
Durante décadas, a IASD ensinou seus membros a identificar Babilônia nas igrejas que se deitavam com os reis da terra; o escândalo é perceber que, quando o poder ofereceu proteção, prestígio e vantagens institucionais, ela não apenas reconheceu a cama — soube perfeitamente como ocupá-la.
Em Santa Clara, princípios adventistas sobre apartidarismo, não violência e separação entre Igreja e Estado encontraram a Revolução Cubana. Depois vieram Fidel, Che, José Martí e as rosas brancas. A cena parece uma antecipação perturbadora da mulher profética que não foge dos reis da terra: monta a besta, relaciona-se com o poder e termina cercada de sangue.
ANTES DAS ROSAS, VIERAM OS TIROS
Quem chega a esta história sem conhecer os documentos adventistas sobre Cuba precisa começar pelo que parece impossível. A Igreja Adventista do Sétimo Dia construiu durante gerações uma identidade religiosa associada ao apartidarismo, à separação entre Igreja e Estado, à liberdade de consciência, à resistência ao marxismo e à rejeição do envolvimento de seus membros na violência.
Diante de uma revolução armada destinada a derrubar um governo pela força, seria natural esperar que uma instituição adventista mantivesse distância rigorosa dos combatentes, socorrendo indiscriminadamente quem necessitasse de auxílio humanitário, mas recusando qualquer colaboração que pudesse favorecer militar ou logisticamente um dos lados. Entretanto, quando a Revolução Cubana chegou às proximidades do Colegio de las Antillas, em Santa Clara, a distância entre aquilo que a denominação proclamava e aquilo que aconteceu no terreno tornou-se impossível de ignorar.

Nos últimos dias de dezembro de 1958, Santa Clara transformou-se no cenário da batalha que precipitaria a queda de Fulgencio Batista. Ernesto Che Guevara comandava forças revolucionárias, soldados governistas tentavam impedir seu avanço e a população ficou cercada por uma guerra que produziu mortos, feridos, destruição e medo. O colégio adventista não estava observando tudo isso de uma ilha espiritual. Sua estrutura entrou naquela conjuntura.
Revolucionários procuraram a instituição em busca de alimentos e outros recursos; os registros adventistas preservam fornecimento de comida, lençóis, travesseiros, bandagens e primeiros socorros, além da presença crescente de homens ligados às forças rebeldes nas dependências e imediações da instituição. No primeiro dia de janeiro, quando Batista já havia fugido, cerca de 180 homens ainda fizeram uma refeição no colégio.
A GRÁFICA DISSE NÃO; A LOGÍSTICA CONTINUOU DIZENDO SIM
Há um detalhe que expõe de maneira quase didática a contradição daqueles dias. Quando os revolucionários solicitaram que a gráfica adventista imprimisse material de propaganda, a administração recusou. O papel impresso carregaria palavras, mensagens e conteúdo político produzido dentro de uma instituição adventista e constituiria uma peça material diretamente vinculada à propaganda revolucionária.
A recusa evitou que a gráfica do colégio produzisse esse documento político. Mas a negativa ao papel não significou negativa à colaboração prática: alimentos, materiais médicos, atendimento e outras formas de assistência continuaram sendo fornecidos aos homens que estavam combatendo para derrubar o governo.
O contraste é brutal: a revolução não podia sair impressa da gráfica adventista, mas podia continuar recebendo ajuda fora dela. O papel permaneceria; comida desapareceria depois de consumida, bandagens seriam utilizadas, ferimentos seriam tratados e os homens seguiriam adiante. A gráfica não colocaria tinta adventista sobre a propaganda revolucionária, enquanto a assistência concreta continuava inserida na realidade da guerra. Não imprimir a revolução tornava-se compatível, na prática, com continuar ajudando homens que faziam a revolução.
E o colégio não constitui todo o quadro documental. Outras fontes preservam adventistas fornecendo alimento, abrigo, proteção, deslocamento e mensagens aos guerrilheiros em diferentes momentos do conflito, enquanto Argelio Rosabal, dirigente adventista local conhecido por Che como “El Pastor”, aparece ligado a uma rede adventista que chegou à ocultação de armas e munições solicitada pelos revolucionários. O próprio Guevara registraria posteriormente a ajuda recebida de adventistas.
Não existe aqui uma escada histórica na qual a colaboração teria começado entre leigos e posteriormente subido até a Organização. Existem diferentes documentos, provenientes de diferentes ângulos, revelando diferentes dimensões da presença adventista dentro da mesma conjuntura revolucionária.

A IGREJA QUE NÃO TOMA PARTIDO DESCOBRIU QUEM HAVIA VENCIDO
Então Batista fugiu. E tudo mudou de nome numa única madrugada. O guerrilheiro tornou-se comandante vitorioso. O insurgente tornou-se autoridade. O homem procurado tornou-se homem procurado por quem desejava conversar com o novo poder. Che Guevara emergiu de Santa Clara como um dos grandes símbolos militares da vitória, enquanto Fidel Castro avançava como principal líder político da revolução. Os homens que até então necessitavam de comida, abrigo, transporte, informação e proteção passavam a pertencer ao grupo que decidiria o futuro de Cuba.
Era precisamente a situação diante da qual o verdadeiro apartidarismo deveria revelar sua consistência. Quando o poder muda de mãos, a instituição que realmente permanece separada dele conserva seus princípios. Não precisa hostilizar o vencedor, mas também não precisa correr para agradá-lo. Não necessita transformar o antigo guerrilheiro em convidado prestigioso, nem converter a linguagem do vencedor em linguagem institucional. Princípio somente é princípio quando continua valendo depois que se descobre quem ganhou.
Mas a história do Antillian College depois de Santa Clara tomou outra direção. Fidel visitou a instituição, comeu em suas instalações, ouviu seu coral, demonstrou admiração pelo programa educacional e declarou aos administradores que aquela era a espécie de escola que desejava para a nova Cuba. Che continuou aparecendo na história do colégio. A relação estabelecida no período da guerra não terminou quando cessaram os tiros. Ao contrário: a própria historiografia adventista resumiria o novo ambiente numa frase reveladora: “A empatia era recíproca.”

QUANDO OS GUERRILHEIROS VIRARAM GOVERNANTES, APARECEU JOSÉ MARTÍ
É exatamente nesse ambiente que surge uma iniciativa aparentemente inocente, cultural e patriótica. A administração do Antillian College decidiu construir dentro do campus um espaço permanente dedicado a José Martí. O poeta, jornalista, intelectual e revolucionário independentista morto em 1895 era uma das figuras máximas da história cubana. Não fora comunista e jamais conhecera Fidel ou Che. Mas sua memória havia adquirido enorme importância na construção simbólica da nova Cuba, porque os revolucionários reivindicavam Martí como precursor da libertação nacional que diziam estar completando.
A escolha era extraordinariamente conveniente. Para uma instituição marcada historicamente pela presença norte-americana, homenagear Martí permitia apresentar-se como identificada com a cultura, a independência e a identidade cubanas precisamente quando o nacionalismo revolucionário se tornava linguagem do novo poder. Não era necessário erguer uma estátua de Fidel nem pendurar um retrato de Che na parede. Martí fornecia uma ponte muito mais elegante entre o reposicionamento institucional e a nova ordem. Era patrimônio nacional, herói incontestável e, simultaneamente, uma das grandes referências históricas reivindicadas pelos vencedores.
UM BUSTO, UM JARDIM E ROSAS BRANCAS PARA A NOVA CUBA
A homenagem não seria uma palestra passageira. O colégio pretendia colocar um busto de José Martí dentro de suas instalações, cercado por um jardim de rosas brancas. O simbolismo vinha de um dos poemas mais conhecidos do cubano, publicado em Versos sencillos, em 1891. Martí cultivava sua rosa branca para o amigo sincero, mas também para o cruel que lhe arrancava o coração; diante daquele que o feria, recusava-se a cultivar cardos. A rosa branca condensava amizade, generosidade, ausência de vingança e fidelidade a uma disposição moral que não dependia do comportamento do outro.
Que símbolo desconcertante para Santa Clara. Ao redor ainda estava a memória de uma batalha decidida por fuzis, explosões, ataques, feridos e cadáveres. Homens haviam acabado de matar outros homens para conquistar o poder. A instituição adventista estivera materialmente presente naquela conjuntura. E agora, quase sem intervalo histórico, surgiam Martí, o busto, o jardim e as rosas brancas. Depois da guerra, reconciliação. Depois do sangue, flores. Depois dos guerrilheiros, autoridades. Depois da colaboração durante o conflito, uma nova linguagem para conviver com os vencedores.

CHE GUEVARA É CONVIDADO PARA AJUDAR A PLANTAR AS ROSAS
Faltava dinheiro para executar o projeto, e a administração decidiu promover uma campanha de arrecadação. O coral do Antillian College faria uma apresentação no Teatro Cloris, em Santa Clara. E então aconteceu aquilo que retira definitivamente o episódio do território de uma simples atividade literária escolar: os administradores convidaram Ernesto Che Guevara para discursar no evento.
Che aceitou. Compareceu. Falou. E utilizou aquela tribuna para agradecer publicamente aos adventistas, recordando a família adventista que o havia acolhido e protegido quando ele e seus companheiros estavam em situação desesperadora depois do desembarque do Granma. Também elogiou publicamente o coral adventista. A arrecadação conseguiu o dinheiro necessário e o projeto dedicado a Martí foi realizado.
A sequência é extraordinária. Durante a guerra, adventistas aparecem nos documentos auxiliando revolucionários; em Santa Clara, o colégio presta assistência durante a batalha; depois da vitória, Fidel aproxima-se da instituição e elogia seu modelo educacional; a direção decide construir o memorial a Martí; falta dinheiro; Che Guevara é convidado pela própria administração para participar da campanha; comparece e transforma seu discurso também numa declaração pública de gratidão aos adventistas. A frase denominacional torna-se inevitável: “A empatia era recíproca.”
O MORTO NÃO SENTIRIA O PERFUME DAS ROSAS
Há ainda uma ironia profundamente adventista nessa homenagem. Segundo aquilo que a própria denominação ensina sobre o estado dos mortos, José Martí estava no pó da terra. Não contemplaria o próprio busto. Não sentiria o perfume das rosas. Não ouviria o coral. Não saberia que Che Guevara comparecera ao evento destinado a financiar o monumento. Não receberia homenagem alguma porque, segundo a doutrina adventista da mortalidade da alma, os mortos nada sabem até a ressurreição.
Portanto, aquela homenagem não falava a Martí. Falava aos vivos. Falava aos estudantes, professores e moradores de Santa Clara. Falava às autoridades revolucionárias. Falava a Che. Falava à Cuba de Fidel. O busto podia ter o rosto de um morto, mas a mensagem política e cultural seria recebida pelos vivos. E entre os vivos estavam justamente aqueles que haviam acabado de conquistar o Estado e dos quais dependeria, em grande medida, o futuro das propriedades e instituições religiosas cubanas.

UMA MULHER MONTADA SOBRE O PODER
É nesse ponto que a história de Santa Clara encontra uma imagem profética muito mais antiga. Apocalipse 17 não apresenta simplesmente uma religião equivocada. Apresenta uma mulher montada sobre uma besta escarlate. A mulher representa poder religioso corrompido; a besta representa poder temporal. E a característica fundamental da cena é justamente aquilo que o cristianismo deveria rejeitar: religião e poder político aparecem unidos.
A mulher não está fugindo da besta. Não está mantendo distância dela. Não ergue diante dos reis uma barreira de separação entre Igreja e Estado. Ela está montada sobre a besta. Utiliza sua força, relaciona-se com sua autoridade e encontra nos poderes deste mundo o veículo de sua própria atuação. Apocalipse diz que os reis da terra se prostituem com ela e que a relação termina envolvendo poder, sedução, coerção e sangue.
Esse é o princípio profético que torna a experiência cubana tão perturbadora. A questão não é dizer que Fidel Castro ou Che Guevara constituíam literalmente uma das cabeças específicas de Apocalipse 17. A questão é perceber o padrão: uma organização religiosa que proclama separação do poder temporal, mas demonstra extraordinária capacidade para aproximar-se dele quando seus interesses institucionais encontram-se em jogo. Mudam os reis. Mudam os regimes. Mudam as ideologias. A habilidade para encontrar novamente o poder permanece.
SETE CABEÇAS: A BESTA NÃO PRECISA TER UMA ÚNICA COR
A besta apocalíptica possui sete cabeças, e o próprio texto relaciona essas cabeças também a reis. A imagem destrói a ingenuidade de imaginar o mal político-religioso preso para sempre a uma única bandeira. O poder pode manifestar-se através de diferentes cabeças, diferentes reis, diferentes estruturas e diferentes épocas. Hoje veste uma cor; amanhã, outra. Hoje promete determinada ordem; amanhã proclama sua negação. Para a mulher que aprendeu a montar a besta, porém, a questão decisiva não é a cor do animal. É continuar montada.
Aqui aparece a habilidade camaleônica. Uma organização pode condenar o marxismo onde o marxismo não governa e aprender a conversar com marxistas onde eles controlam o Estado. Pode defender determinada concepção política diante de um governo e redescobrir a neutralidade diante de outro. Pode proclamar independência dos reis enquanto mantém canais com palácios, presidentes, ministérios e autoridades. Apartidarismo torna-se então uma ferramenta extraordinária: quem não pertence definitivamente a nenhum lado permanece disponível para aproximar-se de todos eles.
Em Cuba, a cor do poder acabava de mudar dramaticamente. E a instituição soube perceber a mudança. O antigo governo desapareceu, os guerrilheiros chegaram, a batalha terminou, Fidel foi recebido, Che foi convidado, Martí ganhou seu espaço e as rosas brancas começaram a fazer parte da nova paisagem. O camaleão não precisa declarar amor pela cor que assume. Precisa apenas sobreviver nela.

OS REIS DA TERRA SEMPRE COBRAM A CONTA
A profecia, porém, não termina numa recepção cordial entre religião e governantes. A mulher de Apocalipse 17 relaciona-se com os reis da terra, mas a cena inteira está contaminada por coerção e sangue. Ela aparece embriagada com o sangue dos santos e das testemunhas de Jesus. Os poderes que inicialmente sustentam a mulher acabam voltando-se contra ela. Essa é a tragédia inevitável da religião que troca independência profética por proximidade com o Estado: quem aprende a utilizar o poder temporal acaba também sujeito ao poder temporal.
É exatamente por isso que a separação entre Igreja e Estado deveria ser absoluta em princípio. Não existe besta domesticada. Não existe poder coercitivo permanentemente amigo da religião. Hoje o governante elogia a escola, senta-se à mesa, ouve o coral e oferece garantias. Amanhã o mesmo sistema político pode controlar, restringir, confiscar, perseguir e fechar. A mulher acredita que está utilizando a besta; a profecia termina mostrando a besta devorando a mulher.
E Cuba acabaria oferecendo sua própria demonstração dessa verdade. A cordialidade inicial não impediria que o relacionamento entre a Revolução e as instituições religiosas entrasse posteriormente numa fase muito mais dura. A mesma Organização que procurava espaço diante dos vencedores descobriria que governos revolucionários não existem para proteger indefinidamente os interesses de uma denominação. A besta não pertence à mulher que a cavalga.
ROSAS BRANCAS NÃO APAGAM SANGUE
Por isso a imagem do jardim de Martí permanece tão incômoda. Não porque flores sejam culpadas. Não porque José Martí tivesse responsabilidade pela colaboração adventista com os revolucionários. E muito menos porque um poeta morto pudesse receber alguma coisa daqueles que construíram seu memorial. A força da cena está na proximidade entre guerra, poder, memória e reposicionamento institucional.
Santa Clara acabara de contar seus mortos. Homens tinham sido despedaçados por uma disputa pelo controle do Estado. O colégio adventista estivera dentro daquela conjuntura e prestara assistência aos revolucionários. Os vencedores transformavam-se em governantes. E a administração começava a construir uma paisagem de aproximação: Fidel visitava e elogiava; Che era convidado e agradecia; Martí recebia um busto; rosas brancas transformavam a paisagem do campus.
O poema de Martí torna tudo ainda mais doloroso. Sua rosa branca era a recusa de cultivar espinhos mesmo para o cruel. Era a afirmação de que o princípio moral não deveria depender da identidade daquele que estivesse diante de nós. E é precisamente isso que uma Igreja deveria fazer diante do poder: permanecer a mesma independentemente de quem venceu. Se rejeita violência, deve rejeitá-la quando seus amigos vencem. Se é apartidária, deve continuar apartidária quando determinado lado conquista o governo. Se defende separação entre Igreja e Estado, não pode transformar proximidade com governantes em instrumento de sobrevivência, expansão, influência ou proteção patrimonial.

O PROBLEMA NÃO É A COR DA CABEÇA; É A MULHER CONTINUAR MONTADA
É aqui que a imagem de Apocalipse deixa de ser uma ilustração distante e se transforma num espelho aterrador. Durante muito tempo, adventistas foram ensinados a procurar fora de si mesmos a mulher montada sobre a besta, identificar outras instituições religiosas comprometidas com reis, governos e poderes políticos e denunciar a união entre Igreja e Estado como sinal de apostasia. Mas a profecia não foi dada para fornecer à Igreja uma fotografia confortável dos pecados alheios. Foi dada para revelar o princípio pelo qual uma religião abandona sua fidelidade a Deus quando aprende a cavalgar o poder temporal.
Uma Igreja não precisa possuir oficialmente um partido para prostituir-se com os reis. Não precisa escrever “comunista”, “capitalista”, “conservadora” ou “progressista” em sua fachada. Basta aprender a adaptar sua linguagem, suas amizades e suas conveniências à cabeça que naquele momento controla a besta. Sete cabeças oferecem muitas possibilidades para uma religião camaleônica. O segredo é nunca se comprometer definitivamente com uma cor, porque amanhã outra poderá estar governando.
É por isso que Santa Clara merece ser lembrada. Não apenas porque ali Che Guevara venceu uma batalha decisiva. Não apenas porque adventistas aparecem na documentação da guerra. Não apenas porque Fidel visitou o colégio. Não apenas porque Che aceitou o convite de seus administradores. E não apenas porque José Martí ganhou um busto cercado de rosas brancas. Santa Clara oferece uma miniatura perturbadora do problema profético: religião, poder temporal, conveniência institucional e sangue ocupando a mesma paisagem.

ENTRE A ROSA BRANCA E A BESTA ESCARLATE
No fim, duas cores permanecem diante de nós. A rosa branca de Martí e a besta escarlate de Apocalipse. A primeira representa a decisão de não mudar o próprio princípio nem mesmo diante daquele que arranca nosso coração. A segunda carrega uma mulher que descobriu as vantagens de relacionar-se com os reis da terra. Uma imagem fala de fidelidade moral; a outra, de prostituição com o poder.
O Antillian College colocou a rosa branca dentro de suas instalações justamente quando precisava aprender a viver sob uma nova cabeça do poder cubano. O homem homenageado estava no pó da terra e nada sabia do monumento. Os vivos, porém, sabiam. Fidel sabia quem eram os adventistas. Che sabia quem eram os adventistas. Os administradores sabiam quem agora governaria Cuba. E enquanto os mortos de uma revolução ainda pertenciam ao presente, a instituição já cultivava a linguagem de sua sobrevivência entre os vencedores.
Rosas brancas não tornam o sangue menos vermelho. Bustos não transformam cumplicidade em neutralidade. Corais não convertem proximidade com os vencedores em apartidarismo. E uma Igreja não demonstra independência do poder simplesmente porque consegue trocar de cor quando muda o rei. A mulher de Apocalipse também conhece muitos reis. A besta também possui muitas cabeças. O perigo nunca esteve apenas na cor de uma delas. O perigo está em descobrir que é possível continuar montado quando a cabeça muda.
E talvez seja essa a pergunta que Santa Clara deixa para uma denominação que durante mais de um século apontou para outras igrejas ao explicar a mulher de Apocalipse 17: quando a Igreja abandona a distância profética, aproxima-se dos vencedores, protege seus interesses junto ao poder temporal e aprende a adaptar-se às diferentes cabeças que governam os reis da terra, ainda está denunciando a mulher montada sobre a besta — ou já aprendeu a cavalgar?





