IGREJA MILITAR ADVENTISTA: Novos suspeitos de jogo duplo entre a IASD e governos, incluem três presidentes da Associação Geral

De Caracas ao Pentágono e de Washington ao Kremlin, documentos revelam uma rede adventista que há décadas atravessa governos, Forças Armadas, hospitais, universidades, assistência humanitária e relações internacionais

Começamos esta investigação olhando para a Venezuela e para uma estrutura que, à primeira vista, poderia ser tratada apenas como mais uma organização juvenil da Igreja Adventista do Sétimo Dia. O Cuerpo de Servicio Nacional Adventista aparece, porém, organizado territorialmente, com direções gerais, direções operacionais, secretarias, treinamento, uniformes, cadeia administrativa e manual próprio. Quando começamos a procurar quem estava por trás dessa estrutura, encontramos Mario E. Ceballos, e sua biografia imediatamente ampliou o problema: o pastor adventista venezuelano havia servido durante 32 anos nas Forças Armadas dos Estados Unidos, entre serviço ativo e reserva, chegando à patente de Commander, ao mesmo tempo em que construía carreira pastoral e administrativa dentro da denominação. Depois chegou à direção mundial dos Adventist Chaplaincy Ministries e da World Service Organization, participou da revitalização internacional do Medical Cadet Corps e continuou, mesmo depois de deixar a direção, como MCC Executive Officer. A documentação atual da própria WSO confirma tanto os 32 anos de serviço militar americano quanto sua função no MCC.

Então encontramos Ceballos novamente, desta vez dentro da própria Venezuela: seu nome aparece como revisor técnico do manual venezuelano do Cuerpo de Servicio Nacional. A partir daí surgiram outros personagens. Ivan Omaña, também venezuelano, sucedeu Ceballos na direção mundial da capelania adventista. Andrew R. Harewood, brigadeiro-general aposentado do Exército dos Estados Unidos e antigo Deputy Chief of Chaplains da U.S. Army Reserve, passou a integrar a mesma estrutura mundial adventista. E, em julho de 2025, durante o Congresso Mundial de Capelania, ocorreu uma cena que, depois de tudo o que encontramos, dificilmente pode ser observada como simples curiosidade cerimonial: Harewood entregou a Ted N. C. Wilson, então presidente mundial da IASD, a última moeda comemorativa cunhada pelo Pentágono, enquanto Ivan Omaña lhe entregava uma escultura simbolizando unidade. A própria Igreja publicou a cena e registrou que Wilson prometeu manter os objetos sobre sua mesa como lembrança do trabalho dos capelães.

Foi essa sequência que nos obrigou a olhar para trás. Se um venezuelano podia passar três décadas dentro das Forças Armadas americanas e simultaneamente desenvolver uma carreira que o levaria ao centro da administração mundial adventista; se um general americano com experiência de alto nível podia aparecer depois dentro da mesma estrutura denominacional; e se o presidente mundial da Igreja podia receber publicamente uma moeda do Pentágono das mãos desse general, precisávamos perguntar se estávamos observando uma novidade ou apenas a manifestação contemporânea de uma capacidade institucional muito mais antiga. A resposta começou a aparecer quando voltamos à Guerra Fria e encontramos Neal C. Wilson, pai de Ted Wilson, então presidente da Associação Geral, negociando diretamente com o governo soviético. Depois apareceu Jan Paulsen, integrante da delegação adventista presente em Moscou em 1987 e futuro presidente mundial da denominação. A investigação que começara na Venezuela acabava, portanto, atravessando pelo menos três presidências da Associação Geral: Neal Wilson, Jan Paulsen e Ted Wilson, embora com papéis diferentes e que não devem ser artificialmente igualados.

ANTES DA VENEZUELA, HOUVE MOSCOU

Um dos documentos que melhor permite reconstruir essa história é o número de novembro de 1988 da revista adventista independente Spectrum, dedicado a “Adventists and the USSR”. O dossiê é desconfortável porque coloca lado a lado duas histórias que durante muito tempo foram contadas separadamente. De um lado estava a aproximação crescente entre a administração mundial adventista e o governo soviético; do outro estavam os chamados True and Free Seventh-day Adventists, adventistas que recusavam a estrutura religiosa reconhecida pelo Estado e sofriam perseguição do aparelho soviético. Segundo a própria Spectrum, a presença de seis delegados soviéticos na Assembleia da Associação Geral realizada em Viena, em 1975, marcou o início de uma relação “cada vez mais amistosa” entre o Kremlin e a Igreja Adventista mundial. Depois disso, representantes soviéticos passaram a comparecer a encontros internacionais da denominação, enquanto dirigentes adventistas, incluindo vice-presidentes e presidentes da Associação Geral, passaram a viajar à União Soviética, algumas vezes como convidados oficiais do governo.

A contradição aparece quando colocamos essa aproximação ao lado da experiência dos adventistas que não aceitavam funcionar dentro do sistema religioso oficialmente reconhecido. Vladimir Shelkov, uma das principais figuras dos True and Free Adventists, morreu em 1980, aos 84 anos, depois de passar aproximadamente 23 anos de sua vida encarcerado. A repressão não terminou com sua morte: literatura clandestina continuou circulando, buscas foram realizadas para encontrar gráficas e responsáveis pelas publicações dissidentes, e os adventistas perseguidos denunciavam prisões, vigilância, interceptação de correspondência, apreensão de literatura e discriminação. A Spectrum registrou ainda uma acusação particularmente dolorosa: enquanto defensores dos direitos humanos que nem sequer eram adventistas protestavam contra a condenação de Shelkov, dirigentes adventistas mundiais em Washington haviam permanecido em silêncio.

Não há base documental para afirmar que a Associação Geral tenha participado da repressão soviética contra esses adventistas, e não precisamos inventar essa acusação para perceber a gravidade da situação. O que os documentos revelam é algo historicamente mais interessante: havia simultaneamente um adventismo que ganhava reconhecimento e acesso ao Estado e outro adventismo que sofria perseguição por recusar as condições impostas pelo mesmo Estado. Neal Wilson posteriormente pediria publicamente uma anistia para os “prisioneiros de consciência”, fato que também precisa permanecer na história, mas a cronologia obriga a formular uma pergunta que voltará várias vezes neste artigo: quando uma organização religiosa internacional depende do reconhecimento de um governo para ampliar sua presença, que compromissos, silêncios, negociações e prioridades aparecem no caminho?

NEAL WILSON CHEGA AO ALTO ESCALÃO SOVIÉTICO

Em maio de 1986, apenas duas semanas depois do desastre nuclear de Chernobyl, uma delegação da Associação Geral liderada por Neal C. Wilson iniciou uma viagem de 19 dias à União Soviética. Ao lado do presidente mundial estavam Winston Clark, seu assistente administrativo, e Bert B. Beach, diretor de Public Affairs and Religious Liberty. Outros visitantes haviam cancelado viagens por causa do acidente nuclear, mas os adventistas mantiveram a programação, e a própria Adventist Review descreveu o resultado dessa decisão em termos extraordinariamente francos: a delegação conquistou a simpatia das autoridades soviéticas, e isso produziu “huge dividends for the Adventist Church”. Wilson declarou que, pela primeira vez na história da denominação, a Igreja conseguira explicar aos mais altos níveis da liderança soviética quem eram os adventistas, aquilo em que acreditavam e a extensão de suas atividades mundiais.

As conversas não ficaram no terreno abstrato da liberdade religiosa. Wilson reuniu-se com Konstantin Kharchev, presidente do Council for Religious Affairs, e apresentou pedidos concretos: reconhecimento oficial da organização adventista em escala nacional, uma nova sede em Moscou, autorização para imprimir mais literatura e um programa de formação ministerial. Wilson explicou que a Igreja ainda não possuía reconhecimento nacional nem um comitê autorizado a tratar de toda a União Soviética e argumentou que os adventistas deveriam ter uma sede em Moscou comparável àquelas disponíveis para outras organizações religiosas. Kharchev, por sua vez, sugeriu uma publicação conjunta sobre a vida adventista na URSS, em russo e inglês, e cogitou até a produção de um filme. Quando a conversa terminou, o dirigente soviético declarou que o governo estava trabalhando para resolver as questões do centro administrativo e da formação ministerial e despediu-se dos visitantes com uma frase que ganha significado especial quando observada quase quarenta anos depois: “Vocês foram bons embaixadores.”

A palavra escolhida por Kharchev merece atenção porque descreve muito bem uma característica que começamos a identificar nessa estrutura. A delegação era religiosa, mas funcionava como interlocutora transnacional; apresentava uma organização mundial, negociava reconhecimento, discutia instalações, literatura e formação de pessoal e, ao mesmo tempo, oferecia ao governo soviético um canal para conhecer uma denominação americana com presença internacional. Durante a mesma viagem, os adventistas foram recebidos nos escritórios do Supremo Soviete no Kremlin e conversaram com August Voss, presidente do Soviet of Nationalities. Wilson enfatizou diante das autoridades a natureza espiritual da Igreja e o caráter religioso de sua missão, mas aquilo que aconteceria nos meses seguintes demonstra que a relação rapidamente ultrapassaria o púlpito e produziria consequências administrativas, educacionais, editoriais e patrimoniais.

KHARCHEV ATRAVESSA A PONTE NO SENTIDO CONTRÁRIO

Poucos meses depois, a aproximação passou a funcionar no sentido inverso. No final de 1986, dirigentes adventistas receberam Kharchev nos Estados Unidos e o conduziram por instituições denominacionais. Uma publicação adventista da época relata que o presidente do Council for Religious Affairs visitou a Review and Herald Publishing Association, o Shady Grove Adventist Hospital e a Takoma Academy antes de participar de um almoço vegetariano na sede da Associação Geral. Neal Wilson declarou que era impossível superestimar a importância daquela visita, enquanto Kharchev afirmou acreditar que organizações religiosas poderiam contribuir para melhorar e fortalecer as relações entre países e promover entendimento e amizade entre os povos. Ele próprio explicou que desejava conhecer melhor as organizações religiosas e seus dirigentes e criar condições mais favoráveis para fortalecer os vínculos entre organizações religiosas dos dois países.

Essa declaração soviética é especialmente relevante porque mostra que Moscou também enxergava utilidade no relacionamento. Não se tratava apenas de uma Igreja tentando obter concessões de um governo hostil. O próprio responsável soviético pelas relações religiosas dizia que organizações dessa natureza podiam ajudar a fortalecer relações entre países. É justamente aqui que a investigação começa a exigir uma mudança de perspectiva. Durante muito tempo perguntamos o que a IASD queria dos governos; os documentos nos obrigam agora a perguntar também o que os governos enxergavam numa organização religiosa americana com administração internacional, hospitais, universidades, editoras, redes educacionais, especialistas e presença territorial em numerosos países.

Em janeiro de 1987, o Council for Religious Affairs aprovou a criação de um seminário adventista na União Soviética, e o processo acabaria produzindo em Zaokski um complexo que incluía formação teológica e estrutura administrativa. Quando o seminário foi inaugurado oficialmente, em dezembro de 1988, Neal Wilson e Konstantin Kharchev estavam novamente juntos. A Adventist Review registrou a cerimônia, os representantes governamentais presentes e o agradecimento público dos dirigentes adventistas às autoridades soviéticas pelas permissões necessárias para que o projeto fosse realizado. Aquilo que começara como relacionamento havia se convertido em infraestrutura concreta e permanente.

O KREMLIN RECEBE WILSON, E WILSON OFERECE A REDE ADVENTISTA

Em fevereiro de 1987, Neal Wilson voltou a Moscou para participar do International Forum for a Nuclear-Free World and the Survival of Humanity, realizado no Grand Kremlin Palace e presidido por Mikhail Gorbachev. Entre os adventistas que participaram daquela movimentação estava Jan Paulsen, que doze anos depois chegaria à presidência mundial da denominação. A presença de Paulsen não permite atribuir-lhe automaticamente todas as iniciativas de Wilson, mas transforma sua participação numa peça que merece investigação própria, porque agora sabemos que um futuro presidente mundial testemunhou diretamente uma das fases mais importantes da aproximação adventista com o Estado soviético.

O conteúdo apresentado por Wilson é ainda mais revelador do que a lista de autoridades que encontrou. O presidente mundial não ofereceu ao governo soviético apenas cooperação religiosa. Apresentou ciência, educação e medicina como áreas nas quais a Igreja poderia colaborar; destacou programas adventistas contra álcool e drogas; afirmou que a organização trabalhava com muitos governos; apresentou uma rede internacional de aproximadamente 500 hospitais e clínicas; mencionou Loma Linda e a capacidade de formação médica especializada; e colocou sobre a mesa intercâmbios, tecnologias, procedimentos e programas que poderiam produzir benefício mútuo. A liderança adventista estava, portanto, transformando aquilo que normalmente aparecia aos membros como departamentos separados — saúde, educação, ciência, assistência, liberdade religiosa — numa plataforma integrada de relacionamento internacional.

É exatamente aí que aparece um padrão que mais tarde precisaremos procurar na Venezuela. O relacionamento religioso abre acesso; o acesso permite negociar reconhecimento; o reconhecimento cria espaço para educação, saúde, publicações, intercâmbio e cooperação técnica; essas atividades, por sua vez, produzem patrimônio, circulação de pessoas, relações permanentes e conhecimento institucional do território. Não estamos descrevendo uma operação de inteligência, porque os documentos citados não demonstram isso. Estamos descrevendo algo que eles demonstram claramente: uma denominação mundial capaz de converter sua infraestrutura religiosa, médica, educacional e social em capital de relacionamento com Estados.

UMA IGREJA AMERICANA DISCUTE UMA OPERAÇÃO EDITORIAL COM A URSS

A aproximação avançou ainda mais. Em 1988, tornou-se público que representantes adventistas e soviéticos discutiam seriamente uma operação editorial conjunta na União Soviética. A Spectrum mencionou uma composição prevista de 51% para o lado soviético e 49% para a Review and Herald Publishing Association, embora a documentação jornalística da época registrasse que os percentuais ainda não estavam definitivamente acertados. A precisão é importante: não devemos transformar uma proposta em contrato consumado. Mas o fato central permanece extraordinário sem qualquer exagero — durante a Guerra Fria, uma instituição editorial adventista americana e o governo soviético negociaram uma estrutura conjunta para impressão e publicação.

É aqui que a situação dos True and Free Adventists volta com toda a força. Enquanto a administração mundial ampliava sua presença, conquistava espaço para formação ministerial e discutia projetos editoriais, adventistas que haviam recusado o sistema reconhecido pelo Estado carregavam uma história de perseguição e prisão. Neal Wilson havia defendido uma anistia geral para os chamados prisioneiros de consciência, mas a libertação dos dissidentes não se tornou condição para o prosseguimento das negociações institucionais. A contradição não precisa ser artificialmente ampliada: ela já é suficientemente incômoda como aparece nos documentos. A administração mundial queria liberdade para crescer dentro da União Soviética; os dissidentes queriam liberdade para existir sem submeter-se à estrutura aceita pelo Estado. São duas formas diferentes de reivindicar liberdade religiosa diante do mesmo poder.

Quando Kharchev deixou o Council for Religious Affairs em 1989, sua relação com o ambiente adventista também não desapareceu imediatamente. Ele participou do Third World Congress on Religious Liberty e foi reconhecido naquele ambiente por sua atuação relacionada às mudanças na política religiosa soviética. Neal Wilson, por sua vez, deixou a presidência mundial em 1990, mas Moscou também não desapareceu de sua agenda: atas posteriores da Associação Geral registraram sua designação como General Administrative Consultant for the USSR Division. Aquilo que poderia ser apresentado como uma sequência de viagens diplomáticas tornou-se, portanto, uma responsabilidade administrativa formal que sobreviveu à própria presidência de Wilson.

O QUE MOSCOU NOS ENSINA A PROCURAR NA VENEZUELA

É nesse ponto que o recuo histórico deixa de ser digressão e se transforma em método de investigação. A União Soviética nos fornece um exemplo documentado de como a infraestrutura adventista podia ser apresentada a um Estado estrangeiro como um conjunto de recursos: religião, educação, medicina, ciência, publicação, intercâmbio, liberdade religiosa e presença internacional. Quando voltamos à Venezuela, portanto, não podemos mais analisar isoladamente Igreja, ADRA, escolas, saúde, capelania, Medical Cadet Corps, Cuerpo de Servicio Nacional e relações governamentais. Precisamos sobrepor essas estruturas e perguntar onde atuam, quem as dirige, que populações alcançam, quais organismos públicos aparecem como parceiros, quais instituições estrangeiras participam de seu financiamento ou treinamento e quais dirigentes conseguem circular entre o ambiente denominacional, o governo venezuelano e estruturas internacionais.

Essa abordagem torna particularmente importante a World Service Organization. A própria WSO explica atualmente que ela e a National Service Organization fazem parte dos Adventist Chaplaincy Ministries e têm a tarefa de apoiar adventistas que servem seus governos nas Forças Armadas, forças de defesa, polícia e outras agências governamentais. Entre suas funções está inclusive manter uma base de dados de membros adventistas no serviço governamental, abrangendo militares, policiais, parlamentares, instituições correcionais e outras áreas do Estado. Portanto, não precisamos inventar uma interface entre Igreja e aparelho governamental: a própria denominação descreve institucionalmente essa interface e mantém estruturas específicas para administrá-la.

O Medical Cadet Corps acrescenta outra camada histórica. A WSO registra que o MCC trabalha sob sua estrutura e que, historicamente, Everett Dick e outros dirigentes adventistas se reuniram com representantes do Office of the U.S. Surgeon General para desenvolver um currículo unificado. Segundo a própria organização, dessa aproximação nasceu uma relação de aproximadamente vinte anos na qual o currículo era continuamente revisto para acompanhar padrões militares, contribuindo para que soldados adventistas fossem colocados no Medical Corps do Exército. Hoje o MCC enfatiza primeiros socorros, resgate, assistência humanitária, resposta a emergências, apoio logístico e “Spiritual First Aid”, colaborando inclusive com organizações de socorro governamentais.

Portanto, quando o Cuerpo de Servicio Nacional venezuelano aparece com estrutura territorial, direção operacional e manual tecnicamente revisado por Mario Ceballos, não estamos olhando para uma instituição sem história. Existe atrás dela uma genealogia internacional na qual relações entre adventismo, treinamento médico, serviço público, forças militares e resposta a emergências foram construídas durante décadas. O ponto investigativo não é concluir antecipadamente que o CSN venezuelano seja uma extensão das Forças Armadas americanas — os documentos disponíveis não sustentam isso —, mas descobrir exatamente quais conhecimentos, doutrinas, treinamentos, contatos e modelos organizacionais viajaram da estrutura mundial para a organização venezuelana e quem participou dessa transferência.

MARIO CEBALLOS: A BIOGRAFIA QUE NOS OBRIGOU A OLHAR DUAS VEZES

Ceballos é particularmente importante porque sua trajetória demonstra como uma biografia religiosa pode esconder, à primeira leitura, uma segunda carreira institucional igualmente relevante. Durante 32 anos ele serviu nas Forças Armadas dos Estados Unidos, quatro deles no Exército e 28 como capelão da reserva naval, alcançando a patente de Commander. Em 2011, quando aguardava a aposentadoria, recebeu uma convocação involuntária para retornar ao serviço ativo por pelo menos 365 dias; ele próprio relatou que pediu à Marinha que reconsiderasse, mas recebeu ordens para voltar à ativa e teve a aposentadoria adiada. Naquele momento Ceballos já estava profundamente envolvido com Adventist Chaplaincy Ministries, o que torna sua trajetória especialmente interessante: a carreira militar americana e a carreira administrativa adventista não aparecem em sucessão, mas durante anos caminham simultaneamente.

Quando chegou à direção mundial da WSO e dos Adventist Chaplaincy Ministries, Ceballos passou a atuar numa escala ainda maior. A publicação adventista que registrou sua aposentadoria em 2022 afirma que ele viajou internacionalmente para encontrar autoridades militares e policiais e que parte de seu trabalho consistia em abrir diálogo com essas lideranças e apresentar-lhes a posição adventista e a própria Igreja mundial. Durante sua administração foi criado um banco de dados internacional para conectar adventistas uniformizados, cadetes e dirigentes, um novo manual do MCC foi produzido em inglês e espanhol, diretrizes de uniformes foram reorganizadas e Ceballos trabalhou para reacender mundialmente o interesse pelo Medical Cadet Corps.

É depois de conhecermos essa biografia que o crédito encontrado no manual venezuelano ganha outra dimensão. Ceballos não aparece ali apenas como um teólogo estrangeiro convidado para revisar um texto religioso; aparece como alguém que havia dirigido a estrutura mundial responsável pelas relações adventistas com militares e capelães, servido 32 anos nas Forças Armadas americanas, revitalizado internacionalmente o MCC e produzido material de treinamento em espanhol. A conexão Venezuela–Ceballos, portanto, não é inferida por nós: está documentada pelo próprio manual venezuelano. O que ainda precisa ser reconstruído é a profundidade dessa conexão, especialmente quem trabalhou diretamente com ele, quais treinamentos foram utilizados e de onde vieram os modelos operacionais incorporados pelo CSN.

O GENERAL, O COMMANDER E A PRESIDÊNCIA MUNDIAL

Andrew Harewood torna essa sobreposição ainda mais visível. Trata-se de um brigadeiro-general aposentado da U.S. Army Reserve, com décadas de experiência em capelania militar e funções superiores dentro da estrutura americana. A presença de oficiais dessa estatura dentro da capelania adventista não é um fenômeno inteiramente novo: em 2008, por exemplo, a própria Igreja apresentava Gary Councell, coronel aposentado do Exército, como diretor dos Adventist Chaplaincy Ministries e registrava que, antes de chegar à sede mundial adventista, ele havia trabalhado no Pentágono como diretor de informação, gerenciamento de recursos, instalações e logística no Office of the Chief of Chaplains. Councell começou a trabalhar na sede mundial da Igreja praticamente imediatamente depois de encerrar sua carreira militar.

Esse precedente torna inadequado tratar a presença de Harewood como acidente biográfico. Há uma circulação histórica documentada de capelães adventistas entre carreiras militares americanas de alto nível e funções denominacionais responsáveis justamente pela relação com capelães, militares e servidores públicos. Isso não significa que a Igreja esteja subordinada ao Pentágono, conclusão que exigiria outra categoria de documentação, mas demonstra que as fronteiras pessoais e profissionais entre essas instituições podem ser muito mais permeáveis do que a imagem de uma denominação separada do aparelho militar sugeriria. Quando Harewood entrega a Ted Wilson a moeda comemorativa cunhada pelo Pentágono em 2025, portanto, o objeto isolado continua sendo apenas uma moeda; colocado sobre essa cronologia, porém, torna-se um símbolo extraordinariamente carregado de uma relação institucional que atravessa gerações.

É também por isso que a história dos Wilsons precisa ser observada em perspectiva. Neal Wilson construiu acesso ao alto escalão soviético, recebeu Kharchev nos Estados Unidos, apresentou a infraestrutura adventista como possibilidade de cooperação e permaneceu ligado administrativamente à expansão da Igreja na URSS depois de deixar a presidência. Jan Paulsen participou daquele ambiente de aproximação com Moscou e posteriormente presidiu a Associação Geral. Ted Wilson, décadas depois, aparece no centro de uma estrutura mundial de capelania em que oficiais e ex-oficiais americanos de alta patente ocupam posições importantes e recebe das mãos de um general adventista uma moeda produzida pelo Pentágono. Esses fatos não demonstram que os três presidentes tenham participado de uma mesma operação governamental, e seria artificial dizer isso; demonstram, porém, que a história das relações adventistas com Estados, militares e estruturas governamentais atravessa presidências e gerações, tornando impossível reduzi-la a episódios isolados.

AGORA VOLTEMOS AOS NOMES DA VENEZUELA

O manual venezuelano do CSN oferece então aquilo de que toda investigação precisa: nomes. Na Unión Venezolana Oriental encontramos Jesús David Chacón na Dirección General, Paúl Trujillo na Dirección Operacional e José Fermín na secretaria; outras associações e missões apresentam José Manuel Cedeño, Beatríz García Ramos, Yorge Delgado, Albanys Chávez, Jairo Parra, Aliannie Agudelo, Ramón Marcano, Rosmelys Murguey, Yorman Mieres, Loisee Méndez, Freddy Pérez, Hendris Rojas, Edgardo Parra, José Moncada, Yorwins Ortega, Yuslay Fernández, Katherine Franco e outros dirigentes. O documento identifica ainda Chacón como coordenador editorial, enquanto José Fermín, Andrei Doria, Paúl Trujillo, Jesús Alcalá, Aliannie Agudelo e Beatríz García aparecem entre editores e autores; sobre todos eles, no campo da revisão técnica, aparece novamente Mario Ceballos.

Esses nomes não devem ser transformados automaticamente em acusados de qualquer atividade clandestina. O procedimento correto é outro e foi justamente Ceballos quem nos ensinou a adotá-lo: precisamos reconstruir a segunda biografia de cada personagem. Encontrar “Pr.” diante de um nome não significa que estamos diante apenas de um pastor, porque Ceballos foi simultaneamente pastor e militar americano durante décadas. Da mesma maneira, encontrar “Dra.”, “Lcdo.”, “Msc.” ou “T.S.U.” não nos diz onde essas pessoas estudaram, onde trabalharam, que organismos públicos integraram, quais cursos fizeram, quem as treinou ou que relações institucionais desenvolveram. A próxima etapa consiste, portanto, em cruzar essas identidades com universidades, hospitais, Protección Civil, bombeiros, polícia, Forças Armadas, ministérios, organismos de saúde, estruturas de emergência e registros de viagens e treinamentos.

Paúl Trujillo permanece especialmente interessante porque sua trajetória documental já sugere progressão interna. Em material anterior ele aparece ligado ao Cuerpo de Cadetes como coordenador voluntário; no manual mais recente surge na Dirección Operacional do CSN-UVO e também entre os responsáveis pela elaboração de conteúdo. O documento o identifica como “Lcdo. Paúl Trujillo”, mas ainda precisamos determinar licenciado em quê, onde estudou, qual é sua profissão fora da estrutura denominacional, quem o treinou, quando entrou nos cadetes, quais relações manteve com Ceballos e a estrutura internacional do MCC e se participou de cursos, intercâmbios ou programas vinculados a organismos públicos venezuelanos ou estrangeiros. Essa é exatamente a espécie de biografia paralela que pode revelar se estamos diante apenas de uma função eclesiástica ou de uma interseção institucional mais ampla.

ADRA, SAÚDE, EDUCAÇÃO E CSN PRECISAM APARECER NO MESMO MAPA

A experiência soviética também demonstra por que seria um erro investigar ADRA separadamente da Igreja, ou CSN separadamente da ADRA, ou capelania separadamente das relações governamentais. Quando Neal Wilson apresentou a denominação aos soviéticos, ele próprio reuniu numa única oferta institucional religião, saúde, educação, ciência, treinamento e intercâmbio. É exatamente por isso que, na Venezuela, precisamos sobrepor os mapas: onde está a ADRA, onde estão congregações e estruturas administrativas, onde estão escolas e instituições de saúde, onde estão os cadetes, onde existem comunidades indígenas ou fronteiriças, quais programas recebem recursos internacionais, quais organismos públicos aparecem como parceiros e quais pessoas transitam entre essas diferentes estruturas.

Uma organização humanitária internacional precisa necessariamente conhecer o território onde trabalha: localizar comunidades, identificar necessidades, compreender deslocamentos populacionais, manter contatos com lideranças, organizar transporte, avaliar riscos, registrar beneficiários, administrar estoques e produzir relatórios. Uma organização religiosa possui ainda outra camada de conhecimento humano porque mantém congregações, pastores, membros e relações comunitárias permanentes. Uma rede educacional acrescenta estudantes, famílias e profissionais; uma rede médica acrescenta pacientes, especialistas e autoridades sanitárias; uma estrutura de capelania cria interlocução com militares, policiais, hospitais, prisões e outros órgãos públicos. Nada disso transforma automaticamente essas atividades em espionagem, mas significa que uma organização internacional que reúne todas essas capacidades possui naturalmente conhecimento territorial, logístico e humano de grande valor. A pergunta investigativa séria, portanto, não é chamar todo pastor ou funcionário humanitário de agente; é descobrir se, quando e com quem informações e capacidades produzidas por essa rede circularam além de sua finalidade declarada.

É exatamente nesse ponto que precisamos procurar documentação americana com muito mais precisão. Até agora não encontramos prova pública confiável de que Jesús David Chacón, Paúl Trujillo, Beatríz García Ramos, Albanys Chávez, Aliannie Agudelo, Yuslay Fernández ou os demais dirigentes venezuelanos identificados tenham ligação com a CIA ou qualquer serviço de inteligência americano. A ausência dessa prova não encerra a investigação, mas estabelece o padrão que precisamos preservar: relações dessa natureza não podem ser fabricadas por associação nominal. Precisamos procurar rastros documentais — viagens, bolsas, treinamentos, contratos, convênios, conferências, registros diplomáticos, USAID, State Department, Department of Defense, SOUTHCOM, estruturas de capelania, organizações intermediárias e arquivos desclassificados — e somente então estabelecer as conexões que os documentos permitirem.

A PERGUNTA JÁ NÃO É APENAS O QUE A IGREJA QUERIA DOS GOVERNOS

A investigação soviética modifica finalmente a pergunta central deste dossiê. Nós já sabemos razoavelmente bem o que a Igreja queria de Moscou: reconhecimento nacional, sede, literatura, formação ministerial, patrimônio e liberdade para ampliar sua presença. Sabemos também aquilo que oferecia em troca no terreno institucional: interlocução religiosa, programas sociais, ciência, educação, medicina, tecnologia e intercâmbio. O que ainda conhecemos muito menos é aquilo que o Estado soviético enxergava nessa relação. Quando Kharchev chama os adventistas de “bons embaixadores” e afirma que organizações religiosas podem fortalecer relações entre países, ele nos oferece uma pista extraordinária: Moscou aparentemente percebia naquela rede uma utilidade que ultrapassava o culto religioso. Isso não significa que a IASD fosse instrumento do governo soviético; significa que o governo reconhecia valor político e relacional numa organização religiosa transnacional.

Precisamos agora fazer a mesma pergunta em direção a Washington. O que o governo americano enxergava numa denominação sediada nos Estados Unidos, mas presente em dezenas de países, dotada de hospitais, universidades, escolas, missionários, especialistas, agências humanitárias, departamentos de liberdade religiosa e membros inseridos em governos e Forças Armadas? O que estruturas militares americanas enxergavam numa Igreja que possuía desde a época do Medical Cadet Corps uma história de diálogo com o Office of the Surgeon General e que, décadas depois, manteria uma organização mundial especificamente dedicada aos adventistas que servem em forças militares, policiais e órgãos governamentais? E o que significa essa capacidade quando a trazemos para um país como a Venezuela, durante anos situado no centro de uma disputa geopolítica direta com Washington?

Essas perguntas não podem ser respondidas apenas pelos arquivos adventistas, porque até agora conhecemos principalmente aquilo que a Igreja escreveu sobre suas próprias relações com os governos. Precisamos procurar a outra metade da correspondência: aquilo que os governos escreveram sobre a Igreja. No caso soviético, isso significa avançar sobre documentos do Council for Religious Affairs e outros arquivos estatais; no caso americano, significa buscar registros diplomáticos, documentação desclassificada, comunicações do Departamento de Estado, arquivos do Departamento de Defesa, SOUTHCOM, USAID e outras estruturas que possam ter avaliado ou utilizado institucionalmente a presença adventista. É nessa documentação externa que poderemos descobrir se a rede que a Igreja descrevia como missão era percebida pelos Estados simplesmente como religião ou também como ponte, infraestrutura, interlocução e fonte de conhecimento.

O “JOGO DUPLO” QUE PRECISAMOS DEFINIR CORRETAMENTE

É nesse sentido que usamos aqui a expressão “jogo duplo”. Não como sinônimo automático de espionagem, nem como acusação de que todas as pessoas citadas trabalhavam clandestinamente para algum governo, mas como descrição de uma duplicidade institucional que os próprios documentos revelam: dirigentes que podem possuir simultaneamente carreiras religiosas e militares; uma organização que prega separação entre Igreja e Estado, mas mantém estruturas especializadas em relações com pessoas que servem aos Estados; capelães que são ao mesmo tempo ministros denominacionais e oficiais submetidos às respectivas cadeias militares; uma rede humanitária que presta assistência e simultaneamente precisa produzir conhecimento territorial para operar; e uma administração mundial capaz de dialogar com governos ideologicamente adversários apresentando-se como religião, saúde, educação, ciência, assistência ou liberdade religiosa conforme a porta que precisa atravessar.

A própria WSO oferece um exemplo extraordinariamente claro dessa interseção ao declarar que sua missão inclui apoiar adventistas que servem seus governos em forças militares, defesa, polícia e outras agências públicas, mantendo inclusive registros de membros inseridos no serviço governamental. A existência dessa estrutura não prova subordinação da Igreja a qualquer Estado, mas destrói a ideia simplista de que o universo denominacional e o universo governamental vivem separados por uma parede impermeável. Eles se encontram institucionalmente, e a própria Igreja criou departamentos para administrar esse encontro.

É também por isso que a capelania não pode ser tratada apenas como detalhe pastoral. Mario Ceballos é a demonstração concreta de como as duas identidades podem coexistir durante décadas: enquanto desenvolvia sua trajetória denominacional, acumulava 32 anos de serviço militar americano; em 2011, quando já trabalhava com Adventist Chaplaincy Ministries, a Marinha ainda podia convocá-lo involuntariamente de volta ao serviço ativo. Mais tarde, como dirigente mundial, passou a viajar para encontrar autoridades militares e policiais de diferentes países e apresentar-lhes a Igreja. O que para o fiel comum poderia parecer apenas “ministério aos militares” revela, quando observado administrativamente, uma interface institucional permanente entre denominação e estruturas estatais.

DE MOSCOU AO PENTÁGONO, DO PENTÁGONO À VENEZUELA

Quando colocamos toda essa cronologia numa única linha, a dimensão da investigação muda. Neal Wilson entra no Kremlin e negocia diretamente com o aparelho soviético; Kharchev atravessa o Atlântico e conhece a infraestrutura adventista americana; saúde, educação, ciência e publicações são oferecidas como instrumentos de cooperação; a aproximação produz seminário, sede e presença institucional; Wilson continua ligado administrativamente à região mesmo depois de deixar a presidência; Jan Paulsen, participante daquele ambiente soviético, posteriormente se torna presidente mundial; décadas depois, encontramos dirigentes da capelania adventista com longas carreiras militares americanas e experiência no Pentágono; Mario Ceballos passa 32 anos nas Forças Armadas dos Estados Unidos, chega à direção mundial da WSO e ajuda a revitalizar o MCC; Ivan Omaña, outro venezuelano, sucede-o na liderança mundial; Andrew Harewood, general americano, entra na mesma estrutura; e, em 2025, é Harewood quem entrega a Ted Wilson uma moeda comemorativa cunhada pelo Pentágono. Nenhum desses fatos, sozinho, demonstra uma operação secreta atravessando quarenta anos, mas todos juntos demonstram que as relações entre administração adventista, governos e estruturas militares são antigas, profundas e institucionalmente normalizadas.

É justamente depois dessa cronologia que voltamos à Venezuela e encontramos Ceballos como revisor técnico do manual do Cuerpo de Servicio Nacional, uma estrutura territorial de cadetes dirigida por pastores e profissionais identificados nominalmente. O documento venezuelano deixa de parecer um manual isolado e passa a ser uma peça dentro de uma história internacional muito maior. Agora precisamos descobrir quais elementos do modelo mundial chegaram ao país, quem os levou, quem recebeu treinamento, quais dirigentes mantiveram contato direto com Ceballos ou Omaña, quais relações foram estabelecidas com organismos venezuelanos de emergência e segurança e, sobretudo, qual era a extensão real da comunicação entre a estrutura local e a organização mundial instalada nos Estados Unidos.

A IGREJA QUE PREGA CONTRA A UNIÃO ENTRE IGREJA E ESTADO APRENDEU A ENTRAR NO ESTADO

Talvez essa seja a contradição teológica mais profunda revelada por toda a documentação. Poucas denominações construíram uma identidade profética tão fortemente baseada na desconfiança da união entre Igreja e Estado quanto o adventismo. Entretanto, a sobrevivência e a expansão mundial da própria IASD produziram uma sofisticada cultura de relacionamento com Estados. Isso aconteceu diante de democracias ocidentais, aconteceu dentro das Forças Armadas americanas e aconteceu até diante do regime soviético. A questão histórica, portanto, talvez já não seja simplesmente a velha “união entre Igreja e Estado”, entendida como governo concedendo poder religioso a uma igreja. O que aparece diante de nós é algo institucionalmente mais complexo: uma organização religiosa transnacional capaz de entrar no Estado, dialogar com suas estruturas, colocar seus próprios membros dentro delas, apoiar os que nelas servem e utilizar sua infraestrutura médica, educacional, humanitária e religiosa como plataforma de interlocução.

É por isso que a moeda entregue a Ted Wilson precisa ser colocada no final, e não no começo desta história. Isolada, ela é apenas um objeto comemorativo. Colocada sobre a cronologia que começa com seu pai entrando no Kremlin, passa pela longa institucionalização adventista das relações militares, chega ao Commander venezuelano que dirigiu a WSO, alcança o general americano incorporado à estrutura mundial de capelania e termina com esse general entregando ao filho de Neal Wilson uma moeda cunhada pelo Pentágono, ela se transforma num símbolo extraordinariamente carregado. Não é prova de comando secreto, mas é uma imagem quase perfeita da proximidade institucional que os próprios documentos revelam.

A PERGUNTA AGORA É OUTRA

Durante décadas perguntamos o que a Igreja Adventista fazia diante dos governos, quando talvez estivéssemos fazendo apenas metade da pergunta. Depois de encontrarmos Neal Wilson no Kremlin oferecendo ao Estado soviético a capacidade médica, científica e educacional adventista; Kharchev percorrendo instituições denominacionais nos Estados Unidos; a administração mundial negociando projetos concretos com Moscou; Wilson continuando ligado administrativamente à região soviética depois de deixar a presidência; militares americanos ocupando posições relevantes na estrutura mundial de capelania e relações militares adventistas; um general com longa carreira no Exército entregando uma moeda cunhada pelo Pentágono ao filho de Neal Wilson; e Mario Ceballos aparecendo simultaneamente como venezuelano, veterano de 32 anos das Forças Armadas americanas, ex-dirigente mundial da WSO/MCC e revisor técnico do manual dos cadetes venezuelanos, a pergunta já não pode ser apenas o que a Igreja desejava dos governos. Precisamos descobrir o que Moscou enxergava nessa rede, o que Washington enxergava nela, o que as estruturas militares encontraram de útil nessa relação e, sobretudo, o que essa capacidade transnacional significa quando voltamos o mapa para a Venezuela.

É nesse ponto que nossa investigação realmente começa a ficar interessante, porque conhecemos razoavelmente bem a versão adventista de suas relações com governos: missão, liberdade religiosa, serviço, saúde, educação, assistência e cooperação. Agora precisamos procurar a versão dos próprios governos sobre a Igreja. Precisamos abrir arquivos soviéticos e documentos americanos; reconstruir a segunda biografia dos dirigentes venezuelanos que aparecem no CSN; cruzar nomes com universidades, hospitais, órgãos públicos, estruturas militares, Protección Civil, treinamentos, viagens e programas internacionais; e descobrir se as relações institucionais que já conseguimos documentar produziram outros canais que permanecem invisíveis quando observamos apenas as publicações denominacionais. O objetivo não é fabricar agentes secretos onde os documentos não os mostram, mas descobrir documentalmente o que os Estados fizeram — ou procuraram fazer — com uma rede religiosa internacional que há décadas demonstrava possuir acesso, capilaridade, infraestrutura, conhecimento territorial e a extraordinária capacidade de conversar com lados opostos de uma disputa geopolítica.

Mario E. Ceballos nos mostrou onde procurar, mas já não é o único nome sobre a mesa. Neal C. Wilson mostrou que a estrada chega muito mais longe no passado; Jan Paulsen precisa ter sua participação soviética reaberta; Ted Wilson aparece na extremidade contemporânea de uma estrutura mundial em que militares de alta patente circulam sem qualquer constrangimento institucional; e os nomes venezuelanos encontrados no CSN nos oferecem agora a possibilidade de reconstruir a rede de baixo para cima. Moscou nos ensinou o método, o Pentágono confirmou que a interface militar adventista é concreta e a Venezuela nos entregou os personagens. A próxima etapa não é mais provar que existe uma rede de relações entre Igreja, militares e governos, porque a própria documentação adventista já demonstra essa rede. A próxima etapa é muito mais importante: descobrir quem estava esperando por ela do outro lado.

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