“Se o senhor (Trump) é por nós, quem será contra nós?”
A rede invisível que não precisaria aparecer nos relatórios da CIA para poder continuar agindo ainda hoje na Venezuela
A informação que tornou possível a captura de Maduro não nasceu na madrugada da operação
A captura de Nicolás Maduro, em 3 de janeiro de 2026, foi o resultado de meses de preparação militar e de inteligência. Segundo a Reuters, a CIA mantinha uma pequena equipe infiltrada em território venezuelano desde agosto de 2025, encarregada de reunir informações sobre os hábitos, a rotina e os deslocamentos do presidente. A agência contava também com uma fonte humana próxima a Maduro, capaz de acompanhar seus movimentos e contribuir para determinar sua localização no momento decisivo. Não se tratava, portanto, de descobrir onde estava o presidente depois que a operação começasse. Era necessário conhecê-lo antes: sua rotina, seus locais de permanência, seus hábitos de segurança e as circunstâncias em que poderia ser capturado. A existência dessa fonte é um dos elementos mais importantes revelados pela imprensa internacional. Sua identidade e a extensão de sua rede de contatos continuam fora do conhecimento público.
Essa circunstância desloca nossa investigação para um terreno particularmente sensível. A operação militar foi a etapa visível de um trabalho de inteligência muito mais prolongado. Os soldados que entraram em Caracas executaram uma missão cujo êxito dependia de informações produzidas antecipadamente. A Reuters informou que forças especiais americanas chegaram a utilizar uma réplica da residência fortificada de Maduro para ensaiar a incursão. Isso demonstra o nível de detalhamento exigido pelo planejamento. Não bastava conhecer a cidade ou identificar instalações militares. Era necessário reunir um quadro suficientemente preciso sobre o ambiente em que Maduro se encontrava.
A questão que interessa à nossa investigação é justamente a origem e a circulação dessas informações. Entre a fonte humana próxima ao presidente venezuelano e os responsáveis americanos pela operação, quantas pessoas, instituições e relações intermediárias participaram da construção desse quadro? E qual poderia ter sido a contribuição de uma rede religiosa internacional que já possuía presença territorial, estruturas administrativas, contatos governamentais e relações institucionais com os Estados Unidos?
Uma organização religiosa com uma infraestrutura mundial de contatos governamentais
Há um aspecto da Igreja Adventista do Sétimo Dia que raramente aparece nas apresentações públicas da denominação. Além de sua estrutura religiosa, educacional e hospitalar, existe uma organização especializada em manter relações com adventistas que trabalham nas Forças Armadas, nos serviços policiais, nas instituições governamentais e em outras atividades públicas. Trata-se da World Service Organization (WSO), vinculada à Adventist Chaplaincy Ministries (ACM), na estrutura mundial da Igreja.
Não estamos falando simplesmente de pastores que visitam quartéis ou prestam assistência espiritual a militares. A própria WSO declara manter relacionamentos institucionais com autoridades civis e governamentais e administrar uma base de dados de membros adventistas que trabalham em instituições públicas. Em 2021, uma publicação oficial da organização anunciou seu sistema de cadastramento e convidou militares, policiais, agentes penitenciários, funcionários governamentais, bombeiros, socorristas e outros profissionais a registrarem suas informações pessoais, contatos, atividades profissionais e vínculos com a denominação.
Essa declaração tem consequências importantes para a compreensão de nossa investigação. Revela a existência de uma infraestrutura denominacional especificamente concebida para identificar e manter contato com pessoas que exercem funções dentro do Estado. Uma organização que reúne esse tipo de informação dispõe, em princípio, de meios para estabelecer relações institucionais que ultrapassam os limites das congregações religiosas. A existência da base não demonstra sua utilização pela inteligência americana; demonstra, porém, que a rede de contatos não precisa ser imaginada. Ela foi descrita publicamente pela própria instituição.
O quadro torna-se ainda mais significativo quando consideramos os dirigentes dessa estrutura. Ivan H. Omaña, de origem venezuelana, assumiu a direção mundial da ACM em 2022. Mario E. Ceballos, antigo comandante da Reserva da Marinha dos Estados Unidos, exerceu anteriormente essa direção e continuou ligado à organização dos programas internacionais de serviço. Andrew R. Harewood, general de brigada aposentado da Reserva do Exército americano, com experiência administrativa no Pentágono, passou a integrar a liderança mundial. São trajetórias diferentes, mas institucionalmente reunidas numa mesma estrutura religiosa especializada em relações com profissionais militares e servidores públicos.
O ponto central não é atribuir a esses dirigentes participação pessoal na captura de Maduro. É reconhecer que a chamada Igreja Militar Adventista possui uma organização permanente, com regulamentos, dirigentes, programas, contatos governamentais e mecanismos próprios de identificação de membros inseridos no serviço público. Essa infraestrutura já existia quando a CIA iniciou sua preparação clandestina na Venezuela.
A capilaridade venezuelana: comunidades, instituições e presença continuada
A presença adventista na Venezuela também não começou com a crise política recente. A ADRA informa oficialmente que atua no país desde 1989 e que reorganizou suas operações em junho de 2017 para desenvolver programas nacionais. Sua própria descrição institucional menciona equipes multidisciplinares de voluntários distribuídos pelo território venezuelano, trabalhando com planejamento, procedimentos administrativos e capacidade de mobilização.
Essa continuidade é relevante porque redes humanas não surgem instantaneamente. Elas se formam por relacionamentos, trabalho cotidiano, conhecimento das comunidades, contatos administrativos e circulação de pessoas. Uma organização presente durante décadas conhece realidades locais e estabelece relações que dificilmente seriam reproduzidas por agentes estrangeiros recém-chegados. Isso vale para inúmeras organizações internacionais, religiosas ou não. No caso adventista, porém, há um elemento adicional: a existência de uma estrutura mundial voltada justamente para membros ligados aos governos e às instituições uniformizadas.
Nossa investigação sobre o Cuerpo de Servicio Nacional Adventista (CSN) acrescenta outra dimensão. O manual venezuelano de junho de 2025 estabelece uma organização com diretores, delegados, hierarquia, procedimentos de comunicação e relatórios, além de reconhecer o respaldo da World Service Organization. Mario Ceballos aparece nominalmente como revisor técnico. Estamos diante de uma estrutura local que reconhece sua ligação com uma organização mundial sediada nos Estados Unidos.
A coincidência temporal merece registro: em junho de 2025, o CSN dispunha de um manual formalizado; em agosto daquele ano, segundo a Reuters, uma equipe da CIA já operava clandestinamente no país. Esses acontecimentos não demonstram uma conexão operacional entre as duas estruturas. Revelam, contudo, que a presença adventista organizada e a preparação americana coexistiram durante o período anterior à captura, precisamente o intervalo em que nossa investigação busca reconstruir possíveis canais de circulação de informações.
O dinheiro americano e as relações institucionais
Outro elemento que não pode desaparecer dessa reconstrução é o financiamento governamental. Documentos oficiais da USAID registram repasses à ADRA para programas de assistência relacionados à crise venezuelana. Somente no ano fiscal de 2024, o governo americano identificou US$ 2,5 milhões destinados à agência adventista para assistência alimentar executada no Brasil, no contexto da resposta regional à situação da Venezuela.
É necessário compreender o significado institucional desse dado. O repasse representa uma relação financeira formal entre uma organização adventista e uma agência governamental norte-americana. Projetos desse tipo envolvem obrigações de gestão, critérios de execução e mecanismos de prestação de contas. O documento citado refere-se a atividades no Brasil, não à operação contra Maduro. Entretanto, confirma que a cooperação entre a rede adventista e instituições do governo americano não se limita a relações protocolares ou encontros religiosos.
A ADRA pertence a uma rede internacional que trabalha com programas humanitários, enquanto a WSO mantém relações com membros que atuam em instituições públicas. São estruturas distintas, com finalidades e administrações próprias, mas vinculadas ao mesmo universo denominacional. A existência de ambas amplia o campo das relações humanas e institucionais que nossa investigação precisa compreender.
O elemento decisivo seria identificar uma passagem concreta entre esses canais e a cadeia americana de inteligência. Essa passagem poderia envolver informações produzidas fora dos projetos humanitários, contatos pessoais independentes ou intermediários que circulassem entre diferentes ambientes institucionais. Não seria necessário que toda a organização participasse da operação para que um indivíduo ligado a ela pudesse desempenhar alguma função informacional.
A identidade da fonte e o problema dos intermediários
A revelação da Reuters sobre a fonte próxima a Maduro é o ponto em torno do qual as demais informações precisam ser organizadas. Uma fonte com capacidade de acompanhar deslocamentos presidenciais não se confunde com um observador comum das condições sociais venezuelanas. Ela precisava ter acesso a informações relevantes sobre a movimentação de Maduro, diretamente ou por meio de pessoas que possuíssem esse acesso.
Isso impõe uma distinção importante à investigação. O conhecimento territorial de uma organização humanitária poderia ser útil para compreender determinadas condições locais, mas não equivale ao conhecimento das rotinas presidenciais. Para contribuir efetivamente com a localização de Maduro, seria necessário alcançar outro círculo de informações: o ambiente governamental, a segurança presidencial, os deslocamentos oficiais ou os intermediários que mantinham contato com essas estruturas.
É nesse ponto que a existência de adventistas inseridos em instituições governamentais adquire interesse investigativo. A WSO declara possuir mecanismos para identificar e manter contato com membros em funções públicas. A pergunta seguinte é se alguma dessas relações alcançava pessoas com acesso relevante ao ambiente político e de segurança venezuelano durante os meses anteriores à operação.
Uma colaboração individual, caso tenha ocorrido, não dependeria necessariamente de uma determinação oficial da Associação Geral, de uma resolução da WSO ou de um contrato assinado pela ADRA. Pessoas transitam entre instituições, preservam relações pessoais e podem compartilhar informações fora dos mecanismos formais das organizações às quais pertencem. Por isso, limitar a investigação à procura de ordens expedidas por dirigentes religiosos seria estreitar artificialmente seu alcance.
Também seria equivocado presumir que todo colaborador de uma operação clandestina estivesse formalmente subordinado à agência de inteligência beneficiária. Redes de informação podem envolver relações indiretas, fontes ocasionais e intermediários que sequer conhecem todos os destinatários finais das informações que transmitem.
Uma presença que não precisaria ser anunciada
O título desta investigação aponta precisamente para essa característica das operações clandestinas: nem todas as pessoas capazes de contribuir para a produção de inteligência aparecem nos relatos públicos sobre sua execução.
A Reuters identificou a existência de uma fonte humana próxima a Maduro sem revelar sua identidade. Informou também a presença de uma equipe da CIA em território venezuelano meses antes da captura. Esses fatos mostram que a dimensão clandestina da operação foi muito mais extensa do que a incursão militar observada em janeiro.
A rede adventista, por sua vez, apresenta características institucionais documentadas: presença venezuelana prolongada, relacionamentos comunitários, estruturas de serviço organizadas, vínculos administrativos internacionais, dirigentes com experiência militar americana, contatos governamentais e programas financiados por órgãos dos Estados Unidos. Tomados em conjunto, esses elementos oferecem uma razão concreta para examinar possíveis pontos de contato entre a denominação e os circuitos de informação relacionados à operação.
A hipótese não exige imaginar que a direção mundial da Igreja Adventista tenha planejado a captura de Maduro, nem que sua agência humanitária tenha funcionado integralmente como uma organização de espionagem. O cenário a investigar é mais específico: a possibilidade de que informações provenientes de indivíduos ligados a essa rede tenham circulado, por canais diretos ou indiretos, até pessoas envolvidas na preparação da operação americana.
A pergunta decisiva permanece: entre os colaboradores não identificados da inteligência americana, houve alguém vinculado à rede adventista, ou algum intermediário que tenha utilizado relações estabelecidas por essa rede?
O elo que falta entre duas estruturas documentadas
Nossa investigação já possui dois conjuntos de fatos sustentados por fontes independentes. De um lado, a preparação clandestina da captura, a presença anterior de agentes americanos e a utilização de uma fonte humana próxima ao presidente venezuelano. De outro, uma infraestrutura adventista internacional com presença territorial, relações governamentais e mecanismos próprios de comunicação e administração.
O próximo avanço dependerá de encontrar o ponto de interseção entre esses conjuntos. Ele pode aparecer numa divergência cronológica, numa informação anteriormente publicada e depois modificada, numa relação institucional ainda pouco examinada ou num testemunho independente sobre a circulação de informações antes de 3 de janeiro de 2026.
A experiência histórica já examinada em nossa série, incluindo o Medical Cadet Corps e as atividades do Colegio de las Antillas em Cuba, demonstra que estruturas adventistas de serviço atuaram em cenários de conflito e mantiveram relações com autoridades militares e forças envolvidas em transformações políticas. Essa história não resolve o caso venezuelano, mas explica por que a investigação das relações institucionais da denominação com o poder militar não pode ser reduzida a uma curiosidade religiosa.
O aspecto mais relevante da Operação Absolute Resolve talvez esteja justamente fora das imagens dos helicópteros, dos comandos especiais e da captura de Maduro: a rede de relações humanas que permitiu aos planejadores conhecer antecipadamente aquilo que precisavam saber. É nessa rede de informações que procuramos identificar a eventual participação adventista.
A questão não é quantos adventistas estavam presentes na Venezuela, quantos voluntários foram mobilizados ou quantos recursos internacionais a denominação recebeu. A questão é saber se uma informação relevante para localizar Maduro passou pelas mãos de alguém pertencente a essa estrutura.
Porque a operação militar teve uma data conhecida, mas a construção da inteligência que a tornou possível começou muito antes. E é nesse período anterior, entre contatos, informações e intermediários ainda não identificados publicamente, que se encontra o verdadeiro objeto de nossa investigação.






