NEAL WILSON E KHARCHEV: Aperto de mão maçônico selou o início da aliança da IASD com o Deep State


Jan Paulsen e Ted Wilson deram continuidade a uma política de relações com governos e centros internacionais de poder que transformou a Associação Geral numa estrutura de representação diplomática muito mais complexa do que a organização religiosa apresentada aos membros.

O encontro entre Neal Wilson e Konstantin Kharchev, em Moscou, tornou-se símbolo dessa transformação: uma liderança que denunciava profeticamente as alianças entre religião e Estado passou a negociar reconhecimento, instalações, publicações e cooperação diretamente com o aparelho governamental soviético.

SAIBA MAIS:

O aperto de mão que simbolizou uma mudança de direção

Em fevereiro de 1987, o então presidente mundial da Igreja Adventista do Sétimo Dia, Neal C. Wilson, encontrou-se com Konstantin Kharchev, presidente do Conselho de Assuntos Religiosos da União Soviética, durante o Fórum Internacional por um Mundo Não Nuclear e pela Sobrevivência da Humanidade, realizado em Moscou. A imagem dos dois dirigentes cumprimentando-se adquiriu significado especial porque colocou lado a lado o chefe da administração adventista mundial e o representante do organismo estatal encarregado de supervisionar as organizações religiosas soviéticas. A fotografia condensava uma transformação institucional profunda: uma denominação formada historicamente em torno da defesa da liberdade de consciência e da advertência contra a união entre religião e poder político apresentava-se agora como interlocutora de uma das mais poderosas estruturas governamentais do século XX.

O escritor Texe Marrs identificou naquele cumprimento características de um aperto de mão maçônico, reproduzindo a fotografia em Codex Magica. A interpretação introduz uma dimensão simbólica importante na discussão sobre redes de influência, fraternidades reservadas e aproximações entre dirigentes políticos e religiosos. Entretanto, o significado histórico mais profundo do episódio emerge da sucessão de decisões e iniciativas que acompanharam o encontro. Wilson não estava em Moscou como turista, e Kharchev não exercia uma função protocolar secundária. Ambos representavam organizações de alcance internacional, dotadas de interesses administrativos, capacidade de negociação e objetivos institucionais claramente definidos.

O aperto de mão tornou-se, assim, a imagem de um processo que já havia começado e que produziria consequências permanentes. De um lado, uma estrutura religiosa mundial interessada em reconhecimento estatal, liberdade de atuação e ampliação de sua presença institucional. Do outro, um governo que controlava a autorização e o funcionamento das organizações religiosas dentro de seu território. O relacionamento desenvolvido entre essas duas estruturas demonstra como a diplomacia denominacional passou a ocupar um lugar central na estratégia de expansão da Igreja Adventista.

O Kremlin abriu suas portas à administração adventista

Os contatos decisivos antecederam o encontro fotografado. Em maio de 1986, Neal Wilson permaneceu dezenove dias na União Soviética, pouco depois do desastre nuclear de Chernobyl. Sua viagem aconteceu num momento de transformação política, quando a administração de Mikhail Gorbachev começava a ampliar o diálogo internacional e a reconsiderar determinadas restrições impostas às organizações religiosas. Wilson aproveitou essa conjuntura para apresentar propostas concretas em nome da administração adventista mundial.

Entre os objetivos estavam o reconhecimento oficial da organização denominacional, a obtenção de instalações administrativas próximas a Moscou, a autorização para produzir e distribuir publicações religiosas e o estabelecimento de condições para formar pastores dentro do território soviético. A natureza das reivindicações merece destaque. Não se tratava apenas de defender o direito individual de um cidadão praticar sua religião. A Associação Geral buscava espaço próprio dentro da estrutura jurídica e administrativa soviética, negociando diretamente com autoridades que possuíam poder para conceder instalações, permitir publicações e reconhecer organismos religiosos.

Esse procedimento revela uma das características fundamentais da corporação religiosa adventista: sua capacidade de atuar internacionalmente como organização administrativa dotada de representantes, recursos, interesses institucionais e poder de negociação. A mensagem religiosa dirigida aos membros permanecia associada à interpretação de Apocalipse, à defesa do sábado e à liberdade de consciência. Nos encontros com autoridades governamentais, entretanto, a denominação também se apresentava como parceira potencial em projetos de educação, saúde, assistência social, produção editorial e cooperação internacional.

Konstantin Kharchev reconheceu a importância da delegação adventista e manifestou disposição para ampliar o relacionamento. O fato de o governo soviético passar a tratar a direção mundial da igreja como interlocutora qualificada demonstrava uma alteração expressiva na posição internacional da denominação. A organização religiosa já não aparecia apenas como comunidade submetida às decisões do Estado, mas como entidade capaz de participar diretamente da negociação dessas decisões.

Chernobyl e a construção de uma relação de confiança

A aproximação ganhou novo impulso em setembro de 1986, quando J. Robert Spangler, editor da revista Ministry, encontrou-se com Kharchev e lhe apresentou uma contribuição de 25 mil dólares enviada pela Associação Geral para auxiliar as vítimas de Chernobyl. A assistência humanitária integrou um processo mais amplo de relacionamento entre a direção adventista e as autoridades soviéticas, abrindo oportunidades para novos contatos e visitas oficiais.

Spangler transmitiu a Kharchev um convite para conhecer instituições adventistas nos Estados Unidos. Em outubro daquele ano, o dirigente soviético visitou instalações denominacionais na região de Washington, incluindo a sede administrativa, a editora Review and Herald, o Shady Grove Adventist Hospital e a Takoma Academy. O representante de um Estado comunista, responsável pela supervisão governamental das organizações religiosas, foi recebido no interior da estrutura administrativa, editorial, educacional e hospitalar adventista norte-americana.

O significado político dessa visita é expressivo. A Igreja Adventista apresentava ao governo soviético sua capacidade institucional, sua rede de serviços e suas condições de atuação internacional. O relacionamento permitia que Kharchev conhecesse não apenas a doutrina da denominação, mas também seu funcionamento como organização mundial. A aproximação revelava a importância das instituições educacionais, médicas e editoriais na construção da legitimidade internacional adventista.

Durante os contatos, Kharchev manifestou interesse numa iniciativa editorial conjunta, com publicações em russo e inglês destinadas a apresentar a vida e as atividades de adventistas nos dois países. A possibilidade de uma publicação produzida no ambiente de cooperação entre autoridades soviéticas e dirigentes adventistas demonstra como a negociação alcançava também a comunicação pública. A parceria não se limitava a edifícios ou autorizações administrativas; envolvia a apresentação da identidade denominacional diante das sociedades soviética e norte-americana.

Quando a cooperação chegou à imprensa e à formação de dirigentes

Em janeiro de 1987, Kharchev convidou Harold F. Otis, presidente da Review and Herald Publishing Association, a visitar a União Soviética. A viagem aprofundou as negociações sobre publicações religiosas e formação teológica. A administração adventista recebeu informações sobre a possibilidade de imprimir trinta mil exemplares de uma publicação cristã especial e encaminhar cinquenta conjuntos do Comentário Bíblico Adventista a pastores soviéticos. Também avançavam as providências relacionadas à obtenção de instalações destinadas às atividades religiosas e educacionais.

Essas iniciativas demonstram a dimensão concreta do relacionamento. A direção adventista mundial participava de negociações envolvendo autorização estatal, circulação de informações, formação de quadros administrativos e desenvolvimento de infraestrutura. O poder institucional da Associação Geral manifestava-se na capacidade de reunir dirigentes, editores, recursos financeiros e representantes internacionais em torno de objetivos negociados com um governo estrangeiro.

Essa articulação é um dos elementos que sustentam nossa crítica à imagem simplificada da Igreja Adventista como organização exclusivamente dedicada à pregação. A atividade religiosa permanece no centro de sua apresentação pública, mas seu funcionamento mundial envolve relações jurídicas, administrativas, financeiras e diplomáticas. Os encontros com o Kremlin revelaram essa dimensão de maneira particularmente evidente.

Jan Paulsen participou da aproximação com o poder soviético

O Fórum Internacional por um Mundo Não Nuclear e pela Sobrevivência da Humanidade, realizado em fevereiro de 1987, reuniu dirigentes políticos, intelectuais, cientistas e representantes religiosos de diferentes países. A delegação adventista foi liderada por Neal Wilson e contou com Jan Paulsen, então presidente da Divisão Transeuropeia, além de Ray Hefferlin e Roland R. Hegstad. A presença de Paulsen constitui um detalhe fundamental para compreendermos a continuidade administrativa desse relacionamento.

Jan Paulsen não foi simplesmente um nome associado posteriormente à diplomacia religiosa adventista. Participou pessoalmente de um dos acontecimentos mais importantes da aproximação entre a direção mundial da igreja e as autoridades soviéticas. Acompanhou uma iniciativa que combinava reivindicações de liberdade religiosa, propostas humanitárias, negociações institucionais e diálogo político internacional. Doze anos depois, assumiria a presidência mundial da Associação Geral, cargo que ocuparia de 1999 a 2010.

Durante o fórum, Neal Wilson apresentou propostas relacionadas à paz, à liberdade religiosa, ao reconhecimento dos direitos de consciência e à cooperação internacional. A liderança adventista também ofereceu sua experiência em educação, saúde, prevenção do alcoolismo, enfrentamento das drogas e outros serviços sociais. O conjunto das propostas demonstrava a disposição de participar de iniciativas reconhecidas como relevantes pelas autoridades soviéticas, ao mesmo tempo que buscava melhores condições para o funcionamento da denominação.

A participação de Paulsen nesse ambiente ajuda a explicar a permanência de uma cultura administrativa que valoriza a representação internacional e o relacionamento com governos. Sua futura presidência mundial não começou num vazio de experiências diplomáticas. Ele conhecia pessoalmente os mecanismos de interlocução utilizados pela Associação Geral e havia participado de negociações em que interesses religiosos e administrativos eram apresentados diretamente a autoridades políticas.

Zaokski: o resultado permanente das negociações

O desdobramento mais concreto dessa aproximação ocorreu em dezembro de 1988, com a inauguração do seminário adventista de Zaokski, ao sul de Moscou. A cerimônia contou com a presença de Neal Wilson, representando a Igreja Adventista mundial, e Konstantin Kharchev, representando o governo soviético. O estabelecimento tornou-se um centro de formação religiosa e administração denominacional, materializando parte das reivindicações apresentadas durante os contatos iniciados em 1986.

A inauguração de Zaokski demonstra que o relacionamento com o Kremlin não terminou no aperto de mão de fevereiro de 1987. As negociações contribuíram para estabelecer condições institucionais duradouras dentro da União Soviética. A denominação conquistou infraestrutura e reconhecimento para atividades educacionais e administrativas, enquanto o governo participou diretamente das condições que tornaram possível essa expansão.

É nesse ponto que a fotografia de Wilson e Kharchev alcança seu significado histórico mais profundo. O cumprimento tornou-se símbolo de uma relação que produziu instalações, autorizações e mecanismos de cooperação. A aproximação alcançou o território, a organização administrativa, a formação de líderes e a circulação de literatura religiosa. O vínculo entre a direção da igreja e a autoridade estatal deixou consequências materiais que ultrapassaram os mandatos dos dirigentes envolvidos.

A presidência de Paulsen e a consolidação da representação internacional

Quando Jan Paulsen assumiu a presidência da Associação Geral em 1999, encontrou uma denominação cuja capacidade diplomática internacional já estava consolidada. Durante seu mandato, a organização continuou participando de iniciativas de liberdade religiosa, diálogos interconfessionais, reuniões com autoridades governamentais e projetos humanitários internacionais. A experiência acumulada durante a aproximação com a União Soviética integrava uma história administrativa mais ampla, marcada pela crescente importância de departamentos especializados em representação pública.

A continuidade não deve ser observada apenas nas fotografias dos dirigentes. Encontra-se no funcionamento das estruturas que permanecem entre uma presidência e outra. A Associação Geral dispõe de departamentos, instituições educacionais, editoras, serviços humanitários e organismos voltados ao relacionamento com governos e organizações internacionais. Essa arquitetura permite que os objetivos institucionais prossigam mesmo quando mudam os presidentes, os interlocutores políticos e as circunstâncias históricas.

O significado de Paulsen nessa trajetória está na passagem de participante de uma negociação internacional para dirigente máximo da organização que desenvolvia essas relações. Sua carreira representa a continuidade de um modelo administrativo no qual a interlocução com autoridades políticas se tornou componente permanente do exercício do poder denominacional.

Ted Wilson: a continuidade da diplomacia sob uma linguagem profética conservadora

Em 2010, Ted N. C. Wilson, filho de Neal Wilson, assumiu a presidência mundial da Igreja Adventista. Sua comunicação pública enfatizou a preservação das doutrinas tradicionais, a autoridade das Escrituras, a importância dos escritos de Ellen G. White e a identidade profética da denominação. Entretanto, a organização que passou a dirigir já possuía uma extensa estrutura de relações internacionais e representação diante de governos, organismos multilaterais e lideranças religiosas.

Essa coexistência entre discurso profético conservador e atuação diplomática internacional constitui uma das contradições que examinamos. A liderança mantém a linguagem religiosa associada à advertência contra a união entre Igreja e Estado, enquanto a administração mundial participa de iniciativas que exigem contatos permanentes com autoridades civis, representantes de outras religiões e organismos internacionais.

Em 2013, Ted Wilson participou do II Festival Mundial de Liberdade Religiosa, realizado em São Paulo, ao lado de Erton Köhler e representantes de diferentes comunidades religiosas e instituições públicas. O evento demonstrou a importância atribuída pela denominação aos espaços de representação interconfessional e ao relacionamento com autoridades políticas em torno de objetivos compartilhados.

O contraste com a experiência de Neal Wilson é historicamente significativo. O pai negociou diretamente com representantes de um Estado comunista em processo de abertura. O filho presidiu uma organização internacional que continuou desenvolvendo relações institucionais com autoridades políticas e religiosas num cenário geopolítico diferente. Entre ambos, Jan Paulsen exerceu a presidência mundial e participou da continuidade dessa cultura administrativa.

Três presidentes, diferentes circunstâncias históricas e uma característica institucional comum: a Associação Geral consolidou uma presença diplomática internacional que ultrapassa a atividade religiosa convencional.

O poder que permanece quando os presidentes mudam

As administrações de Neal Wilson, Jan Paulsen e Ted Wilson revelam uma característica fundamental da organização adventista contemporânea: o poder institucional não se esgota na figura do presidente mundial. Ele também reside nos departamentos especializados, nas relações diplomáticas, nas instituições educacionais, nos organismos de representação, nos recursos financeiros e nas redes administrativas que permanecem em funcionamento durante décadas.

Essa estrutura oferece uma chave para compreendermos a expressão Deep State empregada em nossa interpretação editorial. O aspecto que examinamos é a continuidade de relações e interesses administrativos que atravessam mandatos individuais, mudanças políticas e transformações internacionais. A organização religiosa desenvolveu uma capacidade de interlocução com centros governamentais que pode funcionar independentemente da visibilidade pública de seus dirigentes.

O caso soviético demonstra essa característica. As negociações envolveram dirigentes da Associação Geral, representantes editoriais, responsáveis por instituições denominacionais, administradores regionais e autoridades governamentais. Os resultados foram incorporados ao funcionamento da igreja e permaneceram depois dos encontros que os originaram. A fotografia do aperto de mão registrou uma relação pessoal entre dois dirigentes, mas as consequências alcançaram o funcionamento de estruturas permanentes.

A questão que apresentamos aos membros é muito mais ampla do que a participação de um presidente adventista num fórum político. Trata-se de saber como a direção mundial estabelece seus objetivos de relacionamento governamental, quem participa das negociações, quais interesses institucionais são apresentados, como os compromissos são aprovados e de que maneira seus resultados são explicados à comunidade religiosa que sustenta a organização.

A fachada religiosa e a corporação diplomática

A Igreja Adventista apresenta-se ao mundo por meio da Bíblia, da pregação, da educação religiosa, da saúde e da assistência humanitária. Essa é a face que seus membros reconhecem nas congregações, nas escolas, nos hospitais e nas atividades missionárias. Entretanto, a história de suas relações internacionais revela outra dimensão: uma administração mundial que participa de negociações com Estados, desenvolve acordos institucionais, procura reconhecimento oficial, administra recursos e constrói relações permanentes com autoridades políticas.

É essa arquitetura de poder que nossa investigação coloca sob exame. Não basta acompanhar os discursos religiosos pronunciados em púlpitos ou assembleias denominacionais. Precisamos examinar também os relacionamentos administrativos cultivados fora desses espaços, as decisões tomadas em reuniões internacionais e os compromissos negociados por representantes da igreja diante de governos.

O encontro entre Neal Wilson e Konstantin Kharchev representa um marco dessa transformação. O presidente adventista não participou apenas de uma reunião sobre liberdade religiosa. Sua administração articulou reivindicações, promoveu visitas, mobilizou recursos, apresentou propostas de cooperação e participou de um processo que produziu instalações e reconhecimento para a denominação em território soviético.

Esse modo de funcionamento aproxima a Associação Geral da lógica de uma corporação internacional de representação, ainda que sua identidade jurídica e religiosa permaneça distinta daquela de um Estado. A analogia de igreja-Estado que utilizamos refere-se à combinação de autoridade religiosa centralizada, interesses administrativos globais e relações permanentes com governos. O contraste com a pregação adventista tradicional sobre os perigos da união entre poder civil e religioso é o centro de nossa denúncia.

Conclusão: a fotografia permanece, mas o verdadeiro poder está na estrutura

O aperto de mão entre Neal Wilson e Konstantin Kharchev concentra visualmente uma transformação que ultrapassou o episódio de fevereiro de 1987. Os contatos haviam começado antes, intensificaram-se durante o fórum de Moscou e produziram resultados concretos nos anos seguintes. A contribuição para Chernobyl, as visitas recíprocas, as propostas editoriais, as autorizações para publicações e a inauguração do seminário de Zaokski demonstram o alcance administrativo da aproximação.

A interpretação maçônica atribuída ao gesto por Texe Marrs acrescentou uma dimensão simbólica à fotografia. O debate sobre o significado desse cumprimento integra a discussão mais ampla sobre redes de influência e relações internacionais. Entretanto, são as consequências institucionais do relacionamento que permitem compreender sua importância histórica. A Associação Geral demonstrou possuir capacidade de negociação com autoridades políticas de alto escalão e utilizou essa capacidade para ampliar sua presença administrativa e religiosa.

Jan Paulsen participou pessoalmente da aproximação com o Kremlin antes de se tornar presidente mundial. Ted Wilson assumiu posteriormente a direção de uma denominação cuja estrutura diplomática internacional já estava consolidada. A continuidade entre essas administrações revela que o relacionamento com governos não representou uma experiência isolada de Neal Wilson, mas uma dimensão permanente da atuação mundial adventista.

É essa permanência que denunciamos. Uma denominação que apresenta aos membros uma mensagem profética de advertência contra a união entre religião e poder político desenvolveu, paralelamente, uma estrutura administrativa capaz de negociar diretamente com governos, obter reconhecimento, participar de projetos internacionais e cultivar relações institucionais que atravessam gerações de dirigentes.

A fotografia do cumprimento entre Wilson e Kharchev tornou-se o símbolo visível dessa contradição. Entretanto, a realidade mais profunda não está apenas nas mãos que se encontraram em Moscou. Está na organização que tornou possível aquele relacionamento, nos interesses que o sustentaram e nas estruturas que permaneceram depois dele.

O aperto de mão durou alguns segundos. A aproximação produziu anos de negociações e consequências institucionais permanentes. O que precisamos compreender, portanto, não é somente o gesto de Neal Wilson diante de Kharchev, mas a transformação de uma liderança religiosa mundial numa administração dotada de recursos, representação internacional e acesso direto aos centros de decisão política.

Entre Neal Wilson, Jan Paulsen e Ted Wilson, a história revela uma continuidade que não pode ser explicada apenas pela sucessão de presidentes. O que permaneceu foi a arquitetura internacional de poder da Associação Geral — uma estrutura capaz de apresentar-se como organização religiosa aos fiéis e como interlocutora administrativa aos governos.

Documentos históricos

  • Adventist Review, 7 de maio de 1987. William G. Johnsson, Adventists and the Soviet Union: A New Era?, e Roland R. Hegstad, Peace Words Flying. Relatos sobre as negociações de Neal Wilson, o encontro com Konstantin Kharchev, a participação de Jan Paulsen e a cooperação entre dirigentes adventistas e autoridades soviéticas. Consultar a edição histórica.
  • Ministry, março de 1987. J. Robert Spangler, Religion and Communism. Relato sobre a aproximação com autoridades soviéticas e a contribuição financeira enviada pela Associação Geral para as vítimas de Chernobyl. Consultar o artigo.
  • Adventist Review, 16 de fevereiro de 1989. Adventist Church Dedicates First Seminary in U.S.S.R. Registro da inauguração do seminário de Zaokski e da participação de Neal Wilson e Konstantin Kharchev. Consultar a edição histórica.
  • Texe Marrs, Codex Magica. Página 174. Interpretação do cumprimento entre Neal Wilson e Konstantin Kharchev como aperto de mão maçônico.

Los Angeles Times registrou negociações da liderança adventista com a União Soviética em 1988

1985. Da esquerda para a direita: N. A. Zhukaluk, Neil Wilson, M. P. Kulakov e Alf Lohne discutem com entusiasmo as mudanças ocorridas na Igreja Adventista do Sétimo Dia na URSS, em função da união alcançada entre os pastores.

Mundo e Nação

Adventistas e soviéticos negociam construção de gráfica conjunta

Por JOHN DART
30 de abril de 1988, 0h (horário do Pacífico)
Escritor de religião do Times

De acordo com a denominação sediada em Washington, a Igreja Adventista do Sétimo Dia está “negociando seriamente” com a União Soviética a construção de uma editora religiosa conjunta naquele país.

“Eles provavelmente forneceriam o terreno e o prédio, e nós provavelmente instalaríamos os equipamentos lá”, disse Shirley Burton, diretora de notícias adventista.

Caso se concretize, esse acordo sem precedentes representaria uma grande conquista para uma organização religiosa ocidental que busca se beneficiar das oportunidades, ainda que gradualmente crescentes, de expressão religiosa na União Soviética.

Mas isso seria ainda mais verdadeiro para os Adventistas do Sétimo Dia, uma igreja crescente, porém relativamente discreta. Embora tenha 5,2 milhões de membros em todo o mundo, a igreja (700 mil membros nos EUA) se distingue do restante do protestantismo conservador principalmente por sua ênfase em serviços de saúde e vegetarianismo, além de um zelo pela liberdade religiosa que deriva, sobretudo, de sua adesão ao sábado como dia de descanso. A igreja foi fundada no século XIX.

Uso pelo Governo

As discussões iniciais conceberam a editora como um serviço que abrangeria mais do que os 32.000 membros da pequena Igreja Adventista na União Soviética. O governo usaria as impressoras para outras publicações religiosas e até 50% do tempo para suas próprias publicações comerciais, disse Burton em entrevista por telefone.

“Ainda não há acordo”, acrescentou Burton. Ela disse que foi informada na quarta-feira pelo Reverendo Mikhail P. Kulakov, presidente da Associação dos Adventistas do Sétimo Dia na União Soviética, que o Comitê Central do Partido Comunista ainda está avaliando a possibilidade.

Kulakov receberá hoje um doutorado honorário do Southwestern Adventist College em Keene, Texas, onde também fará o discurso de formatura.

Esse gesto ilustra as relações cordiais já desenvolvidas entre os líderes soviéticos e adventistas, resultando em:

– Autorização, recebida este ano, para imprimir 13.000 Bíblias em russo e 2.000 em ucraniano para distribuição na União Soviética.

– Construção de um seminário adventista de três andares, um complexo de apartamentos e um escritório da igreja em Tula, a cerca de 120 quilômetros a sudoeste de Moscou. A previsão é de que a construção seja concluída até agosto, mas a formação de 16 alunos já está em andamento.

– Uma revista que examina a vida da Igreja Adventista na União Soviética e nos Estados Unidos, traduzida para o russo e impressa em 30.000 exemplares no ano passado.

A publicação da revista de 36 páginas, totalmente colorida, ocorreu após a visita, em outubro de 1986, de Konstantin Kharchev, presidente do Conselho de Assuntos Religiosos da URSS, à editora Adventists’ Review and Herald Publishing Assn., em Hagerstown, Maryland.

Visita às instalações

Kharchev e Kulakov, acompanhados pelo presidente mundial da Igreja Adventista, Neal Wilson, visitaram campi universitários adventistas, hospitais e outras instalações no sul da Califórnia em setembro passado.

Na Universidade Loma Linda, Kharchev descreveu seu trabalho como “proteger os direitos de todas as facções religiosas em nosso país e garantir que, independentemente do tamanho e da influência, todos sejam tratados de forma justa”.

Na União Soviética, disse ele, “não falamos das pessoas como ateias, cristãs, judias, hindus ou coisas do gênero. Existem os ‘crentes’, que acreditam em algo que satisfaz suas necessidades internas ou espirituais, e os ‘não crentes’, que são ateus.”

Ao falar com otimismo sobre as mudanças nas relações entre Igreja e Estado sob o comando do líder soviético Mikhail Gorbachev, Kharchev disse que renunciaria ao cargo que ocupa desde 1984 se as relações entre Igreja e Estado em seu país não melhorassem.

Atenção

Alguns adventistas americanos, no entanto, expressaram cautela em relação à possibilidade de uma gráfica conjunta adventista-URSS.

Um editorial na edição atual da Spectrum, uma revista independente, afirmou que seria “moralmente grotesco” se a igreja se comprometesse com tal acordo sem insistir que o governo soviético libertasse da prisão 11 “prisioneiros de consciência” que se autodenominam Adventistas Verdadeiros e Livres, mas não são membros da Igreja Adventista do Sétimo Dia, reconhecida pelo governo.

Roy Branson, editor da revista Spectrum e também pesquisador sênior do Instituto Kennedy de Ética, elogiou Wilson, presidente da Igreja Adventista do Sétimo Dia, por ter emitido um apelo por escrito no ano passado em Moscou, pedindo a libertação soviética de todos os “prisioneiros de consciência” até 1º de maio de 1988, em conexão com as comemorações dos 1.000 anos do cristianismo na Rússia.

Responsabilidade para com os Prisioneiros

Mas Branson acrescentou: “Parece que os adventistas têm uma responsabilidade especial de trabalhar em prol dos prisioneiros de consciência que são adventistas observadores do sábado, independentemente de pertencerem ou não a grupos reconhecidos pelo governo soviético.”

No entanto, os líderes adventistas dos EUA não estão condicionando o acordo à libertação dos adventistas soviéticos, afirmou Burton, porta-voz da sede da igreja. “Alguns desses 11 já estão fora da prisão, segundo Kulakov”, disse ela. O líder adventista soviético, que já esteve preso, também informou a Burton que nenhum adventista do sétimo dia está preso atualmente.

Burton reconheceu que alguns adventistas questionaram se é aconselhável que a igreja esteja tão intimamente ligada ao Estado soviético.

Nesse sentido, Branson alertou que “à medida que os líderes adventistas desfrutam de uma crescente intimidade com o governo soviético, podem ficar relutantes em lutar contra a interferência governamental se isso representar o risco de perder os privilégios recém-adquiridos pela denominação”.

A revista Spectrum noticiou que a União Soviética deteria 51% da fábrica, recebendo essa parte dos lucros, e que um funcionário do governo soviético seria o presidente do conselho. Mas Burton disse que essas questões ainda não foram decididas.

OBS. Ainda estamos procurando especificamente uma foto dos três juntos — Kharchev + Mikhail P. Kulakov + Neal C. Wilson — e conseguimos estreitar bastante o evento, mas ainda não localizamos na web aberta uma fotografia em que possamos confirmar visualmente os três.

O mais importante é que agora sabemos que essa situação aconteceu de fato. O Los Angeles Times registrou que, em setembro de 1987, Kharchev e Kulakov, acompanhados por Neal Wilson, visitaram universidades, hospitais e outras instalações adventistas no sul da Califórnia, incluindo Loma Linda University. Los Angeles Times

Fonte: Reportagem contemporânea do Los Angeles Times sobre a viagem dos três

Em 29 de janeiro de 1987, Wilson informou ao Comitê da Associação Geral que havia recebido naquele mesmo dia telefonema de Harold F. Otis Jr., que estava na União Soviética mantendo contatos com funcionários públicos. Otis comunicou que Konstantin Kharchev, presidente do Conselho de Assuntos Religiosos soviético, havia liberado a publicação de 30 mil revistas, autorizado o envio de 50 coleções do SDA Bible Commentary e aprovado um seminário adventista, inclusive com terreno entre Tula e Moscou.

A ata registra que Kharchev havia feito a Wilson um convite pessoal para participar, em fevereiro, do International Forum for a Nuclear-Free World and the Survival of Humanity, em Moscou. Wilson decidiu aceitar e levar consigo Jan Paulsen, Roland Hegstad e o físico nuclear Ray Hefferlin.

Kharchev não era simplesmente um “religioso soviético”. Era o presidente do Council for Religious Affairs do Conselho de Ministros da URSS, isto é, o homem colocado pelo Estado soviético sobre a interface governamental com as religiões.

E fontes históricas posteriores registram uma declaração extraordinária do próprio Kharchev sobre o funcionamento desse sistema: ele afirmou que nenhuma candidatura para bispo ou outro alto posto da Igreja Ortodoxa passava sem confirmação do Comitê Central do Partido Comunista e da KGB.

Há documentação histórica ainda mais específica: decisões relativas ao envio de religiosos soviéticos ao exterior passavam por uma engrenagem que incluía Ministério das Relações Exteriores, KGB, Council for Religious Affairs — pessoalmente na figura de Kharchev — e o Departamento de Propaganda do Comitê Central.

Isso não permite chamar automaticamente Kharchev de “agente da KGB”. Mas permite uma formulação muito mais interessante e documental:

Neal Wilson mantinha relacionamento pessoal e negociava a expansão adventista na URSS com o dirigente do órgão estatal soviético que funcionava dentro de uma arquitetura de controle religioso articulada com o Comitê Central e a KGB.

E Kharchev foi levado por Wilson para conhecer a infraestrutura adventista americana. Também confirmei algo extraordinário em fonte jornalística contemporânea.

Em 1986, Kharchev esteve nos Estados Unidos. Neal Wilson o convidou a conhecer instituições adventistas. Posteriormente, Wilson acompanhou Kharchev e Mikhail Kulakov em visitas a campi universitários, hospitais e outras instalações adventistas na Califórnia. O Los Angeles Times registrou essa relação em 1988, no contexto das negociações adventistas com a União Soviética. Los Angeles Times

Outra memória adventista registra inclusive Kharchev sendo acompanhado durante visitas ao Adventist Media Center e a Loma Linda e participando de uma conversa telefônica com o senador americano Richard Lugar.

Olhe a posição peculiar que a IASD ocupava: um alto funcionário soviético responsável pela política religiosa era recebido pelo presidente mundial adventista nos Estados Unidos e apresentado à infraestrutura denominacional americana, enquanto a mesma liderança negociava a abertura institucional adventista dentro da URSS.

Há uma pista ainda melhor: o próprio Kulakov relata a viagem em suas memórias. Ele conta que acompanhou Kharchev aos Estados Unidos como intérprete, inclusive durante visita ao Adventist Media Center e ao Loma Linda Medical Center. Relata até que atuou como intérprete numa conversa telefônica entre Kharchev e o senador Richard Lugar.

Portanto, não estamos mais procurando uma fotografia hipotética. Temos um evento fotografável, com os personagens e locais identificados.

Também encontrei outra fotografia histórica muito interessante, embora não seja a dos três. Em foto de dezembro de 1988, postada com melhor iluminação no início do texto, Wilson e Kharchev aparecem juntos inspecionando equipamentos do recém-inaugurado seminário de Zaoksky. A Adventist Review publicou a fotografia com a legenda explícita “Wilson and Kharchev inspect seminary equipment”. Na mesma cerimônia estava Mikhail P. Kulakov, que discursou e era uma das figuras centrais da inauguração. Arquivos Adventistas

Ou seja, temos outro evento em que os três estavam fisicamente no mesmo lugar. A busca agora tem dois alvos muito precisos:

Setembro de 1987 — Califórnia:
Kharchev + Kulakov + Wilson → Adventist Media Center / Loma Linda University Medical Center e outras instituições.

2 de dezembro de 1988 — Zaoksky, URSS:
Kharchev + Kulakov + Wilson → inauguração do primeiro seminário adventista soviético.

E há uma terceira descoberta que pode ser ainda mais interessante para o artigo: a Spectrum de novembro de 1988 informa que, em setembro de 1987, Kharchev, acompanhado por Wilson, foi levado de avião a Andrews University e Loma Linda University.

Wilson ao centro e Kulakov à direita, no encontro de 1985; a fonte da Divisão Euro-Asiática associa a imagem às conversações em Moscou.

A fotografia dos três provavelmente está em uma das edições impressas de Adventist Review / Pacific Union Recorder / Loma Linda University publications entre setembro e dezembro de 1987, ou no conjunto fotográfico da inauguração de Zaoksky de dezembro de 1988.

E aqui aparece outra circunstância muito favorável: Kulakov estava diretamente envolvido naquele seminário. Portanto, além da Califórnia, Zaoksky continua sendo outro evento em que devemos procurar fotografias do trio.

Uma correção importante sobre a viagem à Califórnia

As memórias de Kulakov trazem uma pequena divergência cronológica interessante. Ele recorda ter acompanhado Kharchev aos EUA como intérprete durante uma viagem associada à conferência de diplomacia pública de Chautauqua e descreve especificamente o Adventist Media Center e Loma Linda Medical Center, inclusive a conversa telefônica Kharchev–senador Richard Lugar. Scribd

Já as fontes jornalísticas contemporâneas colocam claramente a visita de Kharchev + Kulakov + Wilson ao sul da Califórnia em setembro de 1987. Los Angeles Times

Isso significa que talvez estejamos lidando com mais de uma visita, ou com imprecisão de memória/data no relato posterior de Kulakov. Não devemos misturar os conjuntos fotográficos.

Quando Neal Wilson deixou a presidência mundial em 1990, não simplesmente se aposentou.

A ata oficial de janeiro de 1991 registra seu novo cargo:

“General Administrative Consultant for the USSR Division.”

Ou seja, Wilson tornou-se consultor administrativo geral para a Divisão da URSS. Arquivos Adventistas

E a ata de maio de 1991 explica explicitamente a missão: Wilson continuaria trabalhando para desenvolver a Divisão da URSS, em estreita colaboração com o presidente da Associação Geral e o presidente daquela Divisão. Arquivos Adventista

presidente mundial → relacionamento pessoal com Kharchev → Moscou → negociações com o Estado soviético →. reconhecimento/expansão institucional → aposentadoria → consultor especificamente encarregado da URSS.

Portanto, a União Soviética não foi uma visita ocasional de Wilson. Tornou-se uma atribuição institucional específica.

Outra memória adventista registra inclusive Kharchev sendo acompanhado durante visitas ao Adventist Media Center e a Loma Linda e participando de uma conversa telefônica com o senador americano Richard Lugar.

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