
Documentos diplomáticos, projetos da ADRA, missões indígenas, rádios, aviação e coleta de dados revelam uma infraestrutura adventista profundamente conectada ao aparelho de política externa norte-americano décadas antes da operação que terminou com Nicolás Maduro preso nos Estados Unidos
Durante décadas, uma extensa rede adventista fincou raízes entre indígenas, ocupou espaços institucionais, construiu canais próprios de comunicação, manteve interlocução com a Embaixada dos Estados Unidos e tornou-se executora de milhões de dólares da USAID. Quando Washington finalmente chegou ao círculo íntimo de Nicolás Maduro, essa presença americana já vinha sendo construída havia muito tempo.
Quando helicópteros norte-americanos cruzaram Caracas na madrugada de 3 de janeiro de 2026 e forças especiais dos Estados Unidos chegaram ao esconderijo de Nicolás Maduro, aquela presença americana pareceu surgir de repente diante dos olhos do mundo. Não surgiu. A operação militar foi apenas a manifestação mais ostensiva de uma capacidade de penetração que Washington vinha construindo havia anos e que dependia não somente de satélites, drones, interceptações eletrônicas e agentes clandestinos, mas também de uma realidade muito mais silenciosa: redes humanas, organizações civis, projetos humanitários, instituições religiosas, conhecimento territorial e estruturas capazes de permanecer dentro da Venezuela quando a presença oficial americana encontrava cada vez mais obstáculos. É dentro dessa arquitetura que a Igreja Adventista do Sétimo Dia e, principalmente, seu braço humanitário, a ADRA, precisam ser examinados.
A história não começa com Maduro nem com a crise política que antecedeu sua captura. Começa muito antes, no processo pelo qual a Igreja Adventista criou raízes profundas em regiões venezuelanas que posteriormente se tornariam particularmente sensíveis do ponto de vista político, territorial e estratégico. Enquanto a imagem pública da denominação continuava sendo a de uma igreja dedicada à evangelização, educação, saúde e assistência, sua estrutura real incluía escolas, missões indígenas, internatos, redes administrativas, comunicação, projetos humanitários, lideranças comunitárias e mecanismos de circulação capazes de penetrar áreas onde qualquer representação oficial de uma potência estrangeira chamaria imediatamente a atenção. A religião fornecia uma característica fundamental para qualquer estrutura duradoura de presença: permanência social.
Essa infraestrutura permaneceu enquanto presidentes mudaram, relações diplomáticas se deterioraram, sanções foram impostas e Washington e Caracas passaram da hostilidade retórica ao confronto aberto. E, em diferentes momentos dessa história, encontramos a estrutura adventista venezuelana conectando-se documentalmente à Embaixada americana, à USAID e ao circuito governamental dos Estados Unidos no qual apareciam até o Conselho de Segurança Nacional e o SOUTHCOM. O resultado não é uma sequência de coincidências isoladas, mas uma arquitetura institucional que atravessa décadas.
A Gran Sabana foi muito mais que um campo missionário
Para compreender a importância dessa estrutura, é preciso começar pelo mapa. A implantação adventista no sul da Venezuela alcançou profundidade extraordinária entre comunidades indígenas e em áreas próximas às fronteiras com Brasil e Guiana. A Gran Sabana não foi tratada pela Igreja como simples território visitado ocasionalmente por evangelistas. A denominação institucionalizou sua presença, organizou estruturas administrativas próprias, estabeleceu escolas, congregações e redes missionárias e formou lideranças locais capazes de manter a Igreja presente em comunidades às quais o acesso externo era difícil. Com o passar do tempo, essa presença ganhou também capacidade de comunicação e transporte, permitindo que a denominação alcançasse lugares onde a infraestrutura pública era limitada.
Essa diferença é fundamental. Uma igreja urbana pode conhecer seus membros e o bairro onde funciona. Uma organização religiosa implantada durante décadas entre comunidades indígenas remotas adquire algo qualitativamente diferente: conhecimento do território e das pessoas. Conhece famílias, lideranças, relações de parentesco, rotas, aldeias, necessidades, conflitos locais, deslocamentos populacionais e canais de comunicação. Forma indivíduos dentro da própria comunidade e cria relações de confiança que não precisam ser reconstruídas a cada mudança política. A presença deixa de depender do missionário estrangeiro porque passa a ser reproduzida por venezuelanos e indígenas que pertencem à própria estrutura.
É precisamente essa característica que aparece na mensagem diplomática confidencial produzida pela Embaixada americana em Caracas em 2006. O documento informa que os adventistas possuíam aproximadamente 150 mil membros na Venezuela, concentrados principalmente no interior e especialmente no sul. O mesmo despacho registra que o governo venezuelano associava ocasionalmente a IASD à New Tribes Mission e que unidades do Exército venezuelano chegaram a visitar a escola adventista para indígenas na Gran Sabana, perto da fronteira brasileira. Não estamos, portanto, projetando retrospectivamente importância estratégica sobre uma região que ninguém observava naquele momento. O próprio Estado venezuelano estava olhando para aquela presença religiosa e enviando militares para examiná-la.
O que preocupava Caracas era exatamente a combinação entre presença missionária estrangeira, populações indígenas e soberania territorial. Essa preocupação havia levado Hugo Chávez a agir contra a New Tribes Mission, acusada por seu governo de servir a interesses estrangeiros. Quando a IASD entrou no mesmo campo de suspeita, a questão deixou de ser exclusivamente religiosa. A presença missionária passou a ser interpretada pelo Estado venezuelano como parte de uma disputa maior pela influência sobre populações e territórios localizados longe do centro político do país.
Uma rede capaz de chegar onde o Estado e as estradas chegavam com dificuldade
A dimensão territorial da implantação adventista tornou-se ainda mais relevante quando a Igreja passou a contar com aviação missionária para atender comunidades remotas. A Adventist Medical Aviation transportava pacientes, obreiros, pastores e equipes religiosas entre localidades da Gran Sabana. Sua função pública era médica e missionária, mas a consequência estrutural era muito mais ampla: a denominação possuía mobilidade própria numa região em que distância, selva, fronteiras e precariedade das estradas restringiam a circulação convencional.
Isso significa que a rede adventista não dependia apenas de templos fixos. Pessoas, equipamentos, documentos e informações podiam circular dentro de um sistema denominacional que combinava comunidades locais, escola, liderança religiosa, comunicação e transporte. A importância dessa estrutura não depende de imaginarmos nenhuma cena cinematográfica de espionagem. Seu valor estava justamente na normalidade. O avião transportava missionários porque era avião missionário; a escola recebia indígenas porque era escola adventista; a rádio falava às comunidades porque era rádio religiosa; a ADRA visitava famílias porque realizava assistência humanitária. Era essa legitimidade social que permitia à rede chegar onde estruturas explicitamente políticas ou governamentais estrangeiras despertariam resistência imediata.
Essa diferença entre aparência funcional e capacidade estrutural ajuda a compreender por que o governo venezuelano passou a observar as missões estrangeiras como questão de soberania. Uma rede religiosa internacional não precisava substituir o Estado para se tornar geopoliticamente relevante. Bastava possuir aquilo que organizações externas procuram quando precisam compreender um território: capilaridade, continuidade, relações humanas e capacidade de circulação.
Em 2005 e 2006, Caracas já falava em CIA
É aqui que o documento americano de 2006 se torna decisivo. O despacho diplomático confidencial 06CARACAS703, produzido pela Embaixada dos Estados Unidos em Caracas em 16 de março daquele ano, recebeu um título revelador: “Venezuelan Adventists Also Under BRV Suspicion”. O resumo informa que uma aula em vídeo do programa governamental Misión Ribas apresentava a Igreja Adventista como uma seita religiosa fanática que espalhava terror entre populações indígenas e “spies for the CIA”. A acusação de ligação com a inteligência americana, portanto, não nasceu em 2018 com o programa Dossier. Ela já estava formalmente registrada no ambiente governamental venezuelano durante o governo Chávez, mais de uma década antes.
O documento torna-se ainda mais significativo quando observamos como a liderança adventista reagiu. Em vez de a história permanecer restrita a uma disputa entre uma igreja e o Ministério da Educação venezuelano, dirigentes adventistas levaram o problema diretamente a representantes do governo dos Estados Unidos. Em 21 de fevereiro de 2006, um oficial político da Embaixada americana e um funcionário da USAID reuniram-se em Caracas com o pastor Josney Rodríguez, então secretário-geral da União Venezuelana-Antilhana e coordenador das igrejas adventistas no leste do país, além de outros pastores adventistas seniores. Rodríguez mostrou aos representantes americanos trechos do material governamental que acusava organizações missionárias estrangeiras e a própria IASD.
O encontro demonstra algo que precisa ser lido em toda a sua dimensão. No exato período em que o Estado venezuelano suspeitava de uma conexão entre a estrutura adventista e interesses americanos, dirigentes da denominação estavam efetivamente mantendo interlocução reservada com representantes da Embaixada dos Estados Unidos e da USAID sobre sua situação política no país. A acusação venezuelana e a comunicação americana não eram acontecimentos separados por décadas nem episódios ocorridos em países diferentes. Estavam acontecendo simultaneamente, envolvendo a mesma organização e a mesma conjuntura.
Da sede adventista em Caracas ao SOUTHCOM
O circuito percorrido pelas informações dessa reunião é ainda mais importante. O comunicado diplomático foi enviado ao Departamento de Estado em Washington e distribuído para uma extensa rede diplomática. Entre os destinatários explicitamente registrados estavam o National Security Council e o Headquarters U.S. Southern Command — SOUTHCOM, o comando militar americano responsável pela América Latina e pelo Caribe. A conversa ocorrida entre dirigentes adventistas, um oficial político da Embaixada e um funcionário da USAID, portanto, ingressou no sistema de informação do governo norte-americano e circulou até estruturas diretamente relacionadas à segurança nacional e ao planejamento militar regional.
Isso é muito mais significativo do que a existência de uma reunião diplomática comum. O conteúdo tratava de presença religiosa em áreas indígenas, reação do governo Chávez, relações entre adventistas e chavistas, atuação estatal na Gran Sabana, comunicação e radiodifusão. A Igreja estava oferecendo aos representantes americanos uma visão interna de sua situação e de suas relações com o governo venezuelano, enquanto o relatório produzido a partir dessa interlocução seguia para Washington e Miami. A estrutura denominacional tornava-se, assim, uma fonte institucional de informação sobre uma área que o próprio governo venezuelano considerava politicamente sensível.
O documento diplomático revela ainda outro aspecto extraordinário: Rodríguez contou aos representantes americanos que adventistas inseridos no chavismo haviam alertado a liderança denominacional sobre o vídeo da Misión Ribas e funcionado como ponte de comunicação com funcionários do governo bolivariano. Isso significa que a Igreja possuía simultaneamente canais internos de informação dentro do próprio chavismo e canais de interlocução com representantes do governo dos Estados Unidos. A organização estava posicionada nos dois ambientes. Informações podiam chegar à liderança a partir de membros próximos ao governo venezuelano, enquanto essa mesma liderança conversava com diplomatas americanos sobre o que estava acontecendo.
Essa dupla inserção ajuda a explicar a extraordinária capacidade de sobrevivência institucional da denominação. A IASD não precisava assumir publicamente a identidade política de nenhum dos lados. Sua estrutura lhe permitia dialogar com ambos, proteger seus interesses, preservar seu funcionamento e continuar expandindo suas atividades enquanto a confrontação entre Caracas e Washington aumentava.
Os homens que ocupavam as posições-chave
A importância dessa interlocução cresce quando reconstruímos o núcleo administrativo adventista daquele período. Julio Palacio presidia a União Venezuelana-Antilhana e acumulava a responsabilidade por Assuntos Públicos e Liberdade Religiosa, precisamente a área destinada à interlocução com autoridades e governos. Josney Rodríguez, secretário-geral da União, aparece nominalmente no informe diplomático confidencial americano e participava diretamente da administração do trabalho adventista no leste venezuelano. David Poloche ocupava a tesouraria, posição central na gestão financeira denominacional. Rodolfo Escobar, por sua vez, reunia duas áreas particularmente sensíveis: Comunicação e ADRA.
Essa concentração de funções merece ser observada como sistema, e não como quatro biografias isoladas. Presidência e relações governamentais estavam concentradas em Palacio; administração e interlocução documentada com Embaixada e USAID apareciam em Rodríguez; recursos financeiros estavam sob Poloche; comunicação institucional e braço humanitário estavam reunidos em Escobar. Tratava-se do núcleo dirigente da mesma estrutura eclesiástica que atravessava naquele momento uma crise de confiança com o governo venezuelano e, simultaneamente, dialogava com representantes americanos.
Rodolfo Escobar possuía ainda uma posição externa que torna esse desenho mais significativo. Em fevereiro de 2005, ele foi escolhido como representante adventista no Consejo de Responsabilidad Social en Radio y Televisión, organismo vinculado ao sistema venezuelano criado para acompanhar a aplicação das regras de responsabilidade social na radiodifusão. Assim, o dirigente que dentro da denominação reunia Comunicação e ADRA também ocupava espaço institucional no ambiente regulatório venezuelano da mídia.
A Igreja possuía, portanto, algo muito mais complexo do que uma simples relação bilateral com Washington. Ela tinha dirigentes dialogando com autoridades venezuelanas, membros inseridos no chavismo, representação relacionada à regulação da comunicação e, ao mesmo tempo, interlocução com a Embaixada americana e a USAID. Essa capacidade de transitar entre estruturas adversárias tornou a denominação particularmente resistente às mudanças políticas.
A radiodifusão revela como a adaptação funcionava
O próprio despacho diplomático americano registra uma ironia política importante. Apesar das acusações presentes no material da Misión Ribas, os dirigentes adventistas disseram aos representantes americanos que, sob Chávez, a situação da denominação havia se tornado mais favorável em determinados aspectos. O conflito do governo bolivariano com a Igreja Católica havia reduzido a antiga predominância católica sobre a radiodifusão religiosa e aberto mais espaço para emissoras adventistas de rádio e televisão. O oficial político americano observou ainda que a IASD possuía representação no conselho relacionado à CONATEL, enquanto os católicos não possuíam.
A mesma administração que denunciava a IASD em material educacional por suposta espionagem permitia, em outro nível, que a denominação ampliasse sua presença no ambiente de comunicação. E a Igreja utilizava esse espaço. Sua rede de radiodifusão alcançou inclusive áreas do sul venezuelano e comunidades distantes. Essa capacidade de adaptação institucional é central para compreender a história: a denominação não dependia de afinidade ideológica com Chávez ou Maduro. Dependia de encontrar os canais pelos quais pudesse continuar funcionando e ampliando sua presença.
David Poloche conecta a Venezuela de Chávez à ADRA da crise de Maduro
Entre os dirigentes daquele período, a trajetória de David Poloche é particularmente reveladora porque atravessa diferentes fases da história. Poloche acumulou longa experiência administrativa dentro da Venezuela, passou pela tesouraria da União e pela direção da ADRA e, em 2015, foi escolhido para comandar a ADRA na Divisão Interamericana. Ele passou, portanto, da estrutura venezuelana que conhecia internamente o país para uma posição regional situada no nível organizacional responsável por coordenar a atuação humanitária adventista em grande parte das Américas.
O momento dessa mudança é crucial. A partir da segunda metade da década de 2010, a crise venezuelana transformou-se em uma das maiores prioridades humanitárias do continente e, simultaneamente, em uma das questões centrais da política externa americana na região. A ADRA passou a receber recursos substanciais do governo dos Estados Unidos para programas diretamente associados à população venezuelana. O homem que chegava à direção regional da agência conhecia por dentro a administração adventista venezuelana, suas instituições, seus dirigentes e sua realidade social.
Isso criou continuidade entre duas estruturas que frequentemente são apresentadas separadamente: a igreja e a agência humanitária. A ADRA não surgiu na crise venezuelana como uma ONG desconhecida contratada aleatoriamente por Washington. Era o braço humanitário de uma denominação que já possuía décadas de presença territorial, relações comunitárias e administração consolidada dentro da Venezuela.
Quando a relação com Washington passou a ser medida em milhões
A escala financeira dessa integração aparece claramente nos documentos oficiais americanos. No ano fiscal de 2019, dentro da resposta regional à crise venezuelana no Brasil, a USAID/FFP destinou à ADRA US$ 5.763.411 para vouchers de alimentação e aquisição local, regional e internacional de alimentos. Paralelamente, a USAID/OFDA destinou outros US$ 5.655.000 à agência adventista para meios de subsistência, apoio logístico, abrigo, assentamentos, água, saneamento e higiene. Somadas, somente essas duas linhas representam mais de US$ 11,4 milhões de recursos federais americanos administrados pela ADRA em um único ano no contexto da resposta à crise venezuelana.
Esse dinheiro não pode ser reduzido retoricamente a uma doação ocasional. Programas governamentais internacionais dessa magnitude exigem planejamento, metas, prestação de contas, monitoramento, indicadores, equipes, relatórios e avaliação. A organização implementadora passa a integrar concretamente a execução da política humanitária externa do Estado financiador. A ADRA tornou-se, assim, uma das organizações por meio das quais recursos e prioridades do governo dos Estados Unidos chegavam à população venezuelana e às comunidades receptoras nos países vizinhos.
A estrutura adventista desempenhava uma função que Washington precisava: converter recursos governamentais em operação no terreno. O governo americano financiava; a agência religiosa possuía capilaridade, experiência humanitária, pessoal e legitimidade social para executar. Essa relação transformava a ADRA numa ponte operacional entre política externa americana e populações afetadas pela crise.
O passo seguinte foi operar com financiamento americano dentro da própria Venezuela
A conexão tornou-se ainda mais significativa quando projetos financiados pelos Estados Unidos passaram a funcionar dentro do território venezuelano. O programa Una Gota de Amor para Venezuela, implementado pela ADRA International em Caracas e Barquisimeto, foi explicitamente identificado como projeto financiado pela USAID. A avaliação foi conduzida pela i-APS em conjunto com uma afiliada venezuelana e equipes técnicas nacionais. O levantamento inicial ocorreu em setembro e outubro de 2020 e incluiu uma pesquisa telefônica com uma amostra representativa de 507 domicílios beneficiários, além de visitas presenciais a 268 residências para testes de água. Em 2021, uma avaliação final mediu segurança alimentar utilizando indicadores padronizados da Bureau for Humanitarian Assistance.
Esse projeto mostra concretamente como assistência humanitária e informação se encontram. Para entregar ajuda de maneira mensurável, a organização precisava saber quem eram os beneficiários, onde estavam, quais eram suas condições alimentares, como crianças eram alimentadas, quais problemas de água existiam e se a intervenção havia produzido resultados. A consequência prática era a produção sistemática de conhecimento sobre famílias venezuelanas por uma estrutura adventista operando com financiamento do governo americano.
Esse tipo de informação possui finalidade humanitária imediata, mas também demonstra uma capacidade operacional extraordinariamente importante: entrar em contato com centenas de famílias, realizar entrevistas, visitar domicílios, testar condições locais, acompanhar resultados e transformar observações em dados organizados. Enquanto as relações diplomáticas entre Washington e Caracas estavam profundamente deterioradas, uma organização ligada a uma denominação sediada nos Estados Unidos e financiada pela USAID conseguia realizar esse tipo de operação social dentro da Venezuela.
O Dossier não estava falando apenas de religião
Quando o programa estatal Dossier voltou a acusar a IASD de servir aos interesses norte-americanos, a denúncia venezuelana passou a incluir separatismo indígena, espionagem, penetração cultural e interesses estratégicos dos Estados Unidos em regiões ricas em recursos naturais. Vista isoladamente, uma acusação dessa natureza poderia ser tratada simplesmente como retórica de um governo em confronto com Washington. Vista dentro da cronologia que reconstruímos, ela se encaixa numa preocupação venezuelana muito anterior: organizações religiosas estrangeiras possuíam presença profunda em territórios indígenas e mantinham relações internacionais capazes de ultrapassar a fiscalização política convencional.
O governo Chávez já havia formulado suspeitas semelhantes mais de uma década antes. E, naquela ocasião, temos hoje acesso ao comunicado diplomático confidencial americano mostrando que os dirigentes adventistas efetivamente conversavam com Embaixada e USAID, que adventistas ligados ao chavismo funcionavam como fontes internas de informação para a liderança e que o relato americano seguia até SOUTHCOM e Conselho de Segurança Nacional. O que Dossier fez posteriormente foi ampliar e tornar pública uma leitura de segurança nacional que já existia dentro do Estado venezuelano desde os primeiros anos do chavismo.
A neutralidade religiosa escondia uma capacidade política muito maior
O elemento mais importante dessa história talvez seja a distância entre a imagem transmitida aos membros e a escala real em que a instituição operava. Para o fiel comum, neutralidade política significava não transformar o púlpito em palanque eleitoral, não vincular formalmente a denominação a um partido e evitar conflitos públicos que pudessem comprometer a missão. Para a administração institucional, entretanto, sobreviver e crescer exigia algo muito mais sofisticado: relações com governos, interlocução diplomática, presença em organismos públicos, negociação de espaço para radiodifusão, gestão de recursos internacionais e capacidade de trabalhar com diferentes regimes.
Essa diferença ajuda a explicar como a mesma organização podia ter membros chavistas servindo de ponte com funcionários bolivarianos e dirigentes conversando simultaneamente com a Embaixada americana. Não era necessário escolher ideologicamente um único lado. O poder institucional estava justamente em manter portas abertas nos dois. A neutralidade pública tornava-se uma vantagem operacional porque permitia à organização continuar circulando quando outros atores eram imediatamente classificados como governo ou oposição.
Essa capacidade também explica por que a rede adventista sobreviveu às sucessivas fases da crise. A denominação atravessou Chávez, as acusações contra missionários estrangeiros, Maduro, sanções americanas, deterioração diplomática, colapso econômico e finalmente a intervenção de 2026 mantendo estruturas próprias no país. A Igreja permaneceu porque sua presença não dependia exclusivamente de diplomatas estrangeiros ou dirigentes importados. Estava enraizada em comunidades venezuelanas.
Enquanto Washington perdia presença oficial, organizações civis continuavam trabalhando
Essa permanência se torna ainda mais importante quando observamos a lógica da disputa entre Estados Unidos e Venezuela. Uma embaixada pode ser fechada. Diplomatas podem ser expulsos. Militares estrangeiros não podem circular livremente. Funcionários de inteligência precisam operar clandestinamente. Uma organização religiosa ou humanitária, porém, possui outra forma de legitimidade. Seus membros são cidadãos locais, suas instituições fazem parte da comunidade, suas escolas educam crianças, suas igrejas realizam cultos, seus agentes humanitários distribuem alimentos e seus projetos atendem famílias vulneráveis.
É justamente essa diferença que torna redes civis duradouras tão relevantes numa confrontação geopolítica. Elas conservam contatos e conhecimento social mesmo quando a relação formal entre os Estados se rompe. Não precisam desempenhar a função de uma agência de inteligência para produzir efeitos úteis ao Estado que as financia ou com o qual mantêm relações. A capacidade de permanecer, observar, comunicar, atender e circular já cria uma infraestrutura de acesso que o aparato estatal pode não possuir diretamente.
No caso venezuelano, a rede adventista possuía todas essas características. E não estamos falando de uma relação abstrata com os Estados Unidos decorrente apenas do fato de a sede mundial da Igreja estar naquele país. Estamos falando de dirigentes conversando com funcionários americanos, informações circulando dentro do governo dos Estados Unidos, milhões de dólares da USAID sendo executados pela ADRA e projetos financiados por Washington funcionando dentro da própria Venezuela.
A presença americana penetrou o círculo íntimo de Maduro
Quando chegamos a janeiro de 2026, encontramos a etapa final de um processo completamente diferente em escala, mas coerente com uma longa acumulação de acesso e conhecimento. A Reuters revelou que a captura de Maduro havia sido preparada durante meses. Tropas de elite, incluindo a Delta Force, construíram uma réplica exata do esconderijo fortificado do presidente venezuelano e ensaiaram a invasão. O Pentágono deslocou discretamente para a região aeronaves de reabastecimento, drones e equipamentos especializados em guerra eletrônica. A operação mobilizou forças militares, inteligência e agentes federais de maneira altamente integrada.
Mas o elemento mais revelador não estava no céu. Estava no terreno. Segundo a Reuters, a CIA mantinha uma pequena equipe dentro da Venezuela desde agosto de 2025. Essa equipe conseguiu estudar o padrão de vida e os movimentos de Maduro durante meses. Mais importante ainda, duas fontes disseram à agência que a CIA possuía um ativo próximo de Maduro, responsável por acompanhar seus movimentos e preparado para informar sua localização exata no momento em que a operação fosse desencadeada.
Outra reportagem, do New York Times, descreveu uma fonte da CIA dentro do próprio governo venezuelano acompanhando a localização de Maduro nos dias e momentos anteriores à captura. A inteligência americana, portanto, havia ultrapassado a fronteira, ultrapassado Caracas e ultrapassado os níveis periféricos do Estado. Ela havia alcançado o ambiente governamental suficientemente próximo do presidente para acompanhar sua localização em tempo real.
É aqui que toda a história anterior adquire seu significado mais intenso. Uma operação de inteligência dessa profundidade não nasce numa noite. Ela depende de anos de conhecimento acumulado, identificação de pessoas, construção de confiança, compreensão institucional, circulação de informações e formação de redes humanas. A captura foi o momento visível de uma penetração que vinha sendo construída silenciosamente.
Da rede religiosa à rede humana
A infraestrutura adventista se encaixa nesse processo como parte do ambiente civil através do qual a presença americana permaneceu socialmente conectada à Venezuela. Durante décadas, a Igreja construiu relações em comunidades indígenas e urbanas; seus dirigentes circularam entre estruturas venezuelanas e internacionais; sua agência humanitária recebeu recursos do governo americano; seus projetos produziram dados; seus administradores conversaram com diplomatas; e informações provenientes dessas relações chegaram ao sistema governamental americano.
O ponto não é imaginar que um pastor da Gran Sabana telefonou para a Delta Force na madrugada de 3 de janeiro. Essa imagem reduziria uma arquitetura sofisticada a uma caricatura. O verdadeiro poder de uma infraestrutura desse tipo está em criar, ao longo do tempo, um ambiente de acesso no qual relações pessoais se multiplicam, informações circulam e pessoas capazes de atravessar diferentes círculos sociais são identificadas.
A fonte que finalmente conduziu a CIA até Maduro surgiu dentro desse universo mais amplo de redes humanas que Washington vinha cultivando. A trajetória que vai da presença social e humanitária à inteligência política não precisa ser linear para ser funcional. Redes se sobrepõem. Um contato conhece outro contato; um funcionário trabalha com uma organização internacional; um membro religioso ocupa função pública; um administrador dialoga com autoridades; um beneficiário torna-se funcionário; um dirigente possui relações em diferentes níveis do Estado. É assim que presença prolongada se transforma em acesso.
Da Gran Sabana a Caracas: a arquitetura estava montada
Quando reunimos as peças cronologicamente, o desenho torna-se muito mais claro. Na Gran Sabana, a IASD possuía presença antiga entre indígenas, escola e capacidade de circulação em comunidades remotas. Em Caracas, sua direção nacional e regional administrava relações públicas, comunicação, finanças e assistência humanitária. Dentro do chavismo, membros adventistas funcionavam como ponte para a liderança denominacional. Dentro da estrutura venezuelana de comunicação, um dirigente adventista ocupava representação institucional. Do outro lado, dirigentes conversavam com Embaixada e USAID, e o produto dessa interlocução circulava até o Conselho de Segurança Nacional e o SOUTHCOM.
Mais tarde, a ADRA tornou-se executora de milhões de dólares da política humanitária americana relacionada à Venezuela. Depois, programas financiados pela USAID passaram a operar dentro do próprio país e produzir informações estruturadas sobre famílias venezuelanas. Finalmente, a inteligência americana alcançou o círculo de Maduro e conseguiu acompanhar seus movimentos até o instante em que as forças especiais chegaram à sua residência.
Esses episódios pertencem a momentos diferentes e desempenham funções diferentes, mas fazem parte de uma mesma realidade geopolítica: a capacidade dos Estados Unidos de permanecer conectados ao território e à sociedade venezuelana mesmo durante períodos de hostilidade extrema entre os dois governos.
Religião, assistência e informação formaram uma infraestrutura de permanência
A principal contribuição adventista para essa arquitetura não precisa ser procurada numa sala secreta. Está à vista na própria estrutura institucional. A Igreja oferecia presença territorial e relações comunitárias. A ADRA acrescentava capacidade humanitária, recursos, equipes, projetos e acesso domiciliar. Os contatos diplomáticos conectavam dirigentes denominacionais ao governo americano. Os mecanismos de avaliação transformavam atuação social em informação organizada. A estrutura internacional permitia que tudo isso continuasse funcionando através das fronteiras.
Esse modelo é particularmente eficiente porque cada elemento possui uma justificativa legítima própria. A escola existe para educar. A rádio existe para evangelizar. A aeronave existe para socorrer. A ADRA existe para prestar assistência. A pesquisa existe para avaliar um projeto. O encontro diplomático existe para discutir liberdade religiosa. Nenhum desses elementos, isoladamente, precisa parecer político. É a sobreposição deles que cria uma infraestrutura capaz de produzir presença, acesso, informação e influência.
Foi justamente essa sobreposição que o governo venezuelano começou a enxergar quando passou a tratar determinadas missões estrangeiras como questão de soberania. As acusações contra a IASD não nasceram depois da intervenção americana. Já estavam registradas quando Chávez ainda estava no poder e quando a relação Washington–Caracas ainda não havia alcançado o nível de ruptura que marcaria os anos seguintes.
O Dossier retomou uma suspeita que atravessou o chavismo
Quando o programa Dossier apresentou posteriormente acusações contra a Igreja Adventista, falando em espionagem, separatismo indígena e interesses norte-americanos, estava retomando uma leitura política que o Estado venezuelano já havia formulado muitos anos antes. A continuidade é importante: não se tratou de uma acusação improvisada depois que a ADRA começou a receber milhões de dólares para responder à crise venezuelana. O Estado já observava a relação entre missão religiosa, indígenas e interesses estrangeiros desde os primeiros anos de Chávez.
O que mudou com o tempo foi a quantidade de documentação que passou a estar disponível para reconstruir as relações institucionais existentes. Hoje sabemos da reunião com Embaixada e USAID. Sabemos que o relatório chegou ao SOUTHCOM e ao Conselho de Segurança Nacional. Sabemos que adventistas dentro do chavismo alimentavam a própria liderança denominacional com informações sobre o que ocorria no governo. Sabemos da expansão dos recursos da USAID para a ADRA. Sabemos de projetos americanos executados pela agência dentro da Venezuela. E sabemos que, em 2026, a CIA havia conseguido estabelecer uma equipe no país e cultivar uma fonte suficientemente próxima de Maduro para rastrear sua localização.
Quando os helicópteros chegaram, a presença americana já estava lá
Esse é o ponto em que a imagem da madrugada de 3 de janeiro de 2026 precisa ser reinterpretada. Os helicópteros não representam o início da presença americana na Venezuela. Representam o momento em que uma presença que durante anos operara principalmente por diplomacia, pressão econômica, ajuda externa, organizações civis, inteligência e redes humanas assumiu forma militar aberta. A Reuters confirmou que a operação resultou de meses de preparação e que a CIA já possuía pessoal no terreno desde agosto de 2025. A fonte próxima de Maduro tornou possível transformar toda aquela capacidade técnica em localização precisa.
Essa fonte humana é particularmente simbólica porque demonstra o limite final da penetração. Washington não apenas conhecia a economia venezuelana, as Forças Armadas ou os movimentos políticos. Alguém dentro ou próximo do núcleo de poder transmitia informação capaz de colocar o presidente nas mãos das forças especiais americanas. O percurso que começara com presença social, interlocução, financiamento, conhecimento territorial e construção de redes havia alcançado o próprio palácio.
A infraestrutura adventista integrou esse ecossistema de permanência americana. Sua importância estava justamente em não se apresentar como presença estatal americana. Igrejas, escolas, projetos humanitários, rádios, administradores e agentes sociais continuavam trabalhando enquanto a bandeira oficial dos Estados Unidos se tornava politicamente tóxica em Caracas. Essa capacidade de permanecer visível como religião e assistência enquanto mantinha conexões institucionais com estruturas norte-americanas conferia à rede uma utilidade que a diplomacia convencional não possuía.
Linha histórica da Gran Sabana ao palácio presidencial
Da Gran Sabana ao palácio presidencial existe, portanto, uma linha histórica que atravessa religião, território, informação e poder. Ela começa com uma denominação estrangeira profundamente implantada entre comunidades indígenas e capaz de manter estruturas próprias em regiões remotas. Prossegue com uma administração venezuelana que concentrava relações governamentais, comunicação, assistência humanitária e finanças em dirigentes conectados entre si. Passa por adventistas inseridos no chavismo que levavam informações à liderança e por dirigentes que, simultaneamente, conversavam com representantes da Embaixada americana e da USAID. O produto dessa interlocução circulava até SOUTHCOM e Conselho de Segurança Nacional. Mais tarde, a ADRA tornou-se executora de milhões de dólares do governo americano relacionados à crise venezuelana e operou projetos financiados pela USAID dentro do próprio território do país.
Quando finalmente a CIA conseguiu instalar pessoal clandestino no terreno, acompanhar os hábitos de Maduro e cultivar uma fonte dentro de seu círculo, Washington estava operando sobre um país que havia sido observado, mapeado e penetrado por numerosas redes durante décadas. A estrutura adventista era uma delas, com uma vantagem particular: estava enraizada socialmente, apresentava-se como religiosa e humanitária e possuía relações institucionais internacionais capazes de sobreviver às rupturas entre governos.
A história venezuelana revela, assim, uma dimensão do adventismo institucional que o discurso de neutralidade política dificilmente deixa aparecer. Enquanto o membro comum ouvia que a Igreja não se envolvia em política, a organização precisava negociar com governos, participar de organismos institucionais, administrar meios de comunicação, dialogar com embaixadas, receber recursos públicos estrangeiros e executar projetos vinculados às prioridades internacionais de uma potência. A neutralidade funcionava menos como ausência de relações políticas do que como uma forma de preservar liberdade de movimento entre forças políticas adversárias.
Foi essa flexibilidade que permitiu à IASD continuar presente sob Chávez, sobreviver às acusações de espionagem, expandir-se durante Maduro, operar programas financiados pelos Estados Unidos e conservar uma extensa rede social quando as relações oficiais entre Caracas e Washington praticamente desmoronaram. A instituição não precisava aparecer empunhando uma bandeira americana. Sua utilidade estava justamente na capacidade de permanecer como igreja, escola, rádio, assistência, missão e organização humanitária.
Quando a presença americana finalmente alcançou o círculo íntimo de Nicolás Maduro, portanto, ela não estava chegando a uma sociedade desconhecida. Encontrava um território no qual organizações vinculadas aos Estados Unidos haviam mantido durante décadas contatos, projetos, instituições, financiamento e relações humanas. A captura militar foi rápida porque o trabalho de penetração e conhecimento não começou naquela madrugada. O homem procurado pelos Estados Unidos foi localizado por uma fonte humana cultivada pela CIA depois de meses de vigilância, e a operação foi executada por uma máquina militar que já sabia exatamente onde precisava chegar.
A grande história, portanto, não está apenas nos helicópteros que levaram Maduro. Está na infraestrutura silenciosa que permitiu aos Estados Unidos permanecerem conectados à Venezuela enquanto pareciam oficialmente afastados dela. Dentro dessa infraestrutura, a rede adventista ocupou um espaço privilegiado: profundamente venezuelana quando precisava permanecer no território, profundamente internacional quando precisava mobilizar recursos e estruturalmente conectada aos Estados Unidos quando financiamento, interlocução diplomática e circulação de informações entravam em cena.
Da Gran Sabana ao palácio, o percurso revela como religião e assistência humanitária puderam funcionar também como infraestrutura de acesso, permanência e influência. Muito antes de soldados americanos atravessarem as portas do esconderijo de Maduro, Washington já possuía caminhos para dentro da Venezuela. E a rede adventista, construída ao longo de décadas entre indígenas, comunidades, administradores, projetos humanitários e autoridades, fazia parte desses caminhos.
A IASD provavelmente não participou do comando operacional que capturou Nicolás Maduro. Sua possível contribuição deve ser procurada em outro nível, mais antigo e estrutural. Décadas de presença adventista e da ADRA na Venezuela — inclusive em regiões indígenas e fronteiriças, mantendo redes comunitárias, estruturas administrativas, projetos sociais e canais de interlocução internacional — integraram um ambiente de acesso, conhecimento territorial e relações humanas do qual também participavam organizações financiadas e acompanhadas pelo governo dos Estados Unidos. A documentação que reunimos mostra dirigentes adventistas dialogando diretamente com Embaixada e USAID, informações decorrentes dessa interlocução circulando até estruturas como o SOUTHCOM e o Conselho de Segurança Nacional, além da posterior execução, pela ADRA, de projetos financiados com milhões de dólares americanos relacionados à crise venezuelana.
É nesse plano que a conexão se torna historicamente relevante. Uma operação de inteligência capaz de alcançar o círculo íntimo de um chefe de Estado não começa quando os helicópteros decolam. Ela depende de conhecimento acumulado, relações pessoais, compreensão do território, acesso a diferentes segmentos da sociedade e redes humanas construídas durante anos.
A infraestrutura adventista não precisa ter participado do comando militar para ter integrado o ecossistema civil, humanitário e informacional sobre o qual a presença norte-americana na Venezuela se desenvolveu. A própria trajetória documentada — Gran Sabana, comunidades indígenas, administração denominacional, ADRA, USAID, Embaixada e circulação de informações dentro do aparelho americano — mostra como uma estrutura ostensivamente religiosa podia simultaneamente constituir uma extensa rede de acesso social.
Quando chegamos a 2026, encontramos o estágio final dessa penetração: as reportagens sobre a captura descrevem meses de vigilância e uma fonte humana cultivada pela CIA suficientemente próxima de Maduro para acompanhar seus movimentos e informar sua localização. É justamente entre essas duas pontas — a longa construção de redes civis de acesso e a penetração final do círculo presidencial — que deve ser situada nossa hipótese sobre a contribuição da infraestrutura adventista. Não como tropa de assalto, mas como parte de um ambiente muito mais amplo de presença, relacionamentos, circulação e conhecimento que ajudou Washington a permanecer conectado à sociedade venezuelana durante décadas de crescente confronto com Caracas.
A CIA revela a camada cibernética da operação que chegou até Maduro
Uma revelação feita em setembro de 2026 acrescenta uma peça importante à reconstrução de como os Estados Unidos conseguiram penetrar tão profundamente na Venezuela a ponto de localizar Nicolás Maduro e executar sua captura. Em 8 de setembro, o vice-diretor da CIA, Michael Ellis, revelou publicamente a participação do Center for Cyber Intelligence (CCI) na preparação da operação. Segundo Ellis, o componente cibernético da agência ajudou a construir um quadro de inteligência extremamente detalhado para as forças responsáveis pela missão. A precisão alcançada foi tamanha que, segundo seu relato, Maduro foi localizado e capturado aproximadamente quatro minutos depois que as forças americanas chegaram ao terreno. citeturn0search0
O novo dado amplia consideravelmente o que já sabíamos sobre a operação. As reportagens publicadas logo depois da captura haviam revelado meses de preparação, treinamento das forças especiais numa réplica da residência fortificada de Maduro, vigilância sobre seus hábitos e deslocamentos, uma pequena equipe da CIA operando clandestinamente dentro da Venezuela desde agosto de 2025 e, sobretudo, uma fonte humana cultivada pela agência suficientemente próxima de Maduro para acompanhar seus movimentos e informar sua localização. Agora sabemos que essa inteligência humana não trabalhava isoladamente: ela estava inserida numa arquitetura muito maior, combinando HUMINT, inteligência cibernética, vigilância técnica e preparação militar. citeturn0search0
Essa revelação ajuda a compreender por que a história da presença americana na Venezuela não pode começar na madrugada da captura. Uma capacidade dessa magnitude é construída por camadas. Primeiro é necessário conhecer o país, seus territórios, instituições e redes humanas; depois, preservar canais de acesso mesmo durante períodos de hostilidade diplomática; em seguida, identificar pessoas capazes de fornecer informação cada vez mais sensível; finalmente, integrar inteligência humana, eletrônica e cibernética até produzir conhecimento operacional em tempo real. A operação contra Maduro representou o estágio final e ostensivo dessa arquitetura, não seu ponto de partida.
É precisamente nessa história anterior que ganha importância a infraestrutura adventista que estamos documentando. Durante décadas, a IASD e a ADRA mantiveram presença territorial e comunitária dentro da Venezuela, inclusive em áreas indígenas e fronteiriças; dirigentes adventistas conversaram diretamente com representantes da Embaixada dos Estados Unidos e da USAID; informações produzidas a partir dessa interlocução circularam pelo aparelho governamental americano, chegando ao Conselho de Segurança Nacional e ao SOUTHCOM; e, posteriormente, a ADRA tornou-se executora de milhões de dólares de recursos norte-americanos relacionados à crise venezuelana. Projetos financiados pela USAID chegaram a operar dentro do próprio país, envolvendo contato direto com famílias, visitas domiciliares, levantamentos socioeconômicos e produção sistematizada de dados.
A revelação sobre o CCI permite, portanto, enxergar com maior nitidez as diferentes camadas dessa presença. De um lado estava a infraestrutura civil de longo prazo: organizações internacionais, redes religiosas e humanitárias, comunidades, projetos, funcionários, contatos e circulação de informações. Em outro nível estavam as redes clandestinas de inteligência, incluindo a fonte humana que chegou ao círculo de Maduro. Acima delas funcionavam os recursos técnicos e cibernéticos da CIA. Finalmente, toda essa inteligência convergiu para a capacidade militar empregada na captura. O que apareceu diante das câmeras em janeiro de 2026 foi apenas a última camada de uma construção muito mais longa.
A dimensão dessa estrutura torna ainda mais significativa a pergunta levantada pela documentação adventista acumulada desde os anos Chávez. Em 2006, enquanto o governo venezuelano já acusava a IASD de ligação com espionagem norte-americana entre indígenas, dirigentes adventistas conversavam com Embaixada e USAID, e o relatório resultante circulava até estruturas americanas de segurança. Duas décadas depois, Washington possuía inteligência humana dentro do círculo presidencial e uma capacidade cibernética que, segundo o próprio vice-diretor da CIA, ajudou a entregar às forças especiais um quadro operacional preciso o suficiente para alcançar Maduro em questão de minutos.
Da Gran Sabana ao círculo presidencial, portanto, o que se revela é uma sucessiva construção de camadas de acesso: presença territorial, redes sociais, assistência humanitária, interlocução institucional, financiamento norte-americano, produção de informações, inteligência humana, inteligência cibernética e, finalmente, força militar. A infraestrutura adventista que documentamos pertence às camadas civis e institucionais dessa história mais ampla de presença americana. A revelação de Michael Ellis mostra até onde, no outro extremo dessa arquitetura, Washington conseguiu chegar.
A Divisão Interamericana derruba a aparência de separação entre Igreja e ADRA
A documentação mais recente da própria Divisão Interamericana permite avançar um passo importante em nossa investigação. Já não precisamos tratar a ADRA Venezuela como se fosse uma organização humanitária apenas incidentalmente relacionada à Igreja Adventista. Em fevereiro de 2026, ao apresentar sua estratégia regional para os cinco anos seguintes, a própria Divisão definiu a ADRA como o “braço humanitário profissional da Igreja Adventista do Sétimo Dia”. Mais do que isso: anunciou que pretende aprofundar a integração da agência com a vida missionária da Igreja, envolvendo congregações locais, universidades adventistas e redes de voluntários.
A mesma estratégia prevê atualizar os acordos de governança entre a ADRA e as Uniões da Igreja, fortalecer monitoramento e coordenação regional e criar estruturas especializadas de representação destinadas a ampliar parcerias com doadores internacionais e organizações humanitárias. A Divisão informa ainda que Venezuela, Colômbia, Honduras e México já possuem escritórios nacionais da ADRA plenamente acreditados segundo seus padrões internacionais. Portanto, quando falamos da ADRA Venezuela, não estamos descrevendo uma ONG isolada funcionando à margem da denominação: estamos diante de uma engrenagem integrada à arquitetura regional adventista.
A própria ADRA confirma: há programação do governo dos Estados Unidos na Venezuela
E aqui surge uma peça documental especialmente importante. A página atual de programas internacionais da ADRA International identifica a Venezuela entre os países nos quais a organização teve programação do Governo dos Estados Unidos — USG, United States Government. Isso retira a discussão do terreno das aproximações e coloca diante de nós uma relação institucional declarada pela própria agência.
Em setembro de 2026 apareceu ainda um exemplo concreto dessa relação. Ao atualizar sua operação venezuelana depois dos terremotos, a ADRA International informou que um dos grandes programas em execução é o Projeto Alinea, desenvolvido em colaboração com o Departamento de Estado dos Estados Unidos, World Vision e Aid International. Segundo a própria ADRA, trata-se de uma iniciativa prolongada destinada a alcançar aproximadamente 18 mil famílias, distribuindo kits emergenciais, familiares, de higiene menstrual e suprimentos de água, saneamento e higiene, com execução prevista até dezembro.
Portanto, já podemos estabelecer documentalmente três elementos simultâneos: existe dinheiro e programação governamental norte-americana vinculados à atuação da ADRA na Venezuela; existe uma estrutura adventista regional que coordena e fortalece a ADRA Venezuela; e a própria Divisão Interamericana define essa agência como o braço humanitário profissional da Igreja.
Não existe a confortável distância entre “a Igreja” e “a agência”
Esse ponto é decisivo porque impede que, diante do financiamento governamental, se construa artificialmente uma distância absoluta entre IASD e ADRA. A própria Divisão Interamericana informa que sua oficina regional coordena e apoia os escritórios nacionais da ADRA, incluindo explicitamente a Venezuela. Diz também que profissionais e voluntários nesses países interagem com funcionários governamentais e comunidades. Em 2026, a estratégia regional avançou ainda mais: anunciou atualização dos acordos de governança entre ADRA e Uniões adventistas e maior integração da agência com congregações, universidades, juventude, educação e saúde da Igreja.
Quando ocorreu o terremoto venezuelano, essa integração deixou de ser organograma e tornou-se operação. ADRA Venezuela ativou seu Plano Nacional de Gestão de Emergências e passou a coordenar a resposta com ADRA Interamérica, dirigentes locais da Igreja Adventista, órgãos governamentais venezuelanos, OCHA e outros parceiros humanitários. A própria Divisão informou que suas equipes de avaliação seriam enviadas ao terreno para recolher informações e determinar necessidades adicionais.
A rede adventista também produz informação territorial
Há um aspecto ainda pouco explorado dessa estrutura. A página de voluntariado da ADRA Venezuela descreve entre suas próprias atividades de “Gestión de información y comunicaciones” o registro de beneficiários e pessoas afetadas, elaboração de relatórios de situação e coordenação de comunicações com comunidades e autoridades. Na avaliação de desastres aparecem inspeção de moradias e infraestrutura e levantamento das necessidades das comunidades.
Isso significa que a infraestrutura não serve apenas para movimentar alimentos, água e dinheiro. Ela também possui capacidade organizada de entrar no território, identificar pessoas, registrar beneficiários, avaliar comunidades, inspecionar infraestrutura, levantar necessidades e produzir relatórios de situação. A ADRA Venezuela afirma possuir voluntários distribuídos por todo o território nacional e informa que, desde 2017, reorganizou-se justamente para conquistar estrutura sólida e maior “margem de manobra operacional” para executar programas coordenados nacionalmente.
Religião para a base, profissionalização e grandes financiadores no topo
É aqui que nossa crítica à transformação da IASD num simulacro de igreja ganha conteúdo concreto. Não estamos usando a expressão para negar que existam membros sinceramente religiosos, congregações, cultos, pastores ou atividades espirituais. Estamos apontando a distância crescente entre aquilo que o membro imagina sustentar e a complexa máquina institucional que funciona acima dele.
Para o fiel, a Organização continua revestida da linguagem do remanescente, missão profética, evangelização e preparação para a volta de Cristo. No nível administrativo internacional, entretanto, encontramos outra linguagem: acreditação, governança, monitoramento, capacidade operacional, gerenciamento de informação, avaliação territorial, relacionamento com governos, representação diante de grandes doadores e captação de financiamento internacional. Não somos nós que estamos inventando esse vocabulário. É assim que a própria Divisão Interamericana descreve o futuro da ADRA.
E existe uma ironia institucional difícil de ignorar. A Divisão declara simultaneamente que pretende tornar a missão da Igreja “sustentável, visível e relevante através da ADRA” e construir estruturas capazes de ampliar parcerias e captar recursos. A religião oferece capilaridade, voluntários, congregações, universidades, instituições de saúde e confiança comunitária; a profissionalização humanitária transforma essa capilaridade em capacidade operacional; e grandes financiadores governamentais encontram uma estrutura pronta para executar seus programas.
Na Venezuela, o governo americano aparece dentro dessa equação
No caso venezuelano, essa discussão deixa de ser abstrata porque o financiador que estamos investigando aparece nominalmente. A própria ADRA International classifica a Venezuela como país onde houve programação do governo dos Estados Unidos. E, em setembro de 2026, identifica expressamente o Departamento de Estado americano entre os parceiros do Projeto Alinea, que pretende alcançar cerca de 18 mil famílias venezuelanas.
Temos, portanto, uma situação extraordinária para uma denominação que se apresenta primordialmente aos membros como organização religiosa: seu próprio braço humanitário profissional opera em território venezuelano dentro de programas que incluem financiamento ou parceria governamental americana; sua estrutura regional coordena e fortalece essa capacidade; suas equipes realizam avaliações territoriais e registros de beneficiários; e sua estratégia para os próximos anos pretende ampliar justamente a capacidade de relacionamento com financiadores internacionais.
A descoberta mais recente altera a cronologia de nossa investigação. A ADRA não entrou na grande engrenagem humanitária venezuelana por causa do terremoto de junho de 2026. Antes da catástrofe, ela já aparecia formalmente entre as organizações com maior implementação dentro do sistema internacional de proteção da Venezuela. O terremoto apenas tornou visível — e ampliou extraordinariamente — uma infraestrutura que já estava instalada.
Quando a terra tremeu, essa máquina não precisou ser construída. ADRA Venezuela ativou seu plano nacional, ADRA Interamérica entrou na coordenação, dirigentes e instituições adventistas foram mobilizados, equipes começaram a colher informações diretamente no terreno e a agência passou a trabalhar simultaneamente com autoridades venezuelanas, OCHA e outros organismos humanitários.
Em setembro, aquilo já não podia ser descrito como uma operação improvisada de socorro: eram cinco projetos simultâneos, milhares de famílias alcançadas e atividades previstas até dezembro. A presença adventista havia se convertido numa infraestrutura humanitária profissional capaz de avaliar territórios, identificar populações vulneráveis, produzir informação operacional e participar dos mecanismos internacionais que coordenam a assistência dentro da Venezuela.
O “braço humanitário” pertence ao corpo
A expressão utilizada pela própria Divisão Interamericana acaba sendo mais reveladora do que qualquer definição que pudéssemos criar: ADRA é o “braço humanitário profissional” da Igreja Adventista. E um braço não é uma organização estranha ao corpo. Ele executa funções especializadas do organismo ao qual pertence.
É por isso que não aceitaremos a conveniência retórica de aproximar ADRA e IASD quando é hora de pedir ofertas, mobilizar voluntários, divulgar ações humanitárias e demonstrar a relevância social da denominação, para depois separá-las artificialmente quando aparecem contratos, financiamento governamental e relações geopolíticas. A própria Divisão está dizendo exatamente o contrário: quer mais integração entre ADRA, Uniões, congregações, universidades e demais ministérios adventistas.
Um simulacro de igreja?
É nesse sentido institucional — e não como negação da fé individual dos membros — que nossa investigação passa a perguntar se estamos diante de um simulacro de igreja: uma gigantesca organização transnacional que conserva a aparência, a linguagem e a mobilização social de uma comunidade religiosa enquanto desenvolve, através de estruturas profissionalizadas, atividades financiadas e articuladas com governos, grandes doadores e organismos internacionais.
Na Venezuela, essa pergunta tornou-se especialmente incômoda. A mesma rede que fala aos membros sobre missão e compaixão possui um braço profissional regionalmente coordenado, credenciado segundo padrões internacionais, treinado para avaliações territoriais, preparado para registrar beneficiários e produzir relatórios, interessado em ampliar acesso a grandes financiadores e, comprovadamente, participante de programação do governo dos Estados Unidos em território venezuelano.
A novidade, portanto, não é simplesmente descobrir que a ADRA recebe dinheiro. É perceber que a própria documentação adventista está eliminando a distância que permitiria dizer: “isso é a ADRA, não é a Igreja”.
A Divisão Interamericana chama a ADRA de braço humanitário profissional da IASD, coordena sua estrutura regional, pretende aprofundar sua integração com as Uniões e congregações e utiliza a capilaridade da Igreja como plataforma para expansão. Ao mesmo tempo, a documentação da ADRA confirma programação do governo americano na Venezuela e identifica, em 2026, um projeto realizado em colaboração direta com o Departamento de Estado. O braço é profissional. O financiamento pode ser secular. Mas o corpo que lhe fornece capilaridade institucional continua sendo adventista.
A documentação mais recente permite enxergar inclusive como essa capilaridade é territorialmente administrada. A própria ADRA Venezuela informa que suas áreas de atuação são escolhidas mediante avaliações realizadas no terreno e coordenadas com autoridades e organizações humanitárias. Os diferentes atores recebem zonas delimitadas de trabalho para evitar duplicações. Atualmente, a agência adventista concentra sua operação em La Guaira e Gran Caracas e atende inclusive pessoas instaladas em abrigos oficiais criados pelo governo venezuelano.
Acima dessa estrutura nacional aparece agora, de maneira muito mais visível, a Divisão Interamericana. Depois dos terremotos, a estrutura regional da ADRA enviou uma equipe internacional e abriu um escritório operacional em Caracas, inicialmente dimensionado para uma resposta que pretendia alcançar 90 mil pessoas em três meses. A operação mobilizou simultaneamente ADRA, Uniões adventistas, igrejas, profissionais e o próprio Cuerpo de Servicio Nacional Adventista.
Essa documentação ajuda a desmontar a imagem de uma ADRA venezuelana isolada da estrutura religiosa. Quando surge uma grande operação, a fronteira institucional torna-se porosa: a agência oferece a profissionalização humanitária; a Divisão acrescenta coordenação internacional; as Uniões fornecem estrutura administrativa; igrejas e instituições oferecem capilaridade; profissionais e voluntários entram no terreno. É essa máquina integrada que hoje está instalada e operando na Venezuela.
IGREJA ESPIÃ: A infraestrutura adventista e a presença americana na Venezuela até a queda de Maduro
Da presença entre indígenas aos milhões da USAID, uma rede religiosa, humanitária, administrativa e informacional ligada à IASD se integrou durante décadas ao espaço de atuação dos Estados Unidos na Venezuela
Quando forças dos Estados Unidos atacaram alvos na Venezuela na madrugada de 3 de janeiro de 2026, capturaram Nicolás Maduro e Cilia Flores e os retiraram do país para serem processados em Nova York, Washington não estava entrando num território desconhecido. A operação, segundo a Reuters, havia sido preparada durante meses, combinou CIA, Força Delta, inteligência técnica e um ativo humano próximo de Maduro capaz de informar sua localização. A captura foi o ponto culminante de uma capacidade norte-americana de observar, penetrar e operar dentro da sociedade venezuelana que não nasceu naquela madrugada. Para compreender parte dessa infraestrutura de longo prazo, precisamos olhar para uma instituição que gosta de se apresentar como distante da política, mas aparece repetidamente conectada ao governo dos Estados Unidos: a Igreja Adventista do Sétimo Dia e seu braço humanitário, a ADRA.
Não estamos dizendo que pastores adventistas comandaram helicópteros ou que dirigentes denominacionais participaram da equipe tática que entrou para buscar Maduro. A participação que os documentos permitem reconstruir é mais profunda e anterior: durante décadas, a rede adventista manteve presença territorial em áreas indígenas e fronteiriças, operou escolas, rádios e aviação missionária, conversou diretamente com diplomatas norte-americanos, executou programas financiados pela USAID e produziu dados sociais dentro da própria Venezuela. Quando observamos esse conjunto como estrutura, a pergunta deixa de ser se um adventista estava dentro do helicóptero em 3 de janeiro. A pergunta passa a ser quanto da capacidade norte-americana de conhecer e penetrar a Venezuela foi alimentada também por organizações religiosas que mantinham relacionamento institucional permanente com Washington.
O governo venezuelano acusava a IASD de espionagem muito antes do Dossier
As acusações não começaram com Nicolás Maduro. Em 2005 e 2006, no governo de Hugo Chávez, material utilizado pela estatal Misión Ribas apresentava a Igreja Adventista e a norte-americana New Tribes Mission no contexto da atuação missionária entre indígenas. Segundo um informe diplmático confidencial produzido pela Embaixada dos Estados Unidos em Caracas, o material atribuía a esses grupos características como pregação fanática, submissão, doutrina do terror e “espionagem”, além de mencionar acusações de que organizações missionárias estrangeiras espionavam em benefício da CIA.
A reação adventista produziu um documento extraordinário. Em 21 de fevereiro de 2006, o pastor Josney Rodríguez, então secretário-geral da União Venezuelana-Antilhana e coordenador da obra adventista no leste do país, reuniu-se em Caracas com um oficial político da Embaixada dos Estados Unidos e um funcionário da USAID. Outros pastores adventistas de alto escalão participaram do encontro. O relato da conversa recebeu classificação confidencial e foi enviado ao Departamento de Estado, a diversas embaixadas e postos diplomáticos norte-americanos e, significativamente, ao National Security Council e ao United States Southern Command, o SOUTHCOM.
A sequência é reveladora. O governo Chávez ensinava a milhões de estudantes que missões estrangeiras podiam funcionar como mecanismos de penetração e espionagem; dirigentes adventistas levavam o problema à Embaixada dos Estados Unidos; um funcionário da USAID participava da reunião; e o relatório resultante circulava dentro do aparato político e militar norte-americano até chegar ao SOUTHCOM. A acusação venezuelana e a interlocução norte-americana não estavam ocorrendo em universos separados. Elas aconteciam simultaneamente.
Adventistas chavistas de um lado; Embaixada americana do outro
O mesmo despacho diplomático documenta uma capacidade camaleônica impressionante. Rodríguez informou aos representantes norte-americanos que adventistas ligados ao próprio chavismo haviam avisado a direção da Igreja sobre o vídeo da Misión Ribas. Esses membros também funcionaram como ponte para que dirigentes adventistas reclamassem privadamente às autoridades bolivarianas. A liderança acreditava que o conteúdo ofensivo acabara retirado de circulação.
Temos, portanto, uma organização que mantinha simultaneamente canais dentro do chavismo e dentro da Embaixada norte-americana. Enquanto membros politicamente integrados à Revolução Bolivariana abriam portas para a liderança diante das autoridades venezuelanas, os mesmos dirigentes discutiam sua situação com representantes diplomáticos e da USAID dos Estados Unidos. É difícil imaginar ilustração documental mais perfeita daquela capacidade camaleônica que temos chamado de falso apartidarismo: para os membros, neutralidade; para a organização, acesso a todos os lados capazes de proteger seus interesses.
Chávez abriu portas que a IASD soube utilizar
O despacho da Embaixada americana contém outro elemento desconcertante. Apesar das acusações apresentadas no material da Misión Ribas, dirigentes adventistas reconheceram aos norte-americanos que, sob Chávez, alguns aspectos da vida institucional haviam ficado mais fáceis. O conflito do governo bolivariano com a Igreja Católica havia reduzido o antigo domínio católico sobre a radiodifusão religiosa e facilitado a operação de rádios e televisão adventistas. Um oficial norte-americano ainda observou que a IASD possuía representação em um conselho ligado à reguladora venezuelana de telecomunicações, a CONATEL.
É preciso perceber a flexibilidade dessa posição. A Igreja podia ser denunciada num programa governamental por vínculos norte-americanos e, ao mesmo tempo, beneficiar-se da reorganização religiosa promovida pelo mesmo governo; podia utilizar adventistas chavistas como interlocutores em Caracas e conversar diretamente com a diplomacia dos Estados Unidos; podia protestar contra acusações de espionagem enquanto seus contatos com representantes americanos eram formalmente registrados e distribuídos pelo próprio aparelho de Estado norte-americano.
O Exército venezuelano chegou à escola adventista na Gran Sabana
A suspeita venezuelana não permaneceu apenas no terreno retórico. Segundo Rodríguez informou à Embaixada, unidades do Exército venezuelano chegaram a visitar a escola adventista para indígenas na Gran Sabana, próxima à fronteira brasileira, depois que a denominação passou a ser relacionada à New Tribes Mission. O próprio documento diplomático registra que existiam comunidades indígenas praticamente inteiras convertidas ao adventismo na Gran Sabana e também no Delta Amacuro.
Essa localização importa. A atual Missão Venezuelana do Sul de Bolívar cobre El Callao, Gran Sabana, Roscio e Sifontes, fazendo fronteira com a Guiana e o Brasil. Segundo a própria Enciclopédia Adventista, em 2019 essa estrutura possuía 25.101 membros numa população regional de apenas 101.151 habitantes, além de 48 igrejas organizadas, 29 grupos, 445 células, um internato, três estações de rádio e uma equipe de 16 pastores e ministros. Trata-se de densidade institucional extraordinária numa região fronteiriça, indígena e geoestrategicamente sensível.
A denominação ainda transformou a Gran Sabana em território administrativo próprio. Uma estrutura adventista específica foi consolidada no sul venezuelano e, em 2014, estabeleceu-se sede administrativa em Santa Elena de Uairén. A criação posterior da Missão Sul de Bolívar foi acompanhada por crescimento de membros, finanças, distritos, educação e radiodifusão. A presença adventista naquela região não era episódica: era territorial, administrativa e permanente.
A Igreja também tinha avião
A infraestrutura não terminava em templos e escolas. A Adventist Medical Aviation mantinha aeronave missionária operando na Venezuela. O piloto norte-americano Robert Norton utilizava a aviação para alcançar comunidades remotas, transportar pacientes, missionários, professores e pessoal religioso através de regiões onde deslocamentos terrestres eram extremamente difíceis. Em 2009, Norton, sua esposa e outros passageiros desapareceram durante um voo, gerando extensa mobilização adventista.
A história oficial adventista sobre a operação registra algo particularmente relevante: em 2006 outras organizações de aviação missionária foram fechadas pelo governo venezuelano, e também houve tentativas de interromper o programa adventista. A AMA, porém, continuou voando. Isso ocorreu no mesmo ambiente político em que Chávez expulsava a New Tribes Mission das áreas indígenas e em que adventistas eram ligados, no material da Misión Ribas, à espionagem estrangeira.
Assim, em território fronteiriço e indígena, a IASD dispunha de comunidades locais, internato, rádios, missionários venezuelanos, vínculos internacionais e transporte aéreo próprio. Essa infraestrutura existia muitos anos antes de os Estados Unidos precisarem demonstrar, em 2026, capacidade de operar militar e clandestinamente dentro do território venezuelano.
Em 2018 o Dossier tornou a acusação ainda mais direta
Anos depois, já sob Nicolás Maduro, o general Robert González Cárdenas levou a denúncia à televisão estatal. No programa Dossier, da Venezolana de Televisión, acusou a estrutura adventista de promover separatismo entre populações indígenas e vinculou sua atuação aos interesses estratégicos dos Estados Unidos. A Spectrum Magazine, ao reconstruir o episódio, registra que González Cárdenas afirmou que a suposta ação de doutrinação estaria articulada por estruturas como o Departamento de Estado e o Pentágono e relacionada às reservas petrolíferas venezuelanas.
O aspecto decisivo é que o Dossier não apareceu do nada. Mais de uma década antes, o governo Chávez já relacionava atividade missionária estrangeira, indígenas e espionagem. E nós agora sabemos, pelos próprios documentos norte-americanos, que dirigentes adventistas realmente mantinham interlocução com a Embaixada e a USAID, que esse diálogo produzia informação distribuída ao SOUTHCOM e ao Conselho de Segurança Nacional e que a IASD mantinha extensa presença exatamente nas regiões indígenas e fronteiriças que preocupavam Caracas.
Então chegou a ADRA — e o dinheiro da USAID
Se a estrutura religiosa fornece presença social, a ADRA acrescenta financiamento estatal norte-americano e capacidade operacional humanitária. Documentos da própria USAID mostram a agência adventista como parceira da resposta dos Estados Unidos à crise venezuelana. Em 2019, o Office of Food for Peace destinou aproximadamente US$ 5,8 milhões à assistência alimentar executada pela ADRA para venezuelanos no Brasil. Os programas atendiam refugiados e migrantes com vouchers de alimentos, refeições e outras modalidades de assistência.
O relatório anual da USAID para aquele período inclui a ADRA entre os parceiros responsáveis pela resposta à emergência venezuelana, tanto no ambiente regional quanto em ações relacionadas às necessidades produzidas pela crise. A parceria continuou nos anos seguintes. Em 2023, o Bureau for Humanitarian Assistance registrou ADRA e Cáritas Brasileira como implementadoras de US$ 2 milhões em assistência relacionada a venezuelanos no Brasil. Em 2024, outro documento da USAID registra US$ 2,5 milhões destinados diretamente à ADRA para assistência alimentar na resposta regional venezuelana em território brasileiro.
Mais importante: a USAID financiou projeto adventista dentro da Venezuela
A relação não ficou restrita aos migrantes que haviam deixado o país. O projeto Una Gota de Amor para Venezuela, implementado pela ADRA International em Caracas e Barquisimeto, foi explicitamente financiado pela USAID. A avaliação externa do projeto documenta que a ADRA Venezuela contratou especialistas para realizar avaliações de linha de base e de encerramento do programa.
Essas avaliações envolveram uma pesquisa telefônica representativa com 507 domicílios venezuelanos e visitas presenciais a 268 casas. Foram coletadas informações sobre segurança alimentar, alimentação de crianças, condições domésticas e qualidade da água. A avaliação final utilizou indicadores padronizados do Bureau for Humanitarian Assistance. Equipes técnicas venezuelanas e especialistas internacionais trabalharam na coleta, organização e interpretação desses dados.
Aqui encontramos algo muito mais sofisticado que distribuição de alimentos. Uma organização adventista, financiada pelo governo dos Estados Unidos, tinha acesso direto a famílias dentro da Venezuela e produzia dados estruturados sobre suas condições de vida. Informação humanitária continua sendo informação. Conhecimento sobre abastecimento, segurança alimentar, água, composição familiar, vulnerabilidade social e deslocamentos populacionais tem valor administrativo, diplomático e estratégico, particularmente num país submetido a sanções, pressão internacional e disputa geopolítica.
ADRA não estava à margem da política externa americana; estava dentro de sua execução
Os documentos governamentais não descrevem a ADRA como observadora externa dos programas dos Estados Unidos. Descrevem-na como implementing partner, parceira executora. Isso significa transformar recursos públicos norte-americanos em operações de campo, assistência, logística, coleta de indicadores, avaliação de resultados e prestação de contas. A diferença é fundamental. A política é decidida pelo governo financiador; organizações como a ADRA ajudam a transformá-la em presença concreta no território.
É nesse sentido que a denominação pode funcionar como instrumento de política externa sem precisar receber ordens clandestinas da CIA. Uma agência religiosa capaz de entrar onde diplomatas não entram, conversar com populações vulneráveis, manter equipes locais, trabalhar em áreas de fronteira, produzir levantamentos e operar com dinheiro oficial americano já constitui um recurso de soft power. O instrumento não precisa saber tudo o que a mão que o financia pretende alcançar para que sua existência produza capacidade de presença e influência.
Enquanto isso, Maduro comprava apoio evangélico
A ironia fica ainda maior quando observamos o relacionamento do chavismo com outros grupos protestantes. Em março de 2024, Maduro reuniu aproximadamente 17 mil líderes cristãos em Puerto Cabello. Depois do encontro, seu governo criou o Bono El Buen Pastor, pagamento mensal a ministros cristãos, e desenvolveu o programa Mi Iglesia Bien Equipada, fornecendo equipamentos e, em alguns casos, reformas de templos. Maduro também havia criado o Dia do Pastor e buscava explicitamente construir alianças com setores evangélicos.
A Word&Way, em reportagem da Religion News Service publicada depois da queda de Maduro, mostra que essa política criou aliados evangélicos reais, embora o bloco tenha começado a se fragmentar. Lideranças pentecostais defenderam Maduro mesmo depois de sua captura pelos Estados Unidos, enquanto outros movimentos buscaram afastar-se do chavismo. A relação entre religião e poder na Venezuela jamais foi neutra: governos disputavam igrejas, igrejas disputavam acesso, recursos e influência.
E onde estava a IASD nesse tabuleiro?
A resposta não cabe nas categorias simplistas de “chavista” ou “antichavista”. A própria documentação norte-americana mostra a Igreja utilizando adventistas chavistas para abrir portas junto ao governo e, simultaneamente, conversando com a Embaixada dos Estados Unidos. O governo de Chávez facilitou em certos aspectos a expansão da radiodifusão adventista. A denominação ganhou enorme densidade territorial no sul do país. A ADRA transformou-se em parceira recorrente da política humanitária norte-americana. A Igreja conseguiu atravessar Chávez e Maduro preservando suas instituições e ampliando sua presença.
A Spectrum informa que a expansão administrativa continuou sob o chavismo. A União Venezuelana Oriental foi organizada em 2010 e novas reorganizações ocorreram depois. Em 2024, as duas uniões venezuelanas reuniam aproximadamente 350 mil membros e registravam mais de US$ 7 milhões em dízimos e ofertas. A instituição não desapareceu sob o chavismo. Cresceu dentro dele.
Os nomes por trás da máquina
Josney Rodríguez emerge como personagem fundamental porque aparece nominalmente no documento confidencial de 2006. Era um dos administradores mais importantes da Igreja no país e foi o interlocutor identificado na reunião com representantes da Embaixada e da USAID. O fato de a conversa ter sido transformada em informação diplomática confidencial e encaminhada ao SOUTHCOM mostra que aquilo que dirigentes adventistas comunicavam podia entrar no circuito oficial de informação do Estado norte-americano.
A importância não está em rotular Rodríguez individualmente, mas em compreender o mecanismo institucional. Uma organização religiosa instalada profundamente na sociedade venezuelana tinha dirigentes capazes de falar com autoridades do chavismo por meio de membros politicamente conectados e, do outro lado, conversar reservadamente com representantes dos Estados Unidos. A mesma estrutura que pregava distância das disputas políticas aos fiéis sabia movimentar-se entre os centros reais de poder.
2026: quando a longa pressão virou incursão militar
Em 3 de janeiro de 2026, a disputa deixou de ser apenas diplomática, econômica e clandestina. Forças americanas bombardearam alvos, entraram na Venezuela e capturaram Nicolás Maduro e Cilia Flores. A Reuters descreveu uma operação preparada durante meses, com participação da CIA, forças especiais e extensa atividade de inteligência. Um ativo próximo de Maduro forneceu informações essenciais para determinar sua localização. Os Estados Unidos transportaram o casal para seu território, onde Maduro passou a responder a acusações federais.
A reação religiosa revelou novamente a divisão venezuelana. A Spectrum encontrou grupos evangélicos que denunciaram a ação americana como agressão imperial e outros que a receberam como libertação. Adventistas entrevistados pela revista falaram em violação da soberania e lembraram que Chávez e Maduro haviam permitido o funcionamento regular da denominação. A matéria também recuperou justamente as antigas acusações de que a estrutura adventista teria servido aos interesses norte-americanos entre indígenas e em áreas de recursos estratégicos.
O Dossier parece muito diferente quando relido depois de 3 de janeiro
Em 2018, podia parecer exagerado ouvir na televisão venezuelana que uma Igreja conhecida por Escola Sabatina, hospitais e vegetarianismo poderia desempenhar função geopolítica. Depois de reunir os documentos, a caricatura desaparece. Temos uma denominação sediada mundialmente nos Estados Unidos; dirigentes venezuelanos reunindo-se com Embaixada e USAID; informação enviada ao NSC e ao SOUTHCOM; presença territorial excepcional entre indígenas e em fronteiras; rádios próprias; internato; aviação missionária; ADRA financiada pela USAID; projetos executados dentro da Venezuela; centenas de domicílios pesquisados; e décadas de inserção institucional numa sociedade que Washington queria compreender e influenciar.
O general González Cárdenas acusou a IASD de fazer parte de uma estratégia ligada ao Departamento de Estado e ao Pentágono para penetrar comunidades indígenas e favorecer interesses norte-americanos. O comunicado diplomático de 2006 não demonstra cada elemento dessa acusação, mas mostra algo que torna impossível descartá-la como simples fantasia televisiva: doze anos antes do Dossier, a liderança adventista venezuelana já estava em interlocução direta com representantes do governo americano, e o conteúdo dessa interlocução já chegava ao próprio SOUTHCOM.
Não é preciso imaginar um pastor carregando um rádio da CIA
A imagem cinematográfica do espião atrapalha mais do que ajuda. Estados modernos projetam influência por ecossistemas muito maiores: diplomacia, ajuda humanitária, organizações não governamentais, universidades, empresas, igrejas, programas sociais, produção de conhecimento e redes locais. Uma organização religiosa transnacional pode contribuir para esse ambiente sem que cada pastor saiba como informações, relacionamentos e capacidades adquiridas localmente se encaixam na estratégia de um Estado.
No caso venezuelano, a rede adventista oferecia exatamente aquilo que qualquer potência estrangeira deseja possuir num país difícil: presença duradoura, confiança comunitária, capilaridade social, acesso a populações remotas, estruturas de comunicação, capacidade de transporte, instituições próprias, profissionais locais e um braço humanitário habilitado a receber milhões de dólares de agências governamentais estrangeiras.
O falso apartidarismo volta a aparecer
E aqui retornamos ao problema que atravessa nossa série. Para o membro, “não se envolva em política”. Para a instituição, reuniões com embaixadas, representação regulatória, relacionamento com governos de ideologias opostas, interlocução com chavistas, contratos com agência federal norte-americana e operações humanitárias diretamente integradas à política externa dos Estados Unidos.
O termo “apartidarismo” esconde uma distinção conveniente. A base é ensinada a não politizar a fé; a administração pratica relações de poder porque não poderia administrar uma organização multinacional de outro modo. O fiel é advertido sobre bandeiras partidárias; a estrutura aprende a sobreviver sob qualquer bandeira. Chávez, Maduro, Washington, USAID, CONATEL, comunidades indígenas, governo bolivariano ou diplomacia americana: muda a cabeça do Leviatã, muda a cor, mas a máquina continua procurando espaço para funcionar.
Da Whitecoat à Venezuela
Esse comportamento não surge isoladamente na história adventista. Nossa investigação anterior sobre a relação da denominação com o Estado norte-americano já mostrou a participação adventista na Operation Whitecoat e outras formas de cooperação institucional construídas durante décadas. A Venezuela acrescenta uma nova camada latino-americana a esse histórico: não mais jovens adventistas participando de pesquisas militares dentro dos Estados Unidos, mas uma rede religiosa e humanitária implantada num país colocado progressivamente no centro da confrontação estratégica de Washington.
Por isso, as acusações venezuelanas merecem ser relidas à luz da documentação que agora possuímos. O governo bolivariano não via apenas missionários carregando Bíblias para aldeias. Via uma organização norte-americana com raízes profundas entre indígenas, infraestrutura própria e conexões internacionais. E, enquanto Caracas olhava com suspeita para aquela presença, a Embaixada norte-americana efetivamente conversava com seus dirigentes e transmitia essas informações para algumas das mais importantes estruturas políticas e militares dos Estados Unidos.
A captura de Maduro encerra um ciclo, mas abre outra investigação
Quando Maduro foi capturado em 2026, a operação americana dependeu de informações acumuladas, vigilância, inteligência humana e capacidade de penetração no país. A fonte que forneceu sua localização não foi publicamente identificada. O que já podemos reconstruir é o terreno social muito anterior sobre o qual a presença norte-americana pôde operar. E dentro desse terreno encontramos a IASD e a ADRA repetidamente conectadas a estruturas governamentais americanas, programas financiados pelos Estados Unidos e redes locais venezuelanas.
É esse o nível em que a participação adventista precisa ser compreendida: não como tropa de assalto, mas como parte de um ecossistema de presença norte-americana construído por décadas. Escola, rádio, avião, missão indígena, assistência humanitária, pesquisa domiciliar, embaixada, USAID e SOUTHCOM aparecem na mesma história. A religião fornece confiança e capilaridade. A agência humanitária fornece acesso e operação. O financiador fornece recursos. A diplomacia transforma contatos locais em informação de Estado.
E talvez seja exatamente por isso que a acusação feita primeiro sob Chávez e repetida no Dossier durante Maduro incomodava tanto. Os venezuelanos estavam apontando para algo que o discurso religioso preferia apresentar de maneira fragmentada. Vista separadamente, cada peça parece inocente: uma escola aqui, uma rádio ali, um avião levando enfermos, um programa alimentando famílias, uma reunião diplomática, uma pesquisa humanitária. Vista em conjunto, aparece uma rede transnacional extraordinariamente bem posicionada dentro de um dos países mais disputados da América Latina.
O Leviatã muda de cor, mas sabe para onde nadar
A Venezuela acrescenta, assim, uma nova cabeça ao nosso Leviatã Adventista. Durante Chávez, a Igreja utilizou adventistas chavistas para preservar sua interlocução com o governo, aproveitou novas oportunidades para sua radiodifusão e continuou expandindo sua presença. Paralelamente, seus dirigentes conversavam com a Embaixada dos Estados Unidos e a USAID. Sob Maduro, enfrentou acusações públicas ainda mais graves, continuou funcionando e crescendo e manteve, por meio da ADRA, participação em programas financiados pelo governo norte-americano. Quando Washington finalmente passou da pressão econômica e diplomática à intervenção militar e à captura de Maduro, encontrou uma Venezuela sobre a qual o Estado americano acumulava havia décadas redes, contatos e conhecimento.
Essa história não combina com a imagem de uma organização religiosamente ingênua, pairando acima da política e preocupada apenas em pregar a volta de Jesus. Estamos diante de uma instituição multinacional que sabe conversar com governos, proteger interesses, administrar relações internacionais, movimentar recursos públicos e adaptar-se às mudanças de regime. É exatamente por isso que o discurso de neutralidade precisa ser confrontado com os documentos.
Na Venezuela, enquanto o membro adventista era ensinado a manter distância da política, a estrutura denominacional estava instalada no território, conversando com o poder local e mantendo canais com o poder estrangeiro. Hugo Chávez percebeu o problema, o Dossier o denunciou durante Nicolás Maduro, mensagens diplomáticas registraram a interlocução, a USAID colocou dinheiro na rede humanitária e, duas décadas depois, os Estados Unidos demonstraram até onde estavam dispostos a ir naquele país. O falso apartidarismo não significa ausência de política. Significa que a política fica concentrada nas mãos de quem controla a Organização.
Vinte anos depois, o SOUTHCOM reaparece na outra ponta da história
Há uma continuidade institucional que merece ser destacada porque liga dois momentos separados por exatamente duas décadas. Em 2006, quando o governo Hugo Chávez já colocava a atuação adventista entre indígenas sob suspeita e material da Misión Ribas acusava a denominação de espionagem para a CIA, dirigentes da Igreja Adventista procuraram representantes dos Estados Unidos para discutir sua situação. Josney Rodríguez, então secretário-geral da União Venezuelana-Antilhana e responsável por parte importante da estrutura adventista no leste do país, reuniu-se com um oficial político da Embaixada americana e um funcionário da USAID. O resultado dessa interlocução não permaneceu restrito ao ambiente diplomático de Caracas: o despacho diplomático confidencial produzido pela Embaixada entrou no circuito governamental norte-americano e teve entre seus destinatários estruturas de segurança dos Estados Unidos, incluindo o National Security Council e o U.S. Southern Command — SOUTHCOM.
Esse detalhe ganha outra dimensão quando avançamos vinte anos. Em janeiro de 2026, o SOUTHCOM reaparece, desta vez na outra extremidade da história, participando da estrutura que apoiou a Operation Absolute Resolve, responsável pela captura de Nicolás Maduro. A revelação mais recente veio do próprio vice-diretor da CIA, Michael Ellis. Em setembro de 2026, Ellis afirmou publicamente que o Center for Cyber Intelligence da agência construiu o quadro de inteligência cibernética utilizado na operação. Durante a missão, diferentes agências americanas mantiveram equipes de crise destinadas a apoiar simultaneamente o Special Operations Command e o Southern Command. A CIA, a National Security Agency, a National Geospatial-Intelligence Agency e o Cyber Command aparecem compondo diferentes partes dessa arquitetura de inteligência e apoio operacional.
Segundo Ellis, as operações cibernéticas do Center for Cyber Intelligence produziram aquilo que ele descreveu como um quadro de inteligência excepcionalmente completo para a operação. A informação fornecida às forças especiais permitiu identificar a localização de Maduro e capturá-lo aproximadamente quatro minutos depois da chegada das forças americanas ao terreno. O presidente do Estado-Maior Conjunto, general Dan Caine, já havia atribuído apoio à missão à CIA, à NSA e à National Geospatial-Intelligence Agency e descrito meses de coleta de informações sobre os movimentos e a rotina diária de Maduro. A novidade revelada por Ellis foi estabelecer explicitamente o papel central das operações cibernéticas da CIA nessa arquitetura.
A NSA, por sua vez, forneceu apoio de geolocalização e acompanhou comunicações e sinais que poderiam revelar movimentos de tropas venezuelanas ou a ativação de radares. A dimensão tecnológica da operação era, portanto, muito maior do que uma simples localização obtida por um informante: inteligência humana, geolocalização, inteligência geoespacial, comunicações, operações cibernéticas e forças especiais foram reunidas num único quadro operacional, enquanto equipes de crise apoiavam SOCOM e SOUTHCOM.
Essa constatação permite colocar lado a lado duas sequências documentais que, embora não demonstrem uma cadeia causal direta entre si, revelam a permanência das mesmas estruturas norte-americanas no acompanhamento da Venezuela. Em 2006, temos dirigentes da IASD → Embaixada/USAID → relato diplomático → National Security Council/SOUTHCOM. Em 2026, temos CIA + NSA + NGA + Cyber Command → SOCOM/SOUTHCOM → Operation Absolute Resolve. Entre esses dois momentos encontra-se justamente o período em que a presença adventista e a ADRA continuaram crescendo, dirigentes venezuelanos passaram a posições regionais, a agência humanitária aprofundou sua parceria com estruturas governamentais americanas e milhões de dólares provenientes da USAID foram empregados em programas relacionados à Venezuela.
Rodríguez e Poloche: dois nomes atravessando a reorganização adventista
A cronologia torna-se especialmente interessante quando voltamos aos homens que ocupavam posições administrativas em 2006. Josney Rodríguez e David Poloche não eram dirigentes independentes que ocasionalmente apareciam nos mesmos documentos. Na reorganização adventista do leste venezuelano ocorrida naquele período, Rodríguez assumiu a presidência da junta da nova estrutura experimental, enquanto Poloche participou de sua administração. Isso coloca dois personagens centrais de nossa investigação dentro do mesmo processo de reorganização institucional justamente no momento em que a relação entre a Igreja, o governo Chávez e os representantes americanos adquiria relevância documental.
Rodríguez é importante porque aparece diretamente no encontro com Embaixada e USAID que originou o despacho diplomático de 2006. Poloche é importante porque sua trajetória continuaria muito além daquele episódio. Depois de uma longa carreira na administração venezuelana, ele chegou em 2015 à direção da ADRA Interamérica, exatamente quando a deterioração da situação venezuelana começava a transformar a crise do país numa prioridade humanitária regional. Sob essa estrutura, a ADRA tornou-se uma das organizações executoras de recursos públicos norte-americanos destinados à resposta venezuelana. O que encontramos, portanto, é continuidade administrativa: homens que conheceram profundamente a Venezuela e participaram da organização denominacional local posteriormente ocuparam posições capazes de coordenar a atuação adventista numa escala internacional.
Da conversa diplomática aos milhões da USAID
Essa relação institucional deixou de ser medida apenas em reuniões e despachos e passou a ser medida em milhões de dólares. Em 2018, a própria ADRA descreveu sua relação com estruturas humanitárias americanas como uma parceria de longa duração. No ano fiscal de 2019, somente na resposta à migração venezuelana no Brasil, a agência adventista recebeu aproximadamente US$ 11,4 milhões em duas grandes linhas de financiamento da USAID: cerca de US$ 5,76 milhões para assistência alimentar e outros US$ 5,65 milhões para abrigo, logística, meios de subsistência, água e saneamento. A ADRA havia se tornado, assim, uma executora de grande porte da política humanitária financiada pelos Estados Unidos para a crise venezuelana.
Posteriormente, essa capacidade operacional alcançou o próprio território venezuelano. Em Caracas e Barquisimeto, o projeto Una Gota de Amor para Venezuela, implementado pela ADRA International com financiamento da USAID, envolveu levantamento telefônico com 507 domicílios, visitas presenciais a 268 residências, testes de água e coleta de indicadores relacionados a segurança alimentar, alimentação infantil e condições das famílias. A assistência humanitária exigia produção sistemática de dados, acompanhamento de beneficiários, conhecimento territorial e contato direto com a população. Esse episódio demonstra concretamente a capacidade operacional que uma agência ligada à denominação havia adquirido dentro da sociedade venezuelana.
Depois de Maduro, ADRA e Departamento de Estado na mesma coordenação em Caracas
Um documento de julho de 2026 acrescenta uma imagem particularmente expressiva dessa continuidade institucional. Depois dos terremotos que atingiram a Venezuela, o Grupo de Trabajo de Logística reuniu em Caracas organizações envolvidas na resposta humanitária. A documentação pública dessa coordenação registra a participação do Departamento de Estado dos Estados Unidos juntamente com organismos internacionais e parceiros humanitários. O mecanismo tratava de questões altamente práticas: situação logística, acesso às áreas atingidas, transporte terrestre e aéreo de carga humanitária, comunicação prévia com autoridades venezuelanas, alfândega e identificação de gargalos de acesso.
Ao mesmo tempo, o SOUTHCOM estava publicamente envolvido na resposta americana aos terremotos. Seu arquivo oficial de junho de 2026 registra a chegada de sua liderança à Venezuela para coordenar a assistência, o envio de aeronaves militares, navios e equipes de apoio e sucessivas atualizações sobre o auxílio prestado no país. Assim, apenas meses depois de participar da arquitetura militar da operação que capturou Maduro, o mesmo Southern Command aparecia novamente fisicamente envolvido na Venezuela, agora em missão declaradamente humanitária.
É justamente essa capacidade de alternar instrumentos que torna a história venezuelana tão reveladora. Diplomacia, ajuda humanitária, organizações civis, inteligência e força militar não são a mesma coisa e não devem ser confundidas; mas todas podem coexistir dentro da política externa de um Estado. Na Venezuela, encontramos ao longo de vinte anos estruturas adventistas e da ADRA atuando no mesmo ambiente em que Embaixada, USAID, Departamento de Estado e, em momentos distintos, SOUTHCOM aparecem documentalmente. O dado historicamente relevante é a persistência dessa sobreposição institucional através de conjunturas radicalmente diferentes.
Da HUMINT ao cyber: o círculo foi se fechando em torno de Maduro
A revelação de Michael Ellis permite compreender melhor a última etapa. A captura de Maduro não foi produto de uma única fonte nem de uma única tecnologia. Meses de acompanhamento de seus movimentos e hábitos produziram um pattern of life; inteligência humana forneceu acesso próximo; recursos geoespaciais ajudaram a construir o quadro físico; a NSA trabalhou com geolocalização e sinais; e o componente cibernético da CIA integrou informações num quadro operacional entregue às forças especiais. Ellis afirmou que esse trabalho foi indispensável para que Maduro pudesse ser localizado em questão de minutos.
A importância dessa revelação para nossa investigação está em mostrar como uma capacidade de penetração estratégica é construída por camadas diferentes de acesso. Algumas são ostensivamente estatais e militares; outras são clandestinas; outras pertencem à diplomacia; outras são humanitárias, religiosas ou civis. As estruturas adventistas documentadas pertencem principalmente a essa última esfera: comunidades, escolas, assistência, projetos, dirigentes, comunicação, relações institucionais e circulação internacional. O relato diplomático de 2006 demonstra que informações oriundas da interlocução com a liderança adventista efetivamente entravam no circuito oficial americano e chegavam ao SOUTHCOM. Duas décadas depois, o SOUTHCOM estava novamente no circuito operacional venezuelano, desta vez integrado à missão que capturou Maduro.
Em 2006, a Igreja Adventista aparece como interlocutora de representantes americanos num relatório que circulou até o SOUTHCOM. Nos anos seguintes, a ADRA aprofundou sua integração aos programas financiados pela USAID e desenvolveu capacidade operacional relacionada à Venezuela. Em 2026, CIA, NSA, NGA, Cyber Command, SOCOM e SOUTHCOM convergiram numa arquitetura de inteligência e força capaz de chegar ao próprio Nicolás Maduro. Depois da captura, estruturas americanas civis e militares continuaram presentes na Venezuela, inclusive na resposta humanitária aos terremotos.
A cronologia não transforma automaticamente cada projeto humanitário em operação de inteligência, mas revela algo mais amplo e documentalmente verificável: durante duas décadas, a infraestrutura adventista esteve repetidamente inserida em ambientes institucionais nos quais também operavam órgãos do governo dos Estados Unidos. Da Gran Sabana a Caracas, da ADRA à USAID, da Embaixada ao despacho encaminhado ao SOUTHCOM, existe uma história de contatos, recursos, acesso e permanência que antecede em muitos anos a operação que finalmente alcançou o círculo presidencial.
A aparência religiosa e os interesses nada celestiais
É aqui que a investigação toca numa questão mais profunda do que dinheiro, diplomacia ou geopolítica. Para o membro comum, a Igreja Adventista apresenta-se acima de tudo como uma comunidade religiosa organizada em torno de uma convicção extraordinariamente forte de identidade: a ideia de pertencer ao “povo remanescente”, portador de uma mensagem profética particular e de uma missão para o tempo do fim.
Essa autocompreensão produz pertencimento, lealdade, sacrifício financeiro e confiança institucional. O fiel participa da igreja local, entrega dízimos e ofertas, sustenta projetos missionários e interpreta boa parte dessa estrutura como instrumento de uma finalidade essencialmente espiritual. É justamente por isso que a dimensão política, econômica e institucional dessa mesma máquina precisa ser exposta com clareza.
A estrutura que estamos documentando na Venezuela operava em outra escala. Enquanto a linguagem dirigida aos membros enfatizava missão, evangelização, serviço e identidade profética, a administração denominacional e seu braço humanitário precisavam lidar com governos, embaixadas, organismos internacionais, grandes financiadores públicos, contratos, avaliações, relações institucionais e interesses de política externa.
No caso que reconstruímos, aparecem dirigentes adventistas conversando com representantes da Embaixada dos Estados Unidos e da USAID; um relato diplomático decorrente dessa interlocução circulando até estruturas governamentais americanas; a ADRA recebendo milhões de dólares públicos para executar programas relacionados à crise venezuelana; e dirigentes formados na estrutura venezuelana ascendendo posteriormente à própria Divisão Interamericana.
É nesse contraste que o discurso do “remanescente” adquire importância para nossa crítica. A crença sincera dos membros não demonstra que a administração denominacional seja movida exclusivamente pelos mesmos objetivos espirituais que mobilizam esses membros. Uma instituição religiosa pode produzir pertencimento por meio de doutrina, liturgia, profecia e identidade comunitária e, simultaneamente, comportar-se como uma grande organização transnacional que administra patrimônio, funcionários, relações governamentais, financiamento público e interesses institucionais. Uma coisa não elimina automaticamente a outra. O problema começa quando a aura religiosa dificulta que os membros enxerguem, questionem ou fiscalizem essa segunda dimensão.
Na Venezuela, essa distância torna-se especialmente visível porque a linguagem da neutralidade política conviveu com uma atividade institucional intensamente conectada ao mundo político. Não estamos falando simplesmente de um pastor votando ou de um membro ocupando cargo público. Estamos falando de relações diplomáticas, interlocução com autoridades, participação em organismos, financiamento governamental internacional e execução profissional de programas vinculados às prioridades humanitárias de governos estrangeiros. A instituição que pede ao membro que enxergue sua pertença principalmente em categorias espirituais precisa, ela própria, ser examinada também como organização econômica e política.
É precisamente aí que a sensação de pertencimento ao “povo remanescente de Deus” pode funcionar como poderosa blindagem institucional. Para quem acredita que a organização possui papel singular no plano divino, questionar suas estruturas pode parecer muito mais grave do que questionar uma empresa, uma ONG ou uma associação comum.
A identidade religiosa pode transformar confiança espiritual em confiança administrativa. Entretanto, uma afirmação teológica sobre quem constitui o remanescente não funciona como auditoria de contratos, não fiscaliza relações com governos, não explica fluxos financeiros e não responde por decisões tomadas por administradores. Fé e prestação de contas pertencem a categorias diferentes.
É também por isso que o volume do financiamento governamental merece atenção. A parceria com a USAID não exige qualquer adesão do governo americano à teologia adventista. Washington não precisa acreditar no sábado, no santuário celestial, nas três mensagens angélicas ou na identidade profética da denominação.
O interesse é inteiramente terreno: capacidade de execução, capilaridade, logística, acesso comunitário, profissionais, voluntários, conhecimento territorial e resultados mensuráveis. Para o financiador, a utilidade da estrutura adventista pode ser avaliada por indicadores absolutamente seculares. A aparência religiosa pertence à identidade da organização; a decisão governamental de financiá-la pode obedecer a objetivos completamente pragmáticos.
Isso torna ainda mais importante investigar a participação da Divisão Interamericana. Quando dirigentes venezuelanos ascendem para funções regionais, quando a ADRA Interamérica coordena escritórios nacionais e quando recursos e profissionais atravessam fronteiras denominacionais, deixamos de observar apenas iniciativas isoladas de uma igreja venezuelana. Estamos diante de uma arquitetura transnacional. A estrutura religiosa fornece continuidade institucional; a estrutura humanitária profissionaliza a operação; e financiadores externos podem colocar recursos nessa máquina sem possuir qualquer vínculo com a crença que sustenta emocionalmente sua base de membros.
É essa duplicidade de perspectivas que precisa ficar diante do leitor: para o fiel, a organização pode representar o remanescente preparando o mundo para a volta de Cristo; para um governo secular que financia seu braço humanitário, ela pode representar uma organização internacional eficiente, capilarizada e capaz de executar milhões de dólares em políticas públicas.
A primeira percepção pertence ao campo da fé. A segunda pode ser examinada em contratos, relatórios, organogramas, reuniões e transferências financeiras. Confundir as duas beneficia sobretudo a própria instituição, porque reveste estruturas perfeitamente terrenas de uma autoridade que seus membros entendem como celestial.
É por isso que nossa investigação não precisa discutir a sinceridade religiosa de milhões de adventistas. O objeto é outro: examinar aquilo que a instituição faz com a confiança que recebe deles. Quanto maior a reivindicação espiritual, maior deveria ser a transparência sobre dinheiro, poder, governos e relações institucionais. Se uma organização pede aos membros que a reconheçam como instrumento especial de Deus na História, esses mesmos membros têm ainda mais razão para saber quem financia seus braços institucionais, quais compromissos esses financiamentos estabelecem, com quais governos seus dirigentes dialogam e quais interesses concretos sua gigantesca infraestrutura internacional acaba servindo.
Em setembro de 2026, a própria Divisão aproxima novamente ADRA e missão religiosa
Uma publicação de setembro de 2026 acrescenta uma peça importante à discussão sobre a relação entre ADRA, Igreja e Divisão Interamericana. No dia 15, a própria Divisão Interamericana publicou um artigo assinado por Paulo Lopes, presidente da ADRA International, relacionando diretamente o trabalho humanitário da agência ao OneVoice27, movimento missionário mundial lançado pela Igreja Adventista apenas dez dias antes. Lopes apresenta essa aproximação como algo natural: a missão religiosa da Igreja e a atuação humanitária da ADRA aparecem, no próprio discurso institucional, como expressões convergentes de uma mesma identidade adventista.
Esse documento é particularmente interessante porque surge justamente quando estamos tentando compreender onde termina a agência humanitária e onde começa a estrutura denominacional. Na prática institucional descrita pelos próprios adventistas, essa fronteira é muito menos rígida do que poderia parecer quando se examinam apenas contratos governamentais. A ADRA possui personalidade, administração profissional, projetos, funcionários e mecanismos próprios de financiamento, mas continua sendo apresentada dentro da estrutura adventista como expressão concreta de sua missão. Quando interessa captar recursos públicos, apresenta-se como organização humanitária profissional capaz de cumprir indicadores e contratos; quando a Igreja mobiliza sua identidade missionária mundial, a própria presidência internacional da ADRA apresenta sua atividade como parte natural dessa missão.
Uma rede de 300 mil membros espalhada pelos 24 estados
Outro dado atualizado ajuda a dimensionar o que significa essa associação na Venezuela. A própria Igreja Adventista venezuelana informa atualmente possuir mais de 300 mil membros, mais de 1.200 igrejas e congregações, mais de 40 instituições educacionais e presença ativa nos 24 estados do país. Não estamos, portanto, diante de uma pequena organização humanitária estrangeira tentando penetrar comunidades desconhecidas. A ADRA trabalha dentro do ecossistema de uma denominação que afirma possuir presença em todo o território venezuelano.
E a própria apresentação institucional venezuelana coloca a ADRA entre os pilares daquilo que denomina “Missão e Serviço”, ao lado das estruturas de saúde, educação, juventude, assistência comunitária e comunicação. Essa arquitetura explica uma parte importante do valor operacional da agência. O financiamento governamental não precisa construir do zero uma rede nacional de contatos: encontra uma organização humanitária associada a uma comunidade religiosa que já possui templos, instituições, dirigentes, profissionais, voluntários e membros espalhados pelo país.
O terremoto mostrou como a estrutura eclesiástica pode tornar-se estrutura operacional
Os documentos produzidos depois dos terremotos de junho tornam isso ainda mais concreto. A própria ADRA International informou que ADRA Venezuela trabalhava conjuntamente com autoridades locais, OCHA e a rede da Igreja Adventista para avaliar necessidades e identificar as comunidades prioritárias. A Divisão Interamericana publicou fotografias de dirigentes da ADRA Venezuela reunidos com funcionários da Proteção Civil em Caracas. Não era apenas uma transferência internacional de dinheiro: havia pessoal adventista interagindo diretamente com estruturas governamentais venezuelanas no terreno.
Essa capacidade explica por que a dimensão denominacional não pode desaparecer de nossa análise dos financiamentos. O recurso pode chegar mediante um contrato humanitário completamente secular; sua execução, entretanto, encontra uma infraestrutura social construída durante décadas pela religião. A igreja fornece uma rede de pessoas e instituições que precede o financiamento, enquanto a ADRA acrescenta profissionais, metodologias, logística e capacidade internacional de captação.
A fronteira entre “Igreja” e “ADRA” fica ainda mais interessante
O ponto não é afirmar que todo membro adventista seja funcionário da ADRA ou participante de seus projetos. Evidentemente não é assim que uma organização desse tamanho funciona. O que importa institucionalmente é outra coisa: a própria documentação adventista de 2026 mostra Igreja e ADRA mobilizando conjuntamente estruturas em situações concretas. A resposta venezuelana aos terremotos envolveu administradores denominacionais, pastores, profissionais de saúde, voluntários, igrejas e pessoal especializado da agência humanitária.
Em julho, por exemplo, a própria Igreja venezuelana divulgou a resposta de Morón descrevendo explicitamente a ação conjunta da “Iglesia Adventista del Séptimo Día y ADRA”. A publicação menciona equipes multidisciplinares, médicos e pastores distribuindo alimentos, filtros de água, kits de higiene e oferecendo atendimento médico e espiritual. A assistência material e a presença religiosa aparecem literalmente dentro da mesma operação.
Dinheiro secular entrando numa infraestrutura construída pela religião
É justamente aqui que aparece a aparente contradição que merece ser explorada no artigo. Para o governo financiador, não é necessário qualquer compromisso com a teologia adventista. O financiamento pode ser inteiramente secular, baseado em metas, orçamento, auditoria e indicadores humanitários. Entretanto, a capacidade operacional que torna a ADRA atraente não nasceu exclusivamente de contratos governamentais. Parte importante dela está inserida numa infraestrutura construída durante gerações pela expansão religiosa adventista.
Na Venezuela, essa infraestrutura significa hoje, segundo os próprios números denominacionais, centenas de milhares de membros, mais de mil congregações, dezenas de instituições educacionais e presença declarada nos 24 estados. Para o fiel, essa rede pode representar o crescimento da missão religiosa. Para uma agência humanitária, representa também capilaridade. E, para um financiador governamental, essa capilaridade pode significar capacidade de alcançar rapidamente populações, mobilizar voluntários, localizar comunidades e executar programas sem construir previamente uma estrutura nacional equivalente.
O vínculo financeiro com o governo americano não precisa ser religioso para aproveitar uma infraestrutura que nasceu da religião. A fé construiu comunidades, instituições e pertencimento; a organização humanitária profissionalizou parte dessa capacidade; e governos descobriram que podiam financiar essa estrutura para executar políticas públicas internacionais. A documentação mais recente da própria Divisão Interamericana mostra que, em setembro de 2026, ADRA e missão adventista continuam sendo apresentadas como partes convergentes de uma mesma identidade institucional.

PARCERIA DE LONGA DATA: Como a rede adventista se integrou por décadas à infraestrutura de presença, influência e informação dos Estados Unidos na Venezuela — até a queda de Maduro
Durante décadas, enquanto a Igreja Adventista do Sétimo Dia proclamava neutralidade política e se apresentava como uma organização essencialmente religiosa e humanitária, uma extensa infraestrutura denominacional crescia dentro da Venezuela: presença entre povos indígenas, escolas, missões, rádios, aviação missionária, ADRA, redes de atendimento social e interlocução com governos. Ao mesmo tempo, dirigentes adventistas mantinham contatos com a diplomacia norte-americana, a ADRA executava recursos da política externa dos Estados Unidos e informações produzidas em torno da Igreja circulavam pelo aparato diplomático e de segurança de Washington.
O governo venezuelano percebeu essa dimensão muito cedo. Já em 2005–2006, materiais oficiais do chavismo acusavam organizações missionárias estrangeiras — incluindo adventistas — de servir a interesses norte-americanos entre populações indígenas. Em fevereiro de 2006, enquanto essas acusações circulavam, dirigentes da própria IASD venezuelana receberam em Caracas um oficial político da Embaixada dos Estados Unidos e um funcionário da USAID. O relatório confidencial dessa conversa foi distribuído não apenas ao Departamento de Estado, mas também ao Conselho de Segurança Nacional e ao SOUTHCOM.
Essa relação não desapareceu. A ADRA tornou-se executora regular de programas financiados pelos Estados Unidos relacionados à crise venezuelana, dentro e fora do país. Projetos financiados por Washington envolveram assistência humanitária, visitas domiciliares, levantamentos socioeconômicos, segurança alimentar, água e saneamento — produzindo dados estruturados sobre populações venezuelanas e ampliando a presença operacional de uma organização adventista financiada pelo governo americano.
Na Gran Sabana, essa infraestrutura encontrava um de seus pontos mais sensíveis. A presença adventista foi institucionalizada entre povos indígenas, com missões, escola-internato, rádios, pastores, obreiros e até aviação própria em região fronteiriça com Brasil e Guiana. Não era apenas presença religiosa: era uma rede territorial capaz de chegar a comunidades remotas e manter circulação regular de pessoas, informações e recursos.
Foi exatamente esse tipo de presença que alimentou as acusações repetidas pelo governo venezuelano. Em 2018, no programa Dossier, transmitido pela televisão estatal, a IASD foi acusada de atuar como instrumento de penetração norte-americana, fomentar separatismo entre povos indígenas e favorecer atividades de espionagem para os Estados Unidos. Essas acusações não surgiram do nada: repetiam suspeitas presentes havia mais de uma década e coincidiam com a existência comprovada de relações entre dirigentes adventistas, Embaixada dos EUA, USAID e estruturas norte-americanas de política externa.
O que aconteceu depois é igualmente significativo. A ADRA continuou integrada à resposta norte-americana à crise venezuelana, enquanto os Estados Unidos ampliavam progressivamente pressão econômica, política, diplomática e finalmente militar contra Nicolás Maduro.
Em janeiro de 2026, a operação que capturou Maduro foi preparada durante meses por CIA, forças especiais, vigilância técnica e uma fonte infiltrada próxima ao próprio presidente venezuelano. As fontes públicas disponíveis até agora não identificam a IASD ou a ADRA como participantes operacionais dessa missão específica. Elas mostram, porém, algo anterior e estrutural: durante décadas, a rede adventista esteve inserida no ecossistema de presença, financiamento, acesso social e informação mantido pelos Estados Unidos em torno da Venezuela.
É essa continuidade que interessa. A questão não é imaginar um pastor adventista conduzindo comandos norte-americanos ao esconderijo de Maduro. A infraestrutura de influência funciona de maneira mais sofisticada. Organizações religiosas, humanitárias, educacionais e sociais podem produzir acesso, conhecimento local, relacionamentos e legitimidade muito antes de uma crise chegar ao seu desfecho político ou militar.
Quando Maduro caiu, Washington não chegou à Venezuela em janeiro de 2026 como quem entra pela primeira vez em território desconhecido. A CIA vinha acompanhando seus movimentos havia meses e havia cultivado uma fonte dentro do círculo próximo do presidente. A operação combinou inteligência humana, vigilância, forças especiais e capacidade militar de grande escala. A história que estamos reconstruindo mostra que, muito antes disso, estruturas adventistas já faziam parte de uma paisagem venezuelana conhecida, financiada e acompanhada por órgãos dos Estados Unidos.
Da Gran Sabana a Caracas, a pergunta que fica não é se a Igreja Adventista comandou a queda de Maduro. Não há documento público demonstrando isso. A pergunta é mais profunda: até que ponto uma rede religiosa que se apresenta como neutra ajudou, durante décadas, a manter aberta uma infraestrutura social, territorial e humanitária associada à presença norte-americana num país que Washington considerava estratégico?
A resposta começa a aparecer nos documentos: dirigentes em contato com a Embaixada; USAID financiando a ADRA; projetos operando dentro da Venezuela; informações circulando por estruturas oficiais americanas; presença adventista profunda entre comunidades indígenas e zonas fronteiriças; e acusações venezuelanas de espionagem formuladas muito antes da captura de Maduro.
O que o Dossier denunciou em linguagem de contrainteligência talvez tenha sido a leitura venezuelana de uma realidade mais ampla: a religião podia funcionar também como infraestrutura. Não necessariamente como quartel clandestino, mas como rede de acesso, presença, confiança, circulação e informação. E quando Washington finalmente decidiu agir diretamente contra Maduro, essa longa história já estava construída.
A própria ADRA admite: captar dinheiro de governos, inclusive da USAID, estava entre os objetivos de sua criação
Há um documento institucional que muda a dimensão desta investigação porque elimina qualquer tentativa de apresentar a relação ADRA–governo dos Estados Unidos como uma aproximação ocasional provocada pela emergência venezuelana. Em fevereiro de 2025, quando a suspensão temporária do financiamento da USAID atingiu organizações humanitárias ao redor do mundo, a própria ADRA International publicou uma explicação extraordinariamente franca sobre sua relação histórica com recursos governamentais.
Segundo a agência adventista, um dos principais objetivos da criação da ADRA, em 1984, foi captar recursos de governos de diferentes países para financiar sua atividade humanitária, “notably through the United States Agency for International Development (USAID)”. A organização acrescentou que, durante mais de quatro décadas, seus escritórios receberam centenas de milhões de dólares provenientes de governos e da USAID.
Esse reconhecimento obriga a reposicionar a ADRA dentro da história que estamos reconstruindo. Não estamos diante de uma agência religiosa que, décadas depois de sua fundação, casualmente encontrou o governo americano durante uma catástrofe venezuelana. A busca por financiamento governamental internacional, incluindo explicitamente a USAID, fazia parte do modelo institucional da organização.
Isso significa que a integração entre estrutura denominacional, assistência humanitária e recursos públicos estrangeiros não foi uma anomalia venezuelana: era uma característica incorporada ao funcionamento internacional da agência adventista. O caso venezuelano é particularmente importante porque essa característica estrutural encontrou um país que, durante décadas, manteve uma relação progressivamente hostil com Washington.
A declaração de 2025 fornece ainda outro detalhe revelador. A ADRA explicou que os recursos da USAID não eram necessariamente enviados apenas para sua sede internacional nos Estados Unidos. Parte era destinada à ADRA International, sediada nos EUA, enquanto outra parte era desembolsada diretamente para escritórios nacionais da rede ADRA na América do Sul, África e Oriente Médio.
Quando a administração americana congelou os programas da USAID, a ADRA informou que estava mantendo comunicação com o Departamento de Estado dos Estados Unidos para buscar exceções e facilitar a revisão de seus programas financiados pelo governo americano. Portanto, a relação institucional alcançava simultaneamente sede internacional, escritórios nacionais, USAID e Departamento de Estado.
A crise venezuelana encontrou uma parceria que a ADRA já chamava de “de longa duração”
Essa cronologia recua ainda mais. Em abril de 2018, quando a USAID/OFDA concedeu US$ 500 mil à ADRA para atendimento de migrantes venezuelanos em Roraima, a própria agência adventista qualificou a relação com o órgão americano como uma “long-standing partnership”, uma parceria de longa duração. A ADRA foi naquele momento a única ONG contemplada naquele prêmio específico da USAID/OFDA e recebeu a missão de atender 4.650 venezuelanos em Pacaraima e Boa Vista, justamente na porta de entrada da migração pela fronteira norte brasileira.
O financiamento cresceu rapidamente. No ano fiscal de 2019, os recursos americanos destinados à ADRA na resposta venezuelana no Brasil já ultrapassavam US$ 11 milhões. E a relação não desapareceu quando o pico inicial da emergência migratória passou. Em 2024, documentação oficial da USAID continuava registrando a Adventist Development and Relief Agency nominalmente entre suas organizações implementadoras: naquele exercício, a agência recebeu US$ 2,5 milhões da USAID/BHA para assistência alimentar a venezuelanos no Brasil. O total de recursos humanitários americanos destinados à crise regional venezuelana entre os anos fiscais de 2017 e 2024 chegou a aproximadamente US$ 3,53 bilhões, somando USAID/BHA e o Bureau of Population, Refugees, and Migration do Departamento de Estado. A ADRA estava inserida nesse gigantesco ecossistema de intervenção humanitária financiado por Washington.
Em outras palavras, enquanto o confronto político entre Estados Unidos e governo Maduro se aprofundava, Washington construía simultaneamente uma enorme estrutura regional de assistência relacionada à Venezuela. Recursos passavam por agências das Nações Unidas, organizações internacionais, entidades religiosas e ONGs. A ADRA estava entre elas, possuindo uma vantagem que organizações recém-chegadas não tinham: fazia parte de uma denominação que já estava implantada dentro da sociedade venezuelana havia décadas, inclusive em regiões indígenas, áreas fronteiriças e comunidades afastadas dos grandes centros.
A rede humanitária não distribuía apenas ajuda: ela produzia conhecimento
Há outro aspecto que precisa ser aprofundado porque normalmente desaparece quando se fala genericamente em “ajuda humanitária”. Operações humanitárias modernas são também grandes sistemas de produção de informação. Para decidir onde atuar, quem atender e como medir resultados, é necessário localizar populações, cadastrar beneficiários, identificar vulnerabilidades, acompanhar famílias, conhecer disponibilidade de água, alimentação, saúde e deslocamentos e transformar essas informações em indicadores comparáveis. A assistência material é acompanhada por uma infraestrutura permanente de avaliação.
A atuação da ADRA na Venezuela oferece exemplos concretos. Além do projeto que já identificamos em Caracas e Barquisimeto, envolvendo centenas de pesquisas domiciliares e visitas presenciais, a própria biblioteca internacional de recursos da ADRA registra que, em 2023 e 2024, a ADRA Venezuela distribuiu 2.400 filtros PointOne e 300 filtros cerâmicos Ecofiltro e conduziu simultaneamente um estudo comparativo sobre seu funcionamento. A pesquisa empregou métodos mistos: questionários domiciliares, discussões em grupos focais, inspeções físicas, testes de água, entrevistas com funcionários do projeto e até microscopia eletrônica de varredura. A própria ADRA classificou a experiência como inédita para a organização na América do Sul.
O significado estrutural é importante. A organização possuía pessoal, metodologia, acesso às residências, capacidade de selecionar participantes, conduzir entrevistas, organizar grupos focais, realizar inspeções e transformar observações de campo em informação técnica. Isso não transforma automaticamente informação humanitária em inteligência governamental; demonstra, porém, algo essencial para compreender a infraestrutura que estamos descrevendo: a rede adventista não apenas alcançava comunidades, mas possuía capacidade profissional de produzir conhecimento sistematizado sobre elas. Num país em que a presença oficial americana sofreu severas limitações, essa capilaridade social e informacional tinha valor próprio.
2025 revelou o grau de dependência institucional entre ADRA e recursos americanos
O congelamento da USAID em janeiro de 2025 funcionou quase como uma radiografia involuntária dessa relação. A ADRA reconheceu publicamente que a interrupção dos recursos americanos provocara “significant disruptions” em suas operações globais e obrigara a suspensão de programas. Informou também que recursos da USAID financiavam tanto projetos administrados pela ADRA International quanto operações realizadas diretamente pelos escritórios nacionais da rede, inclusive na América do Sul.
Essa reação permite medir a relação não apenas pelo dinheiro recebido, mas pela integração operacional criada ao longo do tempo. Quando uma decisão tomada em Washington consegue interromper programas de uma agência religiosa em diferentes continentes, fica evidente que financiamento público americano havia se tornado parte importante da capacidade operacional internacional daquela organização. A ADRA respondeu procurando recursos alternativos e, simultaneamente, mantendo diálogo com o Departamento de Estado para tentar preservar programas atingidos pela revisão americana.
O detalhe é especialmente importante para nossa análise venezuelana porque 2025 é também o ano em que a inteligência americana acelerou a preparação que terminaria na captura de Maduro. Estamos olhando para estruturas diferentes do governo americano e para atividades de naturezas distintas, mas dentro da mesma conjuntura: enquanto Washington revisava sua enorme máquina internacional de financiamento e assistência, a CIA intensificava sua penetração clandestina na Venezuela. A política americana operava simultaneamente através de instrumentos diplomáticos, econômicos, humanitários e de inteligência.
Poloche não dirigia apenas uma agência: dirigia uma rede regional de escritórios nacionais
Nesse contexto, a trajetória do venezuelano David Poloche merece ainda mais atenção. Quando foi escolhido diretor da ADRA Interamérica em 2015, a própria Divisão informou que ele já acumulava mais de quarenta anos de serviço denominacional, havia sido tesoureiro de União na Venezuela durante 19 anos e diretor nacional da ADRA durante cinco anos. Ou seja, o homem que passou a coordenar regionalmente a agência conhecia profundamente tanto a máquina financeira adventista venezuelana quanto seu braço humanitário.
Poloche permaneceu no comando regional até 2026. Ao anunciar sua aposentadoria, a própria Divisão Interamericana destacou que ele havia desempenhado papel fundamental no crescimento regional da ADRA e no aumento da capacidade de seus escritórios para responder a crises humanitárias. Portanto, exatamente durante a década em que a Venezuela passou de crise econômica e migração maciça para confrontação máxima com os Estados Unidos, um venezuelano formado durante décadas dentro da administração adventista de seu país dirigia a estrutura regional da agência humanitária da denominação.
Isso não é detalhe biográfico. Organizações são também redes de conhecimento acumulado. Um administrador que passou décadas num país conhece sua estrutura denominacional, seus dirigentes, suas associações, seus escritórios, suas instituições, suas comunidades e sua cultura administrativa. Quando esse dirigente assume uma função regional, esse conhecimento não desaparece; passa a integrar a experiência institucional disponível no nível superior da organização.
A estrutura religiosa e a estrutura humanitária passaram a funcionar juntas
Outro ponto que precisa ser enfatizado é que ADRA e Igreja não funcionam na Venezuela como universos isolados. A própria resposta aos terremotos de junho de 2026 mostra essa integração de maneira explícita. Depois do terremoto de magnitude 7,5, a ADRA Venezuela começou imediatamente a trabalhar ao lado das autoridades locais, do OCHA e da rede da Igreja Adventista do Sétimo Dia para avaliar necessidades e identificar comunidades prioritárias. A ADRA International, sediada em Maryland, liberou inicialmente US$ 100 mil para a operação e a rede passou a mobilizar recursos adicionais.
Posteriormente, a agência estabeleceu uma operação destinada a alcançar 90 mil pessoas, distribuindo milhares de kits de higiene e alimentos e atuando em abrigos temporários de Caracas e La Guaira. A ADRA descreve explicitamente a coordenação com autoridades e parceiros humanitários, ao mesmo tempo em que continua avaliando necessidades em transformação.
Isso revela a verdadeira escala da infraestrutura adventista. Quando ocorre uma emergência, não existe simplesmente um escritório da ADRA telefonando para beneficiários cadastrados. Existe uma denominação nacional com igrejas, pastores, administradores, voluntários, instituições, conhecimento local e membros distribuídos pelo território; existe paralelamente uma agência profissional internacional capaz de mobilizar financiamento, técnicos e protocolos humanitários; e existe uma estrutura transnacional capaz de deslocar recursos e conhecimento através das fronteiras. A religião fornece capilaridade social; a agência acrescenta profissionalização humanitária e acesso a financiamento internacional.
É essa capacidade de permanecer que explica a importância estratégica da rede
O ponto central de nossa investigação deve permanecer aí. Uma potência estrangeira pode perder sua embaixada, ter diplomatas expulsos, sofrer restrições de circulação e enfrentar hostilidade aberta do governo local. Uma igreja profundamente implantada no país não desaparece com a mesma facilidade. Seus membros são venezuelanos. Seus pastores conhecem as comunidades. Suas escolas continuam funcionando. Seus templos permanecem. Sua agência humanitária pode continuar atendendo populações porque sua legitimidade formal decorre da assistência, não da diplomacia.
Essa diferença ajuda a compreender por que a infraestrutura adventista merece ser analisada dentro da história maior da presença americana. A utilidade estrutural de uma rede religiosa não exige que ela receba ordens da CIA. Sua importância pode estar precisamente naquilo que faz normalmente: permanecer no território, manter relações, conhecer pessoas, administrar instituições, circular entre comunidades, conversar com autoridades, receber financiamento internacional e produzir informações necessárias à execução de seus projetos. Tudo isso cria uma camada de conectividade social que sobrevive quando relações oficiais entre Estados entram em colapso.
E no caso adventista há um elemento adicional: essa rede civil não estava simplesmente associada culturalmente aos Estados Unidos. Temos documentação de interlocução direta com Embaixada e USAID em 2006; circulação do relato resultante até National Security Council e SOUTHCOM; décadas de financiamento da ADRA pela USAID; milhões de dólares especificamente relacionados à crise venezuelana; projetos financiados por Washington operando dentro da Venezuela; e diálogo institucional da própria ADRA com o Departamento de Estado americano em 2025.
Da Gran Sabana aos bancos de dados: a natureza da presença mudou, mas a capilaridade permaneceu
A evolução histórica é particularmente reveladora. Nas primeiras décadas, a vantagem da presença adventista estava na capacidade missionária de alcançar comunidades indígenas e formar lideranças locais. Depois vieram escolas, estruturas administrativas, radiodifusão e aviação missionária. Com a profissionalização humanitária, acrescentaram-se equipes técnicas, avaliações, programas de água e saneamento, segurança alimentar, acompanhamento de beneficiários, pesquisas domiciliares e metodologias internacionais de monitoramento.
A tecnologia mudou; a característica essencial permaneceu: acesso. Primeiro acesso religioso às aldeias; depois acesso educacional às famílias; acesso comunicacional pelas rádios; acesso físico pela aviação; acesso humanitário pela ADRA; acesso domiciliar pelas avaliações; acesso institucional através de autoridades; e acesso internacional através da estrutura adventista e de financiadores governamentais.
É essa sucessão que torna a expressão “infraestrutura adventista” mais precisa do que simplesmente “presença da Igreja”. Estamos falando de sistemas sobrepostos capazes de transportar pessoas, recursos, mensagens e informações. Individualmente, cada elemento possui sua função própria. Juntos, constituem uma rede de enorme profundidade social.
E então a inteligência americana chegou ao círculo presidencial
Quando colocamos essa longa história ao lado da preparação para a captura de Maduro, surge a questão que torna esta investigação particularmente provocadora. Em 2025, a CIA passou a construir uma capacidade clandestina muito mais agressiva dentro da Venezuela. Em 2026, as informações tornadas públicas mostraram uma arquitetura composta por inteligência humana, presença clandestina no terreno, geolocalização, inteligência geoespacial, operações cibernéticas e forças especiais. A fonte cultivada próxima de Maduro permitia acompanhar seus movimentos; recursos técnicos transformavam essa informação em quadro operacional; e as forças de assalto receberam conhecimento suficientemente preciso para alcançá-lo rapidamente.
Não é necessário transformar a ADRA em braço da CIA para compreender por que décadas de infraestrutura civil importam para uma história dessa natureza. Redes de inteligência não nascem num vácuo social. Elas operam em sociedades que já possuem relações transnacionais, instituições internacionais, organizações humanitárias, igrejas, empresas, funcionários públicos, profissionais, migrantes e incontáveis contatos pessoais atravessando fronteiras. Quanto maior a presença acumulada, maior o universo potencial de relacionamentos, conhecimento e acesso disponível.
É nesse sentido que a infraestrutura adventista deve ser situada: não como substituta da CIA, mas como uma das redes transnacionais que mantiveram durante décadas uma ponte entre a sociedade venezuelana e estruturas sediadas ou financiadas pelos Estados Unidos. Quando a inteligência americana finalmente alcançou o círculo íntimo de Maduro, ela estava operando num terreno social que não começara a ser conhecido em 2025.
Uma cronologia que começa a falar por si
Quando reunimos tudo numa única linha histórica, a densidade da relação aparece com muito mais clareza. A Igreja estabelece presença profunda na Gran Sabana e entre povos indígenas. Em 2005 e 2006, o governo Chávez passa a tratar missões estrangeiras como questão de soberania e acusa adventistas de ligação com espionagem americana.
Em fevereiro de 2006, dirigentes da IASD conversam com Embaixada e USAID; o relatório produzido a partir dessa conversa chega ao Conselho de Segurança Nacional e ao SOUTHCOM. Nos anos seguintes, dirigentes venezuelanos como Josney Rodríguez e David Poloche ascendem dentro da estrutura denominacional. Poloche assume a ADRA Interamérica em 2015. Em 2018, a própria ADRA chama sua relação com USAID/OFDA de parceria de longa duração. Em 2019, mais de US$ 11 milhões são destinados à ADRA somente em linhas relacionadas à resposta venezuelana no Brasil.
Em 2020 e 2021, projetos financiados pelos Estados Unidos produzem avaliações dentro da Venezuela. Em 2023 e 2024, a ADRA Venezuela continua realizando estudos domiciliares e técnicos. Em 2024, a USAID ainda destina US$ 2,5 milhões à ADRA na resposta regional. Em 2025, a própria agência reconhece que captar recursos governamentais, particularmente da USAID, fazia parte dos objetivos de sua criação e que recebeu centenas de milhões de dólares ao longo de quatro décadas.
Em 2026, a inteligência americana demonstra capacidade de alcançar o círculo presidencial venezuelano, enquanto a rede adventista continua suficientemente capilar para mobilizar uma grande resposta humanitária nacional depois dos terremotos.
É essa continuidade — e não um episódio isolado — que dá força à investigação. A pergunta deixou de ser simplesmente se a ADRA recebeu dinheiro americano ou se um pastor conversou com a Embaixada. O que emerge é uma estrutura religiosa e humanitária transnacional que atravessou décadas, governos e crises mantendo presença dentro da Venezuela e relações institucionais profundas com estruturas governamentais dos Estados Unidos. A Gran Sabana mostra a profundidade territorial; a ADRA mostra a capacidade operacional; a USAID mostra a integração financeira; o comunicado diplonático de 2006 mostra a circulação institucional de informação; e a operação de 2026 mostra até onde a capacidade americana de penetrar o Estado venezuelano finalmente chegou.

Da missão entre os Pemón aos milhões da USAID, documentos revelam uma rede adventista inserida durante décadas no mesmo território, nas mesmas comunidades e nos mesmos circuitos institucionais acompanhados por Washington — enquanto Caracas acusava a denominação de servir aos interesses dos Estados Unidos
Por décadas, a Igreja Adventista do Sétimo Dia construiu na Venezuela muito mais que uma rede de templos. Na Gran Sabana e no sul do estado de Bolívar, consolidou escolas, internato, missões indígenas, dezenas de congregações, emissoras de rádio, administradores locais e mecanismos capazes de alcançar comunidades para as quais o próprio Estado tinha dificuldades de acesso. Paralelamente, dirigentes adventistas mantiveram interlocução direta com a Embaixada dos Estados Unidos e com a USAID; a ADRA tornou-se executora de grandes programas financiados pelo governo norte-americano; e informações sobre a situação da denominação venezuelana circularam dentro do aparelho diplomático e de segurança de Washington, chegando ao Conselho de Segurança Nacional e ao SOUTHCOM. É nessa sobreposição — território, religião, ajuda humanitária, informação e política externa — que precisamos procurar a dimensão política da presença adventista no país.
A Gran Sabana não era periferia para a IASD
O mapa ajuda a compreender a questão. A Missão Sul de Bolívar abrange Gran Sabana, El Callao, Roscio e Sifontes, chegando às fronteiras com o Brasil e a Guiana. Em 2019, a própria documentação adventista registrava ali 25.101 membros, 48 igrejas organizadas, 29 grupos, 445 grupos locais, um internato e três emissoras de rádio. A sede administrativa foi estabelecida em Santa Elena de Uairén. O crescimento foi tão intenso que a própria Igreja relata expansão simultânea de membros, finanças e distritos administrativos.
Não estamos falando, portanto, de alguns missionários ocasionais visitando indígenas. Trata-se de uma implantação territorial com raízes profundas. A história adventista da região registra missionários estrangeiros chegando a comunidades indígenas ainda nas primeiras décadas do século XX e, posteriormente, a organização de escolas, missões e estruturas permanentes entre os Pemón. O Colegio Adventista Gran Sabana tornou-se parte dessa rede. A Igreja formou lideranças indígenas e criou mecanismos para alcançar comunidades às quais um pastor permanente dificilmente conseguiria chegar.
Essa presença interessa politicamente porque território significa acesso. Quem possui professores, pastores, agentes humanitários, escolas, rádio e lideranças comunitárias possui conhecimento social e capacidade de circulação numa região de fronteira que outros atores não possuem com a mesma facilidade. A rede religiosa cria relações de confiança, acompanha deslocamentos populacionais, conhece famílias, lideranças e necessidades locais e permanece no território independentemente da alternância dos governos.
Em 2006, Washington já conversava diretamente com a direção adventista
O documento mais revelador dessa história não foi produzido pela Igreja nem pelo governo venezuelano. É um tcomunicado diplomático confidencial da Embaixada dos Estados Unidos em Caracas, datado de 16 de março de 2006 e posteriormente tornado público. O assunto do cabo — ou relato diplomático — não deixa dúvida sobre o interesse norte-americano: “Venezuelan Adventists Also Under BRV Suspicion”. Em 21 de fevereiro daquele ano, um oficial político da Embaixada e um funcionário da USAID reuniram-se com o pastor Josney Rodríguez, secretário-geral da União Venezuelana-Antilhana e coordenador das igrejas adventistas no leste da Venezuela, além de outros pastores adventistas seniores.
A conversa tratou justamente das acusações venezuelanas contra missionários estrangeiros, da atuação entre indígenas e da suspeita de espionagem. Rodríguez apresentou aos diplomatas americanos trechos de uma aula da estatal Misión Ribas sobre “missionários estrangeiros na Venezuela”. O material vinculava a atividade missionária à dominação dos povos indígenas e a interesses estrangeiros. Não era uma conversa sobre teologia. Era um encontro entre a cúpula regional da IASD e representantes do governo dos Estados Unidos sobre um conflito político envolvendo presença estrangeira, indígenas e segurança nacional.
E o relatório não ficou numa gaveta da embaixada. O documento diplomático foi enviado ao Departamento de Estado e distribuído, entre outros destinatários, ao National Security Council em Washington e ao U.S. Southern Command — SOUTHCOM, em Miami. A situação da Igreja Adventista na Venezuela, portanto, interessava a estruturas norte-americanas que iam muito além dos departamentos eclesiásticos de liberdade religiosa.
Os nomes revelam uma concentração impressionante de funções
Quando cruzamos o cpmunicado diplomático com o Adventist Yearbook de 2006, aparece um núcleo administrativo que merece atenção. Julio A. Palacio era presidente da União Venezuelana-Antilhana e, ao mesmo tempo, diretor de Assuntos Públicos e Liberdade Religiosa — justamente o departamento encarregado das relações institucionais com autoridades. Josney Rodríguez era secretário da União e aparece nominalmente no encontro com Embaixada e USAID. David Poloche era tesoureiro. Rodolfo Escobar dirigia simultaneamente o departamento de Comunicação e a ADRA. Os quatro estavam na mesma estrutura administrativa.
Rodolfo Escobar possuía ainda outra posição significativa. Em fevereiro de 2005, representantes das religiões registradas na Venezuela escolheram-no para representar a Igreja Adventista no Consejo de Responsabilidad Social en Radio y Televisión, criado pela legislação chavista para acompanhar o cumprimento das regras do setor audiovisual. Assim, o mesmo homem que dirigia Comunicação e ADRA dentro da União adventista ocupava espaço institucional no sistema venezuelano de regulação da radiodifusão.
É uma configuração reveladora. Palacio concentrava presidência e relações governamentais; Rodríguez estava no centro administrativo e na interlocução documentada com representantes americanos; Escobar conectava comunicação, ADRA e sistema regulatório venezuelano; Poloche controlava as finanças da União e mais tarde passaria para o comando regional da ADRA. Não eram personagens dispersos. Faziam parte da mesma engrenagem denominacional.
David Poloche: da administração venezuelana à direção regional da ADRA
A trajetória de David Poloche atravessa toda essa história. Ele iniciou sua carreira adventista na Venezuela, passou pela Missão do Oeste, foi secretário-tesoureiro da Missão do Leste e, em 1996, tornou-se tesoureiro da União Venezuelana-Antilhana. Em 2015, foi escolhido diretor da ADRA para toda a Divisão Interamericana, sediada em Miami. A própria organização informou então que Poloche havia passado 19 anos como tesoureiro de União na Venezuela e cinco anos como diretor nacional da ADRA. Permaneceu na direção regional até sua aposentadoria em 2026.
Essa trajetória liga institucionalmente a administração adventista venezuelana dos anos Chávez à expansão regional da ADRA durante os anos Maduro. A agência que Poloche passou a dirigir seria uma das organizações contratadas e financiadas pelo governo dos Estados Unidos para enfrentar a crise venezuelana.
Quando a parceria passou a ser contada em milhões de dólares
Os documentos da própria USAID mostram a escala financeira atingida. Somente no ano fiscal de 2019, dentro da resposta regional à crise da Venezuela no Brasil, a ADRA recebeu US$ 5.763.411 da USAID/FFP para vouchers de alimentação e aquisição de alimentos e mais US$ 5.655.000 da USAID/OFDA para meios de subsistência, logística, abrigo e água e saneamento. São mais de US$ 11,4 milhões destinados pelo governo dos Estados Unidos à agência adventista em apenas essas duas linhas de assistência relacionadas à crise venezuelana naquele ano.
Em 2021, documentos oficiais americanos continuavam apresentando a ADRA entre as organizações implementadoras da resposta financiada pela USAID/BHA para venezuelanos e comunidades receptoras. O governo dos Estados Unidos financiava programas de alimentação, transferências, vouchers, nutrição e água e saneamento numa operação regional que alcançava também populações vulneráveis dentro da Venezuela.
A denominação religiosa havia, assim, construído uma rede humanitária que servia como implementadora de recursos da política externa americana. Não precisamos imaginar malas clandestinas ou agentes atravessando a selva. O mecanismo era institucional: contratos, projetos, técnicos, beneficiários, escritórios e relatórios financiados por Washington.
Dentro da Venezuela, dinheiro americano e coleta sistemática de dados
Essa conexão não permaneceu apenas do lado brasileiro ou colombiano da fronteira. O projeto Una Gota de Amor para Venezuela, executado pela ADRA International em Caracas e Barquisimeto, foi financiado pela USAID. Sua avaliação de linha de base envolveu pesquisa telefônica com 507 domicílios e visitas presenciais a 268 famílias para testes de água, além da coleta de indicadores sobre segurança alimentar, alimentação de crianças e condições familiares. A avaliação final utilizou indicadores padronizados da estrutura humanitária americana BHA.
Humanitariamente, esses dados servem para medir necessidade, execução e resultado. Politicamente, eles demonstram outra coisa: uma organização ligada à Igreja Adventista, financiada pelo governo americano, possuía capacidade para acessar populações venezuelanas, entrar em residências, organizar amostras, levantar indicadores sociais e produzir informação sistematizada em território de um governo em confronto crescente com Washington.
Ajuda humanitária e produção de informação caminham juntas porque nenhum programa internacional de grande escala funciona sem monitoramento. Essa capacidade de penetrar socialmente onde a diplomacia americana enfrentava restrições transformava organizações humanitárias em importantes componentes da presença norte-americana indireta.
Caracas desconfiava disso muito antes da captura de Maduro
As suspeitas venezuelanas não começaram quando a crise entre Maduro e Washington atingiu seu auge. O relato diplomático de 2006 demonstra que, ainda no governo Hugo Chávez, a IASD já aparecia em material estatal relacionado às acusações contra missões estrangeiras e à suspeita de atividades de espionagem.
Anos depois, a denúncia voltaria de maneira ainda mais explícita na televisão estatal venezuelana. No programa Dossier, a denominação foi acusada de ligação com interesses norte-americanos, atuação entre indígenas, separatismo e espionagem. A especificidade dessas acusações ganha outro significado quando colocada ao lado do que agora sabemos: existência real de uma extensa infraestrutura adventista em território indígena; interlocução documentada com Embaixada e USAID; financiamento norte-americano à ADRA; e informações sobre a IASD venezuelana circulando até o SOUTHCOM.
A acusação venezuelana enxergava a missão religiosa como parte de uma disputa maior pela soberania do território. Os documentos americanos e adventistas mostram que os elementos materiais sobre os quais essa leitura se apoiava — presença territorial, relacionamento diplomático, ajuda externa e canais institucionais — efetivamente existiam.
Chávez abriu espaço; Maduro tentou construir alianças religiosas
Há uma ironia adicional. O chavismo não manteve uma política uniforme de expulsão das igrejas não católicas. Chávez abriu novos espaços públicos e institucionais para grupos evangélicos e outras minorias religiosas, enquanto Maduro aprofundou a aproximação com determinados líderes cristãos. Em março de 2024, Maduro reuniu milhares de líderes religiosos em Puerto Cabello e seu governo criou iniciativas como o Bono El Buen Pastor e o programa Mi Iglesia Bien Equipada. O campo religioso venezuelano transformou-se, portanto, num espaço de disputa política e de aproximação entre poder estatal e organizações cristãs.
A IASD soube permanecer nesse ambiente contraditório. Manteve sua estrutura territorial, suas instituições, sua presença indígena e seus canais administrativos enquanto, fora do país e dentro dele por meio da ADRA, participava de programas associados à política humanitária norte-americana. A capacidade institucional consistiu precisamente em permanecer funcional nos dois mundos.
3 de janeiro de 2026: os Estados Unidos já conheciam profundamente o terreno
Quando os Estados Unidos capturaram Nicolás Maduro e Cilia Flores em 3 de janeiro de 2026, não estavam entrando num território desconhecido. A operação havia sido planejada durante meses. Segundo a Reuters, forças especiais americanas, incluindo a Delta Force, trabalharam com a CIA e com um extenso aparato de inteligência; uma fonte próxima de Maduro foi decisiva para informar sua localização. Washington chegou a construir uma réplica da residência fortificada para ensaiar a ação.
A dimensão da preparação deixa claro que a captura foi o produto final de uma longa acumulação de conhecimento, contatos e inteligência. Depois da retirada de Maduro, os Estados Unidos continuaram exercendo enorme influência sobre a reorganização política e econômica venezuelana, particularmente no setor petrolífero.
A própria imprensa adventista registrou que a sede da União Venezuelana Oriental ficava a apenas cerca de 12 quilômetros do Fuerte Tiuna, um dos pontos atingidos durante a operação americana. Igrejas e instalações adventistas não registraram danos, e as Uniões Oriental e Ocidental chamaram seus membros à oração. A direção mundial e a Divisão Interamericana não haviam emitido pronunciamento político naquele momento.
A infraestrutura vinha sendo construída havia décadas
A captura de Maduro não exige que imaginemos a IASD participando da equipe de assalto para perceber a importância histórica da infraestrutura construída antes dela. A presença americana numa nação adversária nunca depende apenas de embaixadas, espiões e soldados. Ela também se apoia em organizações capazes de continuar funcionando quando as relações diplomáticas deterioram, alcançar populações distantes, executar recursos, conhecer territórios e conservar redes humanas.
Na Venezuela, a estrutura adventista possuía exatamente essas características. Estava profundamente implantada entre populações indígenas e em regiões de fronteira; mantinha escolas, meios de comunicação e administração local; tinha dirigentes que conversavam com representantes dos Estados Unidos; possuía um braço humanitário financiado por Washington; realizava projetos que exigiam coleta e organização de dados sobre famílias venezuelanas; e mantinha ligação orgânica com uma denominação cuja estrutura internacional possui centros administrativos nos Estados Unidos.
Em 2006, quando Caracas acusava missionários estrangeiros de servir a interesses norte-americanos, Josney Rodríguez e outros dirigentes adventistas estavam efetivamente conversando com Embaixada e USAID. Na mesma administração, Julio Palacio controlava presidência e relações públicas, Rodolfo Escobar acumulava Comunicação e ADRA enquanto ocupava representação no sistema venezuelano de radiodifusão, e David Poloche dirigia as finanças antes de ascender à direção regional da ADRA em Miami.
Anos depois, milhões de dólares da USAID passariam pela ADRA na resposta à própria crise venezuelana. Projetos adventistas financiados por Washington chegariam a operar e levantar informações dentro da Venezuela. E a estrutura missionária da Gran Sabana continuaria funcionando em uma região onde a IASD possuía uma densidade comunitária excepcional.
Da Gran Sabana ao palácio
É essa continuidade que une os episódios. O fio não começa em janeiro de 2026. Ele atravessa décadas de presença missionária, organização indígena, comunicação, assistência humanitária, relacionamento diplomático e financiamento público americano. A captura de Maduro foi realizada pela força militar e pelo aparato de inteligência dos Estados Unidos; mas o ambiente no qual Washington conseguia conhecer e alcançar a Venezuela havia sido construído muito antes por uma multiplicidade de redes civis, humanitárias, econômicas, religiosas e políticas.
A documentação reunida coloca a infraestrutura adventista dentro desse ecossistema. Ela mostra uma denominação cuja neutralidade proclamada convivia com relações concretas de Estado: de um lado, acesso à administração chavista e ao sistema venezuelano de comunicação; do outro, interlocução com Embaixada e USAID e posteriormente execução de milhões de dólares provenientes do governo americano.
Quando observamos conjuntamente Gran Sabana, os povos indígenas, Josney Rodríguez, Julio Palacio, Rodolfo Escobar, David Poloche, Embaixada, USAID, SOUTHCOM e ADRA, o que parecia uma coleção de episódios isolados passa a formar uma estrutura. A Igreja oferecia religião e assistência; a ADRA executava política humanitária; administradores mantinham interlocução institucional; e Washington dispunha de uma organização com presença social profunda num país no qual sua capacidade oficial de operação se tornaria cada vez mais limitada.
Depois da queda de Maduro, reportagem da Reuters informou que Washington planejava inclusive estabelecer uma presença significativa da CIA na Venezuela para a fase seguinte da transição, embora a própria Reuters tenha registrado que não havia conseguido verificar independentemente todos os detalhes do relato original da CNN. O dado confirma pelo menos a centralidade que a inteligência americana passou a ocupar no projeto político pós-Maduro.
Da Gran Sabana ao coração de Caracas, portanto, a história que emerge dos documentos é a de uma infraestrutura religiosa que se tornou também infraestrutura de acesso. Templos, escolas, ajuda humanitária, comunicação, lideranças locais, recursos internacionais e relações diplomáticas formaram uma rede que permaneceu instalada quando governos mudaram, quando relações entre Washington e Caracas desabaram e quando a própria Venezuela passou a tratar organizações missionárias como questão de segurança nacional.
A pergunta que o material acumulado nos obriga a fazer já não é se religião e geopolítica se encontraram na Venezuela. Elas se encontraram. A questão é quanto da presença norte-americana conseguiu permanecer invisível justamente porque chegava vestida não de uniforme militar, mas de missão religiosa, educação e assistência humanitária.
Depois da captura, a antiga presença indireta transforma-se em presença americana aberta
Os acontecimentos posteriores à captura de Nicolás Maduro acrescentam uma dimensão importante à cronologia que estamos reconstruindo. A partir de fevereiro de 2026, aquilo que durante anos precisou circular por canais diplomáticos, humanitários, religiosos e civis passou a coexistir com uma presença norte-americana muito mais explícita dentro da própria Venezuela. Em 18 de fevereiro de 2026, o comandante do U.S. Southern Command, general Francis L. Donovan, esteve pessoalmente em Caracas acompanhado pela representante diplomática americana Laura F. Dogu e pelo secretário assistente interino de Defesa para o Hemisfério Ocidental, Joseph M. Humire. Segundo o próprio SOUTHCOM, a reunião com as autoridades venezuelanas interinas discutiu diretamente o ambiente de segurança e a implementação do plano de três fases do governo Trump para a Venezuela, particularmente sua estabilização. :chatgpt-content-reference{index=”0″}
O significado histórico dessa visita aparece quando a colocamos ao lado do documento de 2006 que já encontramos. Vinte anos antes, o SOUTHCOM recebia como destinatário um comunicado diplomático produzido depois de dirigentes adventistas venezuelanos conversarem com representantes da Embaixada dos Estados Unidos e da USAID sobre a situação da Igreja, sua presença entre indígenas e as suspeitas levantadas pelo governo Chávez.
Em 2026, depois da captura de Maduro, o comandante do próprio SOUTHCOM já estava sentado em Caracas discutindo diretamente com as novas autoridades a estabilização venezuelana. Não são acontecimentos equivalentes e um não demonstra que o outro tenha produzido causalmente o seguinte; o que a sequência revela é a extraordinária continuidade do interesse das mesmas estruturas governamentais americanas pela Venezuela e a transformação progressiva dos instrumentos disponíveis para exercer esse interesse.
Em março, a Embaixada dos Estados Unidos voltou a funcionar em Caracas
Outro acontecimento completa essa mudança de cenário. O Departamento de Estado informa atualmente que a Embaixada dos Estados Unidos em Caracas retomou suas operações em março de 2026, ainda inicialmente com serviços consulares limitados. Isso significa que, apenas dois meses depois da captura de Maduro, Washington começava a reconstruir formalmente sua presença diplomática no país. A comparação com os anos anteriores é significativa: durante o período em que a representação americana enfrentava severas limitações, organizações internacionais, religiosas e humanitárias continuaram possuindo funcionários, instalações, beneficiários, voluntários e redes locais dentro da Venezuela. Quando a representação estatal americana regressou oficialmente, encontrou uma sociedade na qual essas estruturas civis haviam permanecido funcionando. :chatgpt-content-reference{index=”1″}
É nesse ponto que a história da ADRA ganha importância estrutural. A organização não precisou esperar a reabertura da Embaixada americana para possuir presença venezuelana. Segundo a própria ADRA Venezuela, ela atua no país desde 1989 e, em junho de 2017, reorganizou deliberadamente sua estrutura para obter aquilo que a própria instituição chama de uma estrutura sólida e maior “margen de maniobra operativo” para implementar programas, planos e projetos coordenados nacionalmente. A agência afirma possuir uma equipe multidisciplinar, tática e estratégica de voluntários distribuídos por todo o território nacional. Isso é uma descrição institucional muito mais forte do que simplesmente dizer que a ADRA mantinha um escritório em Caracas: a própria organização se apresenta como uma rede nacional de capacidade operacional. :chatgpt-content-reference{index=”2″}
O terremoto de 2026 revelou o tamanho real dessa máquina adventista
Os terremotos de junho de 2026 produziram uma espécie de radiografia pública dessa infraestrutura. Diante da emergência, a ADRA Venezuela não precisou começar do zero. A agência ativou sua estrutura nacional, trabalhou simultaneamente com autoridades locais, OCHA e a rede da Igreja Adventista do Sétimo Dia e passou a identificar comunidades prioritárias. A ADRA International, cuja sede está em Maryland, nos Estados Unidos, liberou inicialmente US$ 100 mil para a operação, enquanto recursos adicionais começaram a ser mobilizados. O plano regional rapidamente cresceu: uma equipe internacional de resposta foi deslocada para a Venezuela, um escritório operacional de emergência foi aberto em Caracas e a estrutura passou a trabalhar com uma meta inicial de alcançar 90 mil pessoas. :chatgpt-content-reference{index=”3″}
Essa resposta é especialmente reveladora porque mostra a Igreja e a ADRA funcionando como partes de uma infraestrutura integrada. A União Venezuelana Ocidental criou dois comitês de gerenciamento de crise, ativou protocolos humanitários e coordenou suas ações com a ADRA Venezuela e com a estrutura adventista da região oriental do país. Igrejas locais transformaram-se em pontos de coleta e distribuição; membros foram mobilizados como voluntários; administradores denominacionais coordenaram recursos; e a agência humanitária acrescentou protocolos profissionais, financiamento e ligação com organismos internacionais. A capacidade operacional não estava concentrada numa única ONG: encontrava-se distribuída através da própria rede eclesiástica. :chatgpt-content-reference{index=”4″}
Hospital, igrejas, ADRA e administração denominacional passaram a funcionar como uma única rede logística
O Hospital Adventista de Venezuela oferece outro exemplo concreto dessa integração. Depois dos terremotos, sua unidade conhecida como Sede La 42 foi formalmente transformada em centro de coleta de ajuda, numa operação coordenada com o Comitê de Crise da União Venezuelana Ocidental e a ADRA Venezuela. Água potável, medicamentos, insumos médicos, alimentos, roupas e outros produtos passaram a ser centralizados pela estrutura hospitalar adventista para posterior distribuição. O hospital, portanto, não funcionava isoladamente como instituição de saúde; tornou-se um nó logístico dentro de uma rede que ligava assistência médica, administração denominacional, membros da Igreja e agência humanitária. :chatgpt-content-reference{index=”5″}
É essa capacidade de converter rapidamente instituições religiosas existentes em infraestrutura operacional que merece atenção. Um templo pode tornar-se centro de coleta; um hospital pode funcionar como depósito logístico; membros podem tornar-se voluntários; administradores e pastores podem localizar famílias; a ADRA pode adicionar profissionais, recursos internacionais e protocolos; e escritórios regionais podem mobilizar apoio através das fronteiras. Em outras palavras, a capilaridade religiosa preexistente reduz enormemente o tempo necessário para montar uma operação nacional. É uma vantagem organizacional que uma agência estrangeira chegando ao país pela primeira vez simplesmente não possui.
Dois meses depois, a ADRA ainda operava cinco projetos simultaneamente
Uma atualização publicada pela própria ADRA International em 17 de setembro de 2026 fornece um retrato ainda mais atual. Segundo Rafael Benítez, diretor nacional da ADRA Venezuela, a resposta já havia alcançado mais de 3 mil famílias na primeira fase e havia sido transformada em um programa composto por cinco projetos simultâneos, envolvendo alimentação, água, higiene e proteção, com operações previstas até dezembro de 2026. A agência continuava atuando meses depois do desastre, acompanhando famílias deslocadas e populações instaladas em abrigos temporários. :chatgpt-content-reference{index=”6″}
Esse dado atualiza significativamente nossa descrição da rede. Não estamos falando apenas de uma estrutura ativada durante alguns dias depois de uma catástrofe. Estamos diante de uma organização capaz de converter presença nacional preexistente em programas prolongados, identificar beneficiários, acompanhar famílias, administrar múltiplos projetos simultaneamente e permanecer meses dentro das comunidades atendidas. Para nossa investigação, esse é um dado estrutural: independentemente da finalidade humanitária de cada projeto, a operação demonstra concretamente alcance territorial, capacidade logística, conhecimento comunitário, mobilização de pessoal e produção contínua de informação operacional.
E o SOUTHCOM também voltou à Venezuela pela porta humanitária
O terremoto produziu ainda uma sobreposição institucional particularmente interessante. Poucos meses depois de sua participação na arquitetura militar e de inteligência que culminou na captura de Maduro, o SOUTHCOM voltou a atuar dentro da Venezuela, agora em missão declaradamente humanitária. Em 25 de junho, o major-general Kevin J. Jarrard chegou a Caracas como principal representante do comando americano no terreno. O governo interino venezuelano havia solicitado assistência dos Estados Unidos, e o SOUTHCOM passou a apoiar a operação liderada pelo Departamento de Estado com aeronaves de asa fixa e rotativa, logística, transporte de equipes de busca e salvamento, avaliação de danos e movimentação de assistência humanitária. :chatgpt-content-reference{index=”7″}
No dia seguinte, a estrutura americana informou ter criado uma equipe de planejamento operacional para a resposta venezuelana, incluindo especialistas em assistência a desastres encarregados de aconselhar dirigentes e equipes responsáveis pelas decisões da missão. O SOUTHCOM declarou também estar coordenando sua atuação com parceiros e aliados regionais. Assim, a Venezuela de junho de 2026 apresentava simultaneamente uma grande rede adventista e da ADRA operando com autoridades e organizações internacionais e uma grande estrutura humanitária americana liderada pelo Departamento de Estado e apoiada operacionalmente pelo SOUTHCOM. :chatgpt-content-reference{index=”8″}
Em 7 de julho, a integração da presença governamental americana tornou-se ainda mais explícita. O Departamento de Estado realizou uma entrevista coletiva conjunta com John Barrett, encarregado de negócios da Embaixada dos Estados Unidos em Caracas, e o general Francis Donovan, comandante do SOUTHCOM, justamente para explicar a resposta americana aos terremotos. Diplomacia e capacidade logística militar apareciam publicamente coordenadas dentro da mesma missão venezuelana. :chatgpt-content-reference{index=”9″}
A fotografia de 2026 mostra duas grandes redes funcionando simultaneamente
É nesse ponto que a atualização de 2026 oferece ao artigo uma imagem particularmente forte. De um lado, encontramos Embaixada dos Estados Unidos, Departamento de Estado e SOUTHCOM novamente presentes em Caracas, coordenando diplomacia, segurança e assistência humanitária. Do outro, encontramos ADRA International, ADRA Venezuela, duas Uniões adventistas, igrejas locais, hospital adventista, voluntários e estruturas internacionais da denominação mobilizados numa extensa operação nacional. São redes distintas, com funções e cadeias de comando diferentes, mas que passaram a ocupar simultaneamente o mesmo ecossistema venezuelano de assistência e reconstrução. :chatgpt-content-reference{index=”10″}
Isso ajuda a compreender retrospectivamente por que a infraestrutura civil construída durante décadas é tão importante para nossa investigação. Quando relações diplomáticas se rompem, redes religiosas e humanitárias podem permanecer. Quando relações oficiais são reconstruídas, essas redes continuam disponíveis. E quando ocorre uma emergência, tornam-se imediatamente capazes de localizar comunidades, mobilizar voluntários, movimentar suprimentos e estabelecer contato com autoridades. A história venezuelana mostra justamente essa continuidade: enquanto a presença governamental americana oscilou dramaticamente, a presença adventista permaneceu implantada dentro da sociedade.
De 2017 a 2026: “margem de manobra operacional” transformada em capacidade nacional
A formulação utilizada pela própria ADRA Venezuela em sua história institucional ganha, assim, um peso especial. Em 2017, a agência afirma ter se reorganizado para conquistar uma estrutura sólida e maior margem de manobra operacional para executar projetos coordenados nacionalmente. Nove anos depois, a resposta aos terremotos permite observar concretamente o resultado dessa reorganização: voluntários espalhados nacionalmente, coordenação com a Igreja, articulação com autoridades, conexão com OCHA, recursos internacionais provenientes da sede americana, escritório de resposta em Caracas e projetos capazes de alcançar milhares de famílias. :chatgpt-content-reference{index=”11″}
Isso acrescenta uma etapa importante à cronologia que estamos construindo. Em 2006 encontramos a interlocução entre dirigentes adventistas, Embaixada e USAID, com o relatório resultante circulando até o SOUTHCOM. Em 2017 encontramos a reorganização da ADRA Venezuela para ampliar sua capacidade operacional nacional. Em 2018–2024 aparecem os financiamentos americanos relacionados à crise venezuelana — incluindo US$ 2,5 milhões da USAID/BHA destinados nominalmente à ADRA somente no Brasil no ano fiscal de 2024. Em 2025, a CIA intensifica a penetração clandestina que antecedeu a captura de Maduro. Em janeiro de 2026 ocorre a operação militar. Em fevereiro, o comandante do SOUTHCOM já está em Caracas discutindo estabilização. Em março, a Embaixada americana reabre. E, em junho e julho, ADRA, Igreja Adventista, autoridades venezuelanas, organismos internacionais, Departamento de Estado e SOUTHCOM aparecem simultaneamente mobilizados dentro do novo cenário venezuelano. :chatgpt-content-reference{index=”12″}
A novidade de setembro: a rede não desapareceu depois que Washington voltou
Talvez este seja o aspecto mais atual e interessante para o fechamento do artigo. Poderíamos imaginar que a reconstrução da presença oficial dos Estados Unidos diminuiria a importância das redes civis que permaneceram durante os anos de ruptura. O que os acontecimentos de 2026 mostram é exatamente o contrário. A presença diplomática e militar americana voltou, mas a infraestrutura adventista continuou funcionando paralelamente e em grande escala. Em setembro, a ADRA permanece executando cinco projetos e acompanhando milhares de famílias. Sua capacidade comunitária não foi substituída pela volta da Embaixada nem pela presença do SOUTHCOM; continuou constituindo uma camada própria de acesso social e operacional. :chatgpt-content-reference{index=”13″}
É essa continuidade que torna a trajetória da Gran Sabana a Caracas historicamente relevante. A rede adventista precedeu a ruptura entre Washington e Caracas, atravessou o chavismo, permaneceu durante os anos de hostilidade, recebeu e executou financiamento governamental americano relacionado à crise venezuelana e continuou operando depois da queda de Maduro e do retorno formal dos Estados Unidos ao país.
Em setembro de 2026, portanto, já não estamos reconstruindo apenas uma história passada. Estamos observando uma infraestrutura que continua ativa, nacionalmente capilarizada e integrada a mecanismos internacionais de assistência justamente no momento em que Washington reconstrói abertamente sua presença política, diplomática, humanitária e de segurança na Venezuela.
A infraestrutura que estamos investigando não terminou sua função com a captura de Maduro. Ela atravessou a mudança de regime e permanece operando na Venezuela pós-Maduro. A questão documental seguinte, portanto, deixa de olhar apenas para trás: é acompanhar como ADRA, IASD, Departamento de Estado, organismos internacionais e estruturas americanas passarão a se relacionar durante a estabilização e reconstrução do país — e quais contratos, financiamentos, reuniões, projetos e novos arranjos institucionais essa nova fase produzirá.

REDE ADVENTISTA DE COLETA DE DADOS: Inteligência humana instalada dentro do círculo de de confiança de Maduro
Há ainda um ponto decisivo que merece ser colocado diante do leitor. As reportagens sobre a captura de Nicolás Maduro descrevem uma operação construída durante meses, com vigilância continuada, presença clandestina da CIA em território venezuelano e, sobretudo, uma fonte humana cultivada muito perto do próprio Maduro. Segundo a Reuters, uma pequena equipe da CIA operava no país desde agosto de 2025 para estudar seu padrão de vida, enquanto outro ativo próximo ao presidente acompanhava seus movimentos e estava preparado para indicar sua localização exata no momento da operação.
Esse detalhe não pode ser tratado como secundário. Washington não capturou Maduro apenas com satélites, aviões e forças especiais. A fase final dependeu também de inteligência humana instalada dentro de seu círculo de confiança. A existência dessa fonte mostra que a presença americana na Venezuela havia penetrado muito além da vigilância externa: alguém suficientemente próximo do presidente estava fornecendo informação operacional decisiva à CIA.
Até agora, nenhuma fonte pública identificou esse ativo como adventista, funcionário da ADRA ou pessoa vinculada formalmente à estrutura denominacional. Mas, diante de tudo o que já documentamos — décadas de implantação adventista no país, dirigentes em contato com a Embaixada e a USAID, uma extensa rede humanitária financiada por Washington, presença em áreas estratégicas e uma estrutura capaz de circular socialmente onde a presença oficial norte-americana era limitada — é legítimo perguntar se alguma dessas redes ajudou, direta ou indiretamente, a criar os canais humanos sobre os quais a inteligência americana passou a operar.
Essa pergunta ganha ainda mais peso porque a CIA não apareceu na Venezuela apenas na noite da captura. A Reuters informa que a agência mantinha uma equipe no terreno havia meses, coletando informações sobre hábitos, deslocamentos e padrões de segurança de Maduro. Depois de sua prisão, surgiu ainda a informação de que Washington pretendia manter uma presença importante da CIA no país durante a reorganização pós-Maduro.
Portanto, o verdadeiro ponto de investigação talvez esteja menos nos helicópteros que chegaram a Caracas naquela madrugada e mais nas redes silenciosas que tornaram possível saber onde Maduro estaria, como se deslocava, quem o cercava e quando estaria vulnerável. É nesse subterrâneo de relações pessoais, organizações civis, estruturas humanitárias e contatos acumulados ao longo dos anos que a infraestrutura adventista se encaixa na construção da presença americana que, depois de décadas de implantação, financiamento, acesso social e interlocução institucional, terminou alcançando o próprio círculo presidencial venezuelano.
Não é afinidade religiosa: é uma parceria institucional muito bem financiada
É importante compreender corretamente a natureza dessa relação. O governo dos Estados Unidos não financia a ADRA porque compartilha da religião adventista, nem a USAID precisa possuir qualquer vínculo confessional com a Igreja Adventista. A relação é muito mais concreta: trata-se de uma parceria institucional e financeira na qual recursos públicos norte-americanos são destinados a uma agência humanitária adventista para executar programas definidos dentro de políticas de assistência internacional.
A própria ADRA reconheceu em 2025 que um dos objetivos de sua criação, em 1984, foi ampliar a capacidade de captar recursos de governos, mencionando expressamente a USAID, e declarou que, ao longo de quatro décadas, sua rede recebeu centenas de milhões de dólares provenientes de governos e da agência norte-americana. citeturn0search0
Isso muda completamente a escala em que devemos analisar a relação. Não estamos procurando uma suposta comunhão ideológica ou religiosa entre Washington e a denominação. Estamos diante de interesses institucionais complementares: o governo americano dispõe de dinheiro, programas internacionais e objetivos humanitários e de política externa; a ADRA dispõe de escritórios nacionais, profissionais, voluntários, conhecimento local, capacidade logística e acesso a populações que uma agência governamental estrangeira dificilmente alcançaria diretamente com a mesma facilidade. Washington financia capacidade operacional; a ADRA transforma financiamento em presença no terreno. É precisamente por isso que essa parceria pode sobreviver a administrações americanas diferentes e funcionar em países politicamente hostis aos Estados Unidos.
E a estrutura chega à própria Divisão Interamericana
No caso venezuelano existe ainda uma característica especialmente importante: a relação não termina num pequeno escritório local da ADRA. A agência funciona dentro de uma rede internacional adventista e possui coordenação regional. A própria Divisão Interamericana descreve a ADRA como o braço humanitário da Igreja em seu território e mantém uma estrutura regional destinada a fortalecer e coordenar os escritórios nacionais.
Foi justamente nessa estrutura que encontramos David Poloche, dirigente formado durante décadas na administração adventista venezuelana, chegando em 2015 à direção da ADRA para a Divisão Interamericana. A própria Divisão registrou que Poloche havia acumulado décadas de experiência denominacional, incluindo dezenove anos como tesoureiro de União na Venezuela e cinco anos na direção nacional da ADRA antes de assumir a função regional.
Isso estabelece uma continuidade administrativa que merece destaque. O conhecimento acumulado na Venezuela não permanecia confinado à Venezuela. Ele ascendia pela estrutura denominacional. Poloche conhecia administração, finanças e assistência adventistas venezuelanas e posteriormente passou a ocupar uma função regional relacionada à rede de escritórios da ADRA na Interamérica.
Josney Rodríguez, outro personagem central da documentação venezuelana e interlocutor dos representantes da Embaixada e da USAID em 2006, também ascendeu posteriormente à estrutura da Divisão Interamericana. Portanto, dois nomes que encontramos no núcleo da administração adventista venezuelana reaparecem depois em funções regionais da denominação.
Dinheiro governamental, execução humanitária e estrutura denominacional
É justamente aqui que a expressão genérica “uma ONG recebeu dinheiro da USAID” se torna insuficiente. A ADRA possui personalidade e administração próprias para executar projetos humanitários, mas sua identidade institucional é adventista e sua rede internacional está historicamente ligada à denominação. No território interamericano, existe uma estrutura regional da ADRA relacionada à Divisão Interamericana; nos países, existem escritórios nacionais; e, nas emergências, a própria documentação adventista mostra esses escritórios trabalhando com Uniões, Associações, Missões, igrejas, pastores, voluntários e instituições denominacionais.
A Venezuela de 2026 ofereceu uma demonstração extraordinariamente clara desse mecanismo. Quando ocorreram os terremotos, a resposta não ficou circunscrita aos funcionários profissionais da ADRA. Foram mobilizadas simultaneamente ADRA Venezuela, ADRA International, as estruturas adventistas venezuelanas, igrejas locais, administradores, voluntários, hospital adventista e recursos provenientes da rede internacional.
A capilaridade religiosa preexistente tornou-se infraestrutura humanitária praticamente de imediato. Portanto, quando um financiador internacional contrata ou financia a ADRA, ele não está adquirindo apenas algumas dezenas de funcionários de uma ONG: está financiando uma organização capaz de operar em interação com uma rede social e institucional adventista muito maior.
É justamente essa capilaridade que torna a parceria valiosa
Essa característica ajuda a explicar por que governos financiam organizações confessionais sem precisar compartilhar sua fé. O ativo procurado não é teológico; é operacional. Uma organização religiosa internacional pode possuir algo extremamente caro e demorado para qualquer governo construir: confiança comunitária, funcionários locais, voluntários, instalações, contatos, conhecimento cultural e presença permanente. Quando surge uma emergência, não é necessário criar toda essa estrutura do zero. Ela já existe.
No caso adventista, essa vantagem é particularmente grande porque a denominação opera mundialmente através de uma organização administrativa extremamente estruturada. Igreja local, distrito, Associação ou Missão, União, Divisão e Associação Geral formam níveis conectados de administração denominacional, enquanto a ADRA possui paralelamente sua própria rede internacional e nacional. Em determinadas operações humanitárias, essas duas arquiteturas se encontram. A documentação dos terremotos venezuelanos mostra justamente isso: a agência profissional e a estrutura eclesiástica trabalhando conjuntamente para alcançar populações atingidas.
Portanto, o dinheiro não compra religião; compra capacidade de execução
Esse talvez seja o modo mais preciso de definir a relação USAID–ADRA: o dinheiro público americano não compra adventismo; financia capacidade operacional. E parte dessa capacidade existe porque a ADRA pertence a um ecossistema adventista internacional que levou décadas para ser construído. A USAID não precisaria converter ninguém, controlar doutrina ou estabelecer qualquer vínculo religioso com a IASD para obter enorme vantagem operacional dessa infraestrutura. Bastaria financiar projetos executados por uma organização que já possuía pessoal, conhecimento, instituições e acesso às comunidades.
É por isso que o envolvimento da Divisão Interamericana merece entrar com muito mais força no artigo. A Venezuela não era uma ilha administrativa. Seus dirigentes circulavam pela estrutura regional; Poloche chegou à direção regional da ADRA; a Divisão acompanhava e promovia a expansão da capacidade humanitária; e emergências podiam mobilizar recursos adventistas além das fronteiras nacionais. Temos, portanto, três escalas conectadas: financiamento governamental americano, execução profissional pela ADRA e capilaridade proporcionada pelo ecossistema denominacional adventista, incluindo sua estrutura regional interamericana.
É essa combinação — e não qualquer afinidade religiosa entre Washington e a IASD — que torna a parceria tão importante para nossa investigação. O governo americano coloca recursos; a ADRA oferece capacidade humanitária e operacional; e a extensa infraestrutura adventista fornece uma rede social que antecede o projeto financiado e continua existindo depois que ele termina. Na Venezuela, onde essa presença foi construída durante décadas e alcançou inclusive regiões indígenas e fronteiriças, essa capacidade adquiriu uma dimensão muito maior do que aquela sugerida pela expressão aparentemente simples “ajuda humanitária”.
Agora temos o número do “award”: US$ 4,67 milhões para a crise dentro da Venezuela
A investigação acaba de ganhar uma chave documental muito mais precisa. Uma auditoria federal norte-americana identifica nominalmente um programa executado pela ADRA sob o título “Building Together: Multisectoral Relief for Households Most Affected by the Crisis in Venezuela”. O registro fornece inclusive o número do award governamental: AID-720BHA23GR00277-ADRA. O valor associado ao programa dessa concessão de financiamento federal americano (award) chega a aproximadamente US$ 4,67 milhões.
Esse número é importante porque nos permite sair definitivamente das referências genéricas a “recursos americanos”. Existe um instrumento de financiamento identificável, rastreável e associado nominalmente à ADRA e à crise dentro da Venezuela. A partir dele, torna-se possível procurar modificações contratuais, desembolsos, subawards, organizações executoras, avaliações, relatórios de desempenho, localidades atendidas e documentação produzida durante a execução.
O próprio título merece atenção. Não estamos falando apenas de venezuelanos que atravessaram as fronteiras e foram atendidos no Brasil ou na Colômbia. O programa é descrito como assistência multissetorial destinada aos domicílios mais afetados pela crise na Venezuela. Isso acrescenta mais uma peça documental àquilo que já havíamos demonstrado com o programa Una Gota de Amor: recursos do governo dos Estados Unidos financiavam capacidade operacional da organização adventista relacionada diretamente à população situada dentro do território venezuelano.
A ADRA aparece nominalmente no mapa da intervenção humanitária americana
Outro documento oficial ajuda a enxergar a escala dessa arquitetura. No mapa da resposta do governo dos Estados Unidos à crise regional venezuelana, atualizado até 30 de setembro de 2024, a ADRA aparece nominalmente entre os parceiros regionais da resposta americana. Ela figura ao lado de grandes organizações internacionais e humanitárias utilizadas por Washington para executar sua política de assistência relacionada à Venezuela.
O mapa revela também algo que normalmente desaparece quando toda essa estrutura é resumida pela expressão “ajuda humanitária”. Washington classificava sua resposta em setores que incluíam alimentação, saúde, proteção, água, logística e assistência financeira, mas também coordenação humanitária, gerenciamento de informação e avaliações, além de política humanitária, estudos e análises. Isso não autoriza atribuir automaticamente cada uma dessas atividades à ADRA, mas demonstra que a arquitetura humanitária financiada pelos Estados Unidos era também uma enorme máquina de produção, organização e circulação de conhecimento sobre a crise venezuelana.
O dinheiro era secular; a infraestrutura continuava adventista
E setembro de 2026 acaba de oferecer uma confirmação institucional particularmente oportuna. No dia 15, a própria Divisão Interamericana publicou um artigo do presidente da ADRA International, Paulo Lopes, associando diretamente a atuação da agência ao OneVoice27, movimento missionário mundial lançado pela Igreja Adventista poucos dias antes. Lopes apresenta essa integração como algo natural, afirmando essencialmente que aquilo que o movimento propõe corresponde ao trabalho que a ADRA já realiza diariamente.
Esse documento ajuda a resolver uma falsa dicotomia. O governo americano não precisa possuir qualquer vínculo religioso com o adventismo para financiar uma organização cuja identidade, história, rede social e inserção institucional continuam adventistas. O contrato pode ser inteiramente secular. O dinheiro pode estar condicionado a metas humanitárias perfeitamente mensuráveis. Mas a organização que recebe e executa esses recursos pertence a um ecossistema construído durante décadas pela expansão mundial da Igreja.
Na Venezuela, a dimensão desse ecossistema é enorme. A própria denominação informa atualmente possuir mais de 300 mil adventistas, 1.200 igrejas e congregações, mais de 40 instituições educacionais e presença ativa nos 24 estados. Na mesma apresentação institucional, ADRA Venezuela aparece entre os pilares de “Missão e Serviço” da Igreja. Portanto, quando recursos internacionais chegam à agência, eles encontram uma organização humanitária profissional que não precisa começar sua implantação social do zero: existe ao redor dela uma denominação nacional extraordinariamente capilarizada.
É aqui que a parceria muito bem financiada ganha sua verdadeira dimensão. Washington não precisa financiar teologia. Precisa financiar capacidade. E a ADRA oferece uma capacidade construída dentro de um ecossistema religioso mundial: administração, profissionais, experiência humanitária, contatos, logística e presença comunitária. A documentação financeira agora permite colocar inclusive número e valor sobre uma dessas relações: AID-720BHA23GR00277-ADRA, aproximadamente US$ 4,67 milhões.
Primeiro vêm os dados; depois, a rota de atendimento
Uma nova peça publicada pela própria ADRA Venezuela permite enxergar com maior precisão como funciona sua presença territorial. Ao descrever a resposta realizada no estado de Mérida, a organização afirma que tudo começou com um “levantamiento de datos” nas áreas mais atingidas. A partir dessas informações, foram identificadas as famílias consideradas mais necessitadas e estabelecida uma rota prioritária de atendimento.
Essa descrição é importante porque revela uma etapa que normalmente desaparece atrás das fotografias de distribuição de alimentos e kits humanitários. Antes da entrega existe informação. É necessário entrar no território, identificar comunidades, levantar necessidades, reconhecer famílias, classificá-las segundo critérios de vulnerabilidade e determinar quem será atendido primeiro. A assistência material é, portanto, precedida por uma infraestrutura de conhecimento.
O território é avaliado, dividido e distribuído entre organizações
A própria ADRA Venezuela acrescenta outra informação reveladora. Suas áreas prioritárias são escolhidas mediante avaliações realizadas no terreno em coordenação com autoridades e organizações humanitárias. Mais do que isso: a agência afirma existir uma delimitação clara das zonas de trabalho entre os diferentes atores humanitários para evitar duplicação de atendimento.
Atualmente, a ADRA informa concentrar sua resposta em La Guaira e Gran Caracas, especialmente entre pessoas alojadas em abrigos oficiais instalados pelo governo venezuelano. Temos, portanto, uma organização adventista participando de uma arquitetura na qual território, população vulnerável e responsabilidades operacionais são sistematicamente mapeados e distribuídos.
E essa máquina já existia antes dos terremotos
O documento talvez mais importante para compreendermos essa cronologia continua sendo o relatório do Cluster de Proteção referente a janeiro e fevereiro de 2026. Meses antes dos terremotos, ADRA Venezuela já aparecia entre as organizações com maior implementação dentro da estrutura humanitária de proteção do país. O sistema acompanhava dezenas de milhares de pessoas e produzia dados desagregados por idade, sexo, mobilidade, deficiência e pertencimento a comunidades indígenas.
Portanto, o terremoto não criou essa infraestrutura. Encontrou uma estrutura adventista que já estava inserida nos mecanismos internacionais de assistência e proteção. A catástrofe ampliou extraordinariamente sua escala e tornou muito mais visível aquilo que já funcionava anteriormente.
A Divisão Interamericana chegou fisicamente a Caracas
Quando a emergência explodiu, a operação deixou ainda mais evidente que ADRA Venezuela não funciona isoladamente. A estrutura da ADRA vinculada à Divisão Interamericana enviou uma equipe internacional de resposta e abriu um escritório operacional em Caracas. A meta inicial anunciada era alcançar 90 mil pessoas durante os primeiros três meses.
A operação foi estruturada conjuntamente com a rede da Igreja Adventista, OCHA e autoridades locais. Assim, aquilo que muitas vezes é apresentado separadamente — agência humanitária, Igreja e estrutura regional — aparece na emergência como uma engrenagem operacional articulada: ADRA Venezuela fornece presença nacional; a Divisão acrescenta coordenação internacional; a IASD oferece sua rede territorial; organismos internacionais e autoridades entram nos mecanismos de coordenação.
Uma plataforma capaz de receber dinheiro de diferentes redes internacionais
A estrutura tornou-se suficientemente robusta para executar simultaneamente projetos financiados por fontes diferentes. A própria ADRA descreve uma carteira formada por cinco grandes projetos. Entre aqueles detalhados estão US$ 100 mil provenientes do mecanismo NEM, US$ 600 mil mobilizados pela rede internacional da ADRA, um programa de cinco mil pacotes alimentares financiado pela Igreja de Jesus Cristo dos Santos dos Últimos Dias e o Projeto Alinea, desenvolvido em colaboração com o Departamento de Estado dos Estados Unidos, World Vision e Aid International.
O Alinea é especialmente importante para nossa investigação porque pretende alcançar aproximadamente 18 mil famílias venezuelanas e permanecer em execução até dezembro. Portanto, a relação entre a infraestrutura humanitária adventista e estruturas governamentais americanas não pertence apenas ao passado dos telegramas diplomáticos ou aos financiamentos anteriores da USAID. Em 2026, a própria ADRA identifica novamente o governo americano dentro de uma de suas grandes operações venezuelanas.
A infraestrutura que interessa não é apenas logística; é informacional
Essa talvez seja a consequência mais importante das novas peças. Uma organização capaz de realizar levantamentos territoriais, identificar famílias, classificar vulnerabilidades, produzir rotas de atendimento, coordenar áreas geográficas com outras organizações e acompanhar milhares de beneficiários possui necessariamente uma capacidade informacional considerável.
É justamente essa dimensão que precisamos continuar seguindo. A questão documental decisiva agora não é descobrir se a ADRA coleta informações — a própria organização já confirma que realiza levantamentos de dados. O próximo passo é descobrir quais campos são coletados, em quais sistemas são armazenados, quem possui acesso, quais informações sobem da ADRA Venezuela para a estrutura regional e internacional e quais relatórios são exigidos pelos financiadores de cada projeto.






