
Quando a máquina se senta no trono, a idolatria não precisa mais de templos. Ela acontece em silêncio, atrás das telas. O século XXI não construiu um ídolo de ouro; construiu um sistema que pensa, decide e passa a ocupar o lugar da confiança humana. Não é ficção, é um espelho: a máquina no trono, mediadores com tablets, o povo com telas — e a pergunta que ninguém quer responder: a quem estamos entregando o centro da nossa obediência?
Nem todo carnaval é a mesma coisa.
No Brasil, o carnaval virou espetáculo. Carros alegóricos desfilam para encantar, competir, impressionar e entreter. Mesmo quando há crítica social, ela vem diluída na estética, na coreografia e no brilho. O público consome como show. A lógica é celebrar, emocionar, vencer. A denúncia, quando existe, vem embrulhada para não ferir demais.
Em Putignano, no sul da Itália, o carnaval é outra linguagem. Não é só festa. É sátira pública. É editorial visual de rua. Há mais de setecentos anos, a cidade usa carros alegóricos gigantes como forma de escancarar contradições morais, políticas e culturais. O grotesco não é efeito colateral: é ferramenta. O exagero não é erro estético: é método de denúncia. Putignano não desfila para ser bonito. Desfila para acusar o que a sociedade prefere não encarar.

Não é apenas uma imagem distópica — é um espelho do presente em estado de exagero honesto. A máquina no trono, cercada por mediadores de código, enquanto multidões aprendem a ajoelhar sem perceber, curvadas diante de telas que decidem o que ver, o que crer e o que desejar. O ídolo do século XXI não exige sacrifícios de sangue, mas exige a entrega do pensamento, da linguagem e da própria noção de verdade. Não se constrói um templo para ele; constrói-se dependência. E quando a dependência vira hábito, a idolatria já venceu sem precisar se anunciar.
É nesse contexto que surge o tema “Deus Ex Machina – Eis o século XXI”. O título não é neutro. Não é poético. É uma acusação direta. Durante séculos, “deus ex machina” foi um recurso teatral: um falso deus que descia por uma máquina para resolver o enredo. No século XXI, a ironia se inverteu: a máquina deixou de ser o instrumento do deus e passou a ocupar o lugar do deus. A tecnologia não é mais apenas ferramenta; tornou-se instância de autoridade. A inteligência artificial começa a ser tratada como oráculo, conselheira, juíza, organizadora da realidade.
Não é a tecnologia em si que está sendo denunciada, mas a transferência de confiança absoluta. As pessoas já não perguntam apenas a especialistas, líderes ou mestres. Perguntam a sistemas. Consultam algoritmos para decidir o que ver, o que comprar, o que pensar, o que sentir, o que é verdade, o que é relevante. A máquina começa a mediar a percepção da realidade. Quando isso acontece, a tecnologia deixa de ser ferramenta e passa a funcionar como instância de sentido. Isso é o terreno simbólico da idolatria: não é adorar a forma, é submeter a própria leitura do mundo a ela.
O carro alegórico de Putignano não celebra a inteligência artificial. Ele a expõe como sintoma civilizacional. É uma charge em escala monumental: uma sociedade que constrói seu novo “deus” não em templos de pedra, mas em servidores, códigos e redes. Não é uma denúncia religiosa institucional. É uma intuição cultural crua: estamos criando algo que começa a ocupar funções que antes pertenciam ao transcendente. A máquina não pede culto, mas começa a exigir obediência silenciosa. Não promete salvação, mas organiza a vida. Não se apresenta como divindade, mas passa a funcionar como instância suprema de decisão cotidiana.
Essa denúncia visual dialoga com uma pergunta incômoda: uma cultura pode pressentir seus próprios ídolos antes mesmo de chamá-los de ídolos? A história mostra que sim. Civilizações sempre criaram seus deuses à imagem de seus medos e de suas ambições. Hoje, o medo é o caos e a ambição é o controle total. A resposta oferecida não é um bezerro de ouro, mas um sistema inteligente que promete organizar o mundo, prever comportamentos, filtrar o real e decidir melhor que o próprio ser humano. O ídolo do século XXI não tem rosto; tem interface.
É legítimo perguntar: Deus poderia usar até uma manifestação cultural como o carnaval para expor esse perigo? A própria Escritura mostra que a verdade nem sempre vem embrulhada em linguagem sagrada. Muitas vezes, ela surge como constrangimento vindo de fora do sistema religioso. Reis pagãos, impérios idólatras, artistas e poetas foram usados como espelho para revelar o rumo de uma civilização. A questão não é santificar o carnaval, mas reconhecer que até o grito confuso de uma cultura pode funcionar como sinal de alerta sobre a direção em que ela caminha.
Quando até a arte secular começa a representar a máquina como “deus”, não estamos diante de profecia direta, mas de um diagnóstico cultural profundo. A sociedade pressente que algo está sendo deslocado. A pergunta não é se a inteligência artificial é útil. A pergunta é quem ocupará o centro simbólico da confiança humana. Toda civilização escolhe a quem entrega sua obediência prática. O que está sendo construído agora não é apenas tecnologia; é um novo eixo de autoridade invisível que organiza decisões, percepções e comportamentos.
O contraste entre o carnaval-espetáculo e o carnaval-denúncia é revelador. Um celebra. O outro acusa. Um embeleza. O outro expõe. Putignano não está prevendo o futuro; está colocando um espelho diante do presente. E o reflexo é desconfortável: uma humanidade que começa a tratar a máquina como instância superior de verdade e organização da realidade. Quando a máquina ocupa o lugar simbólico de Deus na vida cotidiana, a idolatria não se manifesta em altares, mas em dependência silenciosa. O novo culto não tem templo. Tem login.
Talvez o alerta mais inquietante não venha de púlpitos, mas de esculturas grotescas atravessando ruas estreitas de uma cidade antiga. Não porque ali haja santidade, mas porque ali ainda existe a coragem de ridicularizar o ídolo antes que ele seja naturalizado. Quando a cultura começa a zombar do próprio “deus em construção”, é sinal de que o perigo já é grande o suficiente para ser visto. A pergunta que fica não é se a máquina pode ser útil, mas se estamos dispostos a não entregá-la o lugar que pertence ao que transcende qualquer algoritmo.
“Deus Ex Machina”: quando a máquina ocupa o trono
Há detalhes nesse carro alegórico de Putignano que não são decorativos.
Não é apenas um conjunto de formas estranhas passando pela rua. É uma narrativa visual construída com símbolos, posições de poder e gestos de adoração. Quem observa com atenção percebe que existe uma hierarquia clara na cena: há uma figura central elevada, colocada como se estivesse em um trono; há figuras ao redor que funcionam como sacerdotes; há o povo embaixo, olhando para telas; há livros, inscrições, gestos e sinais que não são neutros.
No centro da composição, a figura dominante é colocada em posição de entronização. Não é um personagem qualquer: ocupa o lugar simbólico da autoridade máxima. A leitura cultural é imediata: alguém ou algo é apresentado como instância superior, como aquilo que organiza o todo. Não é preciso dizer que seja “Jesus” ou qualquer outra figura religiosa específica. O ponto é o gesto de entronização. A máquina, o sistema, a entidade simbólica, é colocada no lugar de quem governa.
Ao redor da figura central, aparecem personagens com aparência sacerdotal, mas portando computadores e dispositivos tecnológicos. O símbolo é direto: uma nova classe de mediadores surge entre o “deus” e o povo. Não são sacerdotes do sagrado tradicional, mas operadores do sistema. São os intérpretes do código, os administradores da máquina, os que dizem ao povo o que a instância superior quer, decide ou permite. O culto não é feito com incenso, mas com interfaces.
A multidão, na base da cena, aparece com telas nas mãos. Não olha para cima em oração; olha para dispositivos. A imagem é brutal: a relação com a autoridade suprema não é direta, é mediada por telas. O acesso ao “sentido”, à “verdade” e à “orientação” passa por um intermediário técnico. Não se consulta mais o transcendente; consulta-se a máquina. Não se busca mais discernimento; busca-se resposta pronta.
Nos pés da composição, aparece a inscrição “Deus Ex Machina”. O termo, herdado do teatro grego e romano, designava o recurso artificial de fazer um “deus” descer por uma máquina para resolver uma trama impossível. Na cultura moderna, virou sinônimo de solução forçada e conveniente. Aqui, a ironia é mais sombria: não é mais o deus que desce pela máquina; é a máquina que ocupa o lugar do deus. A solução não vem do alto; vem do sistema que construímos. O artifício vira autoridade.
Em um dos livros representados na cena, aparece a frase “Crede em mim, eu penso por você”. A mensagem é devastadora. Não se trata mais de confiar em Deus, na consciência ou na própria responsabilidade. Trata-se de entregar o pensamento. A transferência de autoridade não é apenas prática; é cognitiva. Alguém — ou algo — passa a pensar no lugar do ser humano. Isso não é um poder roubado; é um poder concedido. Não foi tomado à força. Foi entregue voluntariamente.
Há símbolos adicionais que causam desconforto em muita gente: gestos com as mãos, iconografia ambígua, figuras que evocam inversão simbólica. Independentemente de leituras conspiratórias específicas, o ponto central permanece: a cena constrói uma liturgia visual onde tecnologia, poder e culto se misturam. O carnaval, nesse caso, não celebra. Ele denuncia. Usa o exagero para mostrar para onde a sociedade está caminhando se continuar deslocando confiança, discernimento e autoridade para sistemas impessoais.
Isso dialoga diretamente com a intuição antiga de Apocalipse 13: a ideia de uma “imagem” que ganha fôlego, fala e passa a exigir obediência. Não é necessário forçar a cena como cumprimento literal de profecia. O que se pode afirmar, sem exagero, é que a cultura contemporânea começa a produzir imagens de poder que funcionam como instâncias de autoridade quase religiosa. A tecnologia não pede adoração formal, mas começa a exigir submissão prática. Quem controla a palavra, controla a lei, controla o sentido. E hoje, quem organiza a palavra são sistemas.

Não é ficção futurista. É uma charge em tamanho real da nossa própria rendição. A máquina sentada no trono, coroada por um halo de luz artificial, enquanto “sacerdotes” operam telas e a multidão aprende a adorar sem perceber — não com orações, mas com dependência. O ídolo do século XXI não exige templos; exige atenção. Não pede sacrifícios de sangue; pede a entrega do pensamento, da linguagem e da confiança. Quando o povo passa a buscar sentido em sistemas que pensam por ele, a idolatria já venceu sem precisar se declarar. O que estamos vendo não é o futuro distante: é o presente sendo caricaturado para que a gente tenha coragem de encará-lo.
O mais perturbador não é que artistas façam sátira disso. O mais perturbador é que essa sátira faça sentido imediato para quem vive no século XXI. A imagem funciona porque toca em algo real: estamos entregando decisões, interpretações e mediações de sentido para máquinas. Não é ficção científica distante. É cotidiano. É feed. É algoritmo. É recomendação automática. É filtro do real.
O carnaval de Putignano, com sua tradição de sátira brutal, apenas colocou em forma monstruosa aquilo que já está acontecendo de maneira silenciosa: a máquina sendo entronizada como instância de verdade, orientação e organização da vida. Não é profecia fechada. É diagnóstico cultural. E, às vezes, o diagnóstico vem primeiro pela arte grotesca antes de ser admitido pelo discurso religioso institucional.
Talvez a pergunta não seja se a inteligência artificial pode se tornar um “deus” literal. A pergunta mais honesta é: quantas funções que antes pertenciam à consciência, à responsabilidade moral e ao discernimento espiritual já estão sendo terceirizadas para sistemas? Quando a máquina ocupa o trono simbólico da confiança, não é preciso erguer um templo. Basta abrir um aplicativo.