
Da colaboração com o nazismo à pressão americana pela desnazificação; de W. B. Ochs e Everett Dick aos 104 cadetes treinados em Cuba; do Projeto Whitecoat à organização militar internacional dirigida por Omaña, Harewood e Ceballos. Documentos revelam a trajetória de uma denominação que ampliou continuamente suas relações com os poderes militares e políticos.
UMA IGREJA, DUAS FACES E UMA LONGA HISTÓRIA DE RELAÇÕES MILITARES
Durante décadas, os membros da Igreja Adventista do Sétimo Dia aprenderam a identificar sua denominação como uma comunidade religiosa dedicada à pregação do Evangelho, à guarda do sábado, à educação cristã e à assistência aos necessitados. Mas existe outra história, igualmente institucional, que raramente ocupa o centro das narrativas apresentadas nas congregações. Trata-se do desenvolvimento de uma estrutura internacional de relacionamento com as Forças Armadas, organizada por dirigentes da própria Associação Geral, integrada a programas de treinamento de jovens, reconhecida por autoridades militares e posteriormente vinculada a experiências de cooperação com o Exército dos Estados Unidos. Essa estrutura não surgiu casualmente, nem pode ser reduzida à presença ocasional de pastores servindo como capelães. Foi administrada, regulamentada, financiada e internacionalizada por uma organização religiosa que desenvolveu departamentos especializados, comissões de serviço, hierarquias de treinamento e relações permanentes com instituições militares de diferentes países.
Nossa investigação denomina PAPERCLIP ADVENTISTA a trajetória histórica que conecta três processos cuja aproximação merece exame rigoroso: a colaboração de importantes dirigentes adventistas alemães com o regime de Adolf Hitler, as pressões do governo militar americano para promover a desnazificação da administração denominacional depois de 1945 e o aprofundamento da cooperação adventista com estruturas militares durante a Guerra Fria. A denominação editorial remete à Operação Paperclip, pela qual os Estados Unidos aproveitaram especialistas alemães anteriormente associados ao regime nazista, mas abrange também uma modalidade diferente de aproveitamento estratégico, exemplificada pela Operação RUSTY, na qual autoridades americanas passaram a utilizar redes humanas e conhecimentos de antigos integrantes da inteligência militar alemã.
A comparação não depende de imaginar que a Igreja Adventista tenha sido criada pelo Pentágono ou que seus primeiros programas militares tenham surgido depois da derrota de Hitler. A documentação demonstra exatamente o contrário: a denominação já desenvolvia relações com o serviço militar antes da Segunda Guerra Mundial. A questão histórica decisiva é como esses programas adquiriram novo alcance internacional no período em que a administração adventista enfrentava cobranças por seu passado nazista e procurava reorganizar sua posição no mundo dominado pela disputa entre Washington e Moscou.
É precisamente nesse cruzamento que aparecem nomes que merecem ser acompanhados com atenção: J. L. McElhany, W. B. Ochs, Adolf Minck, Everett N. Dick, W. H. Branson, W. H. Bergherm e Theodore R. Flaiz. Décadas depois, a mesma história institucional alcançaria dirigentes como Mario E. Ceballos, Ivan H. Omaña e Andrew R. Harewood. Entre essas gerações existe uma sequência documentada de decisões, programas e relacionamentos que ajuda a compreender aquilo que denominamos Igreja Militar Adventista.
HITLER E A COLABORAÇÃO DA ADMINISTRAÇÃO ADVENTISTA ALEMÃ
O primeiro capítulo dessa história precisa ser reconstruído na Alemanha nacional-socialista. A ascensão de Hitler em 1933 colocou as instituições religiosas diante de um regime que exigia submissão política e procurava reorganizar profundamente a sociedade alemã. A administração adventista reagiu mediante uma política de acomodação que, em determinados momentos, ultrapassou a tentativa de preservar a liberdade de culto e assumiu características de colaboração ideológica e institucional com o novo governo. O historiador Roland Blaich documentou esse processo no estudo acadêmico Religion under National Socialism: The Case of the German Adventist Church, publicado em 1993 na revista Central European History. Sua investigação utilizou arquivos da Associação Geral, documentação governamental alemã, correspondência administrativa e publicações adventistas do período.
O estudo demonstra que importantes dirigentes alemães passaram a apresentar o novo regime como oportunidade para uma renovação nacional e religiosa. Adolf Minck, então responsável pela juventude adventista, publicou em 1933 uma mensagem que descrevia a época como um período extraordinário de transformação, associando o nacional-socialismo à expectativa de revitalização da sociedade alemã. Outros dirigentes procuraram demonstrar a compatibilidade da denominação com os objetivos governamentais, chegando a aconselhar a participação dos membros nas decisões políticas segundo orientações favoráveis às autoridades.
A gravidade dessa aproximação não está apenas nas opiniões manifestadas por determinados administradores. As mensagens circularam em publicações denominacionais, foram produzidas por pessoas investidas de autoridade religiosa e alcançaram comunidades acostumadas a reconhecer seus dirigentes como representantes legítimos da Igreja. A colaboração, portanto, precisa ser examinada também em sua dimensão organizacional: os cargos conferiam autoridade, as editoras divulgavam as posições e as estruturas administrativas permitiam que determinados discursos fossem apresentados aos fiéis como orientação institucional.
Em Fatal Flirting: The Nazi State and the Seventh-day Adventist Church, publicado em 2010, Harold Alomía aprofunda essa discussão. O pesquisador mostra como aspectos da propaganda nazista relacionados à saúde pública, à abstinência de bebidas alcoólicas e ao combate ao tabagismo foram utilizados por administradores adventistas para destacar supostas afinidades entre a denominação e o regime. Essa aproximação ocorria enquanto o Estado alemão consolidava políticas raciais discriminatórias e avançava na perseguição sistemática aos judeus e a outros grupos.
Essa documentação impede que a história seja reduzida a uma afirmação de que alguns membros adventistas simpatizaram pessoalmente com Hitler. O problema alcançou dirigentes responsáveis pela organização, publicações oficiais e decisões administrativas. Também é necessário reconhecer que houve adventistas que rejeitaram o nazismo e sofreram por sua resistência. A coragem dessas pessoas, entretanto, não elimina a responsabilidade histórica dos administradores que utilizaram suas funções institucionais para promover a acomodação ao regime. O mérito dos resistentes pertence àqueles que resistiram; a atuação da administração precisa ser examinada pelos atos de seus representantes.
1945: O REICH DESAPARECE, MAS OS ADMINISTRADORES PERMANECEM
A derrota alemã em maio de 1945 encerrou o governo de Hitler, mas não resolveu automaticamente a situação das instituições que haviam colaborado com o regime. A Alemanha foi dividida em zonas de ocupação e submetida a processos destinados a afastar integrantes e colaboradores do aparato nazista de posições de responsabilidade. Organizações civis, estruturas administrativas e instituições religiosas passaram a enfrentar questionamentos relativos à continuidade de suas lideranças. Para a Igreja Adventista, a desnazificação representava uma dificuldade particularmente constrangedora: a denominação precisava reconstruir sua presença institucional na Alemanha, mas vários de seus dirigentes carregavam antecedentes políticos incompatíveis com a nova ordem estabelecida pelos vencedores da guerra.
Roland Blaich demonstra que a Associação Geral não desconhecia a situação. Sua administração mundial possuía informações produzidas antes e durante a guerra, mantinha correspondência com dirigentes alemães e enviara representantes para examinar os acontecimentos depois da derrota nazista. Em 24 de abril de 1947, J. L. McElhany, presidente mundial adventista, escreveu a Adolf Minck exigindo providências para afastar elementos comprometidos com o nazismo e restabelecer padrões administrativos considerados adequados. A correspondência constitui um reconhecimento importante: a própria direção mundial sabia que havia um problema político e institucional a ser enfrentado.
A situação tornou-se ainda mais significativa porque a Associação Geral participara diretamente da reorganização administrativa alemã. Em junho de 1946, a Comissão Executiva mundial havia aprovado a designação de Minck para responsabilidades superiores na estrutura provisória que reunia uniões adventistas alemãs. A presidência mundial não podia ser apresentada apenas como observadora distante de uma administração europeia inteiramente autônoma. Washington nomeava dirigentes, recebia relatórios e participava das decisões sobre o funcionamento da Igreja no território ocupado.
O problema, portanto, não era apenas identificar quais administradores haviam pertencido a organizações nazistas. Era determinar como a denominação deveria reagir quando pessoas que haviam exercido autoridade durante o Terceiro Reich continuavam ocupando posições denominacionais depois de sua derrota. A documentação de Blaich mostra que as providências adotadas foram objeto de disputas, resistências e decisões contraditórias, inclusive com interferências da sede mundial capazes de favorecer a permanência de determinados dirigentes.
20 DE MAIO DE 1948: O GOVERNO MILITAR AMERICANO COBRA W. B. OCHS
A carta de 20 de maio de 1948 constitui um dos documentos centrais de nossa investigação. Naquela data, o major J. C. Thompson, responsável pela seção de assuntos religiosos do governo militar americano em Berlim, escreveu a W. B. Ochs, vice-presidente da Associação Geral. O oficial manifestou sua insatisfação com a lentidão da desnazificação adventista e observou que a denominação figurava entre as organizações religiosas berlinenses que ainda não haviam realizado satisfatoriamente sua depuração política. A correspondência é identificada por Roland Blaich nos arquivos da Associação Geral, no conjunto documental RG 21, relativo à Europa Central e Setentrional entre as décadas de 1920 e 1950.
A importância desse episódio ultrapassa a cobrança administrativa. Temos uma autoridade do governo militar americano dirigindo-se ao alto escalão da organização religiosa mundial para exigir providências relacionadas a dirigentes comprometidos com o nazismo. A questão alemã já havia ultrapassado o âmbito das congregações locais e alcançara diretamente a sede internacional da denominação. As autoridades de ocupação conheciam as dificuldades da Igreja, acompanhavam sua reorganização e tinham condições de interferir no destino de administradores considerados politicamente comprometidos.
Blaich registra que, um ano depois de a Associação Geral decidir agir, alguns pastores, um presidente de associação e um editor haviam sido removidos, mas dirigentes superiores ligados a organizações nazistas continuavam ocupando funções importantes. O historiador também descreve o receio de que as autoridades militares americanas determinassem diretamente novos afastamentos, o que produziria considerável constrangimento para a administração mundial. A documentação revela uma instituição pressionada não apenas por sua reputação religiosa, mas também pelas consequências administrativas de um relacionamento anterior com um regime derrotado militarmente.
O episódio ganha dimensão adicional quando examinamos o caso de Michael Budnick. Blaich descreve circunstâncias em que uma manifestação procedente de Washington contribuiu para sua permanência administrativa, apesar dos questionamentos relativos ao passado político. A justificativa envolvia preocupações com sua situação diante das autoridades soviéticas. Dessa forma, a desnazificação adventista já estava atravessada por um segundo conflito: as consequências da disputa entre as potências ocidentais e a União Soviética na Alemanha ocupada. O problema deixou de ser apenas o passado nazista e passou a envolver também a sobrevivência administrativa da denominação num país dividido pela Guerra Fria.
W. B. OCHS: A DESNAZIFICAÇÃO E A COMISSÃO DE SERVIÇO MILITAR PASSAVAM PELA MESMA MESA
O nome de W. B. Ochs merece atenção especial. Ele não era simplesmente o destinatário ocasional de uma carta americana. Como vice-presidente da Associação Geral, participava das decisões de reconstrução administrativa da Igreja alemã. Ao mesmo tempo, o Yearbook adventista de 1948 o identifica como presidente da comissão denominacional de serviço, responsável por assuntos relativos ao relacionamento dos adventistas com as obrigações militares. Carlyle B. Haynes figurava como secretário-geral, e Theodore R. Flaiz integrava aquele ambiente administrativo. Flaiz voltaria a aparecer, anos depois, nas negociações com o Exército americano sobre o Projeto Whitecoat.
Essa sobreposição de responsabilidades é uma das descobertas mais relevantes da investigação. Ochs participava da administração mundial incumbida de responder à pressão militar pela desnazificação e também presidia uma comissão especializada nas relações entre a denominação e o serviço militar. Isso não estabelece automaticamente uma negociação de contrapartidas, mas demonstra que as duas agendas estavam concentradas no mesmo centro decisório. Não se tratava de histórias conduzidas por organismos sem relação entre si. A administração que precisava enfrentar as consequências políticas do passado nazista era também aquela que desenvolvia relações institucionais com estruturas militares.
O relatório de Ochs sobre sua viagem à Alemanha entre 18 de julho e 8 de agosto de 1947 constitui um documento prioritário. Blaich utiliza esse material para reconstruir reuniões, divergências e intervenções relativas à continuidade de dirigentes. A correspondência posterior com Thompson, os memorandos sobre a situação alemã e as atas da comissão de serviço militar podem revelar como a Associação Geral administrava simultaneamente as exigências da desnazificação e seus interesses institucionais perante as autoridades americanas. A concentração dessas responsabilidades não deve ser tratada como detalhe burocrático: ela mostra onde procurar as decisões que conectam a reconstrução alemã à política mundial de serviço militar adventista.
PAPERCLIP, RUSTY E A UTILIDADE DAS REDES INTERNACIONAIS NA GUERRA FRIA
Para compreender o ambiente em que essas decisões foram tomadas, precisamos examinar também a política americana de aproveitamento de conhecimentos e estruturas do antigo regime alemão. A Operação Paperclip tornou-se conhecida pelo recrutamento de cientistas e especialistas técnicos que passaram a participar de projetos americanos depois da Segunda Guerra Mundial. Entretanto, existiu outra modalidade igualmente relevante: o aproveitamento de redes de informação e de antigos profissionais da inteligência militar alemã no contexto da rivalidade com a União Soviética.
O historiador Thomas Boghardt, em America’s Secret Vanguard: US Army Intelligence Operations in Germany, 1944–47, publicado na revista Studies in Intelligence, demonstra como a inteligência do Exército americano desenvolveu um complexo sistema de coleta de informações, contraespionagem e acompanhamento político na Alemanha ocupada. O autor descreve a Operação RUSTY, que envolveu o aproveitamento da organização dirigida por Reinhard Gehlen, antigo general alemão ligado aos serviços de inteligência militares do Reich. A rede de Gehlen passou a interessar às autoridades americanas em razão de seus conhecimentos sobre a União Soviética e de seus contatos no território europeu.
Essa história oferece um precedente importante para nossa comparação editorial. Os Estados Unidos não procuravam apenas conhecimentos técnicos sobre foguetes, medicina ou armamentos. Também demonstravam interesse por estruturas capazes de fornecer informações sobre regiões, populações, administrações e atividades militares de países considerados estratégicos. O aproveitamento de redes humanas tornou-se uma característica da reorganização dos serviços de inteligência durante os primeiros anos da Guerra Fria.
Uma denominação religiosa internacional possuía, por natureza, elementos que podiam adquirir interesse institucional nesse ambiente: administradores em diferentes países, missionários, escolas, hospitais, redes de comunicação, correspondência regular e presença em regiões sujeitas a sistemas políticos rivais. A existência dessas capacidades não significa que tenham sido colocadas clandestinamente a serviço de uma agência americana. Significa que nossa investigação precisa considerar também o valor potencial de redes internacionais, além dos serviços médicos e militares efetivamente documentados.
A expressão PAPERCLIP ADVENTISTA articula essa comparação histórica: uma administração religiosa pressionada pelas consequências de sua colaboração com o nazismo atravessa o pós-guerra e aprofunda relações com estruturas militares americanas, enquanto o Estado americano desenvolve políticas de aproveitamento de competências e relacionamentos considerados úteis para a nova disputa internacional. A conexão causal entre esses processos precisa ser reconstruída a partir das decisões e correspondências da época. Já a existência dos processos em si está amplamente documentada.
EVERETT N. DICK: A PREPARAÇÃO MILITAR DE JOVENS ANTES DA GUERRA E SUA EXPANSÃO POSTERIOR
Para entender a transição do pós-guerra, precisamos recuperar o papel de Everett N. Dick, professor e historiador associado ao Union College, em Nebraska. Dick participou, desde a década de 1930, da organização de programas destinados a preparar jovens adventistas para o serviço médico militar. O Medical Cadet Corps, ou MCC, desenvolveu treinamento em primeiros socorros, disciplina, deslocamentos, organização de unidades e procedimentos compatíveis com a atuação de pessoal médico em circunstâncias militares. A proposta procurava oferecer aos adventistas uma modalidade de serviço que não exigisse o emprego direto de armas, mas os preparasse para exercer funções reconhecidas pelas Forças Armadas.
O programa recebeu apoio denominacional antes da Segunda Guerra Mundial e passou a ser difundido em instituições educacionais adventistas. Portanto, sua existência inicial não depende de qualquer entendimento americano posterior à derrota de Hitler. Essa antecedência, longe de diminuir nossa investigação, permite identificar com maior precisão o que ocorreu depois de 1945: o programa existente foi incorporado a uma política de expansão internacional, com participação de dirigentes mundiais, instrutores experientes e contatos com departamentos médicos militares de diferentes países.
O próprio Everett Dick tornou-se personagem central dessa expansão. Sua experiência passou a ser utilizada em acampamentos, programas de preparação e iniciativas de treinamento fora dos Estados Unidos. Ao mesmo tempo, outros dirigentes da Associação Geral assumiram responsabilidades para organizar o sistema em diferentes divisões. Não estamos falando apenas de um professor que ensinava técnicas de atendimento de emergência. Estamos falando da transformação de uma experiência de treinamento em programa internacional promovido oficialmente pela administração mundial da Igreja.
16 DE ABRIL DE 1951: A PRESIDÊNCIA MUNDIAL DETERMINA A EXPANSÃO DOS CADETES
O documento que comprova essa mudança com maior clareza foi publicado em 16 de abril de 1951. Naquele dia, a Australasian Record divulgou o anúncio da comissão internacional de serviço de cadetes médicos, assinado pelo então presidente mundial adventista W. H. Branson. O texto explicava que o treinamento médico militar já havia sido desenvolvido em diversos lugares, mas que chegara o momento de ampliar o programa para todos os países onde existissem condições de implantá-lo. A organização mundial pretendia criar unidades nas diferentes divisões, formar oficiais e instrutores adventistas e estabelecer relações com os departamentos médicos das Forças Armadas nacionais.
O anúncio possui importância extraordinária porque transforma em política explícita aquilo que poderia ser apresentado retrospectivamente como simples iniciativa educacional. A decisão partia da presidência mundial, envolvia uma comissão internacional e previa relações com instituições militares estrangeiras. W. H. Bergherm, que havia servido durante sete anos como capelão e oficial do Exército americano, foi escolhido para ocupar uma função executiva na nova comissão. Sua experiência militar passava a ser utilizada na administração de um programa religioso de alcance mundial.
A determinação também permite compreender o significado de episódios que ocorreriam poucos meses depois no Caribe. Os acampamentos cubanos, dominicanos e porto-riquenhos não eram acontecimentos desvinculados da política internacional da denominação. Integravam uma iniciativa anunciada pela própria Associação Geral, com apoio de suas estruturas regionais e interlocução com instituições militares nacionais. A direção religiosa mundial estava promovendo um modelo de organização de cadetes médicos que procurava funcionar em territórios submetidos a governos, sistemas militares e circunstâncias políticas diferentes.
É precisamente essa decisão de 1951 que precisa ser colocada no centro da narrativa da PAPERCLIP ADVENTISTA. Apenas três anos antes, o governo militar americano cobrava a administração mundial pela desnazificação de dirigentes alemães. Agora encontramos essa mesma sede internacional anunciando publicamente a expansão de uma estrutura de treinamento militarizado sob orientação denominacional, utilizando profissionais com experiência nas Forças Armadas americanas e procurando reconhecimento junto a departamentos militares de vários países.
CUBA: 104 CADETES FORMADOS NO COLÉGIO DE LAS ANTILLAS
Em dezembro de 1951, durante as férias de Natal, o Colégio de Las Antillas, então localizado em Santa Clara, Cuba, recebeu um acampamento do Medical Cadet Corps. O treinamento foi descrito por V. Schoen em Medical Cadets in the Antillian Union Mission, publicado em 22 de julho de 1952 na revista The Youth’s Instructor. O documento identifica 104 jovens diplomados, descreve os responsáveis pelo treinamento, informa a presença de Everett Dick e registra a participação de representantes da Cruz Vermelha cubana e do departamento médico do Exército nacional.
O relato revela uma estrutura organizada. Os secretários dos Missionários Voluntários das duas associações cubanas e o presidente do colégio participaram da administração do acampamento como oficiais. A. J. Stewart exercia a função de capitão; F. G. Drachenberg e C. R. Chavez atuavam como tenentes. Entre os instrutores figuravam a médica Gilbertina Puertas, o capelão M. W. Sickler e representantes da Cruz Vermelha cubana. Everett Dick participou da primeira semana, contribuindo com a experiência adquirida na organização e no treinamento de cadetes médicos adventistas.
A cerimônia de conclusão reuniu autoridades da Cruz Vermelha, incluindo seu presidente, coronel doutor Rodolfo Henríquez, além de outros representantes da instituição. Também compareceram integrantes do departamento médico do Exército cubano e dirigentes da organização adventista. Os 104 jovens receberam seus diplomas diante dessa combinação de autoridades religiosas, médicas e militares. O relatório registra satisfação com os resultados e expectativa de ampliação do programa.
O aspecto mais revelador aparece antes mesmo da descrição do acampamento. Schoen informa que a União Antilhana havia estabelecido contatos favoráveis com representantes da Cruz Vermelha e dos departamentos médicos dos exércitos de diferentes repúblicas. Segundo o relato, as autoridades nacionais demonstraram interesse e confiança na preparação oferecida aos jovens. Portanto, Cuba não representava apenas um treinamento de primeiros socorros realizado ocasionalmente numa escola religiosa. Integrava uma estratégia regional de aproximação da administração adventista com instituições médicas militares de vários países.
O Colégio de Las Antillas oferecia instalações, pessoal administrativo e uma comunidade estudantil. Os dirigentes religiosos organizavam a preparação e assumiam funções de oficialato dentro do programa. A estrutura internacional fornecia orientação e experiência técnica. Autoridades externas acompanhavam a formação e reconheciam sua utilidade. A instituição educacional adventista tornava-se, dessa maneira, um centro de treinamento organizado segundo padrões vinculados ao serviço médico militar.
Nossa investigação anterior sobre os Guerrilheiros J.A. e os aprendizes de guerra já havia reunido documentos sobre essa experiência. O novo cruzamento histórico permite situá-la de maneira mais precisa: o treinamento cubano ocorreu dentro de uma política de expansão mundial anunciada meses antes pela Associação Geral e poucos anos depois das cobranças americanas relativas à desnazificação de sua administração alemã.
PORTO RICO E REPÚBLICA DOMINICANA: A EXPERIÊNCIA CUBANA ERA PARTE DE UMA OPERAÇÃO REGIONAL
O relatório de V. Schoen descreve também treinamentos realizados em outras localidades da União Antilhana. Na República Dominicana, um acampamento formou jovens em técnicas de atendimento médico e recebeu a atenção de representantes militares e da Cruz Vermelha. O autor relata que autoridades externas elogiaram os resultados e demonstraram interesse na possibilidade de cooperação futura. A preparação não se limitava a ensinar socorro individual: desenvolvia procedimentos organizados de movimentação, atendimento e transporte de feridos, justamente o tipo de conhecimento valorizado por departamentos médicos militares.
Em Porto Rico, entre 26 de dezembro de 1951 e 8 de janeiro de 1952, outro acampamento reuniu 80 rapazes e 30 moças nas montanhas de Maricao. O local recebeu o nome de Colonel Dick Camp, em homenagem a Everett Dick, que participou da última semana de atividades. Os jovens receberam treinamento intensivo em primeiros socorros e exercícios de marcha. Mais uma vez, a documentação contemporânea mostra a reprodução do mesmo modelo em outro território, sob orientação denominacional e com participação de um dos principais responsáveis pela história do MCC.
Essa distribuição regional revela o alcance efetivo da decisão mundial de 1951. Cuba, República Dominicana e Porto Rico faziam parte de uma iniciativa que utilizava instituições adventistas para preparar jovens e estabelecer interlocução com autoridades médicas militares locais. Em outras regiões, programas semelhantes foram desenvolvidos ou examinados, inclusive no Canadá, na América do Sul e em diferentes países asiáticos. A trajetória de Everett Dick inclui viagens posteriores para acompanhar o desenvolvimento de organizações de cadetes no Extremo Oriente e em outras localidades.
O sistema internacional adventista oferecia as condições administrativas para reproduzir o treinamento: divisões, uniões, associações, instituições educacionais, departamentos de juventude e dirigentes responsáveis por coordenar programas. Uma decisão da Associação Geral podia alcançar vários países mediante essa cadeia hierárquica. É essa combinação de alcance territorial e organização administrativa que transforma o Medical Cadet Corps em tema central de nossa investigação sobre a Igreja Militar Adventista.
O COLÉGIO CUBANO E A REVOLUÇÃO: A MESMA INSTITUIÇÃO EM OUTRO CONTEXTO MILITAR
O Colégio de Las Antillas voltaria a aparecer na história militar de Cuba em circunstâncias completamente diferentes. No final de dezembro de 1958, durante a ofensiva revolucionária contra Fulgencio Batista, integrantes das forças comandadas por Che Guevara receberam ajuda relacionada à alimentação e a outros recursos no ambiente do estabelecimento adventista. Nossa investigação já examinou depoimentos, notícias e personagens envolvidos nos acontecimentos de Santa Clara, incluindo o período da administração de Walton J. Brown.
É indispensável preservar a distinção histórica entre as duas fases. O treinamento dos 104 cadetes ocorreu em dezembro de 1951, sob uma administração educacional anterior àquela que dirigia o colégio durante os episódios revolucionários de 1958. Everett Dick participou do acampamento de 1951, e isso não o transforma em participante dos acontecimentos ocorridos sete anos depois. Também não existe identificação documental daqueles 104 diplomados como integrantes das forças revolucionárias. A importância da comparação está na utilização, em momentos distintos, de uma instituição educacional adventista em atividades relacionadas a contextos militares.
O caso demonstra como uma organização religiosa estabelecida no território possuía recursos, instalações e relacionamentos capazes de assumir relevância em situações de conflito. Primeiro, o colégio foi utilizado para formar cadetes médicos e receber representantes de instituições militares. Depois, durante a guerra revolucionária, suas instalações e seus administradores surgem em relatos relacionados à assistência prestada a combatentes. Os episódios pertencem a contextos diferentes, mas integram a história de uma mesma instituição denominacional e de sua presença em acontecimentos políticos e militares cubanos.
1954: A ASSOCIAÇÃO GERAL E O PROJETO WHITECOAT
Em 1954, a cooperação entre a administração adventista e o Exército americano alcançou um patamar diferente. Representantes militares procuraram dirigentes da Associação Geral para discutir a participação de voluntários adventistas em pesquisas médicas relacionadas à defesa biológica. O entendimento resultou no Projeto Whitecoat, desenvolvido principalmente em Fort Detrick, Maryland, entre 1955 e 1973. Aproximadamente 2.200 adventistas participaram voluntariamente de pesquisas conduzidas no ambiente militar, relacionadas a agentes infecciosos, medidas preventivas e procedimentos de proteção.
O programa possui especial importância porque envolvia uma cooperação direta entre dirigentes religiosos e autoridades militares. Não se tratava apenas de admitir jovens adventistas como socorristas ou auxiliares de enfermagem. A administração mundial participou de entendimentos que permitiram a presença de voluntários religiosos em estudos de interesse do Exército americano. As questões relativas ao consentimento dos participantes, aos riscos médicos e às finalidades de defesa militar dessas pesquisas integram a história que precisa ser examinada.
Theodore R. Flaiz, responsável pelo Departamento Médico da Associação Geral, participou das negociações. Em outubro de 1954, sua correspondência com autoridades americanas apresentou a disposição adventista de colaborar e fez referência à gratidão denominacional pelas concessões anteriormente recebidas no relacionamento com o Departamento de Defesa. A expressão empregada por Flaiz revela uma compreensão institucional baseada em reciprocidade: benefícios concedidos às necessidades religiosas dos adventistas eram reconhecidos por dirigentes mundiais como motivo para oferecer colaboração.
Essa declaração merece atenção especial no contexto da PAPERCLIP ADVENTISTA. Nos anos imediatamente posteriores à guerra, a Associação Geral havia enfrentado cobranças americanas sobre a permanência de administradores comprometidos com o nazismo. Agora, dirigentes da mesma organização participavam de um programa militar de grande importância estratégica. A cooperação não resultava apenas de indivíduos servindo espontaneamente em unidades médicas, mas de negociações conduzidas por representantes da denominação. A profundidade dessa relação fica evidente quando observamos que os experimentos duraram quase duas décadas e envolveram milhares de participantes.
O Whitecoat também amplia nossa compreensão do que a expressão serviço não combatente podia significar na prática. O jovem que se recusava a portar armas podia participar de atividades integradas à pesquisa médica militar, inclusive em projetos de defesa contra agentes biológicos. A objeção ao combate direto não colocava necessariamente a denominação fora dos interesses estratégicos das Forças Armadas. A Igreja desenvolveu formas próprias de colaboração, administradas mediante estruturas especializadas e apresentadas aos membros como alternativas compatíveis com suas convicções.
DEPOIS DO WHITECOAT, A ESTRUTURA NÃO DESAPARECEU
A conclusão do Projeto Whitecoat não significou o desaparecimento da estrutura militar especializada adventista. A National Service Organization, a World Service Organization e os Ministérios Adventistas de Capelania deram continuidade a diversas atividades relacionadas ao acompanhamento de membros nas Forças Armadas, credenciamento de capelães, formação profissional e programas de serviço. As estruturas foram reorganizadas em diferentes períodos, assumiram novas responsabilidades e mantiveram relações com autoridades militares de países distintos.
O ponto que nossa investigação procura destacar é que essas funções não podem ser compreendidas somente como um departamento pastoral isolado da administração mundial. Seus dirigentes participam de decisões, congressos, treinamentos e programas internacionais. A organização possui normas, designações e mecanismos próprios de coordenação. O relacionamento com instituições militares, antes associado sobretudo à preparação de jovens para o serviço não combatente, tornou-se uma atividade institucional especializada e duradoura.
A própria estrutura contemporânea de liderança da World Service Organization apresenta designações como World Commanding Officer, World Commanding Executive Officer e Director of Operations and Training. O uso desse vocabulário revela a presença de uma cultura organizacional marcada por elementos de hierarquia e comando. A análise da autoridade efetivamente exercida por seus ocupantes depende dos regulamentos administrativos e das competências atribuídas a cada função, mas sua existência institucional é expressamente reconhecida pela própria organização.
2022: HAREWOOD, OMAÑA E CEBALLOS JÁ PARTICIPAVAM DE RELAÇÕES MILITARES INTERNACIONAIS
A continuidade contemporânea torna-se particularmente visível quando examinamos a trajetória do general Andrew R. Harewood, de Ivan H. Omaña e de Mario E. Ceballos. Harewood exerceu responsabilidades superiores na capelania da Reserva do Exército americano, incluindo atividades relacionadas a estratégia, políticas, recursos, administração profissional e prontidão. Omaña desenvolveu carreira na capelania adventista e assumiu sua direção mundial em 2022. Ceballos havia dirigido mundialmente a área entre 2015 e 2022 e posteriormente continuou associado a programas internacionais de treinamento e serviço.
Em setembro de 2022, Harewood e Omaña participaram conjuntamente de uma conferência de capelães militares adventistas na Austrália. A reportagem publicada pelo Adventist Record em 29 de setembro daquele ano identifica Harewood como general de brigada e capelão que servia no Pentágono, Omaña como diretor mundial dos Ministérios Adventistas de Capelania e Gilda Roddy como dirigente associada da Divisão Norte-Americana. O grupo participou de treinamentos e encontrou representantes das capelanias do Exército, da Marinha e da Força Aérea australianos, além de membros do Religious Advisory Committee to the Services, nas instalações do Royal Military College, em Duntroon.
Um participante descreveu o encontro como estabelecimento de importante conexão estratégica entre capelães militares australianos e americanos. A formulação é significativa porque foi registrada pelos próprios organizadores religiosos. Não estamos diante de uma interpretação posterior construída exclusivamente por críticos da denominação. A publicação reconhecia expressamente a importância estratégica das relações profissionais desenvolvidas entre autoridades militares de diferentes países e dirigentes da administração adventista.
Outro registro de 2022, publicado em The Adventist Chaplain, apresenta Harewood, Omaña e Ceballos reunidos numa cerimônia de promoção militar em Fort Buchanan, Porto Rico. O acontecimento envolveu a promoção do capelão Edgardo Ortiz ao posto de coronel. A mesma publicação registra contatos de Omaña com pastores originários da Venezuela que estavam vivendo e trabalhando nos Estados Unidos. Os episódios demonstram que os três dirigentes já apareciam em atividades militares e denominacionais conjuntas muito antes da nomeação formal de Harewood para a direção mundial em fevereiro de 2026.
2023: UM GENERAL ADMINISTRA O JURAMENTO MILITAR DENTRO DA SEDE ADVENTISTA
Em 17 de abril de 2023, a sede da Divisão Norte-Americana da Igreja Adventista, em Columbia, Maryland, recebeu uma cerimônia particularmente reveladora. M. Gilda Dholah-Roddy, que já exercia a função de diretora associada dos Ministérios Adventistas de Capelania, recebeu sua comissão como capitã-capelã da Reserva do Exército americano. O juramento militar foi administrado por Andrew R. Harewood, general de brigada, ministro adventista e uma das autoridades superiores da capelania da Reserva.
A reportagem da Adventist Review, publicada em 5 de julho de 2023, registra que Dholah-Roddy considerava Harewood seu mentor. A cerimônia foi realizada deliberadamente dentro da sede denominacional, diante de dirigentes religiosos e profissionais com trajetórias militares. Entre os participantes figuravam Washington Johnson II, antigo capitão da capelania naval; Paul Anderson, comandante aposentado da capelania da Marinha; Rohann D. Wellington, dirigente da Divisão Norte-Americana e capitão-capelão da Força Aérea; e Rick Remmers, assistente do presidente da Divisão.
O episódio concentra numa única cerimônia a circulação de profissionais entre o ambiente religioso e o militar. Uma dirigente eclesiástica tornou-se oficial do Exército americano. Um general que possuía credenciamento adventista administrou seu juramento. Antigos oficiais militares ocupavam cargos denominacionais. A sede religiosa foi utilizada para um ato formal de incorporação ao serviço militar. Trata-se de uma demonstração pública da proximidade administrativa entre dois ambientes institucionais, apresentada pela própria imprensa adventista como acontecimento digno de reconhecimento.
A reportagem informa ainda que a ACM norte-americana acompanhava mais de 800 capelães adventistas, dos quais aproximadamente 150 serviam nas Forças Armadas americanas. Esses números demonstram a dimensão da área administrada e ajudam a compreender por que dirigentes com experiência militar superior ocupam posições de influência nesse segmento da denominação. A organização não estava acompanhando uma experiência individual isolada, mas uma comunidade profissional numerosa e distribuída por diferentes instituições.
2025: TED WILSON RECEBE UMA MOEDA DO PENTÁGONO
Em junho e julho de 2025, durante o Congresso Mundial de Capelania Adventista realizado em St. Louis, Harewood novamente apareceu em posição de destaque diante da liderança internacional. Ele pronunciou uma mensagem na abertura do encontro, que reuniu centenas de capelães e familiares. No encerramento, Ted N. C. Wilson, então presidente mundial, recebeu homenagens dos dirigentes da capelania. Ivan Omaña lhe entregou uma escultura de cristal e Harewood apresentou uma moeda comemorativa produzida pelo Pentágono.
O episódio foi descrito na reportagem oficial sobre o encerramento do congresso mundial. A cerimônia reuniu dirigentes religiosos, profissionais ligados às Forças Armadas e antigos responsáveis pela administração internacional da capelania, incluindo Mario Ceballos. A moeda produzida pelo Pentágono tornou-se um símbolo visível dessa aproximação entre a administração religiosa mundial e a trajetória militar de seus dirigentes especializados.
O acontecimento precisa ser colocado na continuidade da história que começou muito antes. Everett Dick havia organizado um modelo de preparação médica militar. A Associação Geral internacionalizara o MCC. Dirigentes mundiais haviam negociado a participação adventista em pesquisas do Exército. Décadas depois, encontramos generais aposentados, oficiais de carreira e dirigentes da capelania participando de cerimônias internacionais diante da presidência da Associação Geral. A proximidade entre administração religiosa e experiência militar já não dependia exclusivamente dos antigos acampamentos de cadetes: estava incorporada às carreiras e às relações profissionais dos dirigentes contemporâneos.
VENEZUELA: O CORPO NACIONAL DE SERVIÇO E A WORLD SERVICE ORGANIZATION
Na Venezuela, o Manual do Cuerpo de Servicio Nacional Adventista, publicado pela União Venezuelana Oriental em junho de 2025, apresenta uma organização com hierarquias, símbolos, uniformes, regulamentos, procedimentos administrativos e responsabilidades de comando. O documento declara alinhamento aos princípios adventistas e respaldo da World Service Organization. Mario E. Ceballos participa de sua revisão técnica, estabelecendo uma conexão direta entre a organização internacional e a elaboração normativa de um programa nacional venezuelano.
O manual venezuelano de 2025 merece ser comparado aos antigos programas do Medical Cadet Corps. Existem diferenças de época, organização e atribuições, mas a continuidade de determinados elementos institucionais é evidente: treinamento, normas, identificação visual, cadeia de responsabilidades e relação declarada com uma estrutura internacional especializada. A presença de dirigentes como Omaña e Ceballos na história contemporânea da WSO amplia o interesse por esses programas, especialmente porque ambos possuem trajetórias relacionadas à América Latina e à administração mundial.
A captura de Nicolás Maduro por forças americanas em 3 de janeiro de 2026 trouxe uma nova dimensão política à investigação. As informações divulgadas sobre a preparação da operação americana apontaram atividades de inteligência anteriores à intervenção. Nesse período, Harewood já mantinha relações públicas documentadas com Omaña e com a administração internacional adventista. Sua nomeação formal para uma função mundial em fevereiro de 2026 não representou o início desses relacionamentos, mas ocorreu depois de anos de colaboração profissional.
A questão central para a investigação venezuelana consiste em reconstruir o alcance dessas relações anteriores, os contatos mantidos pela administração internacional e as competências efetivamente exercidas por seus dirigentes. O passado militar de Harewood, os vínculos venezuelanos de Omaña e a participação técnica de Ceballos em documentos do serviço nacional adventista definem uma linha de pesquisa concreta sobre estruturas, comunicações e decisões. A documentação encontrada comprova os relacionamentos institucionais e a presença dos programas; a participação em qualquer operação de inteligência dependeria da identificação de atos, ordens ou comunicações específicas.
RUANDA: QUANDO A AUTORIDADE INSTITUCIONAL TAMBÉM PRECISA RESPONDER PELOS CRIMES DE SEUS DIRIGENTES
A investigação sobre a Igreja Militar Adventista também precisa examinar o problema da responsabilidade institucional nos episódios de violência política que envolveram dirigentes denominacionais. Durante o genocídio de Ruanda, em 1994, o complexo adventista de Mugonero tornou-se cenário de massacres contra refugiados tutsis. Élizaphan Ntakirutimana, dirigente religioso adventista, e Gérard Ntakirutimana, médico do hospital da denominação, foram condenados pelo Tribunal Penal Internacional para Ruanda por crimes relacionados ao genocídio e a ataques contra civis.
Esses acontecimentos não podem ser compreendidos apenas como atos praticados por pessoas que casualmente pertenciam a determinada religião. Os acusados exerciam funções associadas à autoridade denominacional e às instituições nas quais os refugiados procuraram proteção. A organização conferia cargos, administrava instalações e beneficiava-se da confiança pública depositada na identidade adventista. Portanto, a responsabilidade criminal dos dirigentes exige ser acompanhada do exame das responsabilidades administrativas e históricas das estruturas envolvidas.
O Tribunal Internacional possuía competência para julgar indivíduos, não a denominação como pessoa jurídica. Por isso, as condenações pessoais não constituíram um julgamento criminal da Associação Geral ou de toda a organização adventista. Entretanto, a ausência desse julgamento não resolve automaticamente as questões sobre a responsabilidade institucional, o funcionamento das instalações, as decisões dos administradores e a atuação das instâncias superiores.
Nossa investigação já publicada no Adventistas.com também questiona uma possível assimetria da memória organizacional: crimes de dirigentes podem ser apresentados como desvios pessoais, enquanto atos heroicos de membros que salvaram perseguidos são incorporados à narrativa positiva da Igreja. A responsabilidade não pode ser distribuída por critérios convenientes. O heroísmo pertence às pessoas que protegeram vítimas; os crimes dos administradores exigem exame de sua conduta pessoal e da estrutura na qual exerciam autoridade.
Em março de 2012, Ted N. C. Wilson, presidente mundial adventista, encontrou Paul Kagame na Academia Militar de Gako, em Ruanda. A Presidência ruandesa apresentou Wilson como chefe mundial da Igreja Adventista e destacou projetos educacionais, hospitalares e sociais da denominação. A imagem oferece um contraste histórico significativo: o dirigente religioso representava publicamente uma organização mundial cujas instituições e autoridades haviam aparecido nos processos relacionados ao genocídio. Essa representação coletiva, utilizada para apresentar realizações institucionais, torna indispensável examinar também a maneira como a administração mundial enfrentou as responsabilidades históricas de seus representantes.
A IGREJA-ESTADO MILITAR ADVENTISTA COMO TESE INSTITUCIONAL
Os acontecimentos reunidos nesta investigação permitem formular uma crítica estrutural. A Igreja Adventista desenvolveu uma administração transnacional dotada de recursos financeiros, instituições educacionais, hospitais, programas humanitários e organismos especializados em relacionamento com governos e Forças Armadas. Seus presidentes mundiais são recebidos por chefes de Estado. Seus departamentos de capelania trabalham com oficiais militares. Seus programas de cadetes utilizam treinamento uniformizado e hierarquias internas. Seus dirigentes especializados podem acumular décadas de experiência em instituições militares nacionais.
É essa sobreposição de funções que fundamenta nossa expressão editorial Igreja-Estado Militar Adventista. Ela não pretende identificar a denominação como Estado soberano segundo o direito internacional, mas descrever uma organização religiosa cuja administração possui capacidade permanente de interlocução institucional com estruturas políticas e militares. A distinção entre a autoridade espiritual anunciada aos fiéis e a dimensão administrativa de suas relações com o poder estatal constitui o centro de nossa crítica.
O problema não está simplesmente no fato de um adventista trabalhar como médico militar ou capelão. A questão está na política organizada de uma administração mundial que decidiu criar comissões, internacionalizar programas, estabelecer contato com departamentos militares e incorporar profissionais com experiência superior de comando e planejamento. A Igreja Militar Adventista não é, nessa interpretação, um fenômeno externo à denominação civil. Sua história foi construída por decisões tomadas dentro da própria organização religiosa, em suas escolas, seus departamentos e seus órgãos administrativos.
O QUE A PAPERCLIP ADVENTISTA REVELA SOBRE O PÓS-GUERRA
A investigação histórica começa com um problema de responsabilidade. A administração adventista alemã atravessou o nazismo com dirigentes que colaboraram com o regime, e a Associação Geral precisou enfrentar cobranças do governo militar americano depois de sua derrota. As cartas de 1947 e 1948 demonstram que Washington denominacional conhecia a questão, participava das decisões e enfrentava pressões concretas para remover administradores comprometidos.
Na mesma época, dirigentes superiores da denominação participavam de estruturas relacionadas ao serviço militar. Em 1951, a presidência mundial anunciava uma expansão internacional de cadetes médicos. Poucos meses depois, 104 jovens recebiam diplomas num colégio adventista cubano, com a presença de Everett Dick e de autoridades médicas militares. Em 1954, o Departamento Médico da Associação Geral negociava com o Exército americano a participação adventista em pesquisas que dariam origem ao Whitecoat.
A comparação com Paperclip e RUSTY oferece uma chave interpretativa para examinar esse processo. No pós-guerra, o Estado americano valorizava conhecimentos científicos, competências administrativas e redes de relacionamento que pudessem contribuir para seus interesses estratégicos. A organização adventista, por sua vez, possuía presença internacional, instituições próprias e programas de serviço que se expandiram durante a Guerra Fria. A hipótese editorial da PAPERCLIP ADVENTISTA investiga a possível relação entre as vulnerabilidades políticas herdadas do período nazista e o aprofundamento da colaboração denominacional com estruturas militares americanas.
As correspondências de W. B. Ochs, os registros de sua comissão de serviço e as negociações posteriores envolvendo Theodore R. Flaiz constituem o conjunto documental mais promissor para esclarecer essa transição. O que já está estabelecido é que os acontecimentos pertencem à trajetória administrativa da mesma organização mundial, cujos dirigentes ocuparam responsabilidades de liderança, representaram a denominação perante autoridades governamentais e participaram de programas internacionais de colaboração militar.
CONCLUSÃO: DO TERCEIRO REICH À IGREJA MILITAR ADVENTISTA CONTEMPORÂNEA
A história reunida neste artigo impede tratar as relações militares adventistas como um conjunto de iniciativas ocasionais, desconectadas da administração mundial. O envolvimento de dirigentes alemães com o nazismo, a pressão militar americana pela desnazificação, a posição de W. B. Ochs, a internacionalização do Medical Cadet Corps, o treinamento de Everett Dick em Cuba, a colaboração no Projeto Whitecoat e a direção contemporânea da WSO compõem capítulos de uma trajetória organizacional que atravessou diferentes governos, continentes e gerações de dirigentes.
A expressão PAPERCLIP ADVENTISTA é nossa maneira de colocar essa continuidade sob investigação histórica. Ela aponta para o período em que uma administração religiosa internacional, confrontada com o passado comprometedor de parte de seus dirigentes europeus, aprofundou sua participação em programas ligados às necessidades militares americanas e internacionais. A comparação com o aproveitamento estratégico de especialistas e redes alemãs do pós-guerra exige examinar documentos específicos, mas já permite formular uma pergunta histórica de grande relevância: quais interesses institucionais, políticos e militares contribuíram para fortalecer essa colaboração?
O que torna a experiência cubana especialmente importante é sua clareza documental. Não se trata de uma referência vaga a jovens religiosos aprendendo primeiros socorros. O relatório contemporâneo identifica 104 diplomados, oficiais adventistas responsáveis pelo treinamento, instrutores especializados, Everett Dick e autoridades médicas militares cubanas. O curso foi realizado dentro de uma instituição educacional denominacional e integrava uma política internacional anunciada expressamente pela Associação Geral.
Da mesma forma, o Whitecoat não pode ser reduzido à decisão individual de soldados adventistas que desejaram servir como voluntários. Houve negociação institucional com o Exército americano, dirigentes mundiais envolvidos e um programa de pesquisas militares que se prolongou durante anos. Na estrutura contemporânea, encontramos novamente a administração religiosa articulando dirigentes com trajetórias militares, contatos internacionais e programas especializados de serviço.
A Igreja Militar Adventista não surgiu à margem da denominação. Foi desenvolvida pela própria organização, em diferentes períodos, por meio de seus dirigentes, instituições e decisões administrativas. Essa é a continuidade histórica que nossa investigação coloca diante dos membros: uma organização apresentada primordialmente como comunidade de fé também construiu uma estrutura internacional permanente de relacionamento com o poder militar.
Da Alemanha de Hitler ao governo militar americano, de Washington ao Colégio de Las Antillas, de Fort Detrick às estruturas mundiais contemporâneas, encontramos evidências documentais da presença adventista em ambientes de crescente interesse estratégico. A questão decisiva não é apenas quantos jovens receberam treinamento ou quantos oficiais participaram de cerimônias denominacionais. É compreender como esses acontecimentos modificaram a cultura administrativa, as prioridades institucionais e a distribuição de influência dentro da Igreja.
A PAPERCLIP ADVENTISTA constitui, assim, uma investigação sobre a relação entre responsabilidade histórica, recuperação institucional e cooperação militar. Seu objeto não é um suposto departamento clandestino separado da Igreja, mas a própria organização religiosa e as decisões que transformaram seus programas de serviço numa rede internacional duradoura de contato com instituições militares e governamentais.
Se a denominação reivindica o mérito coletivo de suas escolas, hospitais, ações humanitárias e atividades missionárias, também precisa responder historicamente pelas escolhas de seus administradores, pelas alianças institucionais que estabeleceu e pelas consequências de sua participação em acontecimentos políticos e militares. A autoridade mundial que ela reivindica perante seus membros e perante governos estrangeiros implica uma responsabilidade igualmente extensa. É essa responsabilidade que nossa investigação continuará a cobrar.





