Igreja Militar Adventista: A estrutura de poder que a IASD mantém por trás de sua fachada religiosa

De uma reivindicação de não combatência, em 1864, a uma organização mundial que mantém relações militares, forma cadetes, endossa capelães, acompanha funcionários do Estado e possui uma igreja específica para membros em serviço governamental no exterior.

A genealogia documentada da War Service Commission à World Service Organization revela como a estrutura adventista aprendeu a funcionar permanentemente na fronteira entre religião, Estado e Forças Armadas.

Em fevereiro de 2026, o brigadeiro-general aposentado Andrew R. Harewood assumiu uma função diretiva na capelania da Associação Geral; no organograma da WSO, ocupa o posto de oficial executivo do comando mundial.

A questão não é mais saber se essa organização existe. É compreender até onde sua lógica institucional passou a moldar a denominação que se apresenta aos membros como comunidade exclusivamente espiritual.

A igreja que se apresenta nos templos e a instituição que aparece nos arquivos

Há uma Igreja Adventista do Sétimo Dia reconhecível para qualquer membro. Ela tem cultos aos sábados, Escola Sabatina, pastores, anciãos, publicações, colégios, hospitais, projetos assistenciais, associações, uniões, divisões e uma presidência mundial. É a igreja que convoca pessoas para a oração, a evangelização, o estudo bíblico e a expectativa da volta de Cristo. Essa apresentação não é imaginária; corresponde a uma parte visível da organização. O problema começa quando o pesquisador acompanha a documentação administrativa produzida pela própria denominação e encontra outra trajetória, igualmente real: mais de um século de comissões de serviço de guerra, programas de treinamento com padrões militares, interlocução com o Pentágono, recrutamento e endosso de capelães, acordos sobre a situação de adventistas fardados, estruturas internacionais de serviço e uma comunidade religiosa especificamente criada para pessoas vinculadas à presença militar e governamental norte-americana no exterior.

Não estamos descrevendo um grupo marginal de ex-militares religiosos. Estamos examinando departamentos, programas e cargos que a própria Associação Geral reconhece. A World Service Organization, ou WSO, pertence aos Adventist Chaplaincy Ministries, os ministérios adventistas de capelania, e trabalha em relação com a estrutura denominacional mundial. A organização informa que acompanha pessoas em serviço nas Forças Armadas, na polícia e em agências governamentais; presta assistência em questões de consciência e acomodação religiosa; desenvolve relações de trabalho com autoridades; mantém registros para acompanhar adventistas que atuam no serviço governamental; e coordena programas especializados. Não se trata de inferir esse repertório da aparência de seus dirigentes ou de símbolos impressos em seus uniformes. Suas funções estão publicadas em seu próprio site.

Chamamos essa construção de Igreja-Estado em sentido crítico e institucional. A expressão designa uma denominação que integrou ao seu funcionamento permanente uma infraestrutura de relacionamento com o Estado e com instituições militares. Não significa que a IASD possua a soberania jurídica de um Estado, nem que a WSO tenha sido demonstrada como autoridade superior à presidência da Associação Geral. O que denunciamos é mais concreto: a Igreja mantém uma organização especializada para negociar, acompanhar, preparar, credenciar e representar sua presença dentro da máquina estatal e militar, utilizando uma linguagem de comando e promovendo a circulação de oficiais com carreiras superiores nas Forças Armadas para posições de direção denominacional. A forma jurídica continua religiosa; a prática administrativa desenvolveu características de uma corporação internacional habituada a funcionar no ambiente governamental.

1864: a primeira negociação com o poder armado foi feita para não pegar em armas

Em 1864, durante a Guerra Civil dos Estados Unidos, adventistas procuraram as autoridades federais para assegurar o reconhecimento de sua objeção de consciência ao porte de armas. A iniciativa era defensiva. Pretendia impedir que jovens religiosos fossem obrigados a matar em desacordo com suas convicções. A distinção não deve desaparecer do registro histórico: o ponto de partida foi uma reivindicação de proteção para a liberdade de consciência. Mas o resultado administrativo daquela primeira interlocução já antecipava um problema que acompanharia a denominação por gerações. Para obter uma condição especial dentro de um sistema militar, a Igreja precisava conhecer suas normas, identificar seus membros, apresentar representantes, negociar classificações e manter contato com autoridades. A recusa ao uso das armas abriu um canal formal de relacionamento com os responsáveis pela organização que as utilizava.

Não houve então uma Igreja Militar Adventista com o organograma atual. Houve algo anterior: a descoberta de que o serviço militar exigia uma administração religiosa capaz de falar com o Estado. Essa experiência voltaria com mais força quando novos conflitos internacionais passaram a alcançar milhares de adventistas. A contradição histórica não consiste em ter defendido a consciência dos convocados, mas no destino institucional dessa interface: um mecanismo concebido para proteger pessoas contra a imposição do combate acabou produzindo sucessivas organizações dedicadas a acompanhar de maneira duradoura a vida militar.

1918: a War Service Commission formalizou uma administração de guerra

Durante a Primeira Guerra Mundial, a Associação Geral criou, em julho de 1918, a War Service Commission, ou Comissão de Serviço de Guerra, com Carlyle B. Haynes entre seus responsáveis. Sua finalidade incluía assistir membros adventistas nos campos militares e manter comunicação com autoridades federais quando problemas de consciência e serviço atingiam os convocados. A comissão não sobreviveu ininterruptamente com o mesmo nome e formato à guerra. Mas o precedente ficou registrado: o adventismo havia estruturado uma relação burocrática própria com as Forças Armadas, aprendendo a atender simultaneamente aos seus membros e às exigências de interlocução do governo.

É importante acompanhar a mudança de escala. Uma congregação local poderia consolar um jovem recrutado; uma comissão mundial podia catalogar problemas recorrentes, orientar pastores, lidar com comandos militares e fazer da exceção de consciência uma questão administrada institucionalmente. Esse deslocamento não representa automaticamente participação no comando de operações de guerra, mas demonstra o surgimento de um corpo especializado na interface entre a Igreja e o aparelho que organiza a guerra. Ao longo do século XX, essa competência deixaria de depender de um conflito excepcional.

1934–1939: o Medical Cadet Corps preparou adventistas para funcionar dentro da guerra

A nova transformação ocorreu antes da Segunda Guerra Mundial. Everett N. Dick iniciou em 1934, no Union College, um programa de preparação que daria origem ao Medical Cadet Corps, ou MCC. A orientação era preparar adventistas para funções de assistência médica e serviço não combatente, caso fossem convocados. Sua formação incorporava primeiros socorros, disciplina, marchas, exercícios de ordem unida, etiqueta militar e conhecimentos úteis ao atendimento em campo. Em outras localidades, iniciativas semelhantes foram desenvolvidas, inclusive com participação de profissionais que conheciam o ambiente militar. Em 1939, a denominação adotou oficialmente o programa. A própria história da WSO registra contatos com o gabinete do Cirurgião-Geral do Exército americano para adequar o currículo a padrões e necessidades do serviço militar.

Esse é um dos pontos mais difíceis para a memória denominacional simplificada. O jovem permanecia classificado como não combatente, mas era treinado para integrar estruturas militares, obedecer a disciplina, trabalhar uniformizado e executar tarefas indispensáveis à conservação da força de combate. A diferença entre portar uma arma e servir numa unidade que participa de uma guerra possui significado moral e jurídico. Contudo, a não combatência não significava ausência do teatro militar. Podia significar participação organizada nele sob determinadas condições. A Igreja encontrava uma forma de preservar uma identidade pacifista parcial ao mesmo tempo que profissionalizava a preparação para atividades dentro de um sistema de guerra.

As aulas, os acampamentos, os manuais e as parcerias estabelecidas não eram apenas metáforas religiosas sobre soldados de Cristo. Tratava-se de treinamento prático. O Medical Cadet Corps desenvolveu uma tradição institucional que atravessou escolas, associações e países. A adoção de padrões militares deu à estrutura adventista uma capacidade de mobilização e disciplina que ultrapassava a pastoral comum. Quando o programa se internacionalizou, sua própria expansão demonstrou a existência de um método replicável e administrado para preparar membros a atividades próximas do universo militar.

A mudança de nomes não desfez a continuidade administrativa

Com a Segunda Guerra e a Guerra da Coreia, a administração adventista reformulou as comissões especializadas. Os nomes variaram entre serviços de guerra, serviço nacional, comissões internacionais e, mais tarde, a National Service Organization, estruturada em 1954. Essa sequência não deve ser apresentada como se cada entidade fosse juridicamente idêntica à anterior. Houve encerramentos, reorganizações e redistribuições de responsabilidades. O que permaneceu reconhecível foi a função: manter uma relação organizada com convocação, consciência religiosa, treinamento, capelania, assistência a militares e autoridades governamentais. Na década de 1950, milhares de jovens passaram pelo MCC, que se difundiu por diferentes territórios adventistas.

A denominação também mudou sua linguagem. O termo war, guerra, perdeu espaço para designações como serviço nacional e mundial. A mudança podia expressar uma preocupação legítima com o alcance internacional do programa e com a diversidade de situações legais em cada país. Mas, do ponto de vista da investigação histórica, não elimina a linha de continuidade entre a antiga comissão de guerra e a moderna administração de relações militares. Em vez de observarmos apenas os nomes, precisamos acompanhar quem controlava os programas, que funções exerciam e quais interlocutores mantinham dentro do Estado.

A palavra decisiva encontrada nos arquivos: liaison com o Pentágono

A historiografia adventista fornece uma definição particularmente expressiva. A National Service Organization foi descrita como uma liaison entre a Igreja e o Pentágono — uma estrutura de articulação institucional, não apenas uma amizade entre um pastor e um oficial. O termo importa porque identifica um canal de comunicação e mediação entre duas organizações. Sua função envolve circulação de informações, tratamento de problemas, coordenação de procedimentos e manutenção de interlocutores identificáveis. A própria história da WSO/NSO, preservada na enciclopédia da denominação, documenta essa trajetória. O verbete sobre Grover Clark Smith também registra sua função de ligação entre o adventismo e o sistema militar americano, além da supervisão de capelães e centros de apoio.

Não estamos diante de uma expressão poética. Uma organização que exerce papel de liaison possui existência funcional na fronteira administrativa que conecta. O adventismo não precisava estar juridicamente submetido ao Exército para criar uma interface regular com ele. Bastava estruturar representantes, procedimentos, credenciais e conhecimento institucional suficiente para se tornar interlocutor estável. A questão reveladora é que esse papel não desapareceu quando o recrutamento obrigatório deixou de ser a experiência predominante dos americanos, em 1973. A NSO ajustou-se a um cenário em que adventistas também escolhiam voluntariamente as carreiras militares.

Whitecoat: a cooperação ultrapassou a assistência espiritual aos soldados

A Operação Whitecoat constitui um dos exemplos mais concretos da capacidade de integração adquirida pela estrutura adventista. Desenvolvida no âmbito da pesquisa biomédica militar americana, contou com voluntários adventistas para estudos relacionados à medicina preventiva e a ameaças biológicas. O processo envolvia instituições do Exército, instalações de pesquisa, seleção de voluntários e acompanhamento denominacional. A investigação publicada pela revista Spectrum em 1996 descreveu representantes da National Service Organization presentes durante o contato de oficiais responsáveis pelo programa com possíveis participantes, inclusive para esclarecer dúvidas e acompanhar a voluntariedade das decisões.

A significação institucional de Whitecoat vai além da controvérsia sobre cada experimento. A denominação dispunha de uma organização capaz de conectar jovens religiosos, necessidades de um programa militar e uma administração que acompanhava o processo de escolha. Uma tradição de não combatência tornou-se, naquele contexto, uma condição que favorecia a participação em pesquisas úteis à medicina militar. Estado, ciência, Exército, dirigentes adventistas e membros da Igreja operavam dentro de uma cooperação formalmente organizada. É difícil sustentar, depois dessa experiência, que o relacionamento denominacional com o universo militar tenha consistido apenas em visitar soldados para oferecer orações e distribuir Bíblias.

O endosso ministerial tornou-se uma credencial de entrada na carreira militar

Outro documento ajuda a tornar visível a função da NSO. Em dezembro de 1966, a revista Ministry publicou o artigo Call for Chaplains, de Clark Smith, então responsável pela organização. O texto descrevia a necessidade de capelães adventistas nas Forças Armadas e explicava que os candidatos precisavam obter endosso religioso denominacional. Para os adventistas, a NSO participava da concessão desse endosso. O futuro capelão atravessava dois filtros institucionais: o de sua comunidade religiosa, que reconhecia sua legitimidade ministerial, e o das Forças Armadas, que estabeleciam os requisitos da carreira.

Esse mecanismo revela um poder administrativo específico. A Igreja não se limitava a constatar que um pastor havia ingressado no Exército; participava do processo que o habilitava a exercer uma função religiosa profissional dentro dele. A correspondência entre credencial eclesiástica e exigências militares produzia uma porta de entrada cujo funcionamento dependia da articulação entre as duas instituições. É nesse sentido que falamos de uma engrenagem de relações militares. Não uma capelania improvisada, mas um sistema de credenciamento e acompanhamento capaz de sobreviver a guerras, governos e mudanças de legislação.

O escritório oficial de relações militares da IASD

O que era chamado de liaison no período da NSO aparece hoje de maneira ainda mais clara na terminologia denominacional. A organização emprega a expressão inglesa official military relations office of the Seventh-day Adventist Church: escritório oficial de relações militares da Igreja Adventista do Sétimo Dia. A formulação consta em materiais administrativos e publicações da própria estrutura. Essa expressão deve ser lida com todo o peso das palavras escolhidas por seus autores. Não se trata do apelido que críticos deram a um departamento pastoral. A instituição assume como atribuição oficial o relacionamento da denominação com ambientes e autoridades militares.

As atividades atuais da WSO incluem suporte aos adventistas que servem seus governos, relacionamento com autoridades civis, colaboração em questões de liberdade e acomodação religiosa, programas de formação e acompanhamento de membros em carreiras públicas. O âmbito inclui militares, policiais, agentes penitenciários e outras categorias de servidores. Também abrange comunicação, retiros e iniciativas voltadas a pessoas que se encontram distantes de suas comunidades locais em razão do trabalho estatal. Existe aí assistência espiritual, sem dúvida. Mas existe igualmente uma função corporativa de representação e coordenação, expressamente reconhecida.

A parte menos conhecida dessa estrutura é o acompanhamento de adventistas inseridos no aparelho estatal. A organização declara manter mecanismos de registro de membros no serviço governamental, inclusive categorias como militares, policiais, pessoas envolvidas com sistemas correcionais e agentes públicos. Isso merece exame quanto à finalidade, às regras de acesso e ao uso das informações. O fato documentado é a existência de uma preocupação institucional sistemática em conhecer e acompanhar a presença adventista nessas áreas. A implicação é que o adventismo não apenas possui membros empregados pelo Estado; criou uma estrutura especializada para administrar sua relação com os ambientes em que trabalham.

A Adventist Military Church não é metáfora: recebe membros por transferência

O nome mais revelador dessa arquitetura talvez seja Adventist Military Church — North American Division. Ele aparece em página oficial da World Service Organization e corresponde a uma comunidade com regras próprias de elegibilidade. A página estabelece que pessoas designadas para trabalhar no exterior durante seis meses ou mais em atividades oficiais ligadas ao governo ou ao serviço militar dos Estados Unidos ou do Canadá podem solicitar a transferência de sua membresia para essa igreja. Entre os elegíveis estão militares da ativa, funcionários civis, professores, trabalhadores de serviços de apoio a instalações militares, contratados e familiares.

Não estamos diante de um nome poético para encontros religiosos esporádicos em quartéis. A página dispõe sobre transferência eclesiástica formal, com identificação dos familiares e da igreja de origem. Isso significa que a estrutura especializada em serviço governamental e militar possui também uma solução eclesiástica correspondente: não apenas atendimento aos fardados, mas uma comunidade de membresia organizada para uma população definida por sua vinculação ao trabalho estatal e pela permanência no exterior. A denominação, portanto, transportou sua organização religiosa para o interior de uma experiência social estruturada pelo serviço militar e governamental. A fronteira entre igreja local, administração de pessoal e presença internacional do Estado torna-se um dos elementos fundamentais da história.

O organograma fala a língua do comando

A liderança atual da WSO apresenta uma nomenclatura pouco familiar à experiência habitual de uma igreja. O diretor Ivan H. Omaña figura como World Commanding Officer (CO); Andrew R. Harewood como World Commanding Executive Officer (XO); e Mario Ceballos aparece na direção de operações e treinamento, com atribuições vinculadas ao Medical Cadet Corps. São denominações publicadas na página oficial de liderança. A escolha dessas expressões merece ser considerada pelo que revela: uma organização religiosa optou por apresentar sua direção especializada com categorias reconhecíveis no vocabulário de comando e operações.

A linguagem, isoladamente, não transforma tais dirigentes em oficiais de uma força armada própria nem concede à WSO autoridade militar sobre as igrejas locais. Mas cria uma representação administrativa que merece atenção. O membro comum encontra presidentes, secretários, tesoureiros e departamentais. Nesse subsistema especializado, encontra comandante mundial, oficial executivo, operações e treinamento. O contraste não é fabricação retórica nossa; aparece nos cargos anunciados pela própria organização. O mais revelador, contudo, não é o título, mas a trajetória e o poder profissional das pessoas nomeadas para exercê-lo.

Andrew R. Harewood: a descoberta de fevereiro de 2026

A biografia oficial do Adventist Chaplaincy Institute informa que Andrew R. Harewood assumiu em fevereiro de 2026 o cargo de Assistant Director dos Adventist Chaplaincy Ministries na Associação Geral. Paralelamente, a World Service Organization o apresenta como World Commanding Executive Officer. Esta é uma informação substantiva que a reportagem publicada precisava destacar com mais precisão: não se trata apenas de um brigadeiro-general americano convidado a participar de uma solenidade adventista. Ele ocupa formalmente uma função administrativa na direção mundial dos ministérios de capelania e exerce a posição de oficial executivo no organograma da estrutura internacional de serviço.

A carreira anterior ajuda a dimensionar essa mudança. O Exército dos Estados Unidos anunciou em novembro de 2020 a ascensão de Harewood ao posto de vice-chefe de Capelães da Reserva do Exército americano, como brigadeiro-general, e registrou explicitamente que ele era ministro ordenado e endossado como capelão pela Igreja Adventista do Sétimo Dia. Sua função envolvia aconselhamento aos escalões superiores da Reserva e supervisão de recursos, treinamento e políticas para mais de setecentos capelães ligados a uma população militar de aproximadamente 190 mil soldados da Reserva, além de suas famílias e servidores civis. O comunicado oficial do Exército, de 25 de novembro de 2020, constitui uma fonte independente da própria denominação para essa etapa de sua trajetória.

O mesmo sistema militar o situou em funções estratégicas vinculadas ao Escritório do Chefe de Capelães, no Pentágono. A biografia publicada pela WSO descreve sua atuação em estratégia, planos, políticas, recursos, legislação e doutrina, assuntos governamentais, acomodação religiosa, gestão de efetivos, estudos estratégicos, mobilização e operações de contingência. Harewood não era simplesmente um capelão designado para acompanhar espiritualmente uma pequena unidade. Ele alcançou posições de planejamento e assessoramento na arquitetura superior da capelania do Exército, dialogando com grandes comandos e participando da organização de políticas para uma instituição militar de escala continental.

O registro oficial informa que, após a aposentadoria militar, Harewood foi nomeado diretor-assistente dos ministérios de capelania da Associação Geral. Nessa função mundial, participa de iniciativas de endosso, desenvolvimento, treinamento e aperfeiçoamento profissional de capelães adventistas em ambientes militares, hospitalares, universitários, policiais, penitenciários e outras instituições. A própria biografia informa ainda sua participação em estruturas de certificação profissional relacionadas ao Adventist Chaplaincy Institute. Esse acúmulo de atividades amplia sua inserção na formação e no reconhecimento de quadros especializados da Igreja. Não temos apenas a fotografia de um general num organograma. Temos a circulação de competências de planejamento militar superior para funções de organização e treinamento dentro da administração denominacional.

É essa transferência de experiência institucional que precisa ser investigada. Um homem acostumado a trabalhar com política, planejamento, recursos, mobilização e gestão de pessoal em estruturas militares passa a exercer atribuições em um departamento eclesiástico responsável por credenciamento e formação de capelães. A denominação recebe, junto com o profissional, uma cultura administrativa desenvolvida em ambientes de comando e grandes organizações. Seria necessário conhecer as competências efetivamente delegadas a Harewood, as decisões das quais participa e sua posição nas comissões internas para medir o alcance integral de sua influência. O que já sabemos, pelos registros atuais, é suficientemente significativo: sua função na WSO e seu posto na administração mundial da capelania coexistem desde 2026.

Por que o general passou a importar ainda mais

É tentador medir poder apenas pelo posto máximo escrito num organograma. Esse método seria insuficiente diante da trajetória de Harewood. Seu título na WSO é executivo; sua atribuição na Associação Geral é diretiva; sua experiência inclui liderança estratégica e supervisão de políticas em uma instituição militar de enorme escala. Em organizações complexas, influência também decorre do domínio de processos, formação de quadros, acesso a informações e capacidade de formular procedimentos. Um especialista que participa de credenciamento, treinamento e política institucional pode exercer efeitos duradouros sem ocupar a presidência de toda a organização religiosa.

A investigação revela, portanto, uma situação mais concreta do que a simples expressão “o general manda na igreja”. Harewood não aparece como presidente mundial da IASD. Aparece como antigo oficial general com experiência em altos escalões da capelania militar americana que hoje participa da direção do aparato mundial adventista responsável justamente por capelania e relações militares. A diferença é essencial para compreendermos o fenômeno. O poder que examinamos não precisa substituir formalmente o presidente da denominação para participar da construção de uma rede internacional de endosso, formação, treinamento e interlocução com governos. Ele existe no funcionamento especializado dessa rede.

Omaña e Ceballos: a continuidade de uma direção mundial com experiência venezuelana

Harewood integra uma equipe cujas biografias também merecem leitura institucional. Ivan H. Omaña, apresentado como comandante mundial da WSO, nasceu na Venezuela e pertence a uma família vinculada à história adventista daquele país. Atua como diretor dos Adventist Chaplaincy Ministries e presidente do Adventist Chaplaincy Institute. Mario E. Ceballos, também venezuelano de origem, possui longa experiência em capelania militar americana e exerceu a direção mundial dos ministérios de capelania e da estrutura de serviço. A página atual da WSO o identifica nas áreas de operações e treinamento e como responsável executivo pelo Medical Cadet Corps, oferecendo suporte à direção de Omaña e Harewood.

Essa composição revela a circulação internacional de dirigentes entre o pastorado, o serviço militar profissional, os departamentos de capelania e os programas de formação de cadetes. A referência à Venezuela, neste artigo, limita-se ao que ela demonstra sobre a biografia e a continuidade administrativa desses dirigentes. As questões específicas sobre atividades em território venezuelano, relações diplomáticas, assistência humanitária e acontecimentos políticos pertencem aos outros dossiês que já preparamos. Não precisamos antecipá-los para compreender o que o organograma atual já revela: uma administração internacional com experiência militar americana de alto nível e raízes biográficas que alcançam diferentes países.

A reorganização da capelania não apagou a antiga história militar

As áreas que hoje integram os Adventist Chaplaincy Ministries tiveram diferentes configurações ao longo das décadas. A Associação Geral desenvolveu uma administração especializada de capelania, inicialmente como serviço e depois como departamento; a organização também distinguiu responsabilidades entre estruturas da Associação Geral e da Divisão Norte-Americana. Isso não autoriza representar a WSO como uma autoridade juridicamente separada e superior à Associação Geral. Mas mostra que o serviço militar e a capelania se tornaram assuntos suficientemente importantes para exigir políticas, dirigentes e procedimentos continuados dentro da organização mundial. A antiga experiência de serviço nacional não foi simplesmente apagada pela criação de uma nomenclatura mais pastoral.

O MCC ilustra a persistência desse legado. O treinamento passou por adaptações e reativações, inclusive uma renovação de sua presença internacional na estrutura contemporânea. Em alguns ambientes, as competências de disciplina, primeiros socorros, logística e coordenação de equipes passaram a ser aplicadas à assistência emergencial e a respostas humanitárias. Essa mudança de aplicação não transforma automaticamente cada atividade assistencial em atividade militar, mas mostra como uma tradição organizacional nascida na preparação para a guerra pode ser reempregada em outras áreas da vida institucional. A permanência administrativa do programa importa mais do que a tentativa de atribuir a todos os seus participantes uma finalidade única.

A corporação por trás da linguagem religiosa

O aspecto corporativo aparece na soma das funções, não no uso indiscriminado de um rótulo. A estrutura cria e atualiza políticas, mantém relações oficiais, cadastra públicos específicos, organiza formação de pessoal, endossa profissionais, articula programas internacionais, reconhece credenciais, acompanha servidores em instituições estatais e oferece solução própria de membresia para pessoas vinculadas ao trabalho governamental no exterior. São tarefas de administração, representação, recursos humanos e operação institucional. O discurso público da igreja costuma explicar essas funções por sua finalidade pastoral; a documentação revela também a engenharia organizacional necessária para exercê-las.

Essa é a crítica que consideramos central. A denominação ensinou gerações a perceberem o perigo espiritual na associação entre autoridades religiosas e poderes civis, especialmente quando tal aproximação ameaça a liberdade de consciência. Ao mesmo tempo, desenvolveu uma burocracia internacional especializada para manter presença estável em ambientes militares e governamentais. Os objetivos declarados incluem assistência e defesa da liberdade religiosa; o resultado institucional inclui canais permanentes de acesso, credenciamento e relacionamento com o aparelho estatal. Uma igreja que exige dos membros vigilância diante da união entre poder religioso e poder civil precisa aplicar critérios igualmente exigentes à sua própria estrutura.

O que a palavra Igreja-Estado efetivamente denuncia

Uma tese histórica não se torna mais forte por ser repetida a cada página. Sua força depende da arquitetura de fatos que a sustenta. Desde 1864 identificamos uma negociação de consciência com o poder militar; em 1918, uma comissão denominacional de serviço de guerra; nos anos 1930, treinamento médico-militar de jovens adventistas; nas décadas seguintes, organizações nacionais e internacionais; durante Whitecoat, uma cooperação institucional com pesquisa militar; em 1966, endosso denominacional para ingresso de capelães nas Forças Armadas; posteriormente, uma WSO oficialmente incumbida das relações militares e governamentais; hoje, cargos mundiais formulados em linguagem de comando e uma Adventist Military Church com transferência formal de membros.

O termo Igreja-Estado resume nossa leitura crítica dessa continuidade. Não é uma declaração de que a IASD e o Estado americano sejam a mesma pessoa jurídica, nem uma descoberta de comando clandestino sobre toda a denominação. É a denúncia de que a organização religiosa construiu em seu próprio corpo administrativo mecanismos permanentes de negociação, acesso, formação e cooperação com aparelhos do Estado. Esse subsistema não substituiu os templos, os pastores e as missões. Desenvolveu-se juntamente com eles, na mesma instituição, fazendo coexistirem a identidade espiritual anunciada aos fiéis e uma estrutura de ação corporativa especializada na relação com o poder governamental.

A pergunta sobre subordinação deve ser feita nos termos dessa coexistência. Se a Igreja define suas políticas de capelania, treinamento e relações militares a partir de uma administração reconhecida, quem estabelece seus limites? Quem supervisiona acordos, cadastros, procedimentos e a atuação de seus representantes? Que instâncias eclesiásticas prestam contas aos membros? E como se distribui a autoridade prática entre presidentes, departamentos, especialistas e dirigentes com longa experiência no aparelho militar? Essas perguntas investigam poder real sem atribuir aos documentos uma hierarquia que eles não registram. A resposta não está na aparência religiosa do organograma nem no brilho das patentes; está nas regras e nas decisões que fazem a estrutura funcionar.

A igreja militar não é um desvio acidental: é o resultado de uma história

A Adventist Military Church não surgiu num vazio institucional. Sua existência torna visível um longo desenvolvimento. Primeiro, houve a necessidade de amparar membros que se recusavam a portar armas. Depois, a Igreja aprendeu a trabalhar regularmente com normas e autoridades militares. Em seguida, organizou jovens para funções não combatentes, estruturou programas de serviço, manteve capelães, participou de iniciativas de pesquisa militar e criou relações oficiais que sobreviveram à conscrição obrigatória. Por fim, passou a oferecer, dentro do mesmo sistema, uma igreja própria para membros ligados ao serviço militar e governamental no exterior. Nenhuma dessas etapas, tomada isoladamente, reproduz a totalidade do fenômeno. Reunidas, mostram que a presença estatal-militar tornou-se uma área permanente e desenvolvida do adventismo organizado.

O novo lugar de Andrew R. Harewood concentra o sentido contemporâneo dessa história. O antigo brigadeiro-general não é apenas um personagem para uma fotografia dramática. Sua promoção à direção da capelania adventista em fevereiro de 2026 e sua posição executiva na WSO simbolizam a passagem de quadros da capelania militar de alto escalão para a administração especializada da denominação. Ao lado de Omaña e Ceballos, aparece num organograma em que títulos de comando convivem com funções de ensino, treinamento, endosso e assistência religiosa. É uma composição produzida pela própria Igreja e publicamente assumida, que precisa ser compreendida como parte de seu funcionamento, não como episódio marginal.

Conclusão: a pergunta não é se essa estrutura existe, mas quem responde por ela

A documentação reunida muda o ponto de partida da discussão. Não precisamos perguntar se a IASD possui relações com militares, se administra capelães, se organiza formação de cadetes ou se mantém uma igreja destinada a membros no serviço governamental no exterior. Tudo isso aparece nos registros denominacionais. Também não precisamos supor que um militar aposentado exerça comando secreto sobre a Associação Geral para compreender a importância de sua presença na direção da WSO. A questão é pública, histórica e administrativa: uma igreja que se apresenta como mensageira da liberdade de consciência tornou-se também uma organização com experiência contínua, internacional e especializada de relacionamento com estruturas militares e governamentais.

Denunciamos a distância entre a simplicidade da imagem religiosa oferecida ao membro comum e a complexidade dessa administração. Não porque todos os trabalhos de capelania sejam ilegítimos ou porque a assistência a militares seja, por definição, uma atividade oculta. Mas porque uma denominação que reivindica autoridade moral para advertir o mundo sobre a associação de religião e poder precisa permitir que seus próprios mecanismos de aproximação com o Estado sejam examinados com o mesmo rigor. A tradição não combatente não apagou a integração administrativa; serviu, em diferentes momentos, como linguagem e condição de possibilidade de uma cooperação organizada com o ambiente militar.

Em 1864, adventistas procuraram o governo para não serem obrigados a pegar em armas. Em 2026, um brigadeiro-general aposentado do Exército americano, formado nos mais altos escalões de planejamento e capelania militar, ocupa um cargo diretivo na administração mundial de capelania adventista e figura como oficial executivo do comando mundial da WSO. Entre esses dois acontecimentos há mais de um século e meio de comissões, cadetes, credenciamentos, pesquisas militares, departamentos, acordos administrativos e estruturas de serviço. Essa história não é uma ilusão produzida por adversários da denominação. Está escrita nos documentos que a própria IASD preserva e publica.

A instituição religiosa pode continuar afirmando que todas essas atividades servem a seus membros e à liberdade de consciência. Nossa investigação mostra que elas também constituem uma estrutura de poder, representação e formação institucional. A verdade sobre essa arquitetura não aparece quando repetimos indefinidamente que existe uma outra igreja, mas quando colocamos seus cargos, suas regras, sua genealogia e suas responsabilidades diante dos membros. A Igreja-Estado que denunciamos tem uma forma documental precisa: é a própria denominação agindo de maneira organizada e duradoura dentro da fronteira entre missão religiosa e instituições do Estado. E é à direção adventista, não aos fiéis desinformados sobre essas engrenagens, que cabe responder sobre seus limites, sua supervisão e seus compromissos.

Documentação principal

World Service Organization — About WSO. Funções atuais de relacionamento militar e governamental. Documento oficial.

World Service Organization — Leadership. Cargos de Ivan H. Omaña, Andrew R. Harewood e Mario E. Ceballos, com histórico e funções. Organograma oficial.

Adventist Chaplaincy Institute — Leadership. Nomeação de Andrew R. Harewood como diretor-assistente, em fevereiro de 2026, e descrição de suas responsabilidades mundiais. Biografia oficial.

U.S. Army — Deputy Chief of Chaplains for the Army Reserve. Comunicado de 25 de novembro de 2020 sobre a função de Harewood, sua patente, o endosso adventista e suas atribuições superiores. Fonte militar primária.

World Service Organization — Adventist Military Church. Regras de transferência de membresia para pessoas em serviço governamental e militar no exterior. Página oficial.

World Service Organization / National Service Organization. Estudo histórico de Sabrina Riley, publicado pela enciclopédia denominacional. Estudo histórico.

Grover Clark Smith. Verbete biográfico com registros de sua atuação na relação institucional da Igreja com os militares americanos. Registro biográfico.

Ministry, dezembro de 1966 — Call for Chaplains. Texto de Clark Smith sobre necessidades militares e endosso denominacional. Consultar edição.

Adventistas.com, 27 de outubro de 2026. Investigação original, com a cronologia e a documentação reunida.

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