
Prometemos começar hoje. Ainda não vamos começar. Os textos estão sendo preparados, documentos já foram localizados e traduzidos, a sequência da investigação está montada, mas ainda estamos escolhendo fotografias históricas e produzindo as imagens que acompanharão cada matéria. Preferimos atrasar um pouco a estreia a publicar às pressas uma série que cresceu muito além daquilo que imaginávamos inicialmente.
O que começou como uma resposta ao artigo “Fé sem bandeiras”, publicado na Revista Adventista pelo professor de Teologia Felippe Amorim, abriu diante de nós uma documentação histórica que a maioria dos adventistas brasileiros provavelmente jamais leu. E alguns desses documentos dizem coisas surpreendentes.
NÃO SERÁ UM ARTIGO. SERÁ UMA SÉRIE DOCUMENTAL
O título geral será “FÉ COM BANDEIRAS E ARMAS — IACSD: IGREJA APARTIDÁRIA COMUNISTA DO SÉTIMO DIA”. A sigla é nossa, evidentemente, e funciona como provocação editorial diante da contradição que pretendemos demonstrar documentalmente. “Comunista” aqui porque começaremos pelas relações documentadas de adventistas e de instituições adventistas com homens e estruturas do comunismo cubano. À medida que a investigação avançar, encontraremos outras bandeiras, outros governos e outros interesses. É justamente aí que está a contradição.
O professor Felippe Amorim escreveu na Revista Adventista sobre uma “Fé sem bandeiras”, defendendo apartidarismo, discrição, unidade e preservação da igreja. É um discurso que pode soar muito convincente quando apresentado aos membros sem que, ao mesmo tempo, se coloque sobre a mesa a história política da própria Organização. Nossa série fará exatamente isso. Em vez de discutir apenas conceitos, vamos abrir documentos. Em vez de pedir ao leitor que aceite nossa interpretação antecipadamente, vamos traduzir fontes. Algumas delas são conhecidas por pesquisadores; outras permanecem praticamente desconhecidas da maioria dos adventistas brasileiros. Queremos que o leitor veja o documento, leia a tradução e então confronte aquilo que encontrou com o discurso atual do apartidarismo.
CADA DOCUMENTO SERÁ UMA MATÉRIA COMPLETA
Também decidimos mudar a forma de publicação. Não vamos despejar traduções isoladas no site. Cada documento será transformado numa matéria completa: introdução editorial, explicação de sua procedência e importância, antecipação dos principais achados, tradução integral do documento ou da passagem documental selecionada quando se tratar de obra mais extensa, e uma análise posterior mostrando como aquela peça se conecta às demais. Isso permitirá acompanhar a história cronologicamente e perceber algo que desaparece quando cada fonte é lida isoladamente: pessoas, instituições e relacionamentos reaparecem anos depois.
É justamente isso que torna o conjunto tão importante. Uma fonte adventista de 1959 conta uma parte. O próprio Che Guevara conta outra. Argelio Rosabal descreve detalhadamente o que fez. Um pesquisador adventista volta ao assunto em 1984. A Revista Adventista brasileira publica em 1989 um testemunho que conhece a história de Rosabal e procura interpretá-la espiritualmente. Um estudo acadêmico publicado em 2013 reencontra Rosabal e Che em 1963, depois da vitória revolucionária. Finalmente, em 2025, a própria Adventist Review publica uma reportagem sobre Cuba em que aparece a expressão “colaboração de longa data”. Não vamos começar pela conclusão e esconder o caminho. Vamos percorrer o caminho com o leitor.
1959 — O PRESIDENTE DO ANTILLIAN COLLEGE CONTA
A primeira peça documental nos levará diretamente a 1959. Walton J. Brown, então presidente do Antillian College, instituição adventista em Cuba, escreveu para a Review and Herald sobre aquilo que aconteceu durante os acontecimentos revolucionários. Seu relato fala de soldados e médicos rebeldes dentro da instituição, de aproximadamente 180 homens alimentados no colégio, das providências tomadas por causa do sábado, de contatos com autoridades surgidas da vitória revolucionária e até de uma apresentação do coral adventista diante de Fidel Castro.
Não vamos apenas citar algumas linhas convenientes. O leitor receberá a tradução do documento e poderá observar como o próprio presidente da instituição descreveu os acontecimentos poucos meses depois da vitória de Fidel. Será nossa primeira pergunta ao discurso contemporâneo da “Fé sem bandeiras”: como a denominação descrevia sua relação com os homens da Revolução quando os acontecimentos ainda estavam frescos?
DEPOIS, O PRÓPRIO CHE GUEVARA VAI FALAR
A segunda matéria mudará radicalmente o ponto de observação. Sairemos das publicações adventistas e iremos aos escritos do próprio Ernesto Che Guevara. Em Pasajes de la Guerra Revolucionaria, Che registrou encontros com adventistas durante a guerrilha. E o que escreveu merece ser lido pelos adventistas brasileiros diretamente, em vez de chegar até eles somente por intermédio de apologistas ou críticos.
Che identifica adventistas pelo nome e pela religião. Ao mencionar mulheres da família Moya, registra que, embora fossem contrárias à violência por causa de suas crenças, deram aos seus homens apoio franco naquele momento e “durante todo o transcurso da guerra”. Também menciona Argelio Rosabal, o adventista que os guerrilheiros conheciam como “El Pastor”. Quando essa matéria for publicada, portanto, não estaremos perguntando o que um crítico da IASD afirma que aconteceu. Estaremos perguntando: o que o próprio Che Guevara deixou escrito sobre a ajuda que recebeu de adventistas?
ENTÃO “EL PASTOR” CONTARÁ SUA PRÓPRIA HISTÓRIA
A terceira matéria será uma das mais extensas e importantes. Argelio Rosabal foi entrevistado anos depois sobre aqueles acontecimentos, e seu depoimento preservado possui 23 páginas. Ali descobrimos que o “Pastor” não era exatamente pastor ordenado. O próprio Rosabal esclarece que era adventista, dirigente da igreja, diretor da Escola Sabatina e fundador de uma congregação naquela região; Che e Juan Almeida é que o chamavam de “El Pastor”. Essa precisão torna seu depoimento ainda mais interessante porque permite localizar sua atuação dentro da própria comunidade adventista.
Rosabal conta que reuniu adventistas num sábado e lhes apresentou a situação dos sobreviventes da expedição do Granma. Sua frase é extraordinária: “temos que salvar essa gente”. A partir daí aparecem esconderijos, roupas, alimentação, deslocamentos, vigilância, mensagens, Che ferido e sofrendo de asma e até armas e munições que o guerrilheiro entregou a Rosabal para serem escondidas. É aqui que a palavra “armas” no título de nossa série deixa de ser apenas provocação ou metáfora.
E existe ainda a oração. Rosabal conta que orou e que os homens se ajoelharam. Décadas depois, essa cena seria utilizada por um advogado adventista numa interpretação completamente diferente daquela que faremos ao examinar o conjunto dos documentos. Antes disso, porém, queremos que o leitor conheça Rosabal por Rosabal.
1984 — CALEB ROSADO VOLTA À HISTÓRIA
Vinte e cinco anos depois da vitória de Fidel Castro, um pesquisador adventista chamado Caleb Rosado publicou na Spectrum o estudo Castro and the Churches. Esse documento será particularmente importante porque Rosado não nega o envolvimento adventista. Pelo contrário: registra que adventistas, especialmente leigos do Oriente cubano, simpatizaram com os revolucionários e lhes prestaram “assistência clandestina”. Mas a maneira como ele organiza e interpreta essa história merece ser examinada cuidadosamente.
Rosado começa pela crueldade e corrupção de Batista, tornando compreensível a simpatia pelos homens que pretendiam derrubá-lo, e depois apresenta uma interpretação da situação da Igreja dentro da nova sociedade revolucionária. Nossa matéria não ficará restrita à tradução. Vamos confrontar sua construção narrativa com Walton Brown, Che Guevara e, principalmente, com o depoimento muito mais detalhado de Argelio Rosabal. Quando Rosado escreve “assistência clandestina”, Rosabal nos permite perguntar: em que consistia concretamente essa assistência?
1989 — A HISTÓRIA CHEGA À REVISTA ADVENTISTA BRASILEIRA
Essa peça entrou na série depois e tornou o conjunto ainda mais interessante. Em abril de 1989, a Revista Adventista, publicada pela Casa Publicadora Brasileira, dedicou três páginas ao testemunho do advogado adventista Emerson Ottoni Prado. Prado condenava duramente o marxismo, chamava Che Guevara de “anjo da morte”, dizia que Fidel Castro se tornara ditador, perseguidor e assassino e classificava o marxismo como “espetáculo paralelo de Satanás”. Entretanto, no mesmo artigo, contou aos adventistas brasileiros que Argelio Rosabal escondera e ajudara Che Guevara.
E Prado encontrou uma explicação espiritual para aquilo. Depois de reproduzir a história de Rosabal orando com os homens, escreveu: “Che Guevara de joelhos perante Deus!” e declarou que era certo que o Espírito Santo estava naquele momento convidando Che a uma mudança de vida. Essa interpretação merece uma matéria própria porque levanta uma questão teológica enorme. Podemos documentar a oração. Podemos documentar a ajuda. Podemos documentar o ajoelhamento relatado pelas testemunhas. Mas com que autoridade alguém declara conhecer a intenção específica de Deus naquele encontro?
Nossa resposta será clara: a Obra de Deus é superior aos homens e às organizações humanas que trabalham em Seu nome. Os homens podem acertar e podem falhar. Instituições também podem tomar decisões equivocadas. Não precisamos colocar na conta de Deus tudo aquilo que adventistas fizeram para defender a Obra de Deus. Pelo contrário: a Obra é grande justamente porque não depende da infalibilidade de seus instrumentos humanos.
1963 — A HISTÓRIA NÃO TERMINOU NA SIERRA MAESTRA
Depois dessa documentação, voltaremos cronologicamente a 1963 para mostrar por que a interpretação de todo o episódio como simples oportunidade evangelística é insuficiente. Che já não será o guerrilheiro asmático escondido e necessitado de auxílio. Estará no governo. E Argelio Rosabal reaparecerá.
Um estudo acadêmico de Joseph Tahbaz registra que a Igreja Adventista criou uma comissão para preparar um memorando relacionado ao serviço militar. Quatro pastores foram escolhidos e Rosabal participou da iniciativa. O homem que conhecera Che durante os dias da Sierra Maestra conseguiu chegar pessoalmente a ele. Mais importante ainda será a conclusão de Tahbaz: os relacionamentos estabelecidos por alguns adventistas com dirigentes revolucionários durante a guerrilha proporcionaram posteriormente aos adventistas uma “relação privilegiada com o governo revolucionário”.
Aí teremos uma das frases centrais da série: quando Che precisava dos adventistas, recebeu ajuda; quando os adventistas precisaram de Che, a relação construída na Sierra Maestra abriu a porta do poder. Essa matéria mostrará por que não podemos encerrar a história quando Che se levanta da oração na casa de Rosabal.
2025 — SESSENTA E SEIS ANOS DEPOIS, A ADVENTIST REVIEW VOLTA A CUBA
Finalmente chegaremos a 2025. E aqui já não estaremos lendo Che Guevara, uma entrevista antiga ou um pesquisador adventista escrevendo na década de 1980. Estaremos diante da Adventist Review, publicação da Associação Geral. Sessenta e seis anos depois da Revolução Cubana, uma reportagem sobre dirigentes cubanos visitando uma instituição adventista utiliza em seu próprio título uma expressão que merece ser guardada: “colaboração de longa data”.
O artigo menciona Caridad Diego Bello, responsável durante décadas pelo Escritório de Assuntos Religiosos do Comitê Central do Partido Comunista de Cuba, dirigentes adventistas, a União Cubana, a Maranatha, projetos de construção, autorizações, seminário teológico e anos de relacionamento. E há um detalhe quase inacreditável para quem acompanhou a série desde o começo: o nome de Che Guevara reaparece. Segundo a reportagem, quando Caridad Diego assumiu suas funções havia, entre as anotações pendentes provenientes de Che, a questão da possibilidade de permitir aos adventistas possuir um seminário teológico.
A versão eletrônica dessa reportagem contém ainda informações adicionais sobre dezenas de templos, permissões governamentais, desembaraço de materiais e vistos religiosos. E nela encontraremos declarações de protagonistas descrevendo anos de relacionamento e trabalho conjunto. Será uma maneira extraordinária de fechar o primeiro grande arco documental iniciado na Sierra Maestra.
DO “APOIO” À “ASSISTÊNCIA CLANDESTINA”; DA “RELAÇÃO PRIVILEGIADA” À “COLABORAÇÃO DE LONGA DATA”
Quando todas essas matérias estiverem publicadas, o leitor poderá colocar diante de si expressões provenientes de fontes diferentes e de épocas diferentes. Che fala de apoio adventista. Caleb Rosado fala de “assistência clandestina”. Argelio Rosabal descreve aquilo que efetivamente fez. Joseph Tahbaz fala de uma “relação privilegiada com o governo revolucionário”. E a Adventist Review, em 2025, fala de “colaboração de longa data”. Entre uma expressão e outra haverá mais de seis décadas de documentos para serem lidos.
É por isso que decidimos não lançar a série às pressas hoje. Ainda estamos escolhendo as fotografias históricas corretas, procurando imagens que possam ser autenticadas, preparando ilustrações e organizando cada documento para que o leitor possa distinguir claramente fonte, tradução e nossa interpretação editorial. Não queremos uma fotografia genérica de Che colocada ao lado de um texto apenas para produzir impacto. Se dissermos que determinada imagem mostra Che com adventistas, precisaremos ter segurança de que são adventistas. Se não encontrarmos essa fotografia, produziremos uma ilustração identificada como tal. Numa série baseada em documentos, a imagem também precisa respeitar o documento.
“FÉ SEM BANDEIRAS”? PRIMEIRO, LEIA OS DOCUMENTOS
E então voltaremos ao ponto de partida. O professor Felippe Amorim ensina aos leitores da Revista Adventista a importância do apartidarismo, da discrição, da unidade e da preservação da igreja. Nossa resposta não será simplesmente trocar uma opinião pela outra. Colocaremos diante dos leitores a documentação histórica e perguntaremos se o princípio apresentado aos membros corresponde à maneira como a própria Organização administrou suas relações com o poder.
Começaremos por Cuba porque a documentação encontrada é extraordinária. Mas a série não termina em Cuba. “Comunista” aqui porque estamos tratando de relações documentadas com homens e estruturas do comunismo cubano. À medida que a investigação avançar, encontraremos outras bandeiras, outros governos e outros interesses. É justamente aí que está a contradição que pretendemos demonstrar.
FÉ COM BANDEIRAS E ARMAS — IACSD
Walton Brown contará o que aconteceu no Antillian College. Che Guevara contará o que recebeu dos adventistas. Argelio Rosabal contará o que ele e outros adventistas fizeram. Caleb Rosado tentará explicar aquela história 25 anos depois. Emerson Ottoni Prado mostrará como a história chegou aos leitores da Revista Adventista brasileira e foi transformada em oportunidade espiritual. Joseph Tahbaz demonstrará que a relação chegou a 1963 e falará em “relação privilegiada”. Finalmente, a Adventist Review nos levará a 2025 e falará em “colaboração de longa data”.
Não pediremos que o leitor acredite em nossa memória. Vamos abrir os documentos.
Não pediremos que aceite uma versão resumida. Vamos traduzir aquilo que a maioria dos adventistas brasileiros nunca teve oportunidade de ler.
E depois de cada documento faremos a pergunta que atravessará toda a série: se aos membros se recomenda uma “Fé sem bandeiras”, o que exatamente devemos chamar de tudo isso?
FÉ COM BANDEIRAS E ARMAS — IACSD: Igreja Apartidária Comunista do Sétimo Dia.
A estreia foi adiada. Os documentos, não. Eles estão chegando.





