25 de novembro de 2020, o Exército identificou Harewood como vice-chefe de capelães da Reserva e diretor da área de Estratégia, Políticas Profissionais e Recursos — Strategy, Proponency, and Resources Directorate (SPR) — no gabinete do chefe de capelães do Exército americano. A publicação informa que ele assessorava o chefe da Reserva e o comandante-geral do Comando da Reserva, além de supervisionar recursos, treinamento e políticas de mais de 700 capelães que atendiam aproximadamente 190 mil militares reservistas, suas famílias e funcionários civis.
Outra publicação do próprio Exército, de 2 de novembro de 2020, descreveu Harewood como integrante da equipe superior de liderança da capelania militar e estrategista-chefe dessa estrutura. Portanto, sua atuação não se limitava à celebração de cultos, aconselhamento religioso ou acompanhamento espiritual. Ele participava da administração de recursos, treinamento, políticas e planejamento institucional de um organismo integrado ao Exército dos Estados Unidos.
O que o próprio Exército americano revela sobre o general adventista
Para compreender a verdadeira dimensão da carreira de Andrew R. Harewood, não precisamos recorrer inicialmente às publicações da Igreja Adventista. Basta consultar os registros oficiais do Exército dos Estados Unidos. E o que encontramos nesses documentos vai muito além da imagem convencional de um pastor uniformizado que visita soldados, conduz orações e oferece aconselhamento espiritual. A instituição militar descreve Harewood como um oficial-general que ocupou uma posição superior na administração da capelania do Exército, participando de decisões sobre estratégia, políticas, treinamento, recursos e organização de pessoal.
Em reportagem publicada em 2 de novembro de 2020, intitulada “The Army Has Two New Reserve Component Deputy Chiefs of Chaplains”, o próprio Exército informa que Harewood assumiu naquele mês a função de vice-chefe de capelães da Reserva do Exército americano. Mas a informação mais reveladora aparece logo em seguida: o oficial é descrito como principal ligação entre a Reserva e o chefe de capelães do Exército, além de estrategista-chefe do Corpo de Capelães.
A expressão utilizada no original é particularmente significativa: “the Chaplain Corps’ chief strategist”. Não se trata de uma interpretação produzida pelo Adventistas.com, mas da descrição oficial empregada pelo Exército americano para definir uma das responsabilidades do ministro adventista. Harewood não era apresentado apenas como um conselheiro religioso. Participava da estrutura responsável pela orientação estratégica de uma organização militar que reunia capelães em diferentes componentes do Exército dos Estados Unidos.
O mesmo documento identifica os demais integrantes da cúpula nacional da capelania militar naquele momento. O general de divisão Thomas L. Solhjem ocupava o cargo de chefe de capelães do Exército; o general de brigada William Green Jr. era vice-chefe pelo componente ativo; e o general de brigada Thomas G. Behling representava a Guarda Nacional. Harewood integrava essa estrutura superior como representante da Reserva. Em outras palavras, o ministro credenciado pela Igreja Adventista participava de uma equipe de liderança responsável pela administração do Corpo de Capelães nos três componentes do Exército americano: forças ativas, Guarda Nacional e Reserva.
Há um detalhe institucional especialmente importante. O Exército declarou expressamente que Harewood era ministro ordenado e credenciado pela Igreja Adventista do Sétimo Dia para atuar como capelão militar. O texto original registra: “He is ordained as a minister and endorsed as an Army chaplain by the Seventh-Day Adventist Church.” Portanto, não estamos diante de uma associação religiosa presumida com base na biografia de um oficial. O próprio Exército reconhece formalmente a denominação responsável por seu credenciamento eclesiástico.
Um estrategista que assessorava os comandantes superiores da Reserva
As atribuições descritas pela instituição militar revelam a amplitude administrativa do posto ocupado por Harewood. Segundo a reportagem publicada também no portal oficial da Reserva do Exército, ele prestava aconselhamento diretamente ao chefe da Reserva e ao comandante-geral do United States Army Reserve Command. Trata-se de autoridades situadas na direção superior da estrutura militar, responsáveis pela administração e pelo comando das forças de reserva americanas.
O Exército acrescenta que Harewood supervisionava recursos, treinamento e políticas de mais de 700 capelães que prestavam atendimento a aproximadamente 190 mil reservistas, além de familiares e funcionários civis. Isso significa que suas responsabilidades alcançavam uma organização distribuída entre numerosas unidades e comandos militares. Não se tratava de dirigir uma capela ou uma congregação situada numa instalação militar. Sua função envolvia a coordenação administrativa de uma estrutura religiosa integrada ao funcionamento do Exército.
Recursos significam capacidade de planejamento e administração. Treinamento significa preparação de pessoal segundo padrões institucionais. Políticas significam diretrizes destinadas a orientar o funcionamento de atividades dentro da organização militar. A presença dessas três competências na descrição oficial de Harewood ajuda a compreender por que o Exército o identificava como estrategista-chefe do Corpo de Capelães.
O registro militar também informa que ele havia trabalhado durante muitos anos como pastor civil, paralelamente à carreira na Reserva. Esse dado torna a trajetória ainda mais singular: o mesmo homem transitou entre o ministério pastoral adventista e uma posição superior de administração militar, exercendo responsabilidades reconhecidas pelas duas instituições.
A direção de Estratégia, Políticas Profissionais e Recursos
Outra publicação oficial do Exército, datada de 25 de novembro de 2020, acrescenta uma informação que merece destaque especial em nossa investigação. Além de vice-chefe de capelães da Reserva, Harewood também ocupava o cargo de diretor do Strategy, Proponency, and Resources Directorate (SPR), no gabinete do chefe de capelães do Exército americano.
Uma tradução explicativa dessa denominação seria Diretoria de Estratégia, Gestão Profissional e Recursos. A palavra inglesa “proponency”, nesse contexto militar, refere-se à responsabilidade institucional pelo desenvolvimento e pela administração de determinada especialidade profissional. Assim, o cargo de Harewood abrangia muito mais do que estratégias de aconselhamento espiritual: compreendia atribuições relacionadas à organização, ao desenvolvimento profissional e aos recursos do próprio Corpo de Capelães.
Não precisamos deduzir que essa função existia apenas porque Harewood assim a descreveu em sua biografia posterior. O relatório oficial “The State of the U.S. Army Chaplain Corps”, publicado em abril de 2023, confirma o duplo exercício dessas responsabilidades. Na página 6, o Exército apresenta Harewood como vice-chefe de capelães da Reserva, instalado em 1º de novembro de 2020, e registra expressamente que acumulava a direção do Strategy, Proponency & Resources Directorate.
O documento de 2023 oferece uma segunda confirmação institucional, produzida anos depois de sua nomeação. Não estamos diante de uma referência ocasional encontrada numa legenda fotográfica, mas de uma atribuição registrada na apresentação oficial da liderança nacional do Corpo de Capelães.
O general que participava das decisões sobre missões e unidades militares
Um episódio posterior permite observar Harewood exercendo suas funções fora dos gabinetes. Em julho de 2021, ele visitou o 9th Mission Support Command, no Havaí, organização pertencente à Reserva do Exército americano. A reportagem oficial sobre a visita apresenta fotografias do general reunido com equipes militares de assistência religiosa, familiares e dirigentes do comando.
Uma das imagens registra o encontro entre Harewood e o general de brigada responsável pelo 9th Mission Support Command, durante uma reunião destinada a discutir esforços relacionados às missões da unidade. Outra fotografia mostra Harewood dirigindo-se aos integrantes do comando. O material documenta sua atuação institucional junto a autoridades militares responsáveis por uma organização operacional da Reserva americana.
Essa visita é importante porque demonstra concretamente o funcionamento do cargo. Harewood não aparecia apenas em cerimônias religiosas ou eventos denominacionais. Deslocava-se para instalações militares, reunia-se com comandantes, acompanhava equipes e participava de atividades de coordenação institucional vinculadas à missão da Reserva.
O Exército também registrou sua presença, em 2023, na inauguração oficial do Institute for Religious Leadership, em Fort Jackson. A reorganização da instituição de ensino militar tinha como objetivo fortalecer a formação de líderes estratégicos do Corpo de Capelães e melhorar a eficiência das operações de assistência religiosa. Harewood participou da cerimônia na condição de integrante da liderança superior da capelania militar.
Da estrutura estratégica do Exército à direção mundial adventista
É à luz dessa documentação que a posterior incorporação de Andrew Harewood à direção mundial da World Service Organization adquire especial significado. A biografia publicada pela própria WSO registra responsabilidades ainda mais extensas desempenhadas por ele na administração militar americana, incluindo estratégia, planos, políticas, recursos, prontidão espiritual, assuntos governamentais, legislação, doutrina, administração de pessoal e relações com comandos do Exército.
A denominação apresenta agora esse antigo general e estrategista militar como World Commanding Executive Officer, ao lado de Ivan H. Omaña, identificado como World Commanding Officer. A experiência acumulada por Harewood não desaparece de sua biografia quando ele passa a ocupar uma função denominacional. Pelo contrário, aparece publicamente entre as qualificações que ajudam a explicar sua trajetória e sua posição na organização mundial adventista.
A comparação dos documentos permite reconstruir uma trajetória institucional extraordinária: ministro adventista credenciado pela Igreja, general de brigada da Reserva, principal ligação com a chefia nacional de capelães, estrategista-chefe do Corpo de Capelães, diretor de Estratégia, Gestão Profissional e Recursos, assessor de comandantes superiores e, posteriormente, dirigente mundial de uma organização adventista que mantém relações com militares e servidores públicos em diferentes países.
Essa é a dimensão que não pode ser apagada pela palavra “capelão”. Harewood não foi apenas um religioso que serviu no Exército. Foi um oficial-general adventista que participou da administração estratégica de uma estrutura militar americana e posteriormente passou a ocupar uma posição de direção na organização mundial adventista de serviço.
Quando esse mesmo oficial aparece entregando a Ted Wilson uma moeda comemorativa produzida pelo Pentágono, em julho de 2025, e depois assume funções na administração mundial durante a presidência de Erton Köhler, a sequência ganha uma importância institucional que ultrapassa a homenagem cerimonial. A trajetória reúne o credenciamento religioso, a autoridade militar, a administração estratégica e o exercício posterior de funções denominacionais internacionais.
A pergunta que nossa investigação coloca diante da Associação Geral não é simplesmente por que um pastor adventista alcançou a patente de general. É por que um antigo estrategista da administração militar americana, reconhecido oficialmente como tal pelo Exército, passou a ocupar uma função de comando executivo dentro de uma organização religiosa internacional que mantém estruturas próprias de serviço, oficiais, regulamentos e relações com governos e instituições militares.
A moeda do Pentágono entregue a Ted Wilson
Em julho de 2025, outro episódio acrescentou uma dimensão pública e simbólica a essa trajetória. Durante o Congresso Mundial de Capelania Adventista, realizado em St. Louis, nos Estados Unidos, Andrew Harewood participou de uma homenagem ao então presidente mundial da Igreja Adventista, Ted N. C. Wilson.
A reportagem oficial da Divisão Interamericana, publicada em 4 de julho de 2025, registra que Ivan H. Omaña, diretor mundial da capelania adventista, entregou a Wilson uma escultura de cristal representando uma união de mãos. Em seguida, capelães militares apresentaram ao presidente adventista uma moeda comemorativa produzida pelo Pentágono, entregue pelo general Andrew Harewood.
O episódio foi fotografado e divulgado pela própria denominação. A legenda identifica Harewood como general de brigada aposentado e antigo vice-chefe de capelães da Reserva do Exército dos Estados Unidos. Também registra a presença do capitão John R. Logan, da Marinha americana, que servia como capelão de um grupo logístico dos fuzileiros navais. A reportagem apresenta o encontro como parte das celebrações da capelania adventista.
O significado da cena merece atenção. Um general adventista que havia exercido responsabilidades estratégicas no Pentágono entregava ao presidente mundial da Igreja uma moeda produzida naquela instituição militar. A homenagem acontecia publicamente, diante de capelães e dirigentes religiosos, com fotografias e divulgação internacional. O objeto não era uma Bíblia, um certificado de batismo ou uma condecoração exclusivamente eclesiástica. Era uma moeda comemorativa do Pentágono, apresentada a uma autoridade religiosa por um oficial-general adventista.
Não foi um acontecimento secreto. Pelo contrário: a própria Igreja fez questão de divulgá-lo. A cerimônia tornou visível uma relação institucional entre dirigentes religiosos e profissionais que ocuparam funções de responsabilidade nas Forças Armadas americanas. A pergunta que esse episódio suscita não diz respeito apenas ao valor simbólico da moeda, mas à continuidade dessas relações dentro da administração mundial adventista.
De general do Exército a diretor da Associação Geral
Em fevereiro de 2026, Andrew Harewood assumiu a função de diretor assistente dos Ministérios Adventistas de Capelania na Associação Geral, segundo a página oficial de liderança da Adventist Chaplaincy Ministries. Na direção mundial da WSO, seu cargo também aparece identificado como World Commanding Executive Officer, expressão que utiliza uma nomenclatura característica de estruturas organizadas em funções de comando.
O ingresso ocorreu durante a presidência mundial de Erton Köhler, eleito presidente da Associação Geral em julho de 2025. A documentação institucional consultada confirma a nomeação de Harewood para a administração mundial em fevereiro de 2026, embora não identifique, nas fontes públicas examinadas, qual comissão aprovou formalmente seu nome ou se Köhler participou pessoalmente da decisão.
O resultado institucional, entretanto, é inequívoco: um general aposentado que havia desempenhado funções estratégicas no Exército americano passou a integrar a direção mundial de uma organização adventista que mantém relações com capelães, militares, policiais e servidores públicos em diversos países. Não ingressou na Associação Geral apenas como convidado para uma conferência ou consultor ocasional. Passou a ocupar um cargo permanente de direção na estrutura denominacional.
A mesma página oficial da WSO identifica Ivan H. Omaña, venezuelano, como World Commanding Officer, e Mario E. Ceballos como diretor de Operações e Treinamento e executivo do Medical Cadet Corps. Ceballos já dirigiu mundialmente a capelania adventista e aparece como revisor técnico do manual do Cuerpo de Servicio Nacional Adventista (CSN), publicado pela União Venezuelana Oriental em junho de 2025.
Temos, portanto, uma estrutura na qual se encontram um dirigente venezuelano com trajetória internacional na capelania, um antigo comandante da Reserva da Marinha americana ligado à organização e ao treinamento de cadetes, e um general aposentado que trabalhou com estratégia, políticas e recursos no Pentágono. Esses três dirigentes ocupam funções na organização mundial adventista relacionada ao serviço institucional e à capelania.
Quem obedece a quem: o pastor ou o general?
A chegada de Harewood à Associação Geral coloca diante de nossa investigação uma questão incomum. Na organização denominacional, o diretor assistente está sujeito às competências administrativas de seus superiores, às decisões das comissões responsáveis e às políticas estabelecidas pela administração mundial. A presidência da Associação Geral é exercida por Erton Köhler. A direção específica da WSO e da ACM cabe a Ivan Omaña. Dentro dessa organização, Harewood exerce funções que lhe foram conferidas pela administração denominacional.
Mas a trajetória anterior de Harewood apresenta outra cadeia de autoridade. Durante sua carreira militar, ele estava submetido às normas e aos comandos do Exército dos Estados Unidos. Seus superiores não eram presidentes de associações adventistas, presidentes de uniões ou dirigentes da Associação Geral. Eram autoridades militares. Sua atividade era regulamentada pelas instituições americanas responsáveis pela administração das Forças Armadas.
O encontro dessas duas trajetórias produz uma pergunta que não pode ser respondida apenas mediante a leitura de um organograma religioso. O fato de um general aposentado aceitar uma nomeação denominacional significa que sua autoridade profissional, suas relações institucionais e seus vínculos anteriores desaparecem no momento em que assume um cargo na Igreja? Ou significa que a administração religiosa passa a contar com um dirigente que reúne experiência estratégica e relações construídas durante décadas dentro de organizações militares?
Formalmente, Harewood deve responder pelas funções que exerce na Associação Geral, dentro da cadeia administrativa da denominação. Sua patente militar aposentada não lhe concede autoridade de comando sobre os dirigentes religiosos, assim como a presidência da Associação Geral não confere a Erton Köhler autoridade sobre o Exército dos Estados Unidos. Mas a questão institucional não se esgota nessa distinção formal. Uma organização pode incorporar à sua administração conhecimentos, experiências, métodos e relações profissionais trazidos por dirigentes que anteriormente ocuparam posições relevantes no Estado.
É precisamente isso que torna a trajetória de Harewood tão importante. Um pastor tradicionalmente aprende a trabalhar dentro da estrutura eclesiástica. Um general aprende também a lidar com planejamento, procedimentos, comandos, recursos, pessoal, políticas e objetivos institucionais. No caso de Harewood, as duas formações não são suposições. Estão registradas em documentos oficiais do Exército e na biografia publicada pela própria WSO.
O disfarce perfeito ou a integração perfeita?
Para o observador comum, a palavra capelão sugere alguém que conduz orações, consola famílias e oferece aconselhamento espiritual. No entanto, os documentos examinados demonstram que a capelania militar também possui uma estrutura administrativa de grande alcance, com oficiais-generais, planejamento, treinamento, políticas, recursos e relações permanentes com comandos militares. A figura religiosa e a estrutura militar coexistem oficialmente dentro da mesma instituição.
Essa dupla identidade ajuda a compreender por que a expressão Igreja Militar Adventista não pode ser examinada apenas como uma metáfora. Nossa investigação já documentou a War Service Commission, o Medical Cadet Corps iniciado por Everett Dick, o treinamento dos 104 cadetes no Colegio de las Antillas, a expansão internacional dos programas adventistas de serviço e a existência contemporânea da WSO. A carreira de Harewood acrescenta a esse conjunto um exemplo particularmente expressivo de circulação entre cargos superiores da administração militar americana e a direção mundial adventista.
A identidade pastoral oferece uma apresentação pública religiosa; a experiência militar fornece conhecimentos e competências de natureza institucional. Essa combinação pode ser vista como um mecanismo de integração entre ambientes distintos, sobretudo quando a organização religiosa mantém programas próprios de serviço, oficiais, hierarquias, cadastros e relações com instituições governamentais.
A palavra disfarce, nesse contexto, adquire força como crítica à distância entre a imagem simplificada do capelão e a amplitude real de suas atribuições administrativas. O que os documentos mostram é um general que também é pastor, um estrategista militar que também é dirigente denominacional e uma organização religiosa que incorpora à sua administração pessoas formadas em estruturas militares.
A conexão venezuelana e o problema da autoridade internacional
Na Venezuela, nossa investigação já demonstrou que o manual do Cuerpo de Servicio Nacional Adventista, publicado em 2025, reconhece o respaldo da World Service Organization e identifica Mario Ceballos como revisor técnico. O mesmo documento estabelece uma organização com diretores, delegados, hierarquias, uniformes, procedimentos de comunicação e responsabilidades operacionais.
Essa ligação permite formular uma questão mais ampla: quando a WSO presta apoio a uma estrutura nacional, quais competências de seus dirigentes mundiais são exercidas sobre essa organização? A direção mundial possui autoridade para orientar treinamentos, aprovar regulamentos, reconhecer oficiais, estabelecer padrões administrativos ou participar de decisões operacionais? E de que maneira a experiência militar de dirigentes como Harewood e Ceballos influencia os programas internacionais sob responsabilidade da WSO?
Há aqui um contraste particularmente revelador. Na administração da Igreja, a autoridade costuma ser apresentada em termos de missão religiosa e serviço cristão. No âmbito militar, autoridade envolve funções definidas, responsabilidades específicas, planejamento e prestação de contas. Quando um antigo general passa a ocupar uma função denominada World Commanding Executive Officer numa organização religiosa internacional, os dois vocabulários se encontram.
O caso venezuelano ganha importância justamente porque o CSN possui sua própria cadeia operacional e declara relações com a estrutura mundial. Nossa investigação continuará examinando essa conexão para determinar onde começam e terminam as competências de cada instância, especialmente diante de atividades realizadas em países sujeitos a crises políticas, conflitos e intervenções estrangeiras.
A pergunta que Erton Köhler precisa responder
A questão final não é se Andrew Harewood tem formação religiosa. Tem. Tampouco é se alcançou posição elevada no Exército americano. Alcançou, como mostram documentos oficiais do próprio Exército. A questão é compreender o significado administrativo de sua incorporação à direção mundial adventista, depois de ocupar funções de estratégia, políticas, recursos e planejamento numa estrutura militar dos Estados Unidos.
Durante a presidência de Erton Köhler, a Associação Geral passou a contar com um dirigente cuja experiência institucional inclui o Pentágono, a chefia da capelania da Reserva, relações com comandos militares e responsabilidades sobre centenas de capelães. Antes disso, em julho de 2025, Harewood havia participado da homenagem em que Ted Wilson recebeu uma moeda comemorativa produzida pelo Pentágono. Meses depois, o antigo general passou a integrar formalmente a administração mundial.
É uma sequência que merece ser considerada em seu conjunto: primeiro, o general adventista exerce funções estratégicas na administração militar americana; depois, participa de uma homenagem pública ao presidente mundial da denominação; finalmente, assume uma posição de direção na estrutura adventista de capelania e serviço internacional.
Quem exerce autoridade sobre quem? Erton Köhler, na condição de presidente da Associação Geral, integra a liderança da organização que recebeu Harewood. Ivan Omaña dirige a estrutura à qual ele foi incorporado. Harewood, por sua vez, leva para essa estrutura uma carreira construída dentro do Exército americano, inclusive em funções estratégicas no Pentágono. O organograma mostra a autoridade administrativa. A trajetória profissional revela a circulação de conhecimentos e relações institucionais. Nossa investigação precisa examinar as duas coisas.
Se o pastor Harewood foi credenciado pela Igreja Adventista para servir no Exército, o general Harewood foi posteriormente incorporado à direção mundial adventista depois de exercer funções estratégicas na administração militar. Essa circulação entre Igreja e Estado não é imaginária. Está documentada pelas duas instituições.
E é precisamente aí que reside a pergunta que a documentação coloca diante dos membros: quando um pastor se torna general e depois assume um cargo de direção religiosa internacional, estamos diante de uma administração eclesiástica que incorporou um militar experiente ou de uma estrutura religiosa que também funciona como espaço permanente de circulação de dirigentes formados no aparato militar americano?
É uma pergunta que ultrapassa a biografia de Harewood. Ela diz respeito à natureza, às competências e às relações internacionais da organização que nossa investigação vem chamando de Igreja Militar Adventista.
FONTES DOCUMENTAIS
1. Reserva do Exército dos Estados Unidos — fotografia e registro oficial de Andrew R. Harewood.
2. U.S. Army, 25 de novembro de 2020 — Deputy Chief of Chaplains for the Army Reserve. Documento sobre responsabilidades, treinamento, políticas, recursos e direção estratégica.
3. U.S. Army, 2 de novembro de 2020 — The Army Has Two New Reserve Component Deputy Chiefs of Chaplains. Identificação de Harewood como dirigente superior e estrategista da capelania militar.
4. World Service Organization — liderança mundial e biografia de Andrew Harewood. Descrição das atribuições anteriormente exercidas no Pentágono e dos cargos de Ivan Omaña, Harewood e Mario Ceballos.
5. Divisão Interamericana, 4 de julho de 2025 — Global Chaplaincy Congress Closes With A Call To Christlike Humility and Love. Reportagem e fotografias da homenagem a Ted Wilson, incluindo a entrega da moeda comemorativa produzida pelo Pentágono.
6. Adventist Chaplaincy Ministries — direção da Associação Geral. Identificação de Harewood como diretor assistente desde fevereiro de 2026.
7. Associação Geral — página oficial do presidente Erton Köhler.
8. União Venezuelana Oriental, junho de 2025 — Manual de los Cadetes del Cuerpo de Servicio Nacional. Documento sobre organização, hierarquias, reconhecimento da WSO e participação técnica de Mario Ceballos.
TED WILSON REUNIU OS MILITARES OU FOI CONVOCADO PARA RECEBER A HOMENAGEM DE SEUS SUPERIORES?
As fotografias do IV Congresso Mundial de Capelania Adventista, realizado em St. Louis, nos Estados Unidos, entre 29 de junho e 2 de julho de 2025, permitem uma leitura muito diferente daquela oferecida pela propaganda denominacional. Para o membro comum, as imagens apresentam Ted Wilson, então presidente mundial da Igreja Adventista, cercado de capelães militares que compareceram para prestigiar sua liderança religiosa. Entretanto, quando examinamos a trajetória dos personagens, a organização do encontro e os símbolos utilizados na cerimônia, emerge uma interpretação muito mais perturbadora: a possibilidade de que a verdadeira primazia institucional estivesse com o poder militar, cabendo à autoridade religiosa desempenhar o papel de representante público de uma estrutura mais poderosa.
A distinção o é fundamental. Não estamos falando simplesmente de uma organização adventista que mantém relações cordiais com militares. Estamos examinando uma estrutura na qual oficiais superiores das Forças Armadas americanas ocupam posições de destaque, apresentam suas credenciais militares, participam da direção de programas internacionais e recebem reconhecimento da administração mundial da denominação. O poder militar não aparece apenas como convidado da religião. Aparece como elemento constitutivo da própria organização que se apresenta publicamente como religiosa.
O personagem central dessa inversão é Andrew R. Harewood. Conforme documentos publicados pelo próprio Exército dos Estados Unidos, ele não era um simples capelão que acompanhava soldados para oferecer assistência espiritual. Era general de brigada da Reserva, vice-chefe de capelães e estrategista-chefe do Corpo de Capelães. O Exército também o identifica como responsável pela direção de Estratégia, Gestão Profissional e Recursos, com atribuições relacionadas ao treinamento, às políticas e à administração de centenas de capelães militares. Sua biografia publicada pela WSO acrescenta responsabilidades exercidas no Pentágono envolvendo planejamento estratégico, legislação, doutrina, assuntos governamentais, recursos, mobilização e operações de contingência.
Foi esse general, e não um pastor desconhecido entre centenas de participantes, que recebeu destaque na abertura do congresso mundial de 2025. Harewood pronunciou a mensagem inaugural, diante de capelães reunidos de diversas partes do mundo, enquanto Ivan H. Omaña conduzia a organização internacional. A programação já demonstrava que a experiência militar americana ocupava posição de prestígio naquele encontro.
A cena mais reveladora aconteceu no encerramento. Ted Wilson compareceu ao banquete, dirigiu uma mensagem aos participantes e recebeu homenagens. Omaña entregou-lhe uma escultura de cristal. Em seguida, Harewood apresentou ao presidente adventista uma moeda comemorativa produzida pelo Pentágono. O episódio foi registrado em fotografias e divulgado pela própria Divisão Interamericana.
É aqui que a dupla leitura se torna inevitável. Na versão religiosa convencional, um presidente mundial é homenageado por capelães que reconhecem sua autoridade eclesiástica. Na interpretação que orienta nossa investigação, a fotografia pode representar uma inversão simbólica: um general formado na administração estratégica do Exército americano entrega a um dirigente religioso uma distinção associada ao Pentágono, enquanto a estrutura militar-adventista apresenta publicamente sua influência no interior da denominação.
O significado político e institucional dessa cena não depende de imaginar uma cerimônia secreta. Tudo aconteceu à vista dos participantes, diante das câmeras, com divulgação oficial. A força simbólica está justamente na naturalidade com que a denominação apresenta um general do Exército americano, um objeto produzido pelo Pentágono e o presidente mundial adventista reunidos numa celebração religiosa. O uniforme, a patente e a origem militar da homenagem não são escondidos. São incorporados ao espetáculo institucional.
O episódio ganha uma segunda dimensão quando examinamos o que aconteceu depois. Em fevereiro de 2026, Harewood assumiu formalmente a função de diretor assistente dos Ministérios Adventistas de Capelania na Associação Geral, já durante a presidência de Erton Köhler. Na World Service Organization, passou a figurar como World Commanding Executive Officer, ao lado de Ivan H. Omaña, identificado como World Commanding Officer. Assim, o general que havia recebido destaque no congresso e participado da homenagem a Ted Wilson foi posteriormente incorporado à direção mundial da estrutura adventista de serviço.
Nossa interpretação da sequência é a de uma possível inversão entre autoridade formal e poder institucional. No organograma religioso, o presidente da Associação Geral aparece no topo. Na trajetória de Harewood, entretanto, encontramos uma autoridade profissional construída previamente dentro das Forças Armadas americanas, com experiência em planejamento, recursos, políticas e relações governamentais. Sua incorporação à direção denominacional leva essa experiência para o interior da administração religiosa.
A tese de nossa investigação é que a Igreja Militar Adventista não deve ser compreendida simplesmente como um departamento subordinado à instituição religiosa. Estamos examinando a possibilidade de que a estrutura militar represente o núcleo de influência efetiva, enquanto a presidência eclesiástica desempenhe a função de legitimação pública desse poder.
A entrega da moeda adquire um significado que ultrapassa a homenagem pessoal a Ted Wilson. A cena pode ser lida como a apresentação pública da ligação entre duas autoridades de natureza diferente: a religiosa, que oferece reconhecimento espiritual e visibilidade institucional, e a militar, que traz consigo experiência estratégica, relações governamentais e uma tradição de comando construída fora da administração eclesiástica.
A presença de Mario E. Ceballos e Ivan H. Omaña na direção mundial amplia essa leitura. Ceballos, antigo comandante da Reserva da Marinha americana, aparece como executivo do Medical Cadet Corps e revisor técnico do manual do Corpo de Serviço Nacional Adventista da Venezuela. Omaña, de origem venezuelana, dirige mundialmente a ACM e a WSO. Harewood, por sua vez, traz a experiência de oficial-general do Exército e de dirigente estratégico no Pentágono. A reunião dessas trajetórias numa mesma organização internacional revela uma concentração singular de experiências militares e administrativas no interior da denominação.
A pergunta que as fotografias de 2025 colocam diante de nossa investigação não é apenas quem homenageou quem. É quem representa o poder efetivo nessa relação: o presidente religioso que recebe a moeda ou o general que a entrega em nome de uma tradição institucional ligada ao Pentágono?
O que a cerimônia documenta é a presença e o reconhecimento público dessas autoridades. O que nossa interpretação coloca em debate é a hierarquia real de influência existente por trás da apresentação religiosa. A partir dessa perspectiva, Ted Wilson deixa de aparecer exclusivamente como o chefe que reúne seus capelães. Surge também como o dirigente eclesiástico recebido e homenageado por uma estrutura na qual a experiência militar americana ocupa posição de destaque.
A primazia do poder militar sobre a autoridade religiosa é evidentemente óbvia. Não são simplesmente dirigentes adventistas especializados em capelania que homenageiam seu presidente. É a estrutura militar, representada por oficiais que também são adventistas, que ocupa a posição central da cerimônia. O general Harewood, com sua trajetória de comando e planejamento no Exército americano, ganha importância particular nessa interpretação. Ted Wilson comparece, discursa e recebe das mãos dele uma moeda produzida pelo Pentágono.
A imagem pública sugere uma Igreja que prestigia seus capelães. Nossa leitura crítica investiga a inversão dessa relação: a autoridade militar ocupando o centro do poder e a liderança religiosa conferindo-lhe legitimidade eclesiástica. Essa é uma tese sobre quem efetivamente exerce influência e autoridade. A presença de oficiais americanos e a homenagem documentam a relação entre as instituições; a primazia decisória do Exército sobre a Igreja é a conclusão de poder que nossa investigação sustenta.
Essa é a inversão que o Adventistas.com pretende examinar: na fachada pública, a religião apresenta-se como autoridade superior; na interpretação crítica de nossa investigação, o poder militar pode ocupar o centro da estrutura, enquanto o pastor oferece a legitimidade religiosa necessária à sua presença dentro da Igreja.
E a moeda produzida pelo Pentágono, entregue pelo general Andrew Harewood a Ted Wilson diante das câmeras, adquire, nessa interpretação, um significado muito mais eloquente do que o de uma simples homenagem. A cena lembra a cerimônia de reconhecimento de um funcionário disciplinado, que recebe de seus superiores uma pequena lembrança acompanhada de um silencioso “muito obrigado pelos serviços prestados até aqui”. Uma moedinha para o presidente mundial da Igreja Adventista, entregue por um general que havia ocupado funções estratégicas no Exército americano.
A ironia é irresistível: enquanto os fiéis enxergavam em Wilson a autoridade máxima da denominação, a fotografia permitia uma leitura exatamente inversa — a de um dirigente religioso recebendo o reconhecimento simbólico de um poder militar situado fora da estrutura eclesiástica. Nessa perspectiva, a eleição de um novo presidente da Associação Geral, realizada poucos dias depois por um sistema representativo da membresia, assumiria o aspecto de uma formalidade destinada a preservar a aparência de autonomia da instituição religiosa. Mudaria o ocupante da presidência, mas não necessariamente o centro de influência.
E o desfecho acrescentaria uma ironia ainda maior: meses depois, já sob a administração de Erton Köhler, o próprio Harewood seria incorporado à direção mundial da capelania adventista. Na leitura que propomos, a moedinha entregue a Wilson simbolizava o encerramento de um ciclo de serviços; a entrada posterior do general na administração de Köhler representaria a continuidade da influência militar sob uma nova presidência religiosa. Troca-se o pastor no comando aparente, mas permanece a pergunta sobre quem exerce o poder efetivo.
Não é o poder religioso que prestigia o militar, mas o poder militar que homenageia seu representante religioso. Os delegados reunidos na Assembleia Mundial escolheram Erton Köhler para substituir Wilson, num processo apresentado aos membros como expressão da representatividade denominacional. Mas que importância teria essa alternância se o verdadeiro centro de influência estivesse fora do alcance dos eleitores e das comissões eclesiásticas? A eleição mudara o rosto da presidência, preservando intacta a estrutura de poder que nossa investigação procura identificar.
E a sequência ganha um significado ainda mais provocador quando, em fevereiro de 2026, o próprio Harewood assume uma função executiva na administração mundial durante o mandato de Köhler. Na interpretação que emerge dessas imagens, Wilson recebeu a moeda de despedida, Köhler recebeu a presidência e Harewood ingressou formalmente na direção mundial. A sucessão religiosa aconteceu diante dos fiéis; a continuidade da influência militar atravessou a mudança de comando sem depender do voto de nenhum deles. A pergunta deixa de ser quem foi eleito presidente da Igreja Adventista e passa a ser quem realmente governa quando a eleição termina.
TED WILSON REUNIU OS CAPELÃES MILITARES OU FOI CONVIDADO PARA RECEBER UMA HOMENAGEM DO PODER MILITAR?
As fotografias do IV Congresso Mundial de Capelania Adventista, realizado entre 29 de junho e 2 de julho de 2025, em St. Louis, nos Estados Unidos, permitem duas leituras radicalmente diferentes sobre a relação entre a presidência mundial da Igreja Adventista e a estrutura militar-adventista. A primeira corresponde à interpretação religiosa convencional: Ted Wilson, presidente da Associação Geral, compareceu para prestigiar os capelães da denominação, oferecer orientação espiritual e receber o reconhecimento de seus subordinados. A segunda, que ganha especial importância em nossa investigação, inverte essa perspectiva: representantes de uma estrutura profundamente vinculada ao universo militar americano receberam o presidente religioso, concederam destaque a um general do Exército e encerraram o encontro entregando a Wilson uma moeda comemorativa produzida pelo Pentágono.
Há um detalhe decisivo nessa segunda leitura. O congresso não foi convocado pessoalmente por Ted Wilson para reunir seus capelães. O encontro foi organizado pela Adventist Chaplaincy Ministries (ACM), sob a direção mundial de Ivan H. Omaña. Wilson participou como orador principal do banquete de encerramento e foi homenageado pelos dirigentes e capelães presentes. Portanto, a cena não apresenta necessariamente um presidente religioso presidindo uma reunião de subordinados. Também permite enxergar uma estrutura especializada recebendo e homenageando a autoridade eclesiástica que lhe confere reconhecimento público.
A convocação oficial do IV Congresso Mundial de Capelania confirma que o encontro foi programado para os dias 29 de junho a 2 de julho de 2025, imediatamente antes da Assembleia Mundial da Associação Geral. Já a reportagem da Divisão Interamericana sobre a abertura informa que Ivan Omaña conduziu a programação inaugural, em 30 de junho, enquanto o general de brigada aposentado Andrew R. Harewood, antigo integrante da direção superior da capelania do Exército americano, foi escolhido para transmitir a mensagem devocional de abertura.
A escolha de Harewood adquire outro significado quando examinamos seu currículo. Conforme documentação oficial do Exército dos Estados Unidos, ele exerceu a função de vice-chefe de capelães da Reserva e foi identificado como estrategista-chefe do Corpo de Capelães. Também dirigiu a área de Estratégia, Gestão Profissional e Recursos, com responsabilidades relacionadas a treinamento, políticas, administração de pessoal e recursos militares. Sua biografia publicada pela World Service Organization acrescenta atividades desempenhadas no Pentágono, envolvendo planejamento estratégico, doutrina, legislação, assuntos governamentais, mobilização e operações de contingência. Não estamos falando, portanto, de um simples pastor convidado para fazer uma meditação religiosa, mas de um antigo oficial-general com experiência na administração estratégica do Exército americano.
DUAS LEITURAS DA MESMA CERIMÔNIA
Primeira leitura — a versão institucional convencional: Ted Wilson, então presidente mundial da Igreja Adventista, compareceu ao congresso de capelania, dirigiu uma mensagem religiosa aos participantes, recebeu homenagens e manifestou reconhecimento pelo trabalho desenvolvido pelos capelães. Nessa interpretação, o presidente representa a autoridade superior da denominação, enquanto os militares adventistas aparecem como integrantes de um ministério religioso subordinado à administração eclesiástica.
Segunda leitura — a interpretação de nossa investigação: o congresso apresentou publicamente a força institucional de uma organização na qual oficiais militares americanos, dirigentes com experiência no Pentágono e administradores internacionais ocupam posições relevantes. Um general que havia trabalhado com estratégia, políticas e recursos no Exército recebeu destaque na abertura. O presidente mundial da Igreja compareceu ao encerramento, discursou diante dos participantes e recebeu das mãos desse general uma moeda comemorativa produzida pelo Pentágono. Nessa leitura, a autoridade religiosa não aparece como origem de todo o poder representado na cerimônia, mas como personagem cuja presença confere legitimidade espiritual e visibilidade denominacional a uma estrutura fortemente marcada por sua ligação com instituições militares.
A diferença entre as duas interpretações é profunda. Na primeira, Wilson aparece como chefe religioso que prestigia seus subordinados. Na segunda, a cerimônia pode ser compreendida como uma demonstração pública da primazia simbólica do universo militar sobre a apresentação religiosa. O general representa uma trajetória de autoridade construída dentro do Exército americano; o presidente adventista representa a autoridade eclesiástica. A reunião dos dois personagens permite questionar a relação entre o poder administrativo efetivamente acumulado nas instituições militares e a legitimidade conferida pela liderança religiosa.
Outro elemento fortalece essa leitura. A reportagem oficial sobre o encerramento do congresso registra que Omaña convidou dezenas de capelães militares uniformizados ao palco e homenageou Mario E. Ceballos e antigos dirigentes da capelania mundial. A cerimônia foi, portanto, também uma celebração da identidade, da trajetória e da continuidade dessa estrutura internacional, com seus próprios dirigentes, símbolos, tradições e representantes militares.
A MOEDA DO PENTÁGONO E A INVERSÃO SIMBÓLICA DO PODER
O momento mais expressivo aconteceu durante o banquete de encerramento. Segundo o corpo da reportagem da Divisão Interamericana, a cerimônia ocorreu em 2 de julho de 2025, embora uma legenda fotográfica mencione 3 de julho. Ivan Omaña entregou a Wilson uma escultura de cristal representando a união de mãos. Em seguida, Andrew Harewood apresentou ao presidente adventista uma moeda comemorativa produzida pelo Pentágono.
O objeto merece atenção. Não era uma distinção religiosa convencional, como uma Bíblia comemorativa, uma placa missionária ou um certificado de reconhecimento pastoral. Era uma moeda associada à instituição militar americana, entregue por um oficial-general que havia exercido responsabilidades administrativas e estratégicas dentro daquela estrutura. A cena foi fotografada e publicada pela própria imprensa adventista, que apresentou a homenagem como demonstração de reconhecimento ao presidente mundial.
A leitura crítica dessa imagem altera seu significado. O que aparece inicialmente como uma homenagem prestada por capelães ao presidente da Igreja também pode ser interpretado como uma cerimônia na qual um representante de elevado posto militar oferece ao dirigente religioso um símbolo produzido pelo Pentágono. A autoridade eclesiástica recebe a homenagem; o general é quem a entrega. O pastor representa publicamente a instituição religiosa; o militar introduz na cerimônia um símbolo de sua trajetória e de sua ligação com o aparato militar americano.
A questão central de nossa investigação é a possibilidade de uma inversão entre a hierarquia aparente e a influência institucional: na apresentação pública, o presidente religioso ocupa o primeiro plano; na leitura crítica da cerimônia, o poder militar aparece como referência de prestígio, experiência e autoridade, enquanto a liderança eclesiástica oferece reconhecimento e legitimidade.
A distribuição dos papéis é particularmente reveladora. Ivan Omaña dirigiu o congresso. Andrew Harewood pronunciou a mensagem de abertura. Os capelães militares uniformizados foram apresentados publicamente. Mario Ceballos e outros antigos dirigentes foram homenageados. Ted Wilson discursou no encerramento e recebeu a moeda do Pentágono das mãos do general.
A sequência ganha relevância adicional quando observamos que Harewood assumiu formalmente, em fevereiro de 2026, a função de diretor assistente dos Ministérios Adventistas de Capelania na Associação Geral, já durante a presidência de Erton Köhler. O general que ocupou posição de destaque no congresso de 2025 passou, meses depois, a integrar a direção mundial da organização. Sua presença anterior demonstrava que ele já circulava entre os principais dirigentes internacionais da capelania adventista antes de assumir oficialmente o novo cargo.
A pergunta que as fotografias colocam diante de nossa investigação não é apenas quem convocou o congresso ou quem entregou a homenagem. É quem representava o poder de maior peso naquela cerimônia: Ted Wilson, investido de autoridade religiosa pela denominação, ou Andrew Harewood, cuja trajetória de general, estrategista militar e antigo dirigente no Pentágono lhe conferia uma experiência institucional construída fora da hierarquia eclesiástica?
Nossa interpretação considera que essas imagens expõem uma possível inversão da relação de poder apresentada aos membros. A Igreja religiosa aparece como centro visível da autoridade, enquanto a estrutura militar-adventista reúne dirigentes, conhecimentos estratégicos, relações governamentais e experiências de comando provenientes das Forças Armadas americanas. A cerimônia de St. Louis constitui, assim, um episódio especialmente expressivo para examinar a tese de que a autoridade religiosa pode funcionar como instrumento público de legitimação de um núcleo institucional cuja força e influência não se originam exclusivamente da administração eclesiástica.
A moeda do Pentágono entregue por Harewood a Ted Wilson torna-se, nessa leitura, o símbolo de uma pergunta que atravessa toda a nossa investigação sobre a Igreja Militar Adventista: quem realmente exerce a influência decisiva quando a autoridade pastoral e a experiência de comando militar se encontram dentro da mesma organização?
O GENERAL ADVENTISTA DO PENTÁGONO: QUEM MANDA EM QUEM NA IGREJA MILITAR ADVENTISTA?
O estrategista do Exército americano que entregou a moeda do Pentágono a Ted Wilson e depois assumiu um cargo na administração mundial da Igreja Adventista durante a presidência de Erton Köhler

Há uma fotografia publicada no site oficial da Reserva do Exército dos Estados Unidos que merece ser examinada com especial atenção pelos membros da Igreja Adventista do Sétimo Dia. A imagem apresenta Andrew R. Harewood, general de brigada da Reserva americana e ministro ordenado da denominação adventista. À primeira vista, poderia parecer apenas mais um registro de um capelão militar. Mas a apresentação institucional publicada pelo próprio Exército revela uma realidade muito mais complexa: Harewood ocupou posições superiores na administração militar americana, exerceu responsabilidades sobre treinamento, recursos e políticas de centenas de capelães e participou da estrutura de planejamento estratégico vinculada ao gabinete do chefe de capelães do Exército, no Pentágono.
O personagem não permaneceu exclusivamente na carreira militar. Em julho de 2025, apareceu diante da liderança mundial adventista entregando ao então presidente Ted N. C. Wilson uma moeda comemorativa produzida pelo Pentágono. Em fevereiro de 2026, já aposentado da carreira militar, assumiu o cargo de diretor assistente dos Ministérios Adventistas de Capelania na Associação Geral, sob a presidência de Erton Köhler. Na World Service Organization (WSO), apresenta-se como World Commanding Executive Officer, uma denominação que traduz uma função executiva de comando dentro da estrutura mundial de serviço adventista.
Essa sequência nos coloca diante de uma pergunta muito mais importante do que a presença de militares adventistas em cerimônias religiosas. O que significa a incorporação de um antigo general do Exército americano, formado em estratégia, planejamento, políticas e administração de recursos, à direção de uma organização religiosa internacional que mantém oficiais, regulamentos, estruturas de serviço e relações com instituições governamentais e militares? E como funcionam, nesse ambiente, as relações de autoridade entre o pastor que preside a denominação, o diretor mundial da capelania e o general que passa a integrar sua equipe?
O que o próprio Exército americano diz sobre Harewood
O primeiro documento relevante é uma reportagem oficial do Exército publicada em 2 de novembro de 2020, anunciando novos vice-chefes de capelães dos componentes da Reserva e da Guarda Nacional. O texto identifica Harewood como general de brigada e vice-chefe de capelães da Reserva do Exército dos Estados Unidos. Mais do que isso, apresenta-o como principal ligação entre a Reserva e o chefe de capelães do Exército americano, além de estrategista-chefe do Corpo de Capelães.
A expressão empregada pelo Exército é particularmente reveladora: “the Chaplain Corps’ chief strategist”. Não foi nossa investigação que inventou a designação de estrategista para o general adventista. É a própria instituição militar que a utiliza. A definição afasta qualquer tentativa de reduzir sua carreira à imagem convencional de um pastor que acompanha soldados para orar, aconselhar e celebrar cerimônias religiosas.
Harewood integrava a estrutura superior de liderança da capelania militar americana. Naquele momento, o general de divisão Thomas L. Solhjem ocupava a chefia nacional do Corpo de Capelães, enquanto os generais de brigada William Green Jr. e Thomas G. Behling representavam, respectivamente, o componente ativo e a Guarda Nacional. Harewood representava a Reserva. Essa organização reunia os responsáveis pela orientação administrativa e profissional da capelania nos principais componentes do Exército americano.
O detalhe denominacional aparece expressamente na mesma documentação. Segundo o Exército, Harewood era ministro ordenado e credenciado pela Igreja Adventista do Sétimo Dia para servir como capelão militar. O original registra: “He is ordained as a minister and endorsed as an Army chaplain by the Seventh-Day Adventist Church.” A tradução é direta: ele foi ordenado ministro e credenciado como capelão do Exército pela Igreja Adventista do Sétimo Dia.
Portanto, a identidade religiosa do general não é uma informação secundária introduzida posteriormente por uma publicação da Igreja. Faz parte do registro oficial utilizado pela instituição militar para identificar um de seus dirigentes superiores.
Setecentos capelães e quase 190 mil reservistas
A reportagem oficial publicada em 25 de novembro de 2020 acrescenta dados concretos sobre o alcance de suas responsabilidades. Harewood assessorava o chefe da Reserva do Exército e o comandante-geral do United States Army Reserve Command, duas autoridades com responsabilidades superiores sobre a administração e o funcionamento da Reserva americana.
O Exército informa que Harewood supervisionava recursos, treinamento e políticas de mais de 700 capelães que atendiam aproximadamente 190 mil militares reservistas, além de seus familiares e funcionários civis. A dimensão dessa estrutura não pode ser confundida com a administração de uma congregação religiosa ou de um pequeno grupo de assistência espiritual instalado numa base militar.
Supervisionar treinamento significa participar dos procedimentos institucionais que preparam profissionais para exercer determinadas funções. Supervisionar recursos significa integrar os mecanismos administrativos que sustentam essas atividades. Supervisionar políticas significa atuar no conjunto de normas, orientações e procedimentos utilizados pela organização. No contexto de um Exército, essas três responsabilidades pertencem à estrutura de administração militar, ainda que estejam relacionadas especificamente à capelania.
Não estamos falando de um funcionário religioso ocasionalmente consultado por comandantes. Estamos falando de um oficial-general cuja posição era reconhecida oficialmente como parte da direção superior do Corpo de Capelães e que assessorava autoridades de comando da Reserva americana.
O diretor de Estratégia, Políticas Profissionais e Recursos
A documentação revela uma atribuição ainda mais importante para nossa investigação. Harewood acumulava a vice-chefia da capelania da Reserva com a direção do Strategy, Proponency, and Resources Directorate (SPR), no gabinete do chefe de capelães do Exército. Uma tradução explicativa dessa denominação seria Diretoria de Estratégia, Gestão Profissional e Recursos.
A palavra “proponency”, utilizada na administração militar americana, refere-se à responsabilidade institucional pelo desenvolvimento, pela organização e pelos padrões de uma determinada especialidade profissional. Portanto, o cargo reunia três dimensões administrativas: estratégia, desenvolvimento institucional da carreira e recursos.
Não dependemos exclusivamente de uma notícia de 2020 para estabelecer essa atribuição. O próprio Exército voltou a registrá-la no relatório institucional The State of the U.S. Army Chaplain Corps, publicado em abril de 2023. Na página 6, o documento identifica Harewood como vice-chefe de capelães da Reserva e diretor do Strategy, Proponency & Resources Directorate.
Trata-se de um registro administrativo produzido pela instituição militar para apresentar a situação do próprio Corpo de Capelães. Sua importância reside precisamente nisso: confirma que a participação de Harewood na administração estratégica não era uma descrição exagerada introduzida por admiradores ou colegas religiosos. Era uma responsabilidade reconhecida no organograma militar.
No Pentágono: políticas, legislação, doutrina e operações de contingência
Se os documentos do Exército já são expressivos, a biografia publicada pela própria World Service Organization apresenta uma descrição ainda mais ampla. Segundo a WSO, Harewood exerceu a direção de Strategy, Plans, Policy, Resources, and Soldier/Family Spiritual Readiness (SPPRS), no gabinete do chefe de capelães, localizado no Pentágono.
A organização adventista informa que, nessa função, ele dirigiu atividades administrativas relacionadas a políticas, legislação, doutrina, assuntos governamentais, acomodação religiosa, diversidade, gestão de forças, planejamento estratégico, estudos institucionais, mobilização e operações de contingência. Também trabalhou com Army Commands (ACOMs), Army Service Component Commands (ASCCs) e Direct Reporting Units (DRUs), organizações que compõem diferentes níveis da estrutura militar americana.
É necessário compreender o alcance dessas informações. Harewood não dirigia toda a estratégia militar dos Estados Unidos. Suas competências pertenciam à administração da capelania e do apoio religioso. Mas, dentro desse campo, exercia funções que envolviam planejamento, administração, políticas, doutrina, pessoal e preparação para situações operacionais. A natureza religiosa da especialidade não eliminava o caráter militar da organização em que essas responsabilidades eram exercidas.
A própria WSO informa ainda que Harewood participou de atividades associadas a operações na América Central, em 1994; à Operação Iraqi Freedom, em 2003; e a estruturas das forças combinadas no Afeganistão, em 2006. Sua carreira incluiu passagens pelo Pentágono, pelo United States Army Reserve Command, pelo 80th Training Command e pelo quartel-general do FORSCOM, em Fort Bragg.
Seu currículo inclui formação em instituições de desenvolvimento de liderança militar, no Command and General Staff College, no Force Management Staff College e em programas de administração estratégica. Entre suas condecorações estão a Army Distinguished Service Medal, a Legion of Merit e a Defense Meritorious Service Medal. Segundo a mesma biografia, suas contribuições também receberam reconhecimento da Casa Branca e de instituições civis e militares.
O retrato institucional, portanto, é bastante diferente daquele sugerido pela palavra capelão quando empregada isoladamente. Estamos diante de um profissional que percorreu uma carreira militar de várias décadas, alcançou a patente de general de brigada, participou de estruturas superiores de planejamento e administração e acumulou experiência em operações e organizações militares internacionais.
O pastor adventista que já estava dentro da estrutura militar
Há um aspecto particularmente interessante nessa trajetória. Harewood não deixou de ser adventista para ingressar no Exército. O próprio Exército reconheceu que seu credenciamento religioso vinha da Igreja Adventista do Sétimo Dia. Durante a carreira militar, portanto, coexistiam duas relações institucionais: o vínculo eclesiástico que o qualificava para atuar como capelão e a cadeia de comando militar responsável por definir suas atribuições como oficial.
Essa dupla vinculação constitui um dos aspectos mais importantes de nossa investigação sobre a Igreja Militar Adventista. A denominação mantém mecanismos de credenciamento de capelães e programas específicos de relacionamento com militares. O Estado, por sua vez, incorpora esses profissionais a suas estruturas, atribuindo-lhes postos, responsabilidades e condições de atuação dentro da organização militar.
No caso de Harewood, essa convivência alcançou o nível de oficial-general. Durante sua carreira, sua atuação militar era submetida às autoridades e normas do Exército americano. A Igreja lhe concedia o reconhecimento religioso necessário ao exercício da capelania, mas não comandava as unidades militares nas quais ele servia.
Isso ajuda a explicar por que a figura do pastor-general merece uma investigação específica. Não se trata apenas da soma de duas profissões, mas da circulação de uma mesma pessoa entre instituições com sistemas próprios de autoridade, formação, disciplina e administração.
A moeda do Pentágono nas mãos de Ted Wilson
Em 3 de julho de 2025, durante o Congresso Mundial de Capelania Adventista realizado em St. Louis, essa relação entre a Igreja e o ambiente militar americano ganhou uma representação pública particularmente expressiva.
Conforme a reportagem oficial da Divisão Interamericana sobre o encerramento do congresso, o então presidente mundial adventista, Ted N. C. Wilson, recebeu homenagens de dirigentes da capelania. Ivan H. Omaña entregou-lhe uma escultura de cristal simbolizando a união de mãos. Em seguida, capelães militares apresentaram uma moeda comemorativa produzida pelo Pentágono, entregue pelo general Andrew Harewood.
A reportagem registra que Wilson agradeceu a homenagem e afirmou que colocaria os presentes em sua mesa como lembrança do trabalho realizado pelos capelães. A publicação também identifica a presença do capitão John R. Logan, da Marinha dos Estados Unidos, que exercia funções de capelania junto ao 1st Marine Logistics Group.
A cena reúne diversos elementos simbólicos: o presidente mundial da denominação, o diretor mundial da capelania adventista, um general aposentado da Reserva do Exército americano e um capitão da Marinha. O objeto entregue ao dirigente religioso havia sido produzido pelo Pentágono. Tudo foi registrado e divulgado pela própria imprensa denominacional.
Não se trata de um detalhe irrelevante de protocolo. A moeda representa publicamente a proximidade entre a direção religiosa e profissionais de elevado posto militar. No caso de Harewood, essa proximidade é acompanhada por uma carreira documentada no gabinete do chefe de capelães do Exército, incluindo funções estratégicas e administrativas.
O episódio ocorreu num momento de transição da presidência mundial adventista. Ted Wilson deixava o cargo, enquanto Erton Köhler assumia a direção da Associação Geral. Meses depois, o mesmo general que participara da homenagem passaria a integrar formalmente a administração mundial da denominação.
O general que entrou na equipe mundial durante a presidência de Erton Köhler
A página oficial da Adventist Chaplaincy Ministries informa que Andrew R. Harewood assumiu em fevereiro de 2026 a função de diretor assistente da capelania adventista na Associação Geral. A nomeação ocorreu durante a presidência de Erton Köhler, eleito em julho de 2025.
A documentação pública consultada não identifica o ato administrativo específico pelo qual sua nomeação foi aprovada nem atribui pessoalmente a Köhler a decisão. Mas situa a incorporação do general à administração mundial durante seu mandato e confirma a natureza permanente de suas novas responsabilidades.
Segundo a biografia oficial, Harewood passou a contribuir para o credenciamento, o desenvolvimento, o treinamento e o aperfeiçoamento profissional de capelães adventistas em diferentes áreas, incluindo instituições militares, hospitais, universidades, serviços policiais, estabelecimentos penitenciários e outras organizações.
Na World Service Organization, sua função é apresentada com a designação World Commanding Executive Officer. O diretor mundial é Ivan H. Omaña, identificado como World Commanding Officer. Mario E. Ceballos aparece como diretor de Operações e Treinamento, além de executivo do Medical Cadet Corps.
A composição merece atenção: um venezuelano dirige a estrutura mundial; um general aposentado do Exército americano ocupa a direção executiva de comando; e um antigo comandante da Reserva da Marinha americana desempenha funções ligadas às operações e ao treinamento do programa de cadetes adventistas.
O general obedece ao pastor ou o pastor obedece ao general?
A chegada de Harewood à administração mundial apresenta uma questão que dificilmente seria levantada diante de um dirigente eclesiástico convencional. Em princípio, um diretor assistente de departamento deve exercer suas responsabilidades segundo as competências estabelecidas pela organização que o nomeou. Na Associação Geral, isso significa trabalhar dentro de uma estrutura administrativa submetida às políticas denominacionais e aos órgãos responsáveis pelas nomeações e decisões.
Mas Harewood traz consigo uma experiência institucional muito diferente daquela de um pastor cuja carreira se desenvolveu exclusivamente em igrejas locais, associações e uniões. Seu currículo inclui treinamento militar, planejamento estratégico, administração de recursos, políticas, doutrina e relações com comandos superiores do Exército americano.
Durante a carreira militar, ele obedecia às normas e à cadeia de comando do Exército. Como dirigente denominacional, exerce funções estabelecidas pela Igreja. A patente de general aposentado não lhe confere autoridade militar sobre Erton Köhler ou Ivan Omaña. Da mesma maneira, a presidência da Associação Geral não concede a Köhler qualquer poder de comando sobre o Exército americano.
Entretanto, as relações entre instituições não se resumem às linhas desenhadas nos organogramas. Experiência profissional, conhecimentos administrativos, métodos de planejamento e relações construídas ao longo de uma carreira podem continuar relevantes depois que alguém muda de função ou de organização.
É nesse sentido que a presença de Harewood na direção mundial merece exame. A Igreja não incorporou simplesmente um pastor aposentado da atividade religiosa militar. Incorporou um antigo oficial-general cuja experiência estratégica foi reconhecida pelo próprio Exército e descrita detalhadamente pela WSO.
Quem influencia as decisões? Quem formula os programas? Quem estabelece os padrões de treinamento? Quem participa das orientações sobre relações com instituições militares? Quem decide quais contatos internacionais devem ser desenvolvidos? Essas perguntas precisam ser dirigidas à estrutura administrativa da WSO, especialmente quando seus dirigentes possuem trajetórias profissionais tão relacionadas às instituições militares americanas.
O problema venezuelano: quando essa experiência atravessa fronteiras
A relevância internacional dessa estrutura aparece em nossa investigação sobre a Venezuela. O manual oficial do Cuerpo de Servicio Nacional Adventista, publicado pela União Venezuelana Oriental em junho de 2025, declara contar com o respaldo da World Service Organization. O documento estabelece hierarquias, responsabilidades, procedimentos de comunicação, uniformes e uma organização própria de dirigentes, delegados e cadetes.
Mario E. Ceballos aparece nominalmente como revisor técnico do manual. Trata-se do mesmo dirigente que integra a estrutura mundial da WSO ao lado de Ivan Omaña e Andrew Harewood.
Essa relação demonstra que a organização venezuelana não desenvolveu seu regulamento completamente isolada da administração internacional adventista. Houve reconhecimento declarado da WSO e participação técnica de um dirigente mundial com carreira militar americana.
A questão institucional consiste em determinar até onde se estendem essas relações. A revisão técnica de um manual não equivale automaticamente ao comando das operações realizadas por seus integrantes. Mas identifica uma participação concreta na formação normativa de uma organização venezuelana que possui hierarquia própria e desempenha atividades em seu território.
No contexto de nossa investigação sobre a estrutura militar-adventista, isso reforça a importância de examinar como são transmitidas orientações, como são formados dirigentes e quais competências são exercidas pelas instâncias internacionais sobre programas nacionais.
O que a imagem do Exército revela e a denominação precisa explicar
A fotografia de Harewood no site oficial da Reserva do Exército americano tem importância justamente porque sua origem dispensa a necessidade de confiar exclusivamente na narrativa produzida pela denominação. É o próprio Exército que reconhece sua posição militar, sua condição de ministro adventista, sua participação na liderança superior da capelania e suas responsabilidades sobre treinamento, políticas e recursos.
Outros documentos militares acrescentam a condição de estrategista-chefe, a direção de Estratégia, Gestão Profissional e Recursos e a participação em estruturas de planejamento e coordenação. A própria World Service Organization amplia esse quadro ao apresentar responsabilidades anteriormente exercidas no Pentágono, incluindo assuntos governamentais, doutrina, mobilização e operações de contingência.
Depois de tudo isso, reduzir Harewood à condição de simples capelão significa ignorar justamente as informações publicadas pela instituição militar em que ele construiu sua carreira.
O contraste entre a imagem pastoral e o currículo militar é o aspecto mais expressivo dessa história. Na apresentação religiosa, o capelão aparece como ministro de assistência espiritual. Na documentação militar, encontramos um general que trabalhou com administração estratégica. Na estrutura adventista contemporânea, o mesmo homem aparece como dirigente mundial de uma organização de serviço que mantém relações com profissionais militares e governamentais.
Não são três personagens diferentes. É Andrew R. Harewood, cuja trajetória atravessa as três dimensões.
Um pastor, um general e duas estruturas de autoridade
Nossa investigação sobre a Igreja Militar Adventista já percorreu um longo caminho, desde a War Service Commission, passando por Everett N. Dick, pelo Medical Cadet Corps, pelo treinamento dos 104 jovens adventistas no Colegio de las Antillas e pela colaboração institucional da escola cubana durante os acontecimentos revolucionários de 1958. O caso Harewood acrescenta uma dimensão contemporânea à história: a presença de um antigo dirigente superior da capelania militar americana na administração mundial de uma organização adventista internacional.
O encontro entre as duas estruturas não ocorreu apenas numa fotografia ou numa cerimônia de homenagem. A carreira militar foi real, documentada pelo Exército. A moeda do Pentágono foi entregue publicamente a Ted Wilson. O ingresso na administração mundial ocorreu em fevereiro de 2026. A composição da direção da WSO é apresentada pela própria denominação.
O problema, portanto, não é descobrir se existem relações entre a Igreja Adventista e integrantes da administração militar americana. Essa relação está documentada. A questão é compreender como funcionam as estruturas denominacionais que incorporam antigos oficiais superiores, quais competências lhes são atribuídas e que influência sua formação e experiência exercem sobre programas internacionais.
Um pastor que aceita uma nomeação denominacional deve responder às autoridades e às normas de sua organização. Um general em serviço responde à cadeia de comando militar. Andrew Harewood percorreu ambas as trajetórias. A Igreja o credenciou como capelão do Exército; o Exército o promoveu e lhe atribuiu responsabilidades estratégicas; posteriormente, a administração mundial adventista o recebeu como dirigente.
Quem obedece a quem? Formalmente, cada instituição possui sua própria hierarquia. Mas a pergunta mais profunda é quem influencia as decisões quando dirigentes formados nas estruturas superiores de uma organização militar passam a ocupar posições de direção numa organização religiosa internacional.
É essa questão que a fotografia oficial de Harewood, sua biografia militar, a moeda entregue a Ted Wilson e sua posterior nomeação durante a presidência de Erton Köhler colocam diante da Igreja Adventista. E é por isso que o caso pertence ao centro de nossa investigação sobre a chamada Igreja Militar Adventista.
DOCUMENTOS ORIGINAIS
Exército dos Estados Unidos: fotografia e registro oficial de Andrew R. Harewood na Reserva do Exército; reportagem de 2 de novembro de 2020 sobre a direção superior da capelania; reportagem de 25 de novembro de 2020 sobre suas responsabilidades administrativas; e relatório The State of the U.S. Army Chaplain Corps, abril de 2023.
World Service Organization: página oficial da direção mundial, com biografias de Ivan Omaña, Andrew Harewood e Mario Ceballos.
Associação Geral: página oficial da Adventist Chaplaincy Ministries, que informa a entrada de Harewood em fevereiro de 2026.
Divisão Interamericana: reportagem do congresso mundial de capelania de julho de 2025, com o registro da moeda do Pentágono entregue a Ted Wilson.
Venezuela: manual oficial do Cuerpo de Servicio Nacional Adventista, União Venezuelana Oriental, junho de 2025.





