QUEREMOS BARRABÁS! Adventistas cúmplices de Che Guevara apoiaram comunistas que matavam, esconderam armas da guerrilha e festejaram com os vencedores

Os adventistas cubanos não conheceram o mito que décadas depois seria estampado em camisetas. Conheceram o guerrilheiro, apoiaram seus homens, esconderam combatentes e armas e confraternizaram com os vencedores armados. O próprio Che reconheceu o “apoyo franco” recebido durante a guerra. E o homem que recebeu esse apoio já matava.

Durante décadas, uma poderosa construção cultural transformou Ernesto Che Guevara em símbolo de juventude, rebeldia, justiça social e defesa dos pobres. Seu rosto tornou-se uma das imagens mais reproduzidas do século XX, acompanhado de frases atribuídas a ele e repetidas quase como versículos. Nesse processo, o guerrilheiro concreto foi progressivamente encoberto pelo personagem. O homem armado cedeu lugar ao idealista; as execuções desapareceram atrás da fotografia; a disciplina revolucionária imposta pela violência foi substituída pela imagem romântica do médico que teria abandonado tudo para defender os oprimidos.

O acervo documental levantado e reunido pelo Adventistas.Com ao longo de anos de pesquisa já continha elementos destinados a desmontar essa construção, apresentando o Che histórico por trás do ícone: comunista convicto, integrante da guerrilha de Fidel Castro, comandante revolucionário, participante da repressão que se seguiu à vitória e personagem diretamente associado aos fuzilamentos.

Mas existe uma diferença fundamental quando essa história é examinada do ponto de vista adventista. Os adventistas cubanos que entraram em contato com Che não conheceram primeiro o mito. Não conheceram a fotografia transformada em produto cultural nem as frases que posteriormente seriam reproduzidas como síntese de um suposto humanismo revolucionário. Eles conheceram o guerrilheiro. Conheceram homens armados, clandestinos, envolvidos numa guerra para derrubar o governo de Fulgencio Batista. Alguns adventistas alimentaram esses homens, forneceram roupas, esconderam combatentes, mobilizaram outros membros em seu favor e chegaram a esconder armas. O próprio Che Guevara documentou que recebeu de adventistas “apoyo franco”, acrescentando que esse apoio ocorreu naquele momento e durante o transcurso da guerra. É desse encontro entre o Che real e os adventistas reais que precisamos tratar.

ANTES DO MITO, O HOMEM QUE MATAVA

A primeira imagem que precisa ser removida é a de que a violência de Che teria começado somente depois da vitória de janeiro de 1959. Seus próprios registros da guerrilha mostram o contrário. Durante a campanha na Sierra Maestra, Eutimio Guerra, camponês que servira como guia dos rebeldes, foi considerado traidor depois de colaborar com as forças de Batista. Che não apenas participou da decisão sobre seu destino. Registrou como resolveu pessoalmente a questão com um tiro de pistola calibre .32 na cabeça de Eutimio. A descrição do episódio aparece em seus registros da campanha e foi posteriormente incorporada à narrativa sobre a guerra revolucionária. A existência dessa execução durante a própria guerrilha é confirmada também por fontes biográficas que reproduzem o relato de Guevara.

Eutimio é importante porque coloca sangue dentro da cronologia antes da vitória. Enquanto a guerrilha precisava de esconderijos, alimentos, roupas e armas, ela também eliminava aqueles que considerava traidores, informantes ou inimigos. Portanto, não estamos falando de uma organização pacífica que inesperadamente descobriu a violência depois de chegar ao poder. Estamos falando de uma força revolucionária armada cuja própria sobrevivência dependia do combate e cuja disciplina interna podia terminar em execução. O Che que receberia apoio adventista não precisava esperar La Cabaña para descobrir que estava disposto a matar em nome da Revolução.

O levantamento documental realizado pelo Adventistas.Com reuniu outras histórias atribuídas a esse período, inclusive relatos sobre subordinados executados e a reputação de brutalidade que Che teria adquirido entre seus companheiros. Algumas dessas narrativas precisam ser tratadas segundo a força de suas respectivas fontes, e não necessitamos de nenhuma delas para sustentar artificialmente aquilo que o próprio Guevara já documentou. Eutimio basta para estabelecer o ponto fundamental: Che matou durante a guerrilha. A violência revolucionária não foi uma invenção posterior de seus adversários políticos nem uma deformação produzida décadas depois. Está dentro da própria história que ele escreveu.

“HAY QUE SALVAR A ESA GENTE”: NÃO ERA TRABALHO MISSIONÁRIO

É exatamente nesse ambiente que encontramos Argelio Rosabal. Ele não era pastor ordenado, embora Che e Almeida o chamassem de “El Pastor”. O próprio Rosabal explicou que era adventista, diretor da igreja, diretor da Escola Sabatina e fundador de uma igreja naquela região. Quando soube da situação dos revolucionários perseguidos, sua reação ficou preservada numa frase que precisa ser entendida literalmente dentro dos acontecimentos: “Hay que salvar a esa gente.” Não era trabalho missionário. Rosabal não estava convocando adventistas para salvar almas, distribuir literatura, realizar estudos bíblicos ou preparar guerrilheiros para o batismo. “Aquela gente” eram os homens da guerrilha. “Salvar aquela gente” significava impedir que fossem capturados ou mortos pelas forças que os perseguiam e criar condições para que sobrevivessem.

E Rosabal transformou a frase em ação. Seu depoimento descreve a mobilização de adventistas, algo em torno de quinze ou vinte pessoas, a obtenção de roupas, o preparo e transporte clandestino de alimentos, esconderijos e diferentes expedientes destinados a proteger os revolucionários. Portanto, não precisamos imaginar o significado de “hay que salvar a esa gente”. O próprio desenrolar dos acontecimentos explica a frase. Salvar aquela gente era salvar os guerrilheiros. E salvar os guerrilheiros da captura significava preservar homens para que permanecessem vivos e livres numa guerra que ainda estava acontecendo.

O próprio Che amplia essa história quando escreve sobre as adventistas de sobrenome Moya. Ele reconhece uma contradição extraordinária: eram mulheres que, segundo ele, se opunham a toda espécie de violência por causa de suas crenças religiosas, mas deram aos revolucionários seu “apoyo franco” naquele momento e durante a guerra. Não somos nós que precisamos procurar um verbo para caracterizar o que aconteceu. Che escolheu o verbo por nós: apoiaram. E registrou também a continuidade: durante a guerra.

A ARMA NÃO ESTAVA COM FOME

Há, porém, um elemento no depoimento de Rosabal que elimina qualquer tentativa de reduzir todo esse conjunto à assistência humanitária: armas dos guerrilheiros foram escondidas. A arma não estava com fome. Não estava ferida. Não sofria de asma. Não precisava de roupa, remédio ou água. A arma era instrumento de guerra. Quando um cristão alimenta um inimigo faminto, podemos falar de misericórdia; quando trata um ferido, podemos falar de preservação da vida independentemente das ideias daquele homem. Mas quando alguém esconde o armamento de um combatente para impedir que seja encontrado pelas forças que o perseguem, já não está preservando apenas a vida humana. Está preservando um recurso militar e, consequentemente, a capacidade daquele grupo de continuar combatendo.

Esse fato precisa permanecer no centro da discussão porque impede a divisão artificial entre o homem e aquilo que ele fazia. O guerrilheiro alimentado continuava guerrilheiro; o guerrilheiro escondido podia retornar ao seu grupo; a arma preservada continuava sendo arma. A rede que sustentava homens de uma força armada contribuía objetivamente para a sobrevivência dessa força. É nesse conjunto que encontramos a palavra que melhor expressa nossa compreensão: cumplicidade. Se quem cala consente, imagine quem apoia; e se quem apoia chega a preservar não apenas o combatente, mas também suas armas, a participação já ultrapassou há muito a posição de simples espectador.

APOIARAM UM BANDO ARMADO QUE MATAVA

Também precisamos retirar da palavra “guerrilha” a camada de romantismo depositada sobre ela durante décadas. Guerrilha é guerra. Há armas, emboscadas, sabotagem, perseguição, combate, feridos e mortos. O Movimento 26 de Julho empregou violência política e militar para derrubar o governo de Batista, e Che integrou e comandou essa luta. O caso Eutimio mostra ainda que a violência não se restringia ao enfrentamento de soldados inimigos numa batalha: podia alcançar aqueles que os próprios revolucionários classificavam como traidores ou informantes. A documentação pesquisada e reunida ao longo dos anos pelo Adventistas.Com desde o início já insistia nessa dimensão, descrevendo Che como integrante de um movimento revolucionário armado e destacando sua brutalidade ainda durante a luta.

É nesse sentido que compreendemos aquele bando armado também pelo caráter terrorista de parte de seus métodos. Não precisamos transformar “terrorista” numa palavra solta e esperar que o leitor aceite o rótulo. Os atos falam: violência política, sabotagem, execuções, clandestinidade armada e eliminação de pessoas consideradas inimigas da causa. O ponto decisivo para nossa investigação não é disputar uma etiqueta acadêmica, mas identificar aquilo que os adventistas efetivamente sustentaram. Não apoiaram uma associação pacifista, uma missão humanitária ou refugiados que pretendiam abandonar a guerra. Apoiaram homens de uma organização revolucionária armada que combatia, executava e matava.

SE QUEM CALA CONSENTE, IMAGINE QUEM APOIA

É aqui que a responsabilidade pelas mortes entra necessariamente em nossa compreensão da cumplicidade. Quem alimenta um combatente permite que ele recupere forças; quem o veste aumenta suas condições de permanecer clandestino; quem o esconde impede sua captura; quem mobiliza outras pessoas cria uma rede de sustentação; quem preserva suas armas preserva recursos que podem voltar ao combate. Nenhuma dessas pessoas precisa apertar pessoalmente o gatilho para participar das condições que permitem à força armada continuar existindo. Cumplicidade e autoria direta não são a mesma coisa justamente porque pessoas diferentes podem desempenhar funções diferentes dentro de uma mesma cadeia de sustentação.

Por isso não separamos moralmente o apoio à guerrilha das mortes produzidas pela guerrilha. O homem protegido podia voltar ao combate. A arma escondida podia voltar às mãos de um combatente. A força preservada podia continuar matando. Não estamos dizendo que cada adventista escolheu cada vítima de Che, porque essa não é a questão. Estamos dizendo que apoiaram conscientemente uma força armada que matava e contribuíram para sua sobrevivência. Se quem cala consente, imagine quem apoia. Nossa compreensão é que foram cúmplices daquela guerrilha e, portanto, também carregam responsabilidade moral pelas consequências sangrentas da luta que ajudaram a sustentar.

DEPOIS DA VITÓRIA, LA CABAÑA

Quando os revolucionários tomaram o poder em janeiro de 1959, a violência não terminou. Che Guevara assumiu o comando da fortaleza de La Cabaña, em Havana, transformada em prisão e sede de tribunais revolucionários. Ali foram julgados homens ligados ao antigo regime e outros considerados inimigos da Revolução, e condenados foram enviados ao pelotão de fuzilamento. Che ocupava posição de comando dentro dessa estrutura. A literatura sobre o período apresenta números diferentes para as execuções associadas a La Cabaña, e justamente por isso não precisamos construir nossa argumentação sobre uma cifra disputada. O fato essencial é muito mais sólido: houve tribunais, houve condenações à morte, houve pelotões de fuzilamento e Che exercia autoridade na fortaleza. A própria documentação histórica reconhece sua responsabilidade naquele sistema.

O acervo documental levantado e reunido pelo Adventistas.Com ao longo de anos de pesquisa enfatiza o “Paredón” e a participação de Che em La Cabaña, embora apresentasse números e episódios que precisam ser examinados fonte por fonte. O valor dessas informações reunidas para nosso artigo não está em escolher a maior cifra disponível, mas em recuperar a pergunta que ele fazia e colocá-la sobre documentação mais resistente: que Che foi esse que posteriormente se tornou símbolo mundial de humanismo?

Nossa pesquiisa também relaciona sua trajetória à repressão, aos campos de trabalho e à admiração por experiências comunistas autoritárias, mostrando que o personagem que mais tarde seria romantizado possuía uma concepção política muito mais dura do que a iconografia popular costuma admitir.

Esse aspecto ideológico também merece atenção. Os documentos que pesquisamos anteriormente reservado reune também referências à admiração de Guevara por Lenin, Stalin, Mao e pela experiência soviética, incluindo passagem atribuída a Che na qual jurava diante de um retrato de Stalin não descansar até a destruição do capitalismo e referências a sua reação diante da memória de Stalin em Moscou.

O ponto importante para nossa investigação adventista é que o comunismo não surgiu em janeiro de 1959 como uma doutrina desconhecida. Marx, Lenin, Stalin, a Revolução Russa, o ateísmo marxista e a repressão religiosa soviética pertenciam à história muito antes de Che e Fidel entrarem em Havana. Não se pode reconstruir retrospectivamente aquele período como se ninguém soubesse que a tradição política à qual Guevara se vinculava possuía uma relação profundamente hostil com a religião.

CHE NÃO ESCONDEU OS FUZILAMENTOS

Se alguém ainda quiser acreditar que as execuções foram excessos praticados à margem da vontade de Guevara, existe um documento que torna essa interpretação impossível: sua manifestação diante da Assembleia Geral das Nações Unidas em 11 de dezembro de 1964. Respondendo às críticas feitas a Cuba, Che afirmou diante do mundo: “fusilamientos, sí, hemos fusilado; fusilamos y seguiremos fusilando mientras sea necesario”. E completou dizendo que aquela era uma luta de morte. A declaração consta dos registros daquele debate e é reproduzida a partir dos documentos oficiais da ONU.

Não é uma frase atribuída a Che décadas depois. Não é uma inscrição de camiseta. Não é uma declaração inventada por um exilado cubano. É Guevara falando publicamente em 1964. “Fuzilamentos, sim.” Haviam fuzilado, fuzilavam e continuariam fuzilando enquanto considerassem necessário. O homem que mais tarde seria transformado numa imagem de ternura revolucionária não escondia a violência quando falava em nome da Revolução. Ele a justificava como parte de uma “luta de morte”.

Isso também ilumina retrospectivamente o caso Eutimio. O tiro disparado durante a guerrilha e os pelotões de fuzilamento posteriores não pertencem a biografias de dois homens diferentes. Pertencem à trajetória política do mesmo Ernesto Guevara. Primeiro encontramos Che matando durante a guerrilha; depois o encontramos em posição de autoridade em La Cabaña; finalmente o encontramos diante do mundo declarando que a Revolução havia fuzilado, continuava fuzilando e seguiria fuzilando. A violência não é um detalhe colocado artificialmente por nós na margem de sua biografia. Ela atravessa sua própria trajetória revolucionária.

NÃO FOI SOMENTE ARGELIO ROSABAL

Enquanto isso, o envolvimento adventista também ultrapassava Rosabal. Em 1959, Walton J. Brown, presidente do Antillian College, publicou na Review and Herald seu relato sobre os acontecimentos recentes em Cuba. Brown documentou contatos entre a instituição adventista e os rebeldes, inclusive o empréstimo de um gerador portátil pelos revolucionários e a alimentação, em 1º de janeiro, de aproximadamente 180 médicos e soldados rebeldes. Relatou ainda os contatos que se seguiram à vitória, a visita de autoridades revolucionárias e o coral adventista cantando diante de Fidel Castro. Homens ligados às forças vencedoras reconheciam os adventistas porque haviam comido no Antillian College durante a batalha de Santa Clara.

O quadro já não pode ser reduzido a um camponês adventista particularmente envolvido. Temos Rosabal mobilizando adventistas; temos as mulheres Moya, cujo “apoyo franco” Che registrou; temos homens escondidos; temos roupas e alimentos; temos armas ocultadas; temos uma instituição adventista relacionada aos revolucionários durante o conflito; e temos os próprios vencedores lembrando o tratamento recebido. A cadeia documental cresce, e cada peça torna mais difícil apresentar os acontecimentos como uma sucessão de encontros fortuitos sem significado político ou militar.

CÚMPLICES EM UMA REUNIÃO FESTIVA

 

Fidel Castro e Che Guevara no Colegio Adventista de las Antillas: adventistas sorridentes posam com os dirigentes revolucionários, enquanto homens armados aparecem ostensivamente no primeiro plano. A guerra terminou, mas a fotografia registra a proximidade entre os adventistas e os vencedores que haviam apoiado durante a luta.

Essa fotografia do encontro no Colegio Adventista de las Antillas acrescenta uma dimensão visual extraordinária a tudo isso. A felicidade está estampada no rosto dos adventistas reunidos com os dirigentes revolucionários. Há sorrisos, proximidade e descontração. Homens e mulheres se agrupam para registrar o encontro com os vencedores. E, no primeiro plano, aparece aquilo que nenhuma reconstrução sentimental da história deveria esconder: os revolucionários estão armados. As armas aparecem ostensivamente dentro da fotografia, integradas à cena, enquanto os adventistas posam sorridentes ao lado daqueles homens.

Essa imagem deve ser lida junto aos documentos. Che já havia registrado o “apoyo franco” dos adventistas durante a guerra. Rosabal já havia explicado o “hay que salvar a esa gente” e contado como homens e armas foram escondidos. Walton Brown documentaria as relações entre revolucionários e o Antillian College. E agora a fotografia coloca diante de nossos olhos adventistas em reunião festiva com homens armados do movimento revolucionário. Não vemos constrangimento diante das armas. Vemos confraternização. Aqueles homens não precisavam esconder sua condição militar dos adventistas. As armas estavam diante deles e diante da câmera.

Por isso, a fotografia não funciona apenas como ilustração. Ela completa visualmente a sequência que os documentos escritos já haviam construído. Durante a guerra houve apoio; homens e armamentos foram preservados; depois da vitória houve proximidade e confraternização com os vencedores armados. Se quem cala consente, imagine quem apoia — e depois posa sorridente ao lado dos homens armados que apoiou. Nossa compreensão é que a imagem registra cumplicidade em ambiente festivo, depois de uma guerra que havia produzido mortos e colocado aqueles revolucionários no poder.

1963: A RELAÇÃO COM CHE CONTINUA

Se a relação terminasse imediatamente depois da vitória, alguém ainda poderia tentar construir uma narrativa de ingenuidade seguida de arrependimento. Mas o calendário novamente atrapalha essa explicação. Em 1963, quatro anos depois da tomada do poder, Che já não era o médico asmático escondido nas montanhas. La Cabaña já havia acontecido, os pelotões de fuzilamento já faziam parte da história da Revolução, o caráter comunista do regime estava estabelecido e Guevara era um de seus dirigentes mais conhecidos.

É nesse momento que Argelio Rosabal reaparece. A pesquisa de Joseph Tahbaz documenta que adventistas organizaram uma comissão, prepararam um memorando e envolveram quatro pastores numa questão relacionada às políticas governamentais. Rosabal conseguiu levar pessoalmente o assunto até Che Guevara, e Che intercedeu. Tahbaz chega a explicar que as relações estabelecidas por adventistas com dirigentes revolucionários na Sierra Maestra proporcionaram posteriormente à denominação uma relação privilegiada com o governo e maior flexibilidade em determinadas atividades religiosas do que aquela disponível a vários outros grupos.

A sequência é simples e devastadora: apoio produziu relacionamento; relacionamento produziu acesso; acesso produziu resultados. Quando os guerrilheiros precisaram dos adventistas, encontraram comida, roupas, esconderijos, proteção e até armas preservadas. Quando os adventistas precisaram dos antigos guerrilheiros transformados em governo, a relação construída durante a guerra ajudou a abrir a porta do poder. Em 1963, portanto, já não se pode recorrer à ideia de desconhecimento sobre quem era Che ou sobre a natureza política da Revolução.

O COMUNISMO NÃO ROMPEU COM A VIOLÊNCIA QUANDO CHEGOU AO PODER

Nossa pesquisa também reuniu referências aos campos de trabalho e à admiração de Che pelos modelos soviético e chinês. Esses elementos ajudam a entender que sua concepção revolucionária não se limitava à derrubada de Batista. Havia um projeto de transformação da sociedade inspirado em experiências comunistas que já haviam demonstrado sua capacidade repressiva. Posteriormente, o próprio Estado cubano endureceria sua política contra organizações religiosas, nacionalizaria instituições e imporia restrições que também alcançariam adventistas.

Mas a perseguição posterior não apaga a cumplicidade anterior. Ela pode explicar como determinada fase daquela convivência terminou; não pode mudar como começou. Tampouco devemos inverter a cronologia para produzir a impressão de que a Igreja Adventista descobriu o comunismo, rejeitou seus métodos e rompeu voluntariamente com o regime. Foi o Estado comunista que progressivamente endureceu suas políticas religiosas e rompeu as condições anteriores de convivência. Antes disso, os documentos mostram adventistas apoiando guerrilheiros, relações sendo estabelecidas e o acesso produzido por essas relações sendo posteriormente utilizado.

2025: A PRÓPRIA ADVENTIST REVIEW FALA EM “COLABORAÇÃO DE LONGA DATA”

E essa história não desapareceu nos arquivos dos anos 1950 e 1960. Em 2025, a Adventist Review, publicação da Associação Geral dos Adventistas do Sétimo Dia, publicou reportagem sobre a visita de autoridades cubanas ao seminário adventista e colocou no próprio título uma expressão que merece ser guardada: “long-standing collaboration”, colaboração de longa data. A reportagem descreveu relações mantidas durante décadas entre representantes do governo cubano e organizações adventistas, envolvendo estruturas denominacionais e ministérios de apoio.

O detalhe mais impressionante é o reaparecimento de Che Guevara. Caridad Diego Bello, ligada durante décadas ao Escritório de Assuntos Religiosos do Comitê Central do Partido Comunista de Cuba, contou que, quando começou naquele trabalho, encontrou entre os assuntos pendentes uma questão proveniente de anotações de Che: avaliar a possibilidade de autorizar os adventistas a possuírem um seminário teológico. O homem apoiado por adventistas na guerrilha havia se tornado dirigente do Estado, a relação atravessara a vitória revolucionária e sua memória administrativa ainda apareceria décadas depois na história das relações entre governo e denominação.

NÃO CONHECERAM O MITO. CONHECERAM O HOMEM QUE MATAVA

Agora podemos colocar lado a lado as duas cadeias documentais. De um lado está Che Guevara: comandante de uma guerrilha armada, participante pessoal da execução de Eutimio Guerra, dirigente revolucionário posteriormente associado ao sistema de tribunais e fuzilamentos de La Cabaña e homem que, em 1964, declarou diante do mundo que a Revolução havia fuzilado, estava fuzilando e continuaria fuzilando enquanto julgasse necessário. Do outro lado estão os adventistas: “apoyo franco” durante a guerra, “hay que salvar a esa gente”, mobilização de membros, alimentos, roupas, esconderijos, armas ocultadas, relações com o Antillian College, confraternização festiva com os vencedores armados e acesso posterior ao próprio Che.

Essas duas histórias não podem continuar sendo contadas separadamente. Não existe de um lado o Che sanguinário e, numa página diferente, uma inocente história adventista de solidariedade. O Che que matava é o mesmo Che que recebeu apoio. A guerrilha que executava é a mesma guerrilha cujos homens foram alimentados, escondidos e protegidos. As armas que aparecem nessa história não são metáforas. Rosabal escondeu armas durante a luta; homens armados aparecem na fotografia festiva no colégio; Che matou durante a guerrilha; depois da vitória, os pelotões de fuzilamento tornaram-se parte pública da Revolução.

É por isso que nossa compreensão vai além da palavra apoio, embora seja o próprio Che quem confirme o “apoyo franco”. Houve cumplicidade. Cúmplices não precisam apertar todos o mesmo gatilho. Quem sustenta conscientemente homens de uma força armada contribui para que essa força permaneça em condições de atuar. Quem esconde o combatente participa de sua preservação; quem preserva sua arma participa da preservação de sua capacidade de combate; quem cria uma rede para sustentá-lo participa da continuidade daquela luta.

E é exatamente por isso que incluímos as mortes nessa responsabilidade moral. Se a guerrilha apoiada combatia e matava, não podemos cortar as consequências daquilo que foi sustentado e conservar apenas a parte agradável da história. O homem alimentado podia voltar à luta. O escondido podia escapar da captura. A arma preservada podia voltar ao combate. A organização que sobrevivia podia continuar produzindo mortos. Se quem cala consente, imagine quem apoia.

Os adventistas envolvidos não foram cúmplices do mito de Che Guevara. O mito ainda não existia. Não foram cúmplices de uma fotografia posteriormente transformada em símbolo, nem de frases reproduzidas décadas depois quase como versículos. Foram cúmplices do guerrilheiro real, de seus companheiros reais e de uma luta armada real. Apoiaram homens de um bando revolucionário que matava, preservaram guerrilheiros e armas, confraternizaram com os vencedores armados e mantiveram acesso àqueles homens depois que chegaram ao poder.

Décadas depois, podemos finalmente colocar as duas fotografias de Che uma sobre a outra: a imagem romantizada e o homem dos documentos. Quando fazemos isso, o mito começa a desaparecer. Fica o guerrilheiro que matou Eutimio, o comandante ligado a La Cabaña, o dirigente que declarou na ONU que continuariam fuzilando e o comunista que defendia uma luta “de morte”. E ao lado dele aparecem também os adventistas que disseram, em atos, que era preciso “salvar aquela gente”, deram “apoyo franco”, esconderam homens e armas e depois sorriram ao lado dos vencedores armados.

Não conheceram o mito. Conheceram o guerrilheiro. Não ficaram apenas olhando. Apoiaram. E nossa compreensão do conjunto documental é que, ao sustentarem conscientemente aquela força armada, tornaram-se cúmplices da guerrilha, de sua violência e também do sangue derramado pela luta que ajudaram a manter.

O BARRABÁS DA AMÉRICA LATINA

Há uma imagem bíblica que encerra esta história com uma força que nenhuma expressão política moderna conseguiria alcançar: Barrabás. A tradição popular frequentemente o reduziu a um simples ladrão, mas os Evangelhos dizem muito mais. Marcos informa que Barrabás estava preso com os revoltosos que haviam cometido homicídio durante uma insurreição. Lucas repete os dois elementos fundamentais: insurreição e homicídio. Quando Pedro recordou posteriormente aquela escolha, resumiu sua dimensão espiritual de maneira devastadora: “Mas vós negastes o Santo e o Justo e pedistes que vos fosse concedido um homem homicida.” Barrabás era, portanto, o homem da insurreição violenta colocado diante do Cristo que não conquistava Seu Reino pela espada.

É precisamente isso que torna Barrabás tão importante para a conclusão desta investigação. Roma dominava, o povo desejava libertação e havia homens dispostos a enfrentar aquela ordem pela violência. Barrabás pertencia a esse mundo. Jesus também anunciava um Reino, mas recusava os métodos pelos quais os reinos deste mundo são conquistados.

Quando Pedro desembainhou a espada, Cristo ordenou que a guardasse. Quando esteve diante de Pilatos, declarou: “O meu reino não é deste mundo; se o meu reino fosse deste mundo, pelejariam os meus servos”. Jesus não precisava de guerrilheiros, esconderijos ou armas enterradas. Seu caminho para a vitória passava pelo Calvário, não pela insurreição.

Por isso a escolha entre Jesus e Barrabás não foi apenas a escolha entre dois prisioneiros. Foi também o confronto entre dois caminhos. De um lado, o Cristo que recusava a espada; do outro, o homem da insurreição na qual houvera sangue. E a multidão escolheu Barrabás. Essa escolha atravessa os séculos porque continua perguntando aos que dizem seguir Jesus qual método escolherão quando acreditarem que uma causa política é justa, necessária ou libertadora.

A IASD JÁ HAVIA APOIADO HITLER

Para os adventistas, essa pergunta deveria ter adquirido um peso terrível depois da experiência europeia. A própria denominação acabaria reconhecendo publicamente aspectos vergonhosos de sua história sob o nazismo. Em 2005, por ocasião dos sessenta anos do fim da Segunda Guerra Mundial, dirigentes adventistas da Alemanha e da Áustria divulgaram uma declaração reconhecendo falhas cometidas durante o regime nazista.

A própria Adventist News Network informou que a declaração lamentava a participação ou apoio adventista a atividades nazistas e reconhecia que publicações adventistas chegaram a glorificar Adolf Hitler e reproduzir posições antissemitas. A declaração reconheceu ainda o fracasso em proteger irmãos de origem judaica, alguns dos quais foram excluídos da comunidade adventista durante a perseguição.

Não precisamos chamar isso de mera “acomodação”. A IASD já havia apoiado Hitler. Houve demonstrações de lealdade ao regime, publicações denominacionais glorificando o Führer, incorporação de linguagem e ideias do ambiente nazista e abandono de irmãos perseguidos. Décadas depois, os próprios adventistas alemães e austríacos precisaram olhar para aquela história e reconhecer que haviam falhado em seguir seu Senhor. Um dos dirigentes envolvidos na declaração admitiu inclusive que líderes adventistas haviam ido além do necessário na tentativa de demonstrar lealdade ao governo nazista.

A Segunda Guerra Mundial terminou em 1945. Apenas doze anos separavam a queda do Terceiro Reich do desembarque do Granma em Cuba, em 1956. Menos de uma geração separava a experiência adventista com Hitler do encontro de adventistas cubanos com Fidel Castro, Che Guevara e seus companheiros. O mundo acabara de contemplar o resultado monstruoso da submissão moral das igrejas às conveniências do poder político. Seria razoável esperar que, depois da Europa, qualquer cristão adventista compreendesse definitivamente que a Igreja de Cristo não deveria emprestar sua estrutura, sua influência ou sua fidelidade aos projetos violentos dos homens.

Mas chegamos à Sierra Maestra e encontramos novamente cristãos diante de homens que pretendiam conquistar o poder pelas armas.

DE HITLER A CHE: MUDOU A BANDEIRA, NÃO A ESCOLHA

Desta vez não havia suásticas. Havia barbas, uniformes, fuzis e uma revolução apresentada como libertadora. A ideologia era diferente e, em muitos aspectos, oposta àquela que havia dominado a Alemanha. Mas nossa pergunta não é se nazismo e comunismo são a mesma doutrina. Evidentemente não são. Nossa pergunta é muito mais incômoda: por que uma denominação que afirma representar o Reino de Cristo aparece historicamente aproximando-se de forças políticas violentas mesmo quando essas forças estão em extremos ideológicos diferentes?

Na Europa, houve adventistas que demonstraram lealdade a Hitler. Em Cuba, houve adventistas que deram aos homens de Fidel e Che aquilo que o próprio Guevara chamou de “apoyo franco”. Não estamos aproximando esses episódios por semelhança ideológica, mas pela contradição cristã que revelam. Mudou a bandeira. Mudou o discurso. Mudou a promessa política. Mudaram os homens. Não mudou a disposição de aproximar-se do poder e apoiar aqueles que recorriam à violência para conquistá-lo ou exercê-lo.

E em Cuba não estamos reconstruindo intenções escondidas. Os atos estão documentados. Argelio Rosabal mobilizou adventistas porque era preciso “salvar aquela gente”. Guerrilheiros foram alimentados, vestidos, escondidos e protegidos. Armas foram enterradas e preservadas. As mulheres Moya deram, segundo o próprio Che, “apoyo franco” naquele momento e durante a guerra. O Antillian College aparece relacionado aos revolucionários. Depois da vitória, adventistas aparecem sorridentes em reunião festiva com os vencedores armados. E, anos depois, a relação construída na Sierra Maestra ainda proporcionava acesso ao próprio Che.

E ENTÃO APARECE BARRABÁS

É nesse ponto que a narrativa dos Evangelhos volta diante de nós. Barrabás estava envolvido numa insurreição na qual houvera homicídio. Che Guevara estava envolvido numa insurreição armada e matou durante a própria guerrilha. Barrabás representava a resposta violenta à opressão política. Che também. Barrabás pertencia ao caminho da transformação pela revolta e pelo sangue. Che fez da violência revolucionária um instrumento declarado de transformação política e, depois da vitória, continuou defendendo publicamente os fuzilamentos como necessários à sobrevivência da Revolução.

Che Guevara foi o Barrabás revolucionário que apareceu diante dos adventistas na América Latina. Não porque os dois homens sejam historicamente idênticos, mas porque representam, nesta comparação espiritual, a mesma alternativa fundamental ao método de Cristo: conquistar pela força aquilo que se acredita justo. Barrabás tinha a insurreição; Che tinha a guerrilha. Barrabás estava relacionado ao homicídio; Che matou Eutimio Guerra e depois assumiu posição de comando no sistema revolucionário de La Cabaña. Barrabás foi escolhido quando Jesus estava diante da multidão; Che recebeu apoio de cristãos que professavam seguir o Jesus que ordenara guardar a espada.

E aqui não podemos escapar para a justificativa de que Batista era um ditador brutal. Roma também era opressora. O Evangelho nunca transformou a brutalidade do opressor numa autorização para substituir Jesus por Barrabás. A questão cristã não é simplesmente determinar se existiam injustiças que precisavam ser combatidas. Existiam. A questão é quais métodos os seguidores de Cristo podem sustentar para combatê-las. Se a resposta cristã for alimentar uma guerrilha, esconder seus combatentes, preservar suas armas e contribuir para que continue uma luta na qual pessoas são mortas, então a espada que Jesus mandou guardar foi novamente desembainhada — agora por procuração.

O CRISTO DESARMADO E OS HOMENS DO FUZIL

Essa comparação se torna ainda mais perturbadora quando voltamos à fotografia. Os homens estão armados. Os adventistas sabem que estão armados. E a felicidade está estampada nos rostos daqueles que se reúnem com eles. Não é possível separar aquela imagem daquilo que aconteceu antes. Os mesmos documentos que mostram a confraternização depois da vitória mostram o apoio durante a guerra. Portanto, quando olhamos para aquela fotografia, não vemos simplesmente cristãos encontrando novas autoridades governamentais. Vemos adventistas confraternizando com os vencedores de uma luta armada que outros adventistas haviam ajudado a sustentar.

Coloque agora essa fotografia diante das palavras de Jesus: “Embainha a tua espada”. Coloque-a diante de Sua declaração a Pilatos: “Se o meu reino fosse deste mundo, pelejariam os meus servos”. Coloque-a diante da descrição de Barrabás: insurreição e homicídio. Depois coloque ao lado dessas passagens o “apoyo franco” registrado por Che, o “hay que salvar a esa gente” de Rosabal, os guerrilheiros escondidos, as armas enterradas, Eutimio morto durante a guerrilha e os adventistas sorridentes diante dos revolucionários armados.

O contraste deixa de ser apenas político. Torna-se espiritual. Pode-se guardar o sábado e escolher Barrabás. Pode-se cantar hinos e escolher Barrabás. Pode-se dirigir uma Escola Sabatina e escolher Barrabás. Pode-se administrar uma instituição cristã e escolher Barrabás. Pode-se continuar pronunciando o nome de Jesus enquanto, diante dos métodos de Jesus e dos métodos do homem armado, sustentamos concretamente o homem armado. Foi exatamente por isso que a escolha feita diante de Pilatos se tornou uma das imagens mais terríveis dos Evangelhos: aqueles que aguardavam o Messias tiveram o Messias diante deles e escolheram outro libertador.

APARTIDARISMO PARA OS MEMBROS; BARRABÁS PARA A HISTÓRIA?

É impossível terminar esta investigação sem confrontar também o discurso adventista contemporâneo de apartidarismo. Se um membro comum pode ser advertido por misturar sua fé com política partidária, que palavra utilizaremos para adventistas que sustentaram uma guerrilha? Se uma bandeira eleitoral ameaça a neutralidade da Igreja, o que faz um fuzil dentro dessa história? Se uma manifestação pública de preferência política é considerada perigosa para a missão, o que devemos pensar de guerrilheiros alimentados, escondidos e protegidos, de armas preservadas e de uma fotografia festiva ao lado dos vencedores armados?

É exatamente por isso que a história cubana não pode permanecer escondida atrás de expressões cuidadosamente escolhidas para torná-la inofensiva. O problema não é apenas político. É a distância entre aquilo que se exige dos membros e aquilo que a história registra sobre a própria denominação e seus representantes. Aos membros, apartidarismo. À Organização e aos que falam em seu nome, relações com governos e autoridades são frequentemente apresentadas como diplomacia, prudência, sobrevivência ou defesa da missão. Mas quando voltamos aos documentos, encontramos momentos em que essa proximidade ultrapassou a simples convivência necessária com quem governa.

NA EUROPA, HITLER. NA AMÉRICA LATINA, BARRABÁS

A conclusão é dolorosa porque a sequência histórica é dolorosa. A IASD que já havia apoiado Hitler na Europa, demonstrado lealdade ao regime nazista, publicado material de exaltação ao Führer e abandonado irmãos de origem judaica à perseguição encontrou, poucos anos depois, seu Barrabás na América Latina. Mudaram o continente, a bandeira e a ideologia. Na Alemanha, o poder vestia a camisa do nacional-socialismo. Em Cuba, vinha das montanhas vestido de verde-oliva, barbado e carregando fuzis. Mas novamente encontramos adventistas próximos de homens que acreditavam que seus objetivos políticos justificavam a violência.

Não afirmamos que Hitler e Che sejam personagens equivalentes, nem precisamos dessa equivalência para que a comparação funcione. A questão é a escolha feita pela comunidade que levava o nome de Cristo. Na Europa, apoiaram Hitler. Em Cuba, apoiaram o Barrabás revolucionário. Em um caso, dirigentes adventistas demonstraram lealdade a um regime que a própria denominação posteriormente reconheceria como cenário de sua falha moral. No outro, adventistas sustentaram homens de uma guerrilha armada e construíram com eles relações que sobreviveram à vitória revolucionária.

E talvez seja exatamente aqui que a palavra “apartidarismo” perca sua capacidade de encerrar a discussão. Porque não estamos diante de um membro colocando adesivo de candidato no automóvel. Estamos diante de história documentada. Estamos diante de regimes, guerrilhas, armas, sangue, instituições, dirigentes e relações com o poder. Quando a história exige que a denominação explique Hitler, Che, Fidel, Rosabal, o Antillian College e a fotografia dos adventistas sorrindo junto aos vencedores armados, repetir “somos apartidários” já não responde à pergunta.

JESUS OU BARRABÁS?

No final, sobra a pergunta que Pilatos colocou diante da multidão. Não era direita ou esquerda. Não era capitalismo ou comunismo. Não era Batista ou Fidel. Era uma pergunta muito anterior a todas essas categorias: Jesus ou Barrabás? O Cristo que recusou a espada ou o homem da insurreição? O Reino que não é conquistado pelas armas ou a promessa de libertação que admite matar para vencer? O Cordeiro ou o fuzil?

Os adventistas cubanos que apoiaram Che não estavam escolhendo uma imagem impressa numa camiseta. Escolheram apoiar o guerrilheiro real. Sabiam que aqueles homens estavam armados. Esconderam homens e armas. Alimentaram combatentes. Mobilizaram irmãos para “salvar aquela gente”. Receberam do próprio Che o reconhecimento de que lhe haviam dado “apoyo franco”. Depois da vitória, confraternizaram com os vencedores armados. E a relação continuou.

Por isso nossa conclusão não pode terminar com uma palavra burocrática como “incoerência”. Estamos diante de algo muito mais grave para uma comunidade que afirma possuir uma missão profética. Escolher Barrabás é rejeitar Jesus. Não é necessário retirar o nome de Cristo da fachada. Não é necessário abandonar o sábado, fechar igrejas ou deixar de cantar hinos. Basta chegar o momento em que Cristo apresenta Seu método e Barrabás apresenta o seu, e escolher sustentar o método de Barrabás.

Foi essa a tragédia diante de Pilatos. E é essa a pergunta que a história cubana devolve à Igreja Adventista do Sétimo Dia.

A IASD que já havia apoiado Hitler na Europa encontrou na América Latina outro homem da insurreição, das armas e do sangue. Diante do Cristo que mandou guardar a espada e do Barrabás que fazia a revolução pelo fuzil, adventistas deram “apoyo franco” ao homem armado.

Na Europa, apoiaram Hitler. Em Cuba, apoiaram o Barrabás revolucionário.

E nas duas histórias continuaram dizendo que seguiam Jesus.

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