
A Bíblia sob as botas do Pentágono: a transformação de pastores em funcionários da máquina de guerra americana
Baixe PDF em inglês sobre atividades dos militares-pastores (“capelães”) nas Forças armadas dos EUA:
https://www.adventistas.com/wp-content/uploads/2026/12/the-state-of-the-u-s-army-chaplain-corps-april-2023-digital.pdf
O relatório oficial da Capelania do Exército dos Estados Unidos, publicado em abril de 2023, é um verdadeiro atestado de militarização do ministério religioso. São 32 páginas nas quais a linguagem cristã, as orações, as cruzes, os sermões e o aconselhamento pastoral aparecem incorporados aos objetivos estratégicos das Forças Armadas norte-americanas. O documento não precisa ser desmascarado por seus inimigos. Ele próprio confessa a finalidade militar daquilo que chama de missão espiritual: preparar soldados para combater e vencer as guerras dos Estados Unidos.
O pastor não dispara o fuzil. Ajuda a preparar quem dispara.
A página 10 contém a declaração que deveria provocar um terremoto na consciência adventista: a missão da capelania é contribuir para formar equipes militares capazes de serem mobilizadas, combater e vencer guerras. É a espiritualidade convertida em instrumento de prontidão militar. A oração fortalece o soldado, o aconselhamento sustenta sua resistência, a assistência religiosa contribui para sua permanência na tropa. O Evangelho aparece inserido na engrenagem que prepara seres humanos para a guerra. Não se trata de dizer que cada capelão deseja matar; trata-se de denunciar a finalidade institucional à qual seu ministério foi incorporado.
Quem manda no programa religioso? O comandante.
Na página 14, o Exército elimina qualquer ilusão sobre a estrutura administrativa: “The Army’s religious program is the commander’s program.” O programa religioso do Exército é o programa do comandante. A frase deveria estar estampada na porta de cada gabinete denominacional que celebra a carreira de seus pastores fardados. O capelão pode receber reconhecimento de sua igreja, mas seu trabalho militar integra uma organização comandada por oficiais, planejada segundo necessidades operacionais e subordinada à estrutura administrativa das Forças Armadas. O pastor permanece religioso em sua identidade; o programa em que trabalha pertence ao Exército.

Por Deus e pela Pátria: a cruz incorporada ao uniforme
O lema Pro Deo et Patria parece piedoso. Mas, colocado ao lado da missão oficial de vencer guerras, adquire uma dimensão perturbadora. Deus aparece no mesmo brasão que identifica a instituição encarregada de executar a política militar americana. A cruz está no peito do oficial; as estrelas indicam sua patente; as medalhas registram a carreira; o uniforme representa a autoridade do Estado. A propaganda institucional reúne esses elementos numa única identidade visual. A questão não é se o capelão acredita sinceramente em Deus. É por que sua fé deve ser apresentada como componente da prontidão militar de uma potência mundial.
O general Harewood e a religião instalada na estrutura estratégica
Na página 6 aparece Andrew R. Harewood, identificado como general de brigada e vice-chefe dos capelães da Reserva, acumulando a direção de Estratégia, Política Institucional e Recursos. Não é um cargo de pastor de bairro, nem uma função exclusivamente cerimonial. É uma posição de direção numa organização religiosa militar que participa do planejamento estratégico do Exército. Quando essa trajetória se cruza com a World Service Organization e a Adventist Military Church, a investigação deixa de tratar de um adventista isolado usando uniforme. Passa a examinar as relações entre estruturas denominacionais e o aparelho militar de Washington.
A fotografia que a cúpula adventista deveria explicar
O relatório mostra soldados orando, capelães em treinamento, funerais militares, reuniões estratégicas e assistência religiosa em ambientes de combate. A cruz e a camuflagem aparecem lado a lado. A Bíblia e a bandeira compartilham o mesmo cenário. A mensagem visual é clara: a religião faz parte da vida operacional do Exército. O pastor militar não está retratado como uma voz externa advertindo o Estado sobre os limites morais de suas guerras. Está representado como integrante de uma organização cuja missão oficial inclui preparar suas tropas para vencê-las.
A grande contradição da Igreja Militar Adventista
Durante gerações, a Igreja Adventista ensinou que a associação entre poder religioso e autoridade estatal representa um dos grandes perigos denunciados pelo Apocalipse. Agora, a investigação encontra ministros religiosos vinculados a um sistema militar que declara abertamente utilizar a assistência espiritual para fortalecer sua capacidade de combate.
Que extraordinária inversão profética! A igreja que ensinava seus membros a vigiar a união entre religião e Estado precisa explicar sua própria participação institucional no universo dos capelães militares.
A pergunta não é se soldados merecem oração, consolo ou assistência espiritual. Evidentemente merecem. A pergunta é por que uma igreja que se apresenta como sentinela profética deveria celebrar a incorporação de seus ministros a uma estrutura cuja missão é preparar tropas para combater e vencer as guerras de Washington.
E a acusação que encerra essa investigação deve ser formulada sem rodeios:
O Pentágono não precisa transformar pastores em combatentes para colocar o trabalho pastoral a serviço de seus objetivos militares. Basta incorporá-los à cadeia institucional, vesti-los com suas insígnias, atribuir-lhes funções de prontidão espiritual e declarar, como fez no relatório de 2023, que seu ministério contribui para vencer guerras.
Quando a igreja chama isso de conquista ministerial, a pergunta deixa de ser o que o pastor está fazendo no quartel. Passa a ser o que aconteceu com a independência profética da igreja que o enviou para lá.
A Igreja Militar Adventista perdeu a vergonha de vestir farda?

Veja agora imagens de como a Igreja Militar Adventista descreve a capelania. Da cruz ao quartel, do púlpito ao Pentágono: como a cúpula adventista transformou generais, uniformes e condecorações militares em símbolos de prestígio religioso
Durante mais de um século, a Igreja Adventista do Sétimo Dia ensinou seus membros a desconfiar da associação entre religião e poder político, apresentando a união entre Igreja e Estado como um dos maiores perigos previstos nas profecias bíblicas. Seus evangelistas apontavam para os Estados Unidos como protagonista dos acontecimentos finais descritos em Apocalipse 13 e advertiam contra a submissão da consciência religiosa às autoridades civis. Entretanto, enquanto essa mensagem continuava sendo repetida nos púlpitos, outra realidade se consolidava dentro da estrutura denominacional: o desenvolvimento de uma capelania profissionalizada, internacionalizada e cada vez mais integrada a instituições militares, policiais, penitenciárias e governamentais. Os cartazes, anúncios, congressos e campanhas examinados nesta investigação apresentam o resultado dessa transformação. A farda já não aparece como um elemento estranho à vida religiosa adventista. Tornou-se uma das imagens utilizadas para promover seus próprios dirigentes e programas.
O material publicitário revela algo muito mais profundo do que a presença ocasional de adventistas nas Forças Armadas. Há uma estrutura internacional de capelania que promove congressos, mobiliza igrejas locais, organiza campanhas de evangelização, apresenta oficiais militares como pregadores convidados e utiliza as patentes e condecorações desses profissionais como elementos de autoridade pública. A Associação Geral aparece associada a esse universo por meio de seu departamento de Adventist Chaplaincy Ministries (ACM), enquanto outras organizações, como a World Service Organization (WSO), desenvolvem atividades voltadas ao reconhecimento de militares, policiais, bombeiros, profissionais de saúde e veteranos. A combinação desses elementos revela a existência de uma cultura religiosa institucional na qual a aproximação com aparelhos estatais de força e segurança é frequentemente apresentada como conquista, oportunidade e reconhecimento ministerial.
O escândalo não está na existência de soldados que desejam ouvir uma oração, nem no direito de militares receberem assistência espiritual. Está na transformação da autoridade militar em patrimônio publicitário da instituição religiosa. O general aparece como pregador; a patente, como credencial; as medalhas, como distinções exibidas diante da igreja; e o uniforme, como parte da identidade de um ministério que reivindica representar Jesus Cristo. A mesma denominação que ensina seus membros a examinar os perigos das alianças entre religião e Estado apresenta, em seus materiais promocionais, uma sucessão de dirigentes, oficiais e capelães identificados por suas ligações com estruturas militares e governamentais. A contradição deixa de ser um problema abstrato de teologia política. Está impressa nos próprios anúncios, com fotografias, nomes, patentes, cargos e símbolos oficiais.
1. Andrew Harewood: quando o general se transforma em atração do culto de sábado

O anúncio da igreja Andrews Memorial para o sábado de 22 de agosto de 2026 apresenta o pastor Andrew Harewood como pregador de um culto especial, com o tema “Ask Again”, ou “Peça Novamente”. À primeira vista, trata-se de mais uma programação religiosa destinada a incentivar a oração, a perseverança e a confiança em Deus. Entretanto, a composição visual reserva uma posição destacada ao militar reformado, identificado como “Brigadier General, U.S. Army (Ret.)”, seguido da informação de que ocupa a função de diretor-assistente dos Ministérios de Capelania Adventista da Associação Geral. A organização do anúncio não deixa dúvidas sobre o prestígio atribuído ao histórico militar do convidado. Sua patente aparece antes de sua função administrativa religiosa, transformando uma posição conquistada dentro da estrutura militar norte-americana em parte fundamental de sua apresentação à comunidade de fé.
O cenário escolhido para divulgar a pregação de Andrew Harewood é muito mais perturbador do que uma simples representação de perseverança espiritual. A figura humana posicionada entre as colunas monumentais representa Sansão, o guerreiro e juiz israelita que, depois de cair na armadilha de Dalila, foi capturado, cegado e humilhado pelos filisteus. Segundo o relato de Juízes 16, Dalila havia sido aliciada pelos governantes filisteus para descobrir o segredo da força de Sansão e entregá-lo aos seus inimigos. O episódio reúne sedução, espionagem, traição, captura e vingança contra um poder adversário.
Aprisionado e transformado em espetáculo diante dos chefes filisteus, Sansão foi conduzido ao templo de Dagom, onde pediu a Deus que lhe concedesse força mais uma vez. Sua oração não terminou numa libertação pacífica ou numa reconciliação com seus adversários. Terminou com a destruição das colunas que sustentavam o edifício, provocando seu desabamento, a morte dos inimigos reunidos e a própria morte do protagonista.
É essa cena de destruição dos inimigos, mediante a intervenção do poder divino, que aparece como cenário do anúncio religioso de um general do Exército dos Estados Unidos. A escolha visual ganha significado particularmente inquietante quando examinada ao lado da carreira militar do pregador. Andrew R. Harewood não é apresentado apenas como pastor ou professor de religião, mas como general de brigada reformado do Exército americano e dirigente dos Ministérios de Capelania Adventista da Associação Geral.
A composição associa, portanto, a imagem de um guerreiro bíblico que invoca a força de Deus para destruir seus adversários à fotografia de um oficial-general pertencente a uma instituição militar contemporânea. O título “Ask Again”, ou “Peça Novamente”, estabelece a conexão entre o pedido final de Sansão e a mensagem anunciada para o culto. O que está sendo representado não é simplesmente a esperança de um homem fragilizado, mas o instante em que sua última oração precede um ato de destruição coletiva, do qual ele próprio não sobrevive.
A ironia torna-se ainda mais aguda quando essa composição é confrontada com a missão oficial do Corpo de Capelães do Exército americano. O relatório publicado em abril de 2023 declara que a assistência espiritual militar contribui para preparar soldados capazes de serem mobilizados, combater e vencer as guerras dos Estados Unidos.
Agora, um anúncio religioso adventista apresenta um antigo dirigente estratégico dessa corporação militar associado visualmente ao episódio de Sansão, cuja vitória final consiste em derrubar sobre os inimigos um templo inteiro. O guerreiro bíblico pede força para destruir seus adversários; a capelania militar contemporânea declara contribuir para fortalecer espiritualmente soldados destinados a combater e vencer guerras; e o dirigente adventista aparece publicamente identificado por sua patente de general. O encontro dessas três referências numa mesma peça publicitária torna impossível ignorar a dimensão militar do imaginário religioso que está sendo mobilizado.
Existe ainda uma diferença fundamental entre o relato bíblico e sua utilização simbólica numa campanha contemporânea. Sansão era um israelita capturado por uma potência inimiga, submetido à violência de seus adversários e levado ao templo de uma divindade estrangeira. Harewood, ao contrário, construiu sua carreira dentro das Forças Armadas de uma das maiores potências militares do planeta, alcançando posição de comando na estrutura de capelania desse Estado.
Na história bíblica, o homem privado de sua liberdade clama a Deus por força para derrubar o edifício de seus opressores. Na propaganda adventista, essa mesma imagem serve de cenário à apresentação de um general norte-americano. A inversão é desconcertante: o personagem oprimido de Juízes 16 empresta sua dramaticidade espiritual à promoção religiosa de um representante de uma poderosa instituição militar. Diante disso, a questão não é apenas por que a igreja valoriza tanto a patente de seus pregadores, mas por que a linguagem visual de combate, destruição e vitória sobre inimigos encontra espaço tão natural na divulgação de um ministério que se apresenta como instrumento de paz, assistência espiritual e proclamação do Evangelho.

O cartaz da Conferência de Eswatini, intitulado “Chaplaincy & Mission Sabbath”, leva essa operação de prestígio a uma expressão ainda mais evidente. Andrew Harewood surge de uniforme militar, com condecorações, insígnias e identificação do Exército dos Estados Unidos claramente visíveis. A programação é anunciada como uma celebração da capelania e da missão, com referências ao ministério nas prisões, à atuação comunitária, à formação de profissionais e à assistência espiritual. O general reformado, porém, ocupa o centro visual da peça. A imagem de sua carreira militar funciona como principal elemento de atração, enquanto os símbolos adventistas e os temas missionários aparecem organizados ao redor dessa figura de autoridade.
A questão não é por que um ex-militar pode falar sobre religião. A questão é por que a administração religiosa utiliza o uniforme de um general americano como instrumento de promoção de um sábado missionário. O que se apresenta ao público não é simplesmente a biografia de um pregador, mas uma identidade composta por autoridade militar, reconhecimento denominacional e prestígio internacional. Quando esses elementos aparecem repetidamente em campanhas religiosas, deixam de constituir uma coincidência visual e passam a revelar uma preferência institucional: a farda e a patente são consideradas atributos capazes de valorizar a mensagem religiosa e conferir distinção aos seus representantes.
2. O documento que liga a direção estratégica do Exército americano à administração mundial adventista
A importância de Andrew R. Harewood não se resume às fotografias promocionais. O relatório oficial “The State of the U.S. Army Chaplain Corps”, publicado em abril de 2023, identifica o então general de brigada como vice-chefe dos capelães da Reserva do Exército e diretor da área de Estratégia, Política Institucional e Recursos. Trata-se de uma posição vinculada à administração e ao planejamento da capelania militar norte-americana. O mesmo relatório estabelece que a missão da corporação é fornecer apoio religioso e aconselhamento espiritual para contribuir com a formação de equipes capazes de serem mobilizadas, combater e vencer as guerras dos Estados Unidos. Portanto, a instituição na qual Harewood desempenhou funções estratégicas não descrevia sua atividade religiosa como um ministério independente dos objetivos militares, mas como parte integrante da capacidade operacional do Exército.
A documentação promocional adventista acrescenta a outra metade dessa história. Nos cartazes de 2026, Harewood aparece identificado como diretor-assistente dos Ministérios de Capelania Adventista da Associação Geral. A sequência documental permite observar um militar reformado de alta patente, anteriormente vinculado à administração estratégica do Corpo de Capelães do Exército americano, ocupando uma função administrativa na capelania mundial da denominação. É precisamente esse cruzamento de trajetórias que transforma o caso em assunto de investigação institucional. Não estamos examinando apenas um adventista que escolheu servir nas Forças Armadas. Estamos examinando a circulação de dirigentes entre um sistema religioso militar profissionalizado e a estrutura denominacional responsável por coordenar e promover a atuação de capelães adventistas.
O relatório do Exército afirma que seus capelães contribuem para preparar tropas para vencer guerras. Os cartazes adventistas apresentam um antigo dirigente desse mesmo sistema como autoridade religiosa internacional. A relação entre essas duas realidades exige perguntas que não podem ser respondidas com fotografias sorridentes, homenagens ou slogans sobre missão. Que modelo de capelania está sendo difundido pela Associação Geral? Como se distingue o ministério pastoral independente da religião institucionalmente incorporada à estratégia militar? E qual é o significado profético de uma igreja que exalta a trajetória militar de um dirigente sem submeter essa relação a um exame público rigoroso de suas próprias crenças sobre a separação entre religião e poder estatal?
3. Zimbábue: um general americano, autoridades africanas e a internacionalização da capelania


Os anúncios do congresso internacional de capelania CCS2026, programado para Harare, no Zimbábue, de 31 de agosto a 3 de setembro de 2026, oferecem uma das demonstrações mais expressivas do alcance transnacional dessa atividade religiosa. O material apresenta Andrew Harewood ao lado de Dr. Mushalika, da Zâmbia, e de L. Bepura, identificado como capelão-geral do serviço prisional do Zimbábue. A programação é dirigida a capelães militares, policiais, penitenciários, hospitalares, universitários, comunitários e corporativos. Na parte inferior da peça aparecem organizações parceiras, incluindo a Divisão África Austral-Oceano Índico da Igreja Adventista do Sétimo Dia e os Ministérios de Capelania Adventista. A presença desses símbolos não é secundária: demonstra como a identidade denominacional participa da apresentação pública de um congresso que reúne profissionais religiosos ligados a diferentes estruturas civis e estatais.
O cartaz individual de Harewood é ainda mais revelador. O nome do general é acompanhado da identificação “U.S. Army (Ret.)” e do cargo de diretor-assistente da Capelania Adventista da Associação Geral. A fotografia apresenta o dirigente com uniforme militar americano, condecorações e distintivos, enquanto os logotipos institucionais aparecem na mesma composição. Há um evidente aproveitamento publicitário de sua trajetória militar como símbolo de experiência e autoridade. O congresso, realizado em território africano, projeta a imagem de um general reformado do Exército dos Estados Unidos como uma das referências internacionais de um campo ministerial que envolve também capelanias policiais, penitenciárias e corporativas.
Esse tipo de divulgação revela uma transformação importante na maneira como a capelania é apresentada. O ministério religioso deixa de ser retratado apenas como atividade de assistência pessoal e passa a integrar redes profissionais internacionais, com congressos, credenciais, dirigentes, programas de capacitação e parcerias institucionais. A figura do capelão-geral penitenciário ao lado do general americano reforça a ligação visual entre religião e aparelhos estatais que possuem autoridade disciplinar, policial ou militar. Embora cada modalidade de capelania possua funções diferentes, a propaganda reúne todas sob uma identidade profissional comum, promovendo a ideia de que a presença religiosa nesses ambientes constitui um campo integrado de atuação e reconhecimento.
O que deveria causar espanto não é a possibilidade de religiosos atenderem pessoas em hospitais, prisões ou quartéis, mas a maneira como a proximidade com estruturas de poder passa a funcionar como credencial de prestígio denominacional. A pergunta que permanece é se a capelania adventista está sendo orientada prioritariamente pela independência de sua mensagem religiosa ou se a busca de acesso, reconhecimento e influência dentro dessas instituições está remodelando a própria identidade de seus ministérios.
4. O general, o pastor e o púlpito: a fabricação de uma autoridade híbrida


As diferentes peças publicitárias de Andrew Harewood revelam uma habilidade institucional para apresentar o mesmo personagem mediante identidades complementares. Nos anúncios internacionais de capelania, aparece como general de brigada do Exército americano e dirigente adventista. Nos encontros religiosos convencionais, pode surgir de terno, com a apresentação de doutor e pregador.
No anúncio do culto “Worship Experience”, realizado em Sandton, na África do Sul, em 3 de outubro de 2026, o material identifica “Dr. Andrew Harewood” como pregador, utilizando uma composição característica das campanhas evangelísticas contemporâneas. A imagem militar desaparece, mas a autoridade construída em outros ambientes continua acompanhando o personagem. A trajetória do dirigente passa a conectar carreira militar, administração denominacional, atuação acadêmica e prestígio religioso.
Essa circulação de identidades não é irrelevante para a formação da opinião dos membros. O uniforme transmite autoridade institucional, a patente indica posição hierárquica, o título acadêmico reforça competência e a função na Associação Geral confere reconhecimento denominacional. Reunidos numa mesma trajetória, esses atributos produzem uma imagem de liderança difícil de questionar, especialmente num ambiente religioso em que cargos e títulos frequentemente recebem consideração especial.
A crítica necessária é justamente contra a transformação desses sinais exteriores de autoridade em substitutos da avaliação teológica do ministério. Uma patente militar demonstra posição numa cadeia de comando; não constitui certificado de fidelidade profética, superioridade espiritual ou correção doutrinária.
O congresso masculino “Sin Máscaras”, anunciado para novembro de 2026, na República Dominicana, acrescenta outro elemento importante. Harewood aparece ao lado de Iván Omaña, apresentado como diretor de Capelania da Associação Geral, numa programação organizada para homens adventistas.
A publicidade aproxima o ex-general e o diretor mundial de capelania de um tema ligado à identidade masculina, à vida pessoal e à experiência religiosa. O resultado é uma espécie de transferência de prestígio entre as esferas militar e eclesiástica. A carreira militar acrescenta distinção ao dirigente religioso, enquanto a estrutura denominacional oferece ao ex-general uma plataforma internacional de pregação, ensino e representação institucional.
O púlpito está sendo utilizado para promover a autoridade do militar ou a experiência religiosa do pregador está sendo utilizada para conferir respeitabilidade espiritual ao prestígio militar? Essa é a contradição que os cartazes tornam impossível ignorar. Quando a igreja destaca reiteradamente patentes, uniformes e condecorações, ela ensina visualmente aos membros que tais símbolos possuem valor dentro de sua própria cultura religiosa. E quando essa valorização alcança a administração mundial, o problema deixa de ser uma escolha estética de um organizador local e passa a merecer investigação sobre a direção assumida pelo ministério institucional.
5. OneVoice27: a capelania transforma hospitais, quartéis e prisões em território de expansão institucional


Os materiais da campanha OneVoice27 apresentam outra dimensão da transformação que estamos examinando. Num dos cartazes, um pregador com Bíblia e microfone aparece em destaque, acompanhado de cenas relacionadas à assistência hospitalar, à presença militar e ao aconselhamento religioso. A mensagem central é organizada em três expressões: “My Voice”, “My Place” e “His Mission”, traduzidas como “Minha voz”, “Meu lugar” e “Sua missão”. A campanha utiliza uma linguagem de identificação pessoal com o ministério, sugerindo que cada capelão possui um campo específico de atuação, uma voz própria e uma responsabilidade missionária que deve ser exercida nos ambientes onde trabalha.
O cartaz “All Things New — A Chaplain’s Response” amplia visualmente essa proposta ao apresentar personagens associados a hospitais, Forças Armadas, prisões, comunidades e instituições civis. A composição une profissionais de diferentes setores sob a mesma identidade religiosa, comunicando que a capelania pode alcançar praticamente todos os ambientes da sociedade organizada. O conceito é eficiente como propaganda, mas também revela uma mudança de enfoque. O pastor deixa de ser representado principalmente pelo púlpito, pela comunidade de fé ou pelo anúncio público da mensagem bíblica. Passa a ser apresentado como um profissional especializado em assistência religiosa dentro de organizações que possuem suas próprias hierarquias, regulamentos, políticas e finalidades.
A expansão institucional da capelania permite acesso a espaços onde a presença de ministros religiosos tradicionais poderia ser limitada. Entretanto, também coloca uma questão decisiva: quem define os limites da atividade religiosa quando o capelão depende de uma organização empregadora para exercer suas funções? Num hospital, ele precisa respeitar normas de atendimento e proteção ao paciente; numa prisão, atua dentro de uma instituição de custódia; numa organização militar, integra uma estrutura de comando cuja missão inclui a preparação para o combate. Esses ambientes não são equivalentes, mas a campanha os reúne sob uma identidade ministerial comum. O exame crítico deve perguntar se a capelania está preservando a liberdade de sua voz religiosa ou se está sendo progressivamente moldada para funcionar como especialidade adaptável às demandas de cada instituição.
A denominação que afirma possuir uma mensagem profética singular passa a promover uma categoria profissional cuja principal característica é a capacidade de integrar-se aos ambientes institucionais existentes. Essa transformação merece atenção porque a missão profética adventista não se resume a oferecer serviços religiosos onde houver autorização administrativa. Ela reivindica o direito de questionar estruturas políticas, econômicas e religiosas, inclusive quando essas estruturas exercem enorme poder sobre a sociedade. O capelão institucional pode enfrentar exatamente essa tensão: oferecer assistência às pessoas sem permitir que sua identidade religiosa seja absorvida pelas prioridades da organização que o recebe.
6. A igreja que advertia contra a união entre religião e Estado agora promove generais como representantes religiosos
A contradição mais profunda de toda essa documentação encontra-se na relação entre a tradição profética adventista e a imagem pública produzida por seus ministérios de capelania. Durante gerações, os membros foram ensinados a estudar as profecias de Daniel e Apocalipse, identificar os perigos da autoridade religiosa associada ao poder estatal e defender a liberdade de consciência contra qualquer imposição política. O Estado aparecia como uma instituição cuja autoridade poderia ser utilizada para favorecer determinados interesses religiosos e restringir as convicções individuais. Essa preocupação ocupava lugar central na literatura evangelística, nos estudos bíblicos e nas interpretações históricas da denominação.
Entretanto, as campanhas contemporâneas de capelania apresentam uma linguagem completamente diferente. As relações com instituições militares, policiais, penitenciárias e governamentais são divulgadas como oportunidades de serviço, reconhecimento e expansão da presença adventista. Os cartazes não sugerem uma tensão a ser examinada, mas uma conquista a ser celebrada. A patente militar aparece como distinção; a participação em congressos internacionais, como expressão de influência; e o cargo administrativo na Associação Geral, como demonstração de legitimidade. A relação entre religião e poder institucional deixa de ser apresentada principalmente como perigo profético e passa a integrar a narrativa positiva de crescimento da denominação.
A questão não é afirmar que toda forma de cooperação religiosa com instituições públicas equivale automaticamente à união coercitiva entre Igreja e Estado descrita nas profecias. A questão é denunciar o abandono de uma atitude crítica diante do prestígio político e militar. Uma denominação que sempre exigiu dos outros rigorosa vigilância sobre suas alianças com governantes não pode tratar suas próprias relações institucionais como se estivessem acima do mesmo exame. Se a proximidade com autoridades civis e militares merece investigação quando envolve outras organizações religiosas, também merece quando aparece nos programas, campanhas e estruturas administrativas adventistas.
A situação torna-se ainda mais significativa quando o personagem promovido é um ex-general norte-americano. A Igreja Adventista identifica os Estados Unidos como protagonista de acontecimentos escatológicos e atribui à liberdade religiosa uma posição central em sua missão. Por essa razão, sua aproximação simbólica com a autoridade militar americana não pode ser reduzida a uma questão de marketing. Ela envolve a própria coerência entre aquilo que a denominação ensina sobre o poder estatal e aquilo que escolhe celebrar em seus representantes religiosos.
7. O sábado militarizado: quando a WSO transforma homenagens a militares e agentes de segurança em programação religiosa

O cartaz do “WSO Sabbath”, anunciado pela Southern New England Conference para 14 de novembro de 2026, é uma das imagens mais expressivas da integração entre cultura militar e vida religiosa adventista. A programação recebe o nome da World Service Organization e apresenta profissionais associados às Forças Armadas, à polícia, ao combate a incêndios, ao atendimento emergencial e aos serviços de saúde. O pregador anunciado é um capitão da Força Aérea dos Estados Unidos, Clavour R. Tucker. O material reúne símbolos profissionais, bandeira norte-americana, referências ao serviço público e identidade denominacional, convertendo o culto de sábado numa ocasião de reconhecimento a diferentes categorias de servidores.
A homenagem a pessoas que trabalham em serviços de emergência pode possuir significado comunitário legítimo. O problema editorial aparece quando o evento é examinado no conjunto mais amplo da estratégia visual da capelania. A WSO passa a ocupar o centro de uma programação sabática, enquanto patentes militares, insígnias profissionais e referências ao serviço nacional são incorporadas à apresentação religiosa. O sábado deixa de ser apenas o contexto temporal do culto e torna-se também a plataforma de divulgação de uma organização ligada à valorização institucional de militares e profissionais de segurança. O nome “WSO Sabbath” demonstra que a identidade da organização não está restrita a departamentos administrativos ou reuniões fechadas: ela aparece publicamente na programação das igrejas.
A mensagem publicitária “No Doubt. Be Ready.” — “Sem dúvida. Esteja preparado” — acrescenta uma linguagem de prontidão que merece atenção. A expressão pode ser utilizada em diferentes contextos, mas, inserida num anúncio que reúne militares, profissionais de emergência, uniformes e referências a serviços de segurança, reforça uma estética de preparação e disponibilidade característica desse universo profissional. A questão crítica está na normalização dessa linguagem dentro da comunicação religiosa. Símbolos da autoridade estatal e da organização militar passam a coexistir com a identidade adventista sem que o próprio material proponha qualquer reflexão sobre os limites dessa associação.
O sábado, que na tradição adventista representa a soberania divina sobre a consciência humana e a liberdade de adoração, passa a servir também como vitrine para uma cultura de valorização do uniforme, da patente e do reconhecimento estatal. A contradição não pode ser ignorada numa igreja que construiu parte de sua identidade histórica denunciando a possibilidade de instituições religiosas submeterem a consciência dos fiéis às exigências do poder político. A pergunta é por que a mesma vigilância não acompanha a promoção de organizações que celebram publicamente a participação religiosa em estruturas militares e policiais.
8. Colômbia: quando o reconhecimento governamental se transforma em propaganda adventista

Outra peça publicitária apresenta a manchete em espanhol: “Gobierno de Colombia busca experiencia adventista para capacitación en cuidado espiritual”. A imagem utiliza o edifício do Congresso colombiano, a bandeira nacional e personagens vestidos formalmente, aparentemente envolvidos em uma reunião institucional. A composição foi construída para comunicar autoridade, reconhecimento público e capacidade de diálogo entre representantes religiosos e governamentais. O título coloca a experiência adventista como conhecimento solicitado pelo Estado, transformando essa relação em motivo de valorização pública da denominação.
A escolha do cenário é especialmente significativa. O Congresso da República não aparece como simples detalhe arquitetônico, mas como símbolo visual de autoridade nacional. A bandeira reforça a associação com o Estado, enquanto os personagens de roupa social representam a linguagem contemporânea das negociações institucionais. A mensagem é que a Igreja Adventista possui experiência e competência reconhecidas pelo poder público. O reconhecimento governamental torna-se, assim, um elemento de propaganda religiosa, capaz de transmitir aos membros a sensação de que sua denominação alcançou posição privilegiada na sociedade e passou a ser consultada por autoridades estatais.
É exatamente esse fascínio pelo reconhecimento político que deveria despertar a atenção de uma denominação cuja tradição profética sempre advertiu contra a sedução do poder. A aproximação com governos não é apresentada como uma relação que exige independência, fiscalização e prudência institucional, mas como uma manchete positiva. O risco é transformar o acesso às autoridades numa espécie de certificado de excelência espiritual. Uma igreja pode adquirir influência, receber convites e participar de programas públicos sem que isso demonstre fidelidade à missão que proclama. Reconhecimento político e integridade profética não são conceitos equivalentes, por mais que a propaganda religiosa tente aproximá-los.
9. Do hospital à prisão: o crescimento de uma capelania adaptada às instituições de poder
O material da campanha “Chaplaincy & Mission Sabbath”, em Eswatini, utiliza a expressão “Reaching hearts, restoring lives, sharing Christ — beyond the walls”, ou “Alcançando corações, restaurando vidas, compartilhando Cristo — além dos muros”. O cartaz apresenta simbolicamente o ministério em prisões, comunidades e programas de formação, associando a atividade religiosa ao atendimento de pessoas em ambientes institucionais diversos. A mensagem pretende transmitir alcance social e capacidade de atuação além das paredes tradicionais da igreja. Entretanto, examinada criticamente, também revela a consolidação de uma identidade ministerial cuja característica principal é a adaptação a estruturas externas que possuem suas próprias autoridades, objetivos e procedimentos.
A capelania hospitalar lida com sofrimento, doença, morte e acompanhamento familiar. A capelania penitenciária atua num ambiente marcado pela restrição da liberdade e pelo exercício do poder estatal sobre pessoas privadas de liberdade. A capelania militar funciona dentro de uma instituição organizada para defesa nacional e operações de combate. Essas atividades apresentam necessidades espirituais reais, mas também envolvem relações institucionais muito diferentes. Ao agrupá-las sob uma mesma identidade profissional, a propaganda adventista enfatiza a expansão do campo de atuação sem aprofundar, no próprio material, as tensões que podem surgir entre o aconselhamento religioso e os objetivos administrativos das organizações empregadoras.
O relatório oficial do Corpo de Capelães do Exército americano torna essa questão especialmente concreta. Sua definição de missão relaciona expressamente a assistência espiritual à formação de equipes preparadas para combater e vencer guerras. Portanto, o capelão militar não está institucionalmente situado numa organização neutra quanto ao uso da força. Seu trabalho integra uma estrutura que possui finalidades militares definidas. A crítica à Igreja Militar Adventista deve concentrar-se precisamente nessa relação: a assistência religiosa prestada ao indivíduo pode ser incorporada a programas organizacionais destinados a fortalecer a capacidade de atuação de instituições de poder.
Quando a capelania é apresentada apenas como cuidado, serviço e missão, desaparece da propaganda a pergunta mais incômoda: a serviço de quais objetivos institucionais esse cuidado está sendo organizado? A assistência espiritual pode representar consolo para o soldado, o preso ou o paciente, mas também pode integrar estratégias administrativas de disciplina, permanência, coesão e prontidão. Uma instituição religiosa que reivindica independência profética precisa compreender e enfrentar essa tensão, em vez de escondê-la sob uma sucessão de imagens emocionantes e declarações de boas intenções.
10. Desmond Doss: a farsa moral da não combatência numa máquina organizada para matar

Entre os materiais examinados aparece esta homenagem ao adventista Desmond Doss, exaltado por sua atuação como socorrista militar durante a Segunda Guerra Mundial. O cartaz apresenta a frase: “He Refused to Carry a Gun — But Saved 75 Soldiers”, traduzida como “Ele se recusou a carregar uma arma, mas salvou 75 soldados”.
A história de Desmond Doss, adventista norte-americano celebrado por recusar-se a carregar armas durante a Segunda Guerra Mundial e por salvar aproximadamente 75 soldados feridos, tornou-se um dos principais símbolos utilizados pela denominação para demonstrar que seria possível servir às Forças Armadas sem participar diretamente da violência da guerra. Sua trajetória é apresentada como triunfo da consciência religiosa diante da obrigação de matar.
Entretanto, essa interpretação contém uma contradição fundamental que raramente recebe a atenção que merece: recusar-se a empunhar um fuzil não significa necessariamente recusar-se a participar do funcionamento de uma organização cuja finalidade é combater e destruir o inimigo. Doss não atuava como médico civil independente, vinculado a uma organização humanitária neutra e dedicada indistintamente aos feridos de todos os lados do conflito. Era um soldado integrado à estrutura militar norte-americana, prestando assistência médica a integrantes de sua própria força armada e contribuindo para preservar sua capacidade humana de continuar combatendo.
O problema ético não consiste em condenar o ato de salvar uma vida. Consiste em examinar a finalidade institucional da assistência prestada dentro de uma organização militar. Um soldado ferido representa, simultaneamente, uma pessoa humana necessitada de socorro e um integrante temporariamente incapacitado de uma força combatente. Quando recebe tratamento, recupera suas condições físicas e retorna à unidade, sua recuperação também beneficia a capacidade operacional daquela organização.
O mesmo atendimento que salva uma vida pode devolver ao campo de batalha um combatente que voltará a receber ordens, manejar armas e participar de operações destinadas a matar outros seres humanos. A assistência médica militar possui, portanto, uma dimensão operacional que não desaparece porque o profissional responsável pelo atendimento se recusa pessoalmente a disparar contra o inimigo.
É exatamente nesse ponto que a noção adventista de não combatência precisa ser submetida a um exame moral mais rigoroso. A separação entre aquele que dispara e aquele que mantém a estrutura combatente em funcionamento pode produzir uma tranquilidade de consciência que não corresponde à complexidade dos acontecimentos. O socorrista não escolhe necessariamente os alvos, não planeja os ataques e não executa diretamente a violência armada. Entretanto, seu trabalho contribui para preservar a integridade e a disponibilidade de integrantes da organização que realiza essas ações.
O soldado recuperado poderá retornar ao combate, sofrer novos ferimentos, receber novamente assistência e voltar outra vez à linha de frente, enquanto suas condições permitirem. Somente a morte, a incapacidade permanente, o afastamento definitivo ou o encerramento de sua participação militar interromperão esse ciclo. A recusa individual de portar armas não elimina, por si mesma, a participação funcional de um profissional no esforço de guerra.
A questão torna-se ainda mais inquietante quando se considera a diferença entre o salvamento de uma vida e a preservação da capacidade de combate de uma força militar. No plano humano, impedir a morte de um ferido constitui uma ação de cuidado. No plano institucional, recuperar um soldado pode significar restituir pessoal treinado à organização responsável pelas operações militares. As duas consequências podem coexistir no mesmo procedimento. É essa duplicidade que a narrativa denominacional tende a deixar fora de seu enquadramento heroico.
Ao apresentar Doss exclusivamente como o homem que salvou vidas sem carregar uma arma, a tradição adventista frequentemente evita perguntar qual era a função daqueles soldados dentro da guerra, para onde poderiam ser enviados depois da recuperação e como a assistência médica militar participava da sustentação das tropas.
Não basta afirmar que as mãos de Doss estavam livres de armas. É necessário perguntar qual era o papel dessas mãos na preservação da força combatente. O fato de não disparar não encerra automaticamente a discussão sobre responsabilidade moral. Uma guerra não depende apenas de homens que apertam gatilhos. Depende também de transporte, alimentação, comunicações, manutenção, inteligência, abastecimento, treinamento, assistência médica e sustentação psicológica.
Cada uma dessas atividades pode contribuir para manter uma organização em condições de continuar combatendo. A participação na guerra é, portanto, uma realidade mais ampla do que o ato individual de matar. A categoria administrativa de não combatente pode identificar corretamente quem não exerce funções diretas de combate, mas não resolve, sozinha, o problema ético da contribuição prestada ao esforço militar.
Essa distinção permite compreender por que a figura de Desmond Doss não pode ser utilizada como resposta definitiva às críticas contra a militarização do ministério adventista. Se a denominação considera moralmente suficiente que um de seus membros não porte armas, mas aceita sua integração numa estrutura que prepara, sustenta e recupera combatentes, precisa explicar em que princípio estabelece a fronteira entre participação permitida e participação condenada.
Por que o disparo seria a única ação capaz de comprometer moralmente um cristão com a guerra, enquanto as atividades necessárias para manter o combatente em condições de voltar a disparar seriam tratadas como inteiramente separadas dessa responsabilidade? A pergunta atinge o centro da doutrina de não combatência quando esta é utilizada como justificativa para uma participação militar institucionalmente organizada.
O problema se amplia quando a análise passa do socorrista militar para o capelão. O primeiro cuida do corpo ferido; o segundo procura fortalecer a resistência emocional, espiritual e moral do soldado. Ambos podem oferecer assistência indispensável a seres humanos em sofrimento. Entretanto, quando essas atividades são realizadas dentro das Forças Armadas, também podem contribuir para preservar a prontidão de seus integrantes.
O relatório oficial do Corpo de Capelães do Exército dos Estados Unidos, publicado em abril de 2023, torna essa relação explícita ao afirmar que a assistência religiosa participa da preparação de equipes capazes de serem mobilizadas, combater e vencer as guerras norte-americanas. A medicina pode recuperar o corpo do combatente; a capelania pode fortalecer sua disposição espiritual para continuar servindo. O problema da participação institucional na guerra existe em ambos os casos.
A denominação adventista precisa, portanto, enfrentar uma pergunta que ultrapassa a biografia heroica de Desmond Doss: é possível reivindicar uma posição de não participação na violência enquanto se desempenham funções indispensáveis à manutenção da organização que a executa? A recusa de portar armas representa uma decisão individual relevante, mas não basta para demonstrar independência em relação à finalidade militar da instituição.
O verdadeiro exame de consciência exige considerar não apenas aquilo que o indivíduo se recusa a fazer diretamente, mas também os objetivos institucionais aos quais seu trabalho contribui. Enquanto essa discussão permanecer limitada à diferença entre segurar uma Bíblia, uma maca ou um fuzil, a Igreja Adventista continuará evitando a contradição mais profunda de sua participação na máquina de guerra: a possibilidade de servir aos objetivos militares sem jamais apertar pessoalmente um gatilho.
Desmond Doss não matou seus inimigos com as próprias mãos. Sua história, porém, não demonstra que toda assistência prestada dentro de uma força armada esteja moralmente desligada da continuidade da guerra. O desafio lançado à consciência adventista é abandonar a tranquilizadora divisão entre combatentes e não combatentes como se ela resolvesse todas as questões éticas. Uma organização militar não combate apenas com armas; combate com todo o sistema que permite utilizá-las. E uma igreja que deseja apresentar sua participação nesse sistema como testemunho de fidelidade cristã precisa responder por que considera suficiente a ausência de uma arma nas mãos de seus membros, quando o trabalho deles pode contribuir para manter outros soldados em condições de continuar lutando.
11. República Dominicana: Harewood e Iván Omaña na mesma plataforma religiosa

O congresso masculino “Sin Máscaras”, anunciado para 27 a 29 de novembro de 2026, apresenta uma composição visual aparentemente distante do ambiente militar. O cenário é tropical, com palmeiras, instalações de lazer e convidados vestidos formalmente. Entretanto, entre os participantes aparecem Andrew Harewood e Iván Omaña, identificado como dirigente de Capelania da Associação Geral. A programação é promovida num contexto de vida espiritual masculina, com temas relacionados à identidade, à sinceridade e à experiência pessoal. A presença conjunta desses dirigentes demonstra como a capelania institucional ultrapassa os congressos especializados e passa a ocupar espaço em programações religiosas destinadas ao público geral da denominação.
Essa circulação é particularmente importante porque normaliza a autoridade desses personagens dentro da vida comunitária adventista. O general reformado já não aparece apenas em atividades de apoio a militares, reuniões de veteranos ou eventos profissionais de capelania. Sua figura passa a integrar congressos masculinos, cultos especiais, campanhas missionárias e encontros internacionais. A função administrativa denominacional fornece a base religiosa de sua apresentação, enquanto a trajetória militar permanece como elemento distintivo de sua biografia pública. O resultado é uma presença recorrente de personagens associados à capelania militar nos ambientes tradicionais de formação religiosa da igreja.
Ao lado de Iván Omaña, a figura de Harewood também reforça a conexão com a administração mundial dos Ministérios de Capelania Adventista. A presença dos dois num mesmo material promocional oferece ao leitor a oportunidade de examinar a relação entre dirigentes denominacionais responsáveis pela capelania e profissionais que desenvolveram carreiras dentro das estruturas militares dos Estados Unidos. A questão não se limita à participação individual em um evento. Envolve a projeção de uma cultura ministerial que aproxima liderança religiosa, especialização institucional e experiência militar, apresentando essa combinação como recurso de autoridade diante dos membros.
12. Bogotá e OneVoice27: a mobilização internacional de 300 capelães

O cartaz de OneVoice27, anunciando uma etapa de proclamação em Bogotá, na Colômbia, de 18 a 25 de setembro de 2027, demonstra que a capelania adventista não está limitada a campanhas de valorização profissional. A peça convoca 300 capelães de diferentes partes do mundo para participar de uma mobilização missionária, utilizando a expressão “Capellanes, usa tu voz” — “Capelães, usem sua voz”. A programação é apresentada como oportunidade para proclamar a mensagem cristã, reunindo profissionais que trabalham em diferentes ambientes institucionais. A publicidade destaca a participação internacional e apresenta orientações sobre viagem, hospedagem, alimentação e inscrição.
Um detalhe importante está na organização dos custos. O anúncio informa que a viagem deverá ser financiada pelo próprio capelão ou pela organização que o emprega, enquanto a união local e as igrejas participantes ficarão responsáveis por parte da estrutura de recepção. Essa divisão demonstra como a mobilização religiosa pode conectar recursos de profissionais vinculados a diferentes empregadores e estruturas eclesiásticas locais. O evento também pressupõe uma coordenação internacional capaz de mobilizar participantes, divulgar inscrições e articular atividades entre campos administrativos e comunidades religiosas.
O significado institucional é profundo. Os capelães deixam de aparecer apenas como profissionais religiosos que prestam serviços em ambientes específicos e passam a constituir um grupo organizado para atividades missionárias internacionais. A identidade profissional torna-se também identidade de mobilização religiosa. O fato de um participante exercer sua atividade pastoral num hospital, quartel, prisão ou empresa passa a integrar uma rede mais ampla de relacionamentos denominacionais, projetos de evangelização e campanhas públicas. Essa estrutura merece estudo porque pode influenciar a maneira como a igreja compreende o papel desses profissionais e como coordena sua atuação dentro e fora dos ambientes institucionais.
A capelania transforma-se num sistema internacional de recrutamento, formação, comunicação e mobilização religiosa que atravessa fronteiras nacionais e diferentes tipos de organizações. Para uma investigação sobre a Igreja Militar Adventista, esse processo é decisivo: demonstra que a capelania não representa uma atividade marginal, dependente apenas de decisões pessoais, mas um campo ministerial com identidade própria, divulgação específica e capacidade de organização internacional. O desafio crítico é compreender quais valores orientam essa expansão e quanto da cultura das instituições empregadoras é incorporado ao modelo de liderança religiosa que ela promove.

13. Quando a patente militar se transforma em capital religioso
O exame conjunto dos cartazes revela uma operação recorrente de construção de autoridade. O uniforme militar é apresentado como sinal de distinção profissional; a patente, como reconhecimento hierárquico; as condecorações, como demonstração de carreira; e o cargo na Associação Geral, como legitimação religiosa. Esses elementos aparecem combinados em diferentes proporções, dependendo do público e da finalidade do evento. Num congresso de capelania, a patente pode ocupar posição central. Num culto especial, o título de pastor e a função denominacional recebem maior destaque. Numa programação voltada ao público adventista geral, a experiência pessoal e o prestígio religioso podem dominar a apresentação. Entretanto, todas essas imagens fazem parte da construção pública de uma autoridade que transita entre ambientes militares e eclesiásticos.
A utilização publicitária desses símbolos é especialmente problemática porque a tradição cristã não identifica patente, condecoração ou posição estatal como critérios de autoridade espiritual. A valorização religiosa de um dirigente deveria depender fundamentalmente de sua mensagem, de sua coerência ética e de sua fidelidade aos princípios que proclama. Ao utilizar repetidamente a carreira militar como elemento de destaque, os anúncios sugerem que o reconhecimento obtido dentro das Forças Armadas acrescenta valor à autoridade religiosa do personagem. Essa transferência simbólica pode ocorrer mesmo quando os organizadores não pretendem formular uma doutrina explícita sobre a relação entre Igreja e Estado.
A farda empresta prestígio ao púlpito, e o púlpito devolve à farda uma aura de respeitabilidade espiritual. Essa relação de valorização recíproca constitui um dos pontos centrais da denúncia. A instituição religiosa apresenta como seus representantes profissionais que alcançaram posições importantes dentro de estruturas estatais; as carreiras desses profissionais passam a ilustrar o alcance e a influência da denominação; e a proximidade com o poder institucional transforma-se em símbolo de sucesso ministerial. O resultado é uma cultura visual na qual as distinções da hierarquia militar encontram espaço privilegiado na comunicação religiosa.
O problema torna-se ainda mais agudo quando essa valorização ocorre numa denominação cuja identidade histórica inclui advertências contra a união entre religião e poder coercitivo. A Igreja Adventista não pode continuar exigindo de outras instituições religiosas uma independência que deixa de examinar em suas próprias estruturas. O reconhecimento obtido por um dirigente militar pode constituir elemento legítimo de sua biografia, mas não deveria substituir a avaliação crítica de sua atuação denominacional. A patente que identifica uma posição dentro do Exército não constitui resposta às perguntas sobre liberdade religiosa, independência profética e limites da cooperação institucional com o Estado.
14. A apropriação da experiência religiosa pela estrutura militar
O relatório oficial do Corpo de Capelães do Exército dos Estados Unidos, de abril de 2023, acrescenta à análise visual uma dimensão institucional decisiva. Na página 10, sua declaração de missão informa que a assistência religiosa e o aconselhamento espiritual contribuem para formar equipes fortes e preparadas para serem mobilizadas, combater e vencer as guerras norte-americanas. Na página 14, o documento afirma que o programa religioso do Exército é o programa do comandante. Essas declarações demonstram que a capelania militar não é organizada como atividade religiosa totalmente independente das necessidades da instituição. Seu trabalho integra o funcionamento das Forças Armadas e é apresentado oficialmente como contribuição à preparação operacional.
A ligação com os cartazes adventistas é evidente. O mesmo sistema militar que define a assistência espiritual como instrumento de prontidão apresenta, em seu histórico administrativo, dirigentes que posteriormente aparecem promovidos em programações religiosas adventistas. O caso de Andrew Harewood reúne de maneira particularmente visível esses dois universos. Sua trajetória militar alcançou a direção estratégica do Corpo de Capelães, enquanto a publicidade adventista de 2026 o identifica como integrante da administração mundial de capelania da denominação. A comparação entre os documentos institucionais e os materiais promocionais permite perceber que a questão da militarização religiosa não pode ser resolvida apenas com referências ao caráter assistencial da capelania.
O Exército não precisa colocar uma arma nas mãos do pastor para incorporar sua atividade aos objetivos militares. Basta organizar o ministério religioso como parte de suas estruturas de prontidão, aconselhamento, coesão e sustentação das tropas. O capelão pode continuar orando, pregando, aconselhando e acompanhando os feridos, mas sua função institucional está situada dentro de uma organização que possui objetivos militares expressamente definidos. Essa distinção é central para compreender a denúncia. Não se acusa todo capelão de participar diretamente de combates, mas se examina o modo pelo qual seu trabalho religioso pode contribuir para o funcionamento de uma instituição organizada para executá-los.

15. O verdadeiro problema: uma igreja profética fascinada pelo reconhecimento do poder
Ao longo dos materiais examinados, repete-se um mesmo padrão: a aproximação com instituições de grande autoridade aparece como elemento de valorização da presença adventista na sociedade. O general reformado é apresentado como pregador internacional. O governo estrangeiro surge como interessado na experiência adventista. A capelania organiza congressos com representantes de estruturas militares, policiais e penitenciárias. A World Service Organization promove programações de sábado voltadas ao reconhecimento de profissionais de segurança. A campanha OneVoice mobiliza capelães de diferentes ambientes institucionais para atividades missionárias internacionais. Em todos esses casos, a dimensão institucional da capelania ocupa uma posição central na apresentação pública da missão religiosa.
A questão mais profunda é que a busca de reconhecimento pode alterar silenciosamente as prioridades de uma organização. Uma igreja que deseja preservar acesso às autoridades pode começar a valorizar a boa relação institucional como sinal de êxito. Dirigentes que alcançam posições de prestígio dentro do Estado podem transformar-se em símbolos de conquista denominacional. Programas de cooperação passam a ser apresentados como prova de relevância social, enquanto perguntas sobre independência e limites de atuação recebem menos destaque. A transformação não exige necessariamente uma decisão formal de abandonar antigos princípios. Pode ocorrer por meio de escolhas administrativas, campanhas publicitárias, nomeações, congressos e formas de apresentação pública que progressivamente redefinem aquilo que a instituição considera motivo de orgulho.
A grande ironia é que a denominação que durante décadas anunciou os perigos da sedução do poder político parece cada vez mais interessada em exibir seus próprios sinais de reconhecimento por esse poder. Generais aparecem como pregadores, autoridades governamentais como interlocutores desejáveis e programas institucionais como demonstrações de influência religiosa. A linguagem da advertência profética convive com a linguagem da promoção administrativa, mas a propaganda raramente reconhece a tensão entre ambas. O resultado é uma identidade pública marcada por duas mensagens difíceis de conciliar: a igreja que adverte contra determinadas alianças entre religião e Estado e a organização que celebra sua capacidade de participar das estruturas estatais.

16. A igreja que denunciava a imagem da besta agora precisa explicar suas próprias imagens de generais
As fotografias e campanhas examinadas apresentam uma documentação visual extensa da expansão contemporânea da capelania adventista. Elas mostram dirigentes, congressos, programações religiosas, iniciativas internacionais, parcerias institucionais e atividades organizadas em torno de uma identidade profissional que abrange ambientes militares, policiais, penitenciários, hospitalares e civis. O conjunto demonstra que a capelania ocupa espaço reconhecido na comunicação denominacional e que sua promoção não depende exclusivamente de atividades locais ou iniciativas individuais. A Associação Geral aparece associada a esse universo por meio de seus dirigentes e estruturas administrativas, enquanto organizações como a WSO desenvolvem programações específicas de valorização de profissionais ligados às Forças Armadas e aos serviços de segurança.
O personagem mais expressivo dessa transformação é Andrew R. Harewood. Sua trajetória documentada no Corpo de Capelães do Exército americano e sua apresentação posterior como dirigente dos Ministérios de Capelania Adventista estabelecem um elo concreto entre dois ambientes institucionais. A publicidade religiosa utiliza sua patente, seu uniforme e suas condecorações como sinais de distinção, ao mesmo tempo em que o apresenta como pregador, palestrante e autoridade denominacional. A importância desse caso não está numa suposta incompatibilidade pessoal entre fé religiosa e carreira militar. Está na transformação da experiência militar de um dirigente em elemento de prestígio dentro de uma denominação que possui uma tradição profética especialmente crítica das relações entre religião e poder estatal.
A denúncia encontra sua sustentação mais forte quando os cartazes são confrontados com a definição oficial da capelania militar norte-americana. O relatório de 2023 informa que seus serviços religiosos contribuem para preparar soldados para combater e vencer guerras e que o programa religioso integra a estrutura de comando. Ao mesmo tempo, materiais adventistas apresentam como autoridade religiosa internacional um dirigente que ocupou posição estratégica nessa mesma organização. A comparação não demonstra uma identidade completa entre a Igreja Adventista e o Exército dos Estados Unidos, mas expõe uma relação institucional que merece ser examinada com rigor e sem complacência administrativa.
O problema não é a presença de um pastor ao lado de um soldado ferido, de uma família enlutada ou de uma pessoa privada de liberdade. O problema é a transformação da autoridade militar em símbolo de prestígio religioso e a incorporação progressiva de uma cultura de comando, patente, prontidão e reconhecimento estatal à apresentação pública do ministério adventista. Uma igreja que se define como portadora da última advertência profética contra os abusos do poder religioso e político precisa demonstrar que sua própria atuação institucional permanece submetida aos princípios que proclama. Não basta exigir separação entre Igreja e Estado quando se examinam as organizações religiosas concorrentes. A mesma exigência precisa alcançar seus próprios dirigentes, seus programas de capelania e suas alianças institucionais.
As imagens tornam essa contradição impossível de esconder. A patente está no cartaz. As medalhas estão no uniforme. O cargo na Associação Geral aparece na identificação do pregador. Os logotipos denominacionais estão nos congressos. A convocação de capelães internacionais aparece nas campanhas. Os programas de sábado identificam organizações ligadas ao reconhecimento de profissionais militares e de segurança. O material publicitário oferece, portanto, um conjunto de informações que permite questionar não apenas a presença adventista dentro das instituições do Estado, mas também a maneira como essa presença passou a ser celebrada, organizada e incorporada à identidade pública da denominação.
A pergunta final não é quantos adventistas existem dentro das Forças Armadas, nem quantos pastores receberam patentes ou condecorações. A pergunta é quanto da cultura militar já foi absorvido pela maneira como a administração adventista compreende, apresenta e promove seus próprios ministérios. Uma igreja que ensinou gerações a identificar os perigos espirituais da aproximação entre religião e poder político deveria ser a primeira a submeter suas relações institucionais ao exame mais severo. Quando, em vez disso, transforma generais em atrações de culto, uniformes em propaganda missionária e reconhecimento estatal em motivo de celebração, a crise deixa de estar apenas no mundo que ela afirma denunciar. Passa a estar dentro da própria instituição que reivindica autoridade para denunciá-lo.
A Bíblia sob as botas do Pentágono: quando a missão religiosa se torna instrumento do poder militar americano
Pior que transformar pastores em funcionários da máquina de guerra americana é abrir caminho para que militares investidos de autoridade religiosa atuem em outros países sob a identidade de representantes de uma igreja mundial. Nesse ponto, a denúncia deixa de tratar apenas da presença de adventistas nas Forças Armadas dos Estados Unidos e alcança uma questão muito mais grave: a possibilidade de estruturas religiosas internacionais funcionarem como instrumentos de influência de uma potência militar estrangeira, inclusive em territórios politicamente sensíveis, como a Venezuela.
O problema não é simplesmente encontrar um pastor usando uniforme. É descobrir que a estrutura denominacional criou espaço para oficiais militares ocuparem posições de direção religiosa, circularem entre administrações eclesiásticas, participarem de congressos internacionais e serem apresentados às congregações como autoridades espirituais. A farda já não permanece do lado de fora do templo. Ela sobe ao púlpito, aparece nos cartazes evangelísticos, participa das decisões institucionais e recebe reconhecimento público da organização religiosa. A fronteira entre ministério pastoral e representação militar torna-se perigosamente nebulosa.
Um general americano no organograma da missão adventista
O caso de Andrew R. Harewood representa uma das expressões mais contundentes desse fenômeno. Brigadeiro-general da reserva do Exército dos Estados Unidos, ele aparece nos materiais apresentados como diretor-assistente dos Ministérios de Capelania Adventista da Associação Geral. Não se trata de um militar que simplesmente frequenta uma igreja. Trata-se de um oficial-general americano cuja patente, condecorações e identidade militar são exibidas publicamente ao lado de sua responsabilidade denominacional.
Os cartazes mostram Harewood participando de programações religiosas, congressos de capelania, encontros missionários e eventos adventistas internacionais. Em agosto de 2026, foi anunciado como pregador de uma programação da Andrews Memorial Church. Em setembro, seu nome e sua imagem militar apareceram na divulgação do Congresso Internacional de Capelania realizado em Harare, no Zimbábue, ao lado de representantes de outros setores institucionais. Outros materiais o apresentam em iniciativas religiosas na África e no Caribe. O general americano tornou-se também uma figura de circulação internacional dentro da estrutura adventista.
Essa dupla identidade merece uma pergunta que não pode ser enterrada debaixo de discursos sobre assistência espiritual: quando um general americano fala em nome de um ministério mundial da Igreja Adventista, onde termina a autoridade religiosa e onde começa o prestígio institucional do poder militar que sua farda representa? A organização não apenas admite essa sobreposição; seus próprios materiais promocionais a transformam em elemento de autoridade.
Do Pentágono aos púlpitos, das bases militares aos congressos internacionais
Os documentos publicitários reunidos revelam uma rede de atividades que ultrapassa os quartéis. Há programas para capelães militares, policiais, agentes penitenciários, profissionais de saúde, universidades e comunidades. Há congressos internacionais, treinamento, comunicação de emergência, assistência espiritual e iniciativas evangelísticas. A campanha OneVoice27, por exemplo, anuncia uma mobilização internacional de capelães para proclamação religiosa em Bogotá, na Colômbia, em setembro de 2027.
É precisamente essa amplitude que torna a questão explosiva. A capelania deixa de ser apenas um serviço oferecido a militares e passa a integrar uma estrutura internacional de circulação de pessoas, formação de lideranças, relacionamento com instituições estatais e presença religiosa em ambientes estratégicos. A linguagem é missionária; os espaços de atuação incluem instituições de segurança, forças armadas e administrações governamentais.
O Congresso Internacional de Capelania de 2026, no Zimbábue, é particularmente ilustrativo. Seu material de divulgação reúne um general americano da reserva, representantes de instituições africanas e símbolos da organização adventista. A imagem projeta uma integração entre autoridade militar, prestígio religioso e atuação transnacional. Não é preciso esconder essa associação: ela está impressa nos próprios cartazes.
Venezuela: a pergunta que a cúpula adventista precisa responder
A Venezuela introduz a dimensão mais delicada desta investigação. Em um país submetido durante anos a pressões diplomáticas, sanções econômicas e disputas geopolíticas envolvendo Washington, a presença de organizações religiosas internacionais vinculadas institucionalmente a estruturas de capelania militar americana exige atenção especial.
Militares americanos poderiam atuar em território venezuelano utilizando credenciais, contatos ou estruturas de uma organização religiosa internacional? Poderiam participar de atividades apresentadas como assistência espiritual, treinamento, cooperação humanitária ou missões religiosas enquanto cumprissem objetivos determinados por autoridades militares ou governamentais estrangeiras? Que mecanismos a Associação Geral possui para impedir essa instrumentalização? Quem supervisiona essas atividades? Quem autoriza as viagens, define os objetivos e recebe os relatórios?
Essas perguntas atingem diretamente a responsabilidade institucional da denominação. Uma igreja que mantém relações com capelanias militares, administra projetos internacionais e acolhe oficiais de alta patente em sua estrutura de liderança precisa explicar quais são os limites efetivos entre sua missão religiosa e os interesses estratégicos dos Estados aos quais esses militares serviram ou continuam vinculados.
A hipótese venezuelana torna-se especialmente grave porque uma operação dessa natureza, caso realizada, não representaria simples cooperação religiosa. Representaria o emprego da credibilidade de uma igreja para facilitar atividades de interesse de uma potência estrangeira. Seria a instrumentalização da fé como cobertura de uma operação de influência, com o risco de transformar pastores, missionários e instituições eclesiásticas em peças de um tabuleiro geopolítico que os membros comuns sequer conhecem.
Quando o pastor obedece ao Estado e a igreja celebra a farda
A contradição teológica é devastadora. O cristianismo apresenta o pastor como alguém chamado a servir a Deus e às pessoas. A instituição militar, por sua vez, organiza-se em torno da disciplina, da hierarquia e do cumprimento de missões determinadas pelo Estado. Quando essas duas estruturas se encontram, surge um conflito fundamental de lealdades. A quem pertence a última palavra: à consciência religiosa, à autoridade eclesiástica ou à cadeia de comando militar?
O lema do Corpo de Capelães do Exército americano, Pro Deo et Patria — por Deus e pela Pátria — resume essa tensão. Duas lealdades são apresentadas numa mesma fórmula. Mas o evangelho não concede a nenhum Estado o direito de transformar Deus em legitimador de suas guerras, suas intervenções e seus projetos de poder.
A situação adquire contornos ainda mais perturbadores quando uma denominação que historicamente proclamou a necessidade de separação entre Igreja e Estado passa a celebrar publicamente a autoridade militar como credencial de prestígio espiritual. O general é anunciado como pregador. A patente vira argumento de autoridade. As condecorações ocupam o espaço visual antes reservado aos símbolos do ministério. O uniforme passa a comunicar poder dentro da própria igreja.
A Igreja Militar Adventista e a inversão de sua identidade profética
O resultado é uma inversão histórica. A tradição adventista nasceu proclamando advertências contra a união entre religião e poder civil, denunciando a imposição estatal da consciência e advertindo contra sistemas político-religiosos capazes de subordinar a fé aos interesses de governos. Agora, suas estruturas internacionais exibem uma proximidade institucional com o universo militar que exige ser confrontada com essa mesma tradição profética.
Que autoridade possui uma igreja para denunciar a união entre religião e Estado quando ela própria concede destaque institucional a oficiais militares, promove estruturas de capelania ligadas às Forças Armadas e transforma a circulação internacional desses representantes em expressão de sua missão?
A pergunta não desaparece com a afirmação de que capelães também oferecem assistência humanitária, aconselhamento e apoio espiritual. A questão central é outra: a incorporação da autoridade militar ao funcionamento e à representação pública de uma organização religiosa. É essa mistura de funções que precisa ser examinada, sobretudo quando a atuação ultrapassa fronteiras nacionais.
O último escândalo: a Bíblia usada como credencial do poder
O escândalo maior não está na fotografia de um militar segurando uma Bíblia. Está na possibilidade de que a Bíblia se torne um passaporte institucional para o exercício de influência política e militar, enquanto a organização religiosa fornece acesso, confiança, legitimidade e uma rede internacional de relacionamentos.
Se uma missão militar estrangeira puder utilizar estruturas eclesiásticas para alcançar territórios, autoridades ou comunidades que não seriam igualmente acessíveis por canais militares convencionais, teremos diante de nós uma perversão radical do ministério cristão. O púlpito deixará de ser apenas lugar de pregação para funcionar também como instrumento de aproximação estratégica. A capelania deixará de ser apenas assistência religiosa para converter-se em possível mecanismo de projeção de poder.
Eis a questão que encerra esta investigação: a Associação Geral dirige uma igreja mundial independente dos poderes terrestres ou administra uma estrutura religiosa cuja capilaridade internacional também pode servir aos interesses de Washington?
O caso venezuelano exige que essa pergunta seja levada até suas últimas consequências documentais. A investigação precisa alcançar as autorizações de missão, os vínculos institucionais, os financiamentos, os deslocamentos internacionais e as responsabilidades de comando. A existência de uma estrutura religiosa transnacional com dirigentes provenientes das Forças Armadas americanas torna indispensável esse exame.
A imagem final é perturbadora: uma denominação que deveria manter a Bíblia acima dos tronos da Terra apresenta oficiais-generais como representantes de sua missão espiritual, enquanto sua mensagem atravessa fronteiras acompanhada do prestígio de uniformes, patentes e instituições militares.
A profecia adventista sempre advertiu contra o momento em que a religião se colocaria a serviço dos poderes políticos. A pergunta que agora se impõe é se a própria liderança adventista reconheceria esse fenômeno caso o encontrasse diante do espelho.
Porque, quando a autoridade do Pentágono começa a ser celebrada nos púlpitos, já não basta perguntar quem está pregando. É preciso perguntar a quem serve a estrutura que o enviou.
Fonte documental complementar: The State of the U.S. Army Chaplain Corps, relatório oficial do Exército dos Estados Unidos, abril de 2023, especialmente páginas 3, 6, 10, 14 e 17-21. Documentação visual: peças publicitárias e anúncios de Adventist Chaplaincy Ministries, World Service Organization, congressos de capelania e atividades religiosas adventistas de 2026 e programações anunciadas para 2027, identificados nos arquivos desta análise.





