
SAIBA MAIS
- DA GRAN SABANA AO PALÁCIO: A infraestrutura adventista que disfarçou e ocultou a presença americana na Venezuela até a queda de Maduro
- AGENTES DA IASD NA CAPTURA DE MADURO: “Se o senhor (Trump) é por nós, quem será contra nós?”
Da rede venezuelana ao dirigente que conhecia os dois lados da ponte
Nossa investigação sobre a presença adventista na Venezuela chegou a uma nova etapa. Na reportagem “Da Gran Sabana ao Palácio”, reunimos documentos e registros sobre uma presença denominacional construída durante décadas: comunidades indígenas, escolas, comunicação, aviação missionária, assistência humanitária e interlocução com autoridades. Examinamos também os contatos de dirigentes com representantes americanos e o financiamento governamental de projetos da ADRA. O que apareceu foi uma capacidade de permanência e circulação que ultrapassava a imagem de uma igreja limitada aos cultos e à evangelização. A denominação conhecia territórios, mantinha relações locais e dispunha de canais internacionais que continuavam funcionando durante a deterioração das relações entre Caracas e Washington.
Na reportagem seguinte, “Agentes da IASD na captura de Maduro”, aprofundamos a investigação sobre a World Service Organization, sua ligação com a capelania denominacional e seus mecanismos de contato com adventistas inseridos nas Forças Armadas, na polícia e no serviço público. Acrescentamos o Cuerpo de Servicio Nacional venezuelano, cujo manual de 2025 apresenta organização hierárquica e respaldo da WSO. A questão passou a alcançar as pessoas que atravessavam esses ambientes: quem reunia vínculos religiosos, experiência militar, conhecimento da Venezuela e acesso à administração internacional adventista? Esse é o caminho que agora nos conduz a Mario E. Ceballos.
O próximo capítulo tem nome, carreira militar e responsabilidade denominacional
Ceballos concentra, numa mesma trajetória, os elementos que até aqui examinávamos por estruturas e instituições. Venezuelano de nascimento e formação familiar adventista, passou 32 anos ligado às Forças Armadas dos Estados Unidos, entre serviço ativo e reserva, alcançou a patente de Commander e construiu simultaneamente uma carreira pastoral e administrativa na denominação. Posteriormente, chegou à direção mundial da capelania e das relações militares adventistas. O interesse dessa biografia está na simultaneidade: durante parte de sua trajetória, o pastor e o oficial americano eram a mesma pessoa, sujeitos a responsabilidades provenientes de organizações diferentes. Compreender essa sobreposição é indispensável para avaliar o alcance de sua atuação.
O episódio de sua convocação involuntária para retornar à ativa, em 2011, torna essa relação especialmente concreta. Enquanto trabalhava na estrutura adventista de capelania e aguardava a aposentadoria militar, Ceballos recebeu uma determinação da Marinha americana para voltar ao serviço. A experiência revela o que desaparece quando a palavra “capelão” é apresentada aos membros apenas como sinônimo de assistência espiritual: havia também um oficial submetido a obrigações militares efetivas. Sua posição religiosa coexistia com uma cadeia de comando capaz de interferir em sua vida profissional. É essa realidade institucional, descrita em sua própria trajetória, que o próximo capítulo colocará diante do leitor.
A Venezuela reaparece no percurso do antigo Commander
A ligação com o país de origem volta ao centro da investigação quando encontramos Ceballos associado à revisão técnica do manual venezuelano do Cuerpo de Servicio Nacional, em 2025. A sequência merece ser acompanhada inteira: o venezuelano que serviu durante décadas nas Forças Armadas americanas chegou à direção mundial de uma estrutura adventista de relações militares e depois aparece ligado ao desenvolvimento técnico de um programa organizado em seu próprio país. Ivan Omaña, também venezuelano, integra essa continuidade administrativa e sucede Ceballos na direção mundial. Assim, a análise deixa de depender apenas da existência de departamentos: passa a acompanhar dirigentes, responsabilidades, sucessões e vínculos identificáveis.
A participação dessas estruturas na circulação de informações relacionadas à operação contra Maduro permanece como objeto da investigação. O avanço deste capítulo está em tornar mais preciso onde procurar: na trajetória de quem conhecia o adventismo venezuelano, servira ao aparato militar americano e assumira funções internacionais capazes de conectar os dois ambientes. O exame de Ceballos permite perguntar quais eram seus interlocutores na Venezuela, quem participava dos treinamentos, quais autoridades denominacionais acompanhavam o programa e como funcionavam suas comunicações. São perguntas que nascem de cargos e relações concretos e que exigem acompanhar a organização para além de suas apresentações públicas.
As reportagens anteriores mostraram a presença territorial, os contatos governamentais e a estrutura internacional. O próximo capítulo acompanha o homem que reuniu essas experiências em sua própria carreira. Mario E. Ceballos importa porque sua biografia permite observar, numa mesma pessoa, a continuidade entre pastorado, serviço militar americano e direção denominacional. É por essa porta que avançaremos: do organograma aos dirigentes, dos dirigentes aos interlocutores venezuelanos e destes às atividades efetivamente desenvolvidas dentro do país.

MÁRIO CEBALLOS: Ele resolveu voltar e ser pastor na Venezuela depois de 32 anos no Exército americano
Conheça a história do venezuelano que depois de 32 anos de serviço militar aos EUA, chegou a Commander americano e assumiu o comando mundial das relações militares adventistas
Mario E. Ceballos reúne numa única biografia quase todas as linhas que estamos seguindo nesta investigação: Venezuela, Igreja Adventista, U.S. Army, U.S. Navy, capelania militar, Pentágono, World Service Organization, Medical Cadet Corps e, depois de uma extraordinária volta de mais de três décadas pelo aparato militar americano, novamente Venezuela.
Não estamos falando de um pastor que ocasionalmente visitou quartéis nem de um religioso que prestou durante alguns anos assistência espiritual a soldados. Estamos falando de um venezuelano, nascido e criado na Venezuela, que ingressou nas Forças Armadas dos Estados Unidos, permaneceu ligado a elas durante 32 anos, passou quatro anos no U.S. Army e outros 28 anos como capelão da Reserva da Marinha, alcançou a patente de Commander e, ao mesmo tempo em que construía essa longa carreira militar americana, desenvolveu uma segunda trajetória dentro da Igreja Adventista que acabaria levando-o precisamente ao comando mundial da estrutura denominacional responsável pelas relações militares.
A própria World Service Organization resume essa carreira numa frase que dispensa qualquer tentativa de diminuir sua importância: “As a member of the United States Armed Forces, active and reserve, for 32 years, Mario achieved the rank of Commander.” “Como membro das Forças Armadas dos Estados Unidos, na ativa e na reserva, durante 32 anos, Mario alcançou a patente de Comandante (Commander).”
A documentação dos Adventist Chaplaincy Ministries completa a cronologia: foram quatro anos no Exército e 28 anos como capelão da Reserva da Marinha. Portanto, quando falamos de Mario Ceballos, não estamos diante de alguém que teve uma experiência militar na juventude e depois mudou de vida. Trinta e dois anos constituem uma carreira. São décadas de disciplina, hierarquia, treinamento, relações profissionais, conhecimento institucional e pertencimento às Forças Armadas dos Estados Unidos.
E existe um detalhe ainda mais revelador: foi enquanto estava no próprio U.S. Army que Ceballos decidiu preparar-se para ser pastor e capelão militar. A passagem para o ministério religioso, portanto, não representou uma ruptura com o universo militar. Ao contrário, permitiu que as duas trajetórias começassem a caminhar juntas. O militar tornou-se pastor sem deixar de ser militar; o pastor construiu sua carreira denominacional enquanto continuava servindo durante décadas na Reserva da Marinha. Durante uma parte enorme de sua vida adulta, pastor adventista e oficial americano não foram duas personagens sucessivas. Eram o mesmo homem.
CAPELANIA: O DISFARCE PERFEITO
É aqui que encontramos a chave para compreender a personagem. A capelania tornou-se o disfarce perfeito para que o militar continuasse sendo militar sem precisar aparecer primeiro como militar. Não estamos falando de esconder uma farda debaixo de uma batina, mas de algo institucionalmente muito mais sofisticado: duas identidades verdadeiras funcionando simultaneamente.
Dentro da Igreja, Ceballos podia apresentar-se como pastor, teólogo, conselheiro espiritual, professor, capelão e administrador denominacional; dentro das Forças Armadas dos Estados Unidos, continuava sendo integrante do sistema militar americano e avançaria até a patente de Commander da U.S. Navy Reserve. A força dessa posição estava justamente no fato de que nenhuma das duas identidades precisava ser falsa para que uma funcionasse como cobertura perfeita para a outra.
A capelania é apresentada ao público religioso como extensão pastoral: o ministro acompanha soldados, aconselha famílias, atende feridos, conforta pessoas em crise e garante assistência espiritual. Mas institucionalmente o capelão militar está dentro do ambiente das Forças Armadas. Conhece sua linguagem, circula por suas instalações, convive com sua hierarquia e participa de sua estrutura profissional.
No caso de Ceballos, essa relação não durou alguns meses nem terminou quando começou seu pastorado. Foram 28 anos como capelão da Reserva da Marinha, precedidos por quatro anos no Army. Quando finalmente chegou à administração mundial adventista, carregava consigo mais do que formação teológica: carregava décadas de experiência dentro do sistema militar americano.
E há um episódio autobiográfico que mostra concretamente que a palavra “reserva” também não deve ser confundida com rompimento do vínculo militar. Em 2011, quando já estava profundamente envolvido no planejamento dos Adventist Chaplaincy Ministries e aguardava sua aposentadoria militar, Ceballos recebeu uma carta oficial da Marinha. Era uma “involuntary recall”: uma convocação involuntária para retornar ao serviço ativo por pelo menos 365 dias.
Ceballos conta que sua primeira reação foi pensar em recusar, depois veio a perplexidade e finalmente a constatação de que a Marinha exigia seus serviços. Pediu que seu requerimento de aposentadoria fosse considerado. A resposta chegou rapidamente: foi ordenado a retornar à ativa e sua aposentadoria foi adiada.
Esse episódio é extraordinariamente importante para compreendermos o significado real de sua dupla carreira. O dirigente adventista podia estar trabalhando no planejamento mundial da capelania, podia desejar aposentar-se e podia considerar encerrada aquela fase de sua vida; enquanto permanecesse submetido ao vínculo militar correspondente, porém, uma ordem oficial podia chamá-lo novamente. E chamou. A estrutura religiosa não havia apagado a estrutura militar. O pastor não havia dissolvido o oficial. Quando a Marinha determinou seu retorno, o Commander voltou à ativa.
ANTES DO COMMANDER, O VENEZUELANO
Mas a história de Mario E. Ceballos não começa nos Estados Unidos. Começa na Venezuela. Ceballos é venezuelano, nasceu e foi criado naquele país e pertence a uma família profundamente inserida na construção institucional do adventismo venezuelano. Seu pai, Antonio Ceballos Araujo, trabalhava anteriormente na educação adventista colombiana quando foi chamado para participar da implantação do Colegio Secundario Adventista de Venezuela, o COLSEVE. Antonio tornou-se seu primeiro diretor, enquanto Teresa de Ceballos também participou da administração da escola. A importância do pai permaneceu registrada na memória institucional venezuelana, inclusive no nome do Complejo Cultural Dr. Antonio Ceballos Araujo.
Mario, portanto, não conhecia a Venezuela como conheceria posteriormente outros territórios alcançados por sua atividade internacional. Era sua terra, sua cultura e o ambiente de sua formação. Conhecia também a Igreja venezuelana por dentro, porque crescera numa família diretamente vinculada à construção de suas instituições. Esse dado ganha enorme importância quando seguimos sua trajetória posterior: o venezuelano deixa aquele ambiente, passa por Porto Rico e Estados Unidos, entra nas Forças Armadas americanas e é justamente durante essa experiência militar que decide preparar-se para o pastorado e para a capelania.
A partir daí, as duas carreiras avançam juntas. Ceballos trabalha como pastor, dirigente de jovens, administrador denominacional, profissional de assistência espiritual e professor, enquanto permanece ligado à estrutura militar americana. A pergunta que nos interessa, portanto, não é simplesmente por que um soldado decidiu tornar-se pastor. É perceber como essa combinação produziu um homem extraordinariamente preparado para viver na fronteira entre os dois mundos.
Ceballos conhecia o adventismo venezuelano porque nascera dentro dele; conhecia a organização denominacional porque sua família ajudara a construí-la; conhecia o sistema militar americano porque passaria 32 anos dentro dele; e conhecia a capelania porque ela se tornara justamente o território onde essas duas experiências podiam coexistir.
O PASTOR ERA COMMANDER; O COMMANDER ERA PASTOR
Essa sobreposição não terminou quando Ceballos começou a ascender na administração denominacional. Em 2008, quando foi eleito diretor associado dos Adventist Chaplaincy Ministries da Associação Geral, a Andrews University o apresentava com duas identificações colocadas praticamente lado a lado: Associate Director, Adventist Chaplaincy Ministries e Commander, United States Navy Reserve. Não precisamos escolher qual delas era o verdadeiro Mario Ceballos. As duas eram. É exatamente essa simultaneidade que torna sua trajetória tão importante para nossa investigação.
Durante anos, portanto, a própria administração mundial adventista teve em sua estrutura de capelania um oficial superior da Reserva da Marinha americana. Ceballos não precisava aprender em livros como funcionavam as Forças Armadas nem depender exclusivamente de intermediários para compreender o ambiente militar. Conhecia-o por dentro. E quando discutia políticas de capelania, necessidades de militares adventistas, reconhecimento profissional, treinamento e relações institucionais, carregava consigo uma experiência acumulada durante décadas dentro daquele universo.
É aqui também que precisamos abandonar a ideia ingênua de que “capelania” significa simplesmente um pastor colocado ao lado dos militares. No caso de Ceballos, a pergunta precisa ser invertida: quanto do militar continuava existindo dentro do pastor? A ordenação religiosa não cancelou sua carreira na Marinha. O púlpito não eliminou sua patente. Sua ascensão denominacional não rompeu o vínculo militar. E o episódio da convocação involuntária de 2011 demonstra de maneira quase didática que, quando as duas estruturas exigiam coisas diferentes, a cadeia militar continuava possuindo consequências concretas.
DO COMMANDER AO ESCRITÓRIO DE RELAÇÕES MILITARES
E então acontece aquilo que transforma uma biografia incomum numa questão institucional. Ceballos não termina sua trajetória denominacional dirigindo um departamento qualquer. Ele chega precisamente à estrutura adventista responsável pelas relações militares. A antiga National Service Organization foi descrita pela própria literatura adventista como “liaison between the Church and the Pentagon”. A palavra liaison significa ligação, elo, interface institucional. O próprio relato histórico explica o que isso significava: a organização tratava de problemas envolvendo adventistas nas Forças Armadas, mantinha relacionamento com estruturas militares e coordenava o treinamento do Medical Cadet Corps.
Posteriormente, a documentação denominacional empregaria outra expressão igualmente clara: “official military relations office”, o escritório oficial de relações militares da Igreja Adventista. Não estamos, portanto, atribuindo retrospectivamente caráter militar a um departamento puramente religioso. A própria organização denominacional descreve sua função em termos de relações militares. E é precisamente à direção mundial dessa estrutura que chega Mario E. Ceballos, depois de três décadas nas Forças Armadas dos Estados Unidos.
A antiga NSO havia sido a ligação entre Igreja e Pentágono. Décadas depois, encontramos na direção de sua estrutura sucessora um homem que conhecia pessoalmente os dois lados da ponte: de um lado, pastor adventista e administrador mundial da denominação; do outro, veterano de 32 anos das Forças Armadas americanas e Commander da Reserva da Marinha. A liaison estava agora personificada na biografia de seu próprio dirigente.
A CAPELANIA ABRIA PORTAS QUE A FARDA NÃO ABRIA
É exatamente por isso que chamamos a capelania de disfarce perfeito. Um oficial americano ostensivamente apresentado como oficial americano encontra imediatamente os limites políticos, diplomáticos e culturais associados à sua condição. Um pastor adventista, ao contrário, chega como religioso. Pode entrar numa igreja, conversar com dirigentes denominacionais, participar de congressos, visitar instituições, ensinar, aconselhar, organizar treinamentos e relacionar-se com autoridades sob a legitimidade pastoral. Ceballos reunia as duas experiências. Onde o militar estrangeiro seria percebido primeiro pela farda, o capelão podia ser recebido primeiro pela Bíblia; onde um pastor comum seria estranho ao sistema militar, Ceballos conhecia seus códigos porque passara décadas dentro dele.
Essa é a sofisticação do disfarce: ele não precisava ser falso. A cobertura mais eficiente é justamente aquela composta de elementos verdadeiros. Ceballos era realmente pastor. Era realmente capelão. Era realmente administrador adventista. E era também realmente oficial da Reserva da Marinha dos Estados Unidos. A mesma pessoa podia atravessar ambientes religiosos e militares sem precisar inventar nenhuma dessas identidades. O que precisamos investigar não é se alguma delas existia, porque todas estão documentadas, mas o que essa combinação permitia fazer institucionalmente.
2014: O COMMANDER CHEGA AO TOPO
Em 2014, quando a estrutura dos Adventist Chaplaincy Ministries foi reorganizada, Mario Ceballos chegou à direção mundial. A história oficial da capelania adventista registra que ele se tornou diretor de Adventist Chaplaincy Ministries para a Associação Geral enquanto a estrutura norte-americana passou a possuir direção própria. Posteriormente, encontramos Ceballos dirigindo conjuntamente Adventist Chaplaincy Ministries e World Service Organization, com responsabilidades que incluíam desenvolvimento de políticas, administração, endorsement, certificação e treinamento de capelães para a Igreja mundial.
A internacionalização também merece atenção. Sob essa estrutura, treinamento e educação em capelania expandiram-se por diferentes regiões do mundo. A própria Divisão Interamericana reconheceria posteriormente o papel de Ceballos na expansão mundial da educação em capelania, particularmente naquele território. E Interamérica não era uma abstração administrativa para ele. Era a divisão que abrangia justamente sua Venezuela natal e o universo denominacional onde sua própria família construíra parte de sua história.
2018: A VOLTA DO MEDICAL CADET CORPS
Em 2018, outra peça histórica reaparece. Dirigentes adventistas reuniram-se em Porto Rico para discutir a revitalização mundial do Medical Cadet Corps. Ali encontramos Mario Ceballos, Hiram Ruiz, Ivan Omaña e Darold Bigger, contra-almirante aposentado da United States Navy. O MCC, criado originalmente em ambiente de preparação para o serviço militar, voltava a ser organizado internacionalmente sob nova linguagem, incorporando resposta a desastres, primeiros socorros, busca e salvamento, logística e preparação para emergências, mas preservando estrutura, disciplina, cadeia de comando e elementos herdados de sua formação militar.
A presença de Ceballos naquele processo não era decorativa. Em 2022, o próprio Yearbook adventista mundial o registrava simultaneamente como Director/Endorser de Adventist Chaplaincy Ministries e World Service Organization, presidente do Adventist Chaplaincy Institute e World Commander do Medical Cadet Corps. Imediatamente abaixo dele aparecia Ivan H. Omaña como Associate Director/Endorser, vice-presidente do instituto e Deputy Commander do Medical Cadet Corps. A terminologia de comando não era criação de críticos externos; fazia parte do próprio organograma denominacional.

A farda no ambiente religioso comunica hierarquia e reivindica autoridade
Divisas, insígnias, patentes e condecorações possuem uma função: identificar pertencimento, posição hierárquica e autoridade militar. Sua exibição no púlpito, em cerimônias religiosas ou na representação denominacional ultrapassa a preferência pessoal de quem as veste. Esses símbolos comunicam algo à comunidade e recebem significado institucional quando a Igreja lhes oferece espaço e destaque. Em nossa avaliação, são desnecessários e incompatíveis com uma comunidade cuja autoridade espiritual deve decorrer do serviço, da fidelidade às Escrituras e do exemplo, sem reproduzir a ascendência própria das cadeias militares.
Quando um dirigente aposentado continua apresentando-se de uniforme em atividades religiosas, mantém publicamente sua identificação com a instituição militar e mobiliza o prestígio de sua carreira diante dos demais. A aposentadoria pode encerrar determinadas obrigações profissionais; a escolha de conservar seus símbolos preserva uma representação de pertencimento e status. É nessa conduta que identificamos uma manifestação de fidelidade à identidade militar. O uniforme, isoladamente, não estabelece uma subordinação operacional atual, mas sua exibição torna visível a decisão de continuar representando aquela autoridade no espaço religioso.
Nossa crítica alcança também a organização que acolhe e valoriza essa apresentação. Quando a patente acompanha o dirigente até o púlpito, a autoridade militar passa a compor sua imagem perante os fiéis. A ostentação possui um efeito concreto: distingue, confere prestígio e sugere ascendência. A Igreja precisa responder por incorporar esses sinais à sua própria hierarquia pública. Se afirma que a função militar pertence ao passado, deve explicar por que seus símbolos continuam sendo utilizados para dar peso à atuação religiosa no presente, diante do princípio de Cristo: “entre vós não será assim”.
OUTRO VENEZUELANO ESPERAVA NA LINHA DE SUCESSÃO
Ivan H. Omaña também é venezuelano. Pertence igualmente a uma família profundamente ligada à história denominacional daquele país, estudou nos Estados Unidos, retornou à Venezuela e ali exerceu o ministério pastoral antes de construir sua trajetória na capelania. Durante os últimos anos da administração Ceballos, Omaña aparece imediatamente abaixo dele tanto em ACM/WSO quanto no Medical Cadet Corps. Em 2022, quando Ceballos deixa a direção mundial, é justamente Omaña quem assume.
Temos, portanto, uma sucessão que merece ser observada sem fragmentação: Ceballos, venezuelano, veterano de 32 anos das Forças Armadas americanas e Commander da Reserva da Marinha → Omaña, venezuelano, seu associado e Deputy Commander → direção mundial da mesma estrutura. E Ceballos não desaparece depois da sucessão. Continua ligado ao Medical Cadet Corps como MCC Executive Officer, apoiando a direção de Omaña.
E ENTÃO CEBALLOS VOLTA À VENEZUELA
É nesse ponto que a trajetória deixa de formar apenas uma linha e fecha um círculo. O país que reaparece no final da história é exatamente aquele onde ela começou: Venezuela. Em 2025, o nome de Mario Ceballos aparece associado à revisão técnica do manual venezuelano do Cuerpo de Servicio Nacional, estrutura que apresenta hierarquia, rangos, cadeia de comando, direção operacional, uniformes, distintivos e organização territorial, sob respaldo da World Service Organization.
No ano seguinte, Ceballos fala publicamente sobre o desenvolvimento internacional do programa e menciona expressamente o trabalho com a Venezuela. Sua explicação relaciona a adaptação do programa às características particulares de cada país e à maneira como cada Estado administra suas próprias forças armadas. Isso é particularmente importante porque já não estamos falando apenas do venezuelano que dirigiu de longe um departamento mundial. Estamos falando do antigo Commander, veterano de 32 anos das Forças Armadas americanas e ex-diretor mundial das relações militares adventistas, relacionado tecnicamente ao desenvolvimento de uma estrutura de cadetes em seu próprio país de origem.
ANTES DA PRISÃO DE MADURO
A cronologia é indispensável. O manual venezuelano é de 2025. A atuação de Ceballos relacionada à Venezuela aparece antes do desfecho político que posteriormente colocaria Nicolás Maduro sob custódia. Isso significa que não estamos construindo uma história retrospectiva na qual, depois do acontecimento, procuramos qualquer personagem venezuelano disponível para encaixá-lo. A estrutura existia antes. O relacionamento existia antes. O nome de Ceballos estava associado a ela antes.
Isso não significa que precisemos inventar uma ordem secreta que ainda não encontramos. Nossa denúncia é mais perturbadora justamente porque parte de uma arquitetura que está à vista: um venezuelano que passou 32 anos nas Forças Armadas dos Estados Unidos, alcançou a patente de Commander, dirigiu mundialmente o escritório adventista de relações militares, comandou mundialmente o Medical Cadet Corps e posteriormente aparece relacionado ao desenvolvimento técnico da estrutura venezuelana. A pergunta sobre o que essa rede fez durante a crise venezuelana nasce dessa sequência.
DA VENEZUELA AO PENTÁGONO — E DE VOLTA À VENEZUELA
Agora podemos enxergar a trajetória inteira sem cortá-la em pedaços biográficos aparentemente independentes. Mario E. Ceballos nasce e cresce na Venezuela dentro de uma família profundamente vinculada ao adventismo institucional. Vai para os Estados Unidos, entra no U.S. Army e, dentro daquele ambiente, decide preparar-se para ser pastor e capelão militar. Passa quatro anos no Army e 28 anos ligado à Navy, alcança a patente de Commander, desenvolve simultaneamente carreira pastoral e administrativa na IASD e chega finalmente à direção mundial da estrutura cuja história inclui a função de liaison between the Church and the Pentagon. Depois participa da revitalização mundial do Medical Cadet Corps, torna-se seu World Commander, entrega posteriormente a direção a outro venezuelano e permanece na estrutura. Finalmente, seu nome reaparece na Venezuela.
O percurso pode ser escrito numa única linha porque é justamente a continuidade que nos interessa: Venezuela → U.S. Army → pastorado/capelania → U.S. Navy → Commander → ACM/WSO → relações militares → Medical Cadet Corps → Venezuela. Não são necessariamente mundos separados ligados artificialmente por nossa investigação. Em Ceballos, eles aparecem dentro da mesma biografia.
POR ISSO, SUSPEITO Nº 1
Chegamos, enfim, a um ponto diferente daquele de onde partimos. Nossa descoberta não é simplesmente que Mario E. Ceballos era venezuelano, nem que serviu durante 32 anos nas Forças Armadas dos Estados Unidos, nem mesmo que alcançou a patente de Commander da Reserva da Marinha. Tudo isso é importante, mas ainda são dados biográficos. O que transforma Ceballos em nosso SUSPEITO Nº 1 é aquilo que sua trajetória revela sobre a própria estrutura: militar e pastor não eram identidades que se anulavam; eram identidades que se completavam. E foi exatamente essa combinação que o colocou numa posição excepcional para atravessar, durante décadas, os limites entre Igreja, Forças Armadas, capelania, governos e estruturas internacionais adventistas.
A convocação involuntária de 2011 destrói qualquer leitura ingênua dessa duplicidade. Quando Ceballos já estava profundamente inserido na administração adventista e pretendia encerrar sua carreira militar, a Marinha dos Estados Unidos o chamou novamente à ativa. Ele pediu que sua aposentadoria fosse mantida. Não foi. Recebeu ordem para voltar. Esse episódio nos mostra concretamente aquilo que a palavra “capelão” pode esconder quando é lida apenas pela ótica religiosa: por trás do pastor existia também um oficial sujeito a uma cadeia militar real, capaz de convocá-lo novamente para o serviço. A Bíblia em suas mãos não havia apagado essa cadeia de comando.
É por isso que, para nós, a capelania aparece agora sob outra luz. Ela oferecia uma posição extraordinária: permitia permanecer dentro do sistema militar e, simultaneamente, adquirir a legitimidade religiosa necessária para circular dentro da Igreja. O oficial não precisava apresentar-se primeiro como oficial. Podia chegar como pastor, capelão, conselheiro, professor, dirigente denominacional ou especialista em assistência espiritual. E Ceballos não desempenhou essas funções depois de abandonar a vida militar. Desempenhou-as enquanto sua carreira nas Forças Armadas continuava existindo.
A PERGUNTA AGORA É OUTRA
Por isso, depois de tudo o que encontramos, já não nos interessa perguntar simplesmente se a Igreja Adventista mantinha relações com militares americanos. Mantinha. A própria história da NSO fala em liaison between the Church and the Pentagon. A documentação administrativa denomina WSO/NSO de escritório oficial de relações militares. Também não precisamos perguntar se militares americanos chegaram a posições relevantes dentro dessa estrutura religiosa. Chegaram. Ceballos é o exemplo que estamos examinando: 32 anos nas Forças Armadas, Commander da Reserva da Marinha e, depois, diretor mundial da estrutura adventista de relações militares.
Também avançamos além da pergunta sobre a existência de uma estrutura de cadetes na Venezuela. Encontramos seu manual, sua hierarquia, sua cadeia de comando, seu respaldo institucional e o nome de Ceballos associado à revisão técnica. Depois encontramos o próprio Ceballos falando de seu trabalho com a Venezuela. Portanto, a pergunta que resta já não é “existia?”. A pergunta é: para que essa estrutura foi efetivamente utilizada e quem estava dentro dela?
É aí que nossa investigação precisa entrar agora. Precisamos abandonar por algum tempo os nomes que aparecem no topo dos organogramas e descer pela cadeia. Quem eram os comandantes venezuelanos? Quem eram os instrutores? Quem integrava as unidades locais? Quantos eram militares da ativa ou da reserva, policiais, funcionários públicos, profissionais de saúde, servidores de áreas estratégicas ou pessoas com acesso a instalações e informações sensíveis? Quem recebia treinamento? Quem se comunicava com a WSO? Quem respondia a Ceballos e Omaña? Que tipo de informação circulava entre Venezuela, Divisão Interamericana e administração mundial?
O DISFARCE PERFEITO NÃO É UMA ROUPA
Talvez esta seja a descoberta mais perturbadora de todas. Quando começamos a falar em disfarce, poderíamos imaginar alguma coisa clandestina: identidade falsa, operação secreta, agente escondido. A estrutura que encontramos é muito mais sofisticada porque dispensa tudo isso. O disfarce perfeito é uma função legítima. O capelão é realmente capelão. O pastor é realmente pastor. O oficial é realmente oficial. A organização religiosa é realmente uma organização religiosa. E justamente por serem verdadeiras, essas identidades podem coexistir sem despertar a suspeita que despertaria uma identidade falsa.
Ceballos personifica essa ambiguidade de maneira quase perfeita. Não precisava esconder que era pastor porque era pastor. Não precisava inventar uma carreira militar porque tinha 32 anos de serviço. Não precisava fabricar ligação com a Venezuela porque nasceu e foi criado ali. Não precisava inventar autoridade adventista porque chegou à direção mundial. Não precisava criar uma estrutura militar-adventista imaginária porque a WSO e o Medical Cadet Corps existiam oficialmente. O que precisamos compreender agora é o que se torna possível quando todas essas identidades legítimas se encontram na mesma pessoa e na mesma rede institucional.
EIS O VERDADEIRO PROBLEMA
É nesse ponto que Mario E. Ceballos deixa de ser apenas o personagem central de uma biografia extraordinária e se transforma numa chave para compreendermos algo muito maior. Se olhássemos apenas para o pastor, perderíamos o Commander. Se olhássemos apenas para o Commander, perderíamos o venezuelano. Se olhássemos apenas para o venezuelano, perderíamos o diretor mundial da WSO. Se olhássemos apenas para a WSO, perderíamos sua história como interface institucional com o universo militar. E, se olhássemos para o Medical Cadet Corps apenas como um programa assistencial, perderíamos a cadeia de comando, os rangos, o treinamento e a estrutura internacional que agora encontramos chegando documentalmente à Venezuela. O que fizemos foi colocar todas essas fotografias sobre a mesma mesa e perceber que elas pertencem ao mesmo álbum.
É isso que transforma a pergunta. Já não estamos tentando descobrir apenas quem foi Mario E. Ceballos. Essa parte da história está suficientemente desenhada para que possamos avançar. O que precisamos descobrir agora é quem estava conectado a Ceballos dentro da Venezuela. O manual de 2025 nos oferece uma estrutura. A WSO nos oferece uma cadeia internacional. O MCC nos oferece uma hierarquia. Ceballos nos oferece a ligação técnica. Omaña nos oferece a continuidade no comando mundial. A Divisão Interamericana nos oferece a instância regional. Falta agora abrir a estrutura venezuelana por dentro e colocar nomes, cargos, profissões, instituições e relações sobre esse organograma.
Porque é aí que a investigação pode mudar de dimensão. Se entre os integrantes, comandantes, instrutores e dirigentes venezuelanos dessa estrutura encontrarmos militares da ativa ou da reserva, policiais, servidores de órgãos estratégicos, profissionais de saúde vinculados ao Estado, funcionários de infraestrutura, telecomunicações, aeroportos, fronteiras, segurança ou pessoas posicionadas dentro do aparelho chavista, já não estaremos olhando apenas para um programa religioso de cadetes. Estaremos diante de uma rede humana com capacidade de atravessar simultaneamente Igreja, sociedade civil e estruturas do Estado.
E nós já sabemos que esse tipo de trânsito institucional não é uma abstração no caso venezuelano. Nossa investigação anterior encontrou adventistas inseridos no chavismo aparecendo como fontes de informação que chegava à liderança denominacional, enquanto dirigentes adventistas mantinham interlocução com representantes americanos. Agora acrescentamos outra camada que antes não estava suficientemente visível: a estrutura mundial de relações militares da própria Igreja e seu braço de formação de cadetes também alcançavam a Venezuela.
A QUESTÃO JÁ NÃO É SE A REDE EXISTIA
Essa mudança é fundamental. Durante boa parte de nossa investigação, trabalhamos tentando descobrir se existia alguma estrutura capaz de conectar Igreja Adventista, militares, Estados Unidos e Venezuela. Agora sabemos que estruturas desse tipo existiam oficialmente. A NSO foi descrita historicamente como liaison between the Church and the Pentagon; WSO/NSO aparece na documentação denominacional como escritório oficial de relações militares; o Medical Cadet Corps possui estrutura internacional de comando; Ceballos passou 32 anos nas Forças Armadas americanas antes de chegar à direção mundial desse sistema; outro venezuelano, Ivan Omaña, tornou-se seu sucessor; e a Venezuela aparece com sua própria estrutura de cadetes, respaldada pela WSO e tecnicamente relacionada a Ceballos.
Portanto, a pergunta já não é se havia uma ponte. A ponte estava construída. O que precisamos descobrir é quem atravessava essa ponte, em que direção circulavam pessoas e informações e até onde chegavam essas relações dentro do Estado venezuelano.
O DISFARCE PERFEITO ERA A NORMALIDADE
E talvez seja essa a conclusão mais inquietante desta etapa. O disfarce perfeito não precisava de documentos falsos, nomes clandestinos ou encontros numa sala escura. Podia funcionar em plena luz do dia porque cada uma das peças possuía uma explicação perfeitamente aceitável quando observada isoladamente. O pastor estava evangelizando. O capelão estava oferecendo assistência espiritual. A ADRA estava prestando ajuda humanitária. O cadete estava aprendendo primeiros socorros. O dirigente denominacional estava visitando autoridades. O militar adventista estava exercendo sua religião. A WSO estava cuidando de membros das Forças Armadas. Cada fotografia separada parecia normal.
O problema aparece quando colocamos as fotografias juntas.
Então vemos o venezuelano que passa 32 anos nas Forças Armadas dos Estados Unidos; o Commander que simultaneamente constrói carreira pastoral; o dirigente adventista que chega ao escritório mundial de relações militares; o antigo liaison institucional com o Pentágono; a revitalização do Medical Cadet Corps; outro venezuelano preparado imediatamente abaixo dele e posteriormente colocado no comando; a estrutura de cadetes surgindo documentalmente na Venezuela; e Ceballos reaparecendo como participante técnico desse desenvolvimento.
Separadas, são histórias administrativas. Juntas, formam uma arquitetura.
AGORA PRECISAMOS DESCOBRIR QUEM ESTAVA NA VENEZUELA
É aqui que termina esta etapa e começa a próxima. Não precisamos continuar girando em torno da biografia de Ceballos. Ela cumpriu sua função: revelou onde está a porta. Agora precisamos atravessá-la. O próximo trabalho é reconstruir nominalmente a cadeia venezuelana do Cuerpo de Servicio Nacional/Medical Cadet Corps: comando nacional, comandos regionais, instrutores, capelães, dirigentes denominacionais, responsáveis por treinamento, participantes identificáveis e suas ocupações fora da Igreja.
Precisamos cruzar esses nomes com Forças Armadas, polícia, órgãos públicos, sistema de saúde, universidades, telecomunicações, aeroportos, fronteiras, proteção civil e demais áreas estratégicas. Precisamos descobrir quem participou dos treinamentos de 2024, 2025 e 2026; quem viajou; quem recebeu instrutores estrangeiros; quem conversou com Ceballos, Omaña e representantes da Divisão Interamericana; quem aparece em fotografias, manuais, atas, congressos e redes sociais; e quais dessas pessoas estavam posicionadas dentro do Estado venezuelano quando a crise entrou em sua fase decisiva.
Porque, se existe uma resposta para a pergunta que nos trouxe até aqui — qual foi o papel dessa estrutura adventista no ambiente que antecedeu a queda e a prisão de Nicolás Maduro? — ela provavelmente não estará escrita numa placa na porta da sede mundial da Igreja. Estará espalhada pelas biografias, pelos cargos, pelos treinamentos, pelos contatos e pelas relações das pessoas que formavam essa rede dentro da Venezuela.
Mario E. Ceballos nos mostrou onde procurar.
Agora vamos procurar quem estava esperando por ele do outro lado.





