
QUANDO MATARAM A ANTIGA IGREJA ADVENTISTA?
De Froom à queda de Robert H. Pierson e à ascensão de Neal Wilson: jesuítas, Maçonaria, mudanças doutrinárias e os bastidores de uma transformação que aproximou a liderança adventista de Roma, Washington, Moscou e do Pentágono.
Existe uma fotografia aparentemente inocente, perdida nas páginas amareladas de uma publicação adventista africana de 1978, que talvez seja um dos melhores lugares para começarmos esta história. Nela aparece Neal C. Wilson, ainda na transição que o levaria ao comando mundial da Igreja Adventista do Sétimo Dia, acompanhado por um pastor africano uniformizado chamado E. Sakey.
A legenda não deixa margem para dúvida quanto à função desempenhada pelo homem: o pastor havia comandado uma “guard of honour”, uma guarda de honra organizada para receber Wilson em sua chegada ao camp meeting de Akoase, em Gana. Décadas depois descobrimos que aquele personagem quase esquecido da fotografia era Ebenezer Obodai Sackey, homem que não permaneceria à margem da estrutura denominacional. Sua trajetória oficial o levaria de pastor a diretor de jovens, presidente de campo e finalmente presidente da União da África Ocidental, antes de seguir para a Inglaterra.
A própria Igreja Adventista, em seu obituário, registra essa escalada administrativa. A biografia oficial de Ebenezer Obodai Sackey pode ser consultada aqui. O que parecia uma fotografia cerimonial começa, assim, a adquirir outra dimensão: o homem uniformizado que comandava a guarda diante de Neal Wilson não era um figurante contratado para ornamentar uma recepção. Era um pastor adventista cuja carreira atravessaria algumas das décadas mais importantes da transformação que estamos investigando.
A fotografia torna-se ainda mais extraordinária quando observamos a página inteira. Perto da imagem de Wilson e Sackey, a própria revista colocou um texto intitulado “A SYMBOL OF POWER” — “UM SÍMBOLO DE PODER”. O artigo começava recordando a conhecida advertência de que o poder corrompe e o poder absoluto corrompe absolutamente e acrescentava, com uma franqueza surpreendente, que os dirigentes adventistas, embora protegidos em tese por sua relação com Deus e pelo sistema de governo da Igreja, poderiam chegar perigosamente perto dessa corrupção. O símbolo utilizado era uma mão segurando um ovo: apertá-lo demais significava esmagá-lo; segurá-lo frouxamente significava deixá-lo cair.
Não fomos nós, quarenta e oito anos depois, que colocamos na mesma página Neal Wilson, um pastor uniformizado, uma guarda comandada por esse pastor e uma reflexão sobre poder. Foram os próprios editores adventistas que fizeram essa montagem editorial em 1978. Hoje, conhecendo aquilo que viria depois, é difícil olhar para aquela página sem perceber nela uma espécie de fotografia antecipada da história que pretendemos reconstruir.
Mas precisamos interromper por alguns instantes a trajetória de E. Sakey e olhar não apenas para essa fotografia, mas para a revista inteira em que ela foi publicada. Porque, quando examinamos a capa, a continuação da matéria na página 4, a extraordinária montagem da página 5 e finalmente a notícia estampada na página 8, percebemos que Sakey foi fotografado no meio de algo muito maior: a transferência do comando mundial adventista de Robert H. Pierson para Neal C. Wilson. E o próprio periódico deixou uma palavra para interpretar aquele momento: poder.

A REVISTA QUE ANUNCIOU A TROCA DE COMANDO — E AVISOU: “O PODER CORROMPE”
Há documentos que ganham importância não apenas pelo que dizem, mas pela maneira como foram montados. Foi exatamente isso que encontramos neste número do West African Advent Messenger, órgão oficial da Igreja Adventista na África Ocidental. Quando inicialmente localizamos a fotografia do pastor E. Sakey comandando a guarda de honra que recebeu Neal C. Wilson na reunião campal de Akoase, nossa atenção estava concentrada naquele personagem africano e na surpreendente linguagem militar empregada pela própria revista. Uma leitura integral do exemplar, porém, revela algo muito maior. A fotografia de Sakey não está isolada. Ela foi colocada no centro de uma edição construída em torno da troca do comando mundial adventista: Robert H. Pierson está saindo; Neal C. Wilson está chegando. Entre um e outro, aparece uma advertência extraordinária sobre aquilo que estava sendo transferido: o poder.
A sequência começa já na capa. Neal C. Wilson aparece como protagonista sob a chamada “Neal C. Wilson Receives A Cordial Welcome In Togo And Ghana” — “Neal C. Wilson recebe uma calorosa recepção no Togo e em Gana”. Mais importante ainda é a apresentação colocada logo abaixo: “The newly elected President of the General Conference of Seventh-day Adventists makes Africa his first stop on his maiden tour outside the United States” — “O recém-eleito presidente da Associação Geral dos Adventistas do Sétimo Dia faz da África sua primeira parada em sua viagem inaugural fora dos Estados Unidos”. Não estamos, portanto, diante da visita rotineira de mais um administrador. A própria capa apresenta a viagem como a primeira saída internacional do homem escolhido para ocupar o posto máximo da denominação.

NA PÁGINA 4, A PALAVRA É “TRANSFERIR”
A matéria continua na página 4, e é aí que o significado político-institucional da viagem se torna ainda mais evidente. Wilson chega ao Togo e é recebido na pista do aeroporto pelos pastores Johansen e Nortey, representantes da União da África Ocidental. Segue para a igreja adventista de Lomé, onde encontra o templo preparado para recebê-lo e fala aos membros. Naquela mesma noite, viaja de carro para Accra. No dia seguinte visita a Advent Press, examina as necessidades da instituição, passa pelos escritórios da União, conversa com seus funcionários e continua de automóvel para Kumasi. Ali fala em duas reuniões campais, visita a escola secundária de Bekwai e divide a noite entre uma reunião na Igreja Central de Kumasi e uma visita de cortesia ao Asantehene.
A própria disposição das fotografias acompanha esse roteiro de autoridade. Numa delas, Wilson é recebido pelos dirigentes adventistas da União. Em outra, encontra-se no Palácio Manhyia com Otumfuo Opoku Ware II, o Asantehene. A legenda informa que os dois líderes se cumprimentaram calorosamente e passaram algum tempo conversando “about the church and her relationship to Africa and to Ghana in particular” — “sobre a Igreja e sua relação com a África e, particularmente, com Gana”. A mesma legenda registra que Wilson declarou que Gana, como uma das principais nações africanas, tinha papel crucial nos assuntos do continente e que ele orou pelo Asantehene, pedindo a Deus sabedoria para que conduzisse seu povo e ajudasse a construir uma nação unida.
É uma apresentação cuidadosamente construída do novo presidente. Wilson atravessa igreja, editora, sede administrativa, escola, reuniões campais e palácio. A matéria recorda ainda sua ligação biográfica com a África. Ele conta que chegou ao continente com os pais quando tinha quatro anos e meio e que, brincando com crianças africanas e literalmente enterrando os dedos dos pés naquele solo, estabeleceu ali suas primeiras raízes. O redator então repete uma expressão significativa: “He is one of us” — “Ele é um de nós”. Wilson seria “um de nós” por suas raízes africanas, “um de nós” por sua devoção à verdade e “um de nós” por pertencer à grande família de Deus.
Mas é no encerramento da matéria que encontramos a frase que muda nossa leitura de todo o conjunto. O texto se dirige diretamente a Robert H. Pierson e afirma: “We would like to assure Elder R. Pierson that he can count on our support for his successor, and that we shall transfer to the new president the allegiance, love, respect that we all had for him” — “Gostaríamos de assegurar ao pastor R. Pierson que ele pode contar com nosso apoio ao seu sucessor e que transferiremos ao novo presidente a lealdade, o amor e o respeito que todos nós tínhamos por ele.”
Transferiremos. É a palavra empregada pela própria publicação. Não precisamos inventar uma metáfora para a troca de comando: o órgão oficial adventista a forneceu. A lealdade anteriormente depositada em Pierson seria transferida para Wilson. E é precisamente depois dessa declaração que o leitor vira a página.

“UMA COISA EU FAÇO”: O NOVO PRESIDENTE E O SÍMBOLO DO PODER
A página 5 é uma composição extraordinária. Nela encontramos Wilson sentado diante de um enorme emblema contendo as palavras “ONE THING I DO” — “UMA COISA EU FAÇO”. Abaixo da fotografia, a revista não deixa o lema funcionando apenas como cenário. Ela o aplica diretamente ao novo presidente: “ONE THING I DO. THIS SINGLE-MINDEDNESS IS THE PRESIDENT’S GREATEST ASSET” — “UMA COISA EU FAÇO. ESSA FIRMEZA DE PROPÓSITO É O MAIOR TRUNFO DO PRESIDENTE.”
É nesse mesmo espaço editorial que reaparece o homem que nos levou originalmente à revista. Outra fotografia mostra o pastor E. Sakey diante de uma formação organizada de homens uniformizados. A legenda é inequívoca: “Pastor E. Sakey commanded a guard of honour which welcomed Neal C. Wilson at his arrival at Akoase camp-meeting. Pastor C. B. Mensah represented the Union there” — “O pastor E. Sakey comandou uma guarda de honra que recebeu Neal C. Wilson em sua chegada à reunião campal de Akoase. O pastor C. B. Mensah representou a União naquela ocasião.”
É preciso observar o conjunto e não apenas cada fotografia separadamente. O recém-eleito presidente mundial chega à África. A publicação declara que a lealdade dedicada a Pierson será transferida para ele. Wilson é apresentado como “um de nós”. Uma guarda de honra comandada por um pastor o recebe. E sua fotografia aparece sob o lema “UMA COISA EU FAÇO”, acompanhado da afirmação de que essa concentração absoluta num propósito constitui seu maior trunfo.
Então, na mesma página, surge o ovo.
“O PODER CORROMPE; O PODER ABSOLUTO CORROMPE ABSOLUTAMENTE”
Ao lado da apresentação de Wilson, a revista coloca uma fotografia de uma mão sustentando cuidadosamente um ovo. O título não poderia ser mais sugestivo: “A SYMBOL OF POWER” — “UM SÍMBOLO DO PODER”. E o primeiro período começa com uma sentença que, naquele contexto de substituição presidencial, soa como um comentário direto sobre o comando que terminava: “POWER CORRUPTS, ABSOLUTE POWER CORRUPTS ABSOLUTELY” — “O PODER CORROMPE; O PODER ABSOLUTO CORROMPE ABSOLUTAMENTE.”
A crítica a Robert H. Pierson está diante dos olhos do leitor no momento em que a própria revista anuncia a transferência da lealdade para seu sucessor. E o texto não abandona o assunto depois da frase de abertura. Ao contrário, passa imediatamente aos dirigentes adventistas: “Our leaders” — “Nossos líderes”. A revista sustenta que, em razão de seu relacionamento pessoal com o Senhor e do sistema de governo denominacional, esses líderes não deveriam ser corrompidos pelo poder, mas acrescenta uma frase quase desconcertante: “Some might get quite close to it though” — “Alguns, contudo, podem chegar bem perto disso.”
Não estamos mais falando abstratamente de imperadores romanos, presidentes de países ou ditadores distantes. O substantivo empregado é “our leaders” — “nossos líderes”. E quem acaba de aparecer na página anterior? Pierson, o presidente cuja lealdade estava sendo transferida. Quem domina aquela edição? Wilson, o sucessor. Qual é o assunto? A passagem do comando mundial adventista de um para o outro.
O ovo completa a mensagem. A publicação explica: “This symbol, a hand holding an egg, reminds us that we should be careful how we wield power” — “Este símbolo, uma mão segurando um ovo, lembra-nos de que devemos ter cuidado com a maneira como exercemos o poder.” Depois vem a imagem verbal: “Be heavy handed and you’ll smash the egg of power. Be lax, and the egg will fall from your hand and break” — “Tenha mão pesada e você esmagará o ovo do poder. Seja frouxo, e o ovo cairá de sua mão e se quebrará.”
O poder, portanto, é representado como algo que se recebe nas mãos e precisa ser sustentado. Apertá-lo excessivamente o destrói; segurá-lo frouxamente também. E dificilmente poderia existir metáfora mais apropriada para uma edição que acabara de declarar que algo estava sendo transferido de Pierson para Wilson. A revista transforma o poder num ovo colocado nas mãos do dirigente exatamente quando registra a passagem desse poder de um presidente para outro.
O “OVO” ATRÁS DE WILSON
Há ainda um detalhe gráfico fascinante. Atrás de Wilson aparece o grande emblema “ONE THING I DO” — “UMA COISA EU FAÇO”. Seu contorno arredondado, erguido verticalmente e atravessado por um elemento ascendente, produz visualmente uma forma que lembra um ovo colocado em pé. Ao lado, literalmente, está a fotografia da mão sustentando o ovo identificado pela revista como “símbolo do poder”. A aproximação gráfica dos dois elementos é impressionante: Wilson aparece diante de uma grande forma ovalada associada ao seu propósito; imediatamente ao lado, o ovo real representa o poder.
O emblema “ONE THING I DO” não era a logomarca da Associação Geral nem da Divisão Norte-Americana. Tratava-se do lema empregado pela então Northern Europe–West Africa Division — Divisão Norte-Europeia–Oeste-Africana. Portanto, não era originalmente um símbolo pessoal de Wilson. Mas isso torna a utilização editorial ainda mais interessante: a revista coloca o recém-eleito presidente diante daquele símbolo e transforma o lema institucional numa característica pessoal dele ao escrever que aquela “single-mindedness” — “firmeza de propósito” era justamente “the President’s greatest asset” — “o maior trunfo do presidente”. A composição faz o lema aderir visualmente ao homem.

E NA ÚLTIMA PÁGINA, PIERSON CAI
Depois de tudo isso, chegamos à página 8, a última do exemplar. Ali não encontramos uma pequena nota escondida. Encontramos uma manchete em letras grandes: “ROBERT H. PIERSON, WORLD ADVENTIST PRESIDENT RESIGNS FOR HEALTH REASONS” — “ROBERT H. PIERSON, PRESIDENTE MUNDIAL ADVENTISTA, RENUNCIA POR MOTIVOS DE SAÚDE.” A notícia informa que Pierson anunciou sua renúncia ao Concílio Anual em 16 de outubro, às nove horas da manhã, e que deixaria o cargo em 3 de janeiro de 1979, quando completaria 68 anos.
O texto acrescenta algo ainda mais importante para compreendermos o clima daquele momento: “The resignation was completely unexpected by leaders at the General Conference” — “A renúncia foi completamente inesperada pelos líderes da Associação Geral.” Os presidentes das divisões mundiais haviam sido informados no dia anterior, mas a maior parte da liderança desconhecia a decisão até o anúncio formal. Clyde O. Franz, secretário da Associação Geral, resumiu o sentimento de muitos numa única palavra: “numb” — “atônitos”, “entorpecidos pelo choque”.
A mesma notícia recorda que Pierson fora eleito presidente em junho de 1966, em Detroit; reeleito em Atlantic City em 1970 e novamente em Viena em 1975. Seu mandato deveria alcançar 1980, mas terminaria antecipadamente depois de aproximadamente doze anos e meio no comando.
DA CAPA À CONTRACAPA: UMA EDIÇÃO SOBRE PODER
Agora podemos enxergar o exemplar inteiro. Na capa, Neal C. Wilson é apresentado como o recém-eleito presidente e inicia sua primeira viagem fora dos Estados Unidos. Na página 4, os dirigentes africanos o recebem, ele encontra uma autoridade africana e a revista anuncia expressamente que a lealdade, o amor e o respeito anteriormente dedicados a Pierson serão transferidos ao sucessor. Na página 5, Wilson aparece diante de “UMA COISA EU FAÇO”; a revista declara que sua firmeza de propósito é seu maior trunfo; Sakey comanda uma guarda de honra para recebê-lo; e, ao lado, uma mão sustenta o “SÍMBOLO DO PODER” enquanto o leitor é advertido de que “O PODER CORROMPE; O PODER ABSOLUTO CORROMPE ABSOLUTAMENTE”. Na página 8, Pierson renuncia inesperadamente.
A sequência é poderosa demais para ser reduzida à legenda de uma fotografia. O que encontramos é praticamente uma narrativa gráfica da sucessão: Wilson chega; Pierson entrega; a lealdade é transferida; o poder é colocado nas mãos do sucessor. Entre os dois presidentes, o editor coloca um ovo.
E é justamente aí que a presença de E. Sakey adquire um significado muito maior para nossa investigação. Ele não aparece apenas ao lado de um visitante importante. A revista registra que Sakey “commanded a guard of honour” — “comandou uma guarda de honra” para receber o homem que estava assumindo o comando mundial adventista. Sakey está fisicamente inserido no ritual de recepção daquele novo poder.
Décadas depois, quando seguimos os fios que partem desses personagens, instituições, estruturas uniformizadas e relações entre autoridade religiosa e organização militar, aquela velha página africana deixa de parecer uma curiosidade fotográfica. Ela se torna uma fotografia de um momento de passagem. Pierson estava saindo. Wilson estava chegando. A própria revista dizia que a lealdade seria transferida. E, entre a fotografia do sucessor e a notícia da renúncia do antecessor, deixou impressa uma advertência que hoje parece quase uma legenda para toda aquela transição: “O PODER CORROMPE; O PODER ABSOLUTO CORROMPE ABSOLUTAMENTE.”
ANTES DE NEAL WILSON, HAVIA FROOM
Seria confortável responsabilizar Neal C. Wilson sozinho pelo que aconteceu com o adventismo nas décadas seguintes. Seria também historicamente pobre. Quando Wilson alcançou a presidência mundial, uma parte decisiva da transformação já havia ocorrido. Le Roy Edwin Froom havia atravessado décadas de elaboração teológica, diálogo interdenominacional e reconstrução da maneira pela qual a Igreja apresentava suas doutrinas ao mundo protestante. O arquivo oficial da própria denominação preserva suas principais obras, entre elas Prophetic Faith of Our Fathers, Conditionalist Faith of Our Fathers e Movement of Destiny. Froom não foi um teólogo periférico escrevendo sozinho numa biblioteca. Foi durante anos editor da Ministry, uma das mais importantes revistas ministeriais da denominação, posição que o próprio Adventist Archives registra em sua cronologia editorial. Sua participação no processo que desembocou em Questions on Doctrine, publicado em 1957 depois dos famosos contatos com Donald Grey Barnhouse e Walter Martin, situa-o exatamente no centro da tentativa de apresentar o adventismo numa linguagem aceitável ao protestantismo evangélico norte-americano.
Mas encontramos algo ainda mais significativo para esta investigação. Em janeiro de 1966, uma publicação oficial adventista registrou Froom falando para nada menos que 33 sacerdotes católicos em formação. A legenda da fotografia dizia que “Dr. L. E. Froom traces Adventist belief in Bible prophecy for 33 priests in training from Catholic University”. Poucos meses depois, a própria Ministry publicou sua exposição explicando que aquele texto era o resumo da apresentação que Froom fizera diante de um grupo de “Catholic student-priests”. Não estamos, portanto, imaginando retrospectivamente uma aproximação. O documento permanece disponível no arquivo oficial adventista. O homem que participara decisivamente da reformulação da apresentação doutrinária adventista aos evangélicos estava também apresentando pessoalmente a fé adventista a futuros sacerdotes católicos. O ambiente era precisamente aquele em que o Vaticano II acabara de modificar profundamente a estratégia católica de relacionamento com os chamados “irmãos separados”.

ALBERTO RIVERA E A TESE DA TRANSFORMAÇÃO POR DENTRO
É nesse ponto que Alberto Rivera retorna à nossa investigação. Para nossos leitores mais antigos, o nome não é novidade. O Adventistas.com publicou há mais de duas décadas material apresentando a denúncia de Rivera sobre a estratégia jesuíta de penetração nas denominações protestantes e voltou posteriormente ao assunto. Rivera descrevia uma transformação que não precisaria acontecer por meio de uma declaração espetacular de submissão a Roma; segundo sua interpretação, ela ocorreria por aproximações progressivas, alteração da linguagem, substituição de antagonismos históricos, ecumenização e transformação das próprias estruturas religiosas a partir de dentro. A importância de Rivera para nós não está em utilizá-lo como uma espécie de cartório capaz de autenticar sozinho cada personagem desta história. Está em colocar o modelo de transformação que ele descreveu diante da transformação que efetivamente observamos no adventismo e perguntar ao leitor se os resultados históricos guardam ou não uma inquietante semelhança com o processo denunciado.
A mudança que nos interessa não aconteceu numa terça-feira específica em que alguém apagou a antiga Igreja Adventista e inaugurou outra. Ela ocorreu por acumulação. A denominação que havia construído grande parte de sua identidade profética em oposição ao sistema romano começou a buscar reconhecimento no mundo evangélico; seus teólogos passaram a reformular a maneira pela qual algumas doutrinas eram apresentadas; representantes adventistas acompanharam o ambiente produzido pelo Concílio Vaticano II; Froom ensinava profecia a sacerdotes católicos em formação; a antiga hostilidade institucional ao romanismo começaria a ser descrita em linguagem absolutamente impensável para os pioneiros; e, no início da década de 1980, já encontraríamos o presidente mundial da denominação empregando tranquilamente a palavra catholic para caracterizar a universalidade da própria Igreja Adventista. Vista isoladamente, cada peça permite uma explicação. Vista em sequência, a coleção conta uma história.
PIERSON PERCEBEU QUE ALGUMA COISA ESTAVA MORRENDO
Robert H. Pierson não estava fora desse processo. Seria simplista transformá-lo no último guardião absolutamente puro de uma IASD que permanecera intacta até 1978. Ele próprio administrou a Igreja durante parte dessa transição e consentiu com movimentos que nossos pioneiros provavelmente teriam observado com enorme desconfiança. Entretanto, o modo como Pierson deixou a presidência e, sobretudo, aquilo que decidiu dizer ao sair adquiriram para nós outro significado. Oficialmente, sua saúde estava deteriorada. Em nossa interpretação dessa história, porém, a crise Davenport pertence ao ambiente de pressão que cercou sua queda antecipada. Pierson não completou tranquilamente seu período para então entregar cerimonialmente a Igreja ao sucessor. Saiu antes, constrangido por um ambiente denominacional em ebulição, e deixou atrás de si uma advertência que hoje soa menos como uma meditação administrativa e mais como o diagnóstico de alguém que percebeu tarde demais a dimensão da transformação ocorrida diante de seus olhos.
Pierson advertiu contra uma Igreja que adquirisse dinheiro, instituições, reconhecimento e respeitabilidade enquanto perdesse progressivamente as características que justificavam sua existência como movimento peculiar. É justamente esse alerta que não devemos ler isoladamente. Quando o colocamos depois de Froom, dos diálogos evangélicos, de Questions on Doctrine, do Vaticano II e da mudança gradual de atitude em relação a Roma, e imediatamente antes da consolidação doutrinária e institucional que ocorreria sob Neal Wilson, o discurso muda de tamanho. Pierson parece estar olhando para uma máquina denominacional que já não podia controlar inteiramente. E sua saída abre espaço justamente para o homem que levaria essa máquina a uma escala internacional inédita.
O AFRICANO ENTRE PIERSON E WILSON
É nesse momento que devemos retornar a Ebenezer Obodai Sackey. Ele faz muito mais do que ornamentar nossa narrativa africana. Sackey permite enxergar a transição institucional em carne e osso. Sua carreira ministerial começou durante a velha configuração administrativa, atravessou Pierson, encontrou Neal Wilson naquele extraordinário registro de 1978 e prosseguiu pelas décadas seguintes até alcançar a presidência da West African Union Conference. A biografia denominacional publicada após sua morte registra que, depois de formar-se em Teologia no Adventist Seminary of West Africa, ele foi pastor, diretor de jovens, presidente de Associação e, posteriormente, presidente da União da África Ocidental. Em outras palavras, aquele uniforme não estava vestido sobre um personagem irrelevante: estava sobre um homem que aprenderia a mover-se verticalmente através da estrutura denominacional.
E aqui surge uma conexão africana que torna nossa história ainda mais fascinante. Jan Paulsen também pertence profundamente à história adventista de Gana. Antes de tornar-se presidente mundial da Igreja entre 1999 e 2010, Paulsen viveu e trabalhou na África, ensinou em Gana e posteriormente dirigiu o Adventist Seminary of West Africa, na Nigéria. A própria Adventist News Network registra essa trajetória, e outra publicação oficial recorda que Jan e Kari Paulsen passaram dois anos em Gana, onde inclusive nasceu o filho mais velho do casal. Décadas mais tarde, em 2025, já como ex-presidente mundial, Paulsen voltou a falar de sua passagem pelo país ao comentar a reorganização administrativa do adventismo ganês, lembrando que fora missionário ali em 1962, quando existia apenas uma missão com aproximadamente 11 mil membros. O próprio relato oficial preserva essa memória. Gana, portanto, não é cenário acidental nesta história: é um dos lugares em que carreiras africanas e carreiras da administração mundial adventista repetidamente se encontram.
DO PAI AO FILHO: OS UNIFORMES CONTINUAM EM GANA
É então que a fotografia de 1978 encontra sua continuação visual quatro décadas depois. Neal Wilson chegou a Gana e foi recebido por uma guarda de honra comandada pelo pastor Sackey. Em 2020, seu filho Ted N. C. Wilson também chegou ao país e encontrou jovens adventistas uniformizados esperando por ele. Dessa vez a própria comunicação oficial adventista os identifica inequivocamente como Pathfinders, os Desbravadores. Não precisamos falsificar a história afirmando que a guarda de 1978 era necessariamente um Clube de Desbravadores. O que nos interessa é justamente algo maior: a persistência de uma cultura denominacional de uniformes, formação juvenil, hierarquia, disciplina, comando, cerimônia, serviço e recepção institucional que atravessa gerações. Entre Neal Wilson diante da guarda comandada por Sackey e Ted Wilson diante dos Desbravadores existe uma continuidade visual que merece ser observada, sobretudo porque nossa investigação posteriormente encontrará outro ramo dessa cultura uniformizada no Medical Cadet Corps e, mais adiante, no NSO, no WSO e nas relações formais da Igreja com estruturas militares.
Assim, Sackey faz a ligação que inicialmente não conseguíamos enxergar. Ele emerge durante a transição Pierson–Wilson, desenvolve sua carreira na África Ocidental durante a era Neal Wilson, pertence ao mesmo universo adventista africano em que Jan Paulsen formou parte importante de sua experiência internacional e nos conduz, pela continuidade institucional de Gana, até a recepção uniformizada de Ted Wilson. Não precisamos inventar uma reunião secreta entre esses quatro homens para perceber a linha que os conecta. A própria estrutura denominacional realizou essa ligação ao longo de décadas. Presidentes mudaram; gerações passaram; a linguagem institucional tornou-se cada vez mais internacional; mas Gana permaneceu como um desses laboratórios extraordinários onde juventude, uniforme, liderança, cerimônia e poder mundial adventista podiam aparecer juntos diante de uma câmera.
NEAL WILSON NÃO CRIOU A NOVA IASD; ELE A CONSOLIDOU
É por isso que Neal Wilson precisa ser compreendido menos como inventor e mais como consolidador. A transformação teológica começara antes dele. Froom morrera em 1974. O diálogo com o evangelicalismo já acontecera. Questions on Doctrine já existia. O Vaticano II já havia ocorrido. A linguagem de aproximação já estava sendo construída. Wilson recebeu esse processo e o levou para dentro de uma presidência mundial dotada de enorme capacidade administrativa. Sob sua liderança, a sessão mundial de Dallas de 1980 aprovou a formulação das 27 Crenças Fundamentais, incluindo uma declaração explicitamente trinitária. Não estamos dizendo que a ideia da Trindade nasceu em Dallas; estamos dizendo algo historicamente mais importante para nossa interpretação: Dallas institucionalizou em fórmula mundial uma transformação teológica que levara décadas para vencer dentro de uma denominação cujos pioneiros mais influentes haviam sustentado posições muito diferentes.
Logo depois encontramos Wilson utilizando uma expressão que seria inimaginável na pena dos primeiros polemistas adventistas: a IASD aparecia como outra organização “universal e verdadeiramente católica”, empregando evidentemente catholic em seu sentido de universalidade. É justamente esse sentido que torna a frase historicamente interessante. O problema nunca foi imaginar que Wilson estivesse anunciando que a IASD passara juridicamente a pertencer à Igreja Católica Romana. A questão é perceber quanto a linguagem denominacional havia mudado para que o presidente mundial pudesse empregar positivamente uma palavra carregada de tamanho peso na história profética adventista. Da mesma maneira, a declaração judicial que relegava a antiga postura anticatólica da denominação ao “historical trash heap” — o lixo histórico — representa muito mais que uma escolha infeliz de palavras. Ela simboliza a distância percorrida entre a identidade polemista do adventismo pioneiro e a instituição internacional que desejava ocupar outro lugar no cenário religioso.
A MAÇONARIA, FROOM E WILSON
É nesse contexto que nossa investigação anterior sobre Froom e Neal Wilson ganha relevância. Já mostramos aos leitores do Adventistas.com os elementos que nos levaram a interpretar a presença maçônica nesse processo, inclusive a localização dos dois personagens no George Washington Cemetery e o material testemunhal relacionado a Wilson. Não precisamos reabrir aqui toda aquela investigação; precisamos compreender sua consequência para esta história. Froom e Wilson aparecem em dois momentos sucessivos da transformação: um trabalhando profundamente a linguagem teológica e histórica com que o adventismo passaria a apresentar-se ao mundo cristão; o outro consolidando administrativamente uma Igreja mundial que já se mostrava muito diferente daquela construída pelos pioneiros. Quando colocamos essa linha ao lado da denúncia de Alberto Rivera acerca da ação jesuítica sobre o protestantismo, não estamos obrigados a imaginar uma sala escura na qual todos esses personagens assinaram conjuntamente um plano. A interpretação é mais profunda: observamos métodos, redes, aproximações e principalmente resultados. A pergunta deixa de ser apenas “onde está a carteira de identificação do infiltrado?” e passa a ser “o que aconteceu com a instituição depois que esses homens atravessaram sua história?”.
A VELHA IASD MORREU; A NOVA APRENDEU A CONVERSAR COM O PODER
Essa é talvez a conclusão mais perturbadora desta primeira parte. A transformação não terminou na teologia. A IASD que reformulou sua apresentação diante dos evangélicos, aproximou sua linguagem do mundo religioso institucional e abandonou parte significativa da velha agressividade anticatólica tornou-se também uma organização extraordinariamente apta a conversar com Estados, organismos internacionais e estruturas de poder. É aqui que Neal Wilson deixa de ser apenas personagem de uma guerra doutrinária e começa a aparecer no outro grande arquivo que estamos abrindo. Anos depois, encontraremos seu nome relacionado à União Soviética, a Konstantin Kharchev, às negociações para expansão institucional adventista e finalmente ao Kremlin. Encontraremos uma Igreja oferecendo educação, medicina, assistência e experiência institucional como instrumentos de cooperação. Encontraremos relações com Washington. Depois encontraremos capelania, militares adventistas de alta patente, NSO, WSO, Medical Cadet Corps e oficiais que transitam simultaneamente entre estruturas denominacionais e militares. Finalmente chegaremos àquela extraordinária cena de 2025 em que Ted Wilson recebe das mãos de um general adventista uma moeda comemorativa cunhada pelo Pentágono.
Vista sozinha, cada fotografia parece inocente. Vista sozinha, cada declaração pode ser explicada. Vista sozinha, cada aproximação institucional pode ser chamada de missão, diálogo, liberdade religiosa, capelania, assistência humanitária ou diplomacia religiosa. Nosso trabalho é justamente parar de olhar para cada peça isoladamente. Quando as colocamos numa linha histórica, aparece diante de nós uma Igreja que atravessou uma profunda metamorfose entre Froom e Wilson, entre Pierson e Dallas, entre a velha oposição a Roma e a busca de reconhecimento internacional, entre o púlpito e os corredores do poder. E foi precisamente no meio dessa metamorfose que um pastor africano chamado Ebenezer Obodai Sackey apareceu uniformizado diante de Neal C. Wilson, comandando uma guarda de honra, enquanto a própria revista adventista colocava ao lado daquela imagem um título que hoje parece ter sido escrito para nós: “UM SÍMBOLO DE PODER”.
Talvez Pierson tenha percebido tarde demais o tamanho da transformação. Talvez sua advertência final tenha sido precisamente a tentativa de deixar registrado que alguma coisa estava sendo perdida enquanto a denominação conquistava instituições, reconhecimento e respeitabilidade. Seja como for, nossa investigação não termina com sua saída. Na verdade, ela apenas começa ali. Porque, depois de seguirmos Froom até a transformação doutrinária, Pierson até sua queda, Sackey até a guarda uniformizada e Neal Wilson até o comando mundial, precisamos seguir o novo presidente para fora da Igreja. E quando fazemos isso, o próximo cenário já não é uma sala de teologia nem um camp meeting africano. É Moscou. É o governo soviético. É o Kremlin. E é ali que começaremos a descobrir até onde chegou a outra Igreja Adventista que nasceu dos escombros da antiga.








